31 março 2006

Bur(r)ocracia

Há cerca de três anos precisei de passar uma procuração para resolver um assunto, pois não me encontrava presente na altura aprazada.

Pensando que estava a realizar um grande feito, resolvi escrever o documento no computador, com letra Arial 11, a espaço 1,5, com justificação à direita e à esquerda, sublinhados e bolds, datas e nomes completos, todos os números de que me consegui lembrar, enfim, a parafernália dos documentos oficiais.

Faltava apenas a assinatura, que tinha que ser presencial e reconhecida. Daí a ida ao notário.

Foi antes da privatização. O notário ficava no 2º andar de um prédio velho, sem elevador, e deitava filas por fora, já na escada do 1º andar.

Depois da senha e da respectiva espera, por acaso até nem foi muita, apresentei o papel impresso com os dizeres e as identificações, preparada para assinar, pagar e sair.

Que não, que não podia ser assim, que tinha que ser um documento manuscrito, presencial, assinado na altura, em frente dela (a funcionária), que era o que a lei dizia.

Apeteceu-me pedir-lhe logo a tal lei, para que constatasse com os meus próprios olhos o anacronismo da mesma, mas estava com pressa.

Por isso, estiquei-me toda (sou muito baixa) para escrever com letra legível (o que para mim é sempre uma tarefa árdua) um documento na presença da funcionária, para que ela atestasse da veracidade do dito.

Qualquer medida que este governo tome para mudar este estado de coisas (burocracia e funcionário(a)s pouco iluminado(a)s) tem o meu apoio incondicional, aplaudido e agradecido!

MARL - realidade virtual


Alguém sabe o que é o MARL? Já alguém foi ao MARL?

O MARL é o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, SA. Como o próprio nome indica, serve para que os comerciantes se vão abastecer de comida, fruta, peixe, congelados, vinho, queijos, flores, etc.

O meu contacto com o MARL deveu-se à vontade de comprar um produto dos Açores, mais precisamente vinho da ilha do Pico, comercializado pela Companhia dos Açores, que, depois de vários e-mails sem resposta, informou que os seus produtos estavam à venda no “El Corte Inglês” e no MARL. Apesar de estremecer de horror, lá se foi ao “El Corte Inglês”, que não tinha pois estava esgotado na origem. Pouco depois a Companhia dos Açores informou que lamentava que tivessem dito isso, mas que havia vinho do Pico no MARL.

Excursão até ao MARL, que imaginava eu seria uma babel de gente formigando e comprando e transportando, com estrépito e confusão, com as cores das vozes e das flores, os sons dos camiões e os cheiros do peixe, assim como uma praça monumental.

Engano meu.

Ontem, às 22 horas, já que passámos perto, resolvemos ir ao MARL. Pouco iluminado e com muito poucas indicações, lá chegámos a um recinto enorme, com grandes estruturas de tipo armazéns, fechados, dispostos paralelamente, divididos em 2 grandes grupos, com nomes que não fazem minimamente lembrar o que se poderá lá encontrar.

Ninguém à vista. Deserto noctívago e melancólico. De vez em quando passava uma camioneta. Parámos num café, que lá estava perdido, e perguntámos onde poderíamos encontrar a “Companhia dos Açores”. Ninguém fazia ideia. Perguntámos na estação de serviço, única coisa bem iluminada de todo aquele conjunto, que nos indicou um aglomerado de armazéns dispostos junto a uma rua que subia com inclinação assustadora.

Encontrámos um segurança (finalmente!) que nos assegurou que havia uma “Companhia dos Açores”, mas que estava fechada, àquela hora.

Lá pagámos 1.15 euros.

Hoje decidimos que às 18 horas devia estar aberto. E rumámos à CREL, depois desviámos para o MARL, onde vimos placas indicadoras para S.Julião do Tojal, indo direitos aos tais armazéns mais acima.

O deserto noctívago reproduziu-se nesta tardinha, não havia quase ninguém, nem placas a indicar onde estão as frutas, ou o peixe, ou os automóveis, ou outra coisa qualquer.

Quando desistíamos, um senhor que passava por lá disse-nos que lhe parecia que a “Companhia dos Açores” era ali atrás.

De facto, eureka, encontrámos, na parede, letras que diziam “Companhia dos Açores”, com um número de telefone. Como parecia tudo fechado (há vários anos) resolvemos telefonar. O telefone nem sinal dava, mesmo com rede. Subimos umas escadas íngremes e suspeitas, com a promessa dos “escritórios”, mesmo ao lado dos "sanitários". Fomos dar a uma porta fechada. Depois de muitas campainhadas não correspondidas, abandonámos o MARL (não esquecer mais 1.15 euros, a dinheiro, pois não se podem usar cartões).

Portugal no seu melhor!!

29 março 2006

Manobras publicitárias

Independentemente do mau gosto associado ao título do livro de João Pedro Jorge, ao incluir o nome de Margarida Rebelo Pinto (na minha opinião, claro está), parece-me ainda de pior gosto a tentativa desta de impedir a venda do livro.

Ou será uma manobra publicitária de João Pedro Jorge, a escolha de tal nome? Ou será uma manobra publicitária a acusação de Margarida Rebelo Pinto a João Pedro Jorge pela diminuição da venda dos seus livros? Ou será uma manobra publicitária das editoras Oficina do Livro e Objecto Cardíaco?

Acho tudo isto ridículo, muito ridículo!

Debates mensais

Pelo que percebi, os debates mensais no parlamento versam temas escolhidos pelo governo.

Uma das missões do parlamento é a fiscalização da actividade executiva. Mas se quem escolhe as matérias a discutir é o governo, é claro que só se falará daquilo que o governo quiser, por muito habilidosos que os partidos da oposição sejam.

Ora como este governo emana de um partido que tem maioria absoluta na assembleia, como o primeiro-ministro tem falado com uma autoridade absoluta, perto do absolutismo autoritário, e como a habilidade destes partidos de oposição deixa muito a desejar, os debates mensais são mais monólogos mensais, com gritos e palmas.

Uma encenação pouco atractiva para os cidadãos. Uma comédia, ou mesmo uma tragicomédia!

