28 fevereiro 2006

Entidade Reguladora


Conheço pessoas muito bem intencionadas, que se apelidam defensoras da democracia e da liberdade de expressão, totalmente contra qualquer censura, que veriam com bons olhos a existência de uma qualquer “entidade” que “regulasse” os conteúdos televisivos, nomeadamente no que diz respeito à violência e aos “reality shows”, principalmente para “proteger” as crianças.

Não ocorre a essas mentes bem informadas que existe uma coisa chamada o poder paternal, ou maternal, com propriedades educacionais e disciplinadoras, que nenhuma entidade pode substituir, ou o simples gesto de desligar a televisão, decisão insubstituível por um qualquer órgão regulador.

Assim parece-me que a decisão editorial, sobre o que publicar ou não, desde “cartoons” humorísticos a notícias alarmantes, de escândalos políticos a indiscrições privadas, não deve ser substituída nem “regulada” por ninguém, singular ou colectivo.

Dar-se esse poder a uma qualquer comissão, por muito boas intenções iniciais, é abrir a possibilidade de impedir a investigação ou publicação de matérias potencialmente “perigosas” para certas pessoas ou grupos. Acaba por ser uma forma encapotada de censura.

(imagem copiada de
www.blogs.ya.com/opinion/200505.htm - Sandra Berlanga, 03/05/2005)

Co-incineração (2)

Embora tenha procurado com afinco na Internet, não consegui encontrar o relatório, ou parte dele, sobre o estudo epidemiológico à população de Souselas. Só encontrei citações em vários jornais, afirmando que há lá mais doenças respiratórias (bronquites, asma, etc), endocrinológicas e malignas (não diz quais), do que no restante país.

Não conheço o estudo. Mas algumas coisas me intrigam, como por exemplo: quais as estatísticas utilizadas para se saber a incidência destas várias doenças a nível nacional e regional, comparando-as com as de Souselas?

Por outro lado, faz-se uma associação, nos jornais, entre o défice de saúde pública e a existência de uma cimenteira que, se não estou em erro, foi instalada há cerca de 30 anos. Depois utilizam-se essas informações para concluir que o início da co-incineração em Souselas pioraria ainda mais a saúde das mesmas populações.

Sejam quais forem os resultados e conclusões desse estudo epidemiológico, só é pena ele ter-se realizado muito por motivos de luta política (pelo menos assim parece). Mas ainda bem que se realizou! Espero é que não seja usado para acirrar a mesma luta política.

Se, em Souselas, a saúde pública tem sido ameaçada pela presença da cimenteira (o que me parece muitíssimo provável), o processo de co-incineração, pela diminuição de emissão de poluentes para a atmosfera, só melhoraria o ambiente (segundo os documentos da CCI que consultei).

Estes assuntos são demasiado sérios para serem tratados de forma leviana, em argumentos e contra argumentos de partidos políticos e organizações “pró” ambientais. A verdade é que continuamos a aguardar uma decisão de como tratar os resíduos industriais perigosos, seja ele a co-incineração, a incineração dedicada ou outro qualquer!

(Parece que Manuel Alegre, prudentemente e ao contrário do que fez num passado recente, decidiu não se pronunciar, enquanto não conhecer o relatório da CCI.)

27 fevereiro 2006

Co-incineração


A co-incineração, um processo de tratamento de resíduos industriais perigosos, foi objecto de um estudo aprofundado, com a formação de uma Comissão Científica Independente, (CCI) nomeada pela Assembleia da República, no tempo do governo Guterres (1999), cuja composição, objectivos, métodos de trabalho, etc, obedecia a um conjunto de leis emanadas pela mesma assembleia e pelo mesmo governo.

Ao contrário do que é habitual neste país, a dita CCI, presidida pelo Doutor Sebastião Formosinho, não só levou a cabo as tarefas que lhe foram incumbidas, como produziu relatórios, conclusões e recomendações, tudo obedecendo ao método científico que, pensava eu, tiraria as teimas relativamente aos alegados perigos para a saúde das populações.

É claro que, como os resultados cientificamente comprovados não eram os que convinham a determinados políticos, demagógicos e ignorantes, de todas as forças políticas, nomeadamente do PS, e estou a lembrar-me de Manuel Alegre e de Carlos Pimenta, por exemplo, deu-se o dito por não dito, a CCI já não era científica e muito menos independente e, o governo seguinte, de Durão Barroso, produziu abundante legislação para revogar a anterior.

Neste momento voltou a discussão. De 2002 até agora, nem co-incineração, nem incineração sem co, nem nada. Espero que, de uma vez por todas, pelo menos neste assunto, se esqueçam as politiquices, reatando o assunto onde ele foi deixado – no avanço deste processo de tratamento de resíduos industriais perigosos que, por essa santa Europa, parece ser razoavelmente seguro e tolerado.

A propósito, há um site com tudo (ou quase) sobre este processo Kafkiano.
http://paginas.fe.up.pt/~jotace/home.htm

26 fevereiro 2006

Carnaval


O Carnaval é uma festa tolerada e adaptada pelo catolicismo, dos primitivos festejos da chegada da Primavera, das festas em honra de Ísis, no Egipto, ao deus Pã (Lupercais) e a Baco (Bacanais).

