31 janeiro 2007

Ásperas certezas

Árduas e ásperas
as línguas das mulheres
as razões dos homens
abrem feridas
inauguram afectos
rasgam gargantas
perpetuam raízes.

Árduas e ásperas
as certezas inumanas
nas fronteiras da vida.

(pintura de Paula Rego: mulher-cão)

Perigosas inanidades

Será que, se não tivesse havido a mediatização do caso Esmeralda, o Tribunal Constitucional demoraria 4, 5 ou 10 anos a pronunciar-se, em vez dos infindáveis DOIS ANOS que demorou?

Foi demasiada a coincidência. E se esta comoção social ajudou a acelerar o processo, por muito positivo que isso seja, é um sintoma terrível num estado democrático que se pretende de direito, as decisões andarem "a reboque” das emoções veiculadas e amplificadas.

Este Estado torna-se perigoso, inseguro e injusto para os seus cidadãos, que pretende servir.



O Ministro Manuel Pinho deveria ser proibido de falar. Tanta infelicidade até dá dó, principalmente do país! Vai acenar-se com a cenoura dos baixos salários para a China??? Pelos vistos o Ministro está a pensar reduzi-los um pouco mais, para ficarem mais baixos que os dos chineses!!!

30 janeiro 2007

Faltam 11 dias

Goste-se ou não do estilo de Fátima Campos Ferreira, o programa Prós e Contras tem-se afirmado como um programa de informação obrigatório. Após o exemplo do que não se deve fazer, quando o tema foi o caso da menor que é disputada pelo pai biológico e pela família de acolhimento, em que se criou um ambiente quase intimidador para os que questionavam a conduta do Sargento, nomeadamente para o magistrado e para o advogado que representava o pai biológico, ontem houve um bom programa de informação.

Não quer isto dizer que tenha sido muito informativo. Mas houve a oportunidade de ouvir defensores de ambas as opções.

Algumas coisas ressaltaram no meio do embrulho em que se tenta transformar o referendo:


  1. Não sei em que mundo vivem Isabel Galriça Neto, João Paulo Malta, Laurinda Alves, Katia Guerreiro, que só conhecem mulheres que, apoiadas (ninguém explicitou como), acabam por não abortar. O mundo que eu conheço é um mundo ligeiramente diferente, talvez mais parecido com o de Lídia Jorge. Conheço mulheres que engravidaram sem querer, ou porque não usaram métodos anticonceptivos, ou porque estes falharam, ou porque os usaram mal, ou porque são muito jovens e imaturas, ou porque estão na menopausa e as irregularidades menstruais enganam-nas, levando-as a pensar que não engravidarão.
    Algumas destas mulheres, após o choque inicial, aceitam a ideia de ser mães, com ou sem apoio, com ou sem maridos, companheiros, namorados, mães e futuras avós, com ou sem censura social ou familiar.
    Outras não aceitam de forma nenhuma a hipótese de levar a gravidez até ao fim, não reconhecem como facto o terem um ser humano dentro delas, apenas sentem que têm uma coisa, como muito bem expôs Lídia Jorge, uma coisa que a todo o custo rejeitam, que querem que desapareça, quanto mais depressa melhor.

  2. O poema de Rita Ferro espelha exactamente o problema de fundo de toda esta discussão – a inferiorização, apoucamento e menorização da mulher. Infere-se que esta, se não aceita a sua gravidez, está a negar a sua essência feminina, o seu destino, o seu objectivo na vida, ou seja a maternidade. Daí o arrepio pelo facto de ser por opção da mulher. No fundo não se lhe reconhece o direito e a capacidade de decidir.

  3. O assassinato de Aguiar Branco, ao responder a uma pergunta venenosa de Vasco Rato, quando reconheceu que votou afirmativamente a pergunta do referendo, usando agora como estratégia o ataque à forma e pertinência da pergunta.

  4. A tentativa desesperada dos defensores do “não” de desinformarem, apoiando objectivamente o aumento da abstenção.

  5. Já agora, Aguiar Branco afirmou que o problema do aborto clandestino após as 10 semanas não fica resolvido. Acho este raciocínio absolutamente absurdo: se o aborto for despenalizado até às 10 semanas as mulheres terão a possibilidade de o fazer dentro do tempo legal e seguro, sem medo e, portanto, a escassa minoria de abortos que existem após as 10 semanas provavelmente desaparecerá.

29 janeiro 2007

Participar

Este referendo não tem a ver com posições partidárias nem com cargos políticos, nem com professores Marcelos. Tem apenas a ver com cada um de nós, como cidadão, como homem e mulher, de si para consigo.

Queremos ou não mudar a lei? Concordamos que uma mulher que aborte, até às 10 semanas de gestação, seja condenada a pena de prisão?

É a essa pergunta que deveremos responder.

Por outro lado este é o 3º referendo efectuado até agora. Se, pela 3ª vez, a participação for inferior a 50%, será provavelmente o último.

Votar é um acto de cidadania e de responsabilidade. É uma forma de intervenção na vida comunitária.

Eu vou votar SIM.


(Picasso: grávida)

28 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos (2)

Tive pela primeira vez a uma noção do que poderia ter sido o Holocausto quando vi uma excelente série documental na televisão: O Mundo em Guerra (The World at War, da Thames Television, 1973). Tudo, desde a apresentação, à música de abertura, à voz de Laurence Olivier, era absolutamente arrepiante, pregando-me à cadeira, hipnotizada. Os episódios que narravam a deportação e o extermínio dos judeus, os campos de concentração e a sua libertação, eram aterradores.

A banalidade do mal, a máquina administrativa e bem oleada do Estado Alemão, o esforço daquele país na guerra, a alienação do povo, a luta pela sobrevivência, o despojamento de tudo o que significa ser humano, da dignidade, da identidade, tudo me horroriza. Do que podemos ser capazes!

