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01 dezembro 2025

Vozes para o "Novo Cancioneiro"


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XV.



 

Faze que a tua vida seja o que te nega.

A luta é tua: fá-la.

Agora, os sonhos em farrapos,

melhor é a luta que pensá-la.

 

Ergue com o vigor do teu pulso;

solda-o em aço.

E da tua obra afirma:

– Sou o que faço.

 


 

 

Este e outros poemas do Novo Cancioneiro, ditos por Natália Luiza e Maria João Luís, numa tarde de domingo, após uma curtíssima palestra sobre os poetas neorrealistas.

 


"VOZES PARA O "NOVO CANCIONEIRO" - recital integrado na exposição (inaugurada a 29 de novembro) "Espelhos de Ver por Dentro: o Teatro no Neorrealismo português", no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira (Curadoria e Programação: Miguel Falcão).




Se todos os nossos líderes ou candidatos a tal ouvissem mais poesia e mais música, visitassem mais exposições, assistissem a mais peças de teatro e vissem mais cinema, tivessem mais conhecimento de como se constrói uma cultura e se consolida uma comunidade, a nossa sociedade seria muito mais decente.


12 fevereiro 2023

E nós vamos aceitando

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E nós vamos aceitando.


Porque não queremos ser insultados nas redes sociais, porque não queremos ser olhados de lado ao usarmos palavras malditas, ao defendermos aquilo que até há bem pouco tempo, era considerado liberdade artística, criação, multiculturalismo, tolerância pela aceitação da diferença.


Policiamos a linguagem, o desenho, as opiniões, o teatro, o cinema. Não há lugar a debates, a discussão e trocas de ideias. Há barricadas, o lado certo e o lado errado.


Os factos deixaram de o ser. As interpretações do mesmo são, neste momento, aquilo a que temos direito não só nas redes sociais, como nos media. A manipulação do que se escreve, do que se diz, nem que seja para que os títulos sejam tremendistas, mesmo que as notícias digam o contrário, são a informação contemporânea. Não interessa se é verdade ou não.


O discurso corriqueiro, alarve, terrorista, inunda opinantes, políticos, gente que vive e actua pela imagem. Deixou de haver privacidade pois já não distinguimos o espaço público da nossa casa. Tudo se mostra nas redes sociais, tudo se diz em alta voz, tudo é público e não privado, pois o privado levanta teorias da conspiração.


E nós, vamos calando.

02 janeiro 2022

Palavra do Senhor

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Palavra do Senhor, de Ana Bárbara Pedrosa, é um livro brilhante, em que Deus se explica, de indignado a compreensivo com os cépticos, de orgulhoso a arrependido com a sua humana criação (à sua imagem e medida).


Foi Caim quem inaugurou a Humanidade e Deus, depois de muitas iras, castigos e desgostos, apaixonou-se perdidamente por Maria.


O Cristianismo é, assim, o fruto dessa paixão omnipotente.


Uma escrita litúrgica. Um livro brilhante.

12 setembro 2021

O Monarca das Sombras

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Javier Cercas continua a escrever sobre a Guerra Civil Espanhola. Mesmo não querendo.


Porque faz parte dele e parte da família dele. Porque faz parte de cada um dos descendentes de cada um dos mortos e de cada um dos sobreviventes da Guerra Civil.


Porque há o medo de descobrir e de encarar o horror de perceber que há pessoas dos dois lados da Guerra, pessoas com sonhos e com paixão e com idealismo. Porque há a necessidade de expurgar os fantasmas. Porque somos feitos de todos os bocados do que nos une e nos desune, do que nos enobrece e do que nos envergonha.


Porque a busca de um antepassado a que queremos colar uma figura de carne e osso, fazê-la emergir do passado, do esquecimento, da lenda, do mito, se impõe.


É uma viagem por dentro de Ibahernando, da Tierra Alta, da Batalha do Ebro, da sua família, de si próprio, em busca de Manuel Mena, seu tio-avô, que morreu pelos franquistas, integrado nos Tiradores de Ifni.


Javier Cercas é magistral na procura de um passado que teme, mas que o arrasta e engole. De um passado que o ensine a aceitar o presente e as contradições que se entrelaçam na nossa memória colectiva, na nossa condição humana.



Não tentes reconciliar-me com a morte, ó glorioso Ulisses.


