Quem tornou possível o livro:
Carlos Lopes - Edita-Me
e quem o fez brilhar:
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
E ao terceiro livro fez-se "pedra". O ciclo de pedra não é o da oculta filosofia: Água, Terra, Fogo e Ar. Nem tão pouco dos humores da medicina aiurvédica: vento, fogo e terra.
Da luz e da sombra, para utilizar expressões dos dois primeiros livros de poesia de Maria Sofia Magalhães somos transportados para a "pedra".
E permitam-me uma interpretação: a pedra é o suporte onde as nossas vidas deixam um sulco gravado. Voluntário umas vezes, involuntário outras. Tal como a natureza ao longo de milhões de anos, pela água, pelo ferro, pelo magnésio, deixa registados nas pedras, riscos, cores e formas - as "scenic stones" - também a vida deixa registos, sulcos, cores e formas. O "ciclo da pedra" é o mapa sem destino que o escritor diariamente percorre (Mapa).
Ao terceiro livro a pedra é um Mapa. Um mapa em permanente elaboração. Mas ao terceiro livro estão lá dentro os dois anteriores. Essa luz que está dentro de nós e se esconde na procura (É quase noite) e causa a sombra que passa (Da sombra que passa) é, no fundo, a mesma que nos faz renascer todos os dias (Entardecer).
Porque se dia a dia nascemos, dia a dia esmorecemos, sem perceber que o último acto para morrer é viver. E quem desenha o mapa da nossa vida? O curso do acaso (Desluzido). A estrada que não acaba (Só agora). As tardes de chumbo e as noites entretidas de nada (Inevitável). As auroras de espuma que nos guiam para além dos deuses (Ondas). O voo rasante do pardal que sacode o medo (Sigo). O inevitável amanhã (Insónia). A asa do pássaro que inicia a viagem (Abstracção).
Ao terceiro livro a pedra é a História. Porque não há História Universal. Há apenas a História que as correntes individuais somam e reproduzem (Ciclos Perpétuos).
Ao terceiro livro a pedra é o Silêncio. Quando as palavras faltam fica o impalpável silêncio (Impalpável). O silêncio que se respira, imenso, sem fim (Silêncio). O silêncio que pesa pela ausência (Solidão). O silêncio que arranha (Vozes). O silêncio que está nas palavras mais saborosas (Dizemos).
Ao terceiro livro a pedra é o Amor. O amor que nos redime. Pelo infinito abraço (Dúvida). O que sabe atar as mãos e mantê-las apertadas (Enquanto). O que se descobre entre longos abraços de saudade (Na casa crua). O que ajuda a descobrir o muito que nos falta procurar (Juntos). O que se traduz em palavras plenas de mansidão (Mansidão). O que sobraria do espaço onde poisasse o resto da alma que resistisse (Nunca me faltaria). Pelo amor renascemos (Entardecer). Porque deveríamos olhar mais para a lua que o chão (Olhar).
E ao terceiro livro a pedra é a Liberdade. A liberdade que ordena mais que o calendário (Começo pelo trabalho). A liberdade que arrasta a poeira que todos os dias tolda, que sacode os ombros que todos os dias pesam, que respira o ar que todos os dias falta. A liberdade, enfim, que marca encontro para o próximo dia (Poeira).
Esticamos os ramos
abraçamos os dias
esquecemo-nos que o tempo não existe
apenas o ar a terra o fogo a água
apenas a metamorfose da terra
dos rios da luz dos pássaros
apenas a transformação da dor num tecido firme
branco imóvel
na pedra.
Rompemos as redes as linhas
traçamos limites arestas esquinas
arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos
na confusão dos sentidos hiper-estimulados.
Abrimos os poros
somamos enzimas
degradamos a vida
depuramos a morte.
Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos
erguem-se as fontes da rigidez suprema
o vazio
o abandono.
Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.
Quem são?
Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados
dos cristais de pureza guardados lá dentro.
Nem sempre descobrimos
a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.
Nem sempre queremos a ferida o sangue
estilete que aguarda a pele desnuda.
No fim
se ele existe
segue a erosão permanente
nas costas nas mãos nas dobras da vida
na concha na pérola.
Areias mais grossas areias finíssimas
povoam as praias povoam os ventos.
Somos nós que descremos na posse na carne
sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos
que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.
com apresentação de Ricardo Leite Pinto;
colaboração de Manuel d'Oliveira (guitarra) e de Maria Celeste Pereira (leitura de poemas).
Nunca saímos da fotografia, congelados pelas lentes de raios invertidos, bocas abertas, cabelos em ginástica de vento, parados os dedos no acariciar das mãos. Nunca saímos da fotografia pois olhamos o tempo que não conseguimos recordar, mais pálidos e esvaídos agora do que esbatidos no preto e branco do que passou.
Nem as árvores de lá dão frutos, nem os frutos de cá sementes. Tudo parado por uma teia sem fim que ninguém teceu.
arranquei e juntei e cavei buracos
individuais indefesos numa cerca levantada
em muro.
Rodeiam-me as sombras geladas das raízes sem vida
com que fui ganhando a minha própria
inexistência.
regresso sem querer às palavras
como agudas pedras de gelo.
À volta das palavras
regresso sem querer ao silêncio
como espuma desfeita entre dedos.
De volta ao silêncio
regresso à espuma das palavras
entre os dedos pedras desfeitas.
que desenredassem labirintos
circulares, caminhos escarpados.
Desapareceram, não nos bicos dos pássaros
mas nas profundas asas do tempo.
Edward Hopper
Morning Sun
Nestes dias em que a pacatez do sol atrasa
espreguiçando pelo primeiro café
chego a uma realidade de sonhos invisíveis
silenciosos estupidamente proibidos
que saboreio demoradamente
na quietude matinal.
pedra de sangue ShouShan: Red Cliff
dinastia Qing
1644-1911
Não foi a água que mudou o vinho, mas o vinho que mudou o copo, de verde para vermelho, bem grosso e escuro, um líquido mastigável e quase assustador. Não foi bem a calçada que se moveu mas os ossos que se estreitaram e somaram estilhaços no meio da aridez fiel e descampada do seu corpo.
Despiu definitivamente o pudor e transformou o vinho em sangue.
Loel Barr: Waiting for the world
Nasce um dia brilhante filho de dias de chumbo
há poucas crianças para correr.
Olho os campos de flores vadias
crescem porque são flores e porque são vadias.
Saboreio a antecipação das pétalas
mas não me movo – metáfora quase sagrada
do que somos e do que desejamos.
Entre a luz que vemos a realidade dessa luz podem passar milhões de anos-luz. Mas a luz que vemos não é menos real. Apenas nos aparece com uma constância inversamente proporcional à distância que as separa.
Entre a vida que temos e a que conhecemos, em nós e naqueles que abraçamos, há tantas vidas como segundos de vida, tantos abraços como partículas de luz. Apenas nos sabe ao gosto de uma parcela de felicidade.
O que nos destrói o sentido da luz
são as pedras que se entranham entre as nuvens
por onde vislumbramos a dor de não chegar.
São os olhos dizem eles de sonhos em cruz
enredos de memórias e fundas rugas
são eles dizemos nós.
Todos de partida para invernos de palavras
todos de chegada a nenhum lugar
náufragos sem terra.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...