A Igreja Católica, com o jeito que se lhe conhece, transformou estas festas pagãs num período prévio à Quaresma (40 dias, contados da 4ªfeira de cinzas ao Domingo de Páscoa), época de jejum e oração. Assim, chamou-se Carnaval (carne levare, depois carne vale - adeus, carne! - alusão à proibição de comer carne na Quaresma) ao período que se estende do dia de reis à 4ªfeira de cinzas, principalmente os 3 últimos dias.

Não percebo porque é que se está a comemorar o Carnaval. Tenho a impressão de que estamos na Quaresma há bastante tempo, e não sei em que ano chegará o Domingo de Páscoa!

(pintura de Daniele Jaquillard: Carnaval)

25 fevereiro 2006

Correntes D'Escrita


No princípio do ano houve, como de costume, vários jornais, blogues, revistas, etc, a fazerem revisões dos melhores discos, filmes e livros.

Para meu espanto, alguns não fizeram parte de nenhuma lista como, por exemplo: “A sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa e “A Louca da Casa”, de Rosa Montero.

Foi com grande satisfação que vi estes livros entre os finalistas do prémio Correntes D’Escrita deste ano, tendo ganho Carlos Ruiz Zafón (“A sombra do Vento”). É um livro que se lê sem parar, com personagens bem caracterizadas e uma história em espiral, que nos absorve da primeira à última frase.

Desconfio que o meio literário é feito de múltiplos meios, mais ou menos hierarquizados, mais ou menos mediáticos, mais ou menos badalados… pouco miscíveis… ou não?

Justiça


Então e o tal inquérito rigorosíssimo e urgentíssimo a propósito da lista dos telefones das entidades, enviada (por engano?) pela PT? Tudo o que se viu foi a apreensão do material informático do “24 horas”.

Por muito que eu queira acreditar no nosso sistema judicial, ele teima em demonstrar que não existe.

A impunidade que paira sobre tudo e sobre todos, por um lado, a ameaça de ser perseguido quando se diz ou faz o que não convém, mesmo que de forma encoberta, por outro, corroem a nossa democracia.

Aguardamos, sem qualquer esperança, a ultimação deste inquérito, e o da Casa Pia, e o de Fátima Felgueiras, e o de Isaltino, e o Eurominas, e o “apito dourado”, e o…

MIT (ou mito?)

Hoje, na página 39 do “Público”, num cantinho, e no “Jornal de Notícias” on-line, vem a notícia da assinatura do acordo entre o governo português e o MIT, no CCB, com a presença do primeiro-ministro José Sócrates, e do chanceler do MIT, Phillip Clay.

Ainda bem. Mas dá que pensar: com a poderosa máquina de propaganda que o governo governa, após tantas cerimónias a propósito de investimentos de milhões em vários projectos que “relançarão” a nossa economia, que é feito da bandeira do Plano Tecnológico? Merece apenas esta pequena e enfiada lembrança?

24 fevereiro 2006

O Mal


Reflexões sobre o Mal, ou seja, perguntas sobre o Bem e o Mal.

Discurso do Presidente da República por ocasião das Conferências de São Domingos "O Cérebro entre o Bem e o Mal" - 28 de Outubro de 2003

(…) Tempo de dúvidas mais do que de certezas, este. (…) como é possível haver Mal, havendo Deus? Quem criou o Mal, se Deus é, por definição, Omnipotente e Bem Absoluto? Será que há Mal, como dizem alguns, para que o homem possa ter livre arbítrio e escolhê-lo? E não haveria outra maneira de o homem poder escolher?
(…) não havendo Deus, como encontrar fundamento absoluto para o Bem e para o Mal; ou tal fundamento deixa de ser possível? Será que o relativismo ético é consequência inevitável e inelutável da morte de Deus? E se o Bem e o Mal são construções culturais e sociais, como alguns pensam, como podem então ser conceitos universais, sobre os quais assenta uma ordem? (…) que nos diz a neurobiologia sobre o Bem e o Mal? É possível encontrar no cérebro aquilo que poderíamos chamar uma sede para o Bem e outra para o Mal?
O Mal reside no corpo ou na alma? Que atracção mórbida tem o homem pelo mal que o leva a gostar de ver, fascinado, filmes e noticiários violentos e cruéis, que são a evidência do Mal? Há uma estética do Mal, uma beleza perigosa no Mal, como se revela em certas obras de arte? E que nos diz a psicanálise do Mal e do Bem? Como os relaciona com o inconsciente? E como se exerce assim a responsabilidade moral de escolher o Mal?
(…) Kant teria razão quando disse que há Mal que gera o Bem e Bem que gera o Mal (…)? Ou: a linha da demarcação que passa entre o Bem e o Mal é clara? Há males menores que podem funcionar como catarse para não se chegar ao Mal maior? Terminando: se o Mal muda, a justiça deve mudar com ele? E qual o significado ético dos casos limites com que a justiça tem de lidar: os criminosos inimputáveis? (…)

(pintura de Ben J. Knegt: Evil)

Crianças (2)


Coitado de quem não pode – assim se diz em bom português, com o trinado do fado na voz.

