Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Como se pode constatar pelos posts anteriores, a prescrição por DCI é uma prática comum entre a grande maioria dos países europeus, assim como a substituição medicamentosa por farmacêuticos, a não ser que proibidas pelos médicos e/ou doentes. Salvaguardam-se ainda grupos de fármacos em que o uso de DCI não existe ou não se aconselha, tal como outros em que o mesmo se passa para a substituição de medicamentos.
Obviamente que o controlo de qualidade dos fármacos, genéricos ou quaisquer outros, é obrigatória. Em Portugal é da responsabilidade do INFARMED. Se algum dos intervenientes no processo de fabricação, prescrição e dispensa de medicamentos tem conhecimento de erros, irregularidades ou outras falhas, involuntárias ou criminosas, deve denunciá-los, pugnar para que sejam corrigidos e para que os prevaricadores sejam responsabilizados.
Penso que a legislação agora aprovada defende as boas práticas médicas e os doentes, contribuindo de uma forma decisiva para a sustentabilidade do SNS.
Outros documentos, sites e organizações com informações úteis e interessantes.
Generics are seen as important products in the context of promoting the rational use of medicines. Two key measures for promoting generic use are international non-proprietary name (INN) prescribing and generic substitution.
Survey on rational use of medicines in 27 EU Members States
Measures for promoting the rational use of medicines in the 27 EU Member States were surveyed in a report by the Gesundheit Österreich GmbH / Österreichisches Bundesinstitut für Gesundheitswesen (GÖG/ÖBIG – Austrian Health Institute) [Rational Uses of Medicines in Europe].
Their results showed that there are many different practices between the different Member States in the EU with regard to generic medicine policies. An overview is given in the table below:
For example, while most countries (22) advocate international non-proprietary name (INN) prescribing, relatively few (4) have made this obligatory, whereas generic substitution by the pharmacist is practiced in the majority of countries (21).
Some important details about "INN groups”
Other relevant information can be found in the aforementioned note (DOC, 130 Kb). Clarification (PDF, 21.37 Kb) of some points of the note. List (PDF, 75.46 Kb) of authorised and marketed biological medicines.
Nota: Todos os sublinhados são da minha responsabilidade.
Vale a pena ler este documento, da OMS, do qual retiro um excerto:
(...) Prescription form
The most important requirement is that the prescription be clear. It should be legible and indicate precisely what should be given. The local language is preferred.
The following details should be shown on the form:
Nota: International Nonproprietary Name é o mesmo que Denominação Comum Internacional ou DCI.
Os sublinhados do texto são da minha responsabilidade.
Mais uma vez se reacende a polémica alimentada pela OM sobre a insegurança da prescrição por Denominação Comum Internacional (DCI). Segundo uma notícia hoje divulgada por vários meios de comunicação, a OM distribuirá folhetos instando os doentes a não aceitarem substituição dos fármacos prescritos, pelo facto de haver diferenças entre os vários genéricos, e pelas impurezas que têm.
A ser isto verdade a OM está a prestar um péssimo serviço aos doentes. A prescrição por DCI é um princípio basilar que só poderá ser posto em causa se houver comprovadamente deficiente qualidade dos fármacos em causa. Esse controlo de qualidade é efectuado por um Instituto Público, o INFARMED. Se a OM, ou qualquer Médico tem conhecimento de reacções adversas, ineficácia ou qualquer outro problema relacionado com um genérico, deverá fazer a respectiva notificação, como com qualquer fármaco de marca.
O que não se pode admitir é a inexistência da possibilidade do médico prescrever um determinado fármaco, caso pense que, para um determinado doente, é esse e só esse o fármaco indicado, proibindo a sua substituição por outro, mesmo que seja equivalente. Deve ser salvaguardada a responsabilidade de prescrever (uma das partes do acto médico) para o próprio médico.
Esta abordagem da questão, sem qualquer rigor científico, aumentando os receios e a insegurança da população com insinuações e nunca com factos, tem sido responsável pelo atraso da implementação desta medida, para mal dos doentes e da sustentabilidade do SNS.
Assim sim, a disposição para o exercício físico será muito maior e o fervor pelo bem estar físico sempre entusiástico.
