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13 setembro 2020

Lampiões

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Não sei o que se passa com os candeeiros. Não alumiam. Não percebo porquê. São os mesmos há trinta e tal anos e deve ser por isso. Foram perdendo vigor.


O que é um enorme aborrecimento porque ler está a transformar-se num exercício de grande exigência. Inclino-me para o candeeiro para iluminar a página, afasto o livro e levanto o queixo, tentado usar a progressividade dos óculos. O livro fica de novo na sombra. Tiro os óculos e tento usar a miopia não corrigida.


Viro e reviro o candeeiro mas ele de mortiço não passa.


Acho que vou ter que comprar uns lampiões para colar ao lado da cama, que se transformará num óptimo banco de jardim.


Ou então ler ao microscópio.


 

26 julho 2020

Cigarras

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Cigarra


 


O ar completamente parado, sufocante, de uma luz amarelada e bafienta. As tardes de Verão na província, a obrigatória sesta nos quartos insuportavelmente quentes, com as portadas de madeira que abriam riscas de pó dançante, até que o sono vencia as mais resistentes pálpebras. Ao longe o canto das cigarras era a única coisa que se ouvia.


Outro dia surpreendi-me a ouvir cigarras no Jamor, enquanto me preparava para o treino. Repentinamente senti-me outra vez com 10 anos, naquelas imensas tardes suspensas, como se a vida sustivesse a respiração.

17 setembro 2016

À atenção do Prof. João Ferreira do Amaral

Ficção ou realidade futura mais ou menos próxima, a saída do euro tem vários defensores, entre os quais, e talvez o mais conhecido, o Prof. João Ferreira do Amaral.


 


Não tenho qualquer capacidade para ter uma opinião sobre o assunto. De qualquer forma, se não em termos económicos ou políticos, a adopção de uma moeda própria, diferente do euro, seria muito interessante, nem que fosse pela nostalgia do coleccionismo.


 


Por isso aqui deixo um estudo que alguém com grande imaginação, sentido estético e conhecedor destas matérias, gentilmente me cedeu, dando um excelente contributo para o nosso eventual regresso ao escudo (que ele não defende, convém que se esclareça). Quem sabe se não seria mesmo uma boa ideia?


 


Proposta para novas notas de Escudo


Designação



  • Escudo Português (ISO: PTE)

  • Novo Escudo Português (ISO: PTS)

  • Euro (ISO: EUR)


 Câmbios



  • EURPTE = 200,482

  • PTSPTE = 200

  • EURPTS = 1,00241


O tema geral das notas são escritores e poetas do século XIX e XX. As notas devem ilustrar e expressar aquilo que o Portugal contemporâneo é, não exortar glórias passadas. O Portugal contemporâneo vive da sua maior herança ao mundo, a lusofonia. Por isso faz sentido que as notas sejam de escritores e poetas do século XIX e XX.


Todas as notas têm na frente um busto da República, seguido das palavras “REPÚBLICA PORTUGUESA” e um escudo português. As notas têm uma faixa de segurança e uma parte em branco com uma marca de água das armas da república. As figuras centrais são sempre acompanhadas da assinatura da figura.


O verso tem o mesmo desenho da frente, com uma figura central que varia entre fauna e flora típica de Portugal, com a respectiva descrição em Português e o nome científico da espécie. No verso estão duas imagens alusivas à cultura portuguesa, uma caravela e um astrolábio. O verso tem também uma citação ou um trecho da obra do escritor que figura na frente da nota.


No geral, cada nota tem um desenho com um jogo de relevos e uma cor dominante para melhor identificação. Além disso há um desenho decorativo de uma linha de cruzes da Ordem de Cristo e no verso uma linha adicional de esferas armilares.



  • 5 Escudos (5 PTS = 4,99 EUR = 1.000 PTE)


A nota de 5 escudos é em tons de cinzento e tem como figura central a Florbela Espanca. No verso tem uma estrofe de um soneto de Florbela Espanca e a figura de um sobreiro típico do Alentejo de onde era natural.