Eu preferiria estar na terra, como servo de outro,


Até de homem sem terra e sem grande sustento,


Do que reinar aqui sobre todos os mortos.*



*Odisseia, Homero, Livros Cotovia, 7ª edição, Outubro de 2006, tradução de Frederico Lourenço

07 agosto 2021

Crónicas de Ronda (1)

Chegámos a Ronda com a ideia de passar por uma livraria, pois tinha acabado de ler o livro que me acompanhava desde o início destas parcas férias – Terra Alta, de Javier Cercas.


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Livro bastante interessante, que marca uma incursão de Javier Cercas na literatura policial, com a assinatura de um novo herói – Melchor Marín. Não foi dos que mais gostei, embora me tenha prendido do princípio ao fim. Personagens bem marcadas e marcantes, enredo bem desenvolvido e credível. O fim foi um pouco forçado. Dá a sensação que Javier Cercas se cansou do livro e resolveu despachar a conclusão.


Como tenho lido pouco, porque chego ao fim do dia como se me tivessem desbastado a superfície com raladores de cenouras e mal me recosto adormeço, mesmo que depois leve a noite às voltas e reviravoltas, nas férias aproveito para recuperar um pouco o enorme prazer da leitura. Por isso quando me vi sem literatura, tremi.


A internet tudo sabe e resolve, portanto procurámos uma livraria em Ronda e caminhámos até lá. Mais precisamente uma Librería-Papelería. Mas de librería não tinha nada, só de papelería de revistería e de periodoquería. Com o sol a pique e um bafo incrível, fomos em direcção ao Parador, procurando sombras ou cafés onde pudéssemos descansar do calor, quando nos deparámos com outra papelería.


E havia livros, verdadeiros, com capa rija e capa mole, de colecções de bolso e outras, predominantemente em castelhano mas também em inglês. Autores que conhecia, poucos, desconhecidos, muitos. Encontrei vários de Javier Cercas, mas já tinha lido, tendo visto um de Arturo Pérez-Reverte que me dispunha a experimentar ler no original.


Mas eu tenho muita sorte e alguém que gosta muito de mim. Descobriu outros mostradores com outros livros, um dos quais também de Javier Cercas – Independencia. Nunca tinha ouvido falar e fui ver as badanas.


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Nada menos que o último livro dele, saído em Março deste ano, e a continuação de Terra Alta, com o mesmo Melchor Merín y sus compañeros Mossos d?Esquadra!


Ronda estava a começar bem. Mais sorte é difícil (já o devorei, mesmo em castelhano - é muito melhor que o primeiro)!

07 dezembro 2020

Patria

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O livro de Fernando Aramburu é avassalador. Muitíssimo bem escrito, narra a vida de duas famílias, e com elas a vida dos bascos, durante a luta pela independência. De um lado os defensores da luta armada do outro as vítimas dessa luta.


O terrível rasgar das relações de amizade, de convívio, de respeito, a separação entre os que dão a vida pela causa e os que são assassinados pela utopia, a pobreza, as complicadas relações humanas atravessadas pela pobreza, pelas diferenças de classes que são como um rio lamacento que vai inundando as consciências.


Uma mãe que fala com Santo Inácio de Loyola, uma esposa que fala com a túmulo do marido, tudo de pedra, tudo frio, a fé que se desmonta e soçobra, o medo, a superação, a resistência e a perda de todas as ilusões.


Um livro tão bom como duro, que remexe nas feridas para as curar.


É raro que a adaptação cinematográfica faça justiça à literatura. Não é este o caso. A série da HBO é fiel ao relato de Fernando Aramburu e dá tons à rigidez da realidade, à crueza das feições torturadas, dos sentimentos afundados, das lágrimas bem fechadas.


Não percam nem um nem outro. À sua maneira é uma história de Natal.

23 dezembro 2019

Ingmar Bergman — O Caminho Contra o Vento

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O isolamento, o envelhecimento, a constante procura do porquê de se ser, de se estar, a consciência de existir.


A repetição dos dias, dos pensamentos, das forças, do medir de forças, das memórias, dos desejos, dos momentos de alegria, do conforto da solidão, do vento como companhia, como companheiro, como adversário, como amigo.


O amor e a morte, a morte e o amor, mas não a morte do amor que fica, que sobra, que se instala e se repete.


Tudo se repete, dia a dia, hora a hora, noite a noite, madrugada a madrugada.


O deambular sem organização ou a organização do caos, o pensamento que discorre, que se interroga, que afirma, que se lembra, que sofre, que ama.


