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19 setembro 2013

Dos vários tipos de oração

 



Bansky


 


 


Repetir sempre que os ombros se curvam


 


Tem que haver um outro país, uma outra gente. Tem que haver uma outra Europa, um outro mundo.


Não é verdade a tristeza e a desesperança. Não é verdade a pobreza e a insegurança.


Tem que haver um outro sonho, uma outra certeza.


Sabemos que é possível, sabemos que o ruído dos fatos surdos, os gestos e os sorrisos mudos de quem coordena marionetas, podem mudar. 


Sabemos que tudo muda. Basta juntar os sinos e repicar. Basta juntar as mãos e resistir. Basta abrir a estrada e caminhar. 


Tem que haver um outro viver – vamos lutar.


 

07 setembro 2013

Marcas

 



Valérie Buess 


 


 


As marcas na madeira como escrita


de vidas sem história.


Estendo-me à beira do rio plantada


de ervas e raízes. Agarro a terra


macia e fácil. Presa estou nos braços


de quem me liberta.

22 julho 2013

Corridinho de Belém

 



 


 


E vai de roda o meu país


corridinho já lá vem


ora ouçam o que ele diz


microfone de Belém.


 


Vai um passo mais à frente


e três passos mais atrás


um coelho de repente


dá um pulo para trás.


Abre portas sem receio


nesta dança de pigmeus


fecha as portas do recreio


ai Jesus valha-me Deus.


 


E vai de roda a contradança


neste vira de espantar


sai da roda a esperança


sem vislumbre de voltar.


 


Soa agora o cavaquinho


vai de roda até fartar


parte a asa pucarinho


que a ordem é casar.


Se é feio e desdentado


tu és coxo lá do siso


vade retro ó danado


que de ti já não preciso.


 


E vai de roda o meu país


corridinho do desdém


ninguém liga ao que ele diz


microfone de Belém.


 

10 junho 2013

Sílabas

 



Almada Negreiros


Partida de Emigrantes


 


O meu país divide-se em sílabas


- por - ele tudo de nada acontece. Afunda-se


encolhe-se enruga-se esvazia-se em gente


mole e arrastada – tu - e eu manchamos a terra.


O meu país divide-nos e abre


os rios por onde se espalha e cresce


em múltiplas sílabas de dor – gal - de fim


afinal


Portugal.


 

09 junho 2013

A luz

 



Laury Dizengremel


 


Tenho tanta pressa no apagar


dos sentidos no reacender da alma


que me foge como se quisesse fintar


o tempo que me falta a luz


que incendeia o teu olhar.


 


 

Folhas

 



Grant Berg 


 


Aproximo-me da noite em caminhos de curvas


mas na estreita direcção do tempo. A distância


encurta os passos alongados das árvores


que em ciclos de folhas refazem a eternidade.


 

08 junho 2013

Esquinas

 



Eva Rothschild


 


Procuro arder no gelo que à minha volta


forma gotículas de sangue e adormecimento.


 


Encontro chamas de aço em irracionais amarras


que no absurdo das esquinas abrem abismos.


 


Sem braços que empurrem nem ombros


que levantem a eterna condição de querer.


 

30 maio 2013

Alongar

 


 



Tejo 


 


 


1.


Inclinada a cidade esvai-se


sangra pelas ruas em pedras rolantes


e passos cansados exausta


de mundo de inverno de pó.


 


2.


Ficamos sentados à beira do tempo


desistentes da vida assistimos


ao dobrar dos troncos


ao vergar das nuvens.


 


3.


Desenhei num mapa que só tu entendes


os cruzamentos em que alongamos


imensas e surdas despedidas.


 

18 maio 2013

Vozes

 



Wendy Dunder


 


Sabia que a olhavam de lado, como a uma louca. Sabia que era louca, mas apenas por ser racional.


 


Começou a falar consigo desde muito cedo. O silêncio da casa, o enorme espaço vazio à sua volta, a todas as horas do dia, em todos os gestos que ecoavam a solidão. Parecia que as vozes dentro de si rebentavam, enchiam o mundo, entonteciam. Não conseguia distinguir os pensamentos dos sons exteriores a si, do mundo.


