25 abril 2014

As brumas do futuro

 


 



Antonio Victorino D'Almeida


Pedro Ayres de Magalhães


Madredeus


 


Sim, foi assim que a minha mão
Surgiu de entre o silêncio obscuro
E com cuidado, guardou lugar
À flor da Primavera e a tudo


 


Manhã de Abril
E um gesto puro
Coincidiu com a multidão
Que tudo esperava e descobriu
Que a razão de um povo inteiro
Leva tempo a construir


 


Ficámos nós


Só a pensar


Se o gesto fora bem seguro


Ficámos nós


A hesitar
Por entre as brumas do futuro


 


A outra acção prudente
Que termo dava
À solidão da gente
Que deseperava
Na calada e fria noite
De uma terra inconsolável



Adormeci 
Com a sensação
Que tinhamos mudado o mundo
Na madrugada
A multidão
Gritava os sonhos mais profundos


 


Mas além disso
Um outro breve início
Deixou palavras de ordem
Nos muros da cidade
Quebrando as leis do medo
Foi mostrando os caminhos
E a cada um a voz
Que a voz de cada era
A sua voz
A sua voz

Um dia diferente


No fim da estrada


 


A história está juncada de revoluções traídas. Escrito sobre a russa de 1917, Animal Farm, de Orwell, podia ser sobre quase todas: à esperança e ao deslumbramento iniciais seguem-se o terror de ver outros (ou os mesmos) tomarem o lugar dos antigos senhores.


 


Poucas - não vamos debater se o 25 de Abril foi ou não uma revolução - podem ser 40 anos depois celebradas sem que o essencial da sua promessa se tenha perdido. Mas por mais que haja quem, reclamando-se dos alvores abrilistas, decrete que do dia inicial de Sophia só resta um encantamento amargo, não é assim. Todas as suas grandes promessas foram cumpridas. A quem afiança que "há liberdade mas" e prossegue com "não há verdadeira democracia", ou "verdadeira justiça", ou "verdadeira igualdade", certificando até, em alguns casos (entre os quais pontua, incrivelmente, Mário Soares), "viver-se pior agora do que pré-74", só podemos apontar o caminho do Instituto Nacional de Estatística.


 


A paz, o pão, a habitação, saúde, educação - todas as reivindicações da canção Liberdade, de Sérgio Godinho, se concretizaram. Tínhamos uma guerra estulta e brutal - 169 mil soldados foram enviados para as colónias, morrendo mais de 8000 - e deixámos de ter. Havia fome - calcula-se que 10% da população portuguesa emigrou nos anos 60, grande parte "a salto", para engrossar bairros de lata nos países de destino - e hoje, persistindo carência, desemprego e exclusão, não há comparação possível. Havia dezenas de milhares de barracas - grande parte das casas eram como barracas - e hoje são uma realidade residual. Havia números de mortalidade infantil africanos, uma rede hospitalar incipiente, e temos hoje um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores e uma mortalidade infantil entre as dez mais baixas do mundo (só entre 1990 e 2011 diminuiu 77%). Em 1970, a taxa de analfabetismo raiava os 30%, hoje é 5%; a taxa de escolarização no secundário era 3,8%, agora é 72,3%; os doutoramentos contavam-se anualmente em dezenas, agora são milhares.


 


Quem, do PC ao PNR, passando por este Governo de maçães, resume os 40 anos a "desperdício", "corrupção" e "traição" não está bem da cabeça. Outra coisa é dizer que é tudo perfeito, que chegámos ao fim da estrada da canção de Gomes Ferreira (o escritor, não confundir). Aliás, a ideia de que um golpe de Estado nos colocaria, por milagre, na terra do leite e do mel, bastando-nos agradecer a dádiva, comunga da infantilidade amorfa que nos fez, como país, aguentar 48 anos de uma ditadura tacanha. Se há falhanço nestas quatro décadas é esse - o de tanta gente achar que a política é uma coisa que lhe acontece, não algo que se faz. Ter nojo "dos políticos", achando que "são todos iguais", entregando-lhes ao mesmo tempo o destino, é capaz de ser uma grande estupidez - e para isso é que, de certeza, não foi feito o 25 de Abril.


