31 agosto 2006

Asas

Num dia como este
em que o brilho do ar
nos desorienta,
guardo aplicadamente
impulsos de voar.

Prendo metodicamente
os dedos de ave
na sombra do desejo.

(fotografia de Victor Zhang: wings 2)

29 agosto 2006

Fio da vida


O progresso científico tem sido tão avassalador que assusta. Mais rápido do que a velocidade com que pensamos nas suas consequências, mais extraordinário do que a imaginação, mais tecnológico do que humanizado.

Por isso há sempre aqueles humanistas, habitualmente mais pensadores do que fazedores, que olham a vida e o mundo, e principalmente o homem, como um conjunto de células e um conjunto de emoções, tudo misturado e moldado por valores resultantes da época, do espaço, das inter relações com outros seres vivos e com o meio físico, ou seja valores culturais, que tentam criar e uniformizar as regras necessárias para que os homens se estudem, se tratem, mas não se destruam, aviltem ou percam as suas características mais humanas.

Entre estes humanistas há os representantes dos valores espirituais e religiosos, que acreditam que a vida é mais do que um conjunto de moléculas, que há mais qualquer coisa para além dos genes e das proteínas, do oxigénio ou do ozono, a que chamam alma.

Alguns destes guias espirituais depõem num ente criador, omnipresente, omnipotente e omnisciente, a capacidade de dar ou tirar a vida.

Respeito muito as religiões e os religiosos. Cada qual é livre de pensar, acreditar, rezar, seguir rituais e partilhá-los com quem quer.

Mas não respeito aqueles que, por terem uma determinada filosofia de vida, por terem abraçado um determinado conjunto de valores morais, o tentam impor a toda a humanidade, achando que para isso estão mandatados pelo divino.

O conceito de início da vida tem variadas ressonâncias.

A investigação que tem sido feita em relação à utilização de células estaminais (palavra que deriva de estame, que significa fio da vida, fio da existência), na tentativa de desenvolver tecidos que possam substituir tecidos adultos lesionados, para dar um pequeno exemplo, são uma fundada esperança para muitos doentes. O facto de se utilizarem embriões excedentários da fertilização in vitro, ao ter como consequência a destruição desses embriões, põe problemas éticos a muitas consciências.

Foram publicados trabalhos em que se demonstra que é possível desenvolver os mesmos tecidos adultos a partir apenas de uma célula retirada de um embrião muito jovem (ele próprio com muito poucas células), sem o lesionar, ficando com a total capacidade para de desenvolver por inteiro, saudavelmente.

Pois mesmo assim, o Vaticano já fez saber que não concorda com este método, porque se uma célula se pode desenvolver totalmente num novo ser, essa mesma célula deve ser considerada um embrião!!!

De certeza que o Papa Bento (ou Benedito) XVI nunca foi nem será submetido a qualquer intervenção cirúrgica. Na verdade é possível, a partir de uma célula adulta, desdiferenciá-la andando para trás na sua evolução, transformando-a numa célula estaminal. Imagine-se a quantidade de potenciais embriões que se matam numa simples excisão do apêndice!

ADENDA: Vale a pena ler os excelentes posts sobre este e outros assuntos no Diário Ateísta (www.ateismo.net/diario)

Quarta-feira de cinzas...

Finalmente! Começa o princípio do fim do vale tudo na Madeira. Finalmente alguém com responsabilidade governativa ousou dizer que o rei vai nu, em vez de desvalorizar os disparates e as enormidades a que Alberto João Jardim se permite.

Convém que os madeirenses olhem bem para o estado a que chegou aquela região, após 30 anos de reinado carnavalesco.

27 agosto 2006

Exemplar

O Sistema Nacional de Saúde (SNS) é pesado, burocrático, alberga em si vícios, irresponsabilidades, profissionais que pouco fazem e, por conseguinte, muito recebem. Mas é universal e tendencialmente gratuito, e a grande maioria dos seus profissionais têm grande qualidade, são trabalhadores e servem o melhor que sabem e podem os seus doentes e os seus serviços.

Por tudo isso, mantenho o que disse sobre o nosso SNS e parece-me injusto e resultante de ignorante atrevimento, portanto ofensivo, apelidar de “irresponsável” António Arnault, e de “monstro” um sistema que, por muitos defeitos que tenha, foi o responsável pela mais espectacular melhoria dos padrões de saúde em Portugal.

Ao contrário do que pensa João Gonçalves, eu não acho o SNS “exemplar”. Acho que é um dos melhores sistemas nacionais de saúde, tal como é reconhecido por organizações internacionais. E não é por uma tarde de troca de sms’s que alguém completamente alheio à matéria se possa permitir fazer avaliações de carácter global. É prova de sabedoria reconhecer as próprias limitações. Histórias exemplificativas, do tipo da que conta, por muito desagradáveis que sejam, há-as infelizmente para todos os gostos.

Penso que é um erro caminhar no sentido da privatização da saúde. É também uma questão ideológica. Para mim todas as pessoas têm direito a ser assistidas na doença, e é o Estado que deve assegurar, se não gratuitamente pelo menos com a tal tendência, essa assistência. É urgente, necessário e inevitável reformar o SNS. Optimizar e concentrar recursos, premiar quem trabalha e punir quem não o faz, reorientar os gastos, reduzir desperdícios, responsabilizar todos os que lá trabalham, incluindo os conselhos de administração. Tudo isto é possível fazer, desde que haja vontade política.

Do que nos vamos apercebendo parece haver interesse em empurrar médicos e doentes para o sector privado, esvaziando o sector público e engordando as seguradoras. Não tenho rigorosamente nada contra o sector privado da saúde. Mas será que o sector privado tem interesse, por exemplo, em ter serviços de Neonatalogia, com internamentos de grandes prematuros em cuidados intensivos, durante meses? Ou serviços de Infecciologia, que tratam doenças crónicas, prolongadas e dispendiosas como a SIDA? Ou serviços de Oncologia com terapêuticas cada vez mais onerosas? Será que há capacidade para fazer seguros que as pessoas todas possam pagar, que cubram todas estas despesas? Ou fica para o Estado o que dá prejuízo? Ou a saúde vai passar a depender do poder económico que cada um tem?

