Todos temos necessidade de encontrar justificações para as tragédias. Podemos culpar os deuses, a natureza, ou a incapacidade humana, seja ela de que tipo for, mas é-nos quase impossível aceitar o acaso ou o fortuito, o imprevisível, ou o previsível mas imparável, como a morte. Por isso é perfeitamente compreensível que as famílias dos jovens que morreram se questionem e exijam respostas, na tentativa de tentar compreender o incompreensível – a morte súbita, violenta e prematura de 6 jovens universitários. Como também é compreensível a tentativa da família do único sobrevivente em protege-lo e em preservar o mais possível a sua privacidade e recuperação.
Não consigo imaginar a dor e a revoltas das famílias dos que morreram, como não consigo imaginar a dor e os sentimentos de culpa do sobrevivente, tenha ou não tido responsabilidade na tragédia. Por isso tudo me arrepiam as notícias, as especulações e os julgamentos na praça pública que se estão a fazer em relação a tudo o que aconteceu. A comunicação social vai mantendo à tona o assunto, dando notícias a conta-gotas, de forma a alimentar na opinião pública a revolta e a condenação do sobrevivente, no pressuposto de que terá obrigado a qualquer coisa que tenha levado os colegas a afogarem-se. Não sei é verdade ou mentira, mas ninguém sabe e, no entanto, as opiniões chovem e as declarações multiplicam-se, com os familiares da vítima a serem arrastados a alimentar o festival.
Sou e sempre fui totalmente contra as praxes académicas, ou outras. Algumas das coisas a que chamam praxes não são mais do que actos de vandalismo e de violência que deveriam ser tratados como tal. É possível que tenha havida horríveis praxes, mas convém não especular, sem factos e sem provas, que terá sido esses actos que levaram à morte dos jovens. E é exactamente isso que todos, de uma forma mais ou menos velada, dizem.
Os familiares das vítimas têm direito a saber a verdade, o sobrevivente tem direito a ser respeitado, ouvido e, se for caso disso, julgado e condenado, mas em tribunais e por juízes, não nos jornais e nas televisões, sem direito a qualquer defesa, tal como tem direito a recuperar e a ser tratado do trauma provavelmente permanente que sofreu.
Podia ser qualquer um de nós nesta situação ou, pior ainda, qualquer dos nossos filhos. Convém que não tornemos a situação ainda mais horrível do que ela já é.
Este post condensa o cerne dos tópicos de uma reflexão sobre a Tragédia do Meco.
ResponderEliminarMais uma vez estamos a assistir a um "julgamento na praça pública", substituindo os Tribunais.
Chegou o momento de dizer:
"Basta de Praxes Académicas".
- que as Associações de Estudantes optem pela Dignidade e rejeitem a Humilhação.
- que os lideres estudantis das Crises Académicas de 62 e 69 denunciem o conservadorismo latente nas Praxes Académicas.
- que os Reitores das Universidades corajosamente optem pelos valores da Dignidade.
- que os Senhores Deputados, decidam aperfeiçoar a Legislação, que não cobre, na totalidade, a perversidade da Praxe Académica.
Saúdo a Autora do post e aplaudo os termos da abordagem do tema.
Boa Tarde de Sábado.
Bom Domingo.
ACÁCIO LIMA
É tudo, apenas, uma questão de sensatez, que parece não existir.
ResponderEliminarA comunicação social (alguma) explora a dor das famílias, a curiosidade e a maledicência deste país. Assegura-se que existem provas que nunca aparecem e, mais tarde, diz-se que se queria dizer outra coisa.
Este povo, eu incluído, adora dizer mal, julgar e condenar sem provas...