05 setembro 2026

Façamos diferente


Façamos diferente.

Diferente do aqui e do agora. Levantar.

Ouço, ouço muito. Mas não ouço a minha própria voz.

O ruído ajuda-me a fazer. Diferente?

Não sei ser diferente. Só igual ao que sempre fui.

A diferença está no que já não falta ser. Vai fugindo, desaparecendo.

A poesia é uma boa companhia.

Fala-se muito. Dizem-se coisas. Visíveis.

Veem-se as palavras a saírem das bocas, a chuva de palavras arruinadas e distorcidas.

Nada limpa as palavras ditas. Mesmo que ninguém as ouça.

Pousam nas testas, nas mãos, nos ouvidos, entram pela roupa, pelos poros.

Façamos diferente.

Não temos de ser outra vez. Já basta. Já bastou.

Somos demasiado vaidosos, achamo-nos demasiado indispensáveis.

O diferente é aceitar a inutilidade.

Sejamos indiferentes.

30 agosto 2026

Conversas matinais


Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés.

    - Estou a pôr creme à vovó (carinha sorridente).

    - Tu gostas de pôr creme?

    - Sim. A mamã também põe creme (informa, muito séria).

    - Ai sim? Aonde?

    - Aqui, aqui, aqui (apontava ela com os dedinhos as bochechas, a testa, o nariz), no bigode...

    - No bigode? A mamã tem bigode?

Pergunto, curiosa.

Uns olhos espantados.

    - Não.

    - E o papá, tem bigode?

    - Sim.

    - O papá tem barba.

    - Sim.

    - E tu, tens barba?

    - Não.

E abanando a cabecita para trás, num vaidoso movimento em que o cabelo dança, diz-me doce mas firmemente:

    - Eu tenho cabelo na cabeça.

29 agosto 2026

Sustentabilidade


O assunto importantíssimo da sustentabilidade da Segurança Social, das reformas, pensões e outras prestações sociais, é sempre causa de grandes discussões e análises, clamando a esquerda e a direita, com a mesma veemência, que os estudos relatórios e soluções são técnicas e não ideológicas.

Se há temas ideológicos, este é mesmo um deles. A escolha política do tipo desse regime depende da ideologia de quem o decide e o implementa.

Não há ninguém que pense um pouco que não se preocupe com o futuro. O inverno demográfico, as políticas anti migrações, as especulações financeiras e a insegurança e volatilidade das sociedades e das economias, são motivos mais que suficientes para que se discutam soluções.

Com seriedade e sem demagogia. E serão precisamente as ideologias que decidirão como avançar.

A demonização da política e da ideologia é própria das ditaduras.

Integração

José Maria Pimentel e Cátia Batista


Espreito os jornais, ouço os noticiários e podcasts.

Estamos numa época deprimente, mas há gente que nos alumia e ensina.

A falta de inteligência e a ignorância de André Ventura e dos seus apaniguados não faz férias: Chega quer que crianças portuguesas e europeias tenham prioridade no acesso a escolas.

Sugiro a este parlamentar e aos seus sequazes que ouçam estes dois podcasts, precisamente sobre as repercussões das migrações nos países de partida e de acolhimento, a sua importância económica, nomeadamente quando são integrados nas culturas de acolhimento.

Talvez não se ouvissem tantos disparates.

Fica aqui o CV de Cátia Batista. Em vez de vermos a cada meia hora os horrores, os crimes e os desastres do mundo, principalmente aqueles que não têm qualquer interesse, agarremo-nos à rádio que ainda nos informa e distrai.

08 agosto 2026

Horizontes

Horizons

Neil Dawson


Hoje o dia não se repete

no intenso azul das almas livres.

A prisão da felicidade

a que não chega nem se entrega

a que não conquista árvores nem gaivotas.


Hoje o dia sussurra tempo.

A morna imensidão do nada

a plana quietude do silêncio

a plena sensação da finitude.


Hoje o dia será de areia

de vento que se ouve muito ao longe

da certeza de breves sinais

sem luzes nem cantos.

Sem amanhãs.

06 agosto 2026

Quebradiço


A voz do mar na boca

O gume afiado do horizonte

Na curva infinita do esquecimento

 

Reconheço nos ossos

A aridez da vontade

Quebradiços

Quebradiça

Das war erst der Anfang - Isto é só o começo

  Isto é só o começo Expresso