A arte das palavras e da imagem, sentir a chuva, a neve, as rochas, as pedras, as flores, a cor, o olhar, a curva dos lábios, a macieza das mãos e dos gestos, a ilha, o longe e a clandestina vida que se vai completando, sempre no caminho contra o vento.


Gotland-Fårö_Raukar-Gamlehamn.jpgFårö


 


Cristina Carvalho escreve um romance biográfico sobre Ingmar Bergman a partir dos últimos anos da sua vida em Fårö. Personificando Bergman, vestindo-o e mergulhando no seu espírito, Cristina Carvalho mostra-nos a faceta do homem e não a imagem do artista, o homem como a essência do ser artista e não a arte como profissão. Ficamos a conhecer Ingmar Bergman por dentro. Um artista visto por dentro, o homem que se não nega a que o sintam como alguém que se angustia, que tem medo, que se irrita, que persiste, que persiste na busca de si mesmo.


É um livro extraordinário.

16 julho 2018

O Oráculo de Jamais

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É dos livros mais extraordinários que li até hoje, há já muitos anos. Comovente, lindíssimo. De Altino do Tojal.

10 dezembro 2016

A hard rain's a-gonna fall


Patti Smith


Prémios Nobel 20016


 



 Bob Dylan (1964)


 


 


Oh, where have you been, my blue-eyed son


And where have you been, my darling young one


I've stumbled on the side of twelve misty mountains


I've walked and I've crawled on six crooked highways


I've stepped in the middle of seven sad forests


I've been out in front of a dozen dead oceans


I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard


And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard


It's a hard rain's a-gonna fall


 


Oh, what did you see, my blue-eyed son


And what did you see, my darling young one


I saw a newborn baby with wild wolves all around it


I saw a highway of diamonds with nobody on it


I saw a black branch with blood that kept drippin'


I saw a room full of men with their hammers a-bleedin'


I saw a white ladder all covered with water


I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken


I saw guns and sharp swords in the hands of young children


And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard


It's a hard rain's a-gonna fall


 


And what did you hear, my blue-eyed son?


And what did you hear, my darling young one?


I heard the sound of a thunder that roared out a warnin'


Heard the roar of a wave that could drown the whole world


Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin'


Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin'


Heard one person starve, I heard many people laughin'


Heard the song of a poet who died in the gutter


Heard the sound of a clown who cried in the alley


And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard


It's a hard rain's a-gonna fall


 


Oh, what did you meet, my blue-eyed son?


Who did you meet, my darling young one?


I met a young child beside a dead pony


I met a white man who walked a black dog


I met a young woman whose body was burning


I met a young girl, she gave me a rainbow


I met one man who was wounded in love


I met another man who was wounded with hatred


And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard


It's a hard rain's a-gonna fall


 


And what'll you do now, my blue-eyed son?


And what'll you do now, my darling young one?


I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'


I'll walk to the depths of the deepest black forest


Where the people are many and their hands are all empty


Where the pellets of poison are flooding their waters


Where the home in the valley meets the damp dirty prison


And the executioner's face is always well hidden


Where hunger is ugly, where souls are forgotten


Where black is the color, where none is the number


And I'll tell it and think it and speak it and breathe it


And reflect it from the mountain so all souls can see it


Then I'll stand on the ocean until I start sinkin'


But I'll know my song well before I start singin'


And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard


It's a hard rain's a-gonna fall


 

21 novembro 2016

Manual de Cardiologia

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Uma voz que de fora narra a dor, quase sussurrada, quase sem paixão, uma voz apaixonada por um amor que não chega, que não se chega, que não lhe chega.


 


O sofrimento da antecipação, da espera, do que sabe de antemão que falhará. A transmutação entre o amador e a amada, quando nos damos conta de que o narrador agora é a mulher, aquela por quem se sofre e se desce ao abismo. E a mulher é justificada por si mesma pelas palavras do amador que se funde nela, nas suas razões e nos seus desesperos.


 


Há um caminho de sofrimento e aproximação, de sofrimento e fusão, de sofrimento e distanciamento, sempre num sussurro lento e triste, por vezes mais arrebatado. O título é particularmente feliz ao aludir a uma observação clínica, em que as palavras encadeadas e ritmadas são o pulsar cardíaco, aquele músculo que mesmo depois de todo o sofrimento resiste a recupera, mais lento e com cicatrizes.


 


As palavras repetidas sugerem a cadência e o ritmo: aquela mulher, coração, pedra, palavra, casa, amor, espera. A casa como a materialização do corpo e da esperança que se desespera. É uma poesia com uma melodia própria e dolorosa.


