26 janeiro 2014

Das proibições

Tenho estado um pouco afastada dos blogues, do facebook e das notícias em geral, um pouco pelos afazeres, muito por não ter nada de novo para dizer e muito também pelo mergulho nessa lama triste em que me sinto enrolada. Talvez por isso me assustem e me fascinem cada vez mais as ondas de indignação e violência que assolam as redes sociais e os media, a total inconsistência e superficialidade com que se abordam assuntos sérios, dramáticos mesmo, sem qualquer respeito pelos factos e pelas pessoas, utilizando-se em grande escala a boa-fé com que tantos se empolgam e exigem absurdos.


 


Transforma-se em assunto internacional os amores, desamores, infidelidades e arrufos do Presidente da República francês, trazendo para a praça pública as desavenças conjugais, os internamentos e os problemas psiquiátricos de Valérie Trierweiller que, pelo facto de viver com o Presidente francês, passa a não ter direito à reserva de intimidade. Qual é a relevância deste facto para os graves problemas políticos da República francesa e da Europa? Que nos interessa se François Hollande é a reencarnação de Dom Juan? Qual vai ser o limite para a polícia dos costumes nesta Europa tão liberal e democrática?


 


Tudo se comenta e expõe, desde as preferências sexuais aos hábitos tabágicos e alcoólicos, metendo tudo num saco em que a imagem das virtudes públicas  e a obrigação das virtudes privadas se impõe como modelo. A ditadura dos comportamentos, em que a vigilância mediática se empenha, desde a correcção da linguagem até ao esquadrinhamento dos hábitos gastronómicos, especialmente os de ingestão alcoólica, encontrou agora outra causa célebre – a proibição das praxes. A propósito de uma tragédia que ainda ninguém sabe exactamente como aconteceu, pede-se já o fecho da Universidade Lusófona com a punição dos responsáveis.


 


Uma vez mais sou, e sempre fui, contra as praxes. Acho ridículos os trajes académicos, que fingem uma tradição que não têm, acho disparatados os rituais, falta-me a paciência e o entendimento para aquela forma de iniciação de grupo, para aquela capacidade de pertença e de dependência total. Não compreendo estas entregas como não as compreendo nas claques de futebol, nas associações fundamentalistas de defesa dos animais, nos grupos que decidem apenas ingerir coisas cruas, e tantos outros. Mas isso não justifica a proibição da existência desse tipo de grupos, a não ser que pratiquem qualquer tipo de actos criminosos.


 


Que os responsáveis pela prática destes actos criminosos sejam punidos, que os dirigentes das universidades que aceitam que se cometam actos criminosos perpetrados por associações em seu nome, sejam responsabilizadas, é urgente. Mas convém que não caiamos na sanha persecutória e pirómana de queimar na santa inquisição tudo e todos os que defendem e praticam rituais de iniciação, mesmo que, para nós, eles sejam disparatados e ridículos, desde que sejam livremente aceites e não sejam crimes.


 

Um dia como os outros (137)

 



uma das coisas mais difíceis em crescer -- envelhecer talvez seja a expressão correcta -- é aprender que não sabemos o que sentimos. ou, melhor, que sentimos hoje uma coisa e amanhã outra e que qualquer delas é ou pode ser verdade. (...)


 


(...) mais: achamos que esquecemos e afinal não. ou que não e afinal sim. achamos que não queremos saber e afinal queremos. achamos que não desejamos e afinal. achamos que vamos dormir bem e dormimos mal ou não dormimos de todo. achamos que estávamos preparados e afinal não estávamos. que não ia doer e afinal doeu - ou ao contrário. achamos tanta coisa e enganamo-nos em tanta coisa. como podemos confiar em alguém se nós próprios não somos de confiança? (...)


 


Fernanda Câncio

25 janeiro 2014

O estado da Nação

 


 



 


Aximage - 25/01/2014


 


 

Jogos palacianos

 


Por muito que nos pareça incrível, a coligação PSD/CDS prepara-se para ganhar as próximas eleições legislativas. A premonição do desastre é tão grande, que Ferro Rodrigues já declara que SE o PS vencer CLARAMENTE as europeias, deverá pedir eleições antecipadas. SE... CLARAMENTE...