Mas assim se faz em Portugal.

Que fazemos, todos nós, a quem chamamos Estado, a todos os que, por infortúnio da sorte, deles e das suas famílias, são órfãos, de vivos e de mortos, sujeitos a maus tratos, pobres, sem referências, sem pais ou mães, ou sem substitutos que se dignem ser pais e mães?

Que fazemos, todos nós, que tanto nos preocupamos com o bem estar, a roupa, os jogos, os computadores, os “hamburgers”, os telemóveis, as chupetas, os rabinhos assados, os banhos, os talcos e as fotografias dos nossos filhos?

Para que servem estas Oficinas de S. José, e os Centros Juvenis de Campanhã, e os Tribunais de Menores, e os Centros de Reinserção Social?

Como alimentamos, tratamos, ocupamos, ouvimos, defendemos, motivamos, disciplinamos, exigimos, amamos estas crianças que nos têm a nós, ao estado, apenas a nós, nos compridos braços dos Directores, Técnicos, Psicólogos e demais profissionais?

Será que lhes ligam, que lhes apertam os sapatos, limpam os narizes? Será que lhes perguntam onde estiveram, conhecem os seus companheiros, sabem os seus dias de aniversário? Será que lhes ralham, lhes pedem mimos, lhes dão mimos?

Que fazemos, todos nós, às nossas crianças, aquelas que são filhos de quem não os quer?

(pintura de Adam Saiter: all the children are insane)

23 fevereiro 2006

Crianças


Menores suspeitos de homicídio no Porto ficam à guarda de pais e instituições
23.02.2006 - 21h06, Lusa, PUBLICO.PT

Todos os criminosos já foram crianças. E quando os criminosos ainda são crianças?

Que grupo, que prazer, que objectivo neste crime? Como podem crianças não recuar perante os gritos, o sangue, o fedor? Como podem crianças serem fisicamente capazes de eliminar, matar, acabar com a vida de alguém? Foi uma brincadeira, um ritual de iniciação?

Que vida para eles, depois desta morte?

(pintura de Danièle Jaquillard)

22 fevereiro 2006

O Guardador de Rebanhos (IX)


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(poema de Alberto Caeiro; fotografia do seu caderno, na página deste poema)

Para os amantes de Fernando Pessoa e de Alberto Caeiro, descobri um site fascinante e viciador.

Há algumas pessoas que são, ou foram, geniais: Leonardo da Vinci, J. S. Bach, Antoni Gaudí, Salvador Dali, Fernando Pessoa, só para citar alguns.

Alberto Caeiro é um dos meus heterónimos favoritos. Este site é indispensável e comovente. (http://purl.pt/1000)

21 fevereiro 2006

Estradas


Abro os olhos devagar,
palavras atropelam e misturam
os últimos suspiros do sono.
Saio de casa a navegar,
entre o céu e a terra as nuvens
despejam a náusea.
Entro no carro e deslizo,
além da estrada
a luz do sol.

(pintura de Wendy White)

Outra vez os professores e os sindicatos e as aulas de substituição. É penoso ouvir os que se dizem representantes de uma classe profissional dizer tantas banalidades, tantas palavras seguidas sem significado.

Os defensores da autonomia das escolas e dos projectos educativos não são capazes de conceber e organizar actividades, lectivas e não lectivas, que ocupem os estudantes durante os “furos”? Ou será que entendem a escola como um lugar onde se está, ocasionalmente, a debitar ou a receber aulas?

Estes são problemas repetitivos e enfadonhos. Dá a sensação que não se aprendeu nada! Espero que a Ministra da Educação não ceda.

19 fevereiro 2006

As árvores


As árvores,
solitário abandono
dos desejos,
esperam ao crepúsculo,
que alguma asa
as acaricie.
Voraz, na rapidez
da paisagem,
o murmúrio do silêncio.

(fotografia de Hugo Madeira)

As buscas, com a consequente apreensão de material na sede do jornal “24 horas”, embora arrepie os cabelos, mesmo sem se saber porquê, não pode ser comparável à coarctação da liberdade de expressão.

Apesar de todos os atropelos, quero acreditar que estamos num estado de direito, e que foram mandados judiciais que, no âmbito de uma investigação e dentro da lei, permitiram as referidas buscas, e que todo o material apreendido será tratado, mais uma vez, de acordo com a lei.

Na verdade, ninguém deve estar acima da lei. Infelizmente, os precedentes não são de molde a tranquilizar-nos. Está tudo muito mal explicado e agrava-se a desconfiança no nosso sistema judicial.

Hoje comprei “A velocidade da luz”, o último livro de Javier Cercas publicado entre nós. Li “Soldados de Salamina” de uma assentada e gostei muito. Já “O inquilino” não me deixou grandes saudades. Vamos ver. O tempo convida a ler, enrolada numa manta, com uma chávena de chá ao lado. Boa vida!

