27 novembro 2016

Presépio

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Isabel Catarrilha Pires


 


 


Filho de Maria


e nosso irmão


será que Jesus


nasceu ou não?


 


Dizem que sim


e dizem que não


já não há guia


para esta aflição


menino deus


divino artesão


um redentor


na perdição


gigante maior


pra outros anão


será que Jesus


viveu ou não?


 


Mundo perdido


mundo encontrado


caminho arredio


ou desviado


amável a mão


do nosso amado


agasalha o frio


no tempo afiado


por nós furacão


por nós maltratado


será que Jesus


sofreu ou não?


 


Dizem que sim


dizem que não


por cantos do mundo


já foi encontrado


de pena na mão


do poder apeado


por uns adulado


por outros ignorado


pra uns salvação


pra outros pendurado


em decoração


será que Jesus


morreu ou não?

25 novembro 2016

Um ano depois

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Um ano depois a Geringonça continua a funcionar, melhor do que muitos de nós, eu em primeiro lugar, poderíamos imaginar.


 


Não fui uma defensora desta solução. A decisão de António Costa e do PS apanharam-me de surpresa e não me agradaram pois penso que a legitimidade política para ser Primeiro-ministro, depois da forma como, com o meu aplauso, ocupou o lugar de António José Seguro, não existia.


 


Mas a verdade é que a atitude inédita do PCP, em primeiro lugar, do BE e do próprio António Costa, abriram as portas a uma solução inédita na democracia portuguesa, logrando o alcance de uma maioria parlamentar de esquerda como sustento de um governo minoritário. E os resultados estão bem à vista.


 


Não estaremos financeiramente ou economicamente melhor, mas recuperámos a esperança. Há uma descompressão na sociedade portuguesa que é muito bem vinda após 4 anos de chumbo; o discurso optimista do governo e da maioria que o apoia é um bálsamo para as perspectivas de futuro, a postura digna e reivindicativa perante a Europa devolve um pouco de orgulho à comunidade.


 


Não estaremos melhor, mas seguramente não estamos pior. Foram devolvidos rendimentos e direitos a quem os perdeu e as contas do Estado não estão piores do que estavam durante os 4 anos da crise revanchista da direita. A crise continua, mas deslocou-se o ónus de quem a paga para outros sectores da população, mais privilegiados.


 


Fomos sabendo os problemas que estavam cobertos pelo pano da cumplicidade com Bruxelas, os problemas com a banca, as privatizações a todo o custo e ao desbarato. Alterou-se o foco da sociedade - das finanças para as pessoas. Descobrimos que havia e há sempre alternativas ao empobrecimento, ao aumento da desigualdade, à desprotecção dos cidadãos, à mediocridade e à tristeza.


 


Um ano depois a direita cria factos sobre factos para condiciona as pessoas, como o caso dos contratos de associação das escolas, como o problema da CGD que não sai das notícias.


 


Convém, no entanto, não concluir que está tudo bem e satisfeito, acreditando nas sondagens que, de forma crescente, vão mostrando o apoio popular a este governo. Cada vez mais desconfio destes estudos, pois parece que as pessoas decidiram ludibriar os inquéritos.


 


Por outro lado foi eleito um verdadeiro Presidente da República, também ao contrário do que eu vaticinava. Apesar de demasiado interveniente, Marcelo Rebelo de Sousa tem contribuído definitiva e decisivamente para a recuperação da imagem institucional da Presidência da República e trabalhado com António Costa no apaziguamento nacional.  


 


Da minha parte, com ou sem sondagens, reconheço que estou mais descansada, mais esperançosa e mais confiante. Que continue a Geringonça, que é bem melhor que qualquer calhambeque constituído pelo PSD e pelo CDS.


 

21 novembro 2016

Manual de Cardiologia

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Uma voz que de fora narra a dor, quase sussurrada, quase sem paixão, uma voz apaixonada por um amor que não chega, que não se chega, que não lhe chega.


 


O sofrimento da antecipação, da espera, do que sabe de antemão que falhará. A transmutação entre o amador e a amada, quando nos damos conta de que o narrador agora é a mulher, aquela por quem se sofre e se desce ao abismo. E a mulher é justificada por si mesma pelas palavras do amador que se funde nela, nas suas razões e nos seus desesperos.


 


Há um caminho de sofrimento e aproximação, de sofrimento e fusão, de sofrimento e distanciamento, sempre num sussurro lento e triste, por vezes mais arrebatado. O título é particularmente feliz ao aludir a uma observação clínica, em que as palavras encadeadas e ritmadas são o pulsar cardíaco, aquele músculo que mesmo depois de todo o sofrimento resiste a recupera, mais lento e com cicatrizes.


