Em vez de passarmos um ano à espera de um dia poderíamos passar os dias sem esperar pelo ano.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Em vez de passarmos um ano à espera de um dia poderíamos passar os dias sem esperar pelo ano.
Em vez de segundos, minutos, horas, dias e anos, poderíamos medir o tempo em quantidade e qualidade de momentos de felicidade, nossa e dos demais.
A educação judaico-cristã que tive ensinou-me que a verdadeira felicidade é aquela que podemos oferecer ao próximo. O trabalho e a abnegação em prol do outro, tanto quanto possível em silêncio e no anonimato, o esforço para que o outro seja feliz, mesmo que à custa do nosso apagamento ou infelicidade. A sociedade de hoje exalta os valores diametralmente opostos, colocando no centro do mundo e da vida o eu, a satisfação das necessidades próprias, do prazer e da alegria, mesmo que a expensas dos outros.
Como sempre, deveríamos conseguir a sageza da moderação, nuns e noutros modos de vida, buscando o equilíbrio entre os dois tipos de vivências próprias e dos outros. No entanto tendo a valorizar mais quem se preocupa primeiro com os outros que consigo próprio e penalizo-me por não conseguir seguir este modelo. Penso muitas vezes nisto e na facilidade com que o nosso ego, sempre enorme, inchado e arrasador, acaba por esmagar e fazer definhar os dos outros.
Para 2017 tenho muitos desejos, para aqueles de quem muito gosto, e também para mim, parcos, secretos e egoístas, mas que me dariam uma enorme satisfação. Espero que o nosso País possa continuar a maravilhar-se com o geringonçar desta Geringonça, uma permanente surpresa de negociação, equilíbrio e democracia. Espero ainda mais que se não concretizem os piores prognósticos em relação à saúde da nossa Europa, com as vitórias populistas, de direita ou de esquerda, e a cegueira continuada dos líderes europeus, que não vêm nada nem entendem nada, culpando os cidadãos das escolhas que não tentam perceber nem prevenir.
Espero que 2017 seja melhor do que aquilo que, intimamente, tememos.
Quero e peço
pinto e meço
dedos e língua
canto à míngua
vozes que levo
letras que escrevo
mundo que entrego
pés que carrego
vida que ensaio
salto e caio.
A abertura de vagas para o SNS que, sistematicamente, ficam praticamente vazias, deveria levar-nos a repensar muitos dos mitos que pululam pelo espaço da discussão pública.
O SNS deixou de ser atractivo para os médicos. A sensação de que não há qualquer vantagem em o integrar, devido ao desinvestimento em equipamentos, à desadequação em recursos humanos, à desorganização dos serviços, nomeadamente dos de urgência, à inexistência, na prática, de carreiras médicas e ao facto das remunerações não serem competitivas com as do sector privado, talvez expliquem uma parte desta situação.
Por outro lado demonstra-se, ao contrário do que muito se afirma, que não há médicos a mais. Se fosse esse o caso, os lugares a concurso seriam todos preenchidos. Compreendo que um médico que fez a sua formação em Lisboa ou no Porto tenha dificuldade em mudar a sua vida para outro local, mas só não o faz porque tem outras alternativas.
Concordo com a criação de incentivos mas, pelos vistos, esta não está a resultar. Além disso também podemos perguntar-nos porque não se dão incentivos a outras profissões para que fosse possível desacelerar a desertificação do País. Porque não ponderar a possibilidade de tornar uma obrigação contratual dos médicos, após a formação específica, terem um determinado número de anos para servirem o SNS? Na realidade o Estado investe na formação de especialistas, pelo que deveria ter como contrapartida a prestação de serviço onde ele é necessário, com as devidas condições, como é óbvio.
Após o 25 de Abril instituiu-se o serviço médico à periferia, o que permitiu melhorar as condições de saúde e de acessibilidade da população a cuidados médicos, contribuindo para a fixação de muitos dos deslocados nessas localidades.
Aguarda-se que os responsáveis políticos reponderem a organização e a forma como devem ser geridos os recursos do País. O SNS precisa de gente e de reformas que não se prendem apenas com a melhor aplicação dos orçamentos disponíveis. Sob pena de desaparecer, o que seria um retrocesso sem perdão.
Vamos combater os excessos de Natal - menos sorrisos, menos generosidade, menos boas-intenções. Afivelemos pois as nossas caras rígidas e de poucos amigos, pois quem precisa de contar as calorias que come e bebe nunca está bem-disposto.
A nova moda saudável transforma a população num conjunto de pessoas inadaptadas aos inúmeros alergénios do meio – agora todos somos alérgicos à lactose e ao glúten. Além disso passámos todos a comer sementes em quantidades industriais, acompanhadas de garrafas de litro e meio de água, que bebericamos a toda a hora e momento, com a consequente permanente ocupação da casa de banho.
Drenemos pois as toxinas com sumos detox, chá verde e de gengibre. Nada de cacau quente com torradas – a manteiga e as proteínas animais são dos maiores inimigos de um corpo e de uma mente ágeis, leves, inodoras, jovens e elegantes.