 


Fernanda Câncio 

O Espírito de Um País

  


Comemorações - 40 anos do 25 de Abril


 



 


Rodrigo Leão


Sinfonietta de Lisboa


Camané


Celina da Piedade


26 de Abril - 21h00


Assembleia da República


(entrada livre)

Quarenta anos depois

 


 



 


Ao ver documentários sobre a revolução dos cravos em Portugal, e de tudo o que se lhe seguiu, quando se consegue comparar a sociedade existente antes e depois de Abril, não me restam dúvidas de que este é um País diferente e que estas são gentes particulares.


 


E ainda bem. Para os saudosos de revoluções e de grandes reivindicações bombásticas e bombísticas, de armas de fogo e pedras, de cercos a assembleias e legitimidades outras que não as eleitorais, é muito importante que se lembrem do que aconteceu e do que poderia ter acontecido, entre banhos de sangue, desmantelamento social e substituição de uma ditadura por outra de sinal contrário.


 


Quarenta anos depois, com todos os problemas que existem, estamos num país democrático, livre, aberto ao mundo e habituado às diferenças, às minorias e aos direitos humanos. É isso que temos que defender e manter. Não nos esqueçamos que a mediocridade, a mesquinhez e a falta de ambição e valores democráticos são a raiz da destruição das comunidades.


 


E é por isso que o slogan continua actual - 25 de Abril sempre!


 

24 abril 2014

Em modo revolucionário - segundo e terceiro comunicados do MFA

 


Rádio Clube Português


 



 



04h45


 


A todos os elementos das forças militarizadas e policiais o comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência, a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos. 


Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessariamente, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar. Apelamos para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo Movimento das Forças Armadas. Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem, por qualquer forma, conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.


 


Apelo às forças militarizadas



Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, ainda que involuntário, deverá recolher às suas casas, mantendo absoluta calma. A todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G. N. R., P. S. P. e ainda às forças da ID. G. S. e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que na presente situação só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reacção às Forças Armadas. Tal reacção nada teria de vantajoso pois apenas conduziria a um indesejável derramamento de sangue que em nada contribuiria para a união de todos os portugueses. Embora estando crentes no civismo e no bom senso de todos os portugueses no sentido de evitarem todo e qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e pessoal de enfermagem se apresente aos hospitais para uma colaboração que fazemos votos por que seja desnecessária.


 


05h00


 


Atenção elementos das forças militarizadas e policiais. Uma vez que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação será considerado delito grave qualquer oposição das forças militarizadas e policiais às unidades militares que cercam a cidade de Lisboa. A não obediência a este aviso poderá provocar um inútil derramamento de sangue cuja responsabilidade lhes será inteiramente atribuída. Deverá por conseguinte, conservar-se dentro dos seus quartéis até receberem ordens do Movimento das Forças Armadas.  


Os comandos das forças militarizadas e policiais serão severamente responsabilizados caso incitem os seus subordinados à luta armada.


 

23 abril 2014

Das comemorações da Liberdade

 



 


Temos um País a empobrecer, estamos a perder a coesão social, há um refulgir da ideologia em que os direitos sociais não existem, são dados pelos que têm poder, quase por direito divino.


 


Tudo isso é verdade, em Portugal e na Europa. Os cidadãos divorciam-se dos seus representantes e a tristeza abunda.


 


Mas nada se pode comparar com o que existia antes do 25 de Abril de 1974. Por muito erros que tenhamos cometido, como comunidade, a liberdade de mudar é nossa. Podemos escrever, falar, pintar, desenhar, viajar, casar, ter filhos ou não ter, quando e como quisermos. Também é certo que nada é absoluto e tudo é relativo, que a dependência económica das pessoas e dos países limita a liberdade.


 


Buscamos sempre a perfeição. Mas a democracia existe e, em nome da democracia que fundaram, os Militares da Associação 25 de Abril, deveriam ter sido tratados com respeito pela Presidente da Assembleia da República. Se o discurso que têm a fazer é crítico e incómodo, pois que seja - é isso a liberdade de expressão, foi por isso que se revoltaram.