Dimensões – 120mm x 62mm


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  •  10 Escudos (10 PTS = 9,98 EUR = 2.000 PTE)


A nota de 10 escudos é em tons de azul e tem como figura central o Miguel Torga. No verso tem uma parte dum poema seu e a figura de um Lobo Ibérico muito comum no norte de Portugal de onde era natural.


Dimensões – 127mm x 67mm


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  • 20 Escudos (20 PTS = 19,95 EUR = 4.000 PTE)


A nota de 20 escudos é em tons de azul-marinho e tem como figura central a Sophia de Mello Breyner Andreson. No verso tem uma parte dum poema seu e a figura duas cegonhas brancas típicas por todo o país.


Dimensões – 133mm x 72mm


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  • 50 Escudos (50 PTS = 49,88 EUR = 10.000 PTE)


A nota de 50 escudos é em tons de verde e tem como figura central a de José Saramago. No verso tem um trecho do Ensaio Sobre a Cegueira e figura um Lince Ibérico, animal icónico tanto no sul de Portugal como em Espanha.


Dimensões – 140mm x 77mm


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  • 100 Escudos (100 PTS = 99,76 EUR = 20.000 PTE)


A nota de 100 escudos é em tons de vermelho e tem como figura central Fernando Pessoa. No verso tem uma parte de um poema da Mensagem. Figura também uma imagem de pinheiros bravos em alusão à ideia na Mensagem de que D. Dinis tinha plantado os pinheiros para construir embarcações.


Dimensões – 147mm x 82 mm


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06 junho 2015

Do estado turístico


Hoje é sábado, amanhã é domingo.


(...)


O dia é sábado.


(...)*



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É o melhor dia da semana. Então quando solarengo e quente, à beira rio, nada melhor para nos apaziguarmos com o mundo. Além disso, para além de não haver nada como o tempo para passar*, há sempre a apreciação das regatas, do sol coado pelas lentes escuras, do brilho reflectido no Tejo e dos passeantes.


 


E se há gente nestes dias, uma classe de gente que se multiplica e prolifera por todas as cidades turísticas – os turistas. De todas as etnias, de todos os continentes, de todas as idades, em comum a ser e estar-se turista.


 


Essa comunhão no ser e no estar forma uma espécie de irmandade com os seus códigos de conduta. Desde o aspecto vincadamente despreocupado e alegre à estudada indumentária para passear, usufruindo das delícias indígenas e documentando aplicadamente momentos para publicar nas redes sociais, os turistas cumprem a sua função com um profissionalismo empenhado.


 


E assim podemos distinguir aqueles que se passeiam obrigatoriamente vestidos de calções, blusas fluidas de cores berrantes, preferencialmente com motivos florais, óculos escuros coloridos de verde, rosa choque, azul ou preto, sempre espelhados, chapéus que se evidenciam pela enormidade das abas (mesmo a ausência das copas) e nos pés as globalizadas havaianas, sandálias rasas de sola fina, totalmente incómodas, fazendo com que cada pedra da calçada seja sentida pelos doridos pés (a modalidade sandálias-com-meias reduz este problema); em alternativa há ténis com as cores o mais diferentes possível das flores das blusas. Não esquecer as mochilas, as garrafas de água e os telemóveis para as selfies. Há uma minoria mais sofisticada que se passeia com máquinas fotográficas (retro) a tiracolo.


 


Importantíssima a atitude de boca escancaradamente aberta em sorrisos admirativos, a voz suficientemente alta para se ouvirem as arrebatadas exclamações de felicidade. Podemos imaginar qualquer pacata e discreta criatura, no seu dia-a-dia de trabalhadora, comedida no falar e no vestir, transfigurada neste estado turístico passageiro e cíclico, tal qual as estações do ano.


