30 março 2011

25 de Abril na rua

 



 


 


Ao que tudo indica, a Assembleia da República estará dissolvida a 25 de Abril, pelo que as cerimónias de comemoração do Dia da Liberdade não se efectuarão.


 


Estranho esta decisão e estranho a justificação. Não seria possível abrir excepcionalmente a Assembleia nesse dia, para que a Casa da Democracia se engalanasse e recebesse as justas e dignas festas de Abril?


 


Temo que os valores democráticos, de que esta situação é apenas um símbolo, estejam cada vez mais enevoados. O regime democrático deveria fazer da sua afirmação e empolgamento uma causa suprapartidária e intergeracional. Não há aquisição vitalícia de respeito pelas liberdades cívicas e individuais, nem pelas instituições do poder soberano do povo.


 


Espero que o mesmo povo saiba honrar o dia 25 de Abril como o Dia da Liberdade. Era importante que todos nos mobilizássemos para afirmar que somos livres, que queremos participar na vida do país e que, para além das permanentes queixas e das permanentes crises por que passamos, sabemos dar valor ao que conseguimos a 25 de Abril de 1974.


 


E que tal promovermos uma manifestação simbólica a favor da Liberdade e dos Militares de Abril? Eu sugiro que todos usemos cravos vermelhos, papoilas, rosas vermelhas, antúrios, sei lá, qualquer flor vermelha, bem vermelha, nesse dia. À lapela, no chapéu, como alfinete de gravata ou pregadeira, nas mãos, nos pés, no olhar e, sobretudo, no coração.


 

27 março 2011

A obrigação da esquerda

 


Sócrates foi a votos no PS vencendo os seus três opositores, numas eleições directas em que a percentagem de participação foi de 89,95%. É claro que os seus concorrentes protagonizaram uma oposição decorativa, pelo que se perdeu uma oportunidade de haver uma disputa de liderança, se tivesse havido coragem por parte de alguns dos seus mais assanhados críticos. Mas estes estarão provavelmente à espera da derrota de Sócrates nas eleições legislativas para avançarem com as alternativas que, eventualmente, representem.


 


Seria igualmente importante que houvesse uma disputa de liderança nos partidos à esquerda do PS. A responsabilidade de fazer uma coligação, ou de haver um apoio parlamentar, que pudesse viabilizar um governo de esquerda, é igualmente do BE e do PCP.


 


Não foi só José Sócrates que não fez alianças à sua esquerda. Nenhum dos líderes do PS se coligou com o PCP, antes ou depois de eleições, para formar um governo estável. Tal como com o BE. A credibilidade das posições e das atitudes de ambos os partidos apenas têm dado razão ao PS e, recentemente, a José Sócrates.


 


Tal como Daniel Oliveira disse ontem, n'O Eixo do Mal, os partidos da dita esquerda deveriam ser capazes de tornar públicas as condições mínimas para poderem viabilizar um governo do PS. Segundo a sondagem divulgada pela TVI, se as legislativas fossem hoje PSD e CDS teriam, juntos, 50,9% dos votos, o que significa que a hipótese de uma maioria de esquerda não está de parte. Com as actuais direcções do BE e do PCP isso será impossível, visto que a cultura existente é a do protesto por princípio e como fim.


 


O PS tem a obrigação histórica de reforçar e de reavivar o seu contrato de cidadania, por uma sociedade que olhe para o desemprego, para as desigualdades sociais, para o mérito, para os serviços públicos de qualidade, para a modernidade, que aposte nas tecnologias de informação, na ciência, nas energias renováveis. O PS tem a obrigação de fazer da sua diversidade e da sua tolerância uma força, de se desenvencilhar do oportunismo, do vazio mental, da orla de políticos que dizem o mesmo, com as mesmas palavras e a mesma entoação, quais bonecos de repetição. O PS tem a obrigação de se responsabilizar por aquilo que prometeu e não fez. O BE e o PCP têm uma oportunidade histórica de deixar a retórica da esquerda arcaica e anti democrática, sacudirem os discursos com toneladas de pó e de bolor e criarem condições para que o eleitorado possa confiar e vote à esquerda.


 

25 março 2011

Desempenhos

 


Passos Coelho na SIC, agora mesmo - é preciso distinguir entre a avaliação de desempenho e a classificação de desempenho.


 


Estrondoso.


 

Inqualificável

 


Quando colocamos em dúvida a decisão de Sócrates de constituír um governo minoritário, este tipo de situações recordam-nos de imediato a justeza das suas razões.


 


É difícil encontrar qualificativos para a coligação que aprovou a revogação da avaliação do desempenho dos professores. O populismo e a cedência às reivindicações corporativas, num jogo de tentativas de agrado pré-eleitoral, consegue ser mais inacreditável que todas as outras manobras e manipulações politiqueiras a que temos assistido.


 


É neste PSD que deveremos acreditar? É neste BE, neste PCP, neste CDS? Os cada vez mais audíveis pedidos de um governo de salvação nacional, essa entidade mítica que apenas significa a amálgama de falta de ideias e de iniciativa, a ausência do assumir da responsabilidade e do risco que significa decidir, governar, mudar, podem já contar com os líderes das várias oposições representadas no Parlamento.