18 fevereiro 2006

Serviço Nacional de Saúde


Confesso que, para mim, é difícil discutir a gratuitidade e a universalidade do serviço nacional de saúde (SNS). De todos os papéis que atribuo ao estado, a garantia de prevenir a doença e de tratar os doentes, é dos mais importantes.

O aumento da esperança de vida aliado ao crescente recurso às novas tecnologias em diagnóstico e terapêutica, cada vez mais dispendiosas, disponíveis para quem precisa e não apenas para uma minoria que os possa pagar, pressionam os orçamentos que parecem sempre limitados.

Não se vê, portanto, no horizonte próximo, qualquer possibilidade, de diminuir o peso da despesa no sector da saúde. Pelo contrário, é previsível que continue a aumentar.

Então, como resolver este dilema?
Se calhar, redefinindo as obrigações do estado, para que se concentre naquilo que é mais importante.

Depois, na racionalização dos recursos técnicos e humanos, para tornar o sistema mais eficiente:
- acabar com as urgências mal equipadas e que não resolvem os casos urgentes, abertos 24 horas para atenderem (mal) 3 casos;
- formar unidades de urgência com profissionais especializados; acabar com o pagamento em horas extraordinárias daquilo que deveria ser feito durante o horário de trabalho;
- concentrar os meios em vez de os dispersar;
- premiar quem trabalha e punir quem o não faz;
- informatizar os serviços de modo a libertar o tempo dos profissionais e impedir a multiplicação inútil de informação;
- promover uma verdadeira competição entre o público e o privado, separando definitivamente os 2 sectores;
- investir nos cuidados primários de saúde;
- continuar a alteração da política do medicamento, liberalizando o sector farmacêutico, incentivando o mercado de genéricos, nomeadamente com a obrigatoriedade da prescrição por princípio activo. etc, etc, etc.

Ideias não me faltam!

O SNS já é financiado pelos cidadãos, não só indirectamente, com os impostos, mas também directamente, nos medicamentos, cuidados dentários e outros.

Se este não for o entendimento deste governo socialista, começo a questionar-me para que servem, de facto, os impostos que pago.

(pintura de Frida Kahlo)

15 fevereiro 2006

Politicamente correcto

Sempre me fez alguma confusão a necessidade que certas pessoas têm de demonstrar que são originais o que, em si mesmo, é a demonstração inequívoca que o não são.

Neste momento já há quem ache um horror dizer mal do Freitas, coitado, que mal! Agora já é giro ter pena dele e passar para outra notícia mais fresquinha.

Freitas do Amaral deve estar em fase de loucura, ou então não consigo entender as posições dele (ou do governo?). Um campeonato de futebol euro-asiático??? Então agora o embaixador do Irão diz coisas lamentáveis e está a reescrever a história? Qual a atitude a tomar?

E deve esquecer-se o assunto Freitas do Amaral? De facto, nada se leva a sério. Os temas surgem como bombas ruidosas, causam grande histeria e alarido, e imediatamente são descartadas por outras. Mastiga e deita fora.

À falta de oposição ao governo (o PSD está totalmente adormecido) temos uma profusão de reportagens imparciais e bem feitas, com estudos prévios e ponderação de todos os factores, prós e contras, de medidas importantes e de fundo, como o fecho de escolas do 1º ciclo.

É extraordinária a manipulação da informação. No fórum TSF desfilou uma enorme quantidade de gente a perorar contra a medida, ajudada por reportagens em cima do acontecimento, onde não se abordaram nunca as razões de natureza demográfica, alteração do número e da faixa etária dos residentes em determinadas regiões, a degradação da qualidade do ensino em escolas com escasso número de alunos, a diminuição da exigência, com professores que lá estão o mínimo de tempo indispensável, sem colegas para trocar impressões, a solidão dos alunos, a falta de materiais escolares ou do mínimo conforto, a despesa para manter, mesmo assim, a escola a funcionar, etc.

Também há pouco tempo se ouviu falar de uma manifestação contra o fecho dos hospitais do Desterro e Capuchos. É absolutamente inacreditável! Sempre ouvi profissionais queixarem-se da absoluta falta de condições destes hospitais, da estupidez de se gastar dinheiro a tentar adaptar espaços inadaptáveis, da dificuldade em manter estas estruturas velhas a funcionar como serviços decentes.

Eis senão que… agora estão contra!

O país de hoje não é igual ao que era há 30, 40 anos atrás. Houve populações que cresceram outras que quase desapareceram. A pirâmide etária é diferente, as necessidades e as exigências das populações também. Há, com certeza, necessidade de mudar, se calhar de acabar com algumas freguesias e concelhos e aumentar outros, fechar escolas, hospitais e outros equipamentos e abrir, noutros locais, serviços mais eficientes e bem apetrechados. Prover ao transporte rápido e seguro das crianças para uma escola com espaço físico e capital humano, por exemplo, essa é uma preocupação que não ouvi ninguém expressar.

Enfim, o estado tem que se reorganizar para nos servir melhor.

14 fevereiro 2006

Untitled


Hoje é mais um dia para te amar.

