31 agosto 2011

Espartilho


 


Nos tempos que correm é difícil discutir outros assuntos que não se prendam com o receio do futuro, a capacidade de lutar pela sobrevivência. O dia a dia das pessoas é cada vez mais difícil, o emprego é cada vez mais escasso, os impostos são cada vez mais altos, os rendimentos são cada vez mais reduzidos. A vida afunila-se com a praça, os sapatos, a carne, os transportes, a chuva, o acordar a fazer contas, o deitar a fazer contas, olhos abertos fixados lá na frente sem se ver nada para lá do dinheiro, ou da falta dele, e da certeza de que se piora todos os dias.


 


Como se pode pensar noutras coisas, ler livros, assistir a colóquios, conversar sobre pintura, cinema, viagens, personagens históricas, personagens de romance, distanciamentos, religião, escritores, músicos, concertos, passeios? Como se poderá alterar as prioridades da existência? Estas preocupações, quase obscuras, quase obscenas para quem tem obrigatoriamente as comezinhas mas indispensáveis tarefas de angariar fundos para se manter, para levar uma vida com um mínimo de segurança, estas preocupações fazem parte da essência da liberdade.


 


Que liberdade numa sociedade que se espartilha entre o somatório dos débitos e dos défices e das crises? Onde está o indivíduo e o seu espaço de procurar, comparar, conhecer, escolher? A mentalidade da servidão alimenta todas as ditaduras. Mas como se pode sacudir o sentimento de impotência, a dependência das migalhas diárias com que temos de nos contentar?


As vozes dos outros (2)

 



(...) e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. (...) Creio que os escritores, nas sua maioria, mesmo os "sérios", que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem, que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grandes que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara - uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama "papá" (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro - são todas "pessoas grandes", que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. (...)


 


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011

O tempo dos burlões

 


Há pessoas cujas atitudes são difíceis de perceber e revelam nem eu mesma sei o quê, mas algo de muito estúpido.


 


A minha solidariedade para o Vítor Dias. Continuarei a visitar o tempo das cerejas 2.

28 agosto 2011

Coisas simples

 



 


Ignacio Canales Aracil 


 


 


 


Ainda as coisas simples e seguras


como as mãos que temos juntas


o sal do começo a água que nos limpa


ainda a terra plena que nos sustenta


a massa o pão as cinzas


o amor que nos alimenta.

As vozes do outros (1)


 



(...) Quando falamos de amor pelo passado é preciso ter atenção, pois é do amor à vida que se trata. A vida está muito mais no passado do que no presente. O presente é um momento sempre curto, mesmo quando a sua plenitude o faz parecer eterno. Quando se ama a vida, ama-se o passado, porque é o presente tal como sobreviveu na memória humana. O que não significa que o passado seja uma memória de oiro: tal como o presente, é ao mesmo tempo atroz, soberbo ou brutal, ou apenas vulgar. (...)


 


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011


 


Se cuidas de mim


Tiago Bettencourt & Manta


Inês Castel-Branco 


 


 


Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Dentro da minha mão
Eu guardo te bem
Se amarmos do princípio
Se perdermos tudo outra vez
Vou marcar-te bem
Como um sonho vão
Dentro da minha mão


 


Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Se vens em paz
Eu venho por bem
Se formos bebendo
O chão deste caminho
Vou guardar-te bem
Agora que sei
Que não vou sozinho


 


Há uma praia depois da sombra
Uma clareira p'ra iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
Tu a caminho p'ra iluminar


 


Por isso vem

PCP - partido antidemocrático

 


O PCP é um partido que, ao longo das décadas pós 25 de Abril, se assume como a verdadeira esquerda, um partido antifascista e anti-imperialista, defensor das mais amplas liberdades para o povo.


 


O PCP é, no entanto, um partido completamente anacrónico e, ao contrário do que diz, defensor de uma ideologia totalitária e antidemocrática. Na blogosfera, por exemplo, se alguém se arrisca a questionar as suas posições políticas, a criticar os sindicatos afectos, pode de imediato contar com a caixa de comentários pejada de insultos, em que o menor é anticomunista primário.


 


Vale a pena ler os textos intitulados Sobre os acontecimentos de 19 de Agosto de 1991 na URSS, de 18 de Agosto, não assinado, no site do PCP, e Agressão imperialista à Líbia - Tripoli cai afogada em sangue*, de 25 de Agosto, também não assinado, no site do Jornal Avante!.