A indefinição e o adiamento da resolução da crise europeia não pode ser apenas fruto de incompetência e ignorância. Este esticar e adiar, anunciar e recuar, a corda bamba em que todos os países se equilibram só pode ser deliberado. As consequências destas atitudes é que, temo bem, estão a ser minimizadas e desvalorizadas pelos protagonistas do jogo, que lhes sairá, também a eles, muito caro.
Portugal passa do Verão para o Inverno, numa patologia bipolar que tanto nos caracteriza, literalmente em termos climatéricos como metaforicamente em termos políticos.
A ideologia dos partidos que assumiram o poder está a fazer uma reedição daquilo a que se convencionou chamar pobrezinhos mas honrados. Tudo o que de positivo se fez nos últimos anos, com destaque para os anos dos governos de Sócrates, não pode neste momento ser louvado porque a lavagem cerebral a que nos submete a omnipresença mediática dos porta-vozes da direita assim obriga.
A aposta no futuro, na tecnologia e na ciência são olhadas como desperdício e maus hábitos de consumismo, os direitos sociais são vistos como predação do dinheiro de quem trabalha, a criatividade artística como uma preguiça indigente.
Este governo tem outras prioridades e assenta noutras doutrinas, que nos farão recuar em termos civilizacionais várias décadas. A educação pública, em escolas modernas e confortáveis, professores com horizontes abertos, que saibam e queiram usar as tecnologias informáticas e a internet, que percebam a mudança e a extraordinária potencialidade dessas mesmas tecnologias, a que alguém já chamou a nova electricidade, está a ser encarada pelo mínimo dos mínimos, para os mais desfavorecidos, ou para as famílias com mais dificuldades, como agora é bem dizer-se. Pelo contrário, aumentam-se os apoios ao ensino particular.
Em termos de políticas sociais, o que importa é reduzir os mecanismos de fiscalização da qualidade e segurança nas creches, infantários e lares de idosos, fomentando o apelo à ajuda e à solidariedade centrada na moralidade cristã, em vez de robustecer, em tempos de tanta dificuldade, os apoios a quem está desempregado e a quem não tem rendimentos, alimentando-se o preconceito classista, racial e a xenofobia. Excepção seja feita ao Ministério da Saúde que, pelo menos até agora e tanto quanto me apercebo, tem tomado medidas que, objectivamente, o defendem.
A cultura e a criação artística voltaram ao signo do supérfluo, não se vislumbrando nenhuma capacidade para perceber que a identidade cultural do país, a diversidade e a criatividade poderão ser economicamente rentáveis. Doloroso é também o desinvestimento na ciência, assistindo-se a uma desvalorização das Universidades como polos de investigação, que tanto melhoraram nestes últimos anos e que têm contribuído para a formação de empresas exportadoras de tecnologia de ponta.
A diabolização da política e dos políticos também espelha o regresso ao passado. A demagogia impera e o que foi instituído para permitir a igualdade de acesso ao exercício nobre da política e de cargos públicos, arrasta-se pela lama e é incinerado na praça pública, acicatando-se o primarismo e a violência de quem se sente desesperado. É verdade que a imoralidade e a delapidação do património público é uma realidade, mas a generalização hipócrita do ascetismo não credibiliza ninguém e está a afastar ainda mais os cidadãos dos seus representantes, abrindo portas ao surgimento de movimentos antidemocráticos, como se percebe pelos apelos de cidadãos indignaos ao cerco do Parlamento, etc.
Menos trabalho, menos qualificação e competências, menos remuneração, menos direitos sociais, mais horas laborais. Os sacrifícios são mais uma vez o corolário de uma vida que, segundo a Madre Igreja, será a preparação para a eternidade de venturas no Céu, visto que o Inferno e o Purgatório deixaram de existir, mas podem ser renovados pela mão de governantes retrógrados.
Não consigo perceber porque é que o corte dos subsídios de Natal a todos os trabalhadores não seria considerado credível e levaria à suspensão da ajuda externa. Não consigo mesmo perceber. Ou será que consigo? Só são credíveis medidas que poupem os trabalhadores fora da função pública? Ou dito de outra forma - credibilidade é penalizar os funcionários públicos?
Rudolf Stingel
Vendemos a prata dos dias
o ouro não chega para regar almas
sedentas de raízes e flores
mais que de metal ou pérolas.
