31 março 2010

Sem palavras

(...) O presidente executivo da EDP recebeu um total de 3,3 milhões de euros no ano passado, valor que inclui um montante de 1,8 milhões de euros, referentes ao pagamento de um prémio plurianual afecto aos anos 2006 a 2008. (...)




(...) Do montante de 1,3 milhões de euros auferido por António Mexia, 703 mil euros correspondem à remuneração fixa e 600 mil euros referem-se à componente variável anual. Os restantes 1,8 milhões de euros do bolo total repartem-se em montantes anuais de 600 mil euros, correspondentes aos anos de 2006, 2007 e 2008. (...)


 


O que é que justifica este tipo de remunerações nas empresas do estado? Como é possível alguém, em Portugal, numa empresa pública, ter uma remuneração média de 93.000 euros por mês, acrescido de um prémio mensal médio de 42.000 euros (calculando 14 meses por ano), o que perfaz um total, em média, de 135.000 euros por mês? Que competências e que produtividade têm António Mexia, Ferreira de Oliveira ou Zeinal Bava, comparadas com as de outros profissionais que ganham menos metade num ano que este senhores por mês?

Anos-luz

 



Entre a luz que vemos a realidade dessa luz podem passar milhões de anos-luz. Mas a luz que vemos não é menos real. Apenas nos aparece com uma constância inversamente proporcional à distância que as separa.


 


Entre a vida que temos e a que conhecemos, em nós e naqueles que abraçamos, há tantas vidas como segundos de vida, tantos abraços como partículas de luz. Apenas nos sabe ao gosto de uma parcela de felicidade.


 

Na morte da avó

 



poema de Miguel-Manso


pintura de Francisco Oller: el velorio


 


não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se


 


a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem


 


no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de


 


Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
─ é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida ─


 


depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante


 


o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia


 


como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia


 


a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez


da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota


 


(a partir daqui)


 

30 março 2010

Greve dos Enfermeiros

 


Começo por dizer que considero, este ano, por razões que se prendem com a grave crise que atravessamos, as greves decretadas por aumentos salariais uma irresponsabilidade, para além de mostrarem falta de solidariedade para quem, pura e simplesmente, não tem emprego.


 


Em segundo lugar, qualquer greve que se cole a um fim-de-semana, nomeadamente nesta semana em que há um feriado à 6ª feira e tolerância de ponto na 5ª feira à tarde, aumenta exponencialmente o número de dias efectivamente fora do trabalho, transformando uma greve de 3 dias numa paragem de 1 semana. Isso descredibiliza de imediato as razões de quem faz greve.


 


Os Enfermeiros, assim como os Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica (TDT), têm uma licenciatura exactamente como os Biólogos, os Psicólogos e os Assistentes Sociais, por exemplo, contratados como Técnicos Superiores de Saúde (TSS). No entanto a remuneração que auferem nos serviços públicos, no início da carreira, é diferente, pelo que os Enfermeiros e os TDT reivindicam, e com toda a razão, a equiparação dos seus ordenados aos dos TSS.


 


Esta é uma reivindicação antiga, desde que os respectivos cursos passaram a ser considerados licenciaturas. É claro que todos compreendemos que é incomportável um aumento imediato de 200€ a cerca de 6.000 Enfermeiros mas a verdade é que este problema já deveria ter sido resolvido há muito tempo.


 


Não concordo com esta greve mas penso que o governo deve tentar encontrar uma forma de, faseadamente, pagar aos Enfermeiros, TDT e TSS a mesma remuneração inicial, pois não há licenciaturas de primeira e licenciaturas de segunda, como parece ser a opinião de Henrique Raposo, cujos artigos denota a ignorância atrevida de quem fala do que desconhece.

Populismo regimental

 


Mais uma vez se prova que é muito mais interessante atacar o carácter de alguém, melhor se é político, ainda melhor se é deputado, soberbo se é do PS, do que discutir ideias e políticas alternativas.


 


Inês de Medeiros vê-se envolvida na espiral de propaganda dos moralizadores da causa pública, que descobriram que os deputados, quando residem fora do seu círculo eleitoral, têm direito a receber ajudas de custo para as viagens, nos termos da legislação existente, disponível no site da Assembleia da República.


 


Já se chamaram todos os nomes a Inês de Medeiros, blogues e jornais entusiasmam-se com os insultos, sem cuidarem de saber se há algum facto por detrás das notícias - desmentido de Inês de Medeiros no Público, 30 de Março, pág. 29 .


 


Mas porque deve a realidade estragar uma história tão extraordinária? Aliás, como todos estamos cansados de saber, nunca nenhum deputado da nação, em todo o espectro partidário, por honra, pudor e dignidade, aceitaria ser eleito por Lisboa quando residisse no Porto, em Bragança, Freixo de Espada à Cinta, Ponta Delgada ou Funchal, recebendo as ditas ajudas de custo. Mesmo estando tudo isso previsto na lei.


 


Não é lógico? É muito lógico mas a ideia que tem prevalecido é a de considerar os deputados representantes do todo nacional, não apenas do círculo da sua residência. Se os deputados entenderem que isso se deve mudar, que tal alterarem a lei?


 


Mas o mais extraordinário e tristemente significativo é que o próprio Presidente da Assembleia da República, que tal como está escrito no Artigo 16.º dos Princípios Gerais de Atribuição de Despesas de Transporte e Alojamento e de Ajudas de Custo aos Deputados:


 


(...) Artigo 16.º


Casos omissos


Os casos omissos são decididos por despacho do Presidente da Assembleia da República, ouvido o conselho de administração. (...)


 


ainda não se dignou esclarecer os cidadãos revoltados pela ignomínia de Inês de Medeiros permitindo, com o seu silêncio, o enxovalho constante de uma Deputada à Assembleia da República. Mas para Jaime Gama o respeito devido ao Parlamento é mais bem observado se a fórmula regimental pela qual todos se lhe devem dirigir, for sempre rigorosamente obedecida.


 


29 março 2010

O bem

 



Mona Aghababaee: Onde está a liberdade?