 


Falar consigo materializava alguém que lhe era intrínseco e que, no entanto, não conhecia. Não precisava de ter um interlocutor, não precisava que se sentasse ao seu lado, que anuísse ou discordasse, que lhe lesse passagens de um livro, que lhe apreciasse a comida, que necessitasse de companhia.


 


Falar consigo dava-lhe conforto e segurança. Era como uma cadeira que esperava pelo seu descanso.


 

05 abril 2013

Mistério segundo

 



milagre


Gao Xingjian


 


Segundo mistério o homem desaba entre


os muros de uma cidade sitiada. À volta


fervem vapores sulfúricos gritam mil cabeças de ganso.


Segundo o mistério que nos desequilibra vale mais


a acidez de uma queda que a extrema volatilidade


das almas.


 

18 março 2013

Até quando

 



Jochen Hein: see II 


 


Levantamos o corpo numa penitência diária


de quem ignora ao que regressa


não sabemos parar este irremediável aperto


do tempo esta camisa de ferro a que nos comprometemos


obrigações que só a nós amarrámos mas


que outros sentem secretamente.


Levantamos os olhos da terra para onde


queremos mergulhar mítico lugar de alimento


e paz onde o deserto das casas e das ruas não assusta


mas comove. Recolhemos a vontade aonde ela já não existe


reinventamos em cada segundo a energia que move


músculos e engole a funda tristeza da desesperança.


Até quando.


 

24 fevereiro 2013

Casa de feno

 


Convidei para o jantar... um poema


 


 


 


 


 


Havia rumor de passos de vozes ranger de tábuas


entre as rosas mistura de cheiros acres e baunilha.


Havia olhares prolongados de privações


anos de chão raspado por joelhos macerados.


Havia mãos diligentes que batiam ovos


zelosamente guardados em quartos de verão.


Infâncias de memórias casas de ventos


onde se depositam amenas tardes de feno.


 


 


Suspiro com leite-creme de beterraba e chocolate


 


O suspiro:


Batem-se 8 claras com uma pitada de sal em castelo bem firme, e juntam-se 400g de açúcar batendo sempre, durante mais um pouco, até ficar um creme branco e espesso. Espalha-se num tabuleiro e leva-se ao forno lento até cozer.


 


O leite-creme de beterraba e chocolate:


Cozem-se 200g de beterraba descascada e aos bocados em água, com raspa de 1 limão e de 1/2 laranja e 1 vagem de baunilha (aberta, raspada e cortada aos pedaços); depois de cozida escorre-se, retira-se a vagem da baunilha e reduz-se a puré (com a varinha mágica) juntamente com 1/2l de leite que, entretanto, ferveu com outra vagem de baunilha e 200g de chocolate preto (de culinária), cortado aos bocadinhos para ir derretendo. À parte misturam-se 8 gemas com 300g de açúcar, 2 colheres de sopa rasas de farinha e, a pouco e pouco, o restante 1/2 litro de leite. Côa-se o leite com a beterraba e leva-se ao lume, juntando com cuidado a restante mistura do leite, ovos, açúcar, farinha e leite. Deixa-se no lume até engrossar, torna-se a coar e está pronto.


 


Serve-se o suspiro banhado em leite-creme de beterraba e chocolate.


 



 


Esta é uma homenagem à minha avó.


 

19 fevereiro 2013

Impossível

 



Wayne Chisnall


 


1.


Sei que tenho memórias de um tempo feliz


daquelas memórias que servem para aconchegar os rigores da passagem


da vida. Sei que existem nalgum recanto do cérebro trancadas


em portas invisíveis. Mas não as encontro


essas memórias de tempos idos em infâncias despreocupadas e seguras.


 


2.


Impossível este amor sem vício nem dor


este diário sem carne amarrotada e madrugadas insones.


Impossível este amor de liberdades aprisionadas


pelo hábito e pela culpa. Impossível querer sem ter


a cruel lucidez da incerteza e mesmo assim amar


sem pejo nem lonjura sem o tempo que perdura em nós.