 


Passaram já 20 anos desde a queda do regime, mas o PCP não aprendeu nada e a História, para o PCP, é uma fatia formatada à sua imagem, em que o anticomunismo e o imperialismo das nações afectas aos EUA são a raiz de todos os males, numa cegueira absolutamente incompreensível e inigualável:


 


(…) Historicamente o que é relevante não são os acontecimentos de 19 de Agosto mas a veloz escalada contra-revolucionária encabeçada por Ieltsin que, contra a expressa vontade do povo soviético – no referendo de 17 de Março desse ano, e apesar da confusão já então instalada na sociedade, 76% dos soviéticos votaram pela continuação da URSS – conduziu ao desmantelamento da URSS e à destruição do seu sistema sócio-económico socialista. Sistema que, apesar de atrasos, erros e deformações que se tornara necessário superar, revelara bem a sua superioridade em relação ao capitalismo, trouxera ao povo soviético grandes conquistas e realizações, dera a mais heróica e decisiva contribuição para a derrota do nazi-fascismo e exercera uma influência determinante nos grandes avanços transformadores e revolucionários do século XX. A sua destruição não podia deixar de representar, como representou de facto, grandes perdas e imensos sacrifícios para os trabalhadores e para os povos da URSS e para os povos de todo o mundo.


 


Com o desaparecimento do poderoso contra-peso que a URSS e o sistema socialista representavam em relação ao imperialismo e à sua política exploradora e agressiva, e a brutal alteração da correlação de forças daí resultante, o mundo tornou-se mais injusto, mais perigoso, mais desumano. (…)


 


Em relação aos recentes acontecimentos na Líbia, mais uma vez o PCP defende que:


 


(…) A queda de Tripoli é uma derrota para todos os progressistas e amantes da paz, mas não a sua rendição ou deserção da luta contra a barbárie.


 


Confesso que, por muito que releguemos os resultados eleitorais do PCP para a irrelevância que vão tendo, não consigo deixar de me surpreender com o ainda grande número de pessoas que escolhem não querer saber, que optam pela mentira e pela ocultação a si próprios da realidade.


 


É preciso denunciar e combater o PCP, democraticamente, precisamente o contrário do que a URSS e a Líbia faziam aos opositores dos respectivos regimes.

Direitos, liberdades e garantias

 


A mais recente polémica sobre as escutas telefónicas não autorizadas a um jornalista, por parte dos serviços de informação, reabriram uma discussão da qual muitos se arredaram e que agora, com toda a razão, se indignaram. Este é um atentado gravíssimo aos direitos fundamentais dos cidadãos. Mas é este como o foram as escutas efectuadas a outros, sem que ninguém tenha percebido porquê, a divulgação das mesmas e a sua publicitação.


 


Os limites da legalidade e do respeito pelos direitos, liberdades e garantias foram ultrapassados. Não se ouve o Mais Alto Magistrado da Nação insurgir-se e apelar para rigorosos e céleres inquéritos. Não se ouve o Mais Alto Magistrado da Nação insurgir-se contra os atropelos à liberdade de expressão na Madeira. Lembro mesmo o facto de um deputado eleito ter sido impedido de entrar na Assembleia Regional da Madeira, sem que se tenha ouvido do Mais Alto Magistrado da Nação uma palavra de repúdio, tendo mesmo aceite a afronta de não ter sido recebido na dita Assembleia.


 


Pedem-se inquéritos e punições exemplares. Claro que todos o desejamos. Mas aquilo que mais se exige é uma verdadeira cultura e prática democráticas. Infelizmente elas são apregoadas mas pouco observadas por quem tem obrigação constitucional de o fazer. E todos somos cúmplices. Não me recordo de ter ouvido questionar o então candidato a presidente, Aníbal Cavaco Silva, sobre estes atentados à democracia.


 


Isto diz-nos respeito a todos, como cidadãos de uma sociedade livre e democrática, que preza os valores da liberdade individual. É imprescindível que os mais altos responsáveis políticos se empenhem em garantir o funcionamento das instituições democráticas e que todos nos indignemos sempre e independentemente de quem é o visado por estes atentados.


 


CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA


 


(...)


TÍTULO II
Direitos, liberdades e garantias 


CAPÍTULO I
Direitos, liberdades e garantias pessoais 


(...)


Artigo 26.º


Outros direitos pessoais


 


1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.


 


2. A lei estabelecerá garantias efectivas contra a obtenção e utilização abusivas, ou contrárias à dignidade humana, de informações relativas às pessoas e famílias.


(...)


 


Nota: Sobre o mesmo assunto: Ricardo Alves, Estrela Serrano, Fernanda Câncio, Jumento, Luís Menezes Leitão.

Tempo suspenso

 



Tiago Taron 


 


Ao fim da tarde, no burburinho do Bairro Alto, deambulando pelo Príncipe Real, devagar e contida em conversa silenciosa com quem me acompanha. Temos o tempo suspenso nas memórias reencontradas, vogamos sem rumo pelas percepções do outro eu, devagar, umas vezes subindo e outras descendo, pelas ruas do Bairro Alto.