 


Falemos do bem, daquele puro sentimento que nos ensinam os padres de mãos postas, as avós sentadas bem direitas nas cadeiras de costas altas. Daquele bem de semana pascal, em que a mesa farta se prepara em jejuns diversos, do bem que pertence às pessoas de bem.


 


Falemos do bem que nos queremos, da luta diária pelo pão de cada dia, do fragmento de noite em que nos deitamos na cama, num cansaço de hábito escuro, na culpa de não encontrar horas nem forças para quem nos quer bem.


 


Falemos do bem do dinheiro multiplicado, que sem raízes nem asas se volatiliza para uns materializando-se noutros, no bem dos redondos braços da lei, da rotunda e árida ética.


 


Falemos do bem das armas caladas e apertadas durante o sono, do bem da fome que morre e que mata, do bem ruinoso das convicções febris, do bem que fazemos por tantos deuses que fabricamos, adoramos e consumimos, embrulhados em plástico ou papel brilhante.


 


Falemos então do mal que este bem nos faz, olhemos para fora das nossas horas, por fora das nossas bênçãos e façamos qualquer coisa de bom, na busca de um raio que nos abra o instante de sermos felizes.

Um dia como os outros (48)

 



(...) O Presidente russo, Dmitri Medvedev, asseverou já que a luta contra o terrorismo vai prosseguir até ao fim, dando ordem pronta para reforçar a segurança em todos os sistemas de transporte do país. A política de repressão do terror e a luta contra o terrorismo vão continuar. Vamos manter as operações contra os terroristas sem cedências, sem hesitações, até ao fim, afirmou à saída de uma reunião de emergência, de acordo com a agência noticiosa RIA Novosti. O atentado ocorreu na hora de ponta da capital russa, com a primeira explosão a dar-se às 7h52 (hora local, mais três horas em Portugal) quando o comboio subterrâneo se encontrava parado na estação de Lubianka, uma das de maior afluência, bem perto do quartel-general dos Serviços Federais de Segurança (FSB, agência sucessora do KGB). Cerca de 40 minutos mais tarde, pelas 8h36 locais, dava-se a segunda explosão, numa outra composição parada, mas na estação do Parque de Kulturi, a seis paragens de distância de Lubianka . Foram duas bombistas suicidas que levaram a cabo estes ataques, garantiu o presidente da câmara de Moscovo, Iuri Luzhkov. A mesma tese foi reiterada em comunicado emitido pelos FSB. (...)


 

28 março 2010

Novos deputados

João Galamba é um jovem que vive a idade da sua geração. Não tenta vender a ideia de uma vida planeada para a política, não tenta mostrar erudição precoce ou espontânea, não tenta ser aquilo que não é.


 


João Galamba entende a cidadania sem complexos e não se veste de intelectual de esquerda nem de descendente de lutador antifascista. Assume a sua infância desafogada, o seu diletantismo, a sua inaptidão para causas que já não existiam. Fez o percurso de um jovem da classe média, média-alta e não se envergonha dele.


 


João Galamba vai sabendo o preço do seu comprometimento. Há muitos que se comprazem e se realizam a enlamear os ingénuos, pois a pequenez e a inveja, aquela mesmo com que enchem a boca das palavras de João Gil, sem perceberem que lhe encarnam a filosofia, amesquinham o que tocam. É bom que o Parlamento possa contar com João Galamba.


 


(via Jugular)

27 março 2010

A derrota dos cavaquistas

 



 


A eleição de Passos Coelho como líder do PSD, pela margem com que foi eleito, é um facto importante e que poderá significar o princípio do fim do cavaquismo, assim como o princípio do começo de uma oposição a sério.


 


Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Alberto João Jardim e Paulo Rangel saíram grandemente derrotados assim como, esperamos, uma certa forma de fazer política.


 


É bom que haja definição à direita para que a esquerda também se reposicione. O PS e o país precisam de luta política e de clarificação ideológica.

26 março 2010

Diário aberto


 


Depois de cerca de 1600 dias a escrever neste blogue, 125 pessoas por dia, em média, vieram ler ou ouvir o que postei.


 


Estou espantada e orgulhosa. Não sei o que esperava a 5 de Novembro de 2005. Ainda hoje me pergunto porque mantenho este diário aberto, em que as opiniões muitas vezes não espelham as dúvidas que me assaltam, as mudanças de humor, os estados de alma, o que vou descobrindo de mim e do mundo.


 


Obrigada a estes mais de 200.000 visitantes.


 

24 março 2010

Autismo

Já todos percebemos que ninguém está minimamente preocupado com o facto do Primeiro-ministro ter dito ou não a verdade sobre o negócio da TVI. O que tem interessado a oposição, nomeadamente o PSD, é desgastar continuamente a imagem de Sócrates, pela manifesta incapacidade de o derrotarem convencendo os cidadãos de que tem uma alternativa para o país.


 


As audições na comissão de ética são inequívocas. Até Nuno Santos desqualifica Mário Crespo. Acredito que o país inteiro encolha os ombros perante tanto disparate.


 


 


Entretanto os sindicatos continuam a delapidar todo o seu já escasso potencial de defensores dos trabalhadores. As greves anunciam-se e fazem-se por aumentos salariais. Da função pública aos pilotos da TAP, passando pela CP e pela REFER, o autismo é total.

Agências de rating

É muito estranho o timing da agência Fitch, que piorou a classificação da dívida portuguesa. Na verdade não percebo nada de economia, mas se isto não é especulação e chantagem, parece muitíssimo. Por um lado elogiam o PEC, por outro sugerem que não vai ser cumprido e contribuem grandemente para essa possibilidade.


 


Cada vez mais esta obrigação de um estado, de um país, obedecer às agências financeiras, tomando as medidas que elas entendem e sujeitando-se a este tipo de análises e de má publicidade, me revolta. Isto não é melhorar a nossa economia. Isto é obedecer a uma lógica de ganhar dinheiro a todo o custo.

23 março 2010

Ser poeta / Perdidamente

 


 










 


 


Poema de Florbela Espanca


Trovante


 


 


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior


Do que os homens! Morder como quem beija!


É ser mendigo e dar como quem seja


Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


 


É ter de mil desejos o esplendor


E não saber sequer que se deseja!


É ter cá dentro um astro que flameja,


É ter garras e asas de condor!


 


É ter fome, é ter sede de Infinito!


Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...


É condensar o mundo num só grito!


 


E é amar-te, assim, perdidamente...


É seres alma, e sangue, e vida em mim


E dizê-lo cantando a toda a gente!

21 março 2010

Que o amor não me engana

 



Zeca Afonso


 


 


Que amor não me engana

Com a sua brandura

Se da antiga chama

Mal vive a amargura


 


Duma mancha negra

Duma pedra fria

Que amor não se entrega

Na noite vazia?


 


E as vozes embarcam

Num silêncio aflito

Quanto mais se apartam

Mais se ouve o seu grito

 


Muito à flor das àguas

Noite marinheira

Vem devagarinho

Para a minha beira


 


Em novas coutadas

Junta de uma hera

Nascem flores vermelhas

Pela Primavera


 


Assim tu souberas

Irmã cotovia

Dizer-me se esperas

Pelo nascer do dia

 

Devassa e populismo

 


Jaime Gama fez bem ao lembrar os deputados que os computadores, os assentos, o espaço, os lugares, a responsabilidade, a representação são publicas, de todos nós.


 


Mas não há nada que justifique a invasão da privacidade seja de quem for. Portanto José Lello tem toda a razão e Jaime Gama apenas aumentou a confusão entre informação e coscuvilhice.


 

Viver de lado

 



Berkeley: tea and poetry


 


 


Falo-te dos poetas que o são em segredo

dentro da incandescência dos sentidos

que partilham um ser humano desprevenido.

Falo-te dos poetas que em silêncio saboreiam palavras

para que as ouçam no eco nos pensamentos de outros

nos gestos de quem se dá. Falo-te dos poetas dos tempos de luto

ou de sol manso que entre as cortinas do fumo da vida

entreabrem pequenos desenhos de futuro.

Falo-te dos poetas que não abrem a voz

não olham aos céus nem imaginam hipérboles brancas

sem luzes nem mãos esvoaçantes. Falo-te dos poetas que moram ao lado

que vivem de lado e adormecem a personagem que os acolhe

transformando a noite em poemas de olhos abertos.


 

A sagração da Primavera

 



Pina Bausch

Igor Stravinsky


 

Reequacionar a Europa

 


Manuel Alegre fez um excelente discurso. Não um discurso de quem quer ser Presidente, pois é um discurso programático para uma legislatura. Mas frontal, sem medo de assumir as suas opções e as críticas ao PS com as quais, em muitos aspectos estou totalmente de acordo.


 


Mas há um problema de base nas críticas de Manuel Alegre. Se são os ditames do Banco Central Europeu que nos orientam a política, se são as ordens de um capitalismo sem regras, de soluções velhas de recurso para a salvação económica, que já experimentámos e das quais já provámos a amargura e a ineficácia, talvez seja altura de acabar com tabus à esquerda e à direita e questionar se é esta a Europa que queremos, se é esta a Europa que nos serve.


 


E no entanto, foi esta a Europa que o deputado Manuel Alegre tem aprovado e aprovou, nomeadamente quando votou o Tratado de Lisboa. É esta Europa que nos impõe uma determinada forma de encarar o défice e de abordar a quebra das despesas e o aumento das receitas, que Manuel Alegre, como deputado português, fez questão de ratificar.


 


Talvez valha a pena pensarmos na reavaliação de tudo. A começar pelo modelo que queremos para a nossa sociedade. A começar por ter a certeza de que a economia deve estar ao serviço dos cidadãos.

 

20 março 2010

Beijo de saudade

 



Tito Paris & Mariza


 


 


Ondas sagradas do Tejo

Deixa-me beijar as tuas águas

Deixa-me dar-te um beijo

Um beijo de mágoa

Um beijo de saudade

Para levar ao mar e o mar à minha terra


 


Nha terra ê quêl piquinino

È Cabo Verde, quêl quê di meu

Terra que na mar parcê um minino

È fidjo d'oceano

È fidjo di céu

Terra di nha mãe

Terra di nha cretcheu


 


Nas tuas ondas cristalinas

Deixa-me dar-te um beijo

Na tua boca de menina


Deixa-me dar-te um beijo, óh Tejo

 


Um beijo de mágoa

Um beijo de saudade

Para levar ao mar e o mar à minha terra


 


Na bôs onda cristalina

Na tua boca de menina

Um beijo de mágoa

Pá bô levá mar, pá mar leval'nha terra

Pá bô levá mar, pá mar leval'nha terra


 

19 março 2010

Ciclos

 



Wordle


 

Chumbo

 



Michael Olszewski


 


Deixo que as letras se formem no branco letras pretas vivas desejosas de se escreverem. Saem assim depressa e levemente mesmo que escrevam pedras e sono e chumbo e dor. Pedras de chumbo que dormem com dor. Sono de pedras com chumbo de cor. Palavras sem tino nem nexo só palavras que me saem e me pesam.


 


Depois há os dedos as teclas os sinais as vírgulas os pontos finais. Aqueles que uns gostam e outros riem gozam desprezam. Não se podem ignorar aqueles que torcem as bocas em risos sem som só grandeza frígida condensada no alto da arrogância de quem se pensa único. Por isso me arrogo o mesmo direito a mesma sombra de riso no canto da boca. Leio não gosto leio apago leio quero não ler dormir afundar o corpo até ao peso da terra quebrar os magmas as árvores rasgar-me pelos mares que atravessam de um ao outro lado a desesperança.


 


Fecho os olhos a boca volto do avesso o grito retraio o som silenciado perante tantas letras tantas palavras que nos custam a pele os nervos que desligam a mente sem muita dor muito peso muito chumbo.