 


Nota: Pacheco Pereira votou contra esta enormidade.


 

23 março 2011

Das notas que tomamos (2)

 



Durante o discurso de Miguel Macedo, hoje, no Parlamento, apercebi-me que o PSD não concorda com a redução salarial imposta por um dos PECs do governo demissionário.


 


Caso o PSD ganhe as próximas eleições, será que vão repor as percentagens entretanto retiradas?


 

Cai o governo

 



Jornal i 


 


 


Como muitas pessoas hoje, fui ouvindo as declarações dos líderes parlamentares, justificando a tomada de posição que levou ao pedido de demissão do governo.


 


Nada de novo. Era uma morte anunciada. Espero muito sinceramente que outros anúncios não se concretizem.


 


Seguem-se eleições. Em democracia o voto é soberano. Da última vez a soberania do voto durou pouco.

22 março 2011

Das notas que tomamos (1)

 



Algumas conclusões a que podemos chegar perante os acontecimentos:



  1. Aquando da aprovação do OE2011, Cavaco Silva desdobrou-se em conversas e influências para que este fosse aprovado, por causa da estabilidade, da crise económica, enfim, das catástrofes todas que nos vão desabar.

  2. Agora, que os fantasmas do passado, do presente e do futuro nos apontam o apocalipse, Cavaco Silva mantém um esfíngico silêncio, mesmo depois da espantosa ameaça em como, se houvesse segunda volta eleitoral para a Presidência, o país soçobraria.

  3. Durante esta última legislatura, se dúvidas houvesse nalgumas mentes, ficámos com a certeza de que os designados partidos da esquerda, da larga, ampla e grande esquerda de Francisco Louçã, da massa de trabalhadores, operários e camponeses de Jerónimo de Sousa, não só não servem para viabilizar uma solução de governo à esquerda, como estão dispostos a todas as coligações para se afirmarem contra, para se manifestarem do contra, protagonizando coligações negativas que abram a porta a um governo de direita.

  4. José Sócrates é um dos políticos mais determinados e corajosos das últimas décadas. Aquilo que é uma enorme virtude podem transformar-se num terrível defeito ao transpor os limites, cometendo erros infantis e cegos ao não se aperceber que, à sua volta, os ventos e as tempestades já mudaram os pressupostos.

  5. Passos Coelho soube aproveitar o erro do seu adversário, embalado pelos discursos de Sua Presidência, esquecida da indispensabilidade do entendimento entre as forças centrais em bloco. Com a voz que Deus lhe deu, ensaia gorjeios de ave para a esquerda e para a direita. A campanha está em marcha.

  6. De ameaça em ameaça, de crise em crise, estamos vacinados pelo abismo de que nos abeiramos diariamente, já nada nos estremece. Vamo-nos entretendo até às próximas eleições.

21 março 2011

Sinais

 



 


Duas coisas muito interessantes:



 

Amigo


poema de Alexandre O’Neill: Amigo


pintura de Peter Worsley: Friends 


 


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


 


 


 


De uma querida amiga, para todos os amigos.


 

20 março 2011

Poetria

 



QUEM TEM MEDO DA POETRIA?


 


Na sua última edição de Março, a revista “Os meus livros” publica um dossier intitulado “A resistência da poesia”, assinado por Andreia Brites, mencionando editoras e livrarias que, contra ventos e marés, continuam a apostar na Poesia como género literário bem presente no mercado.


 


Até aqui nada a assinalar. Trabalho louvável de pesquisa e desenvolvimento no sentido da divulgação da poesia. E não fora o “esquecimento” da Livraria Poetria entre as que referiu no seu artigo, a abordagem seria perfeita.


 


Mas Andreia Brites omitiu esse pequeno grande pormenor: A livraria que pela 1ª VEZ ousou instalar-se no mercado SÓ com livros de Poesia (e Teatro), e que no mercado PERMANECE desde 2003 foi, sim, a Livraria Poetria.


 


(Já em tempos, num importante artigo na Pública assinado por Luís Miguel Queirós sobre esse tema e os locais onde se vendem livros de poesia, a Poetria não foi incluída no conjunto das livrarias citadas)


 


Já agora, quando em 2008 abriu em Lisboa uma livraria de poesia, foi comentado na comunicação social e outros sítios que acabava de surgir “a 1ª livraria de poesia no país”.


 


E ainda, outro pormenor no mínimo insólito, a Livraria Poetria também NÃO é referida, nem ao de leve, na esmagadora maioria dos blogs ou sites especializados ou que falam de poesia (com honrosas excepções como a Assírio e Alvim, o Bibliotecário de Babel ou o Eu ela e a escrita…).


É caso para perguntar: Quem tem medo da Poetria?


 


OUÇAM TODOS (os que teimam em nos ignorar): a Poetria existe e resiste apesar de tanta indiferença, na sua senda poética de divulgação da “linguagem das aves”. E até vamos em breve alargar o nosso espaço físico para que mais livros de poesia (e teatro) possam aqui morar.


