A aliança entre todas as forças reaccionárias, demagógicas e populistas viu uma oportunidade na já célebre canção dos Deolinda. Que melhor causa para a união da alma nacional, das queixas contínuas, do mal dizer da vida, do aconchegar-se na ladainha do que se perdeu e da nostalgia do que nunca se alcançou, senão a bandeira da defesa do povo?
Vão-se reduzindo as pessoas que conheceram a fome, a censura a falta de oportunidades, a xenofobia, o racismo, a clausura de viver num país espartilhado entre as suas fronteiras, a reclusão cultural. A Europa era uma miragem ou uma dura realidade emigrante.
Crescem os extremismos de direita e de esquerda, os apelos ao pensamento único, o desprezo por quem assume responsabilidades políticas. A falta de ideias ou a presença delas requentadas e recicladas, temperadas pela inveja e pela preguiça, pelo esvaziamento da solidariedade e da partilha, da noção de comunidade, de esforço e de serviço público, é um rastilho fácil de acender.
A manifestação que se prepara, para pedir a demissão da classe política, as sondagens em França, que colocam a extrema direita à frente nas intenções de voto, a hegemonia da Alemanha no espaço europeu, o alargamento e a incapacidade dos estados membros, através dos seus cidadãos, decidirem os seus destinos, numa miscelânea de causas e consequências para a situação que hoje se vive, com tanta riqueza, tanto florescimento científico, tanto aumento da esperança de vida, desbaratadas e secundarizadas pela insegurança, incerteza, intolerância, consumismos desenfreados, poderes paralelos e não democráticos, como a desinformação e a ditadura dos media.
Substituir este regime por que outro regime, esta liberdade por que outra liberdade, estes protagonistas por que outros protagonistas? Será que esta geração que se manifesta à rasca, precária e suspensa, tem soluções, quer assumir o risco e o desafio de melhorar a situação do país e da Europa? Onde estão as suas alternativas? Que propõe? Onde estão os resultados da melhor educação, da melhor qualidade de vida, das melhores condições a que tiveram acesso?
Os políticos serão eles, os futuros e já os presentes. Será a eles que as próximas gerações pedirão conta, em democracia ou nas ditaduras que, larvarmente crescem dentro da mentalidade dos povos. É essa a resposta que podem dar?
Muito bem dito, Sofia.
ResponderEliminarA "corda" tem vindo a ser ao longo das ultimas décadas demasiado esticada. Por isso que ninguém se admira que ou se parta ou que alguém seja enforcado.
ResponderEliminarKruzes Kanhoto, vá...para o inferno!
ResponderEliminarHá gente que metaforiza com muita facilidade e mau gosto! Kruzes, kanhoto!
Na minha opinião, este post confunde algumas coisas, nomeadamente a convocação de uma manifestação para demitir a classe política com o Protesto da Geração à Rasca (www.geracaoenrascada.wordpress.com - www.facebook.com/event.php?eid=180447445325625). Esta última, a meu ver, assumiu-se de início e essencialmente como um movimento cívico (pacífico, apartidário – e não anti-partidário – e laico) contra a precariedade: recibos verdes, estágios remunerados, infindáveis sucessões de estágios remunerados, bolsas atrás de bolsas na investigação universitária e todos os outros mecanismos que se criaram em Portugal que permitem que haja uma fatia da população trabalhadora excluída de uma série de direitos laborais simples... E não me refiro à ideia que tinham os nossos pais de que um emprego era “para a vida” e vinha para muitos com direito a progresso na carreira sem esforço e respectivo aumento salarial e tantos outros benefícios. Falo de coisas como férias pagas e protecção na doença... Claro que face à adesão significativa ao protesto outros grupos se têm tentado aproveitar, alguns extremistas, o que é muito triste (e nesses se inclui a tal manifestação para demitir a classe política).
ResponderEliminarTambém faz parte da democracia o direito à manifestação e eu se estivesse em Portugal também estaria presente.
Espero que esteja tudo bem por aí! Já falta pouco para estar de regresso:)
Beijinhos,
Ana Luísa
Ana Luísa, obrigada pelo teu comentário.
EliminarDei-me conta do que dizes e disse-o já no post de ontem http :/ defenderoquadrado.blogs.sapo.pt 747305.html ).
Até breve.