Um dia como os outros (46)

 


(...) Este pode ser o momento de viragem deste governo. Ou Sócrates toma a coisa a peito, mostra quem manda e mostra que o programa eleitoral é para cumprir - e pode recuperar a iniciativa política, redesenhando a equação própria do PS e os desafios que ela deve colocar aos outros partidos e forças sociais (incluindo sindicatos e patronato); ou o PS, Sócrates, o grupo parlamentar e os fazedores de opinião socialista calam a boca por conveniência - e acabou a festa, pá. A partir daqui será sempre a cair. O outro dirá "porreiro", mas já sem o "pá", claro. (...)


 

Um dia como os outros (45)

 


(...) Não falo do modo como esta opção contradiz o programa eleitoral com que o PS se apresentou às eleições, nem sequer do que esta escassez de recursos representará num país pobre como o nosso, quando o desemprego se manterá a níveis socialmente intoleráveis. O que está em causa é também uma questão de identidade partidária. (...)





(...) Em última análise acaba com uma lógica de direitos de cidadania e faz regressar a política de combate à pobreza aos apoios discricionários com que rompeu no passado. A mensagem é clara: as pessoas ficam para o fim.(...)


 

17 março 2010

Sem limites

 


Depois do ministro Teixeira dos Santos ter feito uma comunicação ao país, quanto a mim coberto de razão, sobre a alteração à lei das finanças regionais, aprovada por toda a oposição parlamentar, o Presidente da República decidiu promulgar a nova lei. E o PS congratulou-se com esta medida.


 


A incoerência tem limites. Qual vai ser a posição do ministro das Finanças? Isto para não falar outra vez do PEC, muito bem dissecado também por Paulo Pedroso.


 

16 março 2010

Irreprimível

 


Nem sei muito bem que dizem as línguas dobradas

os olhos em alvo as mãos decepadas

nem sei muito bem que murmuram os dedos escondidos

entre o vício do costume e a revolta esmorecida

mas sinto este imenso desejo de não ser


este irreprimível cansaço


por ouvir


e  ver.


 

Diversões

 


Infelizmente o PS insiste em descredibilizar o Parlamento e o seu próprio partido. Não há nada mais importante a discutir do que os estatutos de um partido político aprovados pelos seus militantes?


 

Um dia como os outros (44)

 


(...) O que o Governo propõe é pura e simplesmente retirar toda a protecção a milhares de famílias, designadamente a protecção não-contributiva. Temo dizê-lo, mas o esforço de consolidação orçamental tem, de facto, de ser alcançado, mas, por isso mesmo, para que seja possível fazê-lo, é preciso criar uma rede de mínimos coerente e eficaz. E que tal cortar os 130 milhões de euros que se quer cortar com "os malandros do rendimento mínimo" em prémios e salários no sector empresarial do Estado ou, em alternativa, incluir já no OE para 2010 a tributação das mais valias bolsistas. (...)


 

Assinar...

 



Combinado del Este Prison - Havana


 


... pela liberdade, em Cuba.


 

14 março 2010

Everybody Hurts

 



R.E.M.


 


 


When the day is long and the night, the night is yours alone,

When you're sure you've had enough of this life, well hang on

Don't let yourself go, 'cause everybody cries and everybody hurts sometimes


 


Sometimes everything is wrong. Now it's time to sing along

When your day is night alone, (hold on, hold on)

If you feel like letting go, (hold on)

When you think you've had too much of this life, well hang on


 


'Cause everybody hurts. Take comfort in your friends

Everybody hurts. Don't throw your hand. Oh, no. Don't throw your hand

If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone


 


If you're on your own in this life, the days and nights are long,

When you think you've had too much of this life to hang on


 


Well, everybody hurts sometimes,

Everybody cries. And everybody hurts sometimes

And everybody hurts sometimes. So, hold on, hold on

Hold on, hold on, hold on, hold on, hold on, hold on

Everybody hurts. You are not alone


 

A agenda do candidato

 


Por outro lado, acho muito bem que a aprovação do PEC não obedeça à agenda de Pedro Passos Coelho. Pelos vistos a data de 25 de Março foi acordada entre os partidos com assento parlamentar, entre os quais o PSD.


 

Clarificação necessária

 


Vitalino Canas veio falar sobre o congresso do PSD. Pois eu gostaria mais que os militantes do PS pensassem em fazer encontros, tertúlias, mesas redondas e quadradas a falarem do PS.


 


É urgente que haja discussão interna sobre a clarificação ideológica dentro do próprio partido socialista. É indispensável que os cidadãos percebam quais são as opções políticas que têm. Neste momento, e por causa dos problemas financeiros que o país atravessa, as soluções propostas pelo governo confundem-se muito com as soluções preconizadas pelos adversários políticos que há bem poucos meses foram combatidos.


 


O PS é o partido da esquerda democrática. É preciso esclarecer, por exemplo, quais as razões das privatizações anunciadas, nomeadamente dos CTT. Ou será que temos que nos conformar com a inevitabilidade do fim da ideologia e que a economia, em vez de estar ao serviço das decisões dos cidadãos, impõe regras que ninguém escolheu?


 

Dizem eles

 


O que nos destrói o sentido da luz

são as pedras que se entranham entre as nuvens

por onde vislumbramos a dor de não chegar.

São os olhos dizem eles de sonhos em cruz

enredos de memórias e fundas rugas

são eles dizemos nós.

Todos de partida para invernos de palavras

todos de chegada a nenhum lugar

náufragos sem terra.


 

13 março 2010

Pensamento próprio

 



DN


 


Ricardo Costa repete à exaustão que o discurso de Passos Coelho foi muito bom no início e muito mau no fim, pela gaffe contra Alberto João Jardim. Deve ser para nós nos convencermos mesmo disso. Também nos recorda de minuto a minuto que Aguiar-Branco quase deixou a assistência a dormir.


 


Isto de pensar pela própria cabeça é tão ou mais importante que ser dono dos dedos que seguram as canetas que riscam os papéis de voto.


