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26 abril 2026

Canta el reloj

Federico García Lorca

Cuento

maquinalmente las horas.

Es lo mismo

las siete que las doce

Yo - no estoy aquí.

Es la señal de carne

que yo dejé, al irme

para saber mi sitio

al regresar...

 

Poema de FedericoGarcía Lorca, manuscrito encontrado no verso da folha onde escreveu Gacela dela raíz amarga]

21 março 2026

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

 


Álvaro Feijó

por Maria Barroso

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

 

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.

 

Eu, Marco Pólo,

 

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

 

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

 

II

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

 

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

14 fevereiro 2026

Fala do homem nascido

antonio gedeao fala do homem nascido.jpg

António Gedeão

 

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é agua a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

03 janeiro 2026

Le moribond

Jacques Brel

Adieu l'Émile, je t'aimais bien

Adieu l'Émile, je t'aimais bien tu sais

On a chanté les mêmes vins

On a chanté les mêmes filles

On a chanté les mêmes chagrins

 

Adieu l'Émile, je vais mourir

C'est dur de mourir au printemps tu sais

Mais j'pars aux fleurs la paix dans l'âme

Car vu qu't'es bon comme du pain blanc

Je sais qu'tu prendras soin d'ma femme

 

Et j'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

J'veux qu'on s'amuse comme des fous

J'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

Quand c'est qu'on m'mettra dans l'trou

 

Adieu Curé, je t'aimais bien

Adieu Curé, je t'aimais bien tu sais

On n'était pas du même bord

On n'était pas du même chemin

Mais on cherchait le même port

 

Adieu Curé, je vais mourir

C'est dur de mourir au printemps tu sais

Mais j'pars aux fleurs la paix dans l'âme

Car vu qu't'étais son confident

Je sais qu'tu prendras soin d'ma femme

 

Et j'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

J'veux qu'on s'amuse comme des fous

J'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

Quand c'est qu'on m'mettra dans l'trou

 

Adieu l'Antoine, j't'aimais pas bien

Adieu l'Antoine j't'aimais pas bien tu sais

J'en crève de crever aujourd'hui

Alors que toi, tu es bien vivant

Et même plus solide que l'ennui

 

Adieu l'Antoine, je vais mourir

C'est dur de mourir au printemps tu sais

Mais j'pars aux fleurs la paix dans l'âme

Car vu qu't'étais son amant

Je sais qu'tu prendras soin d'ma femme

 

Et j'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

J'veux qu'on s'amuse comme des fous

J'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

Quand c'est qu'on m'mettra dans l'trou

 

Adieu ma femme je t'aimais bien

Adieu ma femme je t'aimais bien tu sais

Mais je prends l'train pour le Bon Dieu

Je prends le train qu'est avant l'tien

Mais on prend tous le train qu'on peut

 

Adieu ma femme je vais mourir

C'est dur de mourir au printemps tu sais

Mais j'pars aux fleurs les yeux fermés ma femme

Car vu qu'j'les ai fermés souvent

Je sais qu'tu prendras soin d'mon âme

 

Et j'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

J'veux qu'on s'amuse comme des fous

J'veux qu'on rie, j'veux qu'on danse

Quand c'est qu'on m'mettra dans l'trou

01 dezembro 2025

Vozes para o "Novo Cancioneiro"


novo cancioneiro.jpg


XV.



 

Faze que a tua vida seja o que te nega.

A luta é tua: fá-la.

Agora, os sonhos em farrapos,

melhor é a luta que pensá-la.

 

Ergue com o vigor do teu pulso;

solda-o em aço.

E da tua obra afirma:

– Sou o que faço.

 


 

 

Este e outros poemas do Novo Cancioneiro, ditos por Natália Luiza e Maria João Luís, numa tarde de domingo, após uma curtíssima palestra sobre os poetas neorrealistas.

 


"VOZES PARA O "NOVO CANCIONEIRO" - recital integrado na exposição (inaugurada a 29 de novembro) "Espelhos de Ver por Dentro: o Teatro no Neorrealismo português", no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira (Curadoria e Programação: Miguel Falcão).




Se todos os nossos líderes ou candidatos a tal ouvissem mais poesia e mais música, visitassem mais exposições, assistissem a mais peças de teatro e vissem mais cinema, tivessem mais conhecimento de como se constrói uma cultura e se consolida uma comunidade, a nossa sociedade seria muito mais decente.


15 setembro 2024

Barco negro



Caco Velho & David Mourão Ferreira


 


De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.


Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:


São loucas! São loucas!


Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.


No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

08 setembro 2024

Funeral Blues

auden.jpg


Sam Walsh



Nemo Shaw


 


Stop all the clocks, cut off the telephone,


Prevent the dog from barking with a juicy bone,


Silence the pianos and with muffled drum


Bring out the coffin, let the mourners come.


 


Let aeroplanes circle moaning overhead


Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.