 


Quem somos nem nós sabemos, os intrincados processos de entrelaço decorrem sem deles nos apercebermos. Um olhar aqui, outro acolá, em demanda de uma Fábrica de Chapéus, larga, de anúncio amarelo, jovem e tradicional a um tempo. Experimentam-se chapéus como quem toca ao de leve em confidências, umas mais floridas, outras mais cinzentas, de copa alta ou aba curta, sempre sem entregas histriónicas.


 


As portas das casas velhas escondem a vida que por ali habita sem sobressaltos visíveis. Paredes vivas que contam histórias de amizade e iniciação, mesas que servem mais do que simples refeições, cruzamos a tarde que abafa, antes do regresso ao quotidiano.

27 agosto 2011

I saved the world today




Eurythmics



Monday finds you like a bomb
That's been left ticking there too long
You're bleeding
Some days there's nothing left to learn
>From the point of no return
You're leaving

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay

There's a million mouths to feed
And I've got everything I need
I'm breathing
And there's a hurting thing inside
But I've got everything to hide
I'm grieving

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay

Let it stay
Let it stay
Doo doo doo doo doo the good thing

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay


Neste meu retiro, longe de tudo e de todos

 



Mário Máximo


 


Neste meu retiro, longe de tudo e de todos,


e sobretudo longe de mim,


tento o reencontro com as fontes.


O reencontro com as palavras do verbo


que aceitou criar-me.


Há em todos os regressos um segredo.


E é nessa demanda que descubro


a força e a razão para tão longo afastamento.


E vou descobrindo o sentido do meu


novo teorema: quanto mais longe do mundo, mais


perto de mim.

That's what friends are for

 



Dionne Warwick & Steve Wonder


Gladys Knight & Elton John 


 


And I 
Never thought I'd feel this way
And as far as I'm concerned I'm glad I got the chance to say
That I do believe I love you 

And if I should ever go away
Well then close your eyes and try to feel the way we do today
And than if you can't remember.....


Chorus:


Keep smilin'
Keep shinin'
Knowin' you can always count on me 
for sure
that's what friends are for
In good times
And bad times
I'll be on your side forever more
That's what friends are for


Well you came and open me


And now there's so much more I see
And so by the way I thank you....

Ohhh and then 
For the times when we're apart
Well just close your eyes and know
These words are comming from my heart
And then if you can't remember....Ohhhhh

Um desespero cândido exala dos meus instantes mais solitários

 



Mário Máximo


 


Um desespero cândido exala dos meus instantes mais solitários.


Um desespero de criança perdida ou, pior do que isso,


de criança abandonada.


É nessas alturas que algo de especial e sereno tem de ser feito.


Aprendi a deixar que as horas se esgotem


minimizando o tempo


e a inevitável angústia de o ver e sentir passar


em desespero.


Não podemos permitir que a ansiedade nos vença.


Sob pena de o desespero se tornar a nossa única condição.

26 agosto 2011

Choque histórico e colossal

 


Este governo tem tiques de linguagem idênticos a Francisco Louçã. É tudo colossal, desde o desvio nas contas públicas ao esforço de quem paga impostos extraordinários, e histórico, como o exemplo dos cortes nas despesas do estado.


 


Colossal e histórico é também a incapacidade dos diferentes e sucessivos líderes do PSD e Primeiros-ministros (do PS e PSD) incapazes de lidar com o histórico e colossal desplante de Alberto João Jardim.


 


Há também os choques, desde o fiscal ao reformista.


 


O BE terá que mudar de linguagem e de estilo. Esta coligação governamental é a revolução permanente, em directo.

23 agosto 2011

Um dia como os outros (94)


(...) O cancelamento das máquinas de pagamento automático, (...) deve-se, claro, à queda das vendas e ao Fisco. A pressão fiscal a que todos começam a estar submetidos num ambiente recessivo vai tornar a famosa curva de Laffer uma realidade na sua vertente menos desejável - sobem os impostos, cai a receita mais do que era esperado pela recessão. (...)


 


(...) A queda do consumo que reflecte as decisões dos pequenos comerciantes de desistirem das máquinas de pagamento electrónico é uma tendência certa que só podemos esperar que se agrave. Já menos certa é a subida das exportações. Espelho da conjuntura de crescimento do resto do mundo, o aumento das vendas para o exterior pode estar ameaçado com as nuvens que se começam a ver no horizonte financeiro. Uma recessão nos Estados Unidos, um abrandamento na Alemanha e uma aterragem brusca na China significam para Portugal contagiar a crise às empresas que exportam. Mas é isto que os investidores estão, neste Agosto, a profetizar. (...)


