
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
30 novembro 2006
Condição Militar

Hoje em dia é frequente ler e ouvir diversas personagens interrogarem qual as funções dos militares, discorrerem sobre a inutilidade do financiamento do Exército, Marinha ou Força Aérea, dando a entender, implícita ou explicitamente, que o conjunto dos militares são sobejamente dispensáveis na nossa sociedade democrática, e que qualquer arremedo de protesto da parte da própria Instituição deve ser esmagada arrogante e exemplarmente.
Com frequência são as mesmas pessoas que sugerem a importância da representação de Portugal no exterior, nomeadamente com a presença das mesmas Forças Armadas em terrenos de conflito internacional, como parte de corpos de manutenção da paz, congratulando-se com o elevado profissionalismo e qualidade desses corpos especiais.
Ontem, a propósito da divulgação de uma carta ou memorando do Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (Almirante Mendes Cabeçadas) ao Ministro da Defesa, Jorge Coelho, na Quadratura do Círculo, defendeu que os militares deveriam acatar as decisões do governo e que era natural que não gostassem quando lhes tiravam regalias, o que acontecia com todas as outras classes profissionais. E ainda que era preciso cumprir a lei. E ainda que não é por eles terem armas que se deve recuar.
É claro que o país é pobre e tem muitas dificuldades. Mas os militares não têm uma profissão idêntica às outras profissões, não são funcionários públicos como todos os outros. São servidores do Estado com deveres muito específicos, entre os quais a disponibilidade completa do seu tempo, da sua pessoa, por vezes da sua própria vida. Não têm os mesmos direitos cívicos que todos os outros cidadãos, visto não poderem manifestar-se, criar sindicatos que tratem dos seus problemas laborais, que reivindiquem aumento de ordenados ou pagamentos de horas extraordinárias (para eles não há horas extraordinárias), não podem pertencer a partidos ou candidatar-se a cargos políticos, têm algumas das suas liberdades cívicas cerceadas.
Parece-me natural que o Estado deva dar algumas contrapartidas a estes seus servidores. Sou a favor da extinção da ADSE, das caixas de previdência dos magistrados, dos juízes, dos advogados, dos médicos, dos jornalistas, até de toda a função pública. Com excepção do subsistema de saúde para os elementos das Forças Armadas, da Guarda Nacional Republicana e da Guarda Fiscal. Sou totalmente a favor de se olhar para as remunerações e para os fundos de pensões destes cidadãos de forma distinta da utilizada noutros grupos profissionais.
Esta é a chamada “condição militar”, que é tão importante que tem forma de lei (Lei n.º 11/89 de 1 de Junho - Bases gerais do estatuto da condição militar) aprovada por Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro. Será que esta lei está a ser cumprida?
Será que nos outros países da União Europeia os militares têm o mesmo estatuto que em Portugal? Será que o nível remuneratório, a protecção na saúde e na doença e a protecção às famílias são comparáveis?
Eu também acho as manifestações, associações, passeios e sindicatos absolutamente inaceitáveis, além de ilegais, a pedirem uma resposta firme e imediata da parte do governo. Mas será que um governo que quer ser respeitado tem tido o mesmo respeito pela instituição militar?
Aos militares pede-se que honrem o seu compromisso. Ao Estado pede-se que honre os seus cidadãos, entre os quais aqueles que são o último garante da existência do próprio Estado.
29 novembro 2006
Outras margens

Outras margens me esperam, outras viagens planeadas, outros acasos surgirão. Na roda do imparável, microcosmos no universo, pequenas moléculas num organismo que se move lentamente em direcção ao caos.
Desenho fronteiras quando escrevo
letras e sementes inventadas.
Para lá do poema apetecido
guardo as palavras cobiçadas
na sombra do sonho proibido.
(pintura de Irene Gomes: os moinhos de vento)
28 novembro 2006
"No importa"

al fin y al cabo lo inmutable siempre
seguirá siendo lo inmutable, y nada
sumo o resto. La luna estará quieta
desvelándome siempre. Las orillas
seguirán desgarradas por el mar.
El sol seguirá siendo el implacable
deslumbramiento. Siempre habrá una araña
que vomite cristal y seda juntos.
Siempre habrá niebla. Y seguirá existiendo
la violenta ternura de tus manos.
(poema de Amalia Bautista; pintura de Bill Gingles: all the angels come)
"Flexi-sugurança"
Então não estamos a fazer tudo para reduzir as despesas do estado? Parece-me que, entre nós, haveria um desequilíbrio a favor do flexi… Pelos vistos, há quem pense exactamente o mesmo, e com motivos bem mais fundamentados!
Há dias...

Quase no aniversário do 25 de Novembro, militares na rua, a “manifestarem-se”, polícias a darem “conferências de imprensa” mascarados de terroristas, inaceitável numa sociedade que se diz democrática; políticos e bons pensadores, bons condutores de pensamentos da alma lusa, a discorrerem sobre a falta de necessidade de financiamento das Forças Armadas, sobre a inutilidade da tropa em tempo de democracia. Democracia essa que, não se cansam de nos lembrar, não é devida aos militares, porque a tão interessante e corajosa sociedade civil esteve amordaçada e trancada durante os longos 40 anos do fascismo.
Hoje ouço na TSF que um dos presumíveis autores do alegado crime de Camarate confessou, numa entrevista que sairá amanhã, na Focus, ter de facto feito deflagrar uma bomba a bordo do avião onde seguiam, entre outros, Sá Carneiro e Amaro da Costa, à data primeiro-ministro e ministro da defesa de Portugal, respectivamente. Vinte e seis anos, milhares de páginas, declarações, opiniões, comissões parlamentares e de peritos, após ter sido confirmada em Maio deste ano, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a prescrição do “caso Camarate”, alguém tem a audácia de proclamar ter cometido um crime.