Put crepe bows round the white necks of the public doves,


Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


 


He was my North, my South, my East and West,


My working week and my Sunday rest,


My noon, my midnight, my talk, my song;


I thought that love would last forever: I was wrong.


 


The stars are not wanted now; put out every one,


Pack up the moon and dismantle the sun,


Pour away the ocean and sweep up the wood;


For nothing now can ever come to any good.


 


W. H. Auden

15 agosto 2024

El tesoro

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Nunca he tenido nada


y ahora tengo todavía menos.


Cada vez menos.


Restas de nada


que van dejando nada en mis bolsillos,


en mis cajones, en mi avara memoria.


Atesoro el tesoro


que nada vale para los demás.


Cruzo los dedos para que me dure


la cotidiana posibilidad


de darte el beso de las buenas noches


y el de los buenos días.


 


[Amalia Bautista in Azul el agua


La Bella Varsovia - 2022]


 


Nunca tive nada


e agora tenho menos ainda.


Cada vez menos.


Sobras de nada


que vão deixando nada nos meus bolsos,


nas minhas gavetas, na minha avara memória.


Valorizo ​​​​o tesouro


que nada vale para os outros.


Cruzo os dedos para que dure


a quotidiana possibilidade


de te dar um beijo de boas noites


e um de bons dias.


 


[Tradução minha]

21 julho 2024

Oração pelos amigos

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Bonds of Friendship


John Robinson


 


Obrigado, Senhor, pelos amigos que nos deste.


Os amigos que nos fazem sentir amados sem porquê.


Que têm o jeito especial de nos fazer sorrir.


Que sabem tudo de nós, perguntando pouco.


Que conhecem o segredo das pequenas coisas que nos deixam felizes.


Obrigado, Senhor, por essas e esses, sem os quais, caminhar pela vida não seria o mesmo.


Que nos aguentam quando o mundo parece um sítio incerto.


Que nos incitam à coragem só com a sua presença.


Que nos surpreendem, de propósito, porque acham mal tanta rotina.


Que nos dão a ver um outro lado das coisas, um lado fantástico, diga-se.


Obrigado pelos amigos incondicionais.


Que discordam de nós permanecendo connosco.


Que esperam o tempo que for preciso.


Que perdoam antes das desculpas.


Essas e esses são os irmãos que escolhemos.


Os que colocas a nosso lado para nos devolverem a luz aérea da alegria.


Os que trazem, até nós, o imprevisível do teu coração, Senhor.


 


[Cardeal José Tolentino Mendonça]

18 fevereiro 2024

Ao desconcerto do mundo

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Luís de Camóes


António Soares


 


Os bons vi sempre passar


No mundo graves tormentos;


E para mais m´espantar,


Os maus vi sempre nadar


Em mar de contentamentos.


Cuidando alcançar assim


O bem tão mal ordenado.


Fui mau, mas fui castigado:


Assim que: só para mim


Anda o mundo concertado

04 fevereiro 2024

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

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Valeriy Osmakov


 


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.


E deseja o destino que deseja;


                Nem cumpre o que deseja,


                Nem deseja o que cumpre.


 


Como as pedras na orla dos canteiros


O Fado nos dispõe, e ali ficamos;


                Que a Sorte nos fez postos


                Onde houvemos de sê-lo.


 


Não tenhamos melhor conhecimento


Do que nos coube que de que nos coube.


                Cumpramos o que somos.


                Nada mais nos é dado.



[Ricardo Reis]

30 setembro 2023

Enquanto

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Enquanto


 


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio


e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé


para ver como é;


enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas


e correr pelos interstícios das pedras,


pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;


enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,


órfãs de pais e de mães,


andarem acossadas pelas ruas


como matilhas de cães;


enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto


com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,


num silêncio de espanto


rasgado pelo grito da sereia estridente;


enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio


cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas


amassando na mesma lama de extermínio


os ossos dos homens e as traves das suas casas;


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,


enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,


o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:


ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

07 agosto 2023

Da simplicidade

emily amalia.jpg


Parece tão simples e lógico. Ditas pelo Papa as palavras têm uma ressonância ligada à fé, aos preceitos dos que pertencem a uma comunidade religiosa.


Mas o que o Papa disse, de uma forma assertiva e, para a Igreja, revolucionária, é exactamente o fundamento do cristianismo e de todos os que olham para a vida e lhe vêm a essência, o que, de facto, importa.


Uma sociedade inclusiva, que olha e toma conta dos que mais necessitam, que não distingue a etnia, a cor, a religião, o estatuto, o poder, seja ele de que tipo for, uma sociedade que dá mais importância ao outro que a si próprio, que divide, que partilha, que é tolerante, que é livre.


Amar e ser amado, fazer alguma coisa por alguém.


Parece tão simples e lógico.


 



IF I CAN STOP ONE HEART FROM BREAKING


 


If I can stop one heart from breaking,


I shall not live in vain;


If I can ease one life the aching,


Or cool one pain,


Or help one fainting robin


Unto his nest again,


I shall not live in vain.