 



DN


 

Concerto para dois violoncelos

 



Vivaldi - Concerto para dois violoncelos em sol menor


Jonathon Cohen & Sarah McMahon

Robert King

King's Consort


 

Donos de votos

 



 


Não deixa de ser muito engraçado que, após um discurso que já ouvi apelidar de brilhante mas que considerei de um vazio confrangedor, aquele que lembrou aos delegados que cada um era dono do seu próprio voto, fosse o mesmo que tão satisfeito ficou por receber os hipotéticos votos do dono da Madeira.

12 março 2010

A democracia cubana

 



Orlando Zapata


 



Guillermo Fariñas


 

Um dia como os outros (43)

 


(...) The monetary union and the euro are best protected if the eurozone remains credible and capable of taking action, even in difficult situations. This necessarily means suspending an unco- operative member state's voting rights in the Eurogroup, he said.





Should a eurozone member ultimately find itself unable to consolidate its budgets or restore its competitiveness, this country should, as a last resort, exit the monetary union while being able to remain a member of the EU, Schaeuble added. (...)


 

Falta de comparência

 



 


As sondagens que têm saído nos últimos dias, mesmo com valores percentuais diferentes, apontam, no entanto, para as mesmas conclusões:



  • José Sócrates e o PS não descem nas sondagens porque os cidadãos não vislumbram alternativas credíveis, nem à direita nem à esquerda.

  • A estratégia de desgaste pessoal, com ataques ao carácter do Primeiro-ministro não resulta. Ao contrário da opinião publicada, as pessoas já entenderam que há uma tentativa de golpe de estado através da intriga e da manipulação dos media.

  • Nenhum dos candidatos à liderança do PSD é entendido como hipótese de governo, pela ausência de discurso político, pela demagogia e pela aridez de ideias. O PSD parece continuar a travessia do deserto, digladiando-se e entretendo-se em lutas de facções, sem qualquer preocupação pelo país.

  • À esquerda, o BE e o PCP têm feito aquilo que para o seu eleitorado seria impensável – unirem-se à direita. Por muito que desaprovem as medidas do governo, os eleitores destes partidos já perceberam que são partidos que apenas sabem ser contra, não rejeitando alianças espúrias, apenas para continuarem a monopolizar os protestos e a capitalizar os descontentamentos.


Apenas com discussão política de alternativas e ideias para a governação haverá lugar à alternância no poder. A enorme responsabilidade dos partidos da oposição não parece acordar as consciências dos seus militantes e dirigentes. Porque a democracia constrói-se com debate a sério e que tem sido praticamente inexistente, por falta de comparência.

 

Desrespeito democrático

 



 


Tenho um enorme respeito por Teixeira dos Santos que também me merece confiança. Ao contrário de muitos que passam a sua vida a dizer como é que se deve fazer ele mostrou que sabe fazer.


 


Mas não é possível deixar em claro o desrespeito que mostrou ontem ao chamar boys aos Presidentes das Juntas de Freguesia. Mesmo que tenha razão ao não concordar com transferência de mais 5 milhões de euros para remunerações, não se pode confundir os representantes eleitos com os assentos dourados que todos os partidos no poder arranjam aos aos seus acompanhantes.


 


O Parlamento fez muito bem em pedir que Teixeira dos Santos se retratasse e o Ministro fez muito mal em não ter pedido desculpa.


 

11 março 2010

Face descoberta

 



 


Sondagem realizada pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa


6 - 9/Março/2010


 

Entrevista com o Presidente

 



 


O Presidente da República foi ontem entrevistado por Judite de Sousa. Já outros se expressaram com pormenor sobre a entrevista.


 


Na verdade, nada de novo.



  • O Presidente não dissolverá a Assembleia da República - é um trabalho para a oposição fazer.

  • O Presidente acha que o povo português não está esclarecido sobre o negócio da TVI, porque a Assembleia quer uma comissão de inquérito - forma pouco subtil de acusar Sócrates.

  • No tempo do Presidente como Primeiro-ministro, o negócio nunca se faria sem o seu conhecimento - foi há 20 anos e só havia televisão pública.

  • O Presidente acha que ninguém está acima da lei, a propósito do processo Face Oculta - leia-se Sócrates.

  • O Presidente irá consultar os arquivos para saber quando ponderaram os anteriores presidentes a recandidatura, para ele próprio ponderar - ou seja, anuncia a candidatura lá para Outubro.


Claro que Judite de Sousa nunca se lembrou das quebras do segredo de justiça, não se lembrou do caso BPN nem de Dias Loureiro, e o episódio das escutas de Fernando Lima foram uma ligeira inconveniência a fazer ao Presidente.


 


Claro que o Presidente se referiu sempre a ele próprio de uma forma bastante presidencial.


 


Nada de novo, portanto.


 

Greve na TAP

 


A administração da TAP mostrou intenções de pedir estatuto de excepção para poder aumentar os salários, pois deveriam estar congelados como em toda a função pública e empresas públicas. Mas os pilotos acham que 1,8% é muito pouco e resolvem entrar em greve durante uma semana, precisamente na altura da Páscoa.


 


Há reivindicações que, sinceramente, estão para além da minha compreensão, comum mortal que sou.


 

09 março 2010

Um dia como os outros (42)

 


(...) se telefona um dirigente do PSD ou do CDS, um Durão Barroso, um Paulo Portas, um Santana Lopes, trata-se de um telefonema de amigos, de correligionários políticos que exercem o seu direito a esclarecer uma qualquer notícia coxa, enviesada; mas se o telefonema é de um adversário político, de um qualquer dirigente do PS, por exemplo, o telefonema só pode ser entendido como uma pressão. (...)


 

A capitulação do PS

 



DE


 


O PEC, mais do que um programa de relançamento económico e de tentativa de equilíbrio das contas públicas, para que os mercados e a Europa acreditem na economia portuguesa, expressão empregue por Sócrates ontem na conferência de imprensa que deu às 20h00, é uma visão do País. Visão essa que resulta da capitulação quase total deste governo à política defendida pelo PSD e pela Dra. Manuela Ferreira Leite.