O SNS é ainda das poucas coisas de que o Estado se pode orgulhar. Esperemos que se não transforme o "monstro" numa "irresponsável" inutilidade.

Um aperitivo científico

Quando se nomearam determinado tipo de corpos celestes como planetas (do grego planētēs, que significa viajante) acreditava-se que os corpos iluminados que, à noite, pintalgavam o céu, se moviam e, portanto, viajavam à volta da Terra.

Segundo Ptolomeu, a Terra estava parada e, à sua volta, viajava o restante sistema solar (geocentrismo); havia então sete planetas: Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno.

Depois, primeiro com Aristarco de Samos (astrónomo grego que viveu por volta do ano 300 a.c.), passando por Nicolau Copérnico (cientista e astrónomo polaco, sécs. XV/XVI) até Galileu Galilei (cientista e astrónomo italiano, sécs. XVI/XVII), postulou-se que quem estava parado era o Sol, movendo-se a Terra (e os outros planetas) à sua volta (heliocentrismo); o Sol e a Lua deixaram de ser considerados planetas.

Posteriormente, e à medida que se aperfeiçoavam os telescópios, foram-se descoberto novos planetas como Plutão (1930) e UB313 (2003). Para além destes corpos celestes, também fazem parte do sistema solar satélites, cometas e asteróides.

A verdade é que têm existido grandes avanços neste campo, e as diferenças de massa e das órbitas (entre outras) entre os diversos corpos celestes, levou a comunidade de astrónomos, a União Astronómica Internacional (a 24 deste mês) a reclassificarem os corpos celestes, passando Plutão a caber na definição de planeta anão.

Não sei porquê tanta polémica relativamente a esta desclassificação. Daqui a alguns anos, provavelmente após mais desenvolvimentos tecnológicos que permitam conhecer com mais pormenor os corpos celestes, haverá novas revisões desta classificação e novas classificações.

Ainda bem que assim é. Em ciência a única certeza que existe é que não há certezas absolutas, e muito menos eternas...

(Vale a pena ler a Wikipédia)

Babel


Encontro na torre de Babel
uma multidão de cores
braços e olhos
absortos na diferença.

Eu absorvo a semelhança.

(escultura de Alan Baughman: torre de Babel)

26 agosto 2006

Amanhã


E se, amanhã, o mundo acordar sem neblinas húmidas e refrescantes, sem a secreta e inevitável certeza do sol a nascente?

A vida arruma-se em fascículos, numa gaveta interior bem dividida, automaticamente oferecendo os dados que a qualquer segundo necessita. Sem qualquer interrogação aceitamos como verdades o que se nos oferece ao olhar, o café aberto ao fechar a porta de casa, o ruído do motor ao dar a volta à chave, o azul baço do rio, a luminosidade dos dias de verão, os sorrisos de bom-dia quando se inicia o trabalho, o espreguiçar na cadeira depois de algumas horas de concentração. No ritualismo dos gestos e dos sentidos construímos uma sensação de eternidade e segurança irreal.

E se, amanhã, os contornos do dia forem diferentes e os meus olhos desdizerem as cores e as texturas do amanhecer?


(com agradecimentos aO Franco Atirador, pintura de Naofumi Maruyama: aurora)

Sentido único


Em sentido único amamos
esculpimos com gotas o rosto
rodamos ponteiros etéreos,
abrimos rios e veias
empapamos pedras e pombas.

Espantados ou serenos
como pó na eterna poeira,
nascemos e perecemos
com o luzir que incendeia
o único sentido do mundo.

(pintura de Helen Janow Miqueo: cosmic)

25 agosto 2006

Eu aguardo, sr. Ministro


Tenho tido uma enorme esperança de que com o PS no governo e com este ministro da Saúde, que tem pouco jeito para as câmaras, que parece sempre falar demais, mas que parece ter ideias, o que não abunda, que era mesmo desta vez que se iriam fazer reformas a sério.

E não temos tido razões de queixa. Tenho defendido que o estado e o funcionalismo público são para servir e não para se servirem. Penso que o estado tem algumas obrigações que não pode descorar, como a saúde universal e gratuita, mesmo que tendencialmente.

A forma como se organiza a gestão dos centros de saúde, hospitais, etc, sempre me pareceu secundária. O que acho fundamental e a que raramente se assiste, é à responsabilização de quem trabalha, começando por cada um dos prestadores de cuidados, até aos directores dos serviços, directores clínicos, administradores e directores hospitalares e dos centros de saúde.

Introduziu-se no sistema o conceito de empresarialização dos hospitais, elevando-se a bandeira da autonomia de contratualização, de definição de objectivos, de controlo de custos.

Há algumas semanas tem escapado para os media a ideia de que, afinal, alguns hospitais têm muito maus resultados, não se percebendo muito bem o que isso significa, a par de outras notícias de gastos sumptuosos, etc.

Talvez valesse a pena perceber o que correu mal nesses hospitais (se é que alguma coisa correu mal). Porque se há gastos excessivos, convém saber se houve acréscimo de produtividade, mais consultas, mais internamentos, mais actos operatórios, mais doentes a ser tratados de doenças muito dispendiosas como a SIDA e a doença oncológica, se se fizeram mais exames complementares, etc. Ou se, pelo contrário, esse dinheiro que se gastou a mais não se reflectiu em melhor qualidade de atendimento às populações e foi delapidado em horas extraordinárias desnecessárias, aparelhos que não se podem usar, administradores a mais, mobiliário, etc.

Repentinamente, o ministro ameaça os tais hospitais perdulários de voltarem atrás, ou seja, de passarem a ser, novamente, hospitais públicos.

Francamente, não percebo. E que tal responsabilizar as equipas de administração e gestão hospitalar pelo que se passa? Qual é a vantagem do retrocesso? E qual foi a vantagem da empresarialização?