28 março 2006

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CA-DÁ-VER

Estendo-me na morte,
ainda em lençóis de vida:
as enzimas alerta,
a catálise certa
na carne arrependida.
Preparo-me sangrando
só na circulação:
bate a ritmo brando
meu áspero coração.
E assim, como um adeus,
os neurones cintilam
como a luz interior
de que meus olhos brilham.
Saberei no disperso
do ácido aminado
que a rima do meu verso
diz amor
acabado:

Ca-dá-ver…
Até ver
se sou ressuscitado.

(poema de Vitorino Nemésio; pintura de Jacques Deshaies)

27 março 2006

Imigrantes de leste

Espera por mim, meu amor.
Por entre a multidão
saberei a luz dos teus olhos.
Desta longa noite em que te anseio,
da tua mão sem a minha,
dos meus lábios sem a tua língua.

Encontraremos as pedras lisas
do nosso amor,
a terra do nosso chão,
a chuva da nossa primavera.

Espera por mim, meu amor.


Têm filhos, alguns já cá nascidos. Têm cursos superiores que aqui não são reconhecidos. Têm que aprender outra língua para se fazerem entender, para trabalharem, para conseguirem novamente as licenciaturas. Têm que procurar o trabalho onde ele está. Têm que fazer quilómetros dentro de Portugal, em camionetas ou de comboio, porque as portagens são caras.

Trabalham, ousam, arriscam, persistem, não desistem do sonho que os trouxe.

Obrigada por nos terem escolhido. Sejam bem-vindos.

26 março 2006

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Sílabas

Sento-me à máquina. Dactilografo.
Vacilam-me nos dedos as teclas.
Desalinhadas enfileiram-se as letras.

É angústia da minha velha máquina
ou será da fita gasta?

É que na limpidez do papel
sobressaem nubladas
cinco letras:
Maria.

(poema de José Craveirinha; pintura de Roberto Chichorro)

Livros (2)


O “Mil Folhas” de ontem (do Público) traz um extenso artigo sobre novas editoras e a pujança do sector editorial no nosso país em crise. É uma boa notícia. Pode significar que, apesar de haver pouco dinheiro, as prioridades dos portugueses em como gastá-lo, estão a mudar.

Há uns tempos tomei conhecimento de que um indivíduo responsável pela escolha editorial de uma editora, se queria lançar no mercado por conta própria. Assim, para publicar um livro, que ele achava de qualidade e que tinha todo o interesse em ser publicado, propunha ao autor que arranjasse um patrocínio para a publicação da obra, que deveria cobrir mais de 50% do total do valor gasto.

Este futuro empresário, para além de não pensar em pagar direitos de autor, achou-se no direito de pedir ao autor um financiamento para a publicação, disfarçada de patrocínio.

No fundo, a editora fornecia alguns serviços (impressão, publicação, distribuição e marketing) e o autor dava o talento, o dinheiro e recebia apenas (e já não é pouco!) a satisfação de ver o livro publicado, à sua custa. É uma edição de autor transfigurada!

Se corresse bem, ganhava a editora, se corresse mal, perdia o autor. É o risco que alguns tipos de empresários estão dispostos a correr. Será este o método da maioria destas editoras que se estão a lançar?

(pintura de Robert Drucker: In the Time We Have Left)

Livros (1)


Fui ontem à FNAC, como quase todos os sábados. É quase uma peregrinação semanal. Procurei, entre os livros de poesia lusófona, livros de José Craveirinha. Não encontrei um único.

José Craveirinha, para além de ser um excelente poeta moçambicano, foi prémio Camões em 1991. Quando morreu, como de costume, traçou-se um panegírico dele e da sua obra. Nessa altura, encontravam-se livros dele à venda.

Dois anos depois, parece que nem existiu.

É difícil perceber os critérios de aquisição, stock e exposição de livros de algumas livrarias. Gosto da FNAC mas, ou quero um livro que acabou de sair e/ou que está a ser badalado, ou então não há.

Parece a lógica do hipermercado do livro.

25 março 2006

Tempo


Horas gastas, esquecidas
minutos inúteis.
Que é do tempo,
da pele, dos poros, das mãos,
das sementes por lançar?
Que falta nos genes, na terra, no ar?

Igual a outros,
tantos segredos invisíveis.
Igual a tantos
medos irrepetíveis.

Que é do tempo?

(pintura de Njuguna: dancing children)

O desmoronamento do sistema democrático (tragédia em 4 actos)


1º Acto
Conheço alguém que, após a reforma, decidiu pôr o seu tempo e a sua disponibilidade ao serviço do bem público, ou seja, decidiu intervir politicamente.
Para isso filiou-se num partido político.
Na altura das eleições para a concelhia, em que havia 3 candidatos, um deles angariou votos pagando as quotas a 10 indivíduos, no dia das eleições. Isto passou-se na secção à qual o meu conhecido pertence. Não sei se o candidato terá pago quotas noutras secções, e a quantos militantes.
Esse candidato ganhou as eleições. Portanto, quem tiver algum dinheiro, nem precisa de ser muito, compra por muito pouco um punhado de cidadãos, que são militantes de um determinado partido, que a troco de influências e/ou dinheiro, elegem um cacique. Imagine-se o que se passará nas distritais, para quem tiver muito dinheiro e/ou muita influência.
2º Acto
Apesar de, em França, haver um poder executivo que emanou do voto, em eleições livres e democráticas, o poder não tem capacidade de suster e controlar movimentos populares que se transformaram em arruaças e violência desenfreada, cedendo e vergando-se ao medo e à incapacidade de exercer o poder que lhe foi conferido pelos cidadãos.
Portanto as instituições democráticas, que são o cerne da democracia representativa (partidos políticos, eleições, assembleias, governos, presidentes) deixam de funcionar e são substituídas pela população ululante e violenta, que destrói e tenta negociar directamente com o poder executivo.
Não ponho em causa, como é óbvio, o direito à livre manifestação pacífica das ideias, dos anseios, das reivindicações dos cidadãos. A democracia não se esgota em eleições. Mas o que se está a passar em França está muito longe da capacidade da sociedade civil politizada (ou não) intervir nos intervalos das consultas eleitorais.
3º Acto
Cruzando o que se passou nas eleições para a concelhia do tal partido, em Portugal, com o que se passa nas ruas de França, chego à conclusão de que os representantes do povo na realidade não representam ninguém, com excepção dos seus próprios interesses, que pensam assegurar nesta lógica de caciquismo.
Sendo assim e extrapolando, as instituições democráticas não são mais do que um conjunto de indivíduos eleitos por alguns, para defesa de muito poucos, sem qualquer interesse no bem comum.
O que acaba por justificar que, como a população não se sente representada nem defendida pelos seus governantes, e de facto não o é, o poder seja exercido pela gritaria e pela violência dos grupos, legitimando o poder na rua.
4º Acto
A insegurança geral e a incapacidade de desfazer esta lógica, por parte de quem tem responsabilidades políticas, e por parte dos cidadãos que, cada vez mais, por desinteresse ou desânimo, se divorciam da intervenção cívica, pode levar a extremos perigosos.
Tudo isto, somado ao mal-estar de quem não vê grandes perspectivas de manutenção dos padrões de vida e de bem-estar social a que estamos habituados, pode ser o caldo de cultura para grandes descontrolos sociais e para aprendizes de futuros ditadores, que poderão aparecer como o garante da ordem e da paz, e como os verdadeiros intérpretes da vontade popular.
Já vimos tudo isso acontecer, aquando da ascensão de Hitler e de Stalin ao poder. Será que não aprendemos?

