Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
À medida que os anos passam, os deserdados da democracia vão perdendo vergonha e ganhando terreno.
A decisão do governo relativamente às comemorações dos 51 anos do 25 de Abril de 1974 e aos 50 anos das eleições para a Assembleia Constituinte deveriam ser uma prioridade de toas as Instituições Democráticas, não só pela celebração da alegria da libertação e pelo reconhecimento do tanto que o País se desenvolveu, como também pela alegria e necessidade de transmitir a quem nasceu já depois dessas datas, aquilo que de mais importante, precioso e delicado existe: a democracia, a liberdade, a igualdade e a solidariedade.
Todos estes conceitos são cada vez mais desprezados, se não denegridos pelas crescentes forças autoritárias, ignorantes e ditatoriais, de ditadores e/ou dos seus aprendizes.
É muito importante e urgente que não deixemos que o medo, o desinteresse, a amargura e a desilusão se instalem.
Desçamos a Avenida celebrando a Liberdade, com cravos, com turbantes, com mantos, com o que quisermos, de preferência bem vermelho.
Difícil não me comover neste dia, olhando para a Assembleia da República engalanada de cravos vermelhos, a casa de uma Democracia inaugurada há 50 anos.
Difícil não me lembrar da invencível esperança na felicidade que aí vinha, com a concretização dos sonhos e dos desejos de quem menos tinha.
Tão difícil, este meu País, cantado por poetas e gritado pelo Povo em euforia.
País imperfeito, mas onde estes 50 anos, ao contrário dos saudosistas do antigo regime, dos demagogos e dos falsos puros, tanto conseguiu, nos direitos de todos à saúde e aos apoios sociais, nos direitos das mulheres, conquistados muitas vezes a ferros, no fim de uma guerra colonial que defendia um Império que não existia, no estabelecimento de laços com a Europa, na defesa das minorias e do amor, seja ele como e com quem for, enfim, no viver em Liberdade.
Difícil, esta Liberdade, nunca perene, nunca certa, nunca segura, sempre necessitando de ser construída e acarinhada. Difícil a tolerância.
Neste dia em que me comovo ao olhar para os rostos dos protagonistas de 1974, talhados pelo tempo e pelo seu tempo, olho para o futuro aninhado ao meu lado, dedinhos quentes que me seguram a alma, e sei que tudo farei para que os seus próximos 50 anos sejam aqueles da sua Liberdade.
Se estes 48 anos fossem um lugar, uma paisagem, um país de terra e mar com gente que vive, sofre, luta, ama e morre, ao lado de um país anterior, de terra e mar com gente que vivia, sofria, lutava, amava e morria, eu abriria as minhas fronteiras para que essa gente do país anterior pudesse viver no país de Abril.
É a mesma gente, a mesma terra, mas é uma outra paisagem, um outro clima, uma outra natureza. Há ventos e maremotos de liberdade, culturas de democracia, prados vermelhos de cravos e poemas.
Estes são os 48 anos do meu país, do meu país de Abril. Temos ainda parcelas de eternidade até ao próximo lugar, que construiremos com esta gente, desta terra, que vive, sofre, luta, ama e morre, colhendo com esforço e leveza alguns momentos de felicidade.
Simples, sóbria e muito eficaz, damo-nos conta de todas as áreas aonde, durante 48 anos - a sociedade, as ideias, os filmes, as notícias, os livros, os filmes, as opiniões, desde as políticas às religiosas, da Guerra Colonial aos direitos das mulheres, da sexualidade à moralidade e costumes - eram passadas a pente fino pelos olhos dos inquisidores, mantendo um povo anónimo, cinzento, sem sobressaltos sentidos e sem alma visível.
A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde.
Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse.
O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real.
Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida.
E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo.
Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.
Tudo se aproveita para acirrar os ânimos do populismo. A última moda é o pseudo ultraje pelas comemorações oficiais do 25 de Abril de 1974.
Num País a cumprir a segunda renovação do estado de emergência, em que a excepção abre a porta aos desvarios totalitários, é indispensável que as Instituições democráticas permaneçam em funcionamento e que demonstrem que a democracia se mantém e vai continuar, mesmo contra os apelos virais de quem usa o medo para alimentar a raiva contra os representantes eleitos do povo.
O Parlamento está a trabalhar, como todos os que podemos devemos fazer, dentro dos constrangimentos da pandemia. A falta de respeito seria exactamente o contrário. E o CDS, à falta de ideias que o salvem da extinção, cavalga a onda e copia o estilo do CHEGA.
O facto de não podermos ir para a rua comemorar o 25 de Abril só avoluma a importância da cerimónia parlamentar. As comemorações do 1º de Maio, desde que obedeçam às restrições impostas, são absolutamente legítimas e somos livres de participar, ou não, como acontece todos os anos, desde o dia 25 de Abril de 1974.
Nada de palavras objectos ou flores apenas olhares e sorrisos o toque do carinho que nos liberta neste dia igual e único a que nos aconchegamos devagar sem nunca nos despedirmos.