Com enorme tristeza e apreensão, começo a duvidar do rumo, das ideias do Sr. Ministro, deste governo socialista.

Paralelamente, vão saindo artigos dando conta do início das negociações das propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares. Filosoficamente estou de acordo no que diz respeito a premiar quem mais trabalha. Não estou de acordo, como bastas vezes o afirmei, com o fim da exclusividade de funções. Para mim, o correcto seria exactamente o contrário, com a total separação entre sector público e privado.

Espero que as negociações corram bem. A inevitabilidade da alteração do status quo é evidente. Esperemos que para melhor, com maior justiça, equidade e responsabilização.

Eu continuo a aguardar, Sr. Ministro.

(Os russos são
ligeiramente machistas!)

23 agosto 2006

Quase Setembro


Estamos a 2 semanas (menos) do fim do mês. Lá vão saindo alguns coelhos do chapéu, lá se vão treinando alguns casos e discussões. As alterações dos preços de alguns exames complementares, na ADSE, a ameaça de greve dos médicos às horas extraordinárias, a acusação de Cintra Torres de ingerência do governo na informação da RTP, as notícias sobre o aumento da dívida do subsector estado, e a proibição de circulação de resíduos perigosos em Souselas.

Passo a passo aproximamo-nos da reentrada na atmosfera terrestre. Os portugueses estão mais endividados, as férias vão-lhes sair caras.

O Outono faz falta, com as rabanadas de vento, as folhas estaladiças e o acorrer às despesas escolares. O cheiro dos livros, o formigar de gente pelas ruas, a discussão de casos difíceis, a responsabilidade pelo que se decide.

Que venha a actividade e que se varra esta modorra de Verão! Já chega de bonomia, preguiceira e sonolência!

Palavras


Olho para a infinita combinação de letras,
para o desmedido tesouro de palavras
e não encontro as suficientes para te amar.

Pacientemente vou coleccionando vogais,
retocando sílabas, refazendo vírgulas,
para esta longa carta de amor
que te ofereço, dia a dia.

(quadro de Justin Simoni: Words are Sweet Sounds for Objects Unreal)

21 agosto 2006

Desjardinar a Madeira


Gostaria muito que, de uma vez por todas, houvesse sinais, da parte dos governantes, dos responsáveis dos partidos políticos e da presidência da República, de que a tolerância para os disparates de Alberto João Jardim se esgotou!

Despachos sumptuosos

Não há dúvida que é refrescante ver um ministro que assume por escrito e assina em baixo aquilo que, à portuguesa, sempre se ouve dizer, sem que haja consequências.

Na verdade todos os funcionários assistem, sempre que há mudanças nas chefias, a uma remodelação dos gabinetes das novas direcções, que incluem mobiliário e decoração, assim como a renovação das frotas de automóveis, habitualmente substituindo topos de gama por topos de gama, ao mesmo tempo que se insiste na retórica da crise financeira, da reorganização de recursos, da necessidade de reduzir os desperdícios.

Mas como todos sabemos, nada disto se passa só a nível hospitalar, passa-se a nível de toda a administração pública, desde os ministérios até às mais pequenas repartições.

Portanto, mesmo aplaudindo o facto do ministro mostrar que não assobia para o lado, não percebo, tal como não percebeu Pinho Cardão, que se o despacho foi desencadeado pelas despesas sumptuosas da administração do hospital de Guimarães, não percebo, repito, porque é que a mesma administração não foi sumariamente demitida. Afinal o ministro só fez como o cão que não morde…

19 agosto 2006

Ingerência

Para ajudar Israel acha-se no direito de prender ministros palestinianos, legitimados pelo voto popular. A democracia só serve quando o povo escolhe o que certos democratas querem…

A distância mais curta...

A pouco e pouco a propaganda e o bombardeamento de imagens, opiniões e comentários, bem intencionados ou não, a hiper racionalização e a procura de explicações e fundamentos para tudo, acaba por transformar coisas que, numa visão mais simplista mas, se calhar, mais autêntica, seriam aberrantes, em assuntos triviais, compreensíveis e até aceitáveis, de tal forma que passam a fazer parte dos dados da discussão.

É o que se passa com o conflito entre Israel e o Hezbollah. Na realidade o Líbano tem um exército libanês, mas que não tem qualquer poder de intervenção no sul, território dominado pelo Hezbollah, que a si próprio se apelida de exército de guerrilheiros, não disposto ao desarmamento. E no entanto estamos todos empenhadíssimos em assegurar um cessar-fogo entre Israel, um estado soberano, e o Hezbollah, um grupo de guerrilheiros que se sobrepõem ao exército do seu país, um pseudo país dentro doutro.

Bem sei que tudo é muito complexo, sendo esta uma abordagem demasiado ingénua. Mesmo assim não devíamos nunca esquecer-nos que a distância mais curta entre dois pontos continua a ser a linha recta.

(Entretanto Israel já violou o cessar-fogo e a força multinacional está muito difícil de reunir…)

18 agosto 2006

Gunter Grass

Günter Grass confessou ter sido voluntário nas SS. Bem, de vez em quando encontramos alguém que definitivamente fez parte do 3º Reich, porque para os incautos, dá a sensação que aquilo foi tudo virtual!

Não me parece estranho que só agora o confesse. A coragem para o assumir é enorme. O que acho pouco edificante é o posicionamento que teve, em termos políticos, durante cerca de 50 anos. Talvez lhe tivesse mais respeito se, mesmo que em silêncio, compartilhasse com os seus compatriotas, e com a restante humanidade, a inexorável tendência para a maldade e para o abismo.

Mais uma vez, a relação entre a essência e a ética do artista, a dádiva à sociedade, e a qualidade e grandeza da sua arte, é questionável, ou mesmo inexistente.

A capacidade de criar beleza não é directamente proporcional à beleza da alma humana. É doloroso e incompreensível, mas é assim.

