30 novembro 2005

Untitled


Às vezes tenho ideias, felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...


(Álvaro de Campos)



Hoje falou-se muito de poesia, de Fernando Pessoa e seus heterónimos, de Mário Cezariny, daquelas coisas que é politicamente correcto e culto falar de vez em quando. Que bom, que bem, Fernando Pessoa era um génio, levou Portugal a todo o mundo, imprimiu a nossa língua, a nossa forma de estar, a dele, mais precisamente, que quando vivia o país desconhecia-o.
Mas os poetas só servem para os líderes encherem o peito e enevoarem os olhos, que isto de sermos um país de poetas até dá jeito, para termos a sensação de que, pelo menos, temos poetas.
Que eles sirvam para mais alguma coisa, isso não, que eles coitados são muito sonhadores, muito dores, muito ores, que até rima, mas não sabem de política, nem de deputados, nem de candidatos, a eles apenas ninguém os cala.
Pobre país o nosso, que se ri dos seus poetas e se enfeita com os seus poemas!

Untitled

Neste caminho apressado
relectem as cores
dos vitrais
a ternura da esperança.
Passos leves
ao teu lado
meu amor,
muito amado.

27 novembro 2005

Untitled

(pintura de Elloy Pereira)
Biografia
Tive amigos que morriam, outros que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz no mar no vento.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

26 novembro 2005

Untitled

Se estou só, quero não star,
Se não stou, quero star só,
Enfim, quero sempre estar
da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

(Fernando Pessoa; pintura de Catarina Castel Branco)

As pessoas mais novas (à volta dos 30 anos), que trabalham comigo, não fazem ideia do que foi o 25 de Novembro. Mas também não fazem ideia do que foi o 25 de Abril, a implantação da República, quem foi John Kennedy, etc. Penso que demonstra bem a que nível chegou o ensino.
Li, algures, que cerca de 60% dos juízes comunicou que estava em greve, tendo por consequência o desconto de um dia no ordenado. Ouvi, posteriormente, um dos representantes dos juízes, explicar que estes não eram obrigados a comunicar a falta, porque não estavam obrigados à assiduidade (?????). Ou seja: ou apenas 60% dos juízes aderiram à greve (e não 95%) ou há 30% de juízes que são... vigaristas: fazem greve e recebem, na mesma, o dia. Qual destas duas hipóteses é verdadeira?
O Papa não quer que sejam ordenados sacerdotes com manifestas tendências homosexuais. Apesar de não perceber a lógica (se os sacerdotes estão obrigados ao celibato, não se entende qual a relevância de serem homo, hetero ou bisexuais), a Igreja Católica tem toda a legitimidade de fazer as suas próprias leis e fazê-las cumprir. Só adere quem quer.
Finalmente, o ministério da educação mandou retirar os crucifixos e outros símbolos católicos que ainda pululam nas nossas escolas. Uma coisa é os frequentadores da escola usarem símbolos religiosos, sejam eles de que religião forem, para o que devem ter toda a liberdade. Mas o Estado é laico, portanto deve abster-se de ostentar símbolos de qualquer religião.
Outra coisa bem diferente é deixar de se falar ou de ensinar factos, lendas e histórias da nossa cultura judaico/cristã, deixar de se comemorar festas que fazem parte do imaginário colectivo, como a Páscoa, o Natal, etc, embora sem o cunho religioso que ainda se lhe dá. A bíblia é património da humanidade, não é só dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos.

24 novembro 2005

Respiro


Respiro.
Convenço-me do ar.
Olho.
Sinto a luz.
Respiro e olho.
O mundo tem cor, nuvens e gritos.
Convence-me, Deus,
De que existo.
(pintura de Graça Morais)
A manipulação da informação, nomeadamente dos dados das sondagens, é triste, venha ela donde venha. Tanto o Público como o DN, nas suas parangonas, induzem uma interpretação fantasiosa e enviesada dos resultados das sondagens, mas a TSF, ao gritar, como é costume, de meia em meia hora, que Cavaco Silva tinha descido para 44%, presta um mau serviço ao país, e ainda mais aos apoiantes dos candidatos de esquerda.
Não sei como explicar o sentimento de espanto e pena ao ler mais um dos posts de Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro, sobre Miguel Cadilhe. Acho que Medeiros Ferreira está doente, com uma doença servil e pegajosa, que transforma os homens em moluscos.
Gostei da entrevista ao Manuel Alegre, no Público.
Gosto dos CDs de Jazz que estão a sair todas as terças-feiras no Público.
Parece que sou accionista do Público!