 


Uma das características da anterior legislatura foi a noção de que havia uma estratégia de modernização para Portugal, uma aposta na inovação, na ciência, nas novas tecnologias de informação, nas novas energias, nos transportes ferroviários de alta velocidade menos poluentes. O desenvolvimento das regiões afastadas das grandes metrópoles tudo teriam a ganhar com esta visão de um território mais pequeno pela existência de comunicações (internet e físicas) a alta velocidade, que poderiam por à disposição de todos os cidadãos ferramentas e serviços, repovoando o interior, com maior qualidade de vida.


 


Durante a campanha para as últimas eleições os investimentos públicos como o TGV foram uma das bandeiras do programa socialista, criticadas pelos partidos à sua direita, que acusaram Sócrates de aumentarem o défice e a dívida externa com esse projecto.


 


Outro dos assuntos muito debatidos e que faziam a diferença entre uma visão de esquerda e de direita da sociedade foi precisamente a definição das funções do estado. Até pela profunda crise económica existente, devido à ausência de mecanismos de regulação da economia de mercado, o PS assumiu-se defensor de um estado prestador de serviços, atacando a direita pela sugestão de privatização de parte da segurança social e da caixa geral de depósitos.


 


Pois o PS esqueceu a sua visão do País, esqueceu-se do estado prestador, esqueceu-se das altas velocidades. O PS aceitou as imposições da direita e do presidente, tendo cedido à retórica habitual dos economistas do costume. O PEC apresentado poderia ter sido a proposta do PSD, com uns pozinhos de PS.


 


Para quem votou no PS como eu, não é possível que não esteja profundamente desiludido e confuso, como eu. Para além da crise, dos esforços e da factura que cada um tem que pagar, que aceito como inevitável, não deveria ser inevitável abdicar daquilo que poderia ser o nosso desenvolvimento sustentado, a nossa luta pela democratização da comunicação e da informação, o nosso esforço de redução das desigualdades pela aposta nas novas tecnologias e nos desafios científicos e ambientais.


 


O PS, assim como o BE e o PCP, que inviabilizaram qualquer hipótese de acordo parlamentar e de governação à esquerda, mesmo durante a campanha eleitoral, podem assumir as responsabilidades de terem contribuído, mais uma vez, para o status quo do Bloco Central.


 


O sacrossanto, cinzento, avassalador e presidencial Bloco Central.

 

08 março 2010

Contos

 



Graça Morais




Penteio a tua vida em contos de Outono.

Entranço os teus cabelos brancos

arrumados em ondas de filhos invisíveis

como o rosto que me escondes.


 

Feminismo

 



Joseph el Arid: women working


 


Não sei se sou feminista. Não sei se luto pela igualdade entre os homens e as mulheres.


 


Não penso que um dia internacional das mulheres, como um dia internacional das crianças, possa resolver seja o que for para as causas das mulheres e das crianças. Não concordo com quotas para os cargos políticos ou para lugares de topo das administrações do estado ou das empresas.


 


Nestes dias ouço grandes elogios a várias mulheres, que por um motivo ou por outro se distinguiram, foram e são exemplos de excelentes profissionais, de generosidade cívica, de criatividade invulgar. Assisto à distribuição de flores às mulheres surpresas que franqueiam as portas dos empregos, dos supermercados, das escolas.


 


E no entanto são estas mesmas mulheres que recebem uma flor simbólica que todos os dias são ignoradas pela sua família, pelos seus empregadores, pelos seus delegados sindicais, pelos seus governantes. São essas mesmas mulheres que se levantam antes de todos para prepararem as mochilas, os pequenos-almoços e as merendas dos filhos, que passam a ferro depois de arrumarem as cozinhas à noite, antes de desabarem na cama, são essas mulheres que cumprem o melhor que podem e sabem as suas funções profissionais, roendo-se de culpa pela ausência da companhia aos filhos e a toda a família, são essas mulheres que ganham menos que os homens, que faltam mais que os homens, que são despedidas antes dos homens.


 


Os sinais são muito lentos mas é no dia-a-dia que o feminismo se faz. Não com flores ou com palavras de ordem, mas com a persistência de quem tem razão, promovendo a igualdade e a paridade nos diversos deveres que prendem a mulher aos seus afazeres ancestrais, que distribuem papéis predeterminados aos géneros.


 

07 março 2010

Andar de baixo

 



Stephen Nova: Forty Five Downstairs


 


Moro no andar de baixo

daquele que sempre quero.

Abro a porta e espero

que as escadas te encaminhem

para o andar que partilhamos

patamares de diferenças

com que nos amamos.

 

Função Pública

 



 


Quando nos apercebemos de que o plano anticrise do governo apenas foi concretizado em cerca de metade e que o défice atingiu mais de 9% do PIB, tendo aumentado exponencialmente algumas prestações sociais (apoio aos desempregados, por exemplo), percebemos que o papel do estado é crucial e que os recursos precisam de ser direccionados para quem mais necessita.


 


O discurso de diabolização dos funcionários públicos é muito antigo e utilizado pelos defensores de um estado mínimo, ou de quase ausência do mesmo. Não é o meu caso. Defendo um estado que assegure os serviços de defesa e segurança, de justiça, de saúde e de educação, universais e gratuitos, porque penso ser essa a essência da igualdade de oportunidades, para que todos, independentemente da cor, raça, género ou condição social, tenham direito à felicidade.


 


Sendo assim os funcionários públicos são um garante dos alicerces da democracia. Mas não é por isso que não se lhes deve exigir competência, rigor, brio profissional e excelente desempenho. Não é por isso que devem ter empregos vitalícios, independentemente da sua prestação, promoções automáticas, independentemente da sua competência. Não é por isso que estão à parte dos outros trabalhadores, que não lhes devem solidariedade.


 


O movimento sindical cristalizou e não evoluiu com a sociedade. Por isso temos dirigentes sindicais com o mesmo discurso hoje que tinham há 20 anos. Por isso os dirigentes sindicais são os mesmos de há 20 anos. Por isso nunca ouvi os dirigentes sindicais assumir a sua quota de responsabilidade na enorme desigualdade entre ricos e pobres, assim como na enorme e persistente diferença entre os salários dos homens e das mulheres, pelo facto de haver tanta precariedade de emprego, tantos desempregados, tanta falta de formação e de especialização.