Fim-de-semana

O bom dos fins-de-semana é que não são programáveis.

Mesmo que tenhamos pensado em ocupar os dias com afazeres culturais, sociais ou apenas e só domésticos, o que têm de absolutamente sublime é o podermos estar totalmente desocupados.

Só assim os rituais do lazer se transformam em pequenos prazeres indispensáveis à sanidade de uma semana trabalhosa e, por vezes, acinzentada.

24 março 2006

O lugar das coisas


Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.

(poema: Nuno Júdice; pintura: Scott - simple things)

23 março 2006

O misterioso caso da alegada fuga (ao fisco)

Adensa-se a intriga.

Será que António Carrapatoso pagou e não devia ter pago, ou não pagou e devia ter pago? Será que é ele que deve dinheiro ao estado ou o estado que lhe deve dinheiro a ele? Será que foi ele que interpretou bem a lei, e mesmo assim pagou, ou que foi o estado que não a interpretou mal, e mesmo assim não recebeu?

Esperam-se os novos desenvolvimentos desta novela (de mau gosto e perigosa, não sabemos é bem para quem) nos próximos dias (ou até cair tudo no abençoado esquecimento).

22 março 2006

Irritação bloguística

Não sei o que se passa mas não consigo fazer "upload" das imagens nos "posts". Alguém sabe o que se passa? Sou só eu?

"Consolidar agora para um futuro melhor"

O nosso primeiro descobriu um método excelente de propagandear a sua política – pôr os funcionários das finanças a fazer a mini-maratona com camisolas oferecidas com o lema: “consolidar agora para um futuro melhor”. Esperemos que os funcionários públicos colaborem, a bem da nação! Mas afinal acabou por desistir.

Não sei porquê. A ideia até se podia estender a outros ministérios. Ele era professores, médicos, enfermeiros, técnicos administrativos, eu sei lá, todos esses milhares de funcionários a mostrarem entusiasmo e alegria por irem parar ao quadro de excedentes. Até vão ter mais tempo para praticar desporto!

Hilariante.

Notícias

Cada vez mais desconfio das grandes frases noticiosas gritadas pela TSF, logo de manhã.

Hoje a notícia era dada pelo DN, segundo o qual António Carrapatoso se tinha livrado de pagar ao fisco setecentos e tal mil euros porque as finanças tinham deixado caducar o prazo de exigência do pagamento.

Li cautelosamente as duas notícias, a primeira em que se conta que houve uma auditoria à declaração do IRS de 2000 apresentada por António Carrapatoso, que concluiu, QUATRO ANOS depois, que este devia um monte de dinheiro ao fisco. Entretanto, embora constasse informaticamente que a notificação para a liquidação da dívida tinha seguido em 30 DE DEZEMBRO (a um dia do final do prazo), a verdade é que só foi enviada APÓS o fim do prazo, ou seja, caducou a pretensão do estado.

A segunda notícia é a justificação de António Carrapatoso, por interposta pessoa, de que não devia nada ao fisco, dando a entender que a sua declaração estava correcta e que a interpretação das finanças estava errada.

Várias observações se me deparam:

1. Porque é que só agora sai esta notícia no jornal, quando as informações, processos, etc, datam do fim de 2004 e do meio de 2005?

2. Como é possível tanta negligência da parte das repartições de finanças? Parece que se instauraram processos que, provavelmente, não chegarão a lado nenhum.

3. Independentemente de António Carrapatoso ter agido dentro da lei, fica a desconfortável sensação de que foram usados truques para não pagar impostos, o que fica muito mal a quem defende acaloradamente a reforma da administração e a redução das regalias dos funcionários públicos, pois o estado não pode gastar tanto. Pois é, mas se talvez recebesse o que devia de quem devia…

21 março 2006

Todo o tempo é de poesia


Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

(poema de António Gedeão; pintura de Lees: coffeemaker)

20 março 2006

Partículas

Apaguei véus e suspiros,
gotas e pedras. Só a raiz permanece,
essencial, mínima, germinal.

Da sombra a asa oblíqua,
o reflexo da luz invertida,
cósmica, fugidia.

Do joelho do tempo
o arco amanheceu.

Pequenas infâmias

Ao fim de 3 anos, Durão Barroso reconheceu o que já todos tinham reconhecido, que o pretexto da invasão do Iraque foi apenas um estratagema mentiroso. Durão Barroso, o anfitrião da cimeira dos Açores. Durão Barroso, que prometeu salvar o país da crise, mas que desistiu a meio. Enfim.

Fátima Felgueiras continua a gozar com a justiça, e a justiça deixa-se gozar. Enfim.