(Gustave Klimt)

Untitled

Não sou particularmente fã de comemorações e efemérides: Padre Manuel Antunes, Prof. Agostinho da Silva, pessoas de quem pouco se sabe ou fala e que, depois de morrerem, ocupam, em datas determinadas, as primeiras páginas dos diários e as aberturas dos telejornais. Durante três ou quatro dias todos os conheceram e admiraram, recordam-se as vidas daqueles quase santos, ou definitivamente santos, para se esquecerem imediatamente a seguir, sem ficarem no imaginário colectivo, nos livros da escola, na memória de quem não foi seu contemporâneo.

Portugal não reconhece os seus valores, enquanto vivem, e não sabe enaltecê-los, depois de mortos. Mastiga-os em efemérides grandiloquentes e bacocas, o contrário do que os personagens homenageados representavam, arrasando a sua modéstia, transformando-os em “gente da moda”, tão perecíveis como a própria moda.

Mereciam mais dos seus concidadãos.

13 fevereiro 2006

À beira do abismo (2)


Começo a cultivar o espaço,
de livros, de flores,
de mim.

Nem pássaros, nem rimas,
letras que se posicionam,
como lhes apetece.

A janela vê mais
do que mostra,
de mim.

(pintura de Ndambo)

O mundo está inquieto, ansioso, perigoso. O clima está afectado, a poluição aumenta, os pobres são muitos, cada vez mais, cada vez mais pobres, multiplicam-se doenças potencialmente catastróficas, a fome mantém-se a mais catastrófica. Quando se descrê da vida, passa a crer-se na morte e os moderados tornam-se fanáticos.

O mundo que nós conhecemos, nós, os privilegiados, está à beira do abismo. O resto do mundo continua no abismo, mesmo que o defenda.

Saberá alguém como evitá-lo? Ou transformá-lo?

À beira do abismo

Temos um Primeiro-Ministro muito silencioso, mesmo quando os segundos ou terceiros fazem um ruído aterrador.

Temos um Presidente que, qual triste menino bem comportado, vai dizendo, quase a medo, algumas verdades a que ninguém dá importância.

Temos uma Assembleia da República, onde estão os representantes da nação, que fazem birras e apontam dedos acusadores a quem diz o que pensa.

Sempre é verdade que os números do desemprego estão a ser manipulados? E que se passa com o urgentíssimo e rigorosíssimo inquérito às listas de telefones de altas entidades, que estavam sob investigação? Souto Moura ainda existe? E não pintou a cara de preto? Ou seja, ainda tem cara?

E o MIT, José Tavares, Mariano Gago e outros? Em que ficamos?

Enfim, por vezes é difícil acreditar que o país já existe há 800 anos. Parece que está sempre à beira do desmoronamento!

12 fevereiro 2006

Risus


Sobremesa

Quando a melancolia enche o sol, o esvazia do
seu brilho, faz baço o amarelo do rebordo, apaga
os fios de fogo que da sua esfera fulgem, pego
nele e ponho-o na travessa do bolo. Com a faca,
corto-o; e ofereço-te
uma fatia de sol, que levas à boca; e ele volta a brilhar,
iluminando-te os lábios, os olhos,
o rosto. Então, beijo-te; e é como se
tocasse o sol; como se a sua chama me queimasse,
sem doer, ou como se a sua luz entrasse por dentro
de mim, quando a sobremesa
chega ao fim.

(poema de Nuno Júdice; pintura de Steve Falkenberg)

Se existe, esse ser inominado e eterno, criador e destruidor, de coisas e sentimentos, de matéria e almas, se existe, nalguma molécula do seu imaterial corpo, há-de encontrar-se uma centelha, um átomo, um conjunto proteico, um gene, que codifique o riso.

Apesar de tudo

Apesar de tudo
temos o céu azul
e as árvores a chover folhas
castanhas e verdes.
Ouvimos os sons da vida
e, de manhã,
continuamos a respirar.

O Pacheco Pereira é madrugador e optimista. Levanta-se e olha lá para fora, e continua. A vida, apesar dos pesares, é bela.

António Barreto, mais uma vez, no seu melhor (jornal “Público” de hoje).

Bom domingo.

11 fevereiro 2006

Livros


Entro na livraria. A porta é pesada, com vidros e madeira velha. O cheiro do papel ligeiramente poeirento invade-me. Olho a mesa central, com pilhas mais ou menos arrumadas, capas dispostas numa estética irreconhecível mas apetecida.

Amorosamente, pego nos livros, procuro o nome do autor, espreito a sua biografia, folheio, sinto a aspereza das letras impressas.

Fascínio e necessidade absoluta, mais do que de café ou cigarros, entro na livraria como numa catedral, num culto reverencial e absoluto, com a cadência dos fins de tarde e a inevitabilidade do caminhante.