 


*Dia da Criação

03 maio 2015

Dia(s) da(s) mãe(s)

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Olá, boa tarde.


 


Que lindo dia está, que lindo dia da mãe. Chove um pouco, é verdade, está ligeiramente cinzento (e frio também), é certo, mas é aquele dia dedicado às mães, a todas as mães, grandes, pequenas, gordas, magras, novas, velhas, muito velhas, aquele em que é suposto darem-se-lhes muitas prendas, muitos beijos, escrever nos facebooks muitos poemas e muitos carinhos.


 


Enfim, já que um dia não são dias, toca lá a despachar mais esta efeméride e a marcar um restaurante para o jantar em família, juntando avó e filha (as homenageadas), marido e filhos. Ultrapassando o facto de todos serem longe, caros e estarem fechados aos domingos, arranja-se um que, pelo nome, pode ser que não seja mau (a ver vamos, darei notícias posteriores).


 


Depois, para que possa desfrutar deste dia da mãe, descansadíssima como mãe que sou, já ontem despachei a pilha de análises por resolver, a compra dos legumes e da fruta, enchi e esvaziei máquinas de louça e roupa, para que o dia da mãe chegasse livre e escorreito, prometendo gozo e descanso.


 


Por isso mesmo fui logo de manhã ao hipermercado: compras já arrumadas, sopa preparadíssima e legumes guisados para a semana. Falta apenas acabar o workshop que tenho pendurado pois, durante a semana, não há tempo de o organizar. Tudo para que o jantar deste dia (da mãe) seja o êxito que se quer e se merece.


 


Não é (foi) um dia (fim de semana) soberbo? Muito diferente dos outros, ou não fosse ele dedicado às mães que, neste seu dia anual, podem descansar das fadigas rotineiras e habituais.


 


Um feliz dia a todas aquelas que hoje são lembradas e mimadas - as mães.

17 janeiro 2015

Do diletantismo (pouco) militante

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Hoje lembrei-me desta minha amiga e colega por duas vezes. Primeiro porque ouvi, por acaso, um programa na TSF (Património à mesa) sobre história da alimentação e dos alimentos, hábitos culturais ligados à gastronomia e à mesa, dos ricos e dos pobres. Ana Marques Pereira foi uma das convidadas e ainda bem. Desde há muito tempo que lhe conheço o gosto e a curiosidade por estes e outros temas, que ela não é pessoa para se esgotar num único interesse. Há cerca de 1 ano organizou uma exposição sobre licores, publicou um livro, e até eu participei numa aula sobre a confecção dos mesmos.


 


A segunda foi ao ver um episódio de uma série com a Miss Marple, detective amadora criada por Agatha Christie. E lembro-me de discutirmos as nossas adaptações preferidas dos detectives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple. Na realidade, embora concorde que a série protagonizada por David Suchet é a que melhor representa a personagem de Hercule Poirot, um detective belga muito vaidoso, pequeno e de cabeça ovóide, com um bigode magnificente e umas células cinzentas bem activas, não a acompanho quando considera que a Jane Marple de Joan Hickson é fiel ao retrato que dela faz a sua criadora.


 


Confesso  que não conheço nenhuma série nem nenhum filme que, a meu ver, consiga mostrar-nos uma velhota solteirona frágil, ligeiramente anafada, um pouco atarantada, coberta de malhas fofas, com uns olhos azuis penetrantes e inteligentes e que, sempre em conversa com os outros, deslinda os mais complicados e misteriosos crimes. A que está a passar agora no FOX Crime é muito interessante mas, mais uma vez, longe daquilo que eu imagino que seja a Miss Marple.


 


Não sei se a minha Miss Marple gostaria de cozinhar, mas suspeito que sim e que apreciaria a experimentação e a curiosidade de combinar produtos diferentes. No seguimento dessa minha hipótese já despachei uma das abóboras, fazendo um doce de abóbora com chocolate, cuja receita encontrei neste blogue fantástico, tal como o outro da mesma autora.