 


Helena Garrido


 


 


 


(...) Quanto às saídas, todos os dias aparecem conselheiros: que deveríamos iniciar uma purga de óleo de rícino e depois voltar a comer, mas só dieta, desmantelando o estado social que levou gerações a construir; que deveríamos deixar de investir em infra-estruturas, luxos a que não temos direito, mesmo que altamente subsidiados pela Europa; que deveríamos oferecer aos chineses a nossa dívida; que deveríamos adoptar uma diplomacia económica agressiva, vendendo mais para o Atlântico Sul, sem repararmos que, todo junto, ele não chega a 10% do que vendemos; há quem se lembre da China e Índia, sem sabermos como produzir sustentadamente para mercados que tudo absorvem, mas exigem continuidade e dimensão; e finalmente que deveríamos abandonar a zona euro, com ou sem negociação prévia, tornando as nossas exportações mais competitivas, sem fazer as contas ao custo da componente importada em tantos produtos de fraco valor acrescentado. (...)


 


António Correia de Campos


 

Plano inclinado

 


As notícias sobre a execução orçamental são as que se esperavam - reduzem-se as receitas por causa da recessão económica, o que faz com que os impostos que aumentaram não rendam o que o governo esperava.


 


Infelizmente não são novidades. Também não é novidade que o desvio orçamental a que o Primeiro-ministro aludiu para justificar o imposto extraordinário (13º mês) não existe nem nunca existiu. É tudo bastante visual, de facto.


 


Novidade será as facturas que Miguel Relvas descobriu serem descobertas pelos deputados, caso eles as queiram visualizar.


 


E qual vai ser a solução? Desistimos dos investimentos, desistimos do Estado Social, enfim, do Estado, aumentamos os impostos, as privatizações aí estão. Qual vai ser a solução?


 


E a Europa?

22 agosto 2011

Avaliação rigorosa

 


A propósito de algumas das medidas anunciadas pelo Ministério da Saúde, é importante que Paulo Macedo esclareça a forma como vai fazer os cortes nas despesas hospitalares.


 


Os recursos humanos podem ser redundantes nalgumas áreas de alguns hospitais e serem absolutamente diminutos, mesmo insuficientes, noutras áreas e noutros hospitais.


 


É essencial que se perceba, em cada Hospital, porque se contratam médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e administrativos, porque se pagam horas extraordinárias. Há serviços que sem essas horas e sem esses contratos deixam de cumprir os requisitos mínimos de qualidade para atenderem e tratarem doentes. Como há outros serviços que se deveriam fundir. Mas uma fusão significa um espaço único para um grupo de pessoas, ao contrário de algumas fusões feitas num passado recente que mantém os vários serviços, levando os médicos a correr a cidade de hospital para hospital, o que redunda no contrário do pretendido.


 


Estas reorganizações devem basear-se em avaliações rigorosas, caso a caso, sob pena de se inviabilizarem cuidados essenciais aos doentes do SNS.


 

21 agosto 2011

Thunder road



Bruce Springsteen & Melissa Etheridge


 


 


The screen door slams


Mary' dress waves


Like a vision she dances across the porch


As the radio plays


Roy Orbison singing for the lonely


Hey that's me and I want you only


Don't turn me home again


I just can't face myself alone again


Don't run back inside


Darling you know just what I'm here for


So you're scared and you're thinking


That maybe we ain't that young anymore


Show a little faith there's magic in the night


You ain't a beauty but hey you're alright


Oh and that's alright with me


 


You can hide 'neath your covers


And study your pain


Make crosses from your lovers


Throw roses in the rain


Waste your summer praying in vain


For a saviour to rise from these streets


Well now I'm no hero


That's understood


All the redemption I can offer girl


Is beneath this dirty hood


With a chance to make it good somehow


Hey what else can we do now ?


Except roll down the window


And let the wind blow


Back your hair


Well the night's busting open


These two lanes will take us anywhere


We got one last chance to make it real


To trade in these wings on some wheels


Climb in back


Heaven's waiting on down the tracks


Oh-oh come take my hand


We're riding out tonight to case the promised land


Oh-oh Thunder Road oh Thunder Road


Lying out there like a killer in the sun


Hey I know it's late we can make it if we run


Oh Thunder Road sit tight take hold


Thunder Road


 


Well I got this guitar


And I learned how to make it talk


And my car's out back


If you're ready to take that long walk


From your front porch to my front seat


The door's open but the ride it ain't free


And I know you're lonely


For words that I ain't spoken


But tonight we'll be free


All the promises'll be broken


There were ghosts in the eyes


Of all the boys you sent away


They haunt this dusty beach road


In the skeleton frames of burned out Chevrolets


They scream your name at night in the street


Your graduation gown lies in rags at their feet


And in the lonely cool before dawn


You hear their engines roaring on


But when you get to the porch they're gone


On the wind so Mary climb in


It's town full of losers


And I'm pulling out of here to win


 


