11 junho 2023

Arraial

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Alcindo Barbosa


Não há santo que nos valha


Nem demónio que nos tente


Pois a sorte que nos calha


Está no fado que é da gente


 


Está no fado que é da gente


E no sol que nos aquece


Na saudade que desmente


O que a alma não esquece


 


O que a alma não esquece


Na memória que há da terra


Na viagem que merece


O saber que o mar encerra


 


O saber que o mar encerra


Na vida que o tempo traz


No sonho que me desterra


No vento que me desfaz


 


No vento que me desfaz


Nos braços do meu País


Na casa que colhe a paz


Do mundo que sempre quis

Marseille

Chegámos cedo a Marselha. O hotel fica muito perto do Vieux-Port, da Grotte Cosquer e do Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée (MuCEM). O dia estava muito bonito.


Fomos a pé até ao Vieux-Port, passando pela Cathédrale Sainte-Marie-Majeure, construída no séc. XIX num estilo neobizantino, ao lado da antiga, datada do séc. XII. É imponente e majestosa (demasiado), sobressaindo na paisagem como uma nota fora de tom.


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Em janeiro de 1943, após a ocupação alemã, Marselha foi palco de uma rusga, em que as tropas nazis prenderam cerca de 6.000 residentes no chamado "bairro criminoso", junto a um dos lados do Vieux-Port (onde está localizado o hotel onde ficámos). Foram deportados os judeus e, após esvaziarem totalmente o bairro, dinamitaram-no e destruiram-no. Marselha foi libertada poucos dias após o desembarque aliado na Provença (Operação Dragoon).


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Almoçámos numa espelunca, da qual só nos apercebemos depois de nos sentarmos. Comemos as piores moules frites de que há memória e fomos até à Basilique Notre-Dame-de-la-Garde (La Bonne Mère), construída no séc. XIX, dedicada a Notre-Dame-de-la-Garde, padroeira de Marselha. Fica no cume da colina de Notre-Dame-de-la-Garde, de onde se tem uma vista magnífica sobre Marselha.


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De tarde fomos à Grotte Cosquer, uma gruta submarina com pinturas rupestres, descoberta em 1991, por Henri Cosquer. Tal como para a Grotte Chauvet, foi feita uma réplica exacta da gruta, que abriu ao público apenas em junho do ano passado, permitindo as visitas e o estudo sem danificar a original. Calcula-se que tenha sido frequentada entre os 33.000 e os 19.000 de anos AP. Nas paredes e tectos, há pinturas de cavalos, bisontes, felinos e, achado raro, de focas e pinguins, para além de negativos de mãos. Não cesso de me surpreender com estes artistas pré-históricos.


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O dia seguinte estava destinado ao passeio pela cidade. Pois de todos os dias que passámos em França, sempre com um tempo ameno e agradável, S. Pedro escolheu este para a chuva, que caiu desde a manhã, miúda mas persistente, mantendo-se por quase todo o dia.


Pouco preparados para as intempéries, mas confiantes no apaziguamento da natureza, metemos pés ao caminho. Ao fim de pouco tempo estávamos totalmente encharcados. Comprámos uns guarda-chuvas numa loja de brique à braque (de chineses) e continuámos. Contornámos o Vieux-Port e seguimos pela La Canebière, uma larga avenida que atravessa o coração de Marselha desde o Vieux-Port, com uma actividade comercial assinalável, de onde partem várias ruas para os bairros mais interiores.


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Aventurámo-nos por um deles, que descobrirmos ser o bairro árabe de Marselha (Noailles). As ruas estreitas, mercados a céu aberto, onde se falavam várias línguas, incluindo o francês, onde as inúmeras lojas de produtos orientais tinham os nomes escritos em francês e numa outra língua árabe. Enorme bulício, muita gente, muitas cores, frutas, carne, legumes, ervas aromáticas, tomate, pimentos, courgettes, laranjas, muitas especiarias que deixavam no ar aquele aroma inconfundível. Dava mesmo a sensação de estarmos em Marrocos.