19 março 2006

Oração (2)

Primeira carta do poeta aos seus leitores:

Em verdade vos digo: mais simples é beber a vida por um verso, que sonhar a água pelo vento. A felicidade está nas pétalas, e não nos dedos que as acariciam.
Assim seja.

Oração (1)

Naquele dia, abriu devagar o livro, desdobrou o canto da folha, e leu desmesuradamente. A luz foi baixando. Quando se fez noite, permaneceu deitado, com o pequeno candeeiro aceso, livre das horas e da fome.

Dia requentado

Domingo é um dia retardado.
Prefiro a segunda,

mesmo sendo o primeiro.

A velocidade da luz

Acabei de ler “A velocidade da luz” de Javier Cercas. Gostei muito, tanto como de “Soldados de Salamina”.

Embora sejam livros completamente diferentes, a estrutura narrativa e o modo como se desenrola a acção são semelhantes.

Em ambos se parte de um acontecimento obscuro que se tenta conhecer e interpretar, essencial para a coerência de uma história que, de algum modo, se mistura e confunde com a vida do narrador/escritor, e que evolui em círculos, estando no fim a chave decisória da existência do livro.

Em ambos a narrativa é feita em tom de confidência, como quem tenta decifrar a sua própria alma, com fluidez e sofreguidão, em que os diálogos são escassos e simples, mas importantes na compreensão das personagens.

Neste último livro o tempo de leitura varia, primeiro vagaroso, como que aquecendo motores, e depois adquirindo uma velocidade vertiginosa, superior à da luz. Gostei muito.


(Só não gostei da capa do livro.)

18 março 2006

Sueño con serpientes


Não sei porquê, mas ultimamente, ao ver imagens de tantos bocados desse mundo, vem-me à lembrança a voz de Mercedes Sosa, no disco Sentinela, com Milton Nascimento – “Sueño con serpientes”:



“Hay hombres que luchan un día

y son buenos,

hay otros que luchan un año

y son mejores,

hay quienes luchan muchos años

y son muy buenos,

pero hay los que luchan toda la vida,

esos son los imprescindibles”

(Bertolt Brecht)

 




(pintura de B.F. Postel: snake)

Fragmentos de Liberdade


Hugo Madeira, Pedro Santos, André Catalão (Fórum Romeu Correia, Almada)

Três jovens, tão jovens. Preto e branco predominantes. A cor na fragmentação do corpo.

Vale a pena vê(ouvi)-los.

17 março 2006

Presidente executivo

Não sei se vai haver ou não cooperação estratégica, estabilidade dinâmica ou lealdade institucional entre o Presidente e o Primeiro-Ministro.

A verdade é que as agendas do executivo e da presidência são muito semelhantes (o que faz pensar que não há diferenças nas funções e nos poderes atribuídos a ambas), que os assessores do presidente pertencem a uma área política mais conservadora que o próprio presidente, e que os conselheiros de estado reduzem (como já li algures na blogosfera e nos jornais) em vez de dilatarem a base eleitoral de Cavaco Silva.

Significativo é todos os analistas e comentadores serem unânimes em considerar que vai haver uma fiscalização apertada da acção governativa. Dá a sensação que o governo está obrigado a cumprir a agenda do Presidente, o que parece indicar a existência de dois governos com duas maiorias políticas de sinal contrário.

Ou seja, a colisão de vontades será inevitável e acabará com a estabilidade política que Cavaco Silva jura querer manter!

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Guardo silêncios
como quem colecciona gestos habituais
em horas desabitadas.
Corro as cortinas da memória
e sinto vertigens de descobertas
em ciclos perfeitos.

(pintura de: Michael Berry)

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Seguro os dedos sobre a areia,
desenho a voz, solto as palavras.

O abraço é possível,
nos ombros a paz
do olhar indiscreto,
o saber de quem procura.

Fragmentos dispersos
de todos nós.

(fotografia: Hugo Madeira)

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O poema é como um filho
que me cresce nas entranhas,
que me suga e destrói,
que me mata e ressuscita
nesta gestação maldita,
secreta e omnipresente,
espontânea e recorrente,
que renega e acredita
no abismo da alma que sente.

(pintura de Joyce Baron: creation III)

16 março 2006

Outra vez o MIT

Li no Abrupto de ontem uma mensagem de um leitor (João AP Coutinho), que questiona a seriedade e profissionalismo dos media, a propósito do famoso MIT.

Primeiro em 22 de Janeiro e, posteriormente, a 13 de Fevereiro, abordei este assunto, pela estranheza que me causou a grave denúncia pública de boicote de “um ministro” ao maravilhoso acordo com o MIT, feita por José Tavares e afrontando o primeiro-ministro.

Entretanto, entre esclarecimentos irritados e pouco esclarecedores, da parte de José Sócrates e Mariano Gago, e declarações múltiplas dos defensores da coragem de José Tavares, chegou-se a uma apregoada cerimónia no CCB, em que se celebrou o tão falado acordo entre o MIT e o governo português.

Mas, em que consistiu esse acordo? Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, "o governo vai iniciar uma fase de colaboração com o MIT, para identificar e seleccionar programas e instituições portugueses que poderão potenciar as relações bilaterais pretendidas (quase sic.)".

Então e aquele acordo com uma determinada universidade, que estava guardado na gaveta e que sofria o impedimento ministerial, que tão corajosamente José Tavares quis salvar?

Afinal parece que quem tinha razão era Mariano Gago, quando disse que havia contactos preliminares para uma colaboração entre o MIT e o governo, sem contornos ainda definidos, e que poderiam resultar em projectos específicos. Razão parece ter tido o ministro da Ciência por ter mantido negociações com outros institutos de outros países para outros projectos.

Parece que, afinal, outras razões moviam José Tavares, que não a salvação da pátria!

Monopólio

Li com toda a atenção o artigo de opinião de Sérgio Figueiredo, no Jornal de Negócios online, e fiquei a saber o motivo (pelo menos segundo este articulista) pelo qual o BCP lançou uma OPA ao BPI.

Pelo que percebi o BCP quer tornar-se tão grande que não haja ninguém que o possa comprar!

Isto parece um jogo de monopólio puro. A diferença é que naquelas avenidas, casas e hotéis vivem pessoas de carne e osso que, para além de perderem papel (literalmente) perdem o emprego e, no limite, a dignidade.