Manipulação


vários blogues se referiram à efeméride ontem comemorada: o centenário do nascimento de Marcello Caetano.

No documentário que passou na RTP1, de uma forma tosca e pirosa, traçou-se o panegírico de um homem que, apesar das suas com certeza muitas qualidades intelectuais, fica para a nossa história como o continuador de uma ditadura, como o indivíduo que cujas intenções não passaram disso mesmo, de intenções. De um político que não era ingénuo nem impoluto, que não soube ou não quis fazer a transição para a democracia, que manteve a censura e a lei do partido único, que teimosamente e em público defendia a guerra colonial, atacava os seus opositores apelidando-os de anti patriotas, que manipulava a informação.

De uma maneira despudorada tentou fazer-se passar a imagem de um homem desapegado do poder, idealista, um escravo da causa pública, quase subentendendo, por oposição, o regabofe de oportunistas e arrivistas que apareceram após o 25 de Abril.

Já não falo da entrevista à filha, Ana Maria Caetano, conduzida por Judite de Sousa que, tal como sucedeu com a entrevista à irmã de Álvaro Cunhal, foi acéfala.

As pessoas vivem de acordo com o carácter, consciência, personalidade, inteligência e segundo a época, o tempo, o espaço, a moda, as ideologias. Não se prestam favores, nem às suas memórias, nem às memórias colectivas dos povos, alisando arestas, ocultando factos ou apresentando uma realidade distorcida e mais ou menos açucarada. Foi vergonhoso.

Pelo contrário e entre o que li, destaco o artigo de Vasco Pulido Valente no Público que, apesar da acidez e da crueza que lhe são características, é muito bom.

17 agosto 2006

Abandono


Abro-te as mãos enquanto dormes
e pouso-as em mim.
Durmo assim,
no abandono da tua paz.

(pintura de Partou Zia: sleeping lovers)

Em branco


Esta noite branca
ao lado dos corpos nus
os amantes brancos
absorvem sôfregos o frio
que paira no tempo
que lentamente se afasta
escorregando
do amor em branco
que desesperadamente
se desenha e arrefece.


(Pintura de Nikolay Reznichenko: White Night)

16 agosto 2006

Fim de dia


Está fresquinho, e que bem que sabe um intervalo na torreira de Agosto.

Depois de um jantar de conversa, remata-se com café e um pastel de Belém, morno, estaladiço, polvilhado com açúcar e canela.

Arte naïf


Talvez valha a pena espreitar o "XXVII Salão Internacional de Pintura Naïf", no Casino Estoril. Pelo menos ali o mundo é simples e colorido, e os barcos são barquinhos, o mar é azul e as barracas têm riscas à marinheiro.

(pintura de Mª del Carmen Artigas: Mar Menor)

15 agosto 2006

Suspenso


O mundo abre a janela,
sacode fragmentos de sonhos
areja palavras
recicla esperanças.

Suspende-se o medo.
Ouve-se piar um mocho.

Até à próxima bala.

(desenho de Pablo Picasso: guerra e paz)

Cessar fogo

Segundo o jornal “Público”, Hassan Nasrallah disse, num discurso televisivo, que o Hezbollah não é um exército regular e que não combaterá como um exército regular.

Deixemo-nos pois de afirmar hipocritamente que Israel atacou civis no Líbano. É claro que muitos civis morreram, mas muitos dos mortos eram combatentes do Hezbollah, misturados e vivendo no meio da população civil. Podemos não concordar com os métodos que Israel utiliza para defender o seu território, podemos não aceitar que Israel queira, unilateralmente, marcar as suas fronteiras, não reconhecer nem tentar negociar com os representantes do Hamas, eles próprios representantes legítimos dos palestinianos.

O que não podemos é encarar a ofensiva de Israel como se fosse a ofensiva contra um povo inocente, que nada fez para ser atacado. Trata-se da disputa de um território, em que os dois lados clamam pela justeza divina das suas pretensões.

Esperemos que este cessar-fogo se mantenha. Infelizmente, temo que seja efémero. Embora Israel e o Hezbollah o tenham aceite, já se percebeu de um e do outro lado as cautelas no discurso, o que pressupõe que apenas estão a recuperar forças.

Por muito que a comunidade internacional prepare documentos e negoceie nos bastidores, são os contendores que têm que querer a paz. Para tal, a existência de Israel como um estado soberano, com direito à paz, a delimitação de territórios e fronteiras negociadas, em vez da imposição pela força, como tem acontecido da parte de Israel, talvez pudessem abrir uma nesga de esperança.

13 agosto 2006

Progresso

A escravidão e a discriminação sexuais, nas nossas tão livres e ricas sociedades ocidentais, são uma consequência do incentivo ao consumo. Assim inventam-se novas necessidades e novos parâmetros de comportamentos, que chegam a atingir as raias do grotesco.

Li no DN (não está disponível on-line) que a moda dos saltos altos está a dar brado nos USA. Quando estou a dizer altos estou a falar (ou a reportagem falava) de saltos de 15 cm!

Para além "dos tornozelos finos, das pernas longas, das ancas firmes e das costas ligeiramente arqueadas" (segundo a mesma notícia), há também os pés doridíssimos, os calos, os joanetes, as dores nas costas e a impossibilidade de andar ou estar de pé por mais de 10 minutos seguidos, nada que não seja ultrapassável pela eterna capacidade de sacrifício feminino (é preciso sofrer para ser bela).

Mas pior do que isso é o facto das mulheres (aliás dos seres humanos e outros animais), por muito milionárias que sejam, terem pés com 5 dedos, numa forma mais ou menos rectangular, formados por ossos, cartilagens, articulações com limitações de movimentos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e tecido adiposo, que formam almofadas plantares escassas, pele e unhas.

Pequenos detalhes! Já há médicos (aqueles que gostam de citar o código deontológico e que, por princípio, pelo menos não devem fazer mal) que, a troco de muito dinheiro, cortam ossos, insuflam com alguns produtos miraculosos as plantas dos pés, para criar uma zona de amortecimento maior e mais espessa, enfim, fazem da podologia uma escultura, para se poderem vender mais sapatos de altíssimo e elegantíssimo salto.

