31 março 2018

Prece


 Amália Rodrigues


 



Catarina Wallenstein


Pedro Homem de Mello & Alain Oulman


 


Talvez que eu morra na praia


Cercada em pérfido banho


Por toda a espuma da praia


Como um pastor que desmaia


No meio do seu rebanho.


 


Talvez que eu morra na rua


E dê por mim de repente


Em noite fria e sem luar


E mando as pedras da rua


Pisadas por toda a gente.


 


Talvez que eu morra entre grades


No meio de uma prisão


Porque o mundo além das grades


Venha esquecer as saudades


Que roem meu coração.


 


Talvez que eu morra de noite


Onde a morte é natural


As mãos em cruz sobre o peito


Das mãos de Deus tudo aceito


Mas que eu morra em Portugal.

Desilusões

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O grande problema é que nos iludimos. Acreditámos que, desta vez, ia ser diferente.


 


Mas não. Apenas há a promessa da diferença, bem aconchegada no preconceito que temos de que a esquerda ama as artes, a cultura, o povo, e de que a direita é ignorante, imprópria para consumo, descartável.


 


Afinal são ambas - a esquerda e a direita - e o nosso preconceito estende-se à fantasia de que este país um dia perceberá que é na cultura que está o nosso motor de desenvolvimento.

Do amor

Zhang Yaxi.jpg


Mulher e criança


Zhang Yaxi


 


 


Falamos tanto de amor, do amor, com a mão no peito e os olhos semicerrados, enchendo a voz de intensidade e aquilo a que todos convencionámos que é amar. Diariamente e desde sempre, ou pelo menos desde que nos habituámos a considerar tudo o que é íntimo como parte integrante do espaço público, reduzindo ou excluindo o direito ao segredo, ao privado, ao não partilhável, somos inundados por imagens e ideologia de como se deve amar, do que é o amor correcto, decente, moderno, tolerante, querido, trendy.


 


E no entanto, o que experimentamos é tantas vezes diferente, o amor que vivemos é tantas vezes menos glamoroso, menos cintilante, é tantas vezes doloroso, rotineiro, entediante, é tantas vezes violento, irascível, sufocante, é tantas vezes mais verdadeiro, mais constante, mais fundo, mais maravilhoso.


 


O amor não tem receitas nem normativos, o amor não tem amarras nem correctivos, o amor arranha-nos e abraço-nos, é o que nos perde e o que nos salva, é paixão, amizade, contenção, carinho, resistência, resiliência, luta, incapacidade, distância, reconhecimento, companhia, partilha, segredo, a nossa funda e discreta alegria, a nossa intrínseca e indispensável respiração. O amor tem ângulos, estrias, poços de lama, armas em riste, conversações de paz, estratégias e diplomacias, palhaçadas, risos, silêncio, serenidade, hábitos. O amor envelhece e reforma-se, renova-se e adormece, renasce e reacende-se todos os dias.


 


Todos os dias nos amamos e odiamos, em repentes e em remoinhos, as mães, os pais, os filhos, os irmãos, os maridos, as mulheres, os amantes, os vizinhos, os colegas, a humanidade em geral. Sem remédio nem sentido, o amor é o que de mais individual, único e especial cada um de nós tem para dar e receber.

30 março 2018

Das decisões ponderadas em política externa

Ao contrário do que vozes ligadas ao PSD advogam, parece-me muito serenaavisada a posição do governo português em relação ao conflito diplomático com a Rússia, por causa do envenenamento do ex-espião russo e a filha. Por muito que acreditemos que é obra de Putin, há uma investigação em curso e deve haver prudência para evitar conclusões precipitadas.


 


Não me esqueço que Portugal apoiou a guerra do Iraque, contra a resolução da ONU, seguindo as posições do Reino Unido e dos EUA, acreditando na existência de armas de destruição massiva, que se provou ter sido uma mentira para justificar a guerra. Apesar da posição de muita gente sensata, como Freitas do Amaral e Mário Soares, entre outros, o governo português colou-se de imediato e com subserviência às ordens inglesas e americanas.