22 novembro 2005

A noite abre os seus ângulos de lua


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro


A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.

(Sophia de Mello Breyner Andresen; pintura de Bual - Cristo)

Não vi todo o programa "prós e contras". Do pouco que vi, gostei da serenidade da ministra da Educação, da sua seriedade e da capacidade para ouvir estrondosas idiotices ditas pelos representantes dos professores. A ministra só precisa de usar o senso comum e terá Portugal com ela.
Os professores precisam de encontrar outros representantes. Estes só os descredibilizam.
Não gosto de ouvir a campanha de Manuel Alegre perder tempo com acusações de traições, ou a debater quem tinha a preferência do PS. Isso não interessa! Quero ouvir o que pensa o Manuel Alegre sobre a cultura da qualidade e da excelência, sobre a exigência da cidadania responsável, sobre a dignidade e a legalização dos imigrantes, sobre a paz, etc. Não quero ouvir arrufos de comadres. Quero empolgar-me e comover-me, quero sentir que vale a pena ir votar.

20 novembro 2005

Regressada da Invicta

Regressada da Invicta, retomo o ritual domingueiro do "café e jornal". Começa a ser difícil, mesmo para os espíritos mais optimistas, vislumbrar uma luz ao fundo do túnel. Somos completamente inundados por informações e comentários de desgraça, crise e previsões de catástrofe, mesmo por aqueles que consideramos merecedores da nossa atenção.

Ao mesmo tempo, nas páginas da revista, o-ócio-ao-domingo-para-as-esposas, lêm-se anúncios de televisões para as casas de banho.

É óbvio que as notícias, cirurgicamente libertadas, relativamente ao absentismo dos professores e ao número exorbitante de médicos em determinados hospitais, por exemplo, são manobras governamentais para facilitar a adopção de medidas que possam ser sentidas como ataques, por essas classes profissionais. Não é correcto nem ético. As generalizações e a criação de bodes expiatórios são demagógicas e populistas.

Mas como é que é possível que os representantes das mesmas classes profissionais defendam o indefensável? A ministra só divulga o número de faltas mas não divulga o número de presenças nas aulas??? Os médicos não fazem leis e portanto não são responsáveis pelos quadros hospitalares? Quem pede vagas? Quem faz concursos? Quem permite que não se cumpram minimamente os horários? Quem avalia o trabalho (ou a falta dele) de cada profissional?

Somos todos virgens e inocentes.

16 novembro 2005

Somos feitos


(pintura de Amadeu de Souza Cardoso)


Somos feitos de pequenos usos
quotidianos,
gestos que usamos,
desumanos.
Inseguros os medos
que guardamos,
em muros de silêncio,
em segredos,
que em momentos insanos
libertamos,
sem dedos.
Fiquei muito preocupada com a notícia do DN, em como seria criada uma época de avaliação extraordinária para os alunos já retidos num determinado ciclo. Será que é com manobras que pretendem acabar com o insucesso escolar?
Penso que a resposta está em maior exigência a professores e alunos, melhor formação, avaliação de escolas, alunos e professores com exames, maior disciplina e dignificação do estatuto do professor, maior responsabilização e promoção da autonomia dos alunos, mais trabalho a todos os níveis. Qualidade e controle de qualidade.
Não é o que se exige a todos os serviços?

15 novembro 2005

Untitled

Nádia

Em
tépido caudal
de velho rio
me flutuo.

Na cálida praia
nenúfar desaguo
em tua foz

(Poema de José Craveirinha, pintura de Merello)


Vi a maior parte da entrevista da Constança Cunha e Sá ao Cavaco Silva, na TVI. A entrevistadora não facilitou a vida ao entrevistado. Este parecia pouco à vontade na pele de explicador de atitudes passadas e de ambições futuras, no que diz respeito ao papel que a si próprio atribui, caso seja eleito. Um presidente crispado, repetitivo, entre chavões, frases feitas, e sorrisos forçados, sem falar do que pensa sobre o mundo.

É este o presidente que queremos? Por isso é que ele não quer dar entrevistas nem fazer debates.

Por outro lado, o anúncio do controle de qualidade dos livros escolares e o alargamento do intervalo temporal de vigência de cada livro, assim como o fornecimento de livros gráteis para as famílias com dificuldades financeiras, são boas notícias. Parece que o bom senso regressou ao ensino!