Seja verdade ou mentira o que mais dói é o facto de ninguém acreditar em tudo o que entretanto foi feito para “apurar” a verdade, ou mesmo no dito José Esteves. Ou, o que é mais grave, cada um acredita no que quer porque não há forma de saber o que, de facto, aconteceu. Qual é a garantia, enquanto cidadãos, de sermos protegidos pelo sistema judicial? Qual é a garantia de separação entre o poder político e o poder judicial?
Não sei como se sentem os deputados, nacionais e regionais, que se insultam mutuamente nas discussões parlamentares, que representam esta tragicomédia de apoio e de oposição ao governo, que nomeiam e desnomeiam comissões de inquérito e comissões científicas, gastando o dinheiro dos contribuintes em relatórios, para se queixarem mais tarde do dinheiro que gastaram, e para novamente pedirem estudos, como o que se está a pedir agora, mais um estudo de impacto ambiental, para arrancar com a coincineração em Souselas.
Que fizemos nós, em 30 anos de democracia?
26 novembro 2006
Sopro
Um dia já não estareineste corpo enxovalhado,
capa seca e estaladiça
desta alma quebradiça.
Nesse dia guardarei
cada nervo desmaiado,
nesta caixa esvaziada
pela morte desabitada.
Um dia já não serei.
O molde em massa desfeito
num pó fino e rarefeito,
acaso no espaço soprado.
(desenho de Mário Cesariny: a primeira lição)
25 novembro 2006
Época Natalícia
Este ano parece difícil adquirir o espírito natalício. O país anda pouco festivo, mais cinzento e húmido que verde e vermelho, mais prata baça que dourados flamejantes.
Não se vêem turbas multas nas lojas, acotovelamentos, pais natais, renas e neve a fingir. Vêem-se caras coladas às montras, olhares vagarosos pelas portas abertas, espreitando a sedução das cores.
Quando os miúdos da família e dos amigos eram pequenos, eu tinha verdadeiros ataques de pânico na altura das prendas, quando comprava e quando recebia. Por muito que alertasse para a enorme quantidade de bugigangas que enchiam os quartos, a que eles não ligavam nenhuma, a não ser os escassos segundos que demoravam a rasgar os papéis de fantasia, as pilhas de coisas inúteis que atravancavam a casa e a minha alma, a noção de desperdício, da imoralidade da abundância, não era possível travar a avalanche presenteadora.
De há uns anos para cá resolvi que nunca mais gastaria dinheiro, tempo e imaginação a correr de loja em loja. Resolvi que, com a mesma imaginação e o mesmo tempo, era capaz de idealizar ofertas manufacturadas para os meus amigos e familiares. É surpreendente o que podemos criar com as mãos, boa vontade e muita paciência.
Hoje inaugurei a minha própria época de Natal, ligeiramente atrasada, com uma sessão compoteira. Para quem quiser experimentar, aqui fica a receita:
Compota de marmelos com laranja:
- Descascam-se os marmelos e tiram-se as sementes e o núcleo (se se quiserem aproveitar as cascas e as sementes para fazer geleia, convém lavar os marmelos muitíssimo bem!);
- Cortam-se os marmelos em pedaços pequenos (mais ou menos cubos com 1,5 cm de lado);
- Pesam-se os pedaços de marmelo e colocam-se numa panela / tacho bem grande;
- Espremem-se várias laranjas até perfazer o mesmo peso (1 l de sumo e polpa de laranja / 1 Kg de marmelo);
- Cozem-se os marmelos no sumo e polpa de laranja durante cerca de 15 minutos, com paus de canela (1 por cada quilo);
- Quando os marmelos estiverem cozidos (espeta-se um garfo para ver se estão macios) junta-se 650 g de açúcar por cada quilo de fruta (marmelos e laranja, ou seja, 1 Kg de marmelos com 1 l de sumo de laranja correspondem a 2 quilos de fruta);
- Deixa-se ferver até adquirir o ponto certo, que é o ponto de estrada (deita-se um pouco de doce para um prato frio e passa-se uma colher por ele. Se ficar um espaço sem doce, sem que este se precipite liquidamente para o espaço, está feito);
- Deita-se em frascos de boca larga e fecha-se bem.
Truque: como já tive que desenfrascar o doce outra vez para ganhar mais ponto, se tinha pouco, ou diluí-lo com água, se estava com ponto a mais, agora deixo-o na panela até arrefecer. Se estiver bem, enfrasco, se não, vai outra vez ao lume.
24 novembro 2006
Dez réis de esperança
DEZ RÉIS DE ESPERANÇASe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
(poema de António Gedeão; pintura de Ismael Cuevas Jordán: esperança)
23 novembro 2006
Política no feminino
A propósito de Ségolène Royal, à volta de um excelente vinho e não menos excelentes petiscos, discutíamos, eu e duas amigas, se a existência de poucas mulheres em lugares relevantes da política se deve ao menor número de oportunidades que as mulheres têm, na nossa sociedade habitual, ou se à sua menor apetência pelo jogo político.Houve quem defendesse que a política é um jogo de estratégia e planeamento e, por isso, um jogo masculino, mediado pela testosterona. Que as mulheres são pragmáticas e que não têm paciência nem jeito para o poder, têm outros interesses, nomeadamente o apelo biológico da maternidade e do cuidar, que seria, penso eu, mediado pelos estrogénios.