Só gostava que me explicassem em que é que isto é diferente do costume bárbaro e desumano de ligar os pés às mulheres chinesas, desde muito jovens, para que elas ficassem com pés elegantes. Mesmo que isso significasse uma vida dolorosa e periclitante, de pobres estátuas deitadas.

12 agosto 2006

Cacos


Dizemos palavras gastas,
pobres, cinzentas,
como as ruas destruídas,
as pedras empunhadas.

Secam-nos os olhos de pó,
sangue e lume,
como cacos de almas
nos corpos que caminham.

Estamos ébrios de morte,
gritamos raiva a sofrer,
para quando a plenitude
de começar a viver?

(pintura de Jack Bice)

Narciso


Ao folhear a alta velocidade a revista que sai com o DN aos sábados, li os títulos referentes a uma reportagem sobre Fátima Lopes (a estilista). Afirma, entre outras coisas, que só veste roupas, calça sapatos, usa jóias e malas, apenas desenhadas por ela. E que os próprios móveis são também por ela desenhados.

Fiquei a pensar naquilo. Como suspeito que Fátima Lopes não tenha dificuldades monetárias, ou seja, deve poder adquirir o que quer e quando quer, aquelas afirmações significam que só lhe apetece comprar aquilo que ela faz.

Será que, por muito que as peças de vestuário, calçado, acessórios, jóias e mobiliário dela sejam fantásticas, e é maravilhoso ser-se tão versátil, será que não há no mundo desenhadores de moda e de decoração que lhe agradem? Será que a sua imaginação e criatividade a preenchem, só por si?

Não consigo imaginar-me a viver rodeada por mim própria e pelas minhas criaturas, por muito que me agrade criá-las. A contemplação de si próprio, como Narciso, tem muitas facetas, é enganadora e muitíssimo limitadora. Surpreendem-me as pessoas que se envolvem em redomas, ainda por cima construídas à sua imagem e semelhança.


(pintura de Pier Paolo Pasolini: Narciso)

11 agosto 2006

Corporativismo assanhado

A propósito desta notícia do DN é absolutamente espantoso o conjunto argumentativo dos representantes da FNAM.

Se os médicos têm um contrato de trabalho de 42 horas com exclusividade num determinado hospital (o que significa que não podem acumular com outro trabalho, público ou privado, excepto ensino universitário), este tem todo o direito, que lhe é conferido por lei, de se assegurar que o contrato seja cumprido.

A declaração do IRS é um documento que se pede para variadas situações banais, pelo que não percebo como é possível a FNAM alegar a suposta privacidade das informações aí constantes.

Como em todas as profissões há aqueles profissionais que cumprem, com zelo e generosidade, felizmente uma esmagadora maioria, e há aqueles que não cumprem. Será que o Estado, que os emprega, que lhes paga, que é responsável pelo trabalho que desenvolvem, perante todos os cidadãos, não tem o direito e o dever de separar os bons dos maus elementos, de premiar quem deve premiar e de punir quem deve punir?

Sou totalmente a favor do trabalho em exclusividade. Penso que os hospitais só teriam a ganhar se tivessem os seus profissionais de saúde a trabalhar a tempo inteiro e em exclusividade, rentabilizando os blocos operatórios, os serviços de exames complementares e outros, com remunerações dignas e boas condições de trabalho. Melhorava-se o atendimento aos doentes e poupava-se dinheiro ao estado.

Espero que este não seja o mote para o acender do pavio do corporativismo cego que tem incendiado outras classes profissionais.

Patético

Não deixam de ser patéticas as notícias sobre o “alegado” acordo para o cessar-fogo negociado por americanos e franceses. Não se chega a perceber quem está em guerra.

Entretanto, Israel continua a ofensiva terrestre e o Hezbollah continua a lançar rockets.

E nós, entre os enviados especiais e os especiais comentadores, vamos assistindo impávidos ao desmoronar das nossa certezas.

Manhã


Ao meu lado segue o rio
majestosamente quieto
em bandas de azul e luz.

Abro o vento na janela
acordo a música
na manhã que começa.

O dia 11


Não são fanáticos em nome de uma fé, de um ódio, de uma visão apocalíptica do mundo. Não são pequenos grupos de gente marginalizada que fabrica em casa bombas assassinas. Não são adoradores de virgens no céu nem hordas de dementes.

São elites com dinheiro que movem outras elites com conhecimentos. São teias de interesses que movem muitos milhões. São gente com conhecimentos científicos ou que sabe a quem se dirigir. São telemóveis, computadores, internet e chamadas para a morte.

São gente que usa todas as facilidades que tentam combater e destruir. São gente que só conhece os princípios abstractos porque tem uma vivência pragmática.

Como entender? Como tentar explicar?

O medo veio para ficar.

09 agosto 2006

Untitled


Não meu, não meu é quanto escrevo,
a quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
Porque, enganado,
julguei ser meu o que era meu?
Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
for eu ser morte
de uma outra vida que em mim vive,
eu, o que estive
em ilusão toda esta vida
aparecida,
sou grato Ao que do pó que sou
me levantou.
(E me fez nuvem um momento
de pensamento).
(Ao que sou, erguido pó,
símbolo só).

(poema de Fernando Pessoa; pintura de Brian Lloyd Fetherston: souls)

Velocidade


Que grande atleta, que corpo escultural, que máquina de correr! Mesmo não sabendo falar português, cantar o hino ou comer bolinhos de bacalhau, aposto que ninguém, neste momento, questiona a justeza da escolha da nacionalidade que Obikwelu fez.

Cuba século XXI

A democracia cubana no seu melhor!

07 agosto 2006

Regresso


Há uma reconfortante certeza no enorme volume de trabalho que nos espera quando regressamos de férias. Sentir-se útil é um dos motores que nos fazem levantar todos os dias. Trabalhar é um gosto!