Os doces são tanto melhores quanto menos doces forem. Aliás também devemos ser alérgicos ao açúcar, tolerando apenas parquíssimas quantidades de mel ou açúcar mascavado (ou amarelo), em doses milimétricas e só quando o rei faz anos. Acabemos com as vacas e os porcos e transformemo-nos em aves, com tanto peru e frango que deglutimos. Também nos podemos permitir peixinhos grelhados ou cozidos, apenas com um fiozinho de azeite, e muitos, muitos legumes, crus e cozidos, grelhados ou assados, crocantes ou cremosos, tudo o que for erva pode ser comido.
Portanto vamos combater os excessos de Natal. À falta de silícios podemos tentar a modalidade dos ginásios, às 7 da manhã ou às 8 da noite, ou ainda o PM (personal trainer), que nos faz emagrecer predominantemente na conta bancária. E entraremos em 2017 sem retenção de líquidos, redimidos e saudáveis, brindando com água aromatizada em vez de champanhe.
Ninguém pode negar o sentido de humor do nosso Primeiro-ministro. Adoraria ver todas as ofertas e saber a distribuição exacta destas geringoncinhas.
Olho para o pergaminho da pele
o espelho de uma vida a passar.
Olho para o engelhamento do corpo
com a surpresa de uma adolescência maravilhada
ou com a surda e pesada sapiência dos anciãos
sem saber por onde fugiram os rios
para onde deixei escapar as viagens
onde terei guardado os socalcos e as obrigatórias estações
ancorada em tantas e tão movediças e íngremes margens.
... is you...
Carpool Karaoke
Olivia Olson
Mariah Carey
I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need
I don't care about the presents
Underneath the Christmas tree
I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true oh
All I want for Christmas is you
I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need, and I
Don't care about the presents
Underneath the Christmas tree
I don't need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won't make me happy
With a toy on Christmas day
I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you
I won't ask for much this Christmas
I won't even wish for snow, and I
I just wanna keep on waiting
Underneath the mistletoe
I won't make a list and send it
To the North Pole for Saint Nick
I won't even stay awake
To hear those magic reindeer click
'Cause I just want you here tonight
Holding on to me so tight
What more can I do
Oh, Baby all I want for Christmas is you
All the lights are shining
So brightly everywhere
And the sound of children's
Laughter fills the air
And everyone is singing
I hear those sleigh bells ringing
Santa won't you bring me
The one I really need
Won't you please bring my baby to me quickly
I don't want a lot for Christmas
This is all I'm asking for
I just wanna see my baby
Standing right outside my door
I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
Baby all I want for Christmas is you
All I want for Christmas is you, baby
Isabel Catarrilhas Pires
Antes da tempestade (ainda) está a bonança. Reúno as forças para me levantar da cama, compondo mentalmente as listas de tarefas que me aguardam. Os rituais da preparação da Consoada, com os seus cheiros, burburinhos e sabores, já começaram há algum tempo e vão prolongar-se por todo o dia.
Mas antes um pequeno-almoço pausado e revigorante, aqueles minutos de preguiça e aconchego, para que depois se levante a tempestade de aletria, rabanadas, embrulhos, couves, bacalhau, grão...
E o melhor do mundo é dar as boas-vindas a quem quer vir.
Por todos os lugares, vários duendes, Pais-natal e Meninos Jesus fazem o Natal de quem sofre, silenciosa e discretamente, abdicando das suas casas e das suas famílias, lutando contra o sono, o medo e o cansaço. Tantos e tantos seres invisíveis que transformam a loucura da tristeza em pequenos intervalos de alguma serenidade.
A todos os que vão acompanhando os meus dias, mais ou menos irregulares, o desejo de que passem umas boas festas.
The force of nature
À minha volta uma multidão de rostos
braços cabelos olhos lágrimas sorrisos malas
crianças gritos risos abraços roupa cabelos cães
gorros rodas pó luzes toques telemóveis pressa
ansiedade movimentos abruptos esperas
desesperança tristeza cansaço abandono.
E se quiser saber o que é a humanidade
a carne e o sangue de quem nos amassa
basta observar a ondulação das partidas e das chegadas
e a irreprimível sensação do amor do amor do amor.
A dois dias da Consoada não há refúgio
para o silêncio, nesta cidade em que o atropelo das compras
e o farfalhar dos papéis, misturados no perfume da indiferença,
nos arrasam qualquer tentativa de mergulho
na bonomia ornamental.
Piazzola acompanha-me mas estou
tão deslocada, que quase flutuo entre cinzentos
e dores desconhecidas, tristezas e desesperanças,
que me chegam apenas a nível celular. Por vezes
podemos brincar aos deuses e anunciar
boas novas. É nessas alturas
que me sinto
no Natal.
Vamo-nos habituando ao horror, retomamos as nossas vidinhas. Há guerra na Síria, no Iraque, na Palestina, atentados em África, na Ásia e na Europa.
E é na Europa que mais nos dói, não porque não nos doam todas as outras mortes, todas as outras atrocidades, mas porque é dentro da nossa casa, dentro das nossas portas.