Eu penso que, para além de ainda não existirem igualdade de oportunidades entre os dois géneros, pois não há uma verdadeira distribuição equitativa das tarefas domésticas e de apoio familiar, a verdade é que o tipo de poder exercido tem uma marca essencialmente masculina e que, a esse tipo de poder, as mulheres resistem e afastam. Mas também penso que, na medida em que houver cada vez mais mulheres a ascender a cargos políticos relevantes e de direcção, a forma de exercício da governação se transformará, levando as mulheres a procurarem mais a luta política, com armas e objectivos diferentes.
Será interessante observar o que se vai passar nas próximas décadas.
Numa coisa acordámos todas: as quotas de participação feminina são uma forma machista de resolver a questão!
22 novembro 2006
Golfo da Guiné

Para quem, como eu, tem algum receio das profundezas marinhas, é absolutamente fascinante ter um vislumbre do que ainda há para descobrir, neste planeta que maltratamos todos os dias.
Tantas vezes ignorada e desprezada a ciência preenche gulosamente os nosso olhos, a nossa imaginação, abre-nos a mente a novas aventuras.
Especificidades
(…) 3. O facto de os jornalistas disporem de um subsistema de Saúde significa que o Estado tem em conta, há décadas, as especificidades da nossa profissão, designadamente jornadas intensas e prolongadas e informalidade de horários, com fortes impactos na saúde e na qualidade de vida destes profissionais, como demonstra a significativa prevalência de stress e de doenças do foro cardíaco, desgaste rápido e até morte precoce. Esta situação agravou-se nos últimos anos, com a crescente precariedade, um extraordinário aumento dos níveis de exigência, polivalência e de disponibilidade. (…)
Já agora sugiro que se distribua o Manifesto em todas as casas, para que todos o possamos assinar, alterando o nome da profissão de risco e criando Caixas de Previdência para cada uma, alertando para as especificidades dos perigos inerentes a cada trabalho.
21 novembro 2006
Entrega
ENTREGAPressinto-me
destino desencarcerado
no beijo que transcende
as bocas no osculo dado.
Se a vida estancasse
no embrião que se gerou
esfumava-se
o desejo com que se amou.
Mas não se gera o destino
unindo os lábios num beijo
sem coração que valha
um homem dando-se à terra
como ao sexo que lhe calha.
(poema de José Craveirinha; pintura de Chichorro: sonhar amanhã sem lágrimas)
Sem asas

A forma e o conteúdo (2)
Sofia, se isto fosse assim, aplicava-se a todos os países do mundo. a Espanha, em 1928, era um país com 80% de camponeses, mas esta discussão seria ali impossível, pois ninguém se lembraria de caracterizar o povo espanhol como tacanho, miserável, etc. Salazar é fruto do seu tempo e não especificamente da sociedade portuguesa da época. Tem de comparar com Mussollini, Hitler, Horthy ou Franco, ditadores bem mais sanguinários e que admiravam (sem excepção) Salazar. Ninguém se lembraria de dizer que Hitler é igual ao povo alemão de 1933, mas a ligação entre povo português-Salazar ocorre a MFM. Claro que Salazar era tacanho, avesso ao risco, mas o povo português da época não era: emigrou em massa, portanto, tinha coragem; era conservador e católico, mas isso não é sinónimo de tacanho; os camponeses eram quase todos analfabetos, mas não incultos.
É verdade que este raciocínio se pode aplicar a todos os povos do mundo, e a todos os seus governantes, figuras “ilustres” em todas as áreas, da política, da literatura, das ciências exactas, das ciências militares, etc. Sei muito pouco de sociologia, mas parece-me um excelente tema de estudo as relações entre as tais figuras “ilustres” (sejam elas quem forem) e o povo que lhes deu origem.
No seu artigo de opinião, MFM não afirmou que o povo português, de 1928 ou de qualquer outra época, só poderia ter originado um ditador como Salazar. MFM não afirmou que o mesmo povo nunca poderia dar origem a outro tipo de governante, em que outros defeitos ou qualidades desse mesmo povo estivessem representadas, ou que fosse mesmo o contrário das características dele. Aquilo que ela disse, e eu concordo, é que Salazar era o espelho do povo em que nasceu e foi criado.
Concordo com o Luís quando diz que estas análises devem ter em conta as circunstâncias e a época. Já não sei se concordo que a emigração em massa é uma prova de espírito aventureiro, embora exija imensa coragem. Parece-me que a emigração, naquela época, resultou da penúria e miséria em que se vivia, ou seja, terá sido mesmo uma questão de sobrevivência.
O analfabetismo e a ignorância, extremamente fomentados e usados pela Igreja Católica, foram factores muitíssimo importantes para o tipo de vida e condições em que se aceitava viver, em que se achava normal viver. A subserviência aos poderosos, comandantes do espírito e da carne, o relacionamento pouco saudável com as hierarquias, não as enfrentando abertamente mas fazendo-o pela calada, boicotando passivamente o poder, sempre foram características nossas.
É difícil olharmos para nós próprios e reconhecermo-nos em traços de que não gostamos. Conhecer os nossos defeitos colectivos pode ser a chave para nos orgulharmos das nossas qualidades colectivas.
20 novembro 2006
A forma e o conteúdo
As elites não gostam do povo que dirigem. Concordo. Também penso que MFM não gosta do povo, de 1928 ou de agora. Mas isso não impede que tenha razão.