Depois disso já li muita coisa sobre o Holocausto. A Escolha de Sofia, de William Styron, foi o primeiro, Sem Destino, de Imre Kertész, o último, e o que mais me impressionou. Com este livro nos apercebemos de como nos podemos adaptar ao mal absoluto e absurdo, fazendo do inenarrável o quotidiano, no sofrimento, no adormecimento das funções cerebrais superiores, como nos adaptamos a sobreviver encurralados, como a simples ideia de comer pode ocupar a totalidade da existência.

Assusta-me que a memória colectiva se vá esvaindo, permitindo haver quem ponha em causa a existência do Holocausto. É o primeiro passo para a repetição do horror. Não percebo porque não são obrigatoriamente mostrados filmes e documentários nas escolas, porque não se mostra aos nossos filhos o que a banalização do mal pode fazer.

Fui dar a estes 2 sites: Fórum de comemoração do 60º aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau; museu de Aushwitz-Birkenau.

Para que ninguém esqueça, para que nunca se repita.

27 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos

First they came for the Jews
and I did not speak out
because I was not a Jew.

Then they came for the Communists
and I did not speak out
because I was not a Communist.

Then they came for the trade unionists
and I did not speak out
because I was not a trade unionist.

Then they came for me
and there was no one left
to speak out for me.

(poema de Martin Niemöller)

</span>

Alcance

Pelo que fizemos
dos dias
sem montes
sem ventos
sem qualquer átomo
de incerteza,
pelo que absorvemos
distraidamente
sem saborear
sem experimentar,
pelo que queremos
e não perdoamos,
a vida nos alcance.


(pintura de Conchita Carambano: contemplation)

26 janeiro 2007

Estrela

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.

(poema de Carlos de Oliveira; pintura de Naofumi Maruyama: aurora)

Sempre diferentes, sempre iguais

Afinal o Homem já era um predador muito perigoso na idade do gelo! Segundo um artigo do National Geographics News, foram encontrados fósseis de cerca de 70 espécies diferentes de animais de grande porte, em grutas com 3 a 4 milhões de anos (descobertas em 2002), localizadas em Nullarbor Plain, Austrália.

Os cientistas chegaram à conclusão, pela análise dos ossos e dos dentes dos animais, que estes estavam muito bem adaptados ao clima e que não deveriam ter sido as alterações climáticas, como até agora se pensava, que tinham levado à extinção de muitas espécies, como o Thylacoleo (leão-marsupial), da família dos mamíferos marsupiais que habitaram a Austrália no Neogénico (de há 23 milhões a 30 mil anos), mas sim a acção do predador mais perigoso e insaciável – o Homem. Terão sido as caças desenfreadas e os incêndios provocados pelos humanos os causadores da extinção das espécies.

Podemos dizer que não evoluímos nada desde então!

(imagem de Thylacoleo e dos fósseis referidos)

25 janeiro 2007

Curtas, curtíssimas

No caso dos voos da CIA não sei muito bem que investigação é que o governo vai terminar, se nunca a começou. Agora que o PGR resolveu enviar para o DCIAP documentos que lhe foram entregues pelo jornalista Rui Costa Pinto a propósito de uma reportagem sobre esse assunto, e que o relatório da comissão do parlamento europeu sugeriu que se investigassem indícios de voos ilegais, o Ministro Luís Amado dá por terminado o incidente, fruto apenas da má vontade e sede de protagonismo de Ana Gomes! Parece-me um “timing” infeliz, para não dizer mais. Aliás tudo na reacção do governo a este assunto foi muito infeliz, para não dizer desastroso e suspeito.

O folhetim embusteiro da co-incineração soma segue e continua. Após a divulgação dos resultados dos testes de co-incineração realizados na SECIL do Outão terem demonstrado, mais uma vez, que não havia perigo para a saúde pública com a queima de resíduos perigosos, o tribunal vem parar outra vez o processo para pedir mais um estudo de impacto ambiental? O que é que se modificou no ambiente desde o outro estudo? NADA DE NADA. Como é possível continuarmos nesta demagogia que atrasa a implementação de medidas importantes para a melhoria ambiental, com argumentos totalmente falaciosos?

José Sá Fernandes deve estar bem satisfeito com a confusão instalada na Câmara de Lisboa. Em primeiro lugar porque conseguiu que se investigassem negócios muito pouco claros (que já devem existir há décadas), honra lhe seja feita. Em segundo lugar porque o BE deve ser a única formação política, talvez em conjunto com o PCP, que ficará satisfeita com novas eleições. O PS, o PSD e o CDS só têm a perder com eleições agora e devem estar a pensar numa coligação silenciosa de interesses para manter esta maioria até às próximas eleições.

24 janeiro 2007

Sim, despenalizemos

Se Matilde Sousa Franco e Maria do Rosário Carneiro estivessem verdadeiramente de acordo com a despenalização do aborto, votariam "sim" no referendo de 11 de Fevereiro, porque é precisamente essa a pergunta que é colocada: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Os defensores do "não", ou seja, os defensores da manutenção da lei tal como está (porque mudá-la é responder "sim") deveriam assumir sem reservas que consideram que a punição está correcta, em vez de afirmarem que é preciso distinguir o erro da pessoa que o pratica.

Mas como isso é pouco aceitável, soa mal aos ouvidos, escudam-se nesta mascarada de boas intenções, tolerância e compreensão pela mulher que erra.

Quem está verdadeiramente de acordo com a despenalização do aborto, ao contrário de Matilde Sousa Franco e Maria do Rosário Carneiro, votará "sim” no próximo referendo.

23 janeiro 2007

Defender... sabe-se lá de quê

Não pretendo entrar em polémicas nem em trocas de textos agressivos. Mesmo assim vou responder a João Pedro Henriques que se referiu amavelmente a este blogue como: Defender sabe-se lá o quê.

Começo por lhe dar razão: não deveria ter escrito “todas as notícias” porque, em boa verdade e pelo rigor dos factos, eu não as posso ter lido “todas”, para o poder assegurar. E talvez “absolutamente tendenciosas” não tenha sido a melhor das expressões.