 


Todos já demonstram a maravilha que foi esta política, a redenção da economia e a credibilidade de Portugal face aos Mercados, às agências financeiras, à Europa, ao FMI. Com a direita no poder, o caminho da revolução consolidou-se e o governo pode continuar a delapidar o estado, destruindo os serviços públicos de saúde e educação, reduzindo as forças armadas a um grupo de soldadinhos de chumbo, transformando a segurança social na esmola para os desvalidos, rumo a um admirável mundo novo.


 


Sendo assim podem perfilar-se os candidatos presidenciais. E é tal a pesporrência que já descartaram um dos candidatos mais mediáticos. O mais interessante é que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa só estava à espera de encontrar um bom motivo para não ser candidato. Quanto a mim, lá no fundo Marcelo Rebelo de Sousa é capaz de suspeitar de que o povo, que tanto gosta de o ouvir e das suas brilhantes e divertidas prédicas dominicais, o olha como uma espécie de bobo da corte, negando-lhe as qualidades de postura e isenção consideradas importantes na Presidência da República. Marcelo Rebelo de Sousa é imprevisível e, depois, deixava de poder dar notas aos políticos, de comentar a bola, os concursos juvenis ou as vitórias do ténis, para além do despachar de livros à desfilada.


 


Por tudo isto nunca pensei que Marcelo Rebelo de Sousa fosse candidato a Belém. Será que Passos Coelho, mesmo sem querer, lhe fez um favor?


 


Mas outra questão se levanta - quem será o próximo candidato da direita? E da esquerda? Também nisso António José Seguro não tem opinião.


 

Das ofertas recebidas (3)

 



 



 


 


Este Natal cinéfilo continuou-se com a série de televisão da HBO - The Nº 1 Ladies Detective Agency - que, infelizmente, se ficou pela primeira série. O ritmo, as cores, o sentido de humor e a sensibilidade impregnadas estão de acordo com as histórias de Alexander McCall Smith. Esta série ganhou inúmeros prémios, não se percebendo a razão de não ter continuado. São 6 episódios deliciosos.


 


A protagonista Mma Ramotswe (Jill Scott) está perfeita. Mas a caracterização e interpretação que mais me maravilharam foi a de Mma Makutsi, encarnada por Anika Noni Rose. A dicção lenta e as legendas em inglês facilitam a compreensão e compensam a falta de legendas em português.


 


Uma oferta excelente e aconchegante para estes dias invernosos.


 


 


 

Sister - Miss Celie's blues

 


 



 Tata Vega


 


 



 Molly Johnson


 


 



 Chaka Khan


 


Sister, you've been on my mind
Sister, we're two of a kind
So, sister, I'm keepin' my eye on you.

I betcha think I don't know nothin'
But singin' the blues, oh, sister,


Have I got news for you, I'm something,
I hope you think that you're something too

Scufflin', I been up that lonesome road
And I seen alot of suns going down
Oh, but trust me,
No-o low life's gonna run me around.

So let me tell you something Sister,
Remember your name, No twister
Gonna steal your stuff away, my sister,
We sho' ain't got a whole lot of time,
So-o-o shake your shimmy Sister,
'Cause honey the 'shug' is feelin' fine.


 


Quincy Jones


 

Das múltiplas tragédias

 


Todos temos necessidade de encontrar justificações para as tragédias. Podemos culpar os deuses, a natureza, ou a incapacidade humana, seja ela de que tipo for, mas é-nos quase impossível aceitar o acaso ou o fortuito, o imprevisível, ou o previsível mas imparável, como a morte. Por isso é perfeitamente compreensível que as famílias dos jovens que morreram se questionem e exijam respostas, na tentativa de tentar compreender o incompreensível – a morte súbita, violenta e prematura de 6 jovens universitários. Como também é compreensível a tentativa da família do único sobrevivente em protege-lo e em preservar o mais possível a sua privacidade e recuperação.