Paridade

Não concordo com a lei da paridade. Não concordo com a implementação de quotas para o aumento do número de mulheres na política. Acho que o Presidente fez mal em promulgá-la. Como mulher sinto-me desrespeitada.

06 agosto 2006

Notícias (2)

Sugiro que não se contratem trabalhadores com hipersudorese (imensa transpiração), ou com rinofima (narizes enormes e abatatados), ou com seborreia (ataque de caspa), porque podem fazer mal ao ambiente.

Sugiro ainda que não se contratem pessoas com o QI (coeficiente de inteligência) dos responsáveis dos recursos humanos de semelhantes empresas e, já agora, dos nossos distintos representantes europeus.

Notícias (1)

Excelente notícia! Não há nada como cada escola, por si, investir em si própria, na comunidade educativa, implementando métodos de controlo de qualidade, EXTERNOS, o primeiro passo para perceber o que está bem e melhorar, e o que está mal para mudar.

05 agosto 2006

Blasfémia


O direito à blasfémia devia ser inscrito nas constituições, e a vontade de blasfemar um feito de engenharia genética, curando a personalidade subserviente dos humanos.

Se existisse, Deus deveria bocejar perante esta humanidade cuidadosa e humilde, que insidiosamente cresce em torno dos infinitamente crentes, dos bem-comportados, dos iniciados na fé.

De certeza que gostaria de ser desafiado a espantar-se ou a comover-se com os insultos e as questões dos rebeldes e dos impuros, para que exercitasse essa omnipresente omnisciência, para uma omnipotente gargalhada ou um omnipotente rugido de ira, que levantasse a terra e a fizesse tremer, num gozo inenarrável de infinita tolerância.


(pintura de Tom Block: God enjoys itself)

Até quando?


Qualquer amante da liberdade deplora a ditadura, a gerontocracia e a perpetuação monárquica de um poder autoritário e corrupto, como o que vigora em Cuba desde a suposta revolução cubana.

Qualquer amante da democracia deseja que os cubanos consigam aproveitar a oportunidade vislumbrada pela previsível morte de Fidel Castro, no sentido de forçarem uma transição de regime, o mais pacífica possível, para uma democracia representativa, com a ajuda das opiniões públicas dos países democráticos e com os esforços diplomáticos de instituições da União Europeia, dos Estados Unidos e outras.

O que qualquer amante da democracia e da liberdade já não compreende nem aceita é a arrogância de um país como os Estados Unidos, que se julga mandatado por um poder divino e discricionário, ao exortar do alto da sua pseudo moralidade democrática, todo o povo cubano "a trabalhar no seu país por uma mudança positiva", assumindo-se como o paladino dos pobres povos oprimidos, desde que a democracia que se implante com a sua desinteressada ajuda seja aprovada por ele próprio.

Não se percebe se a administração americana cria anticorpos em todo o mundo com um objectivo determinado, embora não se descortine qual, ou se é apenas por incompetência pura e simples.

Infelizmente, penso que a administração Bush se sente o instrumento de um poder divino, o que a transforma num caso de esquizofrenia política altamente perigoso para a civilização ocidental.

Até quando?

04 agosto 2006

No café


No café com chávena e pires
os olhos pregados ao jornal
um pingo castanho alastra e mancha
as páginas em aguarela cinzenta.

Apressadamente limpo e apago
definitivamente já não há notícia
só um brinco num fragmento de orelha
e o traço de um dente meio sorrindo.

No café com chávena e torrada
lambo as pontas dos dedos
e aplicadamente volto as páginas
respiro folhas e tinta
o cheiro das novidades e das manhãs
de sábado
da liberdade.


(pintura de Desmond O’Hagan: coffee house)

O desenhador compulsivo


Fui ver a exposição de desenhos de Abel Salazar, no CCB.

Para um artista como Abel Salazar, com extensa obra plástica entre desenhos, gravuras, aguarelas, pintura a óleo, esculturas (até murais), que ele expôs em vida, não entendo muito bem qual a relevância desta exposição.

Dispostos por várias salas encontram-se desenhos que Abel Salazar fazia, penso que de uma forma quase inconsciente, enquanto via ao microscópio, enquanto passeava, enquanto estava no café. Desenhos para entreter a mão e a mente, para concentrar ou distrair, não assinados, em todo o tipo de papéis, nas costas de provas tipográficas, de postais, de cartas, de folhas de hotel.

O título da exposição está feliz. Parecia haver uma compulsão para desenhar, e para desenhar mulheres. É, aliás, quase o único tema dos desenhos. Há ainda 3 (ou 4) quadros a óleo, lindíssimos, por sinal.

Numa área contígua pode assistir-se a um documentário, razoavelmente interessante sobre a vida e obra de Abel Salazar, em que aprendemos como se faz gravura e como se pinta a aguarela e a óleo.

Gostaria mais de ter visto uma exposição da obra de Abel Salazar que incluísse alguns dos desenhos dele.

Gostei, mas soube-me a pouco.

(caricatura de Abel Salazar por Luís de Pina, 1925)

Reparação pública


É horrível não se suspeitar ou não se reconhecerem os sinais e sintomas de uma criança maltratada. Quando tal acontece devem pedir-se e assumir-se responsabilidades a quem maltrata e a quem não diagnosticou (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, comissões de acompanhamento, tribunais, advogados, juízes…).

Mas não é menos horrível que se diagnostiquem ofensas corporais a uma criança, acusando a mãe, o pai, a avó ou outros acompanhantes e familiares, levando mesmo as comissões de acompanhamento a decidirem pelo afastamento da família, sendo tudo, afinal, um erro de diagnóstico.

O que está em causa não é o profissionalismo dos médicos nem das comissões referidas, que estavam alerta e fizeram o que deveria ser feito. Mas a verdade é que se enganaram. Houve um erro de diagnóstico, com consequências que não imagino para a família e para a própria criança.