Mas o texto contém muito mais que essas duas expressões e considero muito significativo que a sua reflexão sobre o meu post não tenha ido mais além. Há lá muitas outras questões abordadas como a isenção e a qualidade informativas, o tipo de jornalismo que se tem praticado neste caso, a manipulação da população, ou seja, o cerne da questão.

Não sei o que é ou qual é a douta blogosfera a que se refere. Defender quem foi injustamente criticado parece-me um direito e um dever de todos os profissionais, independentemente da profissão a que pertencem. Não reconhecer que há maus profissionais e reagir pavlovianamente a qualquer crítica que lhes é dirigida, isso sim, isso é que me parece mal.

(pintura de Portinari: D. Quixote)

22 janeiro 2007

Jornalismo interpretativo

Todos temos a nostalgia dos contos de fada. Das princesas boas, das bruxas más, dos príncipes encantados, dos heróis, das vítimas indefesas, dos ogres que comem criancinhas.

Sempre que a oportunidade se vislumbra, embarcamos a toda a brida na defesa dos inocentes, na admiração pelos indomáveis, de queixo duro, peito saliente e olhar desafiador, na condenação dos tratantes e maus caracteres, de sorriso falso.

Que melhor ocasião senão a que se nos depara com a história de Esmeralda / pai adoptivo / pai biológico? Está lá tudo para que possamos demonstrar a nossa boa índole, satisfazer-nos com a real garantia de que ainda existem heróis que, contra tudo e contra todos, não hesitam em sacrificar-se pelos que amam.

Mas a realidade é diferente da ficção e dos mitos. As pessoas são feitas de todos os tipos de ingredientes, de bruxa má, de ogre, de vítima inocente, de príncipe encantado, de herói e de vilão.

Ao contrário do que a Fernanda Câncio afirma, todas as notícias que foram veiculadas pela comunicação social, escrita e falada, foram absolutamente tendenciosas na forma como falaram da situação, apresentando o pai biológico como um estupor sem coração, a mãe biológica como uma desgraçada que tenta salvar a filha, os pais adoptantes como anjos caídos do céu e o colectivo de juízes como algozes, que administram o mal absoluto.

A única coisa que, mais uma vez, não deixa dúvidas, é a morosidade da justiça, que resulta em maiores injustiças. Porque entre decisões, apelações, recursos e demandas, testes de paternidade e fugas para parte incerta, já se passaram 5 anos. E as crianças não podem esperar, crescem a um ritmo demasiado acelerado.

Afinal o pai biológico, embora arrastado para um teste de paternidade (que custa a módica quantia de 1500 euros), sempre terá afirmado que assumiria a paternidade caso se provasse ser a criança sua filha. Deveria não ter tido dúvidas? Talvez, não sei, não sei quais foram as circunstâncias em que as relações entre ele e a mãe biológica se processaram. Deveria ter aceitado a hipótese de ser pai como uma bênção, como uma coisa maravilhosa? Talvez, não sei, mas será sempre assim que todos assumimos a hipótese de sermos pais/mães? Podia não ter perfilhado, mas perfilhou, podia não ter lutado pela custódia da filha, mas lutou, podia não ter tentado ver a filha, mas tentou. Terá sido porque tinha uma indemnização em vista, ou porque lhe doeu a consciência, ou porque precisou de tempo?

Só que as crianças não podem esperar. Será que é justo retirar a criança a quem lhe deu amor, a quem não teve dúvidas quanto à vontade de ser pai, mesmo apenas ao fim de 6 meses, 1 ano, 2,5 anos? Será que qualquer de nós não teria pressionado a mãe biológica, fugido do pai biológico, da justiça, do mundo inteiro, pelo direito de a cuidar, de a proteger, de a acarinhar? Provavelmente, não sei. Acusar de sequestro alguém que tentou tudo isto é um absurdo, faz revolver-se a noção de justiça de quem quer que seja. Mas será que tudo o que foi provado em tribunal é apenas absurdo? Não sei, mas vale a pena, como diz Paulo Gorjão, ler o Acórdão, para podermos meditar e fazer o nosso próprio juízo.

Para Fernanda Câncio o jornalismo é e só pode ser uma actividade interpretativa. Qualquer coisa que pensemos e escrevamos é uma actividade interpretativa. Em qualquer profissão interpretam-se sinais, interpretam-se factos, sejam eles sintomas de doença, alterações analíticas, cálculos de temperaturas, fenómenos atmosféricos, etc. A divulgação de factos também me parece fazer parte da função dos jornalistas. Ou o jornalismo não é uma actividade informativa, para além de interpretativa?

Independentemente do que se passou, o melhor para Esmeralda deve ser continuar com os pais que a acolheram e que sempre conheceu como tal. Mas a manipulação da informação que tem sido feita a propósito deste caso faz-me duvidar de algumas causas mediáticas a que nos temos dedicado, ao longo dos anos.

É a verdade a que temos direito.


(pintura de Nicolas Poussin: le jugement de Salomon)

21 janeiro 2007

UPPSSS......!!!

You Are 70% Weird

You're so weird, you think you're *totally* normal. Right?
But you wig out even the biggest of circus freaks!

Espero

Espero asas que me faltam
neste corpo desgastado
um sopro de nuvem branca
neste céu abandonado.

Espero ondas que estremeçam
este barco adormecido
gaivotas agudas de gritos
neste cais escurecido.

Espero gotas frias do tempo
no eco longo que chega
da sombra que desenhamos
na dor absurda da entrega.


(pintura de Jeffery Dale: time)

20 janeiro 2007

Outra perspectiva

Independentemente do referendo e do que afirmei mais abaixo, são extraordinárias algumas das coisas que se têm ouvido sobre a mulher e a despenalização da IVG.