15 março 2006

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Em dias
de mãos
frias,
de gotas
gordas,
intrusas,
ternuras
de dedos
e beijos,
tremuras
de secretos
desejos.

(pintura de Elena: rain)

Breves notícias (brevíssimas)


No dia 18 de Março (sábado próximo), no Forum Romeu Correia (Almada), às 21:00, inaugura-se a exposição "Fragmentos de Liberdade" - Projecto Quarto Espaço. Parece-me interessante.

Outro assunto - não posso deixar de sugerir que leiam
este post!

LABOREM EXERCENS

Segundo o jornal “Público” de hoje, a fusão das duas instituições bancárias, BCP e BPI, levaria à extinção de cerca de 2500 postos de trabalho, pela necessidade de reduzir “redundâncias”.
Já ontem confessei a minha total ausência de compreensão destas matérias. Nunca percebi o funcionamento da bolsa, porque é que sobem e descem determinadas acções, o que é o índice NASDAQ, e outros índices, o que são OPAS hostis ou amigáveis, o funcionamento do omnisciente e omnipresente mercado, etc.
Mas hoje confesso a minha total perplexidade perante o objectivo de determinados negócios. Qual a necessidade de fundir estes dois bancos? Parece que tanto um como outro estão bem geridos, têm imensos lucros e a clientela satisfeita, não se percebendo, no horizonte, sinais de alteração destes pressupostos (tudo o que digo retirei da leitura de jornais e da net).
Então porquê? É para terem ainda mais lucros? Para quê? Que pretendem fazer com cada vez mais dinheiro?
O que se percebe, para já, é que 2500 pessoas vão ficar desempregadas!
Eu não sou católica, mas há muito na doutrina social da igreja com que eu concordo, mesmo com muito do que um Papa conservador como João Paulo II defendeu e pregou.

Paulo Teixeira Pinto é apresentado como católico, pertencente à Opus Dei. Como concilia ele o capital e o trabalho? Como concilia ele o sono?

IOANNES PAULUS PP. II
LABOREM EXERCENS
dirigida aos veneráveis Irmãos no Episcopado
aos Sacerdotes
às Famílias religiosas
aos Filhos e Filhas da Igreja
e a todos os Homens de Boa Vontade
sobre o Trabalho Humano no 90° aniversário da
Rerum Novarum
1981.09.14

(...)
III. O CONFLITO ENTRE TRABALHO E CAPITAL NA FASE ACTUAL DA HISTÓRIA(...)
12. Prioridade do trabalho
Diante da realidade dos dias de hoje, em cuja estrutura se encontram marcas bem profundas de tantos conflitos, causados pelo homem, e na qual os meios técnicos — fruto do trabalho humano — desempenham um papel de primeira importância (pense-se ainda, aqui neste ponto, na perspectiva de um cataclismo mundial na eventualidade de uma guerra nuclear, cujas possibilidades de destruição seriam quase inimagináveis), deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio ensinado sempre pela Igreja. É o princípio da prioridade do « trabalho » em confronto com o « capital ». Este princípio diz respeito directamente ao próprio processo de produção, relativamente ao qual o trabalho é sempre uma causa eficiente primária, enquanto que o « capital », sendo o conjunto dos meios de produção, permanece apenas um instrumento, ou causa instrumental. Este princípio é uma verdade evidente, que resulta de toda a experiência histórica do homem.(...)

Constituição europeia

A pouco e pouco, depois das eleições presidenciais, em que o tema podia ter levantado questões incómodas aos candidatos e respectivos partidos apoiantes, volta-se a falar da constituição europeia.

Não tenho dúvidas de que será necessário unificar vários tratados anteriores, desenvolver políticas comuns à UE, não só económicas, mas de defesa, sociais, de imigração, culturais, científicas e portanto, políticas.

Isso não significa que alguns países da UE se sintam mandatados para escrever um tratado de regras comuns, uma Constituição, sem que, para isso, os cidadãos europeus o tenham determinado, em eleições livres e democráticas.

Quero com isto dizer que uma constituição europeia, tal como a entendo, deve ser feita por uma assembleia constituinte europeia, eleita com esses poderes.

Compreendo que setecentas e tal pessoas a discutirem e redigirem um documento pequeno, legível, claro e transparente, para todos os cidadãos entenderem, deve ser muito difícil. Mas poderia, com certeza, formar-se um grupo de representantes emanados da assembleia que, posteriormente, submeteria o documento à apreciação e votação dos demais deputados.

Só assim seria possível um debate mais alargado da necessidade e da validade desse documento, em vez de o ser a posteriori, como o foi.

O facto de ter havido uma concertação entre partidos políticos, em Portugal, para mudar a nossa própria constituição, de forma a aceitar este (e provavelmente outros) artigo da Constituição Europeia, não me parece ter sido um bom começo:

TRATADO QUE ESTABELECE UMA CONSTITUIÇÃO PARA A EUROPA
(Jornal Oficial da União Europeia, 16/12/2004)
(...)
Parte I – Título I
(...)
Artigo I-6.º
A Constituição e o direito adoptado pelas instituições da União, no exercício das competências que lhe são atribuídas, primam sobre o direito dos Estados-Membros. (...)

14 março 2006

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Não escrevo,
sobrevoo as teclas arrítmicas,
tento escutar a alma
que se esconde
no espaço branco do papel.

(pintura de Lee Tracy)

OPA (Operação Poder Absoluto)

Não percebo nada, mas mesmo nada, de economia. Sou das pessoas que se precipitariam para a falência, se posta a gerir uma empresa.

Talvez por isso não perceba nada destas OPAs. Daqui a pouco, só há 2 bancos: o BCP e a CGD.

E depois, quem sabe, o BCP engole a CGD. E depois, quem sabe o que engolirá mais o BCP. Então, que é feito da concorrência (uma deusa ligeiramente inferior ao deus mercado)?

E se o BCP quiser adquirir o BPI mas o BPI não quiser ser adquirido? Isso é que é uma OPA hostil?

E será que o BCP de tanto engolir não explode?

Não percebo mesmo nada!