Sobressalto, horror, desfalecimento psicológico, depois a rotina, Isto já é rotina.
Mas teimamos em manter as portas abertas, não podemos ceder ao medo. Teimamos em ir vivendo, atentado após atentado, assassinato após assassinato.
E é da liberdade que não podemos prescindir. Da liberdade, do direito a uma vida digna e em segurança, da liberdade de ser respeitado e respeitar.
Agora foi em Berlim.
Cortam-se bocadinhos de raíz de gengibre, casca de limão e paus de canela e faz-se uma infusão. Bebe-se, em litradas, assim mesmo ou com mel.
Queriam também que colocasse Vicks VapoRub na planta dos pés - recusei liminarmente.
Havia ainda o pormenor de calçar depois umas meias quentes.
Um homem senta-se e afasta o trigo do joio
espera que o seu semelhante cresça e se misture
com o joio e o trigo para que sempre se afaste
e se sinta crescer semelhante na espera.
Uma mulher deita-se e espera o homem
no dia do início da tarde em que se fez dia
como o eterno leito para que sempre se deite
e para sempre espere pela tarde do dia inicial.
Um homem e uma mulher amassam a costela
que um do outro nasceu e de imediato separou
como a massa em que se fizeram e morreram
na costela que um e outro para sempre remendaram.
Patti Smith
Prémios Nobel 20016
Bob Dylan (1964)
Oh, where have you been, my blue-eyed son
And where have you been, my darling young one
I've stumbled on the side of twelve misty mountains
I've walked and I've crawled on six crooked highways
I've stepped in the middle of seven sad forests
I've been out in front of a dozen dead oceans
I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
Oh, what did you see, my blue-eyed son
And what did you see, my darling young one
I saw a newborn baby with wild wolves all around it
I saw a highway of diamonds with nobody on it
I saw a black branch with blood that kept drippin'
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin'
I saw a white ladder all covered with water
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken
I saw guns and sharp swords in the hands of young children
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
And what did you hear, my blue-eyed son?
And what did you hear, my darling young one?
I heard the sound of a thunder that roared out a warnin'
Heard the roar of a wave that could drown the whole world
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin'
Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin'
Heard one person starve, I heard many people laughin'
Heard the song of a poet who died in the gutter
Heard the sound of a clown who cried in the alley
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
Oh, what did you meet, my blue-eyed son?
Who did you meet, my darling young one?
I met a young child beside a dead pony
I met a white man who walked a black dog
I met a young woman whose body was burning
I met a young girl, she gave me a rainbow
I met one man who was wounded in love
I met another man who was wounded with hatred
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
And what'll you do now, my blue-eyed son?
And what'll you do now, my darling young one?
I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'
I'll walk to the depths of the deepest black forest
Where the people are many and their hands are all empty
Where the pellets of poison are flooding their waters
Where the home in the valley meets the damp dirty prison
And the executioner's face is always well hidden
Where hunger is ugly, where souls are forgotten
Where black is the color, where none is the number
And I'll tell it and think it and speak it and breathe it
And reflect it from the mountain so all souls can see it
Then I'll stand on the ocean until I start sinkin'
But I'll know my song well before I start singin'
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
Podem experimentar que é muito bom. Pelo menos eu gosto.
Esta foi uma ideia de uma colega minha, que me desafiou a fazer geleia de champanhe. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal mas, numa coincidência engraçada, uns dias depois ofereceram-me geleia de vinho, que é bastante interessante.
Como não sou de ignorar um tal desafio, inaugurei a época de confecção natalícia com a dita geleia. Para me inspirar fui à internet ver receitas (está lá tudo). E cumpri (quase) à risca a receita que vi.
Cozi um quilo de maçãs cortadas em quartos, com casca mas sem sementes num litro de água, durante 40 minutos (royal gala - que têm bastante teor de pectina). Escorri as maçãs, medi 600 ml do líquido restante e misturei com o sumo de 2 limões, 500 gr de açúcar e uma garrafa de espumante (achei que para experimentação científica bastava).
Deixei ferver até que começaram a formar-se muitas bolhas na superfície do cozinhado. Usei o truque de deitar um pouco num prato frio e ver se fazia ponto de estrada, para verificar o ponto. Logo que isso se verificou desliguei o lume – estava pronta.
Claro que depois ficou a remanescente maçã em papa, com as cascas. Retirei as cascas e misturei a papa de maçã com uma colher de chá de gengibre em pó, outra colher de chá de canela e um pouco de açúcar. Depois juntei amendoins, sultanas e favas fritas, deitei tudo para um tabuleiro de ir ao forno e deixei a assar (forno médio) durante 20 minutos.
Ontem aproveitei também para me desfazer de uma abóbora que carinhosamente me tinham dado (já há algumas semanas) adulando-me indecentemente com os elogios a uma compota de abóbora com chocolate que tinha feito o ano passado. Portanto repeti a dose e já está enfrascada, assim como a geleia de espumante. Começam a compor-se os cabazes de Natal.
Para o próximo fim de semana será a vez dos licores.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...