Que a mulher é pressionada a abortar, que fica mais indefesa se for despenalizada a IVG. Porque não se assume que a mulher, mesmo que não receba pressões de nada nem de ninguém, pode decidir interromper a gravidez? A mulher tem cérebro, vontade e alma próprias, capacidade de pensar e de sofrer, sem que necessite que lhe apontem o caminho a seguir.

A aceitação da IVG nos casos de violação deixa pressupor que, na realidade, caso o sexo seja consentido, não há lugar à hipótese de IVG. Então o valor que se dá ao embrião depende de haver relações sexuais com ou sem o consentimento da mulher (o embrião deixa de ser valorizado como vida humana quando resulta de sexo não consentido).

No fundo, bem lá no fundo, um dos maiores problemas continua a ser a ancestral desconfiança em relação à sexualidade feminina, ao facto de não se aceitar que o objectivo do sexo, também para a mulher, pode ser apenas o prazer e não a procriação.

Na verdade, a libertação dos dogmas ancestrais da nossa sociedade judaico cristã, no que diz respeito à sexualidade, é ainda ténue. Todos os raciocínios têm por base o facto de a gravidez ser o resultado natural de uma relação sexual. Mas não é. Ao contrário de outros mamíferos, cuja actividade sexual existe em determinadas alturas, precisamente aquelas em que pode haver fecundação, o ser humano tem actividade sexual sem restrições de calendários biológicos. As únicas restrições do calendário biológico são para engravidar, visto que há uma janela de cerca de 48 horas em 28 dias em que é possível a fecundação.

Mais uma vez insisto que o que está em causa neste referendo é a despenalização, ou seja, a alteração da lei que pune com prisão as mulheres (já agora, porque não também os homens progenitores?) que façam IVG até às 10 semanas de gestação. Mas há alguns outros aspectos, outras perspectivas do mesmo problema, que são deveras interessantes.

Fiama

Grafia 1


Água significa ave

se

a sílaba é uma pedra álgida
sobre o equilíbrio dos olhos

se

as palavras são densas de sangue
e despem objectos

se

o tamanho deste vento é um triângulo na água
o tamanho da ave é um rio demorado

onde

as mãos derrubam arestas
a palavra principia


(poema de Fiama Hasse Pais Brandão)

A pergunta

A discussão da IVG está bem lançada e todos os dias vão aparecendo novos blogues em que se debatem argumentos a favor ou contra. Alguns com contributos muitíssimo interessantes, mesmo para quem já está convertido.

A propósito é muito interessante ler o excerto da entrevista de Paula Teixeira da Cruz, no DN, assim como o artigo do Prof. Jorge Miranda no Público (só disponível online para assinantes), que defendem opiniões contrárias.

Parece-me perigosa a tese de que a votação neste referendo possa, de alguma forma, espelhar o sentimento dos cidadãos relativamente à governação. É uma falácia que os defensores do “não” podem usar como recurso a uma tentativa de ganhar adeptos.

Toda a discussão filosófica sobre a vida humana e a pessoa humana, quando começa ou quando adquire a forma, é muito interessante mas pode desviar-nos do objectivo deste referendo e da pergunta que vai ser respondida e que se refere apenas à despenalização da IVG até às 10 semanas. Independentemente do que cada um de nós pense sobre a IVG, o que está em causa é saber se queremos que uma mulher que a pratique seja condenada a prisão. Ao contrário do que diz o Prof. Jorge Miranda, não se liberaliza, apenas se despenaliza. Como diz Paula Teixeira da Cruz: Fala-se na liberalização do aborto mas liberalizado está ele agora porque não há regras, há um mercado clandestino e paralelo.

A resposta à pergunta do referendo não tem a ver com opções políticas nem deve ser fruto de alinhamentos partidários. E todos os cidadãos, independentemente dos cargos públicos que ocupem, das funções de estado que exerçam, têm o direito de se manifestarem e de divulgarem a sua opinião.

19 janeiro 2007

Nunca é demais lembrar...

Resposta da deputada Natália Correia ao deputado João Morgado quando afirmou: “O acto sexual é para ter filhos” - 3 de Abril de 1982.

Já que o coito - diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(poema de Natália Correia; desenho de Vasco)

(rapinado ao Sorumbático)

Excomunhão

De vez em quando, é preciso um toque de humor, irrealidade e anacronismo de que só alguns são capazes, e nunca nos decepcionam!

Desilusão

A esperança que se apossou de muitos de nós ao ver este governo assumir posições incómodas e a tomar medidas duras, mas que se impunham, nomeadamente na tentativa de servir o interesse público em vez do interesse de algumas corporações, que finalmente iríamos ter um governo que faria a diferença, está a decrescer à velocidade da luz.

A credibilidade do governo está todos os dias a perder-se. Os voos da CIA e a total e incompreensível ausência de respostas do governo, aliado à campanha anti Ana Gomes, as dúvidas do Tribunal de Contas relativamente aos resultados de 2005, os lamentáveis episódios em tudo o que envolve a protecção de menores, desde as equipas de diagnóstico e acompanhamento até às decisões judiciais, os processos que são muito aplaudidos, muito comentados para depois se esvaziarem e morrerem, os avanços de leão e as saídas de sendeiro do Ministro da Saúde, com orgulhos inapropriados por tremendo erros políticos e afirmações sorridentes que desmentem outras afirmações não menos sorridentes feitas anteriormente.

Qual é o rumo deste governo? O que pretende? Qual o alcance do silêncio mal gerido, ou de ensaios mediáticos e grandiloquentes?

É a desilusão cíclica e repetida que afasta a tão proclamada sociedade civil da intervenção, da cidadania e da política.

Mas esta desilusão dói mais quando é causada por aqueles que pensávamos partilharem as nossas ideias.

Não sou uma mulher de fé. Mas agora só me resta... acreditar.

18 janeiro 2007

Pátria

Soube da definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
as linhas que no mapa da memória
a mestra palmatória
desenhou.

Hoje
sei apenas gostar
duma nesga de terra
debruada de mar.