A quantidade de lojas de sabão (mais ou menos) artesanal é extraordinária. A fabricação de sabão em Marselha data de 1370. Tem as suas origens no sabões milenares provenientes da Síria, utilizando-se o azeite e o louro. Fiz o que me competia e comprei uma amostra variada.


Aproveitámos a tarde para visitar o MuCEM. Com tantas exposições ao dispor, optámos pela Le Grand Mezzé", sobre a dieta mediterrânica, suas origens e importância cultural e nutricional. Muito, muito interessante.


Esta exposição situa-se no rés-do-chão. Havia muita gente nas bilheteiras, e o ambiente estava húmido e peganhento, por causa da chuva. Na fila para a compra das entradas, houve um momento cinema mudo que muito apreciei. Na sua imponente figura de Achille Talon, com o guarda-chuva debaixo do braço, qual arma perigosa e letal, o meu querido acompanhante deixava cair sequencialmente algum dos muitos papéis, mapas, carteiras, etc., que tinha nas muito ocupadas mãos. De cada vez que se inclinava para as retirar do chão, o guarda-chuva ameaçava quem estava atrás, fazendo com que houvesse uma onda de gente que se afastava assustada. Ao ouvir os murmúrios das várias pessoas espantadas, virava-se para cada lado, perguntando da sua culpa e penitenciando-se da mesma, varrendo lateralmente as gentes com o mesmo guarda-chuva, provocando novas ondas e novos protestos mais ou menos indignados.


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Quando chegámos à porta de entrada da exposição, a senhora que aceitava os bilhetes disse terminantemente que tínhamos que deixar os guarda-chuvas de fora, apontando um cesto com algumas dessas temíveis armas. Hilariante.


O jantar foi calmo. Despedimo-nos de Marselha e de França. No dia seguinte partimos para Lisboa, cansados mas felizes.


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08 junho 2023

No trigésimo sexto dezasseis de maio

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Aix-en-Provence prometia. Cézanne é um dos meus pintores favoritos. A sua história passou por Aix-en-Provence, pelas paisagens, pelo mistral que nos abanou no caminho, pelas cores e pela forma do monte de Saint Victoire.


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Hotel Le Mozart


Bem instalados no Hotel Le Mozart, fomos a pé até ao Atelier de Cézanne, local onde pintou nos seus últimos anos de vida.


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Uma casa alta, com 3 andares. O Atelier que visitámos (bilhetes a 9 € com vídeo guide) não era mais que uma sala no 1º andar, onde se encontravam vários objectos, roupas, pincéis, caixas de tinta, escadotes, cómodas, jarros, mesas e fruta, os modelos das suas naturezas mortas. Confesso que me senti ludibriada por esta mini visita guiada. Não sei o que esperava, mas certamente era muito mais do que o que vi.


Cézanne viveu e morreu naquele local; foi em Aix-en-Provence que conheceu e se tornou amigo de Émile Zola, amizade que terá terminado a propósito de um livro escrito por Zola - L'Oeuvre - cuja personagem principal era inspirada em Cézanne. A história de que teria sido essa a razão de uma grande zanga entre eles já foi posta em causa. Um grande pintor de cores e formas, em que a geometria que desenhava estava presente em toda a natureza.


Sendo o trigésimo sexto dezasseis de maio desde que nos tínhamos casado, decidimos comemorar o dito com um belo repasto. Foi em La Brocherie, onde o aperitivo de champanhe iniciou uma excelente refeição: Poêlon du Pêcheur (para mim) e Côtes d’Agneau aux herbes de Provence (para ele), bem regada (Château La Dorgonne) e bem terminada com La crème brûlée à la lavande (para mim) e L’Assiette de Fromages (para ele).


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Longa já, esta viagem a dois (depois a três, depois a quatro), por vezes rápida, por vezes vagarosa, outras inesperada, outras dolorosa, mas sempre, sempre o nosso caminhar.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...