Um dia como os outros (93)


(...) Agora um Governo de coligação de partidos à direita do espectro político e um Ministério da Saúde onde pontificam, segundo a imprensa, homens conotados com a Opus Dei, ambos zelosos no cumprir de compromissos rubricados com entidades financeiras e políticas internacionais, decidem, em dois singelos meses:



  • acabar com a experiência das PPP na área da Saúde e reavaliar as existentes

  • racionalizar a capacidade instalada no SNS quanto a Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica, dando uma machadada de dimensões ainda difíceis de calcular nos convencionados

  • fazer um cerco à prestação de serviços no SNS

  • introduzir Normas de Orientação Clínica

  • obrigar à redução das horas extra o que levará, obrigatoriamente, ao encerramento e fusão de serviços, incluindo Urgências


Não sabemos o que se seguirá embora o guião seja conhecido.


Todas as medidas listadas defendem objectivamente o SNS e foram tomadas por quem foi acusado de o ir destruir.


Conhecem, na História recente, maior ironia ideológica?


 


Carlos Arroz

20 agosto 2011

Sustentabilidade do SNS

 


Correia de Campos dá hoje uma entrevista ao i, que vale a pena ler. Foi um dos melhores ministros da Saúde que tivemos e que verdadeiramente, com medidas impopulares mas importantes, lutou pela sustentabilidade do SNS. Como ele diz e como se pode perceber pela reacção de António Arnaut, o preconceito e o anacronismo podem ensombrar as melhores intenções.


 


O mundo mudou muito desde a implementação do SNS. Foi e é uma instituição de que nos orgulhamos. Mas não basta fazer manifestações e exclamar hinos de amor ao SNS para que este se possa adaptar a tudo o que foi aparecendo como inovação, não só em termos de ferramentas diagnósticas como terapêuticas. Tem que haver ajustes e reajustes, tem que se rentabilizar e concentrar, onde a exigência de qualidade se impõe e o desperdício é obsceno. Os serviços de urgência, os cuidados primários, as maternidades, os hospitais públicos, tudo deve ser reequacionado e adaptado à realidade do mundo actual.


 


Esta é e sempre foi uma bandeira do PS, mas o PS não pode anquilosar por falta de ideias ou alternativas. Correia de Campos tentou. Mas a ala mais conservadora dentro do partido dos anteriores governos, na qual se incluem Manuel Alegre, António Arnaut e António José Seguro, esforçaram-se e conseguiram abortar muitas das reformas.


 


Algumas das decisões deste Ministro parecem estar sintonizadas com o objectivo de garantir a sustentabilidade do SNS, mantendo-o universal e tendencialmente gratuito. Esperemos que sim e, ao contrário do que António Arnaut afirma, será irónico que seja um Ministro desta coligação de direita a defender um verdadeiro conceito socialista - o SNS.

A submissão do PS

 


Ontem, em resposta a uma das minhas impaciências pela morosidade enervante de certos desenvolvimentos, disseram-me que, apesar de tudo, estávamos ali, a conversar e a tentar alinhar as vontades e as acções, enquanto tudo o resto estava de férias.


 


Olhando para a nossa vida política tenho que dar razão a quem assim argumentava. O PS está de sabática desde as eleições legislativas. António José Seguro, aquela fera durante o consulado de Sócrates, que se insurgia contra a política de educação, de saúde, etc., parece ter desaparecido para parte incerta, sem que ninguém possa explicar o que pensa, o que pretende, comentários ao que se vai passando, alternativas, sei lá, uma prova de vida.


 


É claro que o PS está comprometido com muitas das medidas impostas pela Troika, pelo que se espera responsabilidade e não ausência ou omissão. O governo tem tomado medidas no mínimo polémicas. O populismo e a demagogia associados às nomeações para cargos políticos, o novo modelo de avaliação de professores, o plano de emergência social, as privatizações, o TGV, o eventual convite a Mário Crespo, para nomear apenas algumas. Será que o maior partido político na oposição não tem nada a dizer?


 


Tal como as anteriores lideranças do PSD foram um seguro de vida para o governo PS, António José Seguro é o garante de Passos Coelho. O vazio de ideias que se adivinhava está a revelar-se neste silêncio ensurdecedor.

Agosto

 



The wondering artist


 


Agosto ferve em lume brando o céu eléctrico em frenesim ameaça alarde de trovão. Arrasta-se a plebe pela casa pela cama pela rua pelo chumbo sob as cabeças cinzento sujo que nem a água chega para clarear.


 


A contabilidade toma conta da vida quanto custa andar que as solas dos sapatos também se gastam quanto custa telefonar que a conversa já estafa quanto custa a refeição que de fartura estamos parcos.