Quase todos nós, que vivemos na grande cidade, somos descendentes dos camponeses que, em 1928, compunham a maior parte da população analfabeta, ignorante, católica, temerosa, pouco dada a aventuras e riscos, invejosa e medrosa. Por muito que gostasse do meu avô, que para mim era das melhores pessoas do mundo, não posso deixar de lhe reconhecer muitos destes defeitos.
É claro que havia excepções, sobretudo algumas mulheres que, apesar da tacanhez e limitação de objectivos dos seus maridos e senhores, lutaram pela calada, trabalhando como escravas, dia e noite, para que os seus filhos pudessem estudar, desenvolver ambições e melhorar a vida.
É claro que existiram homens empreendedores, generosos, voluntariosos, mas eram (e são) uma escassa minoria. E também concordo com MFM no retrato que traça de Salazar, tão tacanho como todos os seus súbditos, exercendo a sua tacanhez e a sua pobreza de espírito durante tantos anos, pobre e honrado, sem sair da sua toca, sem olhar em redor, sem ter curiosidade de alargar os seus horizontes.
Também podemos falar das elites, de que MFM não falou nesta crónica, mas às quais já se referiu em vários outros textos, entrevistas, livros, da mesma forma ríspida e pouco abonatória, que transformou na sua marca registada.
O estilo pode ser pouco simpático, a forma pedante, mas o conteúdo é realista.
Ramalho Eanes
Provavelmente é assim que nascem os heróis. Sem eles quererem, pelas circunstâncias, pelos acasos, pelas forças avassaladoras que se movem em turbilhão, que os heróis são sempre o fruto de um qualquer tipo de revolução.Ramalho Eanes é um herói. Não porque ele o queira, ou porque para isso tenha trabalhado, mas foi ele que, fruto das circunstâncias de um ano louco de anarquia e de revolução perpétua, emergiu como o chefe dos que conseguiram segurar o país, dando-lhe aquilo que lhe tinham prometido a 25 de Abril de 1974.
Apanhado pelas rodas dentadas da História, nesses anos absolutamente cruciais para a consolidação da democracia, Ramalho Eanes foi presidente, por duas vezes. Sempre no seu estilo seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde, cumpriu com maior ou menor brio a missão que lhe foi confiada, para a qual nunca tinha treinado, nem nos campos de guerra nem nos campos de paz.
Após o fim das suas duas comissões no Palácio de Belém, Ramalho Eanes recolheu-se à sua vida, tão seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde com sempre, largando as luzes da ribalta que nunca lhe agradaram, mas sempre mostrando a sua figura, a sua voz, a sua companhia, pelas causas que considerava importantes.
Ramalho Eanes defendeu a sua tese, perante um júri ibérico (Sociedade civil e poder político em Portugal), que tinha preparado durante 10 anos, para a obtenção do grau de Doutor de Filosofia e Letras da Universidade de Navarra. Como diz José Medeiros Ferreira ele não precisava de o fazer. Aí está a diferença entre Ramalho Eanes e os outros. Não precisava, mas fê-lo.
É desta têmpera, este herói, acidental nas circunstâncias, mas não na dignidade ou na honra.
"Half the perfect world"

Os músicos que a acompanham, cúmplices e solidários, mas relevantes só por si, formam um ambiente quase mágico, ajudado pelas luzes envolventes.
Grande espectáculo.
18 novembro 2006
Ciência pós prandial
A oradora debitava moléculas, factores de transcrição, agentes desmetiladores, genes supressores e fenómenos epigenéticos, numa sala penumbrenta, em que se ouvia a chuva persistente e miúda, acinzentando o céu e enublando o dia.Mesmo em frente da esforçada cientista, numa fila de cadeiras vazias, um professor já entradote, rubicundo e ofegante, adormecia compulsivamente a cada resultado cruzado e medido, a cada estudo randomizado.
O interesse daquela comunicação transformou-se rapidamente num estudo observacional do grau de equilíbrio do dito professor, do momento em que ele iniciaria o ressonar ou, em alternativa, do momento em que a inclinação semelhante à da torre de Piza se transformaria em queda aparatosa e embaraçante.
Após vários estremeções e recaídas na mesma atitude acabou, para bem da oradora, do professor e da restante audiência, a sábia oração de sapiência.
Arredondar
O vice-presidente do "Millenium BCP" quer convencer quem, de que os clientes sequer sabiam da existência de arredondamentos, quanto mais de arredondamentos do tipo que todos os bancos praticam??
Entrevistas
Ainda não percebi qual foi o objectivo da entrevista. Terá sido um presente envenenado a Sócrates?
17 novembro 2006
Ruído de fundo
Não entendo a oportunidade, o tom, o tema. Porquê este apoio ao governo, neste momento? Será que se quer criar a confusão entre a vontade presidencial e a vontade governamental? Qual o objectivo de Cavaco Silva? A população está serena, o congresso o PS não aqueceu ânimos.
Que se passou de importante, ou que efeméride se está a comemorar, para que apareça o Presidente a dizer coisas já ditas e reditas? Foi para ouvir reacções ao livro de Santana Lopes?
Acho estranho e esdrúxulo este súbito protagonismo do Presidente.
16 novembro 2006
15 novembro 2006
Empresários
Esta é uma das razões do estado a que a nossa economia chegou. Os empresários portugueses, que acusam o estado de ser omnipresente, de desperdício, de gastar os recursos dos contribuintes mal gastos, os empresários que querem que o estado despeça funcionários e incentive o desenvolvimento da iniciativa privada, os empresários que entendem o aumento de lucros como uma diminuição do custo da mão de obra, esses empresários não se interessam por conferências sobre emprego científico, não vêm importância na investigação científica nem no investimento no saber.