 


Os sindicatos da função pública defendem o status quo daqueles que têm um horário de trabalho certo, daqueles que recebem um ordenado certo ao fim do mês, muito ou pouco, quer trabalhem muito, pouco, bem ou mal, conseguem defender a inexistência de avaliações de desempenho, conseguem pedir aumentos salariais de 3,5% na crise que atravessamos. Conseguem ainda, com justificações patéticas, recusar a hipótese de monitorização conjunta da adesão às greves, o que contribui ainda mais para a descredibilização dos números por eles apresentados.


 


Se as suas reivindicações fossem satisfeitas, nomeadamente  o aumento salarial, com o inevitável aumento de prestações sociais a que vamos assistir este ano, pelo desemprego crescente, pelas reformas antecipadas, etc., como evoluiria o défice e o comportamento das contas públicas?


 


É claro que há outros sectores que devem contribuir para o equilíbrio financeiro do estado: a tributação do sector bancário, dos prémios aos gestores, das mais-valias bolsistas, etc., Ninguém deve ficar de fora e todos devem contribuir para o esforço da redução das despesas, do aumento das poupanças, assim como devem ser assegurados pelo estado os serviços essenciais e de qualidade. As exigências são para todos.

 

Intervenção política e sociedade civil

 



Evelien Lohbeck: silhuette


 


O apelo à participação da sociedade civil na vida política do país serve apenas quando essa sociedade civil não está interessada em participar.


 


O anúncio da candidatura de Fernando Nobre é disso um exemplo. É um homem que vem de fora da esfera dos partidos, que tem uma ampla e reconhecida participação de cidadania em organizações humanitárias, tem opiniões políticas sobre vários assuntos, que muitos desconhecem porque também nunca se interessaram em conhecer, assume uma postura apartidária e apolítica mas não anti-política. Fala em valores de humanidade e solidariedade, fala na moralização da vida pública, no conceito de nação, no respeito pelos valores da identidade nacional, nos valores éticos, na avaliação que tem de si próprio e daquilo em que pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos seus concidadãos.


 


Um discurso não muito diferente daquele que Manuel Alegre teve quando se candidatou em 2005, e que eu apoiei entusiasmadamente. Também ele apelou aos movimentos cívicos apartidários e suprapartidários, para a sociedade civil que não se revisse nos jogos aparelhísticos que resultaram na escolha de Mário Soares como candidato oficial do PS. Também ele se revia nos valores éticos e humanísticos, na solidariedade entre gerações, no papel de todos quantos quisessem fazer parte integrante de uma cidadania interventora, em Portugal como nação historicamente resistente e indissolúvel, nos valores da pátria e no sentido do dever. No entanto Manuel Alegre é militante do PS e sempre foi um actor político e partidário no pós-25 de Abril, como já o era no tempo da ditadura o que, obviamente, não representa qualquer problema.


 


No entanto já se ouviram várias vozes que entendem o apartidarismo de Fernando Nobre como uma crítica à democracia representativa assente em partidos políticos, já se ouvem críticas pelo facto de Fernando Nobre não ter um pensamento político, já se declaram incredulidades pelos apoios que foi dando, ao longo da sua vida, e pelos arrependimentos e desilusões que manifesta. Já se diz que a sua experiência e actividade nas ONG, nomeadamente na AMI, a sua presença e actuação em tantos locais de catástrofe, a sua capacidade de decisão e a sua generosidade, não são bases para um bom mandato presidencial.


 


Se há alguém que podemos considerar emanar da tão falada e tão desejada sociedade civil é Fernando Nobre. Não o eleger é um direito que os cidadãos têm, mas menorizar a importância da sua candidatura é demonstrar que, afinal, não queremos a sociedade civil imiscuída na política.

 

04 março 2010

Um dia como os outros (41)

 


(...) Mas a esperança continua longe de morrer. A prazo, as empresas terão de rever as estratégias porque caçar búfalos deixou de ser uma função diz Filomena Mónica, que conclui: As coisas têm mudado, muito lentamente, mas têm mudado. Vão é mudando a zero vírgula 23 pontos percentuais por ano.


 

Um dia como os outros (40)

 


O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirma que houve má fé na comparação entre a situação económica de Portugal, Espanha e Grécia e instou analistas internacionais, agências e imprensa económica a olhar para indicadores objectivos. (...)





(...) No momento de adesão ao euro, lembrou o Presidente da República, a Grécia apresentava uma dívida de 100 por cento relativamente ao seu produto interno bruto, que é agora de 120 por cento. As estatísticas oficiais da Grécia não são fiáveis - o próprio governo [grego] o reconheceu -, pelo que o desequilíbrio das suas contas públicas é de 12 ou 13 por cento, o dobro do que se supunha. Nada disso ocorre em Espanha e em Portugal, frisou Cavaco Silva, exemplificando que a dívida pública espanhola é baixa, tão baixa como a da Alemanha ou da França, e que a de Portugal é mais baixa do que a da Bélgica, da Itália e, claro, da Grécia. Penso que houve alguma dose de má fé nesta comparação, afirmou Cavaco Silva ao jornal catalão. (...)


 

Pasmo

 



Bullying


 


Doem-me os ossos a língua

a míngua

a dor do desprezo

o medo

a chuva o pasmo

o sarcasmo

do mundo.

Enterro-me no fundo

nas pedras no lodo


desfaço-me todo


desapareço.


 

Garcia Pereira - o novo assessor governamental

 



 


(...) E isso a que alguns chamam liberdade de informação, não passará do toque a finados do Estado de Direito democrático e da própria democracia. (...)


 

03 março 2010

A nossa luta sindical

 


Com um défice superior a 9% (que aumentou para fazer face à profunda crise mundial dos 2 últimos anos), com um desemprego superior a 10% e ainda a crescer, os Funcionários Públicos vão fazer greve amanhã porque não aceitam o congelamento dos seus salários, porque estão contra o seu sistema de avaliação de desempenho, porque estão contra o ataque às suas conquistas irreversíveis dos trabalhadores.