 


Mas também não deveriam os representantes da Associação 25 de Abril imporem condições para estarem presentes nas comemorações oficiais parlamentares. Não são donos da liberdade e o parlamento foi eleito pelo povo, em eleições livres e democráticas. O respeito pelas Instituições democráticas é também um sinal de que o 25 de Abril triunfou.


 


Há 24 horas num dia - 25 de Abril de 2014 terá 24 horas, suficientes para as comemorações oficiais e para as manifestações no Largo do Carmo. Não nos fica bem, como país democrático que preza a sua História, transformar estes eventos em episódios menores e mesquinhos.


 


Mário Soares foi Presidente da República durante 10 anos, para além de outros cargos de elevada responsabilidade que ocupou. Há muitos cidadãos que nunca gostaram de Mário Soares. No entanto, as maiorias eleitorais deram-lhe a Presidência. Assim ocorreu com Cavaco Silva e com Passos Coelho/Paulo Portas. Nada disto faz sentido. As diferenças de opinião não deveriam nunca ensombrar as comemorações de uma data que permitiu que se possam expressar essas mesmas diferenças.


 

20 abril 2014

A Troika que se acautele

  



 


É agora que a vamos varrer para sempre. Se o Benfica ganhou o campeonato, Portugal triplicou a bravura, o ânimo e a fúria.


Agarrem-nos senão...


 

Em modo revolucionário - primeiro comunicado MFA

 


Rádio Clube Português


 



Joaquim Furtado

  


Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.



Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.


 

Novo léxico político

 


 


Este período de governo PSD/CDS, Passos Coelho/Paulo Portas, sob o beneplácito e aplauso mudo de Cavaco Silva, tem sido riquíssimo para o léxico da política portuguesa - a requalificação, o inconseguimento, a desoneração, a convergência, redefinição, fusão, guião de reforma, reestruturação, empreendorismo, gorduras do estado, consumos intermédios, rescisões amigáveis, tudo muito colossal.


 


Estou certa que há inúmeros temas para teses de mestrado e doutoramento para fazer nas próximas décadas.


 


Nota: maçadoria, elencar e deselencar...

Em modo recosto pós prandial

 


 



Vieiira da Silva


 


 


Do cabrito reza uma história que não sei contar. Talvez lá para as bandas do último dos Romanos se possa descortinar a receita. Sei apenas que ocupou uma prateleira do frigorífico durante vários dias, mergulhado numa molhanga encarniçada. O passeio diário de 180 graus era bastante custoso, pois os 2 garfos compridos, quais forquilhas do demo, eram parcos para tanta costela. Fiquei mesmo com a impressão que a metade tinha um multiplicador, como agora está na moda dizer-se a propósito da austeridade, mas este era de aumentação.


 


Mas que estava uma delícia, isso é um facto, com acompanhamento de castanhas e esparregado, regado com o costumeiro vinho que já se tornou tradição pascal, cá em casa.


 


Para não mencionar um maravilhoso pudim, também da autoria do cozinheiro de serviço, que era uma bomba calórica, mistura entre leite condensado, leite de coco, gelatina e frutos silvestres, mas que se derretia na boca e se deglutia quase sem se perceber.


 


Enfim, se os impostos sobre produtos nocivos já estivessem activos, nós hoje já tínhamos contribuído com uma bela percentagem para a redução do défice. Só faltou mesmo um certo canadiano de empréstimo para que o dia fosse perfeito...


 

E quem fala assim...

 


(...) poderão ser equacionados contributos adicionais do lado da receita, designadamente na indústria farmacêutica, ou de tributação sobre produtos que têm efeitos nocivos para a saúde.


Ministra Maria Luís Albuquerque 


 


Não gostaríamos que estas medidas fossem olhadas apenas numa perspectiva orçamental. O nosso primeiro objectivo com este tipo de políticas é melhorar o estado de saúde da população.


Secretário de Estado Adjunto Leal da Costa


 


Não há taxa. É uma ficção, um fantasma que nunca foi discutido em Conselho de Ministros e cuja especulação só prejudica o funcionamento da economia.


Ministro Pires de Lima


 

Gloria

  



Vivaldi


Orquestra e Côro de Câmara Nacionais da Arménia
soprano M. Galoyan
soprano H. Harutyunova
mezzo-soprano N. Ananikyan
Maestro R. Mlkeyan


 

Enquanto não pagamos imposto...