(poema de Miguel Torga; pintura de Paula Rego: a dança)

17 janeiro 2007

Ofertas originalíssimas

Nestes tempos maravilhosos da explosão tecnológica, em que já podemos squenciar o nosso próprio DNA, único e transmissível à nossa descendência, já há quem faça negócio a vender ideias para ofertas: T-sirts estampadas com a foto da nossa dupla hélice, quadros com a sequenciação fotografada ou pintada, colares de DNA, efim, é só dar asas à imaginação!

O Vírus que se fala (2)

É claro que a descoberta de uma vacina que impeça a infecção persistente pelos vários tipos de VPHar significaria o fim das lesões pré cancerosas e dos cancros associados a estes vírus.

Mas as coisas são ligeiramente mais complicadas. É verdade que cerca de 75% das lesões pré cancerosas e cancros estão associadas aos VPHar tipos 16 e 18. Mas os restantes 25% estão associados a outros tipos virais.

Para complicar um pouco mais também se sabe que os tipos virais têm distribuições geográficas diferentes: os tipos mais frequentes no continente americano são diferentes dos mais frequentes na Europa Central, que são diferentes dos da Europa de Leste, que são diferentes dos de África, que são diferentes dos da Ásia. Em Portugal, que é um país com grande mistura populacional, com gentes de todas as áreas geográficas, e com grande mistura de populações, não se sabe bem quais são os tipos mais frequentes.

A vacina que está comercializada é tetravalente, o que significa que é activa para 4 tipos virais: 2 VPHbr (6 e 11) e 2 VPHar (16 e 18). Até agora não se demonstrou que essa vacina fosse activa para outros tipos virais, estando a ser desenvolvidas vacinas com mais de 4 tipos de VPH.

Ou seja, a eficácia da vacinação nas raparigas, administrada antes da puberdade, só será demonstrada dentro de 15, 20 anos. Se não se sabe quais os tipos de VPH mais frequentes na população portuguesa, esta vacina pode ser mais ou menos eficaz.

É preciso ter a noção que a vacina não deve substituir os programas de rastreio de cancro do colo do útero, por análises às células ou por determinação da existência ou não de VPHar, pois pode estar a criar-se uma falsa noção de quem for vacinado está 100% seguro de não ter (aquele) cancro.

Por isso se entende a cautela dos serviços de saúde na ponderação da inclusão desta vacina no Plano Nacional de Vacinação.

para mais informação:



O Vírus de que se fala (1)

Já que se fala de HPV, gostaria de juntar o seguinte:

O Human Papilloma Vírus (HPV) ou, em português, Vírus do Papiloma Humano (VPH), é responsável por vários tipos de lesões verrucosas na pele (verrugas vulgares) e na mucosas (da boca, da laringe, do esófago, dos órgãos genitais – pénis, colo do útero, vagina), ânus, etc. (condilomas). Este vírus propaga-se por contacto directo (as verrugas multiplicam-se pela pele, habitualmente por contágio feito com as mãos do próprio, os condilomas nos órgãos genitais propagam-se por intermédio de contactos sexuais).

Há muitos tipos de VPH, ou seja, os que causam as verrugas na pele são diferentes dos que causam condilomas. Numa enorme percentagem de casos, embora as pessoas possam ser infectadas pelo vírus, o seu sistema imunitário fá-lo desaparecer rapidamente (clearence viral) e não chegam a desenvolver quaisquer lesões.

Isto é verdade para todas as infecções, nomeadamente as dos órgãos genitais. Assim, durante a vida sexual das mulheres e dos homens, há inúmeras infecções por VPH que são resolvidas sem qualquer problema.

Vários tipos de VPH estão associados ao desenvolvimento de lesões benignas – VPH de baixo risco (VPHbr), enquanto outros tipos estão associados ao desenvolvimento de lesões pré cancerosas e de cancros – VPH de alto risco (VPHar), neste momento já identificados 14. Estas infecções são muitíssimo frequentes, estimando-se que as mulheres entre os 25 e os 50 anos tenham 80% de probabilidade de ser infectadas por VPHar.

Estudos feitos em várias áreas geográficas demonstraram que, para que haja desenvolvimento de lesões pré cancerosas, é necessário que haja uma infecção viral persistente, o que acontece em cerca de 20% das infecções em mulheres com menos de 25 anos e em 50% de infecções em mulheres com mais de 50 anos.

Ou seja, apenas 6 a 11% das mulheres que tenham infecção persistente por VPHar desenvolvem lesões pré cancerosas, e destas apenas uma em cada mil mulheres (1/1000) terá um cancro.

Tudo isto para concluir que, embora todos os cancros do colo do útero (um dos cancros frequentes em mulheres) estejam associados a infecção por VPHar, ter infecção por VPHar só numa pequena percentagem de casos significa ter lesões pré cancerosas e, ainda em menor percentagem, cancro.

14 janeiro 2007

Nós, pessoas

As pessoas não são boas nem más. São pessoas.

Têm mais dúvidas que certezas quando, repentinamente, se questionam sobre assuntos em que nunca se detiveram a pensar. Assuntos que correm nas margens das suas vidas e que só as incomodam em raras ocasiões, todas súbitas, desastrosas, misteriosas, dolorosas, que as deixam momentaneamente desequilibradas.

Nos enormes intervalos em que vivem as vidas pesadas ou leves, sofridas ou alegres, iguais a tantas e todas as outras vidas que conhecem, sabem surdamente que esses assuntos são de evitar.

Não somos bons nem maus. Somos. Todos.


(pintura de Jose Garcia: people)

Referendo


Não sei se restam algumas dúvidas, quanto ao que vou votar.

12 janeiro 2007

Agora

Agora que me criei
dentro das minhas rugas
fundas, castas, sinuosas
vindas da terra e da alma,

agora que me enfrentei
com sonhos e ventos agrestes,
em que me sinto torcer
em árvore seca e rugosa,

agora é que me poisas
aves de asas em leque
que murmuram ladainhas
de letras e versos de sombra,

agora é que me pintas
amoras em ramos quebrados
de horas e dedos abertos
carentes, sedentos de luz.