 


A partir daqui.


 

Ervas de cheiro

 



 


Dia limpo, claro, brilhante. Sonhos ecológicos e aromáticos, a terra chama por nós.


 

Estrela do mar


Jorge Palma


 



 


Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia, sozinho, ao relento
E ali longe do tempo, acabei por dormir



Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

"Sou a estrela-do-mar só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim..."



Não sei se era maior o desejo ou o espanto
Só sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar



Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são pouco ou nada para estrela-do-mar



"Estrela-do-mar
Só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim..."


 


Música portuguesa

 



 


Acordo com a rádio, mesmo ao fim-de-semana. Hoje, enquanto saboreava a preguiça, ouvi várias músicas portuguesas seguidas - Mafalda Veiga, Vitorino e Jorge Palma, seguidos de Caetano Veloso e duas outras cantoras brasileiras de cujos nomes não me recordo.


 


A que mais me chamou a atenção foi a Estrela do Mar, apenas voz e piano, uma melodia lindíssima que nos transporta para o mar. Não sei se foi a primeira vez que a ouvi com a concentração devida, só sei que o meu dia começou melhor.


 


Lembrei-me das discussões que tantas vezes ouvi sobre as quotas e as percentagens que a música portuguesa deveria obrigatoriamente na rádio pública. A TSF é uma rádio privada e tem a música portuguesa sempre muito presente. Se calhar precisávamos apenas de música de qualidade, em português ou inglês.


 

Em campanha eleitoral

 


Convém tomarmos nota do que se vai dizendo.


Passos Coelho jantou com bloguers e, segundo os próprios, foi dizendo o que iria fazer num próximo governo chefiado por ele. Que vai ao encontro das reivindicações de todos e de todas as áreas políticas. Já temos a promessa de que vai acabar a avaliação de desempenho dos professores, quem sabe mesmo um novo estatuto da carreira docente. Pois - se tivesse sido ele a governar nos últimos anos não estaríamos com as calças na mão.


 

Esta não teve graça


 


Parece que houve ontem uma manifestação em Lisboa. Pelas poucas fotos que vi, parece que teve muita gente. Mas deve ter sido uma alucinação. Não se ouviu nem viu nada, comparável ao que aconteceu há uma semana, que nos mostrasse os trabalhadores e os cidadãos em luta. Será que não estão à rasca?


 

19 março 2011

Venham as eleições

Assistimos, durante esta última semana, ao enovelar de uma novela. O Primeiro-Ministro fez aquilo que não podia fazer ao ter comunicado, de Bruxelas, mais um pacote de medidas de austeridade, para os próximos anos, sem que antes tivesse tido o suficiente respeito pelas instituições do seu país para as informar do que, segundo ele próprio, seria indispensável para o equilíbrio e para a confiança internacional.


 


Desastrado ou maquiavélico, esse foi um ponto de não retorno. Assim como as várias declarações públicas de membros do governo e do PS chamando o PSD ao compromisso, após este já ter sido assumido pelo governo. As explicações sobre o congelamento das pensões não convenceu ninguém, a prestação de António Costa na Quadratura do Círculo foi, para dizer o mínimo, uma manobra deselegante e pouco credível, tentando responsabilizar Teixeira dos Santos pela jogada política do governo e de Sócrates.


 


Passos Coelho aguardava uma oportunidade para fazer cair o governo, sem ficar com o ónus de desencadear uma crise política. Dentro do PSD a espera começava já a fazer vítimas, estando a apertar-se-lhe o cerco. Sócrates deu-lhe um excelente pretexto.


 


Logo a seguir ao discurso de tomada de posse de Cavaco Silva defendi que o governo deveria apresentar uma moção de confiança à Assembleia da República para que os partidos assumissem as suas responsabilidades. Neste momento penso que o melhor é avançarmos para eleições e, ao contrário de Medeiros Ferreira, acho que José Sócrates se deve apresentar à frente do PS.


 


Em nome da estabilidade política tem-se mantido uma situação instável, à beira do precipício, com dramatizações em catadupa. A crise continua e o sobressalto que todos sentimos não é cívico, é depressivo. Não se aguenta mais esta situação de histeria, manipulação informativa e barragens de propaganda. Não há mercados, crises ou Bruxelas que me convençam que é melhor continuar assim. Em democracia estes problemas resolvem-se com eleições. Venham elas.

15 março 2011

Regresso ao passado

 



 


Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.


 


Este é o nosso Presidente da República. Em ditadura, com o analfabetismo e a falta de liberdade de expressãode pensamento, tudo o que os jovens queriam, desprendidos e corajosos, era ir à guerra, defender os territórios ultramarinos.


 


Salazar também assim pensava. Que os jovens queriam, corajosa e desprendidamente, defender o Ultramar. Era essa uma causa maior, ao serviço da nação.


 


Os jovens que estiveram envolvidos na guerra do Ultramar, que não puderam ter sobressaltos cívicos para se negarem a fazê-lo, que não puderem manifestar-se nas suas cidades contra a guerra e a miséria, mereciam bem melhor homenagem.

Meu amigo perdoa-me

 


 



poema de Catarina Nunes de Almeida


 


 


 


Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

13 março 2011

Miss Celie's Blues


Chaka Khan & Q Live


 


 


 



Sister, you've been on my mind
Sister, we're two of a kind
So, sister, I'm keepin' my eye on you.

I betcha think I don't know nothin'
But singin' the blues, oh, sister,
Have I got news for you, I'm something,
I hope you think that you're something too

Scufflin', I been up that lonesome road
And I seen alot of suns going down
Oh, but trust me,
No-o low life's gonna run me around.

So let me tell you something Sister,
Remember your name, No twister
Gonna steal your stuff away, my sister,
We sho' ain't got a whole lot of time,
So-o-o shake your shimmy Sister,
'Cause honey the 'shug' is feelin' fine.



 

Um dia como os outros (81)

 



(...) Está, pois, na hora, de obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades. Não vale a pena conversar com o PSD, porque o PSD não existe. Existe Passos Coelho, que quer qualquer coisa que evite a descida de Rui Rio à capital, e cujo principal exercício político é disfarçar. Disfarçar as políticas que quer tentar, resumidas no “salve-se quem puder”. Existe Rui Rio e os que querem um PSD “credível” para tomar conta da intendência, mas que ainda não acabaram de ultimar o plano de assalto ao palácio de inverno. E existe o chefe da oposição, que reside oficialmente em Belém.

Assim sendo, Sócrates, como PM e SG do PS, deve ir a Belém e dizer a Cavaco Silva: “o senhor Presidente acha que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios; os seus aliados nas instituições europeias passam os dias a exigir-me que peça mais sacrifícios aos portugueses; os seus aliados nos partidos portugueses concordam consigo que isto vai lá sem mais sacrifícios – e eu não estou a ver como; o senhor Presidente teve a sua manifestação da maioria silenciosa, que ajudou a convocar no seu discurso de tomada de posse, na sua habitual abrangência política alimentada pela crítica sem alternativa, porque a alternativa é onde a porca torce o rabo; portanto, senhor Presidente, eu vou-me embora, o PS vai para a oposição, que já se esforçou o suficiente, e o senhor Presidente assuma as consequências do seu activismo e arranje uma solução”. (...)


 


Porfírio Silva

Das reformas

 


Infelizmente iremos fazer a reforma da legislação laboral a reboque das imposições de Bruxelas, de os mercados e semelhantes, em vez de termos tomado a iniciativa mais cedo, alterando o que deve ser alterado, com autonomia e independência.


 


Uma das razões para a existência de tantos recibos verdes e contratos precários, que penalizam mais quem quer entrar no mercado de trabalho, é precisamente a dificuldade em rescindir os contratos sem termo. Esses vínculos quase vitalícios, nomeadamente na função pública, que impossibilitam que haja verdadeiras escolhas e promoções por mérito, ferozmente defendidos pelas estruturas sindicais, levam ao preenchimento de todos os lugares disponíveis, reduzem a renovação geracional e empurram os mais jovens para uma permanente precariedade.


 


No entanto, aquilo que está previsto, tanto quanto saibamos, claro, é a redução das indemnizações por despedimento. Não seria preferível fazer o contrário? Facilitar os despedimentos, obviamente salvaguardando e prevenindo as discricionariedades por parte dos empregadores que, muitos deles, se têm aproveitado da conjuntura para oferecerem salários indignos, transformando a oportunidade de emprego numa nova forma de escravatura, e aumentar as indemnizações?


 


Não pode ser admissível, nem assumido como inevitável, que os empregos se transformem em incertezas do dia a dia e não em perspectivas de investimento e motivação numa qualquer actividade. Como também é inaceitável que pessoas sem qualquer interesse no trabalho, que não se empenham, que não se formam nem se informam, que procuram todos os pretextos para sair mais cedo e entrar mais tarde, mantenham os seus postos de trabalho porque têm contratos sem termo, enquanto outras pessoas mais qualificadas, excelentes profissionais, que adoram o seu trabalho e querem, de facto, desenvolver-se e fazer desenvolver o país, ficam de fora, sem que aqueles que se dizem defensores dos seus direitos tomem medidas para os defender. Já agora para nos defender a todos.


 

(Des)Informação

 


Não, afinal não eram 200.000, eram 300.000. Podemos fazer um leilão, a ver quem dá mais.


 


É aterradora a forma acrítica com que se replicam informações, boatos e certezas nos media portugueses. Esta manifestação, que foi, sem dúvida, um êxito, independentemente do que cada um de nós possa pensar das razões ou falta delas desta geração à rasca, não foi nada do que se tem escrito e publicitado em tudo o que é jornal, rádio, blogues, etc.


 


Não foi convocada pelo Facebooka iniciativa foi divulgada através do Facebook, mas deve ter havido poucas manifestações que tenham sido tão pré publicitadas, por quase todos os órgãos tradicionais de comunicação, como esta. Durante mais de uma semana não houve dia em que não tivéssemos sido lembrados da novidade e importância reivindicativa desta manifestação, sem organizadores e totalmente espontânea, tão interessante e tão igual às manifestações do Egipto e da Tunísia. Agora sim, o povo é quem mais ordena.