 


Contam-se moedas e cabeças carapaus e bocas medem-se alturas e pesos calculam-se passos quilómetros e horas ao minuto ou ao segundo pois o futuro não se conhece nem serve de norte.


 


Agosto marina a paciência de quem já não espera. Calam-se as vozes de dentro que nem vale a pena pensar. Sobrevivemos ao desgosto apenas sobra o mole descoser dos dias.

18 agosto 2011

O desfazer da Europa

 


Tenho muita dificuldade em me rever numa Europa em que, sem que os cidadãos os tenham eleito ou mandatado para tal, há dois países que se assumem como os chefes incontestáveis de uma união de Estados que se dizem soberanos, dando conferências de imprensa em que sugerem o que a Constituição de cada país deve conter.


 


A Europa vai-se descaracterizando cada vez mais, tornando supérfluo o acto eleitoral que se cumpre, como um ritual, de 5 em 5 anos, para além da total irrelevância do Presidente da Comissão Europeia e do Presidente do Conselho Europeu. A opinião dos cidadãos não serve para construir ou aprofundar a União, mas apenas para manter uma fachada de democracia europeia.


 


Angela Merkel e Nicolas Sarkozy já nem sequer se preocupam em manter a encenação. O conceito de União Europeia já não existe.

15 agosto 2011

Felicidade

 



Alan Faulds


 


Seremos felizes os dois


dentro da quieta acidez do quotidiano


entre silêncios cúmplices e tristezas repartidas


a grandeza do amor nas duras desistências


entre o sal da resistência e o manso sabor das ondas.


 


Seremos felizes os dois


dessa felicidade rugosa e incerta


que ilumina cada recanto dos corpos seduzidos


pela comunhão sem paz nem tréguas


entre acessórios gestos sem sentido nem chama.

14 agosto 2011

A escrita tem sexo (?)

 


Vai decorrendo um desafio muitíssimo interessante - O sexo da escrita - Prova cega - imaginado por Ana Vidal. Consiste em tentar-se descobrir, através de um pequeno excerto de uma qualquer obra, qual o sexo do autor.


 


Aqui se podem discutir muitos conceitos e opiniões sobre a existência ou não de um género na escrita. Levantam-se ainda as questões das traduções, nomeadamente se o sexo de quem traduz influencia a escrita.


 


Será que há mesmo temas, estilos, sensibilidades, que se definem como femininas ou masculinas? Será que não?


 


Descubra, num blogue perto de si.


 

Mortal loucura

 



 José Miguel Wisnik / Gregório de Matos


Caetano Veloso


Grupo Corpo: Onqotô


 


Na oração que desaterra........................... aterra,


Quer Deus que a quem está o cuidado....... dado


Pregue que a vida é emprestado............... estado,


Mistérios mil que desenterra.................... enterra.


 


Quem não cuida de si que é terra.............. erra,


Que o alto Rei por afamado..................... amado


E quem lhe assiste ao desvelado............... lado


Da morte ao ar não desaferra.................. aferra.


 


Quem do mundo a mortal loucura............ cura,


À vontade de Deus sagrada...................... agrada


Firmar-lhe a vida em atadura................... dura.


 


Ó voz zelosa que dobrada......................... brada,


Já sei que a flor da formosura................... usura


Será no fim desta jornada........................ nada.

13 agosto 2011

Em cerca de 2 meses

 


Este governo, eleito para cumprir uma rigorosa mudança de atitude governativa, com enormes e exuberantes cortes nas despesas do estado, anunciadas, escolhidas e conhecidas pelos estudiosos especialistas, pensadores, opinadores e comentadores da área actualmente no poder, tem anunciado em conferências de imprensa, mais impostos e nenhuma medida para reduzir as despesas (estou a esquecer-me, obviamente, da reduzida dimensão do governo).


 


Desde 5 de Junho, em pouco mais de 2 meses, aqueles que não aprovaram o PEC IV, já introduziram um imposto extraordinário (subsídio de Natal), aumentaram os transportes públicos (em cerca de 12% - média) e aumentaram o IVA para 23% no gás e electricidade.


 


O Estado propõe-se ajudar as IPSS para que elas apoiem os cidadãos com maiores dificuldades (Plano de Emergência Social), mas parece que terá que as salvar primeiro da falência. Para isso nada melhor do que aligeirar as regras de funcionamento, tal como se podem aligeirar as regras de segurança e higiene dos produtos alimentares, tal como se podem aligeirar as regras de segurança para o consumo de medicamentos, para os cidadãos com maiores dificuldades. No entanto o Estado não parece preocupado em salvar os hospitais do SNS pagando-lhes os enormes montantes que lhes deve, colocando em causa o normal funcionamento dos mesmos e o atendimento adequado aos doentes, mas sugere que apertem os cordões à bolsa e que tenham contenção. Temos a vantagem de assistir à criação de um organismo... que já está criado.