(pintura de Sylvie Kantorovitz: clump of trees)

11 janeiro 2007

Ética

Não é fácil existirem debates desapaixonados quando nos referimos à IVG. Tudo o que diga respeito a valores ou crenças é acalorado e desafiador.

Ao fundamentarmos as nossas atitudes e opiniões, para além da paixão, devemos socorrer-nos de toda a informação disponível sobre o assunto.

Estudos estatísticos da magnitude do aborto clandestino, as suas consequências nas mulheres que os praticam, sociais e económicas, a curto, médio e longo prazo, estudos e relatórios do que se passa ou passou nos países que adoptaram uma legislação mais liberal, a forma como a IVG é assumida em termos de serviços de saúde, comunicações e artigos científicos sobre as várias vertentes.

A responsabilidade da informação detalhada e rigorosa é de todos. Aos médicos pede-se rigor na análise, transparência e clareza nas exposições, linguagem simples, acessível e exigente. Não se pode aceitar que profissionais de saúde usem palavras sem terem o cuidado adicional de transmitirem o seu significado, falem de sindromas não reconhecidas na literatura científica da especialidade, apontem trabalhos científicos sem revelar quem os fez, onde estão publicados, onde se podem ler, principalmente quando pretendem proporcionar informação científica.

Ao desinformar-se a população apenas se está a contribuir para o aumento do medo, da culpa e dos mitos.

O papel dos médicos neste debate, enquanto investidos do seu papel profissional, deverá ser o de informar e não o de brandir ameaças veladas à saúde futura de quem decidir interromper a gravidez, sem revelar em que se baseiam tais afirmações.

Enquanto meros cidadãos podem assumir a acalorada e intensa paixão dos que defendem valores, sejam eles quais forem. Mas há uma linha de demarcação que não deve ser transposta, em nome da ética e da honestidade intelectual.

10 janeiro 2007

Poção

Ouço-te em passos
distraídos
entreabro a porta
aos feitiços.

Guio-te no silêncio.
Sem demora
chegas e instalas
os sentidos.


(pintura de Mary Burke; potion)

09 janeiro 2007

Foi você que pediu informação?

Muitas vezes me interrogo se vale a pena tanta adrenalina, tanto esgrimir de argumentos, tanto espanto ou consentimento, baseado no que ouvimos.

Se quisermos investigar ligeiramente algumas das notícias que aparecem todos os dias nos media, ou porque nos intrigaram, nos exaltaram, ou apenas porque, por razões profissionais ou de interesse particular, as conhecemos, apercebemo-nos das enormidades que são ditas e repetidas à exaustão durante dias, tecendo-se considerações e opinando a partir de fragmentos de uma conversa ou de declarações improvisadas a perguntas jornalísticas bombásticas.

Os assuntos morrem rapidamente, sem que ninguém aprofunde as tais respostas ou afirmações. Há uns dias ouvi Clara Ferreira Alves dizer, com a petulância que a caracteriza que, em Portugal, não há jornalismo de investigação. E com toda a razão: fala-se de despachos ministeriais que são contraditórios com decretos-lei mas ainda não vi, em nenhum órgão de informação, informar-se o público do que realmente constam os tais despacho ministerial e decretos-lei.

Fala-se de eventuais testemunhos de alegados voos ilegais que terão passado pelas Lages, na saga de espionagem em que se está a transformar o inquérito do parlamento europeu aos voos da CIA, mas as únicas notícias que se ouvem são os fragmentos das declarações dos vários intervenientes no processo, para demonstrar que Ana Gomes enlouqueceu, ou para a defender, como é o caso de raros camaradas seus de partido. Não há nenhum jornalista que informe ao certo de que consta exactamente o mandato da comissão ou que listas (e o que constam delas) são as referidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ana Gomes.

Fala-se de corrupção a vários níveis e João Cravinho passou a ser considerado o paladino dos incorruptíveis contra a corrupção. Mas porquê e a que propósito? Como bem lembrou A. Teixeira, não parece ter sido esse o seu papel no caso da Junta Autónoma de Estradas. E todos repetem que é incómodo ao governo, sem ninguém referir que atitude terá ele dito ou feito que incomodasse assim tanto a governação.

Assim como os casos das facturas falsas, do encerramento de maternidade e de escolas, dos anonimatos versus privacidades, do naufrágio dos pescadores na Nazaré, em que ainda não vi qualquer reportagem que abordasse este triste e gravíssimo tema com intenção de perceber, de facto, o que se passou, etc.

As generalizações são sempre perigosas e injustas, mas quando se fala de corporações, e elas aí estão bem vivas, atentas e com posições autistas e de pseudo auto preservação, seria inovador que os jornalistas se apercebessem (e denunciassem vigorosamente) da total ausência de seriedade, rigor e profissionalismo de uma grande parte do seu trabalho.

Mas o que me incomoda mais e que considero perigoso para o funcionamento da democracia, é que toda esta incompetência pode ter consequências sérias na acção política, pela pressão que se impõe a propósito de assuntos que ninguém está interessado em compreender ou que, pelo contrário, o único interesse parece ser induzir a população a pensar de determinada maneira.

Em princípio, o pluralismo de opiniões e a profusão de meios informativos reduz esse perigo mas com as notícias, tal como com os preços da gasolina e do pão, parece haver uma estratégia de concertação (involuntária) na quantidade de ignorância e negligência a evidenciar.

08 janeiro 2007

Trave mestra

Sinto que se vão partindo
traves mestras
cristais de lume
sinto névoas de cinza
perturbando
olhares renovados
de claridade.

Não faço mais que desembrulhar
folhas de metal
presas como sementes
à terra.