 


Não foi preciso qualquer esforço de organização nem de divulgação – a comunicação social e partidos da contestação se encarregaram disso.


 


Quanto aos números de manifestantes, o contágio da falta de sentido crítico é espantoso. Ontem começou por se falar em 200.000. Um dia depois a organização (aquela que não existia) contou 300.000, e os meios de comunicação, os tradicionais e os do séc. XXI, repetiram como papagaios esse número. Como me fizeram ver ontem, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios de Alvalade cheios; 300.000 correspondem a 6 estádios. Como também se sabe, ou deveria saber, há quem desenvolva métodos científicos para medir o número de manifestantes. Mas, claro que isso não interessa nada.


 


Porque o número de manifestantes interessa. Não significa o mesmo a presença de 3.000, 30.000 ou 300.000 pessoas na rua, em protesto.


 


Quanto à cobertura televisiva dada ontem da dita manifestação, foi eloquente. Durante toda a tarde, em directo, por vários canais de televisão, tivemos direito a ouvir as reportagens em cima do acontecimento, a motivação e o empolgamento perante tantos e tão desesperados jovens, menos jovens, Homens da Luta, Fernando Tordo, gente contra políticos e contra a política, desempregados, empregados a recibos verde, a contratos a termo, estudantes, reformados, enfim, uma panóplia de gente que, com as suas razões, decidiu mostrar descontentamento.


 


Não se percebe se esta forma de informar é apenas o resultado de incompetência ou falta de profundidade, se é intencional e manipuladora. O que é patente é a impossibilidade que os cidadãos têm de acreditar, minimamente, no que os meios de comunicação dizem sendo eles, em princípio e em teoria, os garantes da formação da opinião pública, em liberdade.


 


Nota: vale a pena ler este post.


 

12 março 2011

Os milhares


 


A manifestação de hoje, convocada pela geração à rasca, foi um êxito. Grande mobilização, calma, razões misturadas, desagrados vários, e um enorme desagrado geral, contra a falta de luzes ao fundo do túnel. Os aproveitamentos do costume e, para meu espanto, a estimativa do número de manifestantes, que começa a ser hilariante. Nada menos que 200.000 em Lisboa. Como me fizeram ver, hoje à noite, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios do Sporting ou a 3 estádios do Benfica em lotação esgotada.


 


Não havia necessidade.

Critérios editoriais

 



 


Confesso que leio pouco a revista da Ordem dos Médicos (ROM). Também não tenho estado muito atenta a algumas polémicas que se vão desenrolando na blogosfera. Aliás tenho sentido um cansaço imenso, quase uma náusea, de toda esta actualidade que nos apavora, de cada vez que ligamos o rádio ou vemos televisão.


 


Mas ontem a curiosidade (e a apreensão) venceram e fui ler com cuidado o artigo de opinião assinado por William H. Clode O sentido do sexo, publicado na edição de Janeiro da ROM. É um artigo de opinião dividido em 3 partes, datadas de 14 de Novembro de 2008, 8 de Setembro de 2009 e 1 de Dezembro de 2009. Nestes 3 textos o autor desenvolve a ideia de que o sexo é um sexto sentido, tal como o da visão, discorrendo sobre as alterações genéticas que levam ao daltonismo e comparando a homossexualidade com uma alteração genética, ainda não identificada nem estudada. Descreve também a consequência dessa eventual alteração genética, que correspondem a um comportamento típico, repugnante e com pouca higiene, fazendo parte desse comportamento desviante a utilização da boca e do ânus como órgãos sexuais.


 


Confesso, mais uma vez, que a discussão sobre a liberdade de opinião e o cabimento deste artigo numa revista da Ordem dos Médicos, por muito generalista que ela seja, me soa a exercício masturbatório de pseudointelectuais desempregados. Este artigo é um tal aglomerado de disparates que só o facto da ROM o ter aceite para publicação é inacreditável, quanto mais a defesa da sua publicação em nome da liberdade de opinião.


 


A minha reacção está muito para além do espanto. Acho degradante e atentatório da credibilidade da ROM, para além da credibilidade da classe médica como um todo, o critério editorial da ROM e o facto do Bastonário da OM achar normal a publicação deste artigo.

11 março 2011

Violência da natureza

Austeridade sem fim

Se tivéssemos alguma dúvida, José Sócrates e Teixeira dos Santos simpática e obstinadamente esclarecem-nos que as contas que prestam é a Angela Merkel e à União Europeia, que a política e a governação do país são dirigidas por Angela Merkel e pela União Europeia.´


 


Acho inadmissível que se apresentem mais medidas de austeridade sem que haja pelo menos a decência de as divulgar ao Parlamento português, para aplacar e suavizar as avaliações da Alemanha e da União Europeia, para tentar ganhar mais uns dias ou uns meses, não sei bem com que objectivo.


