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25 novembro 2012

Por onde

 



The Bad Little Christmas Tree


Tim Noble


Sue Webster


 


Por onde ando por onde penso que me retiro e me recolho


por onde o tempo que me assenta como chuva


neste inverno que não passa nem desmente a casa que esfria


por onde ando nos passeios destemidos que já secaram


por onde o tempo das verdades que nem olhos rasos


por quanto se somam os dedos que trituram esperanças


por quanto ainda por quanto sabemos que não mais será


que não mais serei eu e tu e nós e todos inocentes


de luz e desta sombra que se estende sem coerentemente


aniquilar quanto e onde ainda somos.


 

13 agosto 2012

Lava

 



 


 


Sabemos das verdades que incomodam


mesmo sem consciência.


Impõem-se com uma perna amputada.


Podemos revolver a carne da alma


soterrar o fel e a lama


que elas permanecem


como a lava de um vulcão adormecido.


 

06 agosto 2012

Não pessoa

 



Paula Rego 


 


Ser uma boa pessoa usada


amantíssima da existência


cumprir as tarefas da sobrevivência.


Bastar-se com a dormência


do dia a dia ocupar-se


ser uma boa pessoa.


Ser uma não pessoa.


 

Sobressalto

 



Cai Guo-Qiang


 


Até na morte procuramos o que não somos


mas quereríamos ter sido.


Incessantemente tentamos a originalidade


um sentido um qualquer desígnio que nos afaste da mole idêntica


normalizada trivialidade.


Até na morte desejamos ser únicos.


 


Talvez assim todos os dias que a vida nos traz


sempre iguais e sem qualquer fulgor


possam produzir um simulacro um travessão


um pequeno sobressalto na massa do tempo.


 


 

05 agosto 2012

Chama

 



Chris Uyehara & Stan Kolonko


 


Tudo já foi dito como os dias que sucedem


às horas que desmontam aos minutos que desgastam


tudo foi vivido como os corpos que se despem


as penumbras que afastam os desenhos que afagam


tudo mesmo tudo mesmo a misteriosa inflexão na voz que nos chama


mesmo a súbita chama


mesmo a fugaz e inútil chama.


 

15 julho 2012

Tempo

 



Manfred Kielnhofer: Time Guardians


 


1.


De súbito encolheu-se o tempo esvaziado


Em que a falta do corpo pesa na alma.


 


2.


Não encontro o papel


em que escrevi o infinito que me esperava.


À minha volta descansam apenas


as sombras do que já fui.


 


3.


Junto ao mar


o tempo passa com o langor das ondas


lento e insaciável.


 

03 julho 2012

Mato

 



T.A.G: The room


 


 


O que foi que nos atrasou neste tempo


de searas verdes de vinhas cansadas de mato em sangue?


O que foi que nos leram em infâncias


relembradas nos vagarosos lumes de anteriores Outonos?


Nem sempre os lamentos nos consolam


nem as rugas se prestam ao lento remar da melancolia.


 

30 junho 2012

Estratos

 


 


Amy Casey: Cloud 


 


1.


Empilhei as gavetas da minha existência secreta e muda


laboriosamente resguardada das feridas que continuamente


reabro numa sondagem incessante de rectas perigosamente


curvadas entre as costas dobradas curiosamente revoltas


novelos de ideias obsessivamente inúteis.


 


 


2.


Estratos basais e banais


flores do acaso


sem mais.


 


 


3.


Nada como o intenso azul que mergulha entre as árvores


o imenso marulhar do silêncio entre as mãos


que descansam na tua pele.


 


 


4.


Ainda não aprendemos as palavras despidas


a aridez dos ossos que despontam nos areais das cidades


ainda não crescemos em distância


armados de braços desiguais


usando a cobardia do conforto


por entre a movediça capacidade de moldagem


e flacidez.



03 junho 2012

Limiar

 




 


1.


Poucas as vezes em que a chamada nos encontra


de voz em concha de dedos em antena, num frémito de desejo


que se apronta. Por nós ou pelos outros poucas as vezes


que então se medem, em nomes que nos moldem e amortalhem.


 


 


2.


À porta de um outro tempo no limiar das decisões


inadiáveis, sopro com decoro a urgência que as palavras


me ditaram, entre cumes de sentidos que arrumo


mais além. Já cobrimos a nudez de tanta ferida


que servimos em silêncio a indiferença.


 

06 abril 2012

Paixão

 



Salvador Dali


 


Fria manhã de Primavera


no canto em que me encosto


no canto em que afundo


breves e secas sílabas partem cristais de gelo


derreto a espera em que me encontro


nesta fria paz de manto negro.


 

10 março 2012

Hienas

 



Ayuna Collins


 


 


Fatias de irreprimível despeito


em fartas espécies de tremente carne


olhos que afastam interrogações


fatias de irreprimível bocejo


entrelaçados dedos em pinça.


 


Pudesse eu desformar essa sentença


esse elástico sorriso de hienas.


 

12 fevereiro 2012

Inutilidades

 


 


 


A inutilidade do automatismo de almas e corpos


inúteis porque iguais a todas as partículas universais


movimentando-se caoticamente governadas por leis invisíveis


que exaltam eternamente a inutilidade filosófica do pensamento.


 

28 janeiro 2012

Figura

 


 


Ebon Heath: visual poetry


 


 


Enquanto te espero para me adulares


vou adoçando estrias contornando a lápis a figura


sombreando curvas retificando gumes


pequenos rigores de alma que despontam


entre o amor que quero e o amor que permito.


 

Flores

 



Ebon Heath: visual poetry


 


Vou criando flores que só a mim mostram cor e textura


vou criando flores que apenas os meus sentidos perfumam.


Se não forem os meus olhos que as flores observam


se não forem os meus dedos que as flores tocam


desfazem fragmentos de vazio pétalas de fascínio


pela ausência da entrega.


Vou criando formas que só a mim iludem e prendem


numa translúcida nuvem de ternura.


 

20 janeiro 2012

Máscara


Ebon Heath: visual poetry


 


Pedes-me frases despidas de conceitos e artefactos


desenhos retos de uma linguagem figurada


entre o indecoro da lassidão e a experiência do tempo


pedes-me alma sem o alçapão da memória


corpo sem rasura nem mácula.


 


Aceno em sinal afirmativo sabendo que o momento


da entrega terá a evidente máscara


confidente e confiante da ternura.

18 janeiro 2012

Perplexidade

 



Ebon Heath: visual poetry


 


Posso guardar os olhos recusando a luz


posso desligar os ruídos ignorando o eco


posso incendiar os dedos rejeitando o toque


que nenhum sentido da inevitável inação


negará a dimensão desta imensa perplexidade.


 

17 janeiro 2012

Da poesia nua

 



Ebon Heath: Visual Poetry


 


 


 


Retiro adereços às palavras descarno sons e intenções


uso pinças e dentes sem delicadeza nem pudor


escancaro nervos e vozes mesmo as murmuradas.


 


Cruentos os versos que espirram nomes e solidão


nas paredes decalcados os olhos e a nudez


deste meu amor por tudo que de nada se desfez.


 

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