Restam-nos feridas abertas
que nenhuma noite pode sarar.
Realmente não acompanho a euforia reservada da esquerda que se seguiu às declarações de Cavaco Silva.
Há várias coisas que extraordinárias:
O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar. (...)
O actual Governo, uma vez por todas, tem de assumir as suas opções. As suas opções radicais. E profundamente anti-europeias.
O mantra por trás destas opções é também, por seu lado, incompreensível. Trata-se de "recuperar a confiança dos mercados". Este mantra, dito em 2011, não revela uma completa falta de percepção do que se está a passar na economia internacional? Revela. (...)
Mas insistamos nos mercados e voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e "cortou com o passado", fazendo um "ajustamento profundo". Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos. (...)
Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.
Afinal temos mesmo o PREC revisitado.
À nacionalização da banca nacional e estrangeira sob o controlo dos trabalhadores.
A 12 e 13 de Novembro de 1975, os sindicatos da construção civil cercaram a Assembleia Constituinte, reivindicando a aprovação de um Contrato Colectivo de Trabalho para o sector. O Diário de Notícias, a 17 Novembro titulava: O Povo contra Governo de direita.
A 15 de Junho deste ano uma multidão de indignados cercou o Parlamento Catalão. Muitos dos deputados entrou sob escolta de uma brigada policial, aguentando variados insultos. O Presidente do Parlamento teve que se deslocar de helicóptero.
Anuncia-se, para 29 de Outubro, data da votação na generalidade do Orçamento de Estado para 2012, uma concentração de indignados em frente à Assembleia da República.
É oficial: estou a ficar conservadora. As revoluções populares alicerçadas em ecos do vazio, por muito que tenham razões sociológicas e psicológicas para se desencadearem, não me seduzem. Principalmente porque essas revoluções só acontecem onde existe a tal democracia burguesa e ultrapassada, o tal regime, fruto da indignação dos indignados. Por isso tenho muita dificuldade em entender o júbilo de tantos comentadores, que aplaudem o fenómeno.
Não tenho nada contra manifestações, marchas, discursos e outras formas de protesto. Penso mesmo que são saudáveis pois permitem a expressão de convicções e frustrações, um escape para, de forma pacífica e, por vezes, muito criativa, transformar a intrínseca violência em grito de paz. O que não posso aplaudir são aqueles que pretendem que estas manifestações e estas palavras de ordem são o verdadeiro veredicto popular às políticas do governo, são a verdadeira e real democracia. Não me sinto bem a ouvir pedir outro 25 de Abril, arrepio-me quando os discursos populares pedem (…) Corram com estes políticos daqui para fora! O país está a saque ou questionam o que faz o Presidente da República? (…) Ele que custa milhões de euros ao país por ano? Porquê tantos deputados? (…) Assusto-me quando vejo manifestantes a ocuparem a Assembleia da República e a vandalizarem os símbolos da democracia.
É precisamente por sermos uma democracia verdadeira que todos estes corajosos oradores, que vilipendiam e insultam os detentores do poder político democraticamente eleito, se podem manifestar. Não podemos confundir a voz do protesto e da indignação com o poder da rua e na rua, com a insuflação dos sentimentos antidemocráticos e justicialistas, que só podem conduzir ao avolumar das condições que geram ditaduras. É claro que tudo tem razões e significado. Não é em vão que os partidos políticos não têm sabido renovar-se, não é sem consequências que os nossos representantes usam o populismo demagógico, é para todos óbvio que o movimento sindical é totalmente irrelevante.
A CGTP, cujo secretário-geral Carvalho da Silva, cargo que exerce desde 1999, e que se sucedeu a si próprio (exercia o cargo de coordenador da CGTP desde 1986), é controlada há 25 anos pela mesma pessoa. Esta central sindical preocupou-se, durante as últimas décadas, em fazer prevalecer os direitos adquiridos de quem tem emprego garantido, sem nunca se adaptar aos novos desafios que se colocavam ao mundo do trabalho, resultantes de todas as mudanças sociais, políticas e económicas que se verificaram a nível global.