 


A estas medidas somar-se-á mais recessão económica, a que se seguirão mais medidas de austeridade. Não parece que nada disto tenha fim. Ou pelo menos um bom fim.

Distinções

Defendo a democracia participativa com partidos. Defendo a democracia participativa para além dos partidos. Defendo a liberdade de expressão de opinião e de manifestação, seja qual for o grupo ou opinião que se queira manifestar, pacificamente, respeitando a lei.


 


É importante que os cidadãos exerçam a cidadania com exigência e não se deixem manipular por formas mais ou menos escusas, abrindo a confusão e misturando coisas que não se devem misturar. Como sou uma das pessoas que tem assumido como a mesma a manifestação convocada para amanhã, da geração à rasca, com uma manifestação contra a política e os políticos, que pede a demissão de toda a classe política, devo informar que, pelos vistos, essas duas manifestações não são a mesma.


 


O que não apaga tudo o que penso dos protestos que este movimento tem protagonizado, o que não impede que pense que este movimento está a ser aproveitado/conduzido oportunisticamente por forças políticas, como o PCP e o BE, que tentam cavalgar todo e qualquer protesto.

10 março 2011

A nova era

 



 


A noção que o Presidente recém empossado tem de cooperação entre as instituições da democracia portuguesa é estranha, mas não surpreende. Cavaco Silva aproveitou esta oportunidade para, mais uma vez, abrir caminho a eleições antecipadas, em vez de promover a estabilidade, que tanto apregoou antes e durante a campanha presidencial. Aproveitou, cinicamente, os movimentos da geração à rasca, tal como aproveitou as manifestações e as marchas a favor da escola pública, promovidas pelos sindicatos dos professores.


 


O Presidente Cavaco Silva fez um discurso que traçou as linhas gerais do próximo governo de coligação PSD/CDS. A alternância é natural e saudável em democracia. Já não é saudável que seja o Presidente da República a liderar a oposição.


 


Ao reduzir a última década a um conjunto de anos perdidos, leia-se pela governação socialista, mais especificamente pela governação de Sócrates, Cavaco Silva não se lembrou da União Europeia, ao apontar a dependência alimentar não se lembrou da política agrícola comum. Ao falar da aposta na tecnologia e na ciência também se esqueceu do significativo aumento de cientistas em Portugal, nacionais e estrangeiros, e do aumento de publicações científicas. Quando diagnosticou a dependência do exterior também se esqueceu da aposta nas energias renováveis, nas tecnologias da comunicação, nomeadamente na banda larga. Não houve lugar, no seu discurso, para a verdadeira reforma que se iniciou no ensino. Cavaco Silva lembrou-se agora dos artistas e da cultura, mas esqueceu a crise.


 


Tudo já foi dito sobre este início presidencial. Tal como o Eduardo Pitta penso que esta nova era, como muitos gulosamente já lhe chamaram, inaugurada pelo discurso de Cavaco Silva, deveria ser assumida em pleno. Era clarificador que o governo apresentasse uma moção de confiança à Assembleia da República.


 

08 março 2011

Mulheres

  



Nnamdi Okonkwo: They are waiting


 


 


Mulheres, aquelas que choram e cantam, que aguentam filhos e pais, que vêm inchar o ventre e as pernas, riscar de rugas a face, de varizes a alma, dilatar a preguiça e a nostalgia do nada.


 


Mulheres, aquelas que sabem e esquecem, que vêm partir e amparam, que gritam e enxotam, que abraçam e sustentam.


 


Mulheres sem dias e a dias, todos os dias.


 

Limpeza de listas

 


A actualização dos dados nos Centros de Saúde, para libertarem das listas quem nunca lá vai, porque não quer e/ou não precisa, parece uma boa ideia. Rentabilizar e gerir melhor os escassos recursos que existem, nomeadamente o reduzido número de Médicos de Família para que mais pessoas tenham acesso a cuidados de saúde atempadamente, é indispensável.


 


No entanto convém não esquecer que há algumas situações em que os doentes estão obrigados, por lei, a recorrer aos Médicos de Família, como o simples facto de precisarem de um atestado médico para justificarem faltas por doença. Mesmo quando se esteve internado num hospital integrado no SNS, é necessário um atestado passado pelo Médico de Família.


 


Estas medidas tinham o objectivo de desincentivar os atestados falsos. Mas a verdade é que dificultam muito a vida de quem, de facto, está doente. Tal como a nova ideia de obrigar a exibir um documento de identificação nas farmácias, aquando da compra de medicamentos por receita. Não é isso que vai acabar com as fraudes. Seria muito melhor que se perseguissem os prevaricadores – médicos que passam receitas e atestados falsos, farmacêuticos que falsificam usam abusivamente números de cartões de utentes, pessoas saudáveis que fingem doenças e que lesam os restantes cidadãos, em vez de inundar de leis restritivas quem cumpre.

La dama y la muerte


Javier Recio Garcia


Prémio Goya - melhor curta-metragem de animação 2010


A partir daqui


 

Gabinetes


 


 


 


Quanto maior o gabinete


mais rasteiras as pessoas que o visitam


quantas vezes as que o habitam.