 


Pois ainda bem que, desta vez, não o fez.

26 março 2018

Grandes frases (1)

grandes frases 2.png


As pessoas não se podem furtar ao transcorrer homogéneo e linear dos ponteiros do relógio.


 


Esta foi uma frase inesquecível que eu ouvi há muitos anos na TV, a Luís Salgado de Matos (não sei porque me lembrei...).


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Foto: Agência Ecclesia

Do engajamento político de José Gomes Ferreira

jose gomes ferreira entrevista AC 2017.pngSIC - 07/06/2017


 


 


É muito importante comparar a postura de José Gomes Ferreira na entrevista que fez a António Costa, a 07/06/2017, em relação à interpretação dos números do défice.


 


No quadro que apresenta (às 18:26) para justificar o governo da PAF e demonstrar o quão bom tinha sido por reduzir o défice desde 2011, não se vislumbram os resultados devidos às intervenções no Novo Banco em 2014 (7,3%) e no BANIF em 2016 (4,4%).


 


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gentilmente cedido por A. Teixeira 


 


Agora José Gomes Ferreira, como o governo é da Geringonça, defende veementemente que o impacto da capitalização da CGD tem que ser incluída no défice - 3%.


 


E é assim que se faz comentário político, disfarçado de técnico, na televisão, sem contraditório.

25 março 2018

Catalunya

bandeira catalunha.pngpuidgemont.jpg


 Puigdemont detido na Alemanha


 


O que se está a passar em Espanha, mais precisamente na Catalunha, é vergonhoso. Dentro da democracia espanhola, dentro da União Europeia, prendem-se pessoas por delito de opinião, por delitos políticos. Não estão asseguradas as elementares liberdades de expressão de pensamento, de direitos de cidadania.


 


As últimas eleições foram marcadas pelo poder central e Rajoy não aceitou os resultados eleitorais. O Rei descredibilizou-se como sendo um elemento unificador das várias Espanhas.


 


O fosso cava-se mais fundo e uma solução para o problema da Catalunha está cada vez mais longe de se vislumbrar.

21 março 2018

Medidas

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Aqua I


Annaluigia Boerettohas


 


 


Meço o tempo pelas palavras


cada vez mais curtas


cada vez mais escassas


cada vez mais duras


instalando-se o silêncio


nesta doce melodia


do esquecimento.

20 março 2018

Da Paz


 


Eu não sou da paz.


Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.


Uma desgraça.


Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?


Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.


Não vou.


A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.


A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.


Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.


Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?


Hein?


Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.


A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?


A paz é que não deixa.


 


Marcelino Freire

17 março 2018

Da baixeza na luta política

Não está em causa o que significam as atitudes de Barreiras Duarte. Mas tudo isto já se sabia desde há bastante tempo. A razão de todo este alarido agora é unicamente para arrasar Rui Rio.


 


A luta política está cada vez mais baixa. Não é Rui Rio que acaba chamuscado, mas a capacidade de fazer uma oposição efectiva ao governo.


 

Guacamole

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Sempre achei a palavra guacamole muito divertida – parece um coaxar de uma rã qualquer, até é feito com abacate que é tão verde como esse batráquio. Além disso dá-me a sensação de que não se pode pronunciar guacamole sem gaguejar.


 


Vem tudo isto a propósito da sacada de abacates que, de vez em quando, alguém que se preocupa comigo e me mima muito, me dá para ver se me transformo numa sílfide saudável, o que é bastante difícil, se não mesmo impossível. Mas a esperança é sempre a última a morrer. Hoje dei conta de que os abacates tinham amadurecido e resolvi arriscar um guacamole. Depois de pesquisar receitas, decidi-me a fazer assim:


 


Peguei em 2 abacates e esmaguei-os com um garfo, dentro de uma tigela de vidro, regando com um pouco de sumo de lima, para não oxidarem; cortei 2 tomates médios, nem muito verdes nem muito maduros, descasquei-os, retirei as sementes e cortei-os em pedacinhos pequeninos. Fiz o mesmo com meia cebola (era grande) e esmaguei um enorme dente de alho. Ainda cortei grosseiramente um molhinho de coentros, misturei tudo com a pasta de abacate, reguei com mais um pouco de sumo (o equivalente a meia lima) e temperei com sal (grosso) e um pouco de pimenta. No fim resolvi usar a varinha mágica para ficar tudo um puré.