07 janeiro 2007

Responsabilidade individual

Ouvem-se todos os dias várias pessoas a comentar a ingerência do Estado na vida privada, regulamentando tudo o que pode e se calhar muito do que não deve. No entanto, não ouço as mesmas pessoas insurgirem-se pelo facto dos cidadãos se desresponsabilizarem totalmente das suas opções e da escolha de prioridades na vida.

Quando lemos várias notícias e reportagens acerca do sobreendividamento das famílias, só falta, no fim, a eterna expressão: o governo é que devia…

O apelo ao consumo, a publicidade enganosa, a relevância da aparência do que se tem, na sociedade ocidental actual, são estímulos constantes e absolutos que nos pressionam a querer mais, sempre mais, sem se saber exactamente o quê e para quê.

Achamos indispensáveis e cremos que são direitos absolutos o que nos aparece como essencial na televisão ou no vizinho do lado. As viagens de férias, os écrans de plasma, o cabeleireiro, a roupa da moda, os relógios a condizer, as remodelações e a decoração das casas, cíclicas e por estação, os telemóveis com fotos, vídeos e internet, os casamentos que custam milhares de euros, os corpos esbeltos, sem rugas, pêlos ou banhas, os trabalhos criativos, sem horários e bem pagos, enfim, tudo o que nos é apresentado como essencial à nossa felicidade e cuja falta nos mergulhará na mais absoluta tristeza e nos transformará nuns marginais pobres e suburbanos.

O acesso ao crédito pessoal é muitíssimo fácil e propagandeado. Mas não conheço nenhuma instituição de crédito, bancária ou outra, que venha a correr atrás dos cidadãos obrigando-os a subscrever um determinado montante e assumindo um compromisso económico durante vários meses, impedindo-os de fazer contas.

São os cidadãos que têm que saber quais são as suas prioridades e assumir a sua total responsabilidade. Antes de ir de férias às Caraíbas com a família inteira, pagando um maravilhoso pacote em suaves prestações, que se somarão às suaves prestações com que se comprou um confortabilíssimo sofá que até estava em promoção, que se somarão às menos suaves prestações do carros e da casa, talvez seja importante saber se é melhor ir às Caraíbas do que comer durante o resto do ano, se é mais importante sentar-se num sofá novo do que pagar os livros de estudo dos filhos, se é preferível prescindir dos transportes públicos ou de uma casa onde morar.

Sou absolutamente solidária com que está desempregado e não sabe como vai pagar compromissos que podia assumir enquanto tinha um ordenado ao fim do mês. Acho muito bem que se criem gabinetes de apoio a quem precisa de aprender a gerir as suas economias, parcas ou abundantes.

O que não posso aceitar é que essas pessoas se achem vítimas dos bancos, das publicidades, da globalização, do mundo, quando, na imensa maioria das vezes, são vítimas delas próprias, não percebendo que a opção está sempre e apenas na sua mão: comprar ou não comprar, eis a questão.

(desenho de Alain Gonçalves: atolados)

06 janeiro 2007

Perfilados de medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…


(poema de Alexandre O’Neill; pintura de Brian Morrison: fear this)

Eu voto SIM

Começou a campanha pró e contra a despenalização da IVG e já começaram a surgir os argumentos pouco edificantes.

Se a campanha se radicaliza, com os defensores dos movimentos contraditórios a usarem a culpabilização, a chantagem e a humilhação psicológicas, com provas de vida e de morte, com a contabilidade da ignorância, esgrimindo falácias, como enquadramentos sociais que já não existem, paternalismos bacocos ou protestos de ajuda e compreensão sociais totalmente oportunistas e hipócritas, o único resultado vai ser uma enorme abstenção.

Até porque é muito mais fácil ter dúvidas que opinar, deixando a decisão nas mãos de fundamentalistas de um ou de outro lado.

A pergunta que vai ser referendada, com vista à alteração da legislação, não pretende convencer ninguém de que a IVG é um método anticonceptivo. Apenas pretende despenalizar quem o faz, dentro dos limites que hoje se consideram aceitáveis (segundo o conhecimento científico actual do desenvolvimento fetal).

A concepção filosófica do que é a vida, de quando se inicia e de quando termina, não é universal. As convicções pessoais, ditadas pela personalidade, educação, enquadramento religioso e cultural de cada indivíduo permanecem inalteráveis, seja qual for a legislação que cada país adopte. Mas não devem ser as convicções de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos que devem resultar em leis que se aplicarão a múltiplos grupos e indivíduos com formações, personalidades e crenças diversas.

Para além disso o problema da IVG ilegal e clandestina é um problema de saúde pública, como está demonstrado por inúmeros estudos e por diversas organizações.

As dúvidas quanto à implementação da IVG em segurança, utilizando os serviços de saúde, públicos ou outros, também não são originais e já foram objecto de documentos e de orientações da Organização Mundial de Saúde.

Cada um deve proceder como acredita que está certo, respeitando os seus valores e os dos outros. Para isso é indispensável pensar e repensar, falar e discutir, respeitar e tolerar a diferença de opiniões e votar no dia 11 de Fevereiro.

Eu votarei SIM.

05 janeiro 2007

A época de Correia de Campos

A caça ao Ministro da Saúde está em pleno.

Tudo o que o Ministro diz é repetido à exaustão, sem qualquer pedido de explicação pelos próprios jornalistas, servido depois aos seus caçadores que, sem qualquer cuidado ou dúvida, se lançam em corrida numa torrente de acusações e expressões de espanto e indignação, acabando por resultar num campeonato de disparates, sem se perceber quem ganha este triste jogo.

A TSF teve hoje outra caixa jornalística: A mulher que não quiser ser identificada num hospital público deve ir a uma clínica privada – disse Correia de Campos.

Enormidade!comenta o Bastonárioo anonimato é garantido e tem de ser garantido no SNS em todas as circunstâncias – e explica – o segredo profissional compete a todos os funcionários que lidam com informação confidencial.

Ora uma coisa é o anonimato, outra é a confidencialidade e o direito à privacidade a que todos os doentes têm direito, independentemente do sítio onde são atendidos ou de quem os atende.