A UGT, cujo secretário-geral João Proença (não consegui perceber há quantos anos exerce o cargo mas, seguramente há cerca de 20 anos), tem servido apenas para ser o contraponto político da CGTP, predominantemente à esquerda, e a muleta do poder do bloco central, disponibilizando-se para assinar acordos que a CGTP se indisponibiliza a aceitar.
Os sindicatos, particularmente os dos funcionários públicos, nunca se preocuparam com as alterações da legislação laboral no que diz respeito à adaptação e flexibilização dos horários, à revisão das razões justificativas de justa causa para os despedimentos, à verdadeira avaliação de desempenho, à diferenciação positiva pelo mérito, pelo empenho, pela competência, pela motivação em aprender. Nunca quiseram liderar a mudança, tendo-se entrincheirado atrás de um tempo que acabou, anquilosadas e totalmente irrelevantes para os problemas que o novo desenho social coloca.
Numa altura em que os trabalhadores estão esvaziados de qualquer poder reivindicativo, em que a justificação do a bem da nação serve para alterar horários de trabalho e remunerações, para extinguir de postos de trabalho, para deixar de contribuir para a segurança social, para reduzir as condições de segurança, os sindicatos estão limitados à retórica de alguns líderes partidários, sem força, imaginação ou capacidade de mobilização para uma verdadeira reforma no sector laboral.
A crise económica, social e política deve indignar os democratas, aqueles que ainda defendem o poder do voto, a representatividade, a troca de opiniões e o escrutínio eleitoral, e alertar todos os actores para a urgência da mudança. Sob pena de criarmos uma sociedade em que já não haverá espaço livre para a mais que justa indignação.
U2
I'm not afraid
Of anything in this world
There's nothing you can throw at me
That I haven't already heard
I'm just trying to find
A decent melody
A song that I can sing
In my own company
I never thought you were a fool
But darling look at you
You gotta stand up straight
Carry your own weight
These tears are going nowhere baby
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And now you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it
I will not forsake
The colors that you bring
The nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted
By the light you brought to me
I listen through your ears
Through your eyes I can see
And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough
And you can never get enough
Of what you don't really need now
My, oh my
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Oh love, look at you now
You've got yourself stuck in a moment
And you can't get out of it
I was unconscious, half asleep
The water is warm 'til you discover how deep
I wasn't jumping, for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it
And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass
And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along this stony pass
It's just a moment
This time will pass
Teixeira dos Santos, quanto a mim muito bem, chamou a atenção para a responsabilidade do PS na aprovação do OE para 2012.
O acordo que o PS negociou e assinou com a Troika a isso o obrigava. Neste momento, após o que já se conhece da lei do OE 2012, o PS está desobrigado dessa responsabilidade.
As medidas aí inscritas, assim como os seus pressupostos, nomeadamente as derrapagens do défice, cuja responsabilidade seria do anterior governo, já foram escalpelizados por várias pessoas que demonstraram a falácia dos argumentos. Já nada disto tem a ver com o memorando. Tem a ver com a matriz ideológica, a impreparação, o voluntarismo e o populismo deste governo, bem espelhados numa das medidas entretanto já decretada, em que o Estado aumenta o financiamento às escolas privadas.
Portanto, a preocupação de Teixeira dos Santos já não tem cabimento. Para este tipo de medidas o governo tem o apoio parlamentar dos partidos da coligação – PSD e CDS. O PS não pode senão votar contra.
A revolta social é inevitável. O que deveria ser impensável é lerem-se e ouvirem-se vozes que, em vez de credibilizarem e valorizarem a actividade política, assumem um populismo desenfreado, defendendo a criminalização de anteriores governantes. O populismo só alimenta mais populismo, e já temos o porta-voz da Associação Nacional de Sargentos, António Lima Coelho, a interpretar o que é a vontade do povo e a ameaçar desobediência ao poder executivo, o que é intolerável.
Nem o PS pode alienar e apagar a sua marca de governação, naquilo que de positivo e de negativo teve, nem se pode agora recusar a liderar a oposição democrática a este governo.