 


Juntei abóbora aos bocadinhos (enfim, mais aos bocadões) com açúcar (650 g por cada quilo de abóbora), canela (em pau, 2 por quilo), sumo e raspa de laranja (1 por quilo) numa grande panela que foi ao lume, e esperei mais ou menos pacientemente que começasse a fazer ponto. Nessa altura triturei a abóbora com a varinha mágica (é melhor retirar os paus de canela antes) e deixei que chegasse à tão ambicionada estrada. Depois parti chocolate de culinária (com 70% de cacau, 100 g por quilo) aos quadradinhos e deixei derreter, mexendo sempre. Foi um êxito, mais fora do que dentro de casa porque, como em tudo, Santos da casa não fazem milagres, dá Deus nozes a quem não tem dentes, etc.


 


Resta-me encontrar mais novidades para as outras arrumadas na cozinha, a estorvarem um pouco os passos de quem quer chegar à roupa. Enfim, tudo a seu tempo, que a vida não está para pressas nem inconseguimentos.

03 janeiro 2015

Do prazer de viajar

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Viajar é das coisas que mais gosto de fazer. O absoluto prazer de ver outras paragens, outras pessoas, outras realidades, misturar-me com as culturas locais, ver as ruas, os rios, os barcos, os automóveis, os trajes, as casas, as comidas e bebidas, os hábitos, a língua, enfim, experimentar bocadinhos do resto do mundo.


 


Confesso, no entanto que, à medida que os anos passam, me vou transformando numa viajante mais exigente e mais burguesa, pois a aventura de dormir ao deus dará, sem certezas nem conforto, são-me cada vez menos apelativas.


 


Sabendo desse meu gosto inesgotável, fui presenteada com duas séries de viagem efectuadas e narradas por Michael Palin, interessantíssimas, leves e bem dispostas, com o picante do inesperado, de coisas que foram correndo menos bem e outras dentro ou acima do esperado. A volta ao mundo em 80 dias, em que se procurou reproduzir a viagem de Phileas Fogg, herói de Júlio Verne, inaugurou um determinado tipo de documentários sobre viagens e viajantes, penso eu. Em relação a Himalaias, estou a rever a série porque esta já passou num dos canais da televisão, não me lembro qual, e é deslumbrante.


 


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Não podendo eu mesma fazer este tipo de viagens, sabe-me imensamente bem partilhar as aventuras de quem as arriscou e aproveitou. Só tenho pena que a minha fluência em Inglês não me permita comprar mesmo as séries não legendadas que, mesmo em inglês, ajudam bastante.

31 dezembro 2014

Das tristezas que não pagam dívidas

E como é tempo de começar, comecemos bem, comendo, bebendo e brincando (ai, ai), que é o que se leva desta vida.


 


Este Natal, mesmo não relatados, os repastos foram muitos e fartos, em quantidade e qualidade certificadas: rabanadas, filhós, azevias, aletria, sonhos, bacalhau com batatas, couves e grão, vinho tinto Cartuxa EA, licores dos mais finos da adega caseira, marca Dona Sofia & Companhia (marca reputada e habitual à mesa cá de casa). Não falo da calda maravilhosa que tentei repetir (para os sonhos), que desta vez ficou maravilho...samente espessa, impossibilitada de fluir e ensopar os ditos (esses sim, maravilhosos). O arroz de pato da Chefe Mais Sábia foi uma festa para os palatos mais exigentes. E esta Consoada teve um gosto muito especial, pois a família reuniu-se com os andarilhos pelo mundo de regresso a casa (ainda que momentaneamente para alguns), além de novos comensais, de paragens mais longínquas.


