Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
O grande problema é que nos iludimos. Acreditámos que, desta vez, ia ser diferente.
Mas não. Apenas há a promessa da diferença, bem aconchegada no preconceito que temos de que a esquerda ama as artes, a cultura, o povo, e de que a direita é ignorante, imprópria para consumo, descartável.
Afinal são ambas - a esquerda e a direita - e o nosso preconceito estende-se à fantasia de que este país um dia perceberá que é na cultura que está o nosso motor de desenvolvimento.
Falamos tanto de amor, do amor, com a mão no peito e os olhos semicerrados, enchendo a voz de intensidade e aquilo a que todos convencionámos que é amar. Diariamente e desde sempre, ou pelo menos desde que nos habituámos a considerar tudo o que é íntimo como parte integrante do espaço público, reduzindo ou excluindo o direito ao segredo, ao privado, ao não partilhável, somos inundados por imagens e ideologia de como se deve amar, do que é o amor correcto, decente, moderno, tolerante, querido, trendy.
E no entanto, o que experimentamos é tantas vezes diferente, o amor que vivemos é tantas vezes menos glamoroso, menos cintilante, é tantas vezes doloroso, rotineiro, entediante, é tantas vezes violento, irascível, sufocante, é tantas vezes mais verdadeiro, mais constante, mais fundo, mais maravilhoso.
O amor não tem receitas nem normativos, o amor não tem amarras nem correctivos, o amor arranha-nos e abraço-nos, é o que nos perde e o que nos salva, é paixão, amizade, contenção, carinho, resistência, resiliência, luta, incapacidade, distância, reconhecimento, companhia, partilha, segredo, a nossa funda e discreta alegria, a nossa intrínseca e indispensável respiração. O amor tem ângulos, estrias, poços de lama, armas em riste, conversações de paz, estratégias e diplomacias, palhaçadas, risos, silêncio, serenidade, hábitos. O amor envelhece e reforma-se, renova-se e adormece, renasce e reacende-se todos os dias.
Todos os dias nos amamos e odiamos, em repentes e em remoinhos, as mães, os pais, os filhos, os irmãos, os maridos, as mulheres, os amantes, os vizinhos, os colegas, a humanidade em geral. Sem remédio nem sentido, o amor é o que de mais individual, único e especial cada um de nós tem para dar e receber.
Ao contrário do que vozes ligadas ao PSD advogam, parece-me muito serena e avisada a posição do governo português em relação ao conflito diplomático com a Rússia, por causa do envenenamento do ex-espião russo e a filha. Por muito que acreditemos que é obra de Putin, há uma investigação em curso e deve haver prudência para evitar conclusões precipitadas.
Não me esqueço que Portugal apoiou a guerra do Iraque, contra a resolução da ONU, seguindo as posições do Reino Unido e dos EUA, acreditando na existência de armas de destruição massiva, que se provou ter sido uma mentira para justificar a guerra. Apesar da posição de muita gente sensata, como Freitas do Amaral e Mário Soares, entre outros, o governo português colou-se de imediato e com subserviência às ordens inglesas e americanas.
No quadro que apresenta (às 18:26) para justificar o governo da PAF e demonstrar o quão bom tinha sido por reduzir o défice desde 2011, não se vislumbram os resultados devidos às intervenções no Novo Banco em 2014 (7,3%) e no BANIF em 2016 (4,4%).
Agora José Gomes Ferreira, como o governo é da Geringonça, defende veementemente que o impacto da capitalização da CGD tem que ser incluída no défice - 3%.
E é assim que se faz comentário político, disfarçado de técnico, na televisão, sem contraditório.
O que se está a passar em Espanha, mais precisamente na Catalunha, é vergonhoso. Dentro da democracia espanhola, dentro da União Europeia, prendem-se pessoas por delito de opinião, por delitos políticos. Não estão asseguradas as elementares liberdades de expressão de pensamento, de direitos de cidadania.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
Não está em causa o que significam as atitudes de Barreiras Duarte. Mas tudo isto já se sabia desde há bastante tempo. A razão de todo este alarido agora é unicamente para arrasar Rui Rio.
A luta política está cada vez mais baixa. Não é Rui Rio que acaba chamuscado, mas a capacidade de fazer uma oposição efectiva ao governo.
Sempre achei a palavra guacamole muito divertida – parece um coaxar de uma rã qualquer, até é feito com abacate que é tão verde como esse batráquio. Além disso dá-me a sensação de que não se pode pronunciar guacamole sem gaguejar.
Vem tudo isto a propósito da sacada de abacates que, de vez em quando, alguém que se preocupa comigo e me mima muito, me dá para ver se me transformo numa sílfide saudável, o que é bastante difícil, se não mesmo impossível. Mas a esperança é sempre a última a morrer. Hoje dei conta de que os abacates tinham amadurecido e resolvi arriscar um guacamole. Depois de pesquisar receitas, decidi-me a fazer assim:
Peguei em 2 abacates e esmaguei-os com um garfo, dentro de uma tigela de vidro, regando com um pouco de sumo de lima, para não oxidarem; cortei 2 tomates médios, nem muito verdes nem muito maduros, descasquei-os, retirei as sementes e cortei-os em pedacinhos pequeninos. Fiz o mesmo com meia cebola (era grande) e esmaguei um enorme dente de alho. Ainda cortei grosseiramente um molhinho de coentros, misturei tudo com a pasta de abacate, reguei com mais um pouco de sumo (o equivalente a meia lima) e temperei com sal (grosso) e um pouco de pimenta. No fim resolvi usar a varinha mágica para ficar tudo um puré.
Apesar dos olhos duvidosos com que os comensais cá de casa olharam para mim e para o meu cozinhado, comeram-no bastante bem, depois de o provarem, a medo. Foi um êxito, portanto.
E já agora, é de coisas simples que precisamos. Para ouvir uma cantora mexicana já desaparecida - Chavela Vargas - cantando Las simples cosas (penso que a canção é originária da Argentina).
Uno se despide
Insensiblemente de pequeñas cosas
Lo mismo que un árbol
Que en tiempo de otoño se queda sin hojas
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas
Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón
Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas
Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo
Demorate a ti, en la luz solar de este medio día
Donde encontraras con el pan al sol la mesa tendida
Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo
Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
Confesso que estou cansada de dias internacionais, de mulheres, jovens, velhos ou quaisquer outros. Os problemas não se resolvem.
Servem para acordar consciências? Sim, mas elas voltam a adormecer de imediato. Doutra forma não se entende como é possível haver uma tal desigualdade no valor dos salários, maior ainda para empregos mais qualificados.
Em vez de rosas e juras de amor, era bem mais eficaz igualarem-se as remunerações, não as distinguindo por género mas por qualificação e mérito.
(…) o preço das casas antigas sofreu um novo aumento (9,2%), mais elevado que o preço das casas novas (3,5%) subindo em média 7,1% em 2016 e 7% apenas no primeiro trimestre de 2017”. (…)
(…) “A autonomia passa muitas vezes por uma vida independente que é ter habitação própria e os jovens com o dinheiro que auferem não têm acesso à habitação, as rendas são muito elevadas”, disse Eugénio Fonseca, sublinhando que, nos últimos anos, o valor das rendas em bairros antigos aumentou 20%. (…)
(…) “As oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008. Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem, muitos deles emigraram a as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”, sublinha. (…)
(…) E não se pense que a qualificação superior é garantia de incrementos salariais ou bons rendimentos futuros. Em Portugal, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido, do que há uma década. São, de resto, os trabalhadores mais castigados nestes dez anos que passam desde a crise financeira.
Em 2008, um licenciado auferia, em termos reais, um salário médio líquido de €1504 nas empresas nacionais. Hoje, não vai além dos €1237. Desde 2009, altura em que um licenciado leva, em termos reais, para casa uma média de €1518 mensais líquidos que os salários dos profissionais mais qualificados estão queda. Na verdade, nem em 1998 um profissional qualificado ganhava tão pouco como agora. Nessa altura, ser detentor de uma qualificação superior garantia, pelo menos, €1531 mensais líquidos. Feitas as contas, o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores com qualificação superior diminuiu, em termos reais, 19,2%. (…)
(…) a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa. O desemprego — que apesar de estar a diminuir, se mantém elevado para os jovens, 22,2% (ver caixa) —, os empregos precários, os contratos irregulares e os baixos salários, argumenta o estudo, “fazem com que seja muito difícil para um jovem conseguir suportar os custos de habitação”. O estudo comprova que “as oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008” e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, reforça que “Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem e as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”. (…9
O argumento do presidente da Cáritas Portuguesa remete para a perda real de 17,7% de rendimento salarial médio mensal líquido entre os licenciados, face a 2008, apurada pelo Expresso com base nos dados do INE. (…)
Desde há muito tempo que não seguia séries na televisão. Há muitos anos mesmo. Mas nos últimos tempos, com as excelentes séries que têm passado na RTP2, esse hábito vem-se instalando.
Primeiro com Nobel, uma série norueguesa que conta uma falhada negociação política entre a Noruega e o Afeganistão, numa tentativa de fazer um acordo de paz que servisse os vários grupos de talibãs, depois com esta Linha de Separação, redescubro a vontade de me sentar em frente ao televisor, ansiosa por ver a continuação da história.
Esta série tem como centro uma aldeia que ficou dividida ao meio pela guerra fria, logo após o fim da II Guerra Mundial. Está muitíssimo bem feita, transportando-nos a um tempo que não é assim tão longínquo, mas que quase parece inventado. A transformação dos fanáticos nazistas em fanáticos comunistas, os oportunistas, os que vivem numa nuvem ideológica, apercebendo-se duramente da mistificação, a forma como se doutrinavam as pessoas desde a mais tenra idade, tudo nos devolve a inquietação pelo que pode ser a instalação de uma ditadura duríssima, mesmo após a queda de outra, não menos dura. E tudo em nome do povo.
E agora voltamos a outra série norueguesa, que promete - Ocupados.
A chamada medicina tradicional chinesa foi e é equiparada a uma paramedicina. Significa isto que os métodos usados para interpretar os processos fisiológicos e fisiopatológicos, diagnosticar doenças e receitar tratamentos não são baseados no método científico mas na observação, interpretação de humores e uso empírico de remédios de vários tipos, fruto da experiência milenar dos curandeiros.
Por muito respeito que tenha pelas culturas milenares e pelos curandeiros experientes, isso não transforma a medicina tradicional chinesa, portuguesa, finlandesa, escocesa ou indiana numa ciência. Não nos confundamos com o que é a crença de cada um e das populações, que têm todo o direito a tê-las, com ciência. O mundo ocidental tem conseguido uma notável melhoria na saúde, controlando epidemias, erradicando algumas, curando infecções e cancros, usando os métodos que podem reproduzir resultados, perante as mesmas circunstâncias.
Tudo o que a chamada sabedoria popular tem, e que é muito, deve ser investigado e incorporado na prática clínica, após devidamente comprovado e aprovado. É assim que princípios activos de plantas ditas medicinais acabam em medicamentos. Assim se promove e defende a saúde pública, se melhora a qualidade de vida e se aumenta a esperança de vida das populações. Não se pode confundir a liberdade individual que cada um de nós tem de procurar as alternativas que quiser com uma política de Estado que mistura práticas pseudocientíficas com as científcas.
Muitas conclusões se tiram à luz dos conhecimentos existentes numa determinada época que, posteriormente, são desmentidas e revertidas, pois descobrem-se outras evidências. A leucotomia pré-frontal que deu o prémio Nobel a Egas Moniz, hoje não é praticada. Há, infelizmente, muitos negócios escuros e muita propaganda que descredibilizam muitas soluções e põem em causa muitos dogmas. Mas a ciência é isso mesmo, desafiar as verdades estabelecidas para descobrir novas soluções.
As modas actuais do regresso à natureza com comidas e estilos de vida totalmente disparatados, apenas são isso mesmo – modas do mundo ocidental que procura formas de estimular consumos e vender produtos disfarçados de ideias. Não podem ser assumidas como políticas num Estado que tem obrigação de defender os cidadãos.
Acho muito bem que se regulamentem as medicinas paralelas, sejam elas quais forem. Mas equipará-las à medicina é misturar ciência com fé. É um péssimo serviço que se presta aos cidadãos e além disso perigoso. A moda da não vacinação já está a mostrar os seus resultados. Não me parece que os humores e as energias de cada um, por muito positivas que sejam, impeçam a infecção pelo vírus do sarampo e, neste momento, há pessoas a morrer e a infectar outras porque decidiram não vacinar os filhos. Podemos também deixar de usar tuberculostáticos e passar apenas a comer melhor e a respirar ar puro. Era assim que tanta gente voltava a morrer de tuberculose.