[Emily Dickinson]


 


AL CABO


 


Al cabo, son muy pocas las palabras


que de verdade nos duelen, y muy pocas


las que consiguen alegrar el alma.


Y son también muy pocas las personas


que mueven nuestro corazón, y menos


aún las que lo mueven mucho tiempo.


Al cabo, son poquísimas las cosas


que de verdad importan en la vida:


poder querer a alguien, que nos quieran


y no morir después que nuestros hijos.


[Amalia Bautista]



 


E é sempre tão difícil.

06 novembro 2022

Assim o amor

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Sophia de Mello Breyner Andresen


 


Assim o amor


Espantando meu olhar com teus cabelos


Espantando meu olhar com teus cavalos


E grandes praias fluidas avenidas


Tardes que oscilavam demoradas


E um confuso rumor de obscuras vidas


E o tempo sentado no limiar dos campos


Com seu fuso sua faca e seus novelos


 


Em vão busquei eterna luz precisa


 


Sophia de Mello Breyner Andresen


in Geografia, 1967

24 setembro 2022

Verbo Feminino

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É difícil falar do recital de Natália Luísa e Rui Rebelo, no Teatro Meridional.


É difícil encontrar palavras para esta celebração da palavra das poetas dos vários espaços da Lusofonia.


É difícil explicar o sentimento de pertença, a sensação do maravilhoso, o escutar da voz da Natália tão bem acompanhada pela discreta e simples música de Rui Rebelo, da luz, do cenário, da elegância, da sensibilidade, da qualidade e variedade dos poemas ditos, interpretados, vividos.


Mas é muito fácil saber o porquê desta magia, do encantamento em que nos envolve a Natália. Do trabalho de pesquisa, da beleza de tudo o que faz.


E é fácil encontrar o espírito de luta, irmandade e solidariedade, mesmo na solidão e na revolta.


Que grande espectáculo, simbolicamente dedicado às mulheres iranianas.


Parabéns ao Meridional, ao Rui Rebelo e, sobretudo, à Natália.


Que privilégio poder assistir a este Recital!

04 julho 2022

Sífiso

Sífiso.jpg


Sisyphus


Ticiano


 


Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


 


[Miguel Torga]

12 setembro 2021

Uma Pequenina Luz

jorge sampaio


Cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio (09:46)


 


Uma pequenina luz bruxuleante


não na distância brilhando no extremo da estrada


aqui no meio de nós e a multidão em volta


une toute petite lumière


just a little light


una picolla… em todas as línguas do mundo


uma pequena luz bruxuleante


brilhando incerta mas brilhando


aqui no meio de nós


entre o bafo quente da multidão


a ventania dos cerros e a brisa dos mares


e o sopro azedo dos que a não vêem


só a adivinham e raivosamente assopram.


Uma pequena luz


que vacila exacta


que bruxuleia firme


que não ilumina apenas brilha.


Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.


Muda como a exactidão como a firmeza


como a justiça.


Brilhando indefectível.


Silenciosa não crepita


não consome não custa dinheiro.


Não é ela que custa dinheiro.


Não aquece também os que de frio se juntam.


Não ilumina também os rostos que se curvam.


Apenas brilha bruxuleia ondeia


indefectível próxima dourada.


Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.


Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.


Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.


Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.


Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:


brilha.


Uma pequenina luz bruxuleante e muda


como a exactidão como a firmeza


como a justiça.


Apenas como elas.


Mas brilha.


Não na distância. Aqui


no meio de nós.


Brilha


 


Jorge de Sena


 

29 julho 2021

Pedro Tamen

pedro tamen.jpg


Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Gostava de ter conhecido o seu silencioso estar, fora das televisões, dos blogues, dos facebooks, fora da incrível tentação de dizer coisas, muitas e importantes coisas, tão interessantes, literárias, mundanas e triviais, aquelas coisas que todos estamos sempre com tanta vontade de dizer.


Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Ou se calhar não. Gosto só da ideia, da imagem que tenho dele, por não ter nenhuma, a não ser da poesia que escreve e de que eu gosto tanto.


 


17.


No clandestino recanto


com que sentado labuto


os pespontos do meu canto,


 


neste perdido reduto


em que as mãos amadurecem


a peça que fugirá


das mãos dos que não merecem


para andar ao deus-dará


num universo de espanto


 


em que o amor vai curtido,


calado, surdo, tingido


de uma cor que é o sentido


da salvação que acalanto


 


- aqui me caio e levanto.


 


O Livro do Sapateiro

20 dezembro 2020

O poema pouco original do medo

SARS-CoV-2.jpg


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis


Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos


O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
      (assim assim)
escriturários
      (muitos)
intelectuais
      (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles


Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados


Ah o medo vai ter tudo
tudo


(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


              *


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Sim
a ratos


Alexandre O´Neill


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...