 


Mas isto é o preâmbulo para a descrição dos mimos que estão a ser preparados para degustar pela noite dentro e pela madrugada fora, em animação madura e contida mas não menos real. O Chefe prepara os Camarões à Tio Fausto (um must nestes réveillons), para além dos patés e dos queijos com as respectivas tostas e bolachas de água e sal, da salada de frutas especial (que chega, pelo menos, para 300 pessoas), da sempre eterna e omnipresente aletria, do vinho Chardonnay Borgonha Côtes D'Auxerre e do champanhe Veuve Émille, que nos acompanharão e ampliarão a alegria.


 


Com conversa, convívio e amizade, faremos figas e rogaremos uma praga à má sorte. António Costa será Primeiro-Ministro, António Guterres será Presidente da República, a Justiça será uma realidade e nós teremos confiança nela, os jovens começarão a ver uma luz ao fundo do túnel e a Europa regressará a si própria.


 


Que haja trabalho, música, poesia e romance e, mais importante que tudo isso, bom humor e disposição para esquecer os maus dias e aproveitar os bons. E como Carlos do Carmo foi agraciado com o Grammy latino, aqui deixo o Fado da Saudade cantado por ele, com letra de Fernando Pinto do Amaral e música de (envolto em polémica...), também agraciado com um Goya.


 



Fado da Saudade


Fernando Pinto do Amaral & Carlos do Carmo


 


Nasce o dia na cidade, que me encanta


Na minha velha Lisboa, de outra vida


E com um nó de saudade, na garganta


Escuto um fado que se entoa, à despedida


E com um nó de saudade, na garganta


Escuto um fado que se entoa, à despedida


 


Foi nas tabernas de Alfama, em hora triste


Que nasceu esta canção, o seu lamento


Na memória dos que vão, tal como o vento


O olhar de quem se ama e não desiste


Na memória dos que vão, tal como o vento


O olhar de quem se ama e não desiste


 


Quando brilha a antiga chama, ou sentimento


Oiço este mar que ressoa, enquanto canta


E da Bica à Madragoa, num momento


Volta sempre esta ansiedade, da partida


Nasce o dia na cidade, que me encanta


Na minha velha Lisboa, de outra vida


 


Quem vive só do passado, sem motivo


Fica preso a um destino, que o invade


Mas na alma deste fado, sempre vivo


Cresce um canto cristalino, sem idade


Mas na alma deste fado, sempre vivo


Cresce um canto cristalino, sem idade


 


É por isso que imagino, em liberdade


Uma gaivota que voa, renascida


E já nada me magoa, ou desencanta


Nas ruas desta cidade, amanhecida


Mas com um nó de saudade, na garganta


Escuto um fado que se entoa, à despedida


 


Bom Ano para todos!

11 dezembro 2014

Do não retorno

Nunca percebi muito bem a razão da atitude céptica e desesperançada que a maioria das pessoas adquire à medida que envelhece. Não são só os cabelos que embranquecem, mas também os olhos perdem o brilho, os ombros encurvam, os sorrisos abreviam. A nostalgia e o culto da inocência demonstram bem a certeza de a perderem, se bem que o exacto significado dessa expressão tardava em revelar-se.


 


Mas agora olho para o que era e para o que sou, e vou entendendo que a secura da vida se apropriou de mim. Muito do que eram as minhas crenças e do que eram os meus princípios, férreos e inamovíveis, nobres e escorreitos, limpos e directos, parecem cada vez mais esbatidos, a perder nitidez. A relativização dos limites e dos comportamentos perante as desilusões e as evidências a desmentir tudo o que pensava certo e inquestionável, o mover do chão onde me implantei, fazem com que me desgoste de mim.


 


E no entanto não quebrei nada a que me tivesse comprometido, cumpro devotadamente os meus deveres, apregoo aos quatro ventos a procura da felicidade, a existência desse local mítico que nos faz viver, dia a dia, ano a ano. Mas algo se vai quebrando em mim, essa capacidade de olhar para o mundo e o ver cintilar, essa radiosa certeza de que se nos dermos à vida ela nos será gentil e pródiga.