A igualdade da desigualdade
Diz ainda Maria Antónia Palla que o secretário de estado lhe assegurou que era por uma questão de princípio e de igualdade. E então ela profere palavras sábias: que a igualdade só é igualdade no respeito pelas diferenças e, tartamudeando, qualquer coisa sobre a saúde dos jornalistas que penso que nem ela própria percebeu.
Pois é, quando se trata de acabar com a ADSE e com a ADME e com outros sub-sistemas (o que acho bem, desde já o afirmo), acabando com regimes de excepção injustificáveis, há o acordo e o aplauso geral. Mas quando essa igualdade se pretende generalizada, começam a aparecer as diferenças na igualdade!
Imperdível
(Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso: Entrada)
Odisseia
Fui recebida pelo vento que me ia virando o guarda-chuva, pela rajada de água quer me foi encharcando, em banhos cíclicos e gelados, ao longo do caminho entra a porta da rua e a porta do carro. Começou pelos pés, cobertos por botas que não aguentaram a invasão líquida, depois as meias, as calças, a gabardina, a camisola, o chapéu, tudo o que tinha vestido ficou mais pesado e mais rígido, abrandando o passo e aumentando o frio que se entranhava nos ossos.Atravessar as ruas com lagos junto aos passeios, ver por onde andava com o guarda-chuva quase pregado à cara, perceber os alertas amarelos das luzes dos carros antes de estarem mesmo em cima de mim, acrescentou uma aura de mistério e perigo à odisseia invernal de chegar ao carro.
Começou o Inverno, com chuva, frio, vento e noites antecipadas. Como deve ser.
14 novembro 2006
Compras de Natal
Luís Delgado, depois de ter constatado a diferença abissal entre as várias e muitas vezes imaginativas versões jornalísticas sobre os casos da época, espantando-se com as histórias fantásticas que inventam, muito mais interessantes do que o tédio da realidade, congratulou-se por, finalmente, ficarmos a saber a verdade de Santana Lopes em confronto com as palavras do Presidente Sampaio, esquecendo-se que este também deve ter a sua verdade.
Enfim, todos temos que nos recrear com histórias leves e giras, com a gente do nosso jet-set.
Boa sorte para o espírito natalício!
12 novembro 2006
Espera por mim
Falta de convicção
José Sócrates insiste num erro. Não por falta de determinação mas, provavelmente, por falta de convicção.
O PS estava obrigado a mudar a lei da despenalização da IVG apenas e só depois de uma repetição do referendo. A isso o amarrou António Guterres ao aceitar, em primeiro lugar, que o assunto fosse a referendo, mas mais importante que isso, ao aceitar um resultado com uma participação inferior a 50%, ou seja, não vinculativo.
José Sócrates deixou hoje bem claro que respeitará o resultado do referendo, quer ele seja vinculativo quer não. E acrescenta: Muito me espanta que haja quem esteja permanentemente a dar lições sobre a importância da democracia participativa e esteja tão disponível para, na primeira oportunidade, desprezar o resultado de um referendo popular. A democracia participativa é para levar a sério, não pode ser uma questão de conveniência ou de oportunidade.
José Sócrates apenas se esquece do facto de estar na Constituição (na lei) que o referendo só é vinculativo se houver mais do que 50% de votantes. José Sócrates usa uma habilidade demagógica para justificar aquilo que deveria ser politica e moralmente inaceitável: que as leis do país não precisam de ser cumpridas, pois há outras legitimidades mais importantes.
José Sócrates apenas se esquece da legitimidade da Assembleia da República, que tem representatividade e legitimidade para fazer e alterar leis. Esquece-se porque lhe convém.
Significa portanto que, mais uma vez, a defesa de posições ideológicas é menos importante que a contabilidade fria da possível perda de votos de alguns sectores mais conservadores da sociedade que, neste domínio, têm definido e condicionado a política de todos os governos, mesmo os que dizem defender exactamente o contrário.
Aqui está uma amostra do conceito de democracia representativa e participativa de José Sócrates.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA
PARTE III - Organização do poder político
TÍTULO I - Princípios gerais
- Artigo 115.º (Referendo)
- 11. O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento.
11 novembro 2006
A solução
Cães rafeiros
Será que na sociedade actual só deve ser permitido o acesso ao que se pode pagar? Será que é supérfluo assistir a uma peça de teatro, a um concerto, ler um livro de poesia, comprar uma pintura?Será que é mais supérfluo ainda escrever poesia, pintar quadros, ser actor, compor uma melodia, cantar, esculpir? Será que a civilização, tal como a conhecemos, seria a mesma se não houvesse artistas? Qual o lugar dos artistas, qual o seu papel social, para que servem?
Como se avalia uma obra de arte? Quem define critérios de avaliação, quem assume a defesa de um pintor, de um escritor, de um escultor, de um músico?
Como sobrevive a arte numa economia de mercado, em que o objectivo último é o lucro e em que o decisor é a quantidade de pessoas que paga por uma determinada oferta?
Será útil subsidiar obras e ofertas culturais que se dirigem a minorias, cuja mais valia não é medida por dinheiro, mas por inovação, criatividade, bem-estar, originalidade? Se aceitamos mecenas privados, porque não aceitamos que o estado possa ser um mecenas?
O Público tem hoje uma matéria extensa e muito interessante sobre as ofertas culturais que existem por esse país fora, à custa do dinheiro dos contribuintes. Graças aos subsídios do estado, é possível aos artistas e às populações comunicarem, sonharem, imaginarem, soltarem-se do seu dia a dia, remodelarem-se e renascerem na procura da felicidade.