(pintura de Van Gogh)

10 fevereiro 2006

Untitled


Notas dissonantes
Os teus cabelos brancos
O gole do amor

Ardem rugas insubmissas
Deito-me na tua pele
Desenho mãos

Entrelaço na cama
as tuas pernas
Respiro o teu sono

(pintura de Martin Bulinya)

Untitled

Inqualificáveis as manifestações orais e escritas de ilustres deputados e militantes do PS, nomeadamente de Ana Gomes e Vitalino Canas. A primeira com um longuíssimo texto no Causa Nossa, a tentar demonstrar o que o segundo disse na Assembleia da República: que "Estão bem uns para os outros, os caricaturistas irresponsáveis e os fundamentalista violentos, ambos só podem ser alvo da nossa condenação”.

A tanto chegou a cobardia moral, o seguidismo e a cegueira do partido do governo.

Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos

Fiquei a saber, através do herdeirodeaecio.blogspot.com, que também há uma Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos.

Convém notar que, tal como é referido nas notas explicativas, tudo está sujeito à Lei, ou Chari’ah, o que pode fazer toda a diferença (o texto está escrito em português do Brasil).


(…)
I – Direito à Vida
a. A vida humana é sagrada e inviolável e todo esforço deverá ser feito para protegê-la. Em especial, ninguém será exposto a danos ou à morte, a não ser sob a autoridade da Lei.
b. Assim como durante a vida, também depois da morte a santidade do corpo da pessoa será inviolável. É obrigação dos fiéis providenciar para que o corpo do morto seja tratado com a devida solenidade.
II – Direito à Liberdade
a. O homem nasce livre. Seu direito à liberdade não deve ser violado, exceto sob a autoridade da Lei, após o devido processo.
b. Todo o indivíduo e todos os povos têm o direito inalienável à liberdade em todas as suas formas, física, cultural, econômica e política – e terá o direito de lutar por todos os meios disponíveis contra qualquer infringência a este direito ou a anulação dele; e todo indivíduo ou povo oprimido tem o direito legítimo de apoiar outros indivíduos e/ou povos nesta luta.
III – Direito à Igualdade e Proibição Contra a Discriminação Ilícita
a. Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito a oportunidades iguais e proteção da Lei.
b. Todas as pessoas têm direito a salário igual para trabalho igual.
c. A ninguém será negada a oportunidade de trabalhar ou será discriminado de qualquer forma, ou exposto a risco físico maior, em razão de crença religiosa, cor, raça, origem, sexo ou língua.
(…)
XII – Direito de Liberdade de Crença, Pensamento e Expressão
a. Toda a pessoa tem o direito de expressar seus pensamentos e crenças desde que permaneça dentro dos limites estabelecidos pela Lei. Ninguém, no entanto, terá autorização para disseminar a discórdia ou circular notícias que afrontem a decência pública ou entregar-se à calúnia ou lançar a difamação sobre outras pessoas.
b. A busca do conhecimento e da verdade não só é um direito de todo muçulmano como também uma obrigação.
c. É direito e dever de todo muçulmano protestar e lutar (dentro dos limites estabelecidos em Lei) contra a opressão, ainda que implique em desafiar a mais alta autoridade do estado.
d. Não haverá qualquer obstáculo para a propagação de informação, desde que não prejudique a segurança da sociedade ou do estado e que esteja dentro dos limites impostos pela Lei.
e. Ninguém será desprezado ou ridicularizado em razão de suas crenças religiosas ou sofrerá qualquer hostilidade pública; todos os muçulmanos são obrigados a respeitar os sentimentos religiosos das pessoas .
XIII – Direito à Liberdade de Religião
Toda a pessoa tem o direito à liberdade de consciência e de culto, de acordo com suas crenças religiosas.
(…)
Notas Explicativas:
1. Na Declaração dos Direitos Humanos acima, a menos que o contexto propicie de outra forma:
a. o termo "pessoa" refere-se tanto ao homem quanto à mulher.
b. O termo "Lei" significa a Chari’ah, ou seja, a totalidade de suas normas provém do Alcorão e da Sunnah e de quaisquer outras leis que tenham sido baseadas nessas duas fontes, através de métodos considerados válidos pela jurisprudência islâmica.
2. Cada um dos direitos humanos enunciados nesta declaração traz uma obrigação correspondente. Cada um dos direitos humanos enunciados nesta declaração traz uma obrigação correspondente.
3. No exercício e gozo dos direitos citados acima, toda pessoa se sujeitará apenas aos limites da lei, assim como por ela se obriga a assegurar o devido reconhecimento e respeito pelos direitos e liberdade dos outros, e de satisfazer as justas exigências de moralidade, ordem pública e bem-estar geral da Comunidade (Ummah). No exercício e gozo dos direitos citados acima, toda pessoa se sujeitará apenas aos limites da lei, assim como por ela se obriga a assegurar o devido reconhecimento e respeito pelos direitos e liberdade dos outros, e de satisfazer as justas exigências de moralidade, ordem pública e bem-estar geral da Comunidade (Ummah).
(…)

09 fevereiro 2006

Guerra Santa



No chão uma cabeça
Na cabeça uma esquina
Na esquina uma pedra
Na pedra uma mão
Na mão um corpo
No corpo um anseio
No anseio a visão de Deus.