 

Um dia como os outros (80)

 



(...) Assumindo-se explicitamente como representantes do Movimento Geração à Rasca, um grupo de pessoas atacou ontem, em Viseu, uma actividade do Partido Socialista. Não fizeram uma manifestação em espaço público contra o governo ou uma autoridade do Estado. Não. Não foi isso. Introduziram-se de má-fé (comprando bilhetes como se fizessem parte da agremiação) numa reunião partidária, numa acção de preparação do congresso do PS, para a boicotar. Dizem que a acção era pacífica. Nunca vi nenhuma reunião, onde os participantes estejam de boa-fé, na qual as inscrições sejam geridas recorrendo ao megafone e a vozearia. "Pacífica" quer dizer que não bateram em ninguém?! (...) As tentativas de condicionar as reuniões partidárias não são acções pacíficas. (...) É preciso dizer com clareza: estes comportamentos mostram a falta de cultura democrática de quem assim actua. (...)


 


Porfírio Silva


 

07 março 2011

Os custos da irrelevância dos mercados

Se alguma dúvida ainda houvesse quanto à irrelevância das medidas de austeridade em relação ao aplacar da ira dos mercados, a agência financeira Moody’s acabou de o demonstrar, mais uma vez. Para aqueles que continuam a defender que o pedido de ajuda ao FMI é, não só inevitável como desejável, para que se não agravem os custos da crise, gostaria de saber como justificam o contínuo castigo da Grécia.

06 março 2011

"Jesus bleibet meine Freude"


J. S. Bach - BWV 147


Orquestra Barroca de Amesterdão


 

Cobardia política

 



 


José Sócrates, perante uma manifestação de protestos contra uma medida impopular, que o seu governo decidiu, independentemente de ter cedido por compromisso com o PSD ou não, comportou-se de uma forma vergonhosa. Não sei quem ele tenta enganar, se aqueles que trata como papalvos, se a ele próprio. Qualquer das hipóteses o desqualifica muito mais do que o assumir que, ao contrário do prometido, tenha voltado atrás, como a muitas outras promessas, desde que iniciou esta legislatura.


 

Ditaduras larvares

 



 


A aliança entre todas as forças reaccionárias, demagógicas e populistas viu uma oportunidade na já célebre canção dos Deolinda. Que melhor causa para a união da alma nacional, das queixas contínuas, do mal dizer da vida, do aconchegar-se na ladainha do que se perdeu e da nostalgia do que nunca se alcançou, senão a bandeira da defesa do povo?


 


Vão-se reduzindo as pessoas que conheceram a fome, a censura a falta de oportunidades, a xenofobia, o racismo, a clausura de viver num país espartilhado entre as suas fronteiras, a reclusão cultural. A Europa era uma miragem ou uma dura realidade emigrante.


 


Crescem os extremismos de direita e de esquerda, os apelos ao pensamento único, o desprezo por quem assume responsabilidades políticas. A falta de ideias ou a presença delas requentadas e recicladas, temperadas pela inveja e pela preguiça, pelo esvaziamento da solidariedade e da partilha, da noção de comunidade, de esforço e de serviço público, é um rastilho fácil de acender.


 


A manifestação que se prepara, para pedir a demissão da classe política, as sondagens em França, que colocam a extrema direita à frente nas intenções de voto, a hegemonia da Alemanha no espaço europeu, o alargamento e a incapacidade dos estados membros, através dos seus cidadãos, decidirem os seus destinos, numa miscelânea de causas e consequências para a situação que hoje se vive, com tanta riqueza, tanto florescimento científico, tanto aumento da esperança de vida, desbaratadas e secundarizadas pela insegurança, incerteza, intolerância, consumismos desenfreados, poderes paralelos e não democráticos, como a desinformação e a ditadura dos media.


 


Substituir este regime por que outro regime, esta liberdade por que outra liberdade, estes protagonistas por que outros protagonistas? Será que esta geração que se manifesta à rasca, precária e suspensa, tem soluções, quer assumir o risco e o desafio de melhorar a situação do país e da Europa? Onde estão as suas alternativas? Que propõe? Onde estão os resultados da melhor educação, da melhor qualidade de vida, das melhores condições a que tiveram acesso?


 


Os políticos serão eles, os futuros e já os presentes. Será a eles que as próximas gerações pedirão conta, em democracia ou nas ditaduras que, larvarmente crescem dentro da mentalidade dos povos. É essa a resposta que podem dar?


 

05 março 2011

Manhã de Carnaval


Baden Powel


 


 

Entrudo


 


 


Está frio e chove


o diabo anda à solta


a morte passeia-se de negro.


Pai Velho e compadre


matrafona dos desejos


comadre testamenteira


corridas de chocalhos


vozes por trás do madeiro.


 


Cabeçudos e gigantones


entre carros trapaceiros


rei rainha e ministros


o governo apalhaçado


deste povo que trapaça


em cueiros sem dinheiro


este povo que tem raça


e escorraça


o mundo inteiro.