É claro que os criadores não podem viver apenas dos subsídios nem o estado tem possibilidades (nem deve) subsidiar tudo e todos. Mas, com os devidos critérios e com as devidas exigências, o estado tem obrigação de pugnar pela pujança das ofertas culturais diversificadas, desde o teatro experimental até ao circo, apoiar a inovação porque, em última análise, são os artistas os melhores espelhos e os maiores embaixadores da nossa cultura.
- Arte (ars, artis) - conjunto de preceitos ou regras para bem dizer ou fazer qualquer coisa; talento; habilidade.
- Cultura (cultura) - desenvolvimento intelectual, saber; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade; civilização.
(Alberto Giacometti, 1951: Chien)
A propósito e a despropósito
A despropósito também gostei imenso de “Azia”, também de A. Teixeira e de “Grandes contos (9): Sophia”, do Pedro Correia.
Falta de comparência
Não deixa de ser interessante ler textos vigorosos de analistas/jornalistas sobre o PS, o governo, o PS no governo, Sócrates, Sócrates e o PS, Guterres e Sócrates, comparações e contradições.Guterres era o imperador do diálogo e por isso foi criticado, principalmente à direita mas também à esquerda – falava, falava, mas não decidia, queria agradar a gregos e a troianos, inclusivamente à Igreja, de que é devoto, ficámos a conhecer o socialismo cristão à portuguesa. Com bonomia e pouca determinação lá fomos, rindo e gastando, até à queda da ponte de Entre-os-Rios, que ditou a queda de Guterres, consumada numas eleições autárquicas catastróficas.
Agora temos a determinação, teimosia, autismo, prepotência, autoritarismo sem a emoção de Sócrates, como diz Vasco Pulido Valente, na sua crónica de hoje do Público, tão sábia e inspirada, venenosa e cansativa (como sempre!).
Uma certa direita acusa-o de não fazer reformas, de fingir hipocritamente que tudo está a melhorar, de aumentar a despesa, de não reduzir os impostos, de manter uma corja de funcionários públicos larvar e apodrecida a corroer o estado, de não incentivar o mercado e a iniciativa privada.
Em desespero de causa, uma outra direita travestida preocupa-se com o povo e, principalmente com os funcionários públicos, apela ao diálogo, à negociação, à democratização do governo e do primeiro-ministro, assusta-se com a crispação da sociedade e aconselha-o a ouvir a rua!
À esquerda é o regresso (cíclico) do grande capital, a maior ofensiva desde o 25 de Abril à classe trabalhadora, operários, camponeses e mineiros (!), o neo liberalismo de Sócrates, o enterro do estado social, as greves, os apupos, as acusações aos socialistas de que estão a fazer aquilo que os sociais democratas nunca conseguiram, mas têm pena.
Seria o congresso do PS uma óptima altura de os votantes e apoiantes do socialismo, daqueles que deram a maioria absoluta ao governo, confrontarem, debaterem e dialogarem com os dirigentes, aqueles que decidem porque as críticas da oposição à direita e à esquerda são circunstanciais, sempre iguais e, agora, até se confundem, trocando papéis, a direita desdizendo o que sempre disse, a esquerda, honra lhe seja feita, repetindo o mesmo desde há 30 anos para cá.
Mas, ao contrário de algumas vozes que sempre se resignam a ser do contra, visto que todos os outros se transformam em blocos de unanimidade artificial, os socialistas falam em medo de ser crítico (de quê?), de falar e de sofrer represálias (de quem?), assistindo-se a queixas de "suspensões" e "retiradas de confianças políticas".
E este congresso, o tal que deveria ser para debater ideias e reforçar posições, clarificar políticas e assumir roturas, é uma grande festa em torno do líder e uma grande aclamação do governo, como nos elucidou o Secretário de Estado Valter Lemos, aos microfones da TSF (ontme).
É por estas e por outras que será o PS, e não a oposição, a determinar a derrota do governo, por falta de coragem e de comparência.
10 novembro 2006
Círculos
Continuamos
A crise continua, a greve foi um sucesso para os sindicatos e um fracasso para o governo, o PS vai ser unânime e feliz na consagração do seu incontestado líder, Helena Roseta está transformada na voz agoirenta, incómoda e muito desvalorizada no meio da homogeneidade socialista, houve mais uma acidente grave por conduzir em contra mão na auto-estrada, o José Manuel Fernandes gostou muito e achou muito bem a derrota dos republicanos do EUA, o Lobo Xavier até não acha mal que os bancos portugueses paguem menos impostos que os seus congéneres europeus, porque continuam a ser portugueses.
Realmente, nada de novo.
08 novembro 2006
A banca
Não há dúvida que há sectores da nossa sociedade e da nossa economia que se consideram intocáveis.Quando surgiram as primeiras notícias sobre um eventual aumento de carga fiscal para o sector bancário, previsto no Orçamento de Estado (OE) de 2007, João Salgueiro fez ver ao governo e ao país, não por estas palavras mas com este aviso, que a banca sabe bem como contornar a lei para que os impostos lhe sejam mais leves, o que lhe ficou bastante mal, para não dizer que foram umas declarações arrogantes e de “chico-espertice” que não se esperavam de alguém com a responsabilidade de João Salgueiro.
Nestes últimos anos, com o advento da tão conhecida e estafada crise, a vida não tem sido fácil para uma grande parte da população, principalmente da conhecida classe média, onde se engloba o tão pesado, ineficaz e gastador funcionalismo público.