 


As palavras repetidas sugerem a cadência e o ritmo: aquela mulher, coração, pedra, palavra, casa, amor, espera. A casa como a materialização do corpo e da esperança que se desespera. É uma poesia com uma melodia própria e dolorosa.


 


Manual de Cardiologia, de Fernando Pinto do Amaral, é um livro absolutamente surpreendente, que nos dói e quase nos redime.


 


GENUFLEXÓRIO


 


Soou o meio-dia    Entra agora


nessa pequena ermida    Dizem ter


talvez quinhentos anos    Lá em baixo


a Torre de Belém


 


Entreabre essa porta


Cinco séculos depois ainda estás


aqui    ainda a vês


entrar contigo aqui    ainda ouves


o mesmo coração a sua mesma


música


e continuas sem saber porquê


 


Ajoelha de novo    Já não crês?


E todavia ficarás


À espera de uma voz    à espera de uma


primeira última luz


 

20 novembro 2016

Encontro

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Aproxima-te mais    Só mais um passo


o último


Há uma velha amiga que te chama


Retribui-lhe esse amor


Está sempre à tua espera e ao contrário


da outra


esta não faltará ao teu encontro


 

Sede

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Está vazio o teu peito    No lugar


do coração talvez um ataúde


ou nem isso    uma sombra


igual a essa noite onde procuras


o mar    o imenso mar    e só encontras


sede


 

Da hipocrisia militante

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O infindável caso da entrega das declarações de rendimentos e património dos administradores da CGD ao Tribunal Constitucional, do eventual compromisso do Ministério das Finanças em dispensá-los de tal obrigação, o folhetim das várias lateralidades indignadas, à esquerda pelo facto de ser impensável fugir ao escrutínio público, à direita pelo não cumprimento de promessas escritas, não me parece ser uma coincidência.


 


Convém esclarecer desde já que não consigo compreender como é possível, num país em que o rendimento líquido médio mensal é de 838 euros, haja alguém a receber por mês muito mais do que a média dos cidadãos recebem por ano, por muito competente que seja no seu trabalho. E não me venham explicar que no sector privado é isso que se aufere porque isso não pode justificar uma tão grande desigualdade salarial.


 


Mas a verdade é que todo este frenesim tem apenas o objectivo de atingir politicamente Mário Centeno. Ficámos a saber, pela mesma imprensa que tanto tem atacado a administração da CGD, que os anteriores presidentes da Administração entregaram, de facto, as declarações de rendimentos e de património, mas em branco ou com informações incompletas. E mais ainda, é que nada aconteceu: o Tribunal Constitucional não fez rigorosamente nada e os nossos jornalistas de investigação, colunistas, opinadores, comentadores e políticos encartados, nunca tiveram qualquer curiosidade em perscrutar as ditas declarações públicas, pois só agora se aperceberam disso.


 


Ou seja, tudo isto é de uma hipocrisia sem nome. E não me parece coincidência porque os ataques políticos têm atingido vários ministros, chegando agora a vez de Mário Centeno.

Um dia como os outros (169)

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 (...) Alguém que quer, através da prática clínica, impor aos outros, insensível ao sofrimento que causa e louvando-o até como "redenção", as suas crenças religiosas, não deve ter licença para o fazer. É para isso que servem as leis e as ordens profissionais: para garantir que ninguém usa o poder que lhe é conferido por uma certificação oficial para subverter a sua missão, infringindo direitos fundamentais e incentivando discriminações que a Constituição interdita. Porque está errado. Porque é maldoso. Porque destrói vidas. Não está em causa calar Maria José Vilaça: pode subir a púlpitos, escrever artigos, dar entrevistas, ir à TV pregar a sua visão do mundo e dos homossexuais. Mas não como psicóloga. Porque isso, sim, é uma total anormalidade.


 


Fernanda Câncio

19 novembro 2016

Visitas guiadas

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Visita Guiada


 


 


Temos muitos canais de televisão, a enorme maioria deles desinteressantíssimos.


 


Os de informação têm alinhamentos noticiosos idênticos, sem rasgos nem diferenças, com os mesmos comentários e comentadores. Os de cinema repetem os mesmos filmes indefinidamente. Os de séries são todos iguais. E há uma plétora generalizada de debates futebolísticos verdadeiramente ridículos, e de programas de comida com uma multiplicidade de chefes que praticam uma culinária cada vez mais divorciada da alimentação dos comuns mortais.


 


No entanto há alguns oásis de que nos apercebemos quase por acaso, como o Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, que já vai na sexta temporada.


 


Em episódios de cerca de 30 minutos, Paula Moura Pinheiro leva-nos a visitar quadros, peças de arte, mosteiros, altares, igrejas, bibliotecas, jardins, onde tudo é devidamente enquadrado e acompanhado por alguém que explica e conta a história do que estamos a ver, levando-nos a conhecer e a compreender a época, o artista, o acontecimento.


 


De uma elegância contida e de uma sobriedade sem solenidade, Paula Moura Pinheiro consegue interessar os espectadores sem falsas erudições nem condescendências com o popularucho ou discursos facilitistas, percorrendo o País e os seus vários tesouros, mais ou menos desconhecidos.


 


Felizmente podemos ver e rever os programas na RTP Play. Muitos parabéns a toda a equipa que o pensa, produz e realiza.

18 novembro 2016

Sucessivamente

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Pose


Antony Gormley


 


 


Lá fora soam passos entre o nevoeiro.


Volto a cabeça atentamente


mas não me importam os passos nem o nevoeiro nem a cabeça


nem os sucessivos segundos que transcorrem entre o voltar da cabeça e o piscar dos olhos


entre uma gota desfeita no ar e o peso da gota nos cabelos.


Ouça as rodas do pensamento mais alto que os passos que o nevoeiro conserva


indentado e arrastado de sucessivas voltas no fechar da luz


que se coa por entre as gotas que pesam nas mãos dentro dos bolsos


tão afundadas e presas como a cabeça que conta os sucessivos passos


de quem desatento atravessa o espaço do meu mundo


reduzido à dimensão do nevoeiro em que se transforma o que volta à minha cabeça.


 

13 novembro 2016

Poeira

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Emptiness


Toni Kanwa Adikusumah


 


 


Vamos confinando o espaço do corpo que encolhe


ao canto do universo em expansão que nos acolhe


como infinito é o tempo que se retrai e se recolhe


nas sobras desta vida que se vive e não se escolhe.


 

11 novembro 2016

Steer your way

A literatura não tem que estar confinada nem rotulada. Os grandes temas são afinal aqueles que nos fazem estalar o coração, sejam eles as liberdades colectivas ou o mais puro e egoísta sentimento de paixão e posse. Leonard Cohen é mais um exemplo de que um escritor pode ser cantor e músico, tal como um músico como Bob Dylan pode ser cantor e escritor.


 


Leonard Cohen atravessou gerações e as suas canções são poemas com melodias intemporais. Não sei se canta se declama, mas também não me interessa nem importa. Quem assim viveu é como se fosse quase imortal, porque continua a fazer-nos companhia, a seduzir-nos e a ensinar-nos o mundo.


 



Leonard Cohen


 


 


Steer your way through the ruins


Of the altar and the mall


Steer your way through the fables


Of creation and the fall


Steer your way past the palaces


That rise above the rot


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought


 


Steer your heart past the truth


You believed in yesterday


Such as fundamental goodness


And the wisdom of the way


Steer your heart, precious heart


Past the women whom you bought


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought


 


Steer your path through the pain


That is far more real than you


That smashed the cosmic model


That blinded every view


And please don’t make me go there


Tho’ there be a god or not


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought


 


They whisper still, the ancient stones


The blunted mountains weep


As he died to make men holy


Let us die to make things cheap


And say the Mea Culpa which you’ve probably forgot


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought


 


Steer your way, o my heart


Tho’ I have no right to ask


To the one who was never


Never equal to the task


Who knows he’s been convicted


Who knows he will be shot


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought


 


They whisper still, the ancient stones


The blunted mountains weep


As he died to make men holy


Let us die to make things cheap


And say the Mea Culpa which you gradually forgot


Year by year


Month by month


Day by day


Thought by thought

Terra

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Atlas


Mathilde Roussel


 


 


Somos feitos de terra


grossos pedaços de mundo desfeito


aos trambulhões em mãos de deuses inexistentes.


Imagino-os em jogos florais


num gozo ocioso de folguedos imortais


enquanto torrões e grãos aniquilados


se disseminam por sentidos anulados.