 


Manual de Cardiologia, de Fernando Pinto do Amaral, é um livro absolutamente surpreendente, que nos dói e quase nos redime.


 


GENUFLEXÓRIO


 


Soou o meio-dia    Entra agora


nessa pequena ermida    Dizem ter


talvez quinhentos anos    Lá em baixo


a Torre de Belém


 


Entreabre essa porta


Cinco séculos depois ainda estás


aqui    ainda a vês


entrar contigo aqui    ainda ouves


o mesmo coração a sua mesma


música


e continuas sem saber porquê


 


Ajoelha de novo    Já não crês?


E todavia ficarás


À espera de uma voz    à espera de uma


primeira última luz


 

13 outubro 2016

The times they are a-changin'

Foi grande a surpresa, mas fiquei bastante contente. É uma rotura com o estabelecido, mas justificada. Ainda bem que os tempos estão a mudar.


 



Bob Dylan


 


Come gather 'round people


Wherever you roam


And admit that the waters


Around you have grown


And accept it that soon


You'll be drenched to the bone.


If your time to you


Is worth savin'


Then you better start swimmin'


Or you'll sink like a stone


For the times they are a-changin'.


 


Come writers and critics


Who prophesize with your pen


And keep your eyes wide


The chance won't come again


And don't speak too soon


For the wheel's still in spin


And there's no tellin' who


That it's namin'.


For the loser now


Will be later to win


For the times they are a-changin'.


 


Come senators, congressmen


Please heed the call


Don't stand in the doorway


Don't block up the hall


For he that gets hurt


Will be he who has stalled


There's a battle outside


And it is ragin'.


It'll soon shake your windows


And rattle your walls


For the times they are a-changin'.


 


Come mothers and fathers


Throughout the land


And don't criticize


What you can't understand


Your sons and your daughters


Are beyond your command


Your old road is


Rapidly agin'.


Please get out of the new one


If you can't lend your hand


For the times they are a-changin'.


 


The line it is drawn


The curse it is cast


The slow one now


Will later be fast


As the present now


Will later be past


The order is


Rapidly fadin'.


And the first one now


Will later be last


For the times they are a-changin'.

23 abril 2016

Do teatro, ibérico e outros

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Pequeno passeio rumo ao Centro Comercial Vasco da Gama, mais precisamente à FNAC, lugar onde me esperava The mousetrap and other plays, de Agatha Christie, para me preparar condignamente para a próxima viagem à capital londrina, mais precisamente ao St Martin's Theatre, a casa desta peça desde 1974, em cena desde 1952.


 


Adoro estas pequenas passeatas que transformam um banal almoço numa estimulante conversa. De Londres e do teatro passei a William Shakespeare e às comemorações do 4º centenário da sua morte, com inúmeros colóquios, reedições de obras, estudos histórico-literários, etc., que nos transmitem a importância do autor britânico na literatura e na dramaturgia ocidentais.


 


E no entanto, a literatura e especificamente o teatro, nos séculos XVI e XVII europeus, muito ficaram a dever aos autores espanhóis, nomeadamente a Lope de Vega e Pedro Calderón de La Barca, assim como ao francês Molière, mais ou menos contemporâneos de Shakespeare.


 


Mas anterior a todos estes apareceu Gil Vicente, cuja obra eu gostaria muito de ver alguma companhia teatral a revisitar. O nosso Gil Vicente, com o seu Monólogo do Vaqueiro, quase inaugurou a importância social e política do teatro, como espelho do e sátira ao poder e às classes sociais, da linguagem dos simples, das figuras mitológicas, do bem e do mal, enfim, dos grandes temas que nos preocupam.


 


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Roque Gameiro


 


Não há dúvida que a pressão da língua inglesa explica em parte a notoriedade de Shakespeare e o relativo embaciamento dos autores ibéricos e francês. Mas nos séculos XVI e XVII não seria bem assim, a língua erudita era o latim e as línguas neolatinas muito mais importantes que a inglesa. Nada disto retira o brilhantismo e o génio a Shakespeare. Só é pena não haver o mesmo realce para outros, tão geniais e brilhantes como ele.


 


Nota: Alguém que comigo partilha passeios e conversas, enviou-me uma informação interessante: é que a primeira peça que a RTP apresentou logo após o início das emissões regulares foi precisamente... Monólogo do Vaqueiro.


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28 fevereiro 2016

Correntes d'Escritas 2016

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Em O Silêncio dos Livros José Tolentino Mendonça falou-nos da necessidade do mesmo para quem trabalha a palavra, dos sentidos, dos paradigmas em mudança, da massificação e do autoritarismo das normas.