 


Não consigo imaginar a dor e a revoltas das famílias dos que morreram, como não consigo imaginar a dor e os sentimentos de culpa do sobrevivente, tenha ou não tido responsabilidade na tragédia. Por isso tudo me arrepiam as notícias, as especulações e os julgamentos na praça pública que se estão a fazer em relação a tudo o que aconteceu. A comunicação social vai mantendo à tona o assunto, dando notícias a conta-gotas, de forma a alimentar na opinião pública a revolta e a condenação do sobrevivente, no pressuposto de que terá obrigado a qualquer coisa que tenha levado os colegas a afogarem-se. Não sei é verdade ou mentira, mas ninguém sabe e, no entanto, as opiniões chovem e as declarações multiplicam-se, com os familiares da vítima a serem arrastados a alimentar o festival.


 


Sou e sempre fui totalmente contra as praxes académicas, ou outras. Algumas das coisas a que chamam praxes não são mais do que actos de vandalismo e de violência que deveriam ser tratados como tal. É possível que tenha havida horríveis praxes, mas convém não especular, sem factos e sem provas, que terá sido esses actos que levaram à morte dos jovens. E é exactamente isso que todos, de uma forma mais ou menos velada, dizem.


 


Os familiares das vítimas têm direito a saber a verdade, o sobrevivente tem direito a ser respeitado, ouvido e, se for caso disso, julgado e condenado, mas em tribunais e por juízes, não nos jornais e nas televisões, sem direito a qualquer defesa, tal como tem direito a recuperar e a ser tratado do trauma provavelmente permanente que sofreu.


 


Podia ser qualquer um de nós nesta situação ou, pior ainda, qualquer dos nossos filhos. Convém que não tornemos a situação ainda mais horrível do que ela já é.


 

18 janeiro 2014

Dos pseudomoralismos ditatoriais

 


A aprovação parlamentar da proposta de referendo para a adopção e co-adopção de crianças por casais homossexuais é mais um passo na escalada do populismo pseudo moralista e ditatorial da direita que nos governa.


 


A vergonha maior, e o mais dramático, é que nem sequer será porque a maioria dos deputados assim pensa, mas porque o oportunismo político e a falta de coluna vertebral de muitos permite que se subvertam desta forma os valores democráticos e se implementem os costumes como o referencial do que é lei e do que se permite em sociedade.


 


Como em poucos anos se consegue destruir o que tantos anos demorou a construir. Disso esta maioria se pode gabar. E disso são responsáveis todos os que, por omissão, se não indignaram. Felizmente ainda há algumas almas que preferem o compromisso de consciência.


 

13 janeiro 2014

Aulas de Cozinha

 



 


 


É verdade, em resposta a um desafio de uma amiga e colega, autora de um livro sobre licores - Licores de Portugal (1880 - 1980) e organizadora de uma exposição no Centro de Artes Culinárias precisamente sobre licores - O Espírito dos Licores. Arte e Tradição, no próximo Domingo, dia 19, lá estarei para mostrar como se faz, na prática o licor de tangerina.


 


Para quem tiver muita curiosidade e estiver cheio de vontade de iniciar uma produção caseira apareça que eu, desde os tempos iniciais de grande labuta pré natalícia em busca de um sabor que se assemelhasse ao do licor que a minha avó fazia, já consigo produzir um licor que não será exactamente igual, mas não está longe.


 


Arrisquem-se! Caso não se interessem pelo labor licoreiro, há sempre a exposição, que vale muito a pena.


 


Nota: se a minha avó ainda cá estivesse, não caberia em si de espanto - eu, a dar lições de culinária... nunca visto! As voltas que a vida dá.


 

09 janeiro 2014

Al Pantalone

  


Este é (mais) um espectáculo a não perder.


 



de Mário Botequilha


pelo Teatro Meridional


Estreia amanhã, 10 de Janeiro, às 21:30


Em cartaz de 10 a 26 de Janeiro


Quarta a Sábado - 21:30


Domingo - 16:00


 

05 janeiro 2014

Dos problemas de comunicação

 


A arte de manipular informação é praticada diariamente. Agora até as aspas já deixaram de significar citação, a não ser que seja iliteracia. Não sei o que será pior.