A pequenez

Não há nada como ler outras letras, outras cores, outros sentidos, para que me inunde o espanto e a humildade...

13 março 2006

Educação artística

Entre 6 e 9 de Março realizou-se em Lisboa a 1.ª Conferência Mundial sobre Educação Artística, organizada pela UNESCO.

Mesmo não sendo especialista na matéria, é de puro bom senso reconhecer que a educação para as artes, a partir da mais tenra idade, é essencial para o desenvolvimento harmonioso de qualquer pessoa, nas suas vertentes cognitiva e emocional.

A introdução nos curricula de todo o ensino obrigatório, desde a pré primária ao 9º ano de escolaridade, de música, pintura, expressão dramática, escultura, dança, e outras valências, que se poderiam estruturar de acordo com as ofertas de cada comunidade educativa, deveria ser um dos objectivos prioritários da política educativa.

Considero estas disciplinas tão importantes como a matemática, o português e as outras disciplinas científicas. Espero que este governo socialista, que tem prestado atenção ao drama do nosso sistema educativo, não se esqueça da educação artística como área fundamental e complementar na formação de todos os indivíduos.

Perguntas ao ministro

Já aqui tenho dito que, por várias razões, a actuação do ministro da Saúde me parece correcta, nomeadamente no que diz respeito ao fecho de unidades hospitalares velhas e anquilosadas, em Lisboa, para construir novos edifícios mais adequados às funções, rentabilizando os terrenos para construção.

No entanto, o artigo de Manuela Arcanjo, no DN de hoje, faz pensar e põe algumas dúvidas que importa esclarecer.

Por outro lado, em relação com a transformação dos hospitais em empresas, primeiro SA e agora em EPE, este artigo do JN de ontem também deixa perguntas no ar que, mais uma vez, seria necessário esclarecer.

Não basta reconhecer ao ministro competência e voluntarismo para acreditar que o que faz está certo. É preciso que o demonstre e que o explique, porque a governação de um país não é uma questão de fé.

(Finalmente aprendi a “linkar”!)

12 março 2006

Untitled


O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

(Natália Correia)

Primavera


Dias de glória e prazer,
palavras de luz e de chama
no doce embalo da terra.

O verde e o perfume
inundam a voz das aves,
no manso sabor do poema.

(pintura de Barbara Landstreet: Just When I Thought It Was Spring)

11 março 2006

¡BASTA YA!

Há dois anos assistíamos impotentes, revoltados e atemorizados aos atentados terroristas em Madrid, na estação de Atocha.

Para quem gosta pouco de efemérides, como eu, não pode deixar de assinalar este dia, como mais um em que todos deveriam gritar “¡basta ya!”, e em que a solidariedade e generosidade dos madrilenos foram inexcedíveis.

E em que as mentiras, divulgadas pelos governantes, não venceram tendo, pelo contrário, retirado-lhes o poder.

Preguiça


Estou um pouco abúlica, molenga e ensonada.

Não sei se é do ar viscoso e peganhento, se do rádio roufenho.

Apetece-me e não me apetece.

Vou jiboiar um pouco, com um livro meio aberto e o espírito meio fechado.

(pintura de Rui Zilhão: preguiça)

10 março 2006

Viva a República!


Cavaco Silva é o nosso presidente, democraticamente eleito à 1ª volta. Democraticamente desejo-lhe, e a todos nós, boa sorte e felicidades para o futuro.

Mas ontem, ao ver a enorme fila de ilustres convidados no palácio da Ajuda, à espera de cumprimentar o novíssimo presidente, tive um triste relance do passado, parecendo que tinha recuado uns 12 anos. Bem sei que Miguel Frasquilho não tinha visibilidade há 12 anos (pelo menos para mim), mas é a encarnação de outros iguais a ele.

A sensação de que nada mudou, apagou-se umas horas depois, quando a sensação passou a ser de que tudo tinha mudado... para pior!

Ao assistir à chegada de TODA A FAMÍLIA do novo Presidente ao seu local de trabalho, onde não vai residir, eu própria me envergonhei com a saloiada e a bacoquice desmedida!

A impressão com que se fica é que se elegeu a FAMÍLIA CAVACO para o TRONO da nação.

Eu sou republicana, anti clerical, facção do saudoso Raul Rego, de que Manuel Alegre carrega, agora, o facho!

09 março 2006

Presidente e presidências

Pois é. Cavaco Silva vai ser o nosso Presidente por 5 anos (pelo menos).

Por alguns fragmentos do seu 1º discurso que ouvi, parecia ser um discurso do chefe do governo!

Tenho ouvido múltiplos balanços à actuação de Jorge Sampaio, a grande maioria negativos, com excepção do de Pacheco Pereira que (surpreendentemente) o achou muito bom ou mesmo excelente!

Penso que Jorge Sampaio foi um presidente mediano, nem muito melhor nem muito pior que os outros. Também me parece que os presidentes não têm oportunidade de serem muito bons ou muito maus, a não ser em circunstâncias excepcionais.

Durante os governos de Guterres, mesmo que o presidente se apercebesse do aterro em que nos atolávamos, não tinha poderes para alterar a situação. Falar, falou ele, até à exaustão, de tal maneira que já ninguém lhe ligava importância.

Quanto a mim Jorge Sampaio cometeu 3 erros grandes, mas não por ser fraco ou indeciso ou por ter medo. Acho que a leitura política que fez da situação não foi a correcta.

1 – Nunca deveria ter aceitado a quebra do compromisso de Durão Barroso que, deixando o país em suspenso e com Santana Lopes no cargo partidário que tinha, rasgou o “cumprimento leal das funções que lhe foram confiadas”.
Já que aceitou a fuga do primeiro-ministro, deveria ter pressionado de todas as formas e feitios, para que o sucessor de Durão Barroso viesse do próprio governo, nomeadamente Manuela Ferreira Leite, para que houvesse continuidade no projecto que tinha sido sufragado.

2 – Não deveria ter empossado Santana Lopes, muito menos na sequência da peça teatral em vários actos e 15 dias – A Reflexão Presidencial (ai meu deus que fazer, nossa senhora?)