Nunca ouvi João Salgueiro acusar Sócrates de arrogância e de peronismo, quando este afirma que é necessário reduzir, redimensionar e reorganizar o estado, quando se preparam medidas que vão facilitar os despedimentos na função pública, quando houve congelamento dos salários e da progressão automática nas carreiras, quando afronta professores, sindicatos, médicos, farmacêuticos, juízes e outras corporações, independentemente da justeza ou da injustiça da afronta.
Mas quando se pretende uma aproximação mais que justificada entre os encargos fiscais da banca e os dos outros contribuintes, mais uma vez João Salgueiro vem a público, denunciar as manobras estratégicas e pouco aceitáveis (para ele) deste governo.
Mesmo que seja um gesto simbólico, a justiça fiscal é um dos elementos mais importantes na credibilidade de qualquer governo que tenha necessidade de impor restrições às populações. Ainda por cima em sectores que estão tudo menos deficitários, não é aceitável que não se exija exactamente o mesmo esforço que se exige a todos os outros cidadãos.
07 novembro 2006
No fundo
Ciclos viciosos
De facto, este nosso país é, ele próprio, um ciclo vicioso. A crise, o défice, o descontentamento, a falta de dinheiro, o endividamento, o desemprego, a miséria, a pobreza, a tristeza, a crise. O problema é que só temos pensamentos e comportamentos ritualizados e repetitivos em tudo o que nos conduz a sentimentos de inferioridade. Raros são os exemplos de ciclos viciosos de alegria, de valorização pessoal, de persecução e concretização de objectivos.
Enredamos os pensamentos à volta da noção de dificuldade, de obstáculos intransponíveis, de fracasso. Se por um momento ousarmos planear, orientar, organizar, construir, inaugurar, usufruir e mostrar felicidade, podemos quebrar esse ciclo.
Recentrar
Estive a ver, na SIC notícias, uma conversa entre Mário Crespo e Maria José Nogueira Pinto, sobre uma proposta apresentada por ela para a requalificação da Baixa-Chiado.Gostei de ter ouvido a necessidade de requalificação do centro histórico de Lisboa, no que diz respeito às áreas comercial e habitacional, à devolução da cidade às pessoas. Lisboa está a cair, deserta e perigosa, com escassos redutos escondidos, quase num limbo como a ilha de Avalon, em condomínios luxuosos. Depois há algumas zonas buliçosas, como a do Bairro Alto, que está linda e animada.
Na estrada marginal, de Lisboa a Cascais, multiplicam-se as casas praticamente arruinadas, antigos palácios quase acastelados, dignos de príncipes e princesas encantados quando, em criança, me dirigia à praia de Carcavelos. Uns a seguir aos outros, terrenos onde cresce a tristeza e o abandono, vidros partidos, telhas caídas e cores desbotadas, com manchas velhas e descuidadas.
No interior, as terras foram rejeitadas, as aldeias estão despovoadas, restando as pedras das paredes nas casas e as portas meio fechadas, rangendo com saudades de moradores. Nas cidades satélites proliferam gigantes gaiolas de cimento, com cores impossíveis de descrever, arquitecturas com esquinas criadoras e originais, roupas estendidas nas janelas e automóveis em cima de passeios estreitos e enganosos. Pizzarias, lavandarias e pequenos centros comerciais, eles próprios já meio abandonados, por outros maiores, com mais viço e grandeza, com um ciclo de vida curto e miserável.
Não sei como é possível repovoar os centros históricos das cidades, os centros históricos das aldeias, os centros, enfim. Deve ser tão difícil e complicado como recentrar as nossas próprias prioridades. Dentro de nós, também temos uma certa tendência centrífuga, refugiando-nos nos arredores da vida.
05 novembro 2006
Pena de morte
A pena de morte é das mais cruéis contradições que existem nas nossas sociedades. A punição é exactamente a mesma acção que causou a punição. É um triste ciclo vicioso.Seja o que for que seja quem for tenha feito, a sociedade organizada não pode cometer o mesmo crime do acusado.
Acho inaceitável a condenação à morte por enforcamento de Saddam Hussein, Awad Hamed Al-Bander e Barzan Ibrahim al-Tikriti.
Música
Gosto de dias de névoa, em que a música nos guia como um farol longínquo, silvando, que ritmadamente nos devolve a luz, o rumo.
Nestes dias de desalento, as janelas meio abertas são a fronteira entre a essência e o descartável. O silêncio adocicado pela música fortalece-me. Sinto o manto acolhedor da casa, grande e calorosa pela tua presença, pelo ritmo dos teus gestos, pela solidez do teu amor.
[Michel Camilo (piano), Tomatito (guitarra flamenca), Juan Luís Guerra (artista convidado) – Spain again (2006)]
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04 novembro 2006
O boato é a arma da reacção
Há muitos anos, em pleno Processo Revolucionário Em Curso (PREC), no famoso ano de 1975, todos os dias fervilhavam informações, sussurradas meio a medo, meio a gozo, meio a sério, no núcleo mais importante de coscuvilhice lá do bairro, o mini mercado da Dona C...Por entre bocas ociosas, assustadas, mentirosas, circulavam todos os dias ameaças de golpes militares ou civis, ajustes de contas, terríveis massacres, faltas de comida, conselhos de açambarcamento, difamações, explorações politiqueiras de frases ou intenções que se adivinhavam nas entrelinhas, sempre sem rosto nem ponta de meada que se desenredasse.
Com o advento da democracia todos queriam participar e, de facto, participavam, numa corrente de boatos que os escassos responsáveis políticos moderados, ou simplesmente sensatos, queriam estancar com a frase: o boato é a arma da reacção.