 


Apesar dos olhos duvidosos com que os comensais cá de casa olharam para mim e para o meu cozinhado, comeram-no bastante bem, depois de o provarem, a medo. Foi um êxito, portanto.


 


E já agora, é de coisas simples que precisamos. Para ouvir uma cantora mexicana já desaparecida - Chavela Vargas - cantando Las simples cosas (penso que a canção é originária da Argentina).


 



 


 


Uno se despide


Insensiblemente de pequeñas cosas


Lo mismo que un árbol


Que en tiempo de otoño se queda sin hojas


Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas


Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón


Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida


Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas


Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso


Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo


Demorate a ti, en la luz solar de este medio día


Donde encontraras con el pan al sol la mesa tendida


Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso


Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo


Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida

Don't leave me this way


The Communards


 



Harold Melvin The Blue Notes


 



Thelma Houston


 


 


Don't leave me this way


I can't survive, I can't stay alive


Without your love, no baby


Don't leave me this way


I can't exist, I will surely miss your tender kiss


So don't leave me this way


 


Oh, baby, my heart is full of love and desire for you


So come on down and do what you've got to do


You started this fire down in my soul


Now can't you see it's burning out of control


So come on down and satisfy the need in me


'Cause only your good loving can set me free


 


Don't leave me this way


I don't understand how I'm at your command


So baby please, so don't you leave me this way


 


Oh, baby, my heart is full of love and desire for you


So come on down and do what you've got to do


You started this fire down in my soul


Now can't you see it's burning out of control


So come on down and satisfy the need in me


'Cause only your good loving can set me free


 


(Come satisfy me, come satisfy me


Come satisfy me, come satisfy me


Come satisfy me, come satisfy me)


 


Don't you leave me this way


Don't leave me this way,


Ooh, baby, I can't exist, I will surely miss your tender kiss


So don't leave me this way


Oh baby, my heart is full of love and desire for you


So come on down and do what you've got to do


You started this fire down in my soul


Now can't you see it's burning out of control


So come on down and satisfy the need in me


'Cause only your good loving can set me free


 


(Set me free, set me free, set me free, set me free, set me free


Set me free, set me free, oh baby)


 


Don't you know by now, don't you know by now


Don't you know by now, don't you know by now


I'm losing control, I'm losing control

Aos bocados

Regardt van der Meulen.jpg


weathered


Regardt van der Meulen


 


 


Se morresse aos bocados


não sei que pedaço poderia deixar


um pouco mais de tempo para que perecesse


mais tarde estendendo a sua agonia


enquanto não se lembrasse da finitude


e do arrasto que vamos sendo


decaindo primeiro o ombro depois a mão


fechando primeiro um olho reabrindo as pálpebras


sem que percebesse a falta de luz e a transparência.


 


Se morresse aos bocados


que palavra poderia ainda murmurar


enquanto a pele não esfriasse de todo


e a minha mão fizesse ainda sentido


e se enredasse na tua antes que por fim


me despedisse e te pedisse todo o esquecimento.


 

10 março 2018

Da cintura ao olhar

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Mulher no jardim


Pablo Picasso (1929-1930)


 


 


Da cintura ao olhar


o espelho devolve sombras e sede


rios desabam das mãos


esquecidas em memórias


enrugadas


de abandono.

Este país não é para mulheres

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Charging Bull, Arturo Di Modica


Fearless Girl, Kristen Visbal


 


Confesso que estou cansada de dias internacionais, de mulheres, jovens, velhos ou quaisquer outros. Os problemas não se resolvem.