E porque é que os professores se opõem com tanta veemência a aulas de substituição de professores que, por qualquer motivo, tiveram que faltar?

O Ministro Correia de Campos anunciou que uma enorme quantidade de funcionários no Hospital de Sta. Maria vão passar a excedentários. É preciso dizer, com toda a frontalidade, que há quadros que estão, neste momento, hiperdimensionados, assim como os há que estão hipodimensionados. Espero que esta medida signifique uma reestruturação a sério.

Sr. Ministro, quando é que, de uma vez por todas, acaba com a promiscuidade entre público e privado? Porque não faz uma revolução inteligente na saúde, transformando os hospitais do estado em empresas, em que os seus trabalhadores não façam concorrência com o próprio estado? Porque não implementa trabalho por turnos, de modo a rentabilizar os blocos, os aparelhos de radiologia, etc? Porque é que não há consultas de especialidades nos centros de saúde?

13 novembro 2005

Olho


Olho, sem perceber,
que o rosto que me olha,
sem me ver,
é o outro lado do espelho
de viver.


(pintura de Tuti Nunes - Brasil)

Outra sondagem

A sondagem da Eurosondagem é muito interessante, em vários pontos.
  • Cavaco Silva vence à primeira volta.
  • Quanto menos candidatos à esquerda, maior a votação em Cavaco Silva
  • É a 1ª sondagem que dá um ligeiro avanço (empate técnico) a Mário Soares
  • Questionou-se sobre a desistência de todos os candidatos de esquerda a favor de Mário Soares
  • Não se questionou sobre a desistência de todos os candidatos de esquerda a favor de Manuel Alegre

Ou seja, continua a ignorar-se olimpicamente a importância da candidatura de Manuel Alegre.

Acho que seria mais honesto, da parte de vários jornalistas e comentadores, declararem, à americana, qual o candidato da sua preferência. Todas as pessoas têm o direito de fazer campanha por quem quiserem, não têm é o direito de manipularem informação.

Por acaso alguém contabilizou os minutos gastos na SIC notícias a "debater" a falta de Manuel Alegre na votação do orçamento?

Concordo em absoluto com o que António Barreto escreveu no seu artigo de opinião publicado no Público de hoje.

Estou curiosíssima por ler o último livro de Maria Filomena Mónica ("Bilhete de Identidade"), que será lançado a 16 de Novembro (5ªfeira), às 18:30h, no Grémio Literário. Gosto muito da sua lucidez humorada na observação e interpretação da nossa sociedade.

11 novembro 2005

Cidade a preto e branco

Cidade a preto e branco,
gotas de chuva fugitivas
nos interstícios das pedras.
Aconchego o cinzento e a tarde.

Passam faróis acesos,
o ruído dos eléctricos e a calçada
escorregadia. Ressoam os saltos
nas pingas frias e luzidias.

Procuro a janela do teu quarto,
anónimo o farol que espreita.
Embalo o afago do beijo.
Desligo a cidade ao entrar.

Sondagens

Mais uma sondagem (www.margensdeerro.blogspot.com) em que Manuel Alegre se posiciona em 2º lugar. Embora ainda falte muito tempo, a campanha ainda agora começou e etc, a verdade é que parece haver uma consistência neste tipo de sondagens.

No entanto, quem ouvir as televisões e os analistas, apenas considera como opositores e com possibilidade de ir a uma 2ª volta, Cavaco Silva e Mário Soares.

Afinal, nem tudo está resolvido. Afinal, o país ainda não desistiu.

10 novembro 2005

Aridez


Aridez

Teu fogo de lábios
por mais apaziguados de beijos
aos meus ósculos mordidos
que seja uma aridez
ateada.

(poema de José Craveirinha, pintura de Roberto Chichorro)


Fala-se muito das opiniões dos candidatos a presidentes, dos seus programas, etc. Mas, dentro dos poderes inseridos no quadro constitucional, que TODOS já disseram aceitar, o que de facto interessa é o carácter da pessoa que vamos eleger. A frontalidade e a capacidade de decisão, a seriedade e a honestidade intelectual, a capacidade de envolver e de nos envolver. Não basta só apelar, é necessário, nalgumas situações, demonstrar agrado ou desagrado. O presidente pode e deve usar os poderes que tem.