Neste caso também se devem pedir e assumir responsabilidades. O mínimo que a administração do hospital de Guimarães, como responsável por todos quantos trabalham lá, pode fazer é pedir publicamente desculpas, porque a punição social que esta mãe já sofreu também foi pública e notória.

Também Nobre Guedes processa o estado por quebra de segredo de justiça, o que levou a uma tentativa de julgamento de carácter na praça pública. Fez muito bem. A corrupção deve ser investigada sem tréguas e punida exemplarmente. Mas o bom nome, a honra e a dignidade de todos os cidadãos mercem ser respeitados.

Poupança (2)

Uma das maiores fatias da despesa do Serviço Nacional de Saúde é a dos medicamentos. Como também já disse anteriormente, é péssimo medicar demais, mas é igualmente mau medicar de menos, ou medicar apenas com o critério do mais barato.

É imprescindível que rapidamente se estabeleçam protocolos de terapêutica medicamentosa por entidade (doença), feita com base em critérios científicos, para que haja efectivamente uma redução da despesa mas, mais importante que isso, para que os doentes sejam mais bem tratados.

A adopção de novas terapêuticas e a introdução de novos medicamentos deve ser sujeita a parecer das comissões que existem para esse efeito. Por vezes medicamentos mais caros podem melhorar acentuadamente a qualidade de vida dos doentes, reduzir a probabilidade de recaídas, recidivas, infecções e, por isso, reduzir despesas a médio e longo prazo. No entanto, as indicações terapêuticas devem ser rigorosas, bem definidas e bem seguidas por todos.

Qualquer profissional de saúde está obrigado a prestar ao seu doente o que de melhor e mais indicado existe no seu caso, tendo em conta os conhecimentos científicos mais avançados, signifiquem eles mais ou menos despesa.

A maior poupança é evitar a doença e proporcionar a todos os cidadãos as melhores condições de saúde. Se não estiver doente, qualquer pessoa produz mais, melhor e é mais feliz.

Poupança (1)

Por muito que seja imprescindível e meritório o esforço do estado, e portanto de todos nós, para poupar, em tudo o que for possível, essa poupança deve incidir primordialmente sobre os desperdícios. Na saúde, como em muitos outros sectores, há imenso desperdício.

Já várias vezes referi o meu desacordo em relação à organização dos serviços de urgência. Até agora, as equipas de urgência são formadas por médicos escalados de várias especialidades, cujo horário na urgência está inserido no seu horário de trabalho.

Como os serviços de urgência servem como serviços de consultas, que deveriam ser efectuadas nos centros de saúde, e como a escassez de médicos é crescente, para que se assegurem equipas de urgência os médicos têm que aumentar o seu horário de trabalho, à custa de horas extraordinárias. Por lei, são obrigados a cumprir 12 horas extraordinárias por semana. Na prática, um médico tem um horário de 35+12 horas ou 42+12 (se em exclusividade).

Deixando de parte a discussão da tabela de remuneração das horas extraordinárias, elas só serão feitas, para além do obrigatório, se os médicos quiserem. Qualquer trabalho a mais do estipulado no contrato deve ser acordado entre as partes, e só será efectuado se for compensatório para ambas.

Como vão os hospitais assegurar equipas de urgência, se os médicos deixarem de prestar mais 12, 24, ou mais horas extraordinárias por semana? Não sei e também não sei como se remuneram urgências com critérios de produtividade. Aliás ainda ninguém explicou.

Sugiro que se alterem os serviços de urgência e se transformem em serviços autónomos, com quadros próprios e especializados. Vejo o futuro algo negro.

03 agosto 2006

Verão


Lambuzo-me de figos.
Na cesta a sombra amadureceu.

Lavo-me de seda.
Na boca a cereja mordeu.

Abandono as mãos,
nos corpos avaros de céu.


(pintura de Elbert Price: figs with blue cup)

02 agosto 2006

Despedidas


Desde aquele dia começou a despedir-se. A morte anunciava-se, de forma mansa e vagarosa, escrita nas páginas do seu corpo. Uma proteína aqui, um gene acolá, uma troca de iões mal sucedida, e começavam a apagar-se os milhões de luzinhas que iluminam um corpo.

Lentamente preparava-se para a dor da separação, partia um a um os frágeis fios que a tornavam uma parte dele. Desligava-se poro a poro, como se a mornidão da temperatura fosse reduzindo a textura, descolorindo a pele.

A pouco e pouco a voz, o olhar, o sorriso eram já fantasmas da voz, do olhar, do sorriso, como imagens de antimatéria com a qual se habituava a conviver. Ia arquivando todos os gestos, os carinhos, a respiração, os pêlos, a língua. Olhava fixamente os movimentos para que os pudesse reviver em si.

Exalando a vida na cadência do respirar, esfumando-se para ela, embora ainda e só apenas ela o sentisse.

No momento que chegasse já o hábito da ausência se instalara, aquela névoa de lembrança permanecendo na penumbra do quarto, o cheiro das roupas quase perceptível.

No instante em que ele não fosse, já ela tinha deixado de ser, e continuaria num limbo de permanência suspensa até, como ele, se anular.


(fotografia de Pantelis Cherouvim: lonliness)

Obscurantismo


A luta contra o terrorismo não pode justificar tudo. São horríveis as mortes de civis, libaneses, palestinianos e israelitas.

Reconheço a necessidade do estado de Israel se defender contra os seus vizinhos que o não reconhecem como tal, imbuídos de fé, transformando diferenças políticas em guerras santas. A atitude de Israel tem levado ao extremar de posições no mundo árabe, nas próprias populações que, em eleições, colocam no poder grupos radicais que defendem o terrorismo como luta legítima pelo poder.

Mas notícias destas não ajudam o estado de espírito dos países ocidentais, no sentido de obrigar Israel a um cessar-fogo para negociações políticas. Aqui não há lugar à diplomacia nem à razoabilidade. É o fanatismo e o obscurantismo que apelam a choques civilizacionais. As declarações do Ayatollah Ali Khamenei são inaceitáveis e fazem perder a esperança na paz.