Esta recente fase bloguística lembra-me um pouco essa época. Na rede tudo se transmite a grande velocidade, sem necessitar de nome ou de rosto. Aqui pode insinuar-se, insultar-se, sugerir-se, sempre com saltos e piruetas argumentativas, sem cuidar de imaginar os contornos ou as consequências resultantes e, principalmente, de responder por eles.
Portugal anónimo, servil, humilde e de chapéu na mão, dá largas à frustração usando a sua mais hábil e antiga arma vingativa: a maledicência.
Esperam calados
O congresso do PS, o tal partido maioritário no poder, com maioria absoluta e um chefe com tiques autoritários, arrisca-se, dizemos todos, a ser um grande e hipócrita aplauso à linha dura de governação.
Não estando obviamente em causa a liderança de José Sócrates, deveriam estar em causa as políticas sectoriais, discussões ideológicas e da praxis do partido e do governo, alternativas ou justificações da falta delas. Acredito que o próprio Sócrates e, sem dúvida, o governo, sairiam rejuvenescidos e reforçados politicamente, independentemente da legitimidade que ninguém contesta.
Se há temas controversos no nosso socialismo e que têm sido objecto de duras críticas dentro do núcleo duro do PS (António Vitorino, Jorge Coelho, Maria de Belém Roseira, e outros), são os temas da saúde, concretizadas nas tentativas de reformas do SNS, com a concentração e reestruturação das maternidades e dos serviços de urgência, com a reorganização e implementação das unidades de saúde familiar, com a introdução de taxas de utilização, com a escassez de recursos, etc.
Há umas semanas ficou a saber-se que Correia de Campos iria propor a discussão de uma moção sectorial sobre a saúde, o que aplaudi, esperando o debate e a clarificação do rumo que este PS pretende dar a este sector.
O DN em "positivo e negativo" (e o Diário Económico), para além de informar que há mais de 30 moções sectoriais a serem discutidas no congresso, sobre temas diversos, afirma que Correia de Campos retirou a proposta de discussão sobre a saúde.
A confirmar-se esta notícia, parece-me um estrondoso erro e uma enorme desilusão no que diz respeito ao PS, ao governo e, sobretudo, a este ministro.
Nas áreas mais difíceis e mais polémicas espera-se que haja coragem e humildade para defender e procurar soluções. Se o problema é o medo de ver as opções tomadas e a tomar criticadas ou desaprovadas, não se percebe, de facto, para que servem estes congressos. Da mesma forma também não entendo a ausência de pedidos de discussão sobre este tema por parte dos críticos de Correia de Campos.
O país deu um mandato ao PS para governar quatro anos. O PS é constituído não apenas pelos nomes sonantes do aparelho, mas por todos os seus militantes. Estes, pelos vistos, não parecem estar à altura da sua responsabilidade. Esperam calados, não se sabe bem é o quê.
03 novembro 2006
A ti
Toda a palavra é inútilquando perdida
noutros lábios
quando dispensada
a outros sentidos.
Todo o gesto é fútil
quando gasto
noutros braços
quando dirigido
a outras mãos.
Todo o poema é possível
neste todo indizível
que me cala
sempre o dedico
a ti.
(Pintura de George Mendoza: kaleidoscope eyes)
Alternativa?
Também não entendo muito bem qual o objectivo político de Marques Mendes ao dar cobertura às diatribes de Presidente do Governo Regional da Madeira. Ou da factura dos “cocktails”, ou da colagem aos que contestam a Ministra da Educação.
Tal é a falta de ideias e de alternativas.
02 novembro 2006
Fim de tarde
Memória
Quando chegava à entrada da vila, procurava uma bata branca vestida por um velhote ligeiramente curvado, com uma coroa de cabelos, do lado de fora da porta verde da Farmácia Nacional, e uma velhota baixa, com bata e carrapito, que espreitava pela porta entreaberta da sua casa. Mal podia conter a alegria que queria soltar-se da garganta, ao correr para aqueles velhos, que de ano para ano encolhiam, embranqueciam, mas sempre a esperavam.Depois era o cheiro da casa, o frio da sala, a braseira, os lençóis gelados, o tabuleiro de manhã, na cama, o café com leite demasiado doce, o pão com queijo, o creme da cara endurecido, que mal se espalhava, a água gelada da torneira que se misturava com a água a escaldar da cafeteira, as pedras da escada do quintal, o poço, o galinheiro, as mulheres embrulhadas em mantas com os olhos pequeninos que levavam os nomes de remédios inexistentes em fragmentos de papel, escritos com lápis, numa letra tremida no esforço da aplicação, o chão de azulejo branco sujo de lama, os frascos e os boiões alinhados nos armários de madeira branca.
Depois era o sempre eterno chá antes de ir para a cama, as canecas individualizadas com cenas campestres compradas nas feiras, os biscoitos de azeite, o leite creme com açúcar queimado.
Mesmo agora, no dia em que se decretou que se lembrassem os mortos, como se os mortos não estivessem entranhados em todas as pequenas fibras das casa em que viveram, das ruas que palmilharam, dos vivos que tocaram, parece-lhe ainda ouvir aquelas vozes, ao abrir a porta verde, mesmo em frente à escada que subia quatro a quatro, para dentro da sua infância.
(pintura de David Miller)
Enquanto
Enquanto o BE permanecer órfão de causas fracturantes e o PCP continua a lutar num país imaginário por um mundo virtual, José Sócrates pode estar descansado, também à sua esquerda.
Restam os seus companheiros que aguardam, na sombra, a altura da queda do chefe. Então iremos assistir ao repasto, e para quem se guarda o melhor bocado.
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