 


Em Não me interpretem mal - os protagonistas do Governo Sombra, da forma bem disposta que lhes é habitual, levantaram o problema da ameaça à liberdade de expressão por parte dos bem intencionados autoritarismos, nomeadamente de esquerda. O incómodo e a ofensa de alguns, minorias ou maiorias, não pode justificar o silenciamento das mais variadas formas de expressão.


 


Como fugir ao que já foi escrito - interessantíssima tertúlia onde realço João Felgar, que de juiz passou a escritor, contra os avisos de quem lhe disse que tudo já tinha sido escrito, mesmo contra os conselhos de editores que enaltecerem as virtudes, a técnica e a facilidade do género policial, desde que o autor desse a entender escrever sobre casos por si protagonizados, mesmo contra o torcer do nariz editorial sobre temas nunca antes tratados, como as ratazanas do convento de Mafra.


 


Tradutores, contrabandistas da literatura - uma mesa em que a importância e a delicadeza da tradução foi discutida, assunto a que somos habitualmente alheios e distraídos. E no entanto os tradutores são os responsáveis pela divulgação da maior parte da literatura. Sem eles não nos seria possível termos acesso a livros de outras línguas que não as nossas e a obras de William Shakespeare, traduzidas por Ana Luísa Amaral, ou de Milan Kundera, traduzidas por Inês Pedrosa.


 


Escrevo o que quero escrever, nunca escrevo o que quero - a partir desta frase contraditória e quase misteriosa, falou-se de liberdade, de política e do comprometimento do escritor ou da sua falta, e da impossibilidade de atingir a perfeição.


 


Em Escrever é ganhar e perder - assisti a uma magistral lição sobre Literatura e História, pela voz de Miguel Real, sobre os grandes perdedores em vida/ ganhadores após a morte, de 4 escritores portugueses - Luís de Camões, Padre António Vieira, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.


 


Neste congresso literário, a que assisto pela segunda vez, toquei ao de leve aquele mundo paralelo que tanto me encanta. Os burburinhos, as conversas entre os vários escritores, as histórias contadas com a graça e a confiança de quem já anda nestes mundo há muito tempo, mostram um canto da existência e uma parte da nossa grande riqueza cultural, aquela área em que se deveria investir para melhorar a economia do País. Ainda bem que, finalmente, o Ministro da Cultura esteve presente na sessão de abertura.


 


Javier Cercas foi o vencedor do Prémio Casino da Póvoa com o livro As leis da fronteira. É um autor que conheço de livros anteriores muitíssimo bons, pelo que estou muito curiosa para ler este e sobretudo o anterior

15 setembro 2013

Da menoridade literária

 



 


Comprei há poucos dias um livro sobre o qual já tinha lido ser de um jovem autor suíço, que tinha recebido o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e que era um fenómeno de vendas. Estou a falar de Joël Dicker e de A verdade sobre o caso Harry Quebert.


 


De facto o livro lê-se bem e desperta a curiosidade do leitor, com um enredo cheio de curvas e contracurvas. Provavelmente dará um bom guião de um filme policial, cheio de dinamismo, com um desfecho inesperado. Mas é uma enorme desilusão para quem esperava alguma coisa a mais que entretenimento fútil e superficial.


 


O autor não consegue dar corpo às personagens, que são muito pouco credíveis. O tema é uma miscelânea dos grandes clichés da nossa sociedade contemporânea - laivos de pedofilia com obsessões sexuais, corrupção policial, esquizofrenia e fanatismo religiosos, mães dominadoras e castradoras e paixões assolapadas e doentias, escritores geniais escondidos em gente disforme, enfim, dá a sensação de que o autor foi obrigado a tocar em múltiplas histórias para que as vendas fossem rápidas e garantidas.


 


Quanto à escrita, é simplória, pouco imaginativa, sem qualquer rasgo. Os diálogos são escorreitos, é verdade, e o livro lê-se rapidamente, mas não deixa qualquer marca. Não consigo perceber como ganhou prémios literários, a não ser que a exigência das Academias esteja a um nível baixíssimo ou que a minha exigência esteja insuperável.


 


Outra medida do sucesso dos novos livros é a espessura dos mesmos. Quanto mais páginas melhor. Mastiga-se, mastiga-se, acrescentam-se pormenores e pistas, tiram-se do nada novas personagens e estica-se tudo. Parece uma competição com Stieg Larsson. Só que Stieg Larsson e a sua Triologia Millennium valem trezentas vezes mais, em todos os aspectos.