Quando uma pessoa recorre a qualquer serviço de saúde público, Centro de Saúde ou Hospital, tem que se identificar através do BI, do Cartão do Utente, do Cartão do Subsistema de Saúde a que pertencer (caso pertença a algum), dar o seu nome, morada, nº de telefone, faz uma ficha de inscrição e é consultado, faz exames complementares de diagnóstico, é tratado e dispensado. Faz-se um diagnóstico e actua-se em conformidade. Todos estes actos são registados e são totalmente confidenciais, estando todos os profissionais que contactaram com o processo e com o doente obrigados a sigilo profissional. A isto se chama respeito pela privacidade e confidencialidade do doente.

Esta cadeia de acontecimentos é a mesma seja qual for o problema, doença a pergunta que leva um doente ao serviço de saúde, desde uma dor de dentes, a uma unha encravada, a uma cirurgia para laqueação de trompas, interrupção da gravidez, lipoaspiração, ablação de uma mama por cancro, tudo, tudo, tudo. As únicas excepções são as doenças que, por lei, é necessário declarar obrigatoriamente, como a SIDA, a Hepatite ou a papeira (parotidite epidémica), por exemplo, o que não retira a obrigatoriedade de sigilo profissional.

Se, posteriormente, o caso desse mesmo doente for usado para ensino, num estudo científico ou outros, só o pode ser se autorizado pelo próprio doente e se garantido o anonimato do mesmo. Ou seja, fala-se de um caso de uma doença de um indivíduo do sexo tal, com a idade tal, da raça, tal, etc, sem nunca referir qualquer característica que possa levar alguém a identificar o doente. Isso é anonimato.

Será que, caso uma mulher queira proceder a uma intervenção cirúrgica, nomeadamente uma cirurgia plástica ou uma IVG, e se o quiser fazer sem revelar a sua identidade, ou sob nome falso, seja possível fazê-lo numa clínica privada? Não sei qual a legislação sobre essa matéria. Mas a confidencialidade, o sigilo a que estão obrigados todos os profissionais que tenham acesso ao processo do doente, e o respeito pela confidencialidade do caso é universal.

As enormidades que se dizem e que se ouvem vêem de todos os lados.

Não seria melhor que declarassem tréguas aos disparates?

04 janeiro 2007

Afinal como é (ou foi)?

O facto do Tribunal de Contas (TC) ainda não ter aprovado as contas do Estado de 2005 deixa-me perplexa!

Em primeiro lugar, estamos em Janeiro de 2007 e o TC deveria estar a preparar-se para discutir as contas de 2006. Em segundo lugar, o TC diz que há ilegalidades, mas o Ministro diz que não; o Ministro diz que é um problema de método, o TC diz que
é um problema de substância.

Para quem, como eu, não percebe nada de finanças, a confiança em Teixeira dos Santos que, até agora, tem mostrado segurança e rigor, fica abalada, até porque não se entende se há e quais são os problemas.

Também não deixa de ser curioso que os que questionaram a credibilidade de Guilherme de Oliveira Martins aquando da sua nomeação para o TC, agora levem tão a sério o seu parecer e as suas dúvidas

Malhas que o império tece…

Todos diferentes, todos iguais

Já tinha lido um post no Canhoto sobre a discussão parlamentar de um projecto de lei, assinado pelo Bloco de Esquerda (BE), que pretende abrir a possibilidade de formação de turmas bilingues (Português e a língua materna dos pais) e multiculturais, aventando a hipótese de haver mais de um professor por turma, com o propósito de integrar melhor os filhos dos imigrantes na sociedade.

Concordo com a maioria do que Rui Pena Pires escreve. A escola pública deve ser multicultural pela constituição multicultural e multiracial das turmas, em vez de se formarem guetos de escolas e de turmas para os filhos de imigrantes, e escolas e turmas para os filhos de portugueses.

Esquece-se o BE de que os filhos dos imigrantes já são portugueses, ou assim devem ser considerados, e que para a sua integração ser possível, nomeadamente no mercado de trabalho, português e europeu, devem ter exactamente as mesmas oportunidades, na qual está a total aprendizagem e dominação do Português e do Inglês. Só assim os filhos dos imigrantes poderão aspirar a terem uma integração plena na nossa sociedade.

Esta proposta de lei é demagógica e paternalista, acentuando a desigualdade de oportunidades numa escola que a deve reduzir, potenciando a formação de grupos de alunos diferentes e, portanto, marginais, pelas origens geográfica, linguística e cultural (e social!) dos seus pais.

02 janeiro 2007

O povo é sereno

Este ano, para variar é (mais uma vez!) o ano de todas as definições. Não ouvi o discurso do Presidente, mas não é só ele que quer resultados.

Todos nós aguardamos que as subidas nos preços, os aumentos de impostos, a redução das comparticipações nos medicamentos, a redução das pensões, o aumento da idade da reforma, as famosas reformas da administração pública, da educação, da saúde, da segurança social, da justiça, das forças armadas, enfim, a reforma do país, comece a dar alguns frutos!

Continuamos a aguardar, que o povo é sereno mas, até agora, tem sido quase só fumaça! (*)

(*) – Palavras de Pinheiro de Azevedo (primeiro-ministro de então), no Verão quente de 1975, quando se ouviram rebentamentos e fumo no meio da multidão que enchia o Terreiro do Paço, em apoio ao VI governo provisório.

01 janeiro 2007

O primeiro de Janeiro

Nada de novo por entre as terras de Riba-Côa. O pernil de novilho transformou-se em lombo de porco e o espumante espumou mesmo no minuto anterior à meia-noite.

Jornais?? Hoje não há Correio da Manhã nem jornais desportivos! E o quiosque está fechado.

Nada de novo por terras de Riba-Côa. A paisagem continua a ser arrasadora e não há nada como um banho de ar puro logo no primeiro de Janeiro!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...