 

19 janeiro 2013

Sal

 



Salt painting


Dana Jo Cooley


 


 


Um dia de punhos apertados. No teu peito


a irmandade dos povos desabridos desastre


exato e metódico como manto de fado milenar.


 


Habita-nos um pequeno monstro cinzento


que olha e ri das faces demolhadas em banhos de sal.


Ressequidos os montes e cumes de burburinho ocupado


de tantas mãos vazias. Um dia a menos


que a falta do teu peito faz a vida inútil e comprida.


 

01 janeiro 2013

Um de Janeiro

 


 


To Every End There is a Beginning


Rich Frederick


 


Neste pequeno centro de evasão a que chamo casa


o mundo suspenso entre a raiz do sol


e o bater de uma asa


apenas a música de flores embala


a certeza da realidade que me espera.


 

30 dezembro 2012

Certo

 


 


David Freedman


 


Vou secando as flores


drenando a água em que mergulho


a felicidade momentânea.


Gasto a alma absorvo dilúvios


e reduzo a pó a grandeza que antecipo.


A solidão ecoa e infiltra todos


os poros da vida arestas que magoam.


Só o inatingível me parece certo


na prisão do encantamento.


 


Por pudor ou medo não quero


precisar tanto de amor.


 

18 dezembro 2012

Quadras de Natal (3)

 



Stefano di Giovanni


 


Quero dar ao meu amor


um fio do meu cabelo


ternura branca de dor


rugas fundas em novelo.


 


Minha alma estendida


umas mãos cheias de nada


o resto da minha vida


a seu lado ancorada.


 


A doçura da romã


quero dar ao meu amado


o respirar da manhã


rumor do campo acordado.


 


Quando chegar o Natal


com a penúria enfeitada


em poeira de cristal


serei a noite encantada.


 


E enquanto o tempo quiser


serão meus braços seu manto


sempre que o céu mantiver


o tom cinzento de pranto.


 


E enquanto o tempo poisar


no ombro do nosso amor


nos dias que irão faltar


o mundo será melhor.


 

12 dezembro 2012

Oferta

 



Bonsai


 


Nem sempre sabemos distinguir as nítidas


superfícies a transparência das luzes o brilho


inamovível da memória. Nestas árduas fadigas


de hoje recuperamos a necessidade de sentir


na simples limpeza do olhar a oferta o conforto


do silêncio.


 

20 outubro 2012

Espelho

 



Pistoletto:


Mirrors


 


 


Gosto das imagens sem sons em que a mímica


dos rostos me prende e suspende.


Entendo melhor o brilho dos olhos a rugosidade


da pele o tremor das pálpebras,


antecipo a lava destruidora o gelo


das mãos caídas, estremeço nos braços abertos


de alguém que não me vê,


misturo as minhas com as lágrimas do espelho,


devolvo a névoa e o calor em novelo.


 

15 outubro 2012

Poeira

 



Sherrie Rennie:


Inner-city Bred


 


 


1.


Nada me aquece neste muro construído


por minhas e outras mãos. Ouço vozes solitárias


de um fado torturado e infinito. Cada vez mais fria a ausência


do teu abraço. Ao meu lado o silêncio esfíngico


de alguém que desiste. Que sem querer mergulha na guitarra


e dedilha a dor permanente da realidade.


 


2.


Nego o passo para o monótono aviso da destruição


nego a inevitável avalanche da tristeza


uma apatia tão sem nexo nem solução


que nega o lampejo e a atração


pelo apetecível abismo.


 


3.


À minha volta a poeira desmaiada da cidade


sem ruas visíveis nem faróis fugazes.


Procuro algumas velas iguais à tremeluzente


incerteza que nos habita na usual capacidade


de apagamento que antecede a idade


das cinzas.


 


4.


Parto aplicadamente o tijolo em que


transformo os velhos pedaços deste


tecido envelhecido que


enforma o todo que já


foi habitado por


mim.


 

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