 


Na verdade, para uma total agnóstica como eu, acredito de mais na providência e no retorno das boas acções. Só existem acções, nem boas nem más, mas apenas inconsequentes, rituais e inconscientes, uma roda de actos e emoções que se modelam entre si e se habituam a tudo. E a nada.

24 novembro 2014

Da minha natureza intrinsecamente corrupta

Devo ser natural e entranhadamente corrupta pela minha total e entusiástica preferência por gente óbvia e comprovadamente venal como Maria de Lurdes Rodrigues, Pinto Monteiro ou José Sócrates, e o meu absoluto distanciamento urticariforme de pessoas impolutas como Manuela Moura Guedes, João Marcelino e muitos dos nossos actuais governantes que tentam resgatar-me diariamente dos meus vícios.

03 novembro 2014

Largo de Sto. António

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E pronto, já chegámos ao Outono, portanto ao Inverno. Não há ano em que o início de Novembro, com a habitual peregrinação a terras beirãs, não seja o princípio do frio e da chuva. Por muito bom tempo que esteja antes, no dia da feira arrefece e chove.


 


Muita gente mas pouca feira. Encolheu e especializou-se: castanhas foram mais que muitas, queijos e enchidos (maravilhosos) menos, muitíssimas tendas com roupa e sapatos; jeropiga para vários gostos, castanhas mais ou menos assadas e farturas, obviamente, quentes e polvilhadas de açúcar e canela.


 


Este ano houve um extra: como de costume as ruas onde montam as tendas ficam interditas ao trânsito e ao estacionamento. O largo de Sto. António é uma boa alternativa e costumo lá deixar o carro, todos os anos. Desta vez havia um lugarzito bem bom encostado ao passeio e lá deixei o reluzente carro, acabadinho de lavar no dia anterior.


 


Na manhã seguinte, quando o fui buscar, pensei que tinha havido uma limpeza de esgotos na cidade dos pombos, imediatamente acima do tejadilho do meu maravilhoso veículo, numa frondosa árvore. Era tanta porcaria, nos vidros, nas portas, misturada com penas, que parecia o resultado de uma guerra intestina (literalmente) da passarada.


 


Quando comentei, entre o ultrajada e ofendida, o facto com familiares, a frase - Onde o deixaste? No largo de Sto. António? - vinha acompanhada de um imparável sorriso de gozo misturado com pena, de quem já sofreu ou viu sofrer agruras semelhantes.


 


Antes de me vir embora a primeira coisa que fiz foi procurar um local onde pudesse lavar aquela bodeguice. Ao chegar à oficina o senhor que lá estava, com o mesmo imparável sorriso de gozo misturado com pena comentou - Ah, foi no largo de Sto. António...


 


Fiquei a saber que o Largo de Sto. António deve ser conhecido como o cagatório público dos pombos alcainenses.

31 outubro 2014

Da aculturação dos bruxedos

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Estou a ficar definitivamente velha e ranzinza. Embora desconfie que quando era nova e alegre (se é que isso algum dia aconteceu) nunca tenha percebido o fascínio pelos carnavais.


 


Mas agora, com esta nova moda do Halloween, mais uma importação ou aculturação, a juntar ao Valentine's Day, e com o jantar interrompido por uma miúda já bastante graúda a pedir doce ou travessura, faz-me grunhir de exaspero e enervação.


 


Truque ou travessura? Já nem o Pão-por-Deus, de que também nunca gostei, se salva neste estrangeirismo militante. Só me faltam mesmo as verrugas com pêlos no nariz, para me transformar numa bruxa de olhos vermelhos.


 


Nota: A propósito vale a pena ler este post que, embora tenha sido escrito já há 3 anos, continua cada vez mais actual.