09 novembro 2016

Acordemos

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Hillary Clinton


 


Depois do enorme duche de água gelada após a inimaginável vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, vale a pena acalmar e pensar em várias questões:



  1. Não podemos assumir que as únicas razões para a votação em Donald Trump são a estupidez, a ignorância, a xenofobia e o sexismo, embora essas razões também devem ter estados presentes.

  2. Temos que tentar perceber que a insatisfação, a desigualdade, o desemprego e a crise económica desenvolveram uma crise social que afasta as pessoas dos políticos e da política, levando-as a acreditar em alguém que as convence estar fora do sistema.

  3. Os políticos, nomeadamente os de esquerda, menorizam e inferiorizam os eleitores, tratando-os com desdém e com sobranceria, em vez de tentarem compreender os seus anseios e procurarem soluções para os seus problemas.

  4. A constante afronta aos políticos e à política, falando-se continuamente de corrupção, com suspeitas constantes, acusações, faltas de respeito e desvalorização das funções públicas, são contraproducentes e só alimentam a desconfiança das populações em relação aos seus representantes.

  5. É urgente perceber o que causou os erros das projecções e das sondagens - as pessoas mentiram? Os autores das sondagens não valorizaram ou não contabilizaram com rigor as intenções de voto em Trump? Foram deliberadamente alteradas?

  6. É urgente perceber a crescente irrelevância dos media na cobertura das campanhas e na forma como, deliberadamente ou não, condicionam os leitores, provavelmente levando-os a fazer o contrário daquilo que advogam.


Este é um sinal, mais um depois do BREXIT, que deve acender todas as lanternas vermelhas em todos os cantos da Europa. As ondas populistas continuam e crescem e, enquanto as instituições nacionais e internacionais, como por exemplo a União Europeia, mantiverem o estado de negação e não olharem para os seus povos, para as suas angústias e temores, sem paternalismos nem juízos morais, para tentarem resolver os reais problemas das pessoas, a lenha continuará a ser lançada para estas fogueiras.


 


Não vale a pena lamentarmo-nos. A democracia funcionou e funciona. Mas se esta é a vontade da maioria, por algum motivo essa maioria tem esta vontade. O combate tem que ser frontal, diário e com actos, não apenas com intenções e discursos retumbantes.


 


Esperemos que o Trump Presidente não cumpra as promessas do Trump candidato. De resto, o futuro afigura-se-me bastante incerto e com cores bastantes escuras.


 

05 novembro 2016

São mesmo 11 anos...

...que o Defender o Quadrado faz hoje...


 



Maria Bethânia


Zeca Pagodinho


 


 


SONHO MEU


(Yvonne Lara/Delcio Carvalho)


 


Sonho meu, sonho meu


Vai buscar quem mora longe


Sonho meu


 


Sonho meu, sonho meu


Vai buscar quem mora longe


Sonho meu


 


Vai mostrar esta saudade


Sonho meu


Com a sua liberdade


Sonho meu


No meu céu a estrela-guia se perdeu


A madrugada fria só me traz melancolia


Sonho meu


 


Sinto o canto da noite


Na boca do vento


Fazer a dança das flores


No meu pensamento


 


Traz a pureza de um samba


Sentido, marcado de mágoas de amor


Um samba que mexe o corpo da gente


E o vento vadio embalando a flor


 


Traz a pureza de um samba


Sentido, marcado de mágoas de amor


Um samba que mexe o corpo da gente


E o vento vadio embalando a flor


Sonho meu


 


Sonho meu, sonho meu


Vai buscar quem mora longe


Sonho meu


 


Sonho meu, sonho meu


Vai buscar quem mora longe


Sonho meu


 


Vai mostrar esta saudade


Sonho meu


Com a sua liberdade


Sonho meu


No meu céu a estrela-guia se perdeu


A madrugada fria só me traz melancolia


Sonho meu


 


Sinto o canto da noite


Na boca do vento


Fazer a dança das flores


No meu pensamento


 


Traz a pureza de um samba


Sentido, marcado de mágoas de amor


Um samba que mexe o corpo da gente


E o vento vadio embalando a flor


 


Traz a pureza de um samba


Sentido, marcado de mágoas de amor


Um samba que mexe o corpo da gente


E o vento vadio embalando a flor


Sonho meu


 


Sonho meu, sonho meu


Vai buscar quem mora longe


Sonho meu


 

Mais que dez e menos que doze

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Digo muitas vezes que não e eu e ela e quem e mim e passa e mais e sou e mão e crescer e sinto e gente.


Digo muitas vezes luz e gosto e caminho e erros e nada e tempo e chuva e arder.


E digo mais vezes o que não digo.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...