 


Servem para acordar consciências? Sim, mas elas voltam a adormecer de imediato. Doutra forma não se entende como é possível haver uma tal desigualdade no valor dos salários, maior ainda para empregos mais qualificados.


 


Em vez de rosas e juras de amor, era bem mais eficaz igualarem-se as remunerações, não as distinguindo por género mas por qualificação e mérito.

04 março 2018

Este país não é para jovens

Maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa


(…) o preço das casas antigas sofreu um novo aumento (9,2%), mais elevado que o preço das casas novas (3,5%) subindo em média 7,1% em 2016 e 7% apenas no primeiro trimestre de 2017”. (…)


(…) “A autonomia passa muitas vezes por uma vida independente que é ter habitação própria e os jovens com o dinheiro que auferem não têm acesso à habitação, as rendas são muito elevadas”, disse Eugénio Fonseca, sublinhando que, nos últimos anos, o valor das rendas em bairros antigos aumentou 20%. (…)


(…) “As oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008. Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem, muitos deles emigraram a as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”, sublinha. (…)


 


Jovens ganham menos do que há 10 anos


(…) E não se pense que a qualificação superior é garantia de incrementos salariais ou bons rendimentos futuros. Em Portugal, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido, do que há uma década. São, de resto, os trabalhadores mais castigados nestes dez anos que passam desde a crise financeira.


Em 2008, um licenciado auferia, em termos reais, um salário médio líquido de €1504 nas empresas nacionais. Hoje, não vai além dos €1237. Desde 2009, altura em que um licenciado leva, em termos reais, para casa uma média de €1518 mensais líquidos que os salários dos profissionais mais qualificados estão queda. Na verdade, nem em 1998 um profissional qualificado ganhava tão pouco como agora. Nessa altura, ser detentor de uma qualificação superior garantia, pelo menos, €1531 mensais líquidos. Feitas as contas, o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores com qualificação superior diminuiu, em termos reais, 19,2%. (…)


(…) a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa. O desemprego — que apesar de estar a diminuir, se mantém elevado para os jovens, 22,2% (ver caixa) —, os empregos precários, os contratos irregulares e os baixos salários, argumenta o estudo, “fazem com que seja muito difícil para um jovem conseguir suportar os custos de habitação”. O estudo comprova que “as oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008” e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, reforça que “Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem e as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”. (…9


O argumento do presidente da Cáritas Portuguesa remete para a perda real de 17,7% de rendimento salarial médio mensal líquido entre os licenciados, face a 2008, apurada pelo Expresso com base nos dados do INE. (…)

Ausencia


Cesária Évora


Teofilo Chantre & Goran Bregović


 


 


Si asa um tivesse


pa voa na esse distancia


Si um gazela um fosse


pa corrê sem nem um cansera


 


Anton ja na bo seio


um tava ba manchê


e nunca mas ausencia


ta ser nôs lema


 


Ma sô na pensamento


um ta viajà sem medo


nha liberdade um tê'l


e sô na nha sonho


 


Na nha sonho miéforte


um tem bô proteção


um tem sô bô carinho


e bô sorriso


 


Ai solidäo tô'me


sima sol sozim na céu


sô ta brilhà ma ta cegà


Na sê clarão


sem sabe pa onde lumia


pa ondê bai


Ai solidão é um sina

Linha de Separação

Desde há muito tempo que não seguia séries na televisão. Há muitos anos mesmo. Mas nos últimos tempos, com as excelentes séries que têm passado na RTP2, esse hábito vem-se instalando.


 



 


Primeiro com Nobel, uma série norueguesa que conta uma falhada negociação política entre a Noruega e o Afeganistão, numa tentativa de fazer um acordo de paz que servisse os vários grupos de talibãs, depois com esta Linha de Separação, redescubro a vontade de me sentar em frente ao televisor, ansiosa por ver a continuação da história.


