30 setembro 2023

Enquanto

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Enquanto


 


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio


e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé


para ver como é;


enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas


e correr pelos interstícios das pedras,


pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;


enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,


órfãs de pais e de mães,


andarem acossadas pelas ruas


como matilhas de cães;


enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto


com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,


num silêncio de espanto


rasgado pelo grito da sereia estridente;


enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio


cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas


amassando na mesma lama de extermínio


os ossos dos homens e as traves das suas casas;


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,


enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,


o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:


ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

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