21 novembro 2016

Manual de Cardiologia

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Uma voz que de fora narra a dor, quase sussurrada, quase sem paixão, uma voz apaixonada por um amor que não chega, que não se chega, que não lhe chega.


 


O sofrimento da antecipação, da espera, do que sabe de antemão que falhará. A transmutação entre o amador e a amada, quando nos damos conta de que o narrador agora é a mulher, aquela por quem se sofre e se desce ao abismo. E a mulher é justificada por si mesma pelas palavras do amador que se funde nela, nas suas razões e nos seus desesperos.


 


Há um caminho de sofrimento e aproximação, de sofrimento e fusão, de sofrimento e distanciamento, sempre num sussurro lento e triste, por vezes mais arrebatado. O título é particularmente feliz ao aludir a uma observação clínica, em que as palavras encadeadas e ritmadas são o pulsar cardíaco, aquele músculo que mesmo depois de todo o sofrimento resiste a recupera, mais lento e com cicatrizes.


 


As palavras repetidas sugerem a cadência e o ritmo: aquela mulher, coração, pedra, palavra, casa, amor, espera. A casa como a materialização do corpo e da esperança que se desespera. É uma poesia com uma melodia própria e dolorosa.


 


Manual de Cardiologia, de Fernando Pinto do Amaral, é um livro absolutamente surpreendente, que nos dói e quase nos redime.


 


GENUFLEXÓRIO


 


Soou o meio-dia    Entra agora


nessa pequena ermida    Dizem ter


talvez quinhentos anos    Lá em baixo


a Torre de Belém


 


Entreabre essa porta


Cinco séculos depois ainda estás


aqui    ainda a vês


entrar contigo aqui    ainda ouves


o mesmo coração a sua mesma


música


e continuas sem saber porquê


 


Ajoelha de novo    Já não crês?


E todavia ficarás


À espera de uma voz    à espera de uma


primeira última luz


 

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