3 – Deveria ter demitido, já por várias vezes, o Procurador-Geral da República, Souto Moura, um dos grandes responsáveis pelo descrédito da Justiça.

Também me parece que algumas Individualidades, enfim, podiam ter ficado por nomear (Guilherme de Oliveira Martins independente para presidente do Tribunal da Contas?!?!?!)

Mas com Cavaco Silva, Portugal até vai entrar em órbita, tal a velocidade com que vai crescer (espero é que não rebente de vez!)

Originalidade e arrogância

Não assisti a toda a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente da República.

Mas assisti à interrupção, por parte da SIC notícias, do discurso do Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, para que se ouvissem os comentários de Ricardo Costa, sobre vários aspectos políticos do próximo mandato presidencial.

Por pouco ritualista que se seja, por menos reverencial ainda que se seja, no que diz respeito às instituições do estado, parece-me de uma arrogância atroz que se pense que os comentários analíticos, por muito espantoso que seja o comentador, neste caso (e se calhar não por acaso) um jornalista, é mais importante que o discurso da 2ª figura da nação, na cerimónia de tomada de posse da 1ª figura da nação!

Acredito que houvesse outros momentos durante o dia de hoje em que se poderia comentar tudo e mais alguma coisa, sem apagar as palavras de Jaime Gama.

Felizmente, pelo que me apercebi, pelo menos nesse momento, foi a única televisão original.

08 março 2006

Quotas

O PS quer discutir e aprovar um projecto de lei que introduz a obrigatoriedade de quotas nas listas eleitorais, ou seja, é necessário que haja um mínimo de 33% de candidatos de um sexo nas listas eleitorais, para que estas sejam aceites. Pretende-se uma discriminação positiva para o género feminino.

Devo confessar que, por princípio, sou contra qualquer sistema de discriminação positiva ou negativa. Sou a favor da igualdade de oportunidades, que não deve depender do sexo, da idade, da raça, da religião, etc.

Bem sei que é idealismo a mais, mas a verdade é que não gosto que me impeçam de aceder a determinados postos de trabalho ou que me reduzam o salário, apenas porque sou mulher, como não gosto de ser promovida ou de ganhar mais… apenas porque sou mulher.

O equilíbrio entre os sexos é um objectivo importante em todas as actividades, na política, no trabalho e na família. As mentalidades, como toda a gente sabe e já o disse, mudam-se devagar.

Para que mais mulheres respondam ao apelo da política, cheguem a directoras de empresas, etc, são necessárias mudanças estruturais nas cabeças de homens e mulheres, no que diz respeito à disponibilidade dos homens em acompanhar os filhos em casa, na escola e quando estão doentes, de ajudarem os seus pais, de saírem do trabalho a tempo de irem buscar as crianças ao infantário, de partilharem com as suas companheiras o tempo de licença de parto (porque é que há-se ser apenas a mulher a ter esses meses com a criança?).

É também necessário que a sociedade deixe de considerar os homens que verdadeiramente partilhem as actividades familiares, uns coitados, porque devem ter mulheres dragões, ou então, se decidem fazer de donos de casa, uns preguiçosos, que gostam é de fazer coisa nenhuma e de viverem à custa das desgraçadas mulheres.

Por outro lado, a nível de facilidades e de apoios à família, convinha ir mais além, aumentando as ofertas de pessoas que possam tomar conta de crianças e de idosos, por algumas horas e aos fins-de-semana, diminuir aquelas reuniões muito importantes em lautos jantares de negócios, e implementar o tele-trabalho.

Não sou, no entanto, fundamentalista e estou aberta à demonstração de que as quotas têm mais vantagens que inconvenientes.

Mas, por princípio, sou mesmo contra.

(vale a pena visitar o site:
www.quotaproject.org)

Alma gémea


Tenho uma tia que faz biscoitos, meias de malha e chapéus altos de cartolina, que cita montes de provérbios, viveu em aldeias que já ninguém conhece e ensinou crianças descalças em aulas com todas as classes.

Tenho uma tia que sabe palavras que já não vêm em dicionários e falar em castelhano, que colhe amoras silvestres e faz tortas de ovos, que cuida de 3 (agora 4) netos e já visitou meio mundo.

A minha rica tia, que não é rica mas é minha e tem um nome como ela, branco e celestial, que eu adoro e admiro.

Um dia, num daqueles testes estúpidos que nos mandam por e-mail, descobri uma realidade: que ela é a minha alma gémea.

(pintura de Edward Longo: easter)

07 março 2006

Taxas moderadoras


Acabei de ouvir o ministro da saúde, Correia de Campos, a propósito do aumento das taxas moderadoras (SIC notícias).

Independentemente de se concordar com a existência de taxas moderadoras, é evidente que esta actualização de preços é necessária e não me repugna que seja muito maior para os serviços de urgência, pela necessidade de tentar reduzir o recurso, sem razão, a estes serviços.

Como o ministro afirmou, há cerca de 40% de falsas urgências, que consomem recursos humanos (e não só) absurdos, desviando-os de outros serviços e das consultas.

No entanto não me parece que seja com taxas moderadoras que haja um menor número de urgências, mas sim com uma remodelação dos centros de saúde, melhorando o acesso aos cuidados primários de saúde. O ministro diz que é o que estão a fazer. Vamos ver. Espero bem que sim.

Mas o que descredibiliza os agentes do poder político é a autêntica esquizofrenia de atitudes e opiniões, que muda 180 graus consoante se está no governo ou na oposição.

Em Setembro de 2004 o então ministro da saúde, Luís Felipe Pereira, lança a ideia das taxas moderadoras diferenciadas, tendo actualizado o preço das mesmas. Em uníssono toda a oposição (onde se incluía o PS) condenou, por razões não muito compreensíveis.

Pois agora é o governo do PS que aumenta as taxas, e só não as transforma em diferenciadas porque não tem instrumentos fáceis e fiáveis para o fazer, como já assumiu, e a oposição em coro é contra (PSD e CDS incluídos) por razões não muito compreensíveis.

Bem sei que temos a memória curta, mas TÃO CURTA, não!

Sugiro que contratem uns assessores que lhes LEMBREM o que disseram acerca de determinados assuntos, para que, pelo menos, as justificações para as mudanças de opinião sejam mais, digamos, criativas!

(pintura de Sebastien: true lies)

06 março 2006

Untitled

O DN de hoje traz um artigo de Fernanda Câncio sobre a mulher do Presidente da República.

Na verdade, o trabalho da mulher ainda continua a ser pouco valorizado. A sua realização como profissional é secundária ao seu papel de mãe e, mesmo nos nossos dias, ao de esposa. É muito mais frequnte a mulher abdicar da sua dedicação ao emprego, de um congresso, de uma promoção, se isso implicar mudanças no emprego do marido, diminuição do número de horas dedicadas à família, etc.

Até hoje, as mulheres dos presidentes eleitos após o 25 de Abril assumiram o papel de esposas, passando o seu trabalho a ser o de acompanhantes do marido e, tenham ou não formação para tal, de representantes da “caridade” estatal, desdobrando-se em encontros, angariação de fundos, etc, do IAP, da CVP, dos inválidos e desvalidos da nação.

Ou seja, o tradicional papel secundário da esposa e mãe.

A presidência da república é um cargo unipessoal. Não há, portanto, lugar a primeiras damas ou a primeiros cavalheiros. É um trabalho, um emprego, pago pelo estado (nós).

Imaginemos que é uma mulher eleita presidente da república, e que o seu esposo é engenheiro numa qualquer empresa, ou médico, ou professor universitário. Alguém sonha em que o esposo largue o seu emprego para acompanhar a presidente nas visitas de estado, vá angariar fundos para a Liga, visitar os lares de 3ª idade?

Perguntem ao Martim!


Graças a seja lá quem for, pela tecnologia, pelos computadores e pela Internet. A imobilidade forçada fica um pouco mais leve, pela possibilidade de “passearmos” pelo mundo.

Martim Avillez Figueiredo consegue sempre (ou muito frequentemente) surpreender-me. Os seus raciocínios e analogias são brilhantes, luminosos!

Hoje brinda-nos com um artigo de opinião, no “Diário Económico” online, absolutamente fantástico e que, caso o Ministro das Finanças esteja atento, é a resolução de todos os nossos problemas orçamentais.

Então é assim (se bem entendi): Nos EUA (aquele paraíso económico-político-sócio-cultural) o governo quer VENDER bocados de FLORESTA (árvores, passarinhos, insectos e outros animais, terra, ar puro, etc), transformando esses bocados em áreas de construção, para financiar o seu orçamento. O que Martim Avillez Figueiredo aplaude (o título do seu artigo é “decidir bem”) e compara com a decisão do nosso modesto Ministro da Saúde, Correia de Campos, de vender os terrenos, em Lisboa, onde estão construídos hospitais velhos e degradados, como o IPO, Desterro, Capuchos e S. José, para construção e, com esse dinheiro, construir hospitais novos noutros sítios, porventura mais adequados, e cujo solo seja menos rentável.

É exactamente o mesmo, não é? Não sei se os terrenos no centro de Lisboa servem para outra coisa que não construção imobiliária (talvez com um raquítico jardim) mas, obviamente, para que servem as florestas se não para serem vendidas e substituídas por prédios, estradas, parques, McDonald’s, cinemas, casinos, etc?

Sugiro ao Primeiro-Ministro que atente bem neste exemplo. Temos por cá lagos, rios, algumas montanhas e ainda uns grupos de árvores que podem valer algum dinheiro! E então adeus défice!

(pintura de Dima Nencheva: ice forest)

05 março 2006

O medo


O medo está na origem da maioria das nossas acções. A dor e o medo. Porque nos defendem de ameaças à nossa integridade física e psíquica.

A reacção de contracção muscular e afastamento de um membro após uma picada de uma agulha, por exemplo, serve para impedir que essa mesma picada lesione seriamente a área afectada. A dor funciona como um aviso de perigo.

O medo actua após um primeiro ataque. Pressupõe aprendizagem e tenta evitar a lesão. Faz nascer a prudência. É preventivo.

Por isso a sociedade, como um corpo único, é também accionada pela dor e pelo medo.

Hoje em dia a maior preocupação da sociedade ocidental é a segurança. Quer evitar a doença, a fealdade, a velhice, o terrorismo. É de tal forma obsessiva esta cruzada em prol da segurança total, da eliminação do risco, que nos arriscamos a não ter capacidade de aprendizagem, porque deixamos de ter estímulos, deixamos de saber interagir com o meio envolvente que é, muitas vezes, hostil.

E assim perigamos a existência do indivíduo como tal, para construirmos Guantanamo, proibirmos o tabaco, produzirmos estudos em que se padronizam comportamentos de crianças de 3 anos, rotulando-as de comportamentos de risco para a sociedade idealizada (“A Origem das Espécies” – 5/3/2006 – Laranja mecânica).

E então, mesmo que houvesse um determinismo biológico ou social, que faríamos – prendê-las, para que ficassem impossibilitadas de fazer o “mal”; ou dar-lhes medicamentos que regulariam esses impulsos associais; ou mesmo recorrer à exterminação?

A diversidade biológica e comportamental enriquece a sociedade. Um corpo é feito de muitas células que, a todo o momento, sofrem mutações que são benéficas, outras que são letais, adaptam-se às mudanças e fortalecem-se, ou não o fazem e morrem. O corpo social é muito semelhante. Cada indivíduo comporta-se de forma diferente e é livre de escolher o seu comportamento.

Cabe à sociedade proporcionar-lhe o melhor ambiente possível, dar-lhe todas as oportunidades para que possa, de facto, escolher, e encontrar métodos que o afastem do seu meio se, e só se, o seu comportamento comprovadamente perigar o tecido social.

Uma coisa é estar infectada por um vírus, outra é desenvolver uma doença, outra ainda é transmiti-la a outros. Todos temos potencialidades de destruir mas, a maioria de nós, dedica-se a construir.

(Aguarela de Jennifer Thomson: Fear)

04 março 2006

(aos meus amores)


Chove, o vento venta,
as árvores dobram-se
à tempestade.
Cá dentro sinto o calor
do mundo.

(pintura de Marielle Schram: Family)

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...