Bons rapazes

É difícil comentar uma decisão destas.

As crianças, apesar de crianças, são seres humanos. Mesmo que maltratadas pelas condições de vida em que nasceram e viveram não podem deixar de ser responsabilizadas pelos seus actos.

Torturar e matar não deixa de ser torturar e matar pelo facto desses actos terem sido praticados por adolescentes. Viram sangue, ouviram gritos e súplicas, sabiam que estavam a fazer MAL.

Reduzir tudo isto a uma brincadeira de mau gosto é enviar uma mensagem, a elas e a todas as crianças, de que tudo tem desculpa, de que os actos próprios podem sempre ser atribuídos a factores exteriores, que não há opções individuais ou livre arbítrio.

E se não fosse um homem com mamas haveria tanta compreensão pelos agressores?

Embrulhada

Pois é. A Ministra da Educação meteu-se numa boa embrulhada. Esperemos a decisão a seguir. Quanto à recomendação de aumentar as vagas no ensino superior, para colmatar injustiças, não percebo como. Quantas? Quais? Em que cursos?

Espera-se da Ministra sensatez, e que se rodeie de colaboradores que a ajudem a ultrapassar o imbróglio.

O precedente criado é muito perigoso. As medidas excepcionais justificam-se, mas suspeito que, a partir de agora, vão passar a existir muitas excepções, com exigências de medidas ainda mais excepcionais, entrando-se numa espiral sem fim à vista.

A propósito, será que os resultados vão ser assim tão diferentes?

01 agosto 2006

Corporativismo


A Inspecção Geral de Saúde (IGS) está a conduzir uma investigação aos médicos que mais prescrevem, no sentido de despistar relações perigosas entre a prescrição medicamentosa e o financiamento de viagens aos médicos prescritores.

Levantou-se imediatamente o Bastonário da Ordem dos Médicos (OM) classificando esta investigação de “perigosa”, “inaceitável” e “difamatória”.

Em primeiro lugar parece-me que a IGS tem o direito e o dever de inspeccionar tudo o que, no seu entender, puser em causa a correcta gestão de dinheiros públicos, assim como investigar eventuais casos de corrupção activa e passiva.

Em segundo lugar, se o problema a investigar é a relação entre a prescrição a mais e os financiamentos por laboratórios farmacêuticos aos médicos, não me parece que seja mais eficaz se for por método aleatório, conforme sugere o Bastonário da OM. Por outro lado, e concordo plenamente que a adequação do receituário ao problema de saúde deve ser determinada por peritos médicos, com certeza que a IGS poderá consultar os peritos sempre que isso for necessário. Para além disso, a OM e os tribunais existem para denunciar medidas e actuações ilegais, procedendo em conformidade.

Assim, eu gostaria de ter ouvido o Bastonário da OM elogiar esta investigação, demarcando-se de todos os médicos prevaricadores, salvaguardando e defendendo a honra e a dignidade daqueles que, todos os dias e nem sempre nas melhores condições, atendem os doentes com o seu melhor saber e profissionalismo.

Ou será que o Bastonário não ouve os rumores sobre médicos que prescrevem a mais? Ou sobre turismo médico? Ou sobre relações perigosas entre indústria farmacêutica e médicos?

Há dois pontos em que concordo com o Bastonário: é tão mau prescrever a menos como prescrever a mais; a escolha deste timing para noticiar a investigação (que está a decorrer desde Março) faz parte duma estratégia global do governo, em que se fazem sair notícias contra uma determinada classe profissional, preparando terreno para um grupo de medidas difíceis, que dizem respeito a essa mesma classe. Foi assim com os juízes, com os professores, adivinha-se que assim será também com os médicos.

Parece-me pouco ético que o faça. O que interessa é que a OM não se pode deixar arrastar para uma posição de confronto corporativista, fechando-se e negando o óbvio. Os médicos precisam de quem os defenda verdadeiramente, exaltando a honra e a dignidade de quem trabalha, realçando o muito de muito bom que há na profissão médica e não enjeitando iniciativas destinadas a identificar e isolar o pouco de mau que também há.

Longe de Manaus


Todos os anos aproveito a época balnear para ler sofregamente, como que lavando o cérebro e a alma, preparando-a para mais dias de falta de disponibilidade mental para a imaginação.

É muito tentador associar os personagens, as suas vidas e personalidades, às vidas e personalidades dos próprios autores. Tentador e enganador.

Mas a escrita emana directamente da sensibilidade e da vivência de quem escreve, da sua mente, das suas viagens, dos seus amores e desamores, do seu trabalho, do seu corpo, do seu relacionamento com o próximo, da sua religião, das suas caminhadas espirituais, dos seus hábitos e vícios, das suas insónias, das suas dores e gargalhadas, das suas idades exterior e interior.

E não posso deixar de colar algumas considerações aos autores que vou lendo. Depois de saborear “Longe de Manaus” de Francisco José Viegas, livro denso e enganadoramente policial, sobre as memórias, a solidão, as memórias das diversas solidões, a aceitação e a entrega, a maturidade.

É um livro que me lembra os de Manuel Vázquez Montalbán, mas para muitíssimo melhor.

É um livro velho, que mistura as cores secas e terrosas com sentimentos subterrâneos, como as águas lodosas de Manaus.

Gostei mesmo muito. Do livro e do que ele revela sobre o autor. Mesmo que não seja verdade, gosto de pensar que sim.

Hitchcock


Na areia, como soldados em parada, alinham-se bandos de gaivotas, em várias filas, em vários grupos, como se estivessem à espera de ordem para voar.

Ao fim da tarde na praia deserta, as aves dominam em exércitos estranhamente silenciosas. As cadeiras vazias, o azul parado do mar, as nuvens ligeiramente tingidas de cor de rosa. Como se estivessem à espera de ordem para atacar.

Hackers 2

Penso que já resolvi o problema. Vamos ver o que o Blogger.com me diz.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...