 


Nuno Melo dá uma entrevista ao  i  em que, entre outras afirmações, como as que defendem que a nacionalidade portuguesa na Presidência da Comissão Europeia é importante e que Durão Barroso foi importante para Portugal, o que eu nem sequer comento, disse, em resposta à pergunta sobre o corte de pensões:


 


 


Nuno Melo. "O Tribunal Constitucional é um problema para Portugal" 


 


(...)


Como vê o anúncio pelo governo de mais cortes nas pensões? 


 


O que lhe digo é que concordo com o discurso do Presidente da República no ponto em que diz que 2014 será um ano muito importante para a consolidação do país. A opção de aumentar impostos já está no limite e muito acima do desejável. Quando o Tribunal Constitucional diz que o governo não pode cortar na despesa, não apenas com base numa avaliação jurídica porque também com base em questões políticas, inviabiliza um caminho e Portugal tem nisso um problema. Respeito as decisões do Constitucional mas faço também um juízo político sobre elas. (..)


 


É claro que Nuno Melo ataca o Tribunal Constitucional mas não disse o que está entre aspas no título da notícia. Isabel Tavares, em vez de deixar aos leitores a interpretação das subtilezas da linguagem política, resolve colocar na boca de Nuno Melo o que, na sua opinião, ele queria dizer.


 


É a informação a que temos direito.


 

Eusébio

 


 


 


Eusébio


25/01/1942  — 05/01/2014


 


 Eusébio, para além de um excelente jogador de futebol, foi um embaixador de Portugal, tal como o é Figo ou Cristiano Ronaldo, numa época em que as máquinas de construir imagens e de publicitar pessoas e eventos não tinham a sofisticação de hoje. Merece o nosso respeito, mas não o festival a que se está a assistir. Não é surpresa, mas é triste.


 


Nota: a foto é do Público.


 

E se para o ano...

 


 



Orquestra Metropolitana de Lisboa


 


... o Conserto de Ano Novo no CCB fosse diferente? E se, em vez de valsas de Strauss e outras peças do reportório habitual, embora maravilhosas, a orquestra Metropolitana de Lisboa fosse desafiada a tocar músicas portuguesas? Adaptações de Carlos Paredes, José Afonso, Amália Rodrigues, Rodrigo Leão, Pedro Burmester, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Manuel d'Oliveira, Pedro Jóia, Fausto, José Mário Branco, António Pinho Vargas, sei lá, tantos e tantos outros, de Sérgio Godinho a Manuela Azevedo, de Ana Moura aos Dead Combo, de Pedro Osório a Márcia, tantos são os excelentes compositores e intérpretes que temos.


 


E porque não o Concerto de Ano Novo ser uma festa de música portuguesa, engalanada e festiva, orgulhosa e patriótica, europeus, sim, mas portugueses, com uma riqueza rítmica que não se esgota no passado.


 


E que tal pensar nisso? Não há artistas portugueses para proporem alternativas de grande qualidade às maravilhosas valsas de Strauss?


 



 

04 janeiro 2014

Das ofertas recebidas (2)

 



 


Foyle's War, a 7ª série. foi outro dos presentes cinéfilos que recebi este ano.


 


Depois do fim da 2ª Guerra Mundial, Christopher Foyle é recrutado para os serviços secretos britânicos, no início da Guerra Fria, misturando-se as histórias de espionagem e contra-espionagem com os problemas de uma Inglaterra em grande crise, na época dos racionamentos e da reconstrução das cidades e das vidas dos cidadãos. Toda a envolvente de quem regressou da guerra, com feridas mais ou menos visíveis, de quem permaneceu na rectaguarda e sofreu os rigores e os horrores das populações civis, até ao mergulho na vida quotidiana que, apesar de tudo, continuou e continua.


 


Sam casou com um político, candidato a deputado pelo Labour e acaba a trabalhar para Foyle, tal como em Hastings. O mesmo rigor britânico e as mesmas histórias fantasticamente imaginadas por Anthony Horowitz.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...