 

Salvação nacional

 



jornal i 


 


Um governo de salvação nacional, com o PSD, o CDS e o PCP. Uma solução brilhante. Não percebo porque se sugere que o BE fique de fora. Apenas o PS está a naufragar o país. O Presidente Cavaco Silva, numa iniciativa heróica, denominaria o Chefe do Governo, uma pessoa apartidária e apolítica, para acabar com os desvarios dessa classe de ladrões, os tais que corrompem o futuro. Poupar-se-ia o dinheiro que se desperdiça nas eleições, contribuindo para a poupança do estado.


 


Ficaríamos todos arrumados, bem comportados, a trabalhar para a unidade nacional, salvos, enfim.


 

Ouvir

 



 


 


Gosta mais de ouvir do que de falar. Gosta mais de pequenas reuniões do que de grandes manifestações, sejam elas de júbilo, reivindicativas ou sociais. Nisso é uma mulher convencional e muito conservadora. Ouve muitas histórias, algumas repetidamente outras novas e imaginativas. As vidas à sua volta sempre ricas, sempre diferentes e mais interessantes que a sua.


 


À volta da mesa cozinham-se afectos e rezas, em lume brando depuram-se dores e risos, mexem-se vagarosamente meladas e sensuais ânsias, agarram-se teimas e suores. Mais precisas que num laboratório, as medidas usadas, de tão qualitativas, correspondem aos mais altos níveis de qualidade e sensibilidade.


 


Daquela vez foi em finas rodelas de laranja, bem descascada, dispostas às camadas alternando com açúcar, pequenos e escassos fragmentos de gengibre fresco, paus de canela e jeropiga a cobrir. Completando com água sem afogar a mistela, o fogo lento e a colher envolvendo ritmadamente durante horas, até quase se acabar a conversa, o chá e os longos e paralelos silêncios que correm subterrâneos por dentro de cada alma.


 


 


Compota de laranja com gengibre e jeropiga


 


4 Kg de laranja descascada (em rodelas fininhas)


vidrado da casca de 2 laranjas/Kg (em bocadinhos muito pequenos)


3 Kg de açúcar


gengibre fresco (em bocadinhos muito pequenos)


0,5l de jeropiga


8 paus de canela


água (que baste para cobrir tudo o resto)


 

03 março 2011

Despojamento

 



Autor (?) 


 


 


Não conheceu pai nem mãe. Vivia com dois primos, um que mal se mexia, com o corpo enfezado, convulsivo e babado, com a boca torcida de sons indistintos, outro que saía muito cedo e chegava muito tarde, bebia mais que comia e adormecia invariavelmente de cigarro na boca.


 


Os dias passava-os na rua, na companhia de gente desenraizada e selvagem. O céu era melhor cobertor que as paredes arruinadas da casa em que vivia. Corria e roubava, fumava, bebia e esmurrava. Foi-se habituando à solidão da mesma forma que se habituou à falta de higiene e às dores de dentes, ao frio e à pancadaria.


 


Mesmo assim tinha a capacidade de amar intacta e transbordante, como um sentimento que se hipertrofia pela ausência de outros. Amava bichos, pessoas e pedras, com a ternura e a docilidade do despojamento total, da entrega sem esperança. Corria-lhe nas veias a depuração de um olhar tão pesado pela vida, que as raras migalhas de beleza inundavam de luz o seu mundo.


 

Regimes políticos

 


Multiplicam-se as certezas quanto à necessidade e à inevitabilidade da entrada do FMI ou semelhante em Portugal. A direita está frenética e com pressa. Quanto mais tempo tardar a tão almejada ajuda externa ao país, quanto mais tempo durar a teimosia de Sócrates, menos margem de manobra tem a oposição para justificar a moção de censura ao governo.


 


Não deixa de ser interessante perceber a nostalgia que ainda há, em certas mentes, de ter alguma coisa ou alguém que se comporte como um pai castigador, o paternalismo arrogante de quem pensa que o povo deste país precisa da imposição de "regras duras". A democracia é para gente adulta que assume as suas responsabilidades. No fundo, a direita portuguesa, inconsciente ou conscientemente, suspira pela transformação do país num satélite de qualquer outra soberania, enquanto acena com a sua nobreza nacionalista. Salta-se do iberismo para o FMI ou o Fundo Europeu, ou seja, a Alemanha. A subserviência de que acusam Sócrates está entranhada na mentalidade da vassalagem.


 


O PSD, depois das conferências de imprensa em que pede a demonstração de uma execução orçamental rigorosa, com a diminuição da despesa pública, chora hipocritamente pela hipótese de redução do número de professores e inviabiliza a reforma curricular do ensino básico. É verdadeiramente vergonhoso. Para Rui Rio já se tornam necessárias "reformas profundas" do regime político. O que não diz é quais e como se implementam, para além da “reflexão séria” sobre a democracia.


A sensação que paira é que se estão a lançar as bases para manipular os cidadãos de forma a que eles peçam mudanças de regime. Eu não conheço assim tantos regimes diferentes do democrático em que se viva em liberdade e em que pessoas como Rui Rio peçam profundas reformas.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...