Abóboras

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A única assombração, nesta noite de bruxas, é mesmo a imagem das abóboras que tenho para transformar em alguma coisa natalícia...

Da mudança de imagem

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Nos próximos tempos este blogue vai trabalhar para a imagem. Ainda não sei bem como, mas vais ficar diferente.


 


Aguardemos...

26 outubro 2014

Da sobrevivência da Pensão Estrelinha

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Uma das coisas de que gosto, quando vou a congressos e cursos fora da localidade onde moro, é a hipótese de me poder deslocar a pé, entre o hotel e o curso ou congresso, seja em Portugal seja no estrangeiro.


 


Neste momento temos várias ferramentas que nos ajudam a escolher o alojamento, que nos informam da localização precisa, do preço e das facilidades que oferecem aos hóspedes.


 


Animada destes princípios e com uma fé inabalável na internet e no rejuvenescimento da nossa oferta turística, que é muito melhor do que em muitos outros países com grande propaganda, procurei um local no Porto, onde pudesse, a um preço módico, ficar perto do Hospital de Santo António, onde iria decorrer o curso durante uns 4 dias.


 


Google maps e booking.com, duas indispensáveis ferramentas de que me socorro sempre nestas ocasiões, foram, mais uma vez, a resposta às minhas perguntas: na Praça Carlos Alberto, a 5 minutos a pé do Hospital de Santo António, um Hotel a 42,00/ noite, com pequeno-almoço e internet! Que mais poderia querer


 


Na estação de Campanhã, após uma viagem de comboio onde devorei The right attitude to rain, estranhei que o taxista não conhecesse o maravilhoso Hotel. Bem, mas lá fomos. A Praça Carlos Alberto é fabulosa, lindíssima e animada. Numa das pontas via-se uma porta com o nome do Hotel. Tive um instante de apreensão, ao ver a estreiteza da ombreira e a decadência da pintura, mas nada que encolhesse o meu optimismo.


 


Carregando a mala, franqueei a porta. Esperavam-me dois lanços de escada íngreme até ao 1º andar, seguindo as setas que indicavam a recepção. Esta constava de um balcão e de um senhor medianamente simpático, que me pediu a identificação, me indicou a sala do pequeno-almoço nesse andar (atrás de uma porta em mau estado reconheciam-se algumas cadeiras esquálidas). Quando me disse que o meu quarto era o número trezentos e qualquer coisa, no 3º andar, perguntei pelo elevador. Sorrindo o senhor medianamente simpático explicou-me que não havia. Ou seja, carreguei a mala por mais dois andares de escadaria tão íngreme como a anterior. A chave era uma chave verdadeira, amarelada, com a etiqueta do número pendurada; a porta do quarto era grande, pesada e abriu-se com bastante dificuldade. Lá dentro dei com das camas lado a lado, num quarto com as paredes mal pintadas, um chão de madeira corrida e que rangia, sem armário. A casa de banho tinha uma banheira xs, com uma cortina de plástico que já vira melhores dias, um chuveiro pendurado com uma cor baça e desocupada e, mesmo a um canto do tecto, sobressaía um termoacumulador, que aqueceria (ou não) a água do banho.


 


Bom, testemos a internet - funcionava. Procurei vários hotéis mas, tal como me tinham afirmado, o Porto estava repleto de turistas e não havia lugar em lado nenhum, com excepção do IBIS São João.


 


Telefonei e reservei um quarto para os dias seguintes. Quando fiz o checkout, o senhor medianamente simpático não perguntou nada, nem porque razão não aproveitava uma única noite. Concluí que não deveria ser a primeira pessoa a prescindir de tão humilde conforto.


 


Mas tive pena. Prefiro uma caminhada pela manhã e não preciso de grande estadão para passar as noites. Mas não é preciso exagerar. E bastava uma pequena remodelação para ser uma maravilhosa pensão Estrela, em vez de estiolar em Estrelinha.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...