(pintura de Vajira Gunawardena)

Por causa do trabalho, não pude estar na Rua Castilho, em solidariedade com a Dinamarca. Sirva para o que servir, aqui declaro a minha solidariedade para com todos os que se sentem limitados nas suas liberdades.

É provavelmente verdade que todas estas manifestações estejam a ser manipuladas por alguns chefes fundamentalistas. Talvez seja verdade que o jornal dinamarquês é xenófobo.

Seguro é que a liberdade de expressão é um dos fundamentos da nossa civilização. O que virá a seguir?

07 fevereiro 2006

Mercado criativo


POÉTICA (I)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Aonde há espaço:
- Meu tempo é quando.

(poema de Vinicius de Moraes; pintura de Mary Ann Guliov)

“Mercado criativo” – foram palavras que ouvi Martim Avillez Figueiredo proferir, no fórum TSF.

“No caso da PT, a Sonae condiciona ainda o sucesso da OPA à alteração dos estatutos da operadora de telecomunicações e à restrição dos direitos especiais do Estado ou que este aprove o plano de reestruturação que será apresentado.” – Público online

“A Sonae manifestou ao Governo disponibilidade para manter a «golden share» do Estado caso consiga ter sucesso na Oferta Pública de Aquisição lançada sobre a Portugal Telecom, disse Paulo Azevedo na conferência de imprensa para apresentação da operação.” – Jornal de Negócios online

(Deve ser a criatividade do dito mercado, que se move e arrebita, em prodígios imaginativos!)

Lamentável

Ontem, no programa “Prós e Contras”, o Bispo Auxiliar de Lisboa, D. Manuel Clemente, no meio da sua prolixa argumentação, falando ininterruptamente sem dizer nada, brandiu a expressão “pensar bem”, a propósito da liberdade. Ou seja, há liberdade para quem pense bem. O que ele não explicitou, nem precisava, era qual a definição de pensar bem ou quem decidia da bondade do pensamento.

Ângelo Correia também se multiplicou na atitude de virgem ultrajada e indignada, relativamente ao horror perigoso que se estava ali a tentar demonstrar (Vasco Rato, entenda-se), confundindo uma infinidade de sensibilidades e culturas, e mais palavras politicamente correctas, penso que para agradar ao seu companheiro de lugar, o Xeque David Munir que, apesar de condenar as manifestações violentas, não permitiria a publicação dos "cartoons". Ou seja, ele tem direito a ficar ofendido, mas o cartonista não tem direito a publicar o que quer.

Inédito foi o facto de ter concordado, em várias ocasiões, com Vasco Rato, que, por norma, diz exactamente o oposto do que eu penso.

Lamentável a posição oficial do governo português, pela voz de Freitas do Amaral. É triste percebermos a falta de coluna vertebral de alguns países, como o nosso, tentando defender o indefensável.

06 fevereiro 2006

Momento


Sinto-me tão bem, rodeada pelo murmúrio da música, manta nos joelhos e gozo pela noite, a bebericar um chá de rooibos, passeando pela blogosfera.

Hoje, os problemas do mundo não me afligem. Egocentricamente, absurdamente, humildemente saboreio este momento de deleite.

(pintura de C Zhong)

05 fevereiro 2006

Declaração Universal (?) dos Direitos Humanos


Declaração Universal dos Direitos Humanos
(Proclamada pela Assembleia Geral da ONU a 10 de Dezembro de 1948)
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem;
(…)
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
(…)
Artigo 18°
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19°
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.
(…)

Perseguir a Felicidade


IN CONGRESS, JULY 4, 1776
The unanimous Declaration of the thirteen united States of America

(…) We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness. — That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, — That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness. Prudence, indeed, will dictate that Governments long established should not be changed for light and transient causes; and accordingly all experience hath shewn that mankind are more disposed to suffer, while evils are sufferable than to right themselves by abolishing the forms to which they are accustomed. But when a long train of abuses and usurpations, pursuing invariably the same Object evinces a design to reduce them under absolute Despotism, it is their right, it is their duty, to throw off such Government, and to provide new Guards for their future security (…) - Thomas Jefferson, Virginia (and alt)

Perseguir – seguir, procurar alcançar


(rascunho do documento)

Liberdade


A nossa sociedade tolerante, tolera Deus e Alá, tolera ateus, agnósticos, hereges, blasfemos, beatos, esotéricos, astrólogos, cartomantes e maledicentes, descrentes, pessimistas, demónios, ilustradores, “cartoonistas”, escultores, músicos, economistas, donas(os) de casa, sopeiras, desocupados, donos do mundo, como Bush.

Tolera até o intolerável, como os actos de violência desenfreada e gratuita perpetrada pelos intolerantes.
(pintura de Abu Taher)

04 fevereiro 2006

Personalizar

Através do ancestral método científico das tentativas e erros, tenho conseguido alterar o “template” do blogue.

Tenho-me divertido imenso. Já estive com os “posts” a nadar num mar esverdeado, e com o contacto invisível. Mas não está mal!

O fim-de-semana afigura-se promissor!