 


Esta série tem como centro uma aldeia que ficou dividida ao meio pela guerra fria, logo após o fim da II Guerra Mundial. Está muitíssimo bem feita, transportando-nos a um tempo que não é assim tão longínquo, mas que quase parece inventado. A transformação dos fanáticos nazistas em fanáticos comunistas, os oportunistas, os que vivem numa nuvem ideológica, apercebendo-se duramente da mistificação, a forma como se doutrinavam as pessoas desde a mais tenra idade, tudo nos devolve a inquietação pelo que pode ser a instalação de uma ditadura duríssima, mesmo após a queda de outra, não menos dura. E tudo em nome do povo.


 



 


E agora voltamos a outra série norueguesa, que promete - Ocupados.


 


Medicina - Ciência ou Fé

5 elementos.pngmedicina.JPG 


 


 


A chamada medicina tradicional chinesa foi e é equiparada a uma paramedicina. Significa isto que os métodos usados para interpretar os processos fisiológicos e fisiopatológicos, diagnosticar doenças e receitar tratamentos não são baseados no método científico mas na observação, interpretação de humores e uso empírico de remédios de vários tipos, fruto da experiência milenar dos curandeiros.


 


Por muito respeito que tenha pelas culturas milenares e pelos curandeiros experientes, isso não transforma a medicina tradicional chinesa, portuguesa, finlandesa, escocesa ou indiana numa ciência. Não nos confundamos com o que é a crença de cada um e das populações, que têm todo o direito a tê-las, com ciência. O mundo ocidental tem conseguido uma notável melhoria na saúde, controlando epidemias, erradicando algumas, curando infecções e cancros, usando os métodos que podem reproduzir resultados, perante as mesmas circunstâncias.


 


Tudo o que a chamada sabedoria popular tem, e que é muito, deve ser investigado e incorporado na prática clínica, após devidamente comprovado e aprovado. É assim que princípios activos de plantas ditas medicinais acabam em medicamentos. Assim se promove e defende a saúde pública, se melhora a qualidade de vida e se aumenta a esperança de vida das populações. Não se pode confundir a liberdade individual que cada um de nós tem de procurar as alternativas que quiser com uma política de Estado que mistura práticas pseudocientíficas com as científcas.


 


Muitas conclusões se tiram à luz dos conhecimentos existentes numa determinada época que, posteriormente, são desmentidas e revertidas, pois descobrem-se outras evidências. A leucotomia pré-frontal que deu o prémio Nobel a Egas Moniz, hoje não é praticada. Há, infelizmente, muitos negócios escuros e muita propaganda que descredibilizam muitas soluções e põem em causa muitos dogmas. Mas a ciência é isso mesmo, desafiar as verdades estabelecidas para descobrir novas soluções.


 


As modas actuais do regresso à natureza com comidas e estilos de vida totalmente disparatados, apenas são isso mesmo – modas do mundo ocidental que procura formas de estimular consumos e vender produtos disfarçados de ideias. Não podem ser assumidas como políticas num Estado que tem obrigação de defender os cidadãos.


 


Acho muito bem que se regulamentem as medicinas paralelas, sejam elas quais forem. Mas equipará-las à medicina é misturar ciência com fé. É um péssimo serviço que se presta aos cidadãos e além disso perigoso. A moda da não vacinação já está a mostrar os seus resultados. Não me parece que os humores e as energias de cada um, por muito positivas que sejam, impeçam a infecção pelo vírus do sarampo e, neste momento, há pessoas a morrer e a infectar outras porque decidiram não vacinar os filhos. Podemos também deixar de usar tuberculostáticos e passar apenas a comer melhor e a respirar ar puro. Era assim que tanta gente voltava a morrer de tuberculose.


 


Este é um assunto sério e grave. O SNS vai colocar nos seus quadros os futuros licenciados em Medicina Tradicional Chinesa? E a Universidade do Minho vai abrir um pólo em Vilar de Perdizes?


 


Nota: Vale a pena ler o artigo Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...