 


Os livros policiais são entendidos por muitos como literatura menor. Não concordo e já li grandes obras que, à volta de crimes e de mistérios, são verdadeiros tratados de literatura: Almas cinzentas, por exemplo, ou O Nome da Rosa. Talvez Joël Dicker escreva um novo romance, policial ou não, que se redima deste começo tão ruidoso, mas, suspeito, tão fátuo.

30 março 2013

O gosto da descoberta

 



 


Não encontrei nenhum trabalho, teoria ou reflexão filosófica que explicasse a razão de haver uma associação entre a literatura policial culinária. Dos autores que conheço, bem sei que poucos dos milhões que devem existir, o que desvaloriza totalmente a amostragem, três, e todos pertencentes à Europa mediterrânica, têm detectives gourmet: Comissaire Maigret, de Georges Simenon, Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, e o Inspector Jaime Ramos, de Francisco José Viegas.


 


Haverá alguma conexão especial entre o gosto e o raciocínio lógico, ou entre o gosto e a pulsão para a violência, para o crime? As sensações despertadas pelos odores das ervas e das carnes, pelas texturas e pelas cores dos alimentos, pelos paladares dos doces e dos ácidos, serão semelhantes às do encontro de padrões de comportamento, dos elos perdidos nas cadeias de acontecimentos, das motivações escondidas da superfície, da incapacidade de não esgravatar à procura do tesouro, da resposta a um enigma?


 


Cozinhar ocupa as mãos, que se desdobram em afazeres de esmagar, cortar, mexer, misturar, libertando a mente para o raciocínio e a contemplação. Por outro lado, as memórias evocadas pelos cheiros e pelos sabores, poderão estimular miríades de outras memórias e de saberes aprendidos sem nos darmos conta, que ligam factos e levantam mais perguntas.


 


Há dias ouvi Francisco José Viegas contar que lhe faziam, por vezes, perguntas, como se Jaime Ramos fosse real. Pois o Inspector Jaime Ramos é real, tem uma casa onde mora, ruas por onde caminha, mercados onde escolhe os ingredientes que cozinha devagar, enquanto saboreia um bom vinho, um clube pelo qual torce, um trabalho que lhe revela a sua própria humanidade. Poderá até ser mais real do que o próprio criador. E este é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor.


 

23 junho 2012

Contos de Fadas

  



Esopo (séc. VII - IV ac)


 


 



Coleção Fábulas Esopo (grego)


Babrius (séc. I)


 


 



Fables choisies, mises en vers par M. de La Fontaine


La Fontaine (1668)


 


 



Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités


Perrault (1697)


 


 



Kinder- und Hausmärchen


Grimm (1812)




 


 



Eventyr, fortalte for Børn


Hans Christian Andersen (1837)

07 abril 2012

Da poesia (edição) doméstica (pela metade)

 



 


Talvez porque só editoras quase domésticas se arriscaram a publicar o que escrevo, penso que o motivo da grande dificuldade dos novos (desconhecidos) autores passarem da clandestinidade não se prende apenas com a dificuldade de distribuição e exposição. Na verdade o mundo dos livros e da literatura é hermético e avesso às novidades. Aos autores que vão aparecendo é-lhes praticamente vedado o acesso à crítica e à discussão da sua escrita.


 


Sejam eles a autores consagrados, a estudiosos, académicos ou jornalistas, em blogues individuais, colectivos, dedicados à literatura ou generalistas, os pedidos à apreciação de obras a editar ou a solicitação para participar em tertúlias, colóquios, entrevistas ou outras formas de divulgação crítica das obras, autores ou projectos editoriais, são, na quase totalidade das vezes, pura e simplesmente ignorados.


 


É claro que há críticas incompreensíveis e livros que fariam melhor em reservar-se à intimidade dos pequenos núcleos sociais onde cada um de nós se insere. Por outro lado também há opiniões que será melhor ignorar, de tão descabidas, pela crueldade ou pelo exagero da lisonja. Mas os vários grupos de autores, editores, jornalistas e críticos vivem em círculos fechados, entrecruzando-se e falando para dentro, uns com os outros e uns para os outros, sem tolerância ou vontade de integrar quem não é do meio, seja pela qualidade ou pelos contactos estratégicos.


 


Serão as minhas ideias e palavras movidas pelo azedume, inveja ou despeito? Quem ler decidirá.


 

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