03 fevereiro 2006

Em nome de Deus


A onda de violência que varre os fundamentalistas islâmicos, relativamente aos “cartoons” sobre Maomé, é absolutamente inqualificável, assim como o é qualquer acto de violência purificadora feita em nome de Deus, seja ele qual for.

Quem não gosta dos “cartoons” não compra o jornal, não liga a televisão. Se é uma ofensa retratar Maomé como incitador ao terrorismo, também me parece ofensivo o silêncio desses guardiães de Alá, quando há bombistas suicidas que matam indiscriminadamente, ou quando raptam pessoas para espalhar o terror.

Como reagiriam os cidadãos que agora incendeiam bandeiras da Dinamarca e que violentamente se manifestam às portas das embaixadas, se houvesse acções semelhantes na altura dos atentados de Nova Iorque, Madrid e Londres?

A liberdade é um valor em si, para os crentes e para os não crentes. Nunca ninguém se preocupou em avaliar a ofensa de um não crente quando ouve uma locutora de telejornal despedir-se “até amanhã, se Deus quiser…”. A crítica e o humor são corrosivos. Só tem medo desta conspurcação espiritual, por pensamentos e actos, quem se omite a pensar.

02 fevereiro 2006

Amar


Quero-te assim,
devagarinho,
dentro do mundo que eu sou.
Às vezes água,
às vezes vinho,
a exacta bebida que o amor criou.


Os/as homossexuais (mesmo querendo) não se podem casar. Mas os heterossexuais podem, se quiserem. Se não quiserem juntam-se, amancebam-se, amigam-se, juntam os trapinhos, unem-se, de facto. Mas o casamento está ali ao alcance da mão, ou mesmo ao alcance dos dedos.

Então porquê transformar as uniões de facto (estou sempre a falar relativamente aos heterossexuais) em casamento sem casamento? Não percebo.

Os/as homossexuais, de facto, só se podem juntar, unindo-se mesmo que não seja nessa união de facto. E são apelidados de lésbicas e "gays". Também não percebo. Para mim são só pessoas que, de facto, não podem (mesmo que queiram) casar-se. Para mim não é urgente. Para eles/elas pode, de facto, sê-lo.

Confuso? Não. O que é simples não confunde. Amar é simples. Saber olhar o amor, nem sempre.

(pintura de Kyung Hwa Kim)

Segredos

Afinal não foi o Bloco de Esquerda (penso eu!), mas hoje lá acordámos com outra bomba jornalística: uma secreta mais secreta que as secretas, chefiada por um secreto magistrado, no meio de grande e tenebroso secretismo, sob as ordens do ainda mais tenebroso e menos secreto (e muito menos discreto) José Sócrates!

Claro que há sempre algum segredo contado à orelha de algum indiscreto jornalista, por motivos muito secretos, para ser dito com grande alarido aos ouvidos dos incautos e estremunhados ouvintes.

Será verdade? Será mentira?

É segredo!

01 fevereiro 2006

Casar


Casar, contrair matrimónio significa, segundo os dicionários que consultei, a união contratual entre duas pessoas de sexos diferentes, para constituir família.

É claro que o conceito de família se foi alterando ao longo dos tempos, e também o conceito de que o casamento tem que ser obrigatoriamente entre pessoas de sexos diferentes, tem vindo a ser modificado.

Hoje em dia, na sociedade ocidental, a palavra família tem múltiplos significados quanto ao número e quanto ao sexo dos seus fundadores e intervenientes. Por isso é natural que as palavras casamento e matrimónio venham a adquirir tantos significados quantas as variedades e tipos de família existentes.

Modificar a lei para que esse contrato possa ser celebrado entre pessoas do mesmo sexo, é uma hipótese cada vez mais provável, tal como aconteceu noutros países da Europa.

Mas fazer desse tópico um facto político importante, todo o dia badalado pela nossa comunicação social, parece-me totalmente descabido e resultante de uma completa instrumentalização do assunto por algumas pessoas, nomeadamente pelo Bloco de Esquerda (BE).

Não me tenho apercebido de quaisquer crispação ou reivindicação da sociedade em geral em relação aos direitos dos homossexuais. O que se passou hoje, com a ida de um casal de mulheres a uma conservatória, para se casarem, por sinal acompanhadas por um advogado (que previdentes!), por sinal com direito a notícias, de meia em meia hora, e a tema de fórum, na TSF e, (que coincidência!) com declarações de Fernando Rosas relativamente à premência da iniciativa legislativa do BE, por causa deste grande "problema" que é preciso "resolver"!

Como perdeu protagonismo e importância, nomeadamente por causa dos resultados das presidenciais, o BE tem que agitar-se muito, bradar muito, encontrar muitas causas da "esquerda plural", "fracturantes" da sociedade, para repararem nele.

Sou totalmente contra a marginalização de seja de quem for. Francamente, parece-me que este é um ínfimo problema ao pé de outros que deveriam ser resolvidos, esees sim, rapidamente, como a questão da despenalização do aborto, por exemplo.

Talvez amanhã o BE escolha outro importante facto político para o ouvirmos durante todo o dia.

(pintura de Tamara de Lempicka)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...