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13 novembro 2010

O lapidar da Pedra

 


Quem tornou possível o livro:


 



Carlos Lopes - Edita-Me


 


 


e quem o fez brilhar:


 



Tiago Taron


 



Maria Celeste Pereira


 



 Manuel D'Oliveira


 

Outra explicação da Pedra

 



 


E ao terceiro livro fez-se "pedra". O ciclo de pedra não é o da oculta filosofia: Água, Terra, Fogo e Ar. Nem tão pouco dos humores da medicina aiurvédica: vento, fogo e terra.


 


Da luz e da sombra, para utilizar expressões dos dois primeiros livros de poesia de Maria Sofia Magalhães somos transportados para a "pedra".


 


E permitam-me uma interpretação: a pedra é o suporte onde as nossas vidas deixam um sulco gravado. Voluntário umas vezes, involuntário outras. Tal como a natureza ao longo de milhões de anos, pela água, pelo ferro, pelo magnésio, deixa registados nas pedras, riscos, cores e formas - as "scenic stones" - também a vida deixa registos, sulcos, cores e formas. O "ciclo da pedra" é o mapa sem destino que o escritor diariamente percorre (Mapa).


 


Ao terceiro livro a pedra é um Mapa. Um mapa em permanente elaboração. Mas ao terceiro livro estão lá dentro os dois anteriores. Essa luz que está dentro de nós e se esconde na procura (É quase noite) e causa a sombra que passa (Da sombra que passa) é, no fundo, a mesma que nos faz renascer todos os dias (Entardecer).


 


Porque se dia a dia nascemos, dia a dia esmorecemos, sem perceber que o último acto para morrer é viver. E quem desenha o mapa da nossa vida? O curso do acaso (Desluzido). A estrada que não acaba (Só agora). As tardes de chumbo e as noites entretidas de nada (Inevitável). As auroras de espuma que nos guiam para além dos deuses (Ondas). O voo rasante do pardal que sacode o medo (Sigo). O inevitável amanhã (Insónia). A asa do pássaro que inicia a viagem (Abstracção).


 


Ao terceiro livro a pedra é a História. Porque não há História Universal. Há apenas a História que as correntes individuais somam e reproduzem (Ciclos Perpétuos).


 


Ao terceiro livro a pedra é o Silêncio. Quando as palavras faltam fica o impalpável silêncio (Impalpável). O silêncio que se respira, imenso, sem fim (Silêncio). O silêncio que pesa pela ausência (Solidão). O silêncio que arranha (Vozes). O silêncio que está nas palavras mais saborosas (Dizemos).


 


Ao terceiro livro a pedra é o Amor. O amor que nos redime. Pelo infinito abraço (Dúvida). O que sabe atar as mãos e mantê-las apertadas (Enquanto). O que se descobre entre longos abraços de saudade (Na casa crua). O que ajuda a descobrir o muito que nos falta procurar (Juntos). O que se traduz em palavras plenas de mansidão (Mansidão). O que sobraria do espaço onde poisasse o resto da alma que resistisse (Nunca me faltaria). Pelo amor renascemos (Entardecer). Porque deveríamos olhar mais para a lua que o chão (Olhar).


 


E ao terceiro livro a pedra é a Liberdade. A liberdade que ordena mais que o calendário (Começo pelo trabalho). A liberdade que arrasta a poeira que todos os dias tolda, que sacode os ombros que todos os dias pesam, que respira o ar que todos os dias falta. A liberdade, enfim, que marca encontro para o próximo dia (Poeira).


 


Ricardo Leite Pinto


 

O Mapa da Pedra

 



 


A quem esteve, presente ou ausente, a quem gostaria de ter estado, a quem anunciou e divulgou o Ciclo da Pedra, o meu muito obrigada.


 

Explicação da Pedra


 


 


Esticamos os ramos


abraçamos os dias


esquecemo-nos que o tempo não existe


apenas o ar a terra o fogo a água


apenas a metamorfose da terra


dos rios da luz dos pássaros


apenas a transformação da dor num tecido firme


branco imóvel


na pedra.


 


Rompemos as redes as linhas


traçamos limites arestas esquinas


arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos


na confusão dos sentidos hiper-estimulados.


Abrimos os poros


somamos enzimas


degradamos a vida


depuramos a morte.


 


Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos


erguem-se as fontes da rigidez suprema


o vazio


o abandono.


Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.


Quem são?


 


Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados


dos cristais de pureza guardados lá dentro.


Nem sempre descobrimos


a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.


Nem sempre queremos a ferida o sangue


estilete que aguarda a pele desnuda.


 


No fim


se ele existe


segue a erosão permanente


nas costas nas mãos nas dobras da vida


na concha na pérola.


Areias mais grossas areias finíssimas


povoam as praias povoam os ventos.


Somos nós que descremos na posse na carne


sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos


que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.