 


É difícil assistir a maior autismo, irresponsabilidade e corporativismo. A solidariedade dos sindicatos  dos trabalhadores da Função Pública é apenas com eles próprios. O resto do país não lhes interessa.


 

Esclarecimento



Este é o texto de Ana Vidigal, publicado hoje pelo Público, em Cartas à Directora (pág.34), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições:


 


Tendo tido conhecimento que o colaborador do blogue Jamais Dr. José Pacheco Pereira publicou no jornal que V. Ex.ª dirige um artigo de opinião em que afi rmava que o blogue Simplex utilizou “informação com origem no Governo [...] preparada por assessores e usando os recursos em bases de dados e outros disponíveis na Rede Informática do Governo”, passo a esclarecer:


Colaborei no blogue Simplex. Fi-lo com o intuito de apoiar o Partido Socialista. Nunca nenhum dirigente do mesmo partido ou qualquer membro ou assessor do Governo me contactou directa ou indirectamente. Nunca tive acesso à rede informática do Governo e muito menos utilizei recursos do Estado ou do Partido Socialista.


A minha colaboração foi pro bono e terminou no dia 27 de Setembro de 2009. Mais informo, e mantendo o “espírito dos meus posts no Simplex”, que o único Rato com que privo… é o Mickey.

Ana Vidigal

artista plástica


 

02 março 2010

SIMplex: outro esclarecimento

 


Este é o texto de Irene Pimentel, publicado hoje pelo Público, em Cartas à Directora (pág.38), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições:


 


Em artigo publicado, [no sábado, dia 20 de Fevereiro] o cronista José Pacheco Pereira afirma que o blogue SIMplex utilizou «informação com origem no Governo [...] preparada por assessores e usando os recursos em bases de dados e outros disponíveis na Rede Informática do Governo». Na qualidade de colaboradora desse blogue, afirmo categoricamente: não sou militante do Partido Socialista, tendo aceitado colaborar no SIMplex por opção pessoal; não contactei nem fui contactada directa ou indirectamente por qualquer assessor ou dirigente do PS ou do governo; não solicitei nem me foi facultado qualquer tipo de informação e/ou apoio técnico; não tive acesso, em nenhuma circunstância, à Rede Informática do Governo; não utilizei recursos do Estado ou do PS, durante e após a campanha eleitoral; por último, mas não em último, os textos que escrevi foram cedidos pro bono.


Irene Flunser Pimentel


 

O regresso do delito de opinião

 





João Cóias


 


Tenho já poucas palavras para descrever a indignação que o artigo saído hoje no i, com capa de primeira página, me causa.


 


As fronteiras foram ultrapassadas e é oficial a caça às bruxas, em que as bruxas são todos os que fizeram campanha a favor do PS, os que defendem as políticas do governo, os que não alinham no novo desporto nacional – a devassa do que é privado, a colagem de retalhos de frases e de factos para se compor uma mentira, o reciclar de antigas hipóteses de escândalos em difamações(1).


 


O que faz falta é calar a malta, o novo sound bite de quem não tem coluna vertebral. Voltámos aos sussurros nos locais públicos, porque o vizinho pode ouvir, à linguagem cifrada para comunicar alguma coisa menos politicamente correcta.


 


Aguardemos os próximos episódios. Havia muitos colaboradores no SIMplex, e alguns que integraram durante algum tempo A Regra do Jogo (blogue misteriosa e abruptamente apagado, provavelmente por José Sócrates ou por algum assessor do governo). O i tem as vendas asseguradas por mais uns tempos. O grande problema é que não conseguem encontrar o que não existe.

 


(1) Via Der Terrorist


 


Nota: ler também os posts do Eduardo e de todos os que ele linkou.


 

01 março 2010

As conclusões antes da inquirição

 


Aquilo que sempre me pareceu a actuação correcta para apurar responsabilidades políticas da actuação do governo no caso da compra da TVI, ou mesmo da actuação do Procurador Geral da República, uma Comissão Parlamentar de Inquérito, já tem as conclusões tiradas mesmo antes de ser aprovada.


 


Só a minha total ingenuidade pode pensar que este PSD tem algum sentido de estado ou de decência. Só a minha total ingenuidade para não perceber, de imediato, que o objectivo não é dignificar a Instituição Parlamentar, é apenas denegrir o Governo e desgastá-lo para precipitar eleições antecipadas.


 

O bonde do dom

 



Marisa Monte


 


 


Novo dia

Sigo pensando em você

Fico tão leve que não levo padecer

Trabalho em samba e não posso reclamar

Vivo cantando só para te tocar


 


Todo dia

Vivo pensando em casar

Juntar as rimas como um pobre popular

Subir na vida com você em meu altar

Sigo tocando só para te cantar


 


É o bonde do dom que me leva.

Os anjos que me carregam

Os automóveis que me cercam

Os santos que me projetam


 


Nas asas do bem desse mundo

Carregam um quintal lá no fundo

A água do mar me bebe

A sede de ti prossegue

A sede de ti...


 


Novo dia

Sigo pensando em você

Fico tão leve que não levo padecer

Trabalho em samba e não posso reclamar

Vivo cantando só para te tocar


 


Todo dia

Vivo pensando em casar

Juntar as rimas como um pobre popular

Subir na vida com você em meu altar

Sigo tocando só para te cantar


 


É o bonde do dom que me leva.

Os anjos que me carregam

Os automóveis que me cercam

Os santos que me projetam


 


Nas asas do bem desse mundo

Carregam um quintal lá no fundo

A água do mar me bebe

A sede de ti prossegue

A sede de ti prossegue

A sede de ti...

 

Cardeal Cerejeira - O Príncipe da Igreja

 



 


A 9 de Março (3ª feira), às 18h30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos, poderemos assistir à apresentação de mais um livro de Irene Pimentel:


Cardeal Cerejeira - O Príncipe da Igreja


A não perder.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...