Manuel Alegre desperta curiosidade e emoção, sendo o candidato diferente. Mário Soares? Cavaco Silva? Será que estamos tão velhos, gastos e arrumadinhos?

09 novembro 2005

Pactos de regime





Remo de chuva

Enquanto
meu remo de chuvas
fustiga as canoas de água
na contracorrente
do rio...

à tona
meu corpo nu
no próprio cerco à lascívia
vai-se dando
lânguido
à mar-
gem.
(poema de José Craveirinha, pintura de Malangatana - Moçambique)

É extraordinário o modo como se faz política, em Portugal. O que interessa é estar no governo ou na oposição. Ter ideias ou propostas está na medida contrária à posssibilidade e à responsabilidade de as poder pôr em prática.

Isto a propósito do orçamento, do TGV e do aeroporto da OTA. Independentemente do que cada força política possa dizer, tanto o PSD como o PS já foram a favor e contra. A quantidade de acordos, traçados e estudos àcerca do TGV já davam para construir vários TGVs! Como é que agora o PSD chama ao projecto faraónico se há 1 ano queria avançar? Já agora, para que serve um TGV com 4 paragens tão perto umas das outras?

Relativamente ao orçamento, como é possível arranjar as desculpas dos impostos a aumentar e dos projectos "faraónicos" para se votar contra o orçamento? E depois falam em pactos de regime de que eu, por exemplo, discordo totalmente.

Depois fazem-se grandes palestras a propósito do afastamento que os cidadãos têm da política.

E quanto à coinceneração? Eu ainda me lembro de uma comissão científica independente nomeada pela Assembleia da República que não chegou às conclusões que o PSD queria. E então, a própria assembleia deu o dito por não dito, cobrindo-se de ridículo.

Relativamente ao PCP não aprova porque não.

E a lei da IVG? Vá lá que o PS manteve a promessa do referendo. Sempre achei que o PS nunca deveria ter dito que aceitava o resultado do 1º referendo, fosse ele qual fosse. Na realidade, o referendo teve menos de 50% de participação, logo o resultado não era vinculativo. Nessa altura, o PS deveria ter assumido a sua responsabilidade na Assembleia. Mas como, na realidade, não queria avançar com qualquer lei que despenalizasse o aborto, escudou-se no resultado do referendo.

Mas agora é óbvio que, depois dessa posição, o PS não pode mudar a lei no parlamento, tem que fazer novo referendo, tal como se comprometeu. Todas aquelas trapalhadas ácerca do início e do fim das sessões legislativas foram muito tristes.

Gostei muito do "post" de JMFerreira d'Almeida no blog Quarta República sobre os defensores oficiosos: "...Por isso, há muito que defendo a criação - também por razões de racionalidade da despesa pública como noutra oportunidade tentarei demonstrar - da figura do defensor público, à semelhança do que existe noutros sistemas, ao qual caberia, em exclusivo, a prestação do apoio judiciário..."
- estou plenamente de acordo.

07 novembro 2005

Igualdade (II)

A Europa precisa de emigrantes. Estamos de acordo em que a integração dos estrangeiros passa pelo respeito dos seus costumes, da sua religião, enfim, pela liberdade de se exprimirem. Devem ser tratados com dignidade e poderem procurar uma vida melhor fora das fronteiras do seu país natal.

Parece-me que a tentativa de restringir a entrada de emigrantes e de dificultar a sua legalização apenas tem conseguido a proliferação de mafias e de miséria. Em vez de burocracias hipócritas deveria ser exigida e facilitada a aprendizagem da língua do país de acolhimento e o respeito pelas leis vigentes, tal como a qualquer outro cidadão.

Mas o que se está a passar em Paris não pode ser desculpado, em nome de valores morais e humanitários. Dos valores maiores que as sociedades democráticas devem preservar, a segurança e a paz são essenciais. Por muito que se entendam as razões de revolta, descrença e desesperança de quem tem praticado tamanha violência, tal não pode ser admissível. A democracia não pode ficar refém ao defender os seus próprios valores.

Igualdade (I)

Quero-te, meu amor,
quero-te tanto,
neste todo de mim,
neste canto,
em que espero por ti
e me espanto,
de te querer assim.



(pintura de Kiki Lima - Cabo Verde)


O homem tem o mesmo direito que a mulher em escolher ficar em casa, apoiar os filhos, tratar das compras e das refeições, acompanhar as reuniões escolares, sem que a sociedade o olhe como um desgraçado, um falhado ou um oportunista. A igualdade entre géneros também passa pelo respeito por quem quer ter liberdade de opção.

É extraordinário como o trabalho intelectual é desvalorizado entre nós. Ler, informar-se, pensar, escrever, é sentido como lazer, não como um verdadeiro trabalho.

Aquilo que todos podemos fazer por conta própria, é pensar. Há um déficit democrático na massa cinzenta.

06 novembro 2005

Fiz uma lista



Fiz uma lista
das razões amáveis,
sensatas e concretas,
de ser feliz.

Como sempre
esqueci-me de a usar.



(pintura de Roberto Chichorro - Moçambique)


Temos tendência a pensar que pessoas que ocupam determinados cargos têm raciocínios maquiavélicos e decisões retorcidas por considerandos vários. A maioria dos homens e das mulhere são seres normais, medianos, com vidas profissionais e pessoais idênticas às dos outros comuns mortais. São comuns mortais.

Por isso, quando leio ou ouço determinadas interpretações inspiradas dos nossos inspirados comentadores, que nos demonstram por a+b que fulano disse isto para que não se soubesse aquilo, e que sicrano escondeu uma pressão para pressionar beltrano... Será que eles acreditam mesmo no que estão a dizer? Será que fulano, sicrano e beltrano não ficam tão surpreendidos como nós?

Domingo

Domingo de manhã, no café, mastigando uma torrada e lendo o jornal, saboreio um pedaço do meu tempo, com António Barreto e Vasco Pulido Valente.

Paris está a arder e não parece haver solução. Dentro das nossas vidinhas descansadas, aparentemente seguras e certas, chega-nos o eco de qualquer coisa ameaçadora. Nós por cá todos bem... até quando?

05 novembro 2005

Pouso a alma


Pouso a alma
nas tuas mãos
e fecho os olhos.
Na ausência constante
da vontade,
doce e mansa,
a quentura da serenidade.





(pintura de Domingos Barcas - Moçambique)

Ainda sobre as candidaturas presidenciais

Ainda sobre as candidaturas presidenciais. Ontem vi o "Expresso da meia-noite" com os mandatários para a juventude dos vários candidatos, com excepção da Kátia Guerreiro que, à semelhança de Cavaco Silva, não se digna a aparecer em debates.

Foi uma boa ideia mas, quanto a mim, falhada. O representante do PCP falou como se fosse Jerónimo de Sousa, ou Carlos Carvalhas ou ... qualquer membro do partido. A mema linguagem, as mesmas expressões, os mesmos tiques, enfim, a tradição continua a ser o que era.

Relativamente aos mandatários das candidaturas de Mário Soares e Francisco Louçã, nada do que disseram é diferente ou entusiasmará qualque jovem (ou velho!) que, habitualmente, não acompanhe estas discussões (e que são uma estrondosa minoria).

Apesar de tudo, talvez o único que, pela imagem que eventualmente terá junto de uma certa camada de jovens, e não pelo que ele diz porque, na realidade, ele não diz mesmo nada, poderá levar alguém a pensar em votar.

Ou seja, os mandatários para a juventude são apenas mais uns nomes de notáveis (ou candidatos a notáveis) para compor a galeria.

Manuel Alegre

Ontem Manuel Alegre apresentou o seu contrato presidencial. Ao contrário do que aconteceu com Mário Soares e Cavaco Silva, não houve posteriores debates de comentadores e analistas políticos.

Por um lado, ainda bem. Assim, são os eleitores que, por si só, avaliam o candidato, sem precisarem que outros lhes expliquem e lhes ensinem o que devem pensar.

Manuel Alegre fez-me sentir orgulhosa de ser portuguesa e de esquerda. Assumiu a sua condição de político, que se candidata a um lugar político. Assumiu a sua condição de poeta e de sonhador. Demonstrou que a ideologia e o afecto podem galvanizar as pessoas, dando-lhes um sentir comum, um objectivo nobre a atingir.

A esquerda ama a pátria e fala no colectivo. É solidária, crítica e exigente, luta pela igualdade de oportunidades.

Votarei em Manuel Alegre, no dia 22 de Janeiro. Espero votar em Manuel Alegre em Fevereiro.

Também eu, à minha maneira, quero defender o meu quadrado, o nosso quadrado.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...