02 julho 2010

Raios invertidos


Miss Britt


 


Nunca saímos da fotografia, congelados pelas lentes de raios invertidos, bocas abertas, cabelos em ginástica de vento, parados os dedos no acariciar das mãos. Nunca saímos da fotografia pois olhamos o tempo que não conseguimos recordar, mais pálidos e esvaídos agora do que esbatidos no preto e branco do que passou.


 


Nem as árvores de lá dão frutos, nem os frutos de cá sementes. Tudo parado por uma teia sem fim que ninguém teceu.


 

22 junho 2010

Inexistência



Ramos quebrados raízes fundas tudo


arranquei e juntei e cavei buracos


individuais indefesos numa cerca levantada


em muro.


 


Rodeiam-me as sombras geladas das raízes sem vida


com que fui ganhando a minha própria


inexistência.

15 junho 2010

Desfeitas



À volta do silêncio


regresso sem querer às palavras


como agudas pedras de gelo.


 


À volta das palavras


regresso sem querer ao silêncio


como espuma desfeita entre dedos.


 


De volta ao silêncio


regresso à espuma das palavras


entre os dedos pedras desfeitas.

05 junho 2010

Migalhas



Coleccionei pedras como migalhas


que desenredassem labirintos


circulares, caminhos escarpados.


Desapareceram, não nos bicos dos pássaros


mas nas profundas asas do tempo.

Quietude


Edward Hopper
Morning Sun


 


Nestes dias em que a pacatez do sol atrasa


espreguiçando pelo primeiro café


chego a uma realidade de sonhos invisíveis


silenciosos estupidamente proibidos


que saboreio demoradamente


na quietude matinal.

05 maio 2010

Transborda


pedra de sangue ShouShan: Red Cliff


dinastia Qing


1644-1911


 


Não foi a água que mudou o vinho, mas o vinho que mudou o copo, de verde para vermelho, bem grosso e escuro, um líquido mastigável e quase assustador. Não foi bem a calçada que se moveu mas os ossos que se estreitaram e somaram estilhaços no meio da aridez fiel e descampada do seu corpo.


 


Despiu definitivamente o pudor e transformou o vinho em sangue.

25 abril 2010

Do que somos


Loel Barr: Waiting for the world


 


Nasce um dia brilhante filho de dias de chumbo


há poucas crianças para correr.


Olho os campos de flores vadias


crescem porque são flores e porque são vadias.


Saboreio a antecipação das pétalas


mas não me movo – metáfora quase sagrada


do que somos e do que desejamos.

31 março 2010

Anos-luz

 



Entre a luz que vemos a realidade dessa luz podem passar milhões de anos-luz. Mas a luz que vemos não é menos real. Apenas nos aparece com uma constância inversamente proporcional à distância que as separa.


 


Entre a vida que temos e a que conhecemos, em nós e naqueles que abraçamos, há tantas vidas como segundos de vida, tantos abraços como partículas de luz. Apenas nos sabe ao gosto de uma parcela de felicidade.


 

16 março 2010

Irreprimível

 


Nem sei muito bem que dizem as línguas dobradas

os olhos em alvo as mãos decepadas

nem sei muito bem que murmuram os dedos escondidos

entre o vício do costume e a revolta esmorecida

mas sinto este imenso desejo de não ser


este irreprimível cansaço


por ouvir


e  ver.


 

14 março 2010

Dizem eles

 


O que nos destrói o sentido da luz

são as pedras que se entranham entre as nuvens

por onde vislumbramos a dor de não chegar.

São os olhos dizem eles de sonhos em cruz

enredos de memórias e fundas rugas

são eles dizemos nós.

Todos de partida para invernos de palavras

todos de chegada a nenhum lugar

náufragos sem terra.


 

28 fevereiro 2010

Revolta

 


Revolta-se a terra como o corpo

pesado pela força das marés.

Revolta-se o mundo como o sonho

pisado pelo corpo que se nega.

Revolta-se o corpo como a terra

tremores de tempo empedrado

sem rumo sem azul sem espadas

por algas de silêncio amolgado.

27 fevereiro 2010

Chuva

 


Quando olhei já te não vi

cega que estava de chuva e névoa,

quando se instalou a ausência

já nem senti

por dentro das pedras que arrastam

a água do silêncio.


 

07 fevereiro 2010

Mãos

 


As mãos espelham a lucidez

arde nos dedos o vazio das encostas agrestes

dos rios secos nas pedras sinuosas.


 

03 fevereiro 2010

Vozes



Voam vozes e papéis


à porta o silêncio arranha.


Deixem-me dormir na paz das pedras


dos rios sem retorno.

 

Cristalizo

 


Hoje foi mais difícil o mundo

tão pesados os ombros, tão fundo

o olhar que me falta.


 


 


Hoje senti a constante incerteza


magma de enorme dureza

com que desfazemos a vida.


 


 


Hoje regresso ao granito

que o pó de um deus finito

e negligente, cristalizou.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...