Passos Coelho justificou a brutalidade do OE2012 com uma (suposta) revelação, por parte do INE, de que existiria um 'buraco' de três mil milhões de euros, ou, numa versão alternativa, na circunstância de 70 por cento do défice permitido para a totalidade do ano já ter sido esgotado. Passos mente - sim, mente - quando diz que o INE confirmou um buraco de três mil milhões de euros, porque o único desvio confirmado é aquele que resulta da diferença entre o défice estimado pelo INE no 1º semestre (7 mil milhões de euros) e o objectivo da Troika para o mesmo período (5.4 mil milhões de euros). Ou seja, partindo dos dados conhecidos, o desvio é de 1.6 mil milhões, não os 3 mil milhões referidos por Passos Coelho. Corrigido o montante do desvio, importa perceber como se chega a este valor. Ora, estes 1.6 mil milhões de euros dividem-se em 600 milhões da Madeira e 600 milhões de receitas não fiscais. Nenhuma das rúbricas permite uma responsabilização do anterior governo, porque estas não resultam de qualquer suborçamentação ou má execução orçamental. A primeira corresponde aos desmandos de Alberto João Jardim (que, já agora, é responsável por 40% do desvio, e não os 10% referidos por Passos). A segunda diz respeito a receita não corrente (one off), que está prevista ocorrer durante 2011; a sua não execução, no primeiro trimestre de 2011, não pode, por isso, ser classificada de desvio. Sobram, portanto, 400 milhões de euros. Curiosamente, estes 400 milhões correspondem à dotação provisional, isto é, correspondem a um valor, que já consta do OE2011 para fazer face a despesa imprevista.
O que é, para este movimento ou plataforma, uma democracia participativa? A participação é feita de que modo? Através de acampamentos, manifestações e voto de braço no ar? Através de referendos?
Qual ou quais as medidas que vão garantir a integridade de quem vai exercer os cargos públicos? Há algum exame médico, um exame de integridade moral para os que se propuserem? Como se elegem ou nomeiam os respetivos júris?
Como se mede a vontade da grande maioria do povo? É por eleições? Vão passar a ser obrigatórias? Como se separam os poderes estabelecidos dos que o não são? O que são ou quais são os poderes estabelecidos?
Os políticos são pessoas diferentes das outras? A encarnação do mal? São, por definição, aqueles que querem reprimir os seus concidadãos e espezinhá-los? Não somos nós, através do voto livre, que decidimos o nosso futuro? Então como o vamos fazer?
Na verdade, uma das coisas que mais me assusta é o crescer destes movimentos populistas, que se travestem de gente inocente, séria, sem qualquer agenda política, que usam expressões como democracia verdadeira, somos nós, o povo, que decidirá o nosso futuro e faremos saber aos políticos. A democracia alimenta-se da participação dos cidadãos e tem regras para assegurar a liberdade e a capacidade de gerar representantes e grupos executivos. Se queremos participar devemos fazê-lo votando, criando grupos, associações e partidos políticos, promovendo as discussões em fóruns de opinião, nas escolas, nas empresas, em casa. Devemos ter a responsabilidade de não nos escondermos atrás de uma mole de frases feitas, que significam exatamente nada. A não ser sementes de violência e de movimentos extremistas e ditatoriais.
Ouvem-se as mais inacreditáveis ideias, ditas de forma inflamada, como a criminalização das opções e escolhas políticas. A procura de bodes expiatórios e a fulanização do ódio são péssimas notícias para as democracias.
Estamos revoltados, tristes, ansiosos, desesperados. Mas esta foi a escolha que, como País, fizemos há menos de 6 meses. Onde estavam todos estes indignados no dia das eleições legislativas de 2009? E nas de 5 de Junho deste ano? E nas presidenciais? Porque não se arriscam estas pessoas indignadas a responsabilizarem-se por formar um ou vários partidos políticos, para concorrerem a eleições, tentando que o povo ouça, perceba e aceite as suas ideias? Isso é que é a democracia verdadeira, o debate de ideias e a escolha informada. Para além do respeito por essas escolhas.
Queremos manifestar-nos, gritar a nossa frustração, o nosso desespero. Ainda bem que o podemos fazer e que o fazemos. Mas isso não pode nunca substituir aquilo que o voto escolheu.
Não estou chocada, estou revoltada.
Este governo é o maior embuste de que eu tenho memória. O chumbo do PEC IV e a queda do governo, com a justificação da falta de credibilidade do Primeiro-ministro Sócrates e do seu Ministro das Finanças, da inacreditável carga de impostos a que eles nos obrigavam, com os sacrifícios que já não se podiam suportar, com a desconfiança dos mercados, foi pura e simplesmente uma enorme mistificação para o assalto ao poder.