 


Confesso que me escapa esta escala de prioridades.

Populismo e hipocrisia

 


A crise existe a vários níveis. Quando se ouvem os responsáveis políticos muito preocupados em fazer comunicações ao país, declarando que prescindem das férias para trabalhar a favor da causa pública, que viajam em classe económica para poupar o estado, que aceitam responsabilidades e trabalho por escassas remunerações ou mesmo por ausência delas, que são defensores de ambientes austeros, e outras manifestações espartanas, percebe-se o vazio de tanta intenção, o populismo e a demagogia que abarca toda a classe política. Todos os dias aparecem notícias contabilizando os gastos em telemóveis, carros e viagens. Não tardará a contabilizarem-se os custos dos restaurantes, dos fatos, das maquilhagens, de todo e qualquer sinal que possa significar, para o comum dos cidadãos, apertado e descontente pela cada vez menor qualidade de vida, um privilégio obsceno.


 


Não ponho em causa a necessidade de disciplinar, prevenir e impedir o uso abusivo dos bens públicos. Nem questiono a afronta de determinados prémios e exposições alarves e bacocas de esbanjamento, para quem se sente injustiçado pelo desemprego, pelos baixos salários, pela gestão dos parcos recursos a que tem direito. Mas não me parece que o alimentar deste tipo de atitudes, que se demonstram hipócritas, revelando a falta de honestidade intelectual de quem as proclama, sabendo de antemão que apenas são encenações, ajudem ao controlo das finanças públicas, à motivação dos cidadãos ou à moralização da vida pública.

12 agosto 2011

Os limites

 


Ainda bem que a Troika assumiu que não haverá mais aumentos de impostos, este ano. Agradecimentos à Troika, que nos governa. O Ministro das Finanças, no entanto, ainda não refeito do aumento do IVA anunciado hoje, já se prepara para os novos aumentos de impostos em 2012.


 


E isto é proque há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.


 


 

Tardes

 



Martha Pettigrew


 


Assumimos cumplicidades recentes irmandades antigas



em jardins expostos de códigos


que apenas nós aceitamos.


Redigimos diários suspensos


em que as palavras desenham afectos


que apenas nós conhecemos.


Sabemos sorrir devagar


como o rumor da tarde


que apenas nós percebemos.


10 agosto 2011

O valioso tempo dos maduros

 



 


Contei meus anos
e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
do que já vivi até agora.


 


Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas
percebendo que faltam poucas, rói o caroço.


 


Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.


 


Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário-geral do coral.
"As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos."
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…


 


Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade.


 


Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


 


 


A autoria deste poema, como descobri após pequena pesquisa na internet, está sujeita a debate e polémica. Foi-me enviado por alguém que pensava ser de Mário Andrade, escritor brasileiro (1893 - 1945). No entanto encontrei um blogue em que se afirma que o autor é Mário Pinto de Andrade, escritor e político angolano (1928 - 1990). Nesse mesmo blogue Ricardo Gondim, pastor e líder da Igreja Betesda, reclama a autoria do texto, intitulado Tempo que foge, eventualmente plagiado através da internet.


 


Não sei quem tem razão. O poema é belíssimo.


 

Tumultos em Londres

 



 


Tenho visto as imagens de violência em Londres que passam repetidamente na televisão e no YouTube, com grande preocupação e revolta.


 


Tenho ouvido e lido as opiniões de várias pessoas, tentando explicar o que se passa. Todos queremos que haja explicações e culpamos a sociedade, a crise financeira, a falta de perspectivas de futuro, o desemprego, o defraudar das expectativas de gerações que não conseguem atingir aquilo que lhes foi prometido e propagandeado, o racismo, a xenofobia, todas as culpas de uma sociedade que se enche de minorias marginalizadas, de descontentamentos latentes e crescentes, que qualquer rastilho faz detonar e que os gangs de criminosos aproveitam e amplificam. Há uns anos foi Paris, agora é Londres, com passagem por Atenas. A crise europeia é económica, financeira, social e de valores. O materialismo e o consumismo desenfreado criam e alimentam excluídos que constituem um caldo de tensão constante. 


 


Mas todas essas explicações me parecem insuficientes e vazias perante a constatação de uma total ausência de noções básicas de convivência, de companheirismo, de solidariedade, de decência pura e simples. Para além dos diagnósticos já por todos efectuados, não podemos deixar de nos revoltar e de repudiar os actos criminosos e o vandalismo a que se assiste, a destruição pela destruição, o aproveitamento e o sacrifício dos mais frágeis e desamparados. Uma sociedade democrática não pode deixar de usar a força da autoridade e de pugnar pela defesa dos cidadãos, sob pena de eles próprios se transformarem em vingadores autoproclamados e de formarem novos grupos de criminosos.


 


Não podemos aceitar que seja inevitável, como não podemos desculpar a existência de monstruosidades. Seria muito importante que os líderes políticos assumissem a responsabilidade de olhar para o que se está a passar e invertessem o rumo das exigências ao comum dos cidadãos, assegurando-lhes um dos valores mais importantes para o ser humano – a paz e a segurança.


 


Nota: Vale a pena ler Ferreira Fernandes e Helena Garrido.


 

07 agosto 2011

Love is a losing game

 


 



Amy Winehouse


 


For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

One I wish I never played
Oh what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game

Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know you're a gambling man
Love is a losing hand

Though I battle blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game 

Manhãs como noites

 



Edward Hopper: empty room


 


1.


Manhãs como noites em lugares de anseio.


Manhãs infinitas e presas no ardor do sol que não chega.


 


2.


Os vendavais do mundo repetem-se


em brisas que não levantam areias.


Dores de encarquilhamento


dores de peso e obscura certeza de contínuo tédio.


 


3.


Restamos por dentro de horas infinitas que desgastamos


fragmentos de matéria orgânica


que segue inexorável o seu caminho.


Temos a certeza da pele e dos ossos


que se afundam ou despontam conforme as épocas


de abundância ou penúria de humores.


 


4.


Quero estar apenas só


com aquela metade de mim mesma que não conheço


mas que tolero e ignoro.


Quero estar apenas só


perante o abismo de céu


em que afogo o uso e a sensação de perda.

05 agosto 2011

Assistencialismo de estado

 


É uma questão ideológica, sim. O Plano de Emergência Social é um conjunto de medidas que assume o carácter assistencialista do Estado.


 


A ASAE e a fiscalização das condições de segurança são um bem em si mesmas. É isso que dá a certeza a qualquer pessoa, rica, pobre ou remediada, de poder comprar qualquer produto em supermercados, praças e restaurantes, em condições de ser consumido. A exigência de um prazo mínimo para comercialização de medicamentos é uma garantia para os cidadãos pobres, ricos ou remediados, de estarem protegidos dos efeitos nocivos de drogas cuja validade foim ultrapa. Se as leis e os prazos são de segurança são considerados exagerados e produtores de desperdício, que se alterem e que se apliquem a todos os cidadãos, não para um grupo específico de pessoas.


 


A exigência da prestação de trabalho social a quem recebe subsídios é iníqua, pois parte do princípio que quem não trabalha é porque não quer. Se há trabalho, seja ele de que tipo for, ele deve ser remunerado e não transformado numa espécie de pena.


 


É uma questão ideológica. Quem tem fome ou quem está desempregado não tem capacidade de reivindicação pelo que deve ser o estado a reivindicar por ele. A dignidade do ser humano não deixa de ter importância nem de ser uma prioridade em caso de dificuldades financeiras.

02 agosto 2011

É você

 


Esta tem dedicatória:


 



 Tribalistas


 


 


É você
Só você
Que na vida vai comigo agora
Nós dois na floresta e no salão
Nada mais
Deita no meu peito e me devora
Na vida só resta seguir
Um risco, um passo, um
gesto rio afora

É você
Só você
Que invadiu o centro do espelho
Nós dois na biblioteca e no saguão
Ninguém mais
Deita no meu leito e se demora
Na vida só resta seguir
um risco, um passo, um
gesto rio afora
Na vida só resta seguir
Um ritmo, um pacto e o
resto rio afora

Pequenas curiosidades

 


Confesso que estou muito curiosa para conhecer a forma como se vão identificar os mais vulneráveis para que estes tenham acesso às tarifas sociais, de electricidade, gás, combustíveis e passes para os transportes públicos.


 


Será um cartão? Ou precisaremos de andar com uma cópia da declaração do IRS? Sinais exteriores de riqueza? Depósitos bancários? Cabelos e unhas por arranjar? Vestuário fora de moda? Total ignorância dos filmes estreados no último ano? E a vulnerabilidade será vitalícia ou renovável? A que prazo?


 


Enfim, um manancial de dúvidas que, certamente, o Super-ministro com a Super-Chefe-de-gabinete não deixarão de esclarecer.


 


Já agora, será que a filosofia aplicada ao Super-ministério não poderá ser alargada a outras áreas? Será que os Super-médicos que vêm, tratam, diagnosticam e cuidam de um Super-número de doentes, que trabalham um Super-infinito número de horas seguidas, demonstrando uma Super-competência, uma Super-dedicação e um Super-empenho, não estarão no âmbito da aplicação dessas medidas de reconhecimento e remuneração? E os Super-professores, os Super-juízes, os Super-polícias, os Super-militares, enfim, todos os Super-profissionais que por aí derramam a sua Super-qualidade?


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...