 


 



 

Para uma celebração feliz - Traz outro amigo também

 


 



Zeca Afonso

 


 


Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também


 


Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também


 


Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

19 abril 2014

Em modo preparatório (repasto pascal)

 


 


 


 


O pão-de-ló é um bolo de grande tradição na cozinha portuguesa e nesta particular época festiva. Sim, porque todas as celebrações religiosas acabam sempre em grandes banquetes e, por muito devotos que sejamos (e eu não sou rigorosamente nada), ninguém dispensa as iguarias que se preparam afanosamente, com mais ou menos imaginação.


 


Pois um dos segredos do bom pão-de-ló é o tempo durante o qual se deve bater o açúcar com os ovos, para que fique bem fofo. Esse é um segredo que todos conhecem. Um outro, mais bem guardado, é a forma de conseguir um pão-de-ló líquido no centro. Para além da enorme quantidade de gemas necessária, não percebo como se faz.


 


Sendo assim, atrevida mas ainda não o suficiente, deixo essa experiência para outra altura.


 


Hoje resolvi preparar o pão-de-ló como é hábito (50g de açúcar por cada ovo/ metade do peso do açúcar em farinha) - bater muito bem os ovos com o açúcar, até ficar um creme quase branco, juntar-lhe a farinha e misturar, cozer em forno médio (foram cerca de 15 minutos para 6 ovos) numa forma untada com margarina e polvilhada de farinha. Mas...


 


... não é em vão que se consomem várias horas de MasterChef (Austrália). Pão-de-ló, só assim, tão e é pouco para a minha mesa de Páscoa. E que tal uma calda, para molhar o dito? Raspei (com o inexcedível Microplane) 2 laranjas e espremi essas 2 e mais uma para dentro de um tacho, juntei 6 colheres de sopa de açúcar e um pouco de licor de café (a olho, confesso, umas boas goladas). Depois de fervilhar durante um bocado, até ficar com um pouco de ponto, dei a calda por terminada. Mas...


 


... faltava ainda a parte crocante. Toca de moer grosseiramente uns amendoins e de os torrar na frigideira antiaderente (foi um instante, ficaram ligeiramente torrados de mais). Mas...


 


... para a felicidade e a sofisticação serem supremas, a cereja no topo do bolo, ou seja, ainda precisava de ter natas batidas com açúcar, cremosas e sedosas, o que daria ao pão de ló a companhia ideal para ser mais que pão. O problema é que as natas que encontrei - mimosa - me mimosearam com a tristeza de nem serem de seda nem se transformarem em creme, apenas num líquido pastoso e desanimado.


 


Está no frigorífico. Pode ser que amanhã ressuscite, para condizer com o dia.


 

Penitência contínua

 


A tragicomédia desta governação continua a bom ritmo. Infelizmente é um espectáculo moderno, em que os espectadores também são parte activa da peça.


 


A Portaria n.º 82/2014, de 10 de Abril, pretende clarificar as valências dos hospitais, segundo critérios de base populacional e de referenciação, estabelecendo 4 grupos de hospitais, dos menos (grupo I) para os especializados (grupo IV).


 


Começo por me espantar com a forma como se decidiu quais os hospitais pertencentes a cada grupo, vendo o Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE (HFF) no grupo I e o Hospital Garcia de Orta, EPE (HGO) no grupo II. Continua o espanto ao ver que a especialidade de Anatomia Patológica vem referenciada apenas no grupo II - será que o HFF vai deixar de ter serviço de Anatomia Patológica? Para onde irão enviar os milhares de biopsias, peças cirúrgicas e citologias que recebe anualmente? Isto para não falar do Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB), também do grupo I, que é um Hospital universitário - Universidade da Beira Interior.


 


Acabo a espantar-me porque, imediatamente após a publicação da Portaria já há muitos a dizer que não será para cumprir.


 


Muitos pecados tem este País a expiar, que isto nunca mais acaba.


 

18 abril 2014

Em modo revolucionário - Trova do vento que passa

 



Manuel Alegre


Carlos Paredes


Amália Rodrigues


 


Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.


Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.


Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém me diz.


Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que eu morro por meu país.


Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio - é tudo o que tem

quem vive na servidão.


Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.


E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.


Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.


Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).


Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.


E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira dum rio triste.


Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.


E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.


Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.


Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.


Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.

17 abril 2014

Em modo revolucionário - Liberdade

 



Sérgio Godinho


 


Viemos com o peso do passado e da semente 
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente 
e a sede de uma espera só se estanca na torrente 
e a sede de uma espera só se estanca na torrente 


 


Vivemos tantos anos a falar pela calada 
Só se pode querer tudo quando não se teve nada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 


 


Só há liberdade a sério quando houver 
A paz, o pão 
habitação 
saúde, educação 
Só há liberdade a sério quando houver 
Liberdade de mudar e decidir 
quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 

13 abril 2014

Mais contas

 


Continuando com as contas.


 


O valor mínimo das pensões de velhice do regime geral da Segurança Social é 259,40 euros:



  1. Nos meses de 30 dias (Abril, Junho, Setembro e Novembro), quem recebe o salário mínimo pode gastar 8,64 euros por dia - para comer, pagar transportes, água, luz, gás, medicamentos, vestir-se e pagar casa.

  2. Nos meses com 31 dias (Janeiro, Março, Maio, Julho, Agosto, Outubro e Dezembro) tem a enorme quantia de 8,36 euros por dia.

  3. Em Fevereiro terá 9,26 ou 8,94 euros, para anos normais ou bisextos, respectivamente.


 

12 abril 2014

O nosso problema

 



 


No mês passado assistiu-se a uma grande comoção perante as despesas que se temiam para os 40 anos do 25 Abril - chaimites com cravos, de Joana Vasconcelos.


 


Pois se calhar ficava mais em conta colocar alguns dos protagonistas - Vasco Lourenço e companheiros - a falar do 25 de Abril, nas cerimónias oficiais da Assembleia da República. É que, por muito disparatadas sejam algumas das declarações que os representantes da Associação 25 de Abril fazem, sem eles não teria havido 25 de Abril, Assembleia da República nem os 40 anos de democracia. Provavelmente iriam dizer coisas desagradáveis, mas a democracia é isso mesmo, ouvirmos mesmo o que não gostamos.


 


Ao contrário do que afirma Assunção Esteves, o problema é nosso. Um problema que alastra como uma maré negra - a falta de credibilidade nas instituições democráticas, a falta de memória sobre o que significou a ditadura deposta em 25 de Abril de 1974 e a desconsideração pelos valores da liberdade, que deveriam ser justamente exaltados nessa data. Por toda a gente, sem excepção.


 

Salário mínimo

 


Estive a fazer contas.


 


O salário mínimo é 485,00 euros:



  1. Nos meses de 30 dias (Abril, Junho, Setembro e Novembro), quem recebe o salário mínimo pode gastar 16,16 euros por dia - para comer, pagar transportes, água, luz, gás, vestir-se e pagar casa.

  2. Nos meses com 31 dias (Janeiro, Março, Maio, Julho, Agosto, Outubro e Dezembro) tem a enorme quantia de 15,64 euros por dia.

  3. Em Fevereiro terá 17,32 ou 16,72 euros, para anos normais ou bisextos, respectivamente.


Se o salário mínimo passasse para 500,00 euros estaríamos a falar de



  1. mais 0,5 euros/dia

  2. mais 0,48 euros/dia

  3. mais 0,53 ou 0,51 euros/dia


Não há vergonha nem decência.


 

01 abril 2014

Um dia como os outros (139)

 


 



 


(...) Para o deputado Duarte Marques (e seguramente para o eurodeputado do CDS, Nuno Melo), o que importa é saber se Constâncio sabia ou não sabia do caso BPN, umas horas, uns dias ou uns meses antes do que disse. Isso é que é importante. Isso é que conta. Porque se isso for provado, o culpado de tudo o que se passou no BPN é de Constâncio. Os senhores Oliveira Costa, Caprichoso, Fantasia e todos os que fizeram negócios mentirosos com créditos que nunca pagaram do BPN (por acaso todos figuras gradas do cavaquismo) são uns santos e umas vítimas. Funcionasse a supervisão do Banco de Portugal e eles não teriam sido tentados pelo pecado da ganância. (...)


Nicolau Santos

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...