Já todos sabíamos disso. Foi este o governo que os portugueses votaram. Foi uma mistificação que teve a cumplicidade e a participação do Presidente da República. Ainda hoje Passos Coelho teve a ousadia de culpar o anterior governo da derrapagem no défice. Não lhe passa pela cabeça que a redução do poder de compra, o aumento dos impostos e tudo o que o governo tem feito desde que chegou ao governo, nos levará apenas a mais e mais austeridade. Tal como está a acontecer à Grécia.
O memorando da Troika obriga a austeridade, obriga a reduzir os rendimentos, obriga a reduzir o consumo, o investimento, etc. Desta magnitude é da responsabilidade deste governo.
Desde 5 de Junho que a crise passou a ser a maior desde a grande depressão, que a Europa não sabe lidar com a crise das dívidas soberanas, que há a revolta contra a arrogância de Angela Merkel e Sarkozy.
Não estou chocada, estou revoltada. Mas a democracia é assim mesmo. Foi este o governo que o povo escolheu. Não sei é que povo sobrará após este governo, ou que País.
(...) Está na hora de os Portugueses se questionarem por que razão tantos “poderosos” e “famosos” são absolvidos nos tribunais ou “salvos” por “deficiências” processuais, depois de ultra condenados na praça pública! A razão é simples: aqueles (ou aquelas) que os Portugueses tanto aplaudem por serem os justiceiros que finalmente estão a meter na ordem os ditos “poderosos”, têm-se dedicado mais a construir processos de intenções que culminam com condenações públicas sem direito a defesa condigna, do que a fazer processos jurídicos válidos, assentes em provas e factos e não em juízos de cariz pessoal. Em Portugal, tornou-se normal os processos estarem invertidos: primeiro cria-se a convicção e depois procura-se a prova. Assim, e como felizmente ainda existem muitos juízes corajosos e com espírito de missão na defesa dos pilares de um Estado de Direito, é natural que esses processos, mais tarde ou mais cedo, acabem por “morrer”. Mas, diga-se, quem acusa também não se preocupa muito com isso... Na verdade, sob o alto patrocínio de alguns meios de comunicação social cúmplices, a condenação pública já foi conseguida. No final, essa é que fica na memória colectiva...
(...) Vários dos nossos demónios da coisa pública, gente que não se importa de incendiar seja o que for para exibir uma opinião, têm por cá defendido a criminalização da política. Consoante as cores, alguns querem colocar Sócrates no banquinho, outros inclinam-se mais para lá sentar Jardim. Não se trata de fazer julgar qualquer pessoa por crimes que tenha cometido, seja presidente de câmara ou ministro; nem, por outro lado, se trata de tirar os "poderosos" das mãos da justiça. Trata-se de recusar absolutamente misturar julgamento político com tribunais. Temos repetido que isso é uma aberração, um caminho perigoso; pensamos que a tentativa de criminalizar a política é um ataque à democracia, um extremo de demagogia e de populismo que só pode piorar as condições da nossa vida em comum. Que as musas da liberdade nos salvem de cairmos nessa tentação. (...)
Apesar da pesada derrota do PSD na Madeira, Alberto João Jardim mantém a maioria absoluta no Parlamento. PS, PCP e BE sofreram também enormes derrotas. Pelo contrário, o CDS afirma-se como a segunda força política.
Não sei o que vai acontecer, mas alguma coisa está a mudar.
Romare Bearden: Uptown Sunday Night Session
Vencemos pelo cansaço os dias que nos ensinam a temer.
Vencemos pela paixão que não nos segura
a mão que oferecemos a mão que agarramos
a conversa antes do café da manhã
alguém a quem passas o que também te falta.
Vencemos pela consistência das certezas impensáveis
apenas o amor a beleza que nos une
apenas duas palavras para decidir que o outro
importa muito mais que a tua queixa.
Vencemos pela solidão do silêncio
com que abrimos a porta e convidamos a entrar.
Vencemos pelo cansaço os dias que nos ensinam a temer
e que nós sabemos glorificar.
Ana Moura
Não te via há quase um mês
Chegaste e mais uma vez
Vinhas bem acompanhado
Sentaste-te à minha mesa
Como quem tem a certeza
Que somos caso arrumado
Ela não me queria ouvir
Mas tu pediste a sorrir
O nosso fado preferido
Fiz-te a vontade, cantei
E quando à mesa voltei
Ela já tinha saído
Não é a primeira vez
Que começamos a três
Eu vou cantar e depois
O nosso fado que eu canto
É sempre remédio santo
Acabamos só nós dois
Eu sei que tu vais voltar
P'ra de novo eu te livrar
De um caso sem solução
Vou cantar o nosso fado
Fica o teu caso arrumado
O nosso caso é que não
Lembramos o sabor do gelado, numa manhã de Inverno, as lágrimas do irmão, acusado injustamente, o profundo cheiro amedrontado da sala de recobro. Lembramos o gesto preciso de guardar uma chave, os dedos presos no puxador da gaveta atravancada, mas esquecemos de imediato os dias seguintes, o retirar da mesma chave da mesma gaveta, um buraco no tempo que não conseguimos preencher. Lembramos vividamente circunstâncias e situações que comprovadamente não se passaram daquela exata forma.
Memórias construídas pela observação e aprendizagem do que se passou depois. Memórias construídas pelos estímulos emocionais que, ao desencadearem cascatas de sinalização, secreções proteicas e alteração espacial das sinapses, nos levam a lembrar atitudes, sorrisos e sensações, nem sempre correspondentes àquelas que, após um lapso temporal e a ausência de repetição dos mesmos estímulos, nos fazem olhar para a realidade com a memória apagada, distorcida, diferente.
Não existem boas testemunhas, pessoas que sejam capazes de reproduzir em documentário a ocupação do seu espaço e do espaço envolvente, pela sua vida e pela dos outros, baseada em acontecimentos. Mesmo no registo documental, os ângulos com que se olha, a abertura do diafragma, a inclinação da objetiva, estão condicionadas pela nossa memória.
Antes da queda do governo, antes da não aprovação do famoso PEC IV, muitos foram os que se encarniçaram a adivinhar a urgência do pedido de ajuda externa ao FMI. Tanto que, na minha opinião, ajudaram a realizar a profecia. Estamos agora perante as mesmas ânsias: tanto se vaticina a próxima bancarrota que ela será cada vez mais provável. O Bastonário da Ordem dos Médicos junta agora a sua voz aos que já antecipam como certa a nossa insolvência.
Eu até acho que o Bastonário da Ordem dos Médicos, pela notoriedade da sua função, deveria ter um papel ímpar na redução dos gastos supérfluos, no combate ao desperdício, na utilização criteriosa dos parcos recursos do Estado, imprescindíveis à sustentabilidade do SNS.
Para isso seria interessante ouvi-lo lembrar o papel determinante de uma boa história clínica, do apuramento detalhado das queixas dos doentes, do registo dos sintomas e dos sinais, dos antecedentes de saúde e familiares, das virtudes de um exame físico completo, da auscultação pulmonar, cardíaca, da palpação abdominal. Gostaria de o ouvir em conferências e artigos enfatizar a necessidade de estudar as várias hipóteses diagnósticas antes de requisitar inúmeros RX, TAC, endoscopias, com e sem biopsias, e análises múltiplas, de informar os colegas que fazem e têm que interpretar os resultados dos meios complementares de diagnóstico sobre as suas certezas e incertezas, do debate multidisciplinar prévio às decisões terapêuticas e prescrições medicamentosas, para além do imperioso cuidado com super medicação.
Penso que o Bastonário da Ordem dos Médicos poderia ajudar imenso se lembrasse a todos os profissionais que as tecnologias informáticas são uma ajuda preciosa para ganhar tempo e reduzir custos, que a utilização sistemática dos correios electrónicos aumenta a rapidez e a eficácia da comunicação, eliminando horas de espera, telefonemas repetidos, interrupções de trabalho inoportunas, gasto de papel inconsequente. Poderia ainda motivar todos os médicos a renderem-se ao benefício inequívoco das requisições, das prescrições e dos processos clínicos electrónicos.
O Bastonário da Ordem dos Médicos seria, com certeza, um excelente aliado do SNS e da defesa da saúde dos portugueses, mesmo poupando-os a novos impostos sobre fast food e a ironias quanto à bondade da promoção do consumo do tabaco.
Ledray: Milk and Honey (detail)
Aguardo que me escorra leite e mel
promessas sem compromisso destinos acordados
noites molhadas de mãos perdidas
aguardo alvoradas ardentes
virgens de vícios e decepção
ausência de mitos ensinados
vida tão mais aguda e decidida
que a sua múltipla negação.
Coberto de dívidas e sem esperança, Kim decide afogar-se, atirando-se de uma ponte sobre o rio Han, na cidade de Seoul. O azar ou a sorte não o deixam morrer e ele acaba numa pequena ilha deserta, da qual se contempla o esplendor de uma grande metrópole.
Do outro lado da ponte, em Seoul, fechada num apartamento, vive KIM, uma rapariga cuja existência se confina ao seu quarto. O seu contacto com o mundo é feito através de um telescópio e da internet, onde se inventa em personagens fictícias. A lua é a sua casa.
Kim, naufragado na ilha e Kim, naufragada na lua, iniciam uma estranha aproximação, apenas possível naqueles que, despojados de tudo, percebem o essencial da vida e se despem de tudo o que nos parece indispensável e nos escraviza.
Filme de actores, com um argumento aparentemente simples, em que a banda sonora acompanha as emoções sem as conduzir nem as condicionar, uma deliciosa descoberta.
De vez em quando ainda levanto o pouco o voluntário afastamento das notícias.
Ouvi a entrevista que Pedro Silva Pereira deu a Maria Flor Pedroso, em que desmascara a mistificação que este governo fez à volta da execução orçamental do 1º trimestre, do desvio colossal e do conhecimento ou desconhecimento das dívidas da Madeira.
Li que Teixeira dos Santos defende que o PS viabilize o Orçamento de Estado para 2012, porque não é altura de tirar dividendos políticos, sendo imprescindível assumir responsabilidades. Ainda há pessoas que colocam o interesse do país acima de qualquer outro interesse.
Leio e ouço muitos que rejubilam perante o fracasso da descida do défice e do aprofundamento da recessão, como demonstração de que este governo não é capaz de governar. Não votei no PSD nem no CDS, não aprovo a ideologia deste governo, não me revejo neste mandato presidencial. Mas o fracasso deste governo, que venceu eleições livres apenas há alguns meses, portanto escolhido pela maioria dos portugueses, é o fracasso de todos nós. Não o desejo nem o aplaudo. O governo tem legitimidade para governar e deve fazê-lo. O PS é co-responsável por muitas das medidas que estão a ser tomadas, pois assinou o memorando.
Espero que o PS assuma as suas responsabilidades, sem aproveitamentos espúrios da aflição nacional. Debater e combater as políticas com que não se concorda, mas sustentar aquilo que tem que ser sustentado para que todos estes sacrifícios possam fazer algum sentido.
Foi um erro o chumbo do PEC IV. O PS deve lembrar-se bem desse erro dos partidos da oposição. É bom que o não repita, agora que já não é governo.
Outra notícia que acende uma luzinha de esperança: a maioria absoluta de Alberto João Jardim pode não ser tão certa.
Astor Piazzola
Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi...
Cuándo, de repente, detras de un árbol, se aparece el.
Mezcla rara de penultimo linyera
y de primer polizonte en el viaje a Venus.
Medio melón en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano.
Parece que solo yo lo veo,
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan,
los semáforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquina
le tiran azahares.
Y así, medio bailando y medio volando,
se saca el melón, me saluda,
me regalo una banderita y me dice:
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao,
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos.
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!
Y asi diziendo, el loco me convida
a andar en su ilusión super-sport
Y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!
De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!",
los locos que inventaron el Amor,
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.
Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!:
provoca campanarios con su risa,
y al fin, me mira, y canta a media voz:
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepate a esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir...
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!
¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca el y loca yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca el y loca yo
Meias de lã
camisa de rã
sapato bicudo
sopé da manhã
olho sisudo
terra de fada
laço desfeito
aperta cintura
afia caneta
que bela figura
fundo decote
sem que se note
alva tremura
suspiro rasante
sorriso de lado
leque arejado
cala