20 junho 2026

Os pacotes


Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais ou menos popularuchos, para irem ao encontro da amálgama de cidadãos mais ou menos indiferenciados.

Os políticos têm de fazer de conta. De que são iguais aos outros, de que se interessam pelos temas dos outros, de que pensam e querem o mesmo que os outros, sendo os outros o povo, que (des)consideram se disso necessitarem, fazendo de conta que o amam.

O pacote laboral foi apresentado como essencial para a modernização do país, para a flexibilidade na contratualização do trabalho, para o aumento da produtividade e para a melhoria salarial, principalmente dos jovens.

Todo este pacote de justificações é repetido à exaustão pelos seus defensores, clamando pelo imobilismo e pelo atavismo de partidos como o PS, o PCP, o BE, etc., que não aceitam nada que possa alterar os direitos dos trabalhadores, que consideram ser inamovíveis e sagrados. Ouvir a rádio Observador, o que tenho feito ultimamente, é ouvir esta ladainha, dita por vozes histéricas e indignadas.

Curiosamente, ou não, nunca, mas mesmo nunca, ouvi explicar como é que este pacote laboral vai contribuir para tudo isso.

Se procurar opiniões, textos, declarações variadas de agentes políticos e económicos, este pacote conseguiria algum aumento de produtividade à custa da redução dos custos do trabalho - como é que isso melhora os mesmos, não se vislumbra. Ou seja, a receita é piorar a vida aos trabalhadores, aumentando a precariedade, aumentando as horas de trabalho sem remuneração, facilitando os despedimentos, abalhadores que, nomeadamente para Anselmo Crespo, são um anacronismo a descartar sempre que for possível.

A discussão parlamentar de quinta-feira, em que o discurso da ministra do Trabalho (Solidariedade e Segurança Social) Rosário Palma Ramalho foi ácido e triunfante, tal como o de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, e da gritaria apocalíptica, mal educada e grosseira de André Ventura, foi um total fazer de conta. Sinceramente, não percebi ainda se o foi apenas de André Ventura, se também do PSD e do governo.


O desfecho da votação, qual passo doble ou magia negra, deixou o governo e sua ministra em péssimo estado, mesmo que o objetivo fosse a esperada vitimização, o PSD e o seu líder parlamentar com o gosto amargo da traição política, e o CHEGA escancaradamente a mostrar a sua natureza.

Será que André Ventura ainda consegue enganar alguém?

10 junho 2026

Mudanças

 


Las manos

Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.

As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação de paz e segurança estranhas. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores, personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.

Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida tinha estado em suspenso por demasiado tempo.

Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.

Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler. Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.

Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.

A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me acaricia. É perfumada.

30 maio 2026

 


Aguardo.

A música varre o tempo

amena a brisa que consola.

Aguardo a voz

de quem se esconde

a terra aprisionada

a vida insatisfeita

condicionada

que tudo oferece às estacas

às feras aos casulos aos opacos.

Aguardo a voz

de quem se curva

de quem se anula

de quem se prende.

Aquele grito silencioso

de dignidade.

17 maio 2026

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com várias barraquinhas iluminadas. Estava linda a praça.

Tinha lá ido de manhã, com sol e frio. Fruta, muita, mas também flores, muitas. Cores e cheiros, artesãos vários, principalmente de cestos. Havia compotas, mel, cavacas, de tudo um pouco. Deambulei por lá, enchendo os olhos de feira e de luz. De cada vez que me aproximava de alguém, queria convencer-me a levar tudo. Nomeadamente uma árvore em vaso, de Kumquat (laranja anã)


Mas à noitinha a praça parecia cheia de pirilampos e o ar cheirava bem. Tinha o coração apertado, mas cheio. Ao aproximar-me vi uma bancada com uns objetos que pareciam pequenas árvores coloridas. Fui ver de perto e percebi que eram galos, feitos de paus e pinhas, berrantes, desconjuntados e espalhafatosos.


Falei com o artesão (João Rêgo), simpaticíssimo. Não resisti. Trouxe um galo para casa. Está junto dos livros, para cantar em verso.

O ar ocupado pela música



Beethoven Symphony No. 2in D major

Coa-se a luz nas cortinas

embrulhadas de saudade.

O teu rosto à janela

poema tão longo o nosso

como foi curto

o adeus.


Mozart Mass no. 15 in C major, K. 317 (Coronation Mass) 

A poesia nos puros sons de uma orquestra, o crepúsculo lentamente a serenar as almas. O ar ocupado pela música, no silêncio desta secreta e contínua mágoa.

16 maio 2026

Maria dos cacos


Maria dos Cacos era, na verdade, Maria Póstuma, o nome da primeira grande ceramista de Caldas da Rainha. Filha e neta de oleiros, nascida no séc. XVIII, vendeu as suas peças em várias feiras do país, não se limitando a Caldas da Rainha. Mulher numa profissão masculina, uma empresária sem medo.

Nada mais lógico que ficar no Hotel 19 Tile Ceramic Concept, mesmo em frente à Loja do Sapo, mesmo ao lado do restaurante Maria dos Cacos, que tem parceria com o hotel, servindo os pequenos almoços e outras refeições. Jantei lá ontem, muito bem, num ambiente sofisticado e muito agradável. O Hotel está bem localizado, no centro da cidade, a poucos passos da praça das frutas. O quarto é muito espaçoso, luminoso e modernaço.


Tão modernaço que foi um problema perceber como funcionava o chuveiro. O walking shower está separado da sanita que, por sua vez, está separada de tudo o resto. ou seja, há 3 compartimentos que, juntos, formam a casa de banho. As paredes negras dão-lhes um ar um pouco lúgubre.

Mas voltemos ao chuveiro. Depois de um gélido momento de água fria, de subir e descer (em vez de rodar, conforme as parcas e crípticas instruções à entrada do chuveiro) os manípulos (2) que se me ofereciam para orientar os duches de cima e móvel tal como a temperatura da água, resolvi ir primeiro tomar o pequeno almoço, para me revigorar, antes do banho que se queria.... revigorante.

Após esse momento de prazer matinal, não há ninguém na recepção para me esclarecer. Telefono para o telemóvel do hotel e afirmaram-me a pés juntos que era preciso esperar uns minutos e que tinham 3 caldeiras de água quente prontíssimas a funcionar.

Depois de largos minutos de água gelada a correr, resolvi rodar a torneira para a direita, embora me tenham afiançado que era para a esquerda. Milagre! A água aqueceu!

Rumei, então, bem banhada e perfumada, para a praça das frutas (e das flores).

Noturno

Fireflies on the water

Yayoi Kusama

Chama-se ao poema noturno

como se a noite tivesse rima

como se o poema fosse de estrelas

e geada. Na margem deste caminho

versos luminosos mas sem lume

projetam nessa noturna dor

pequenos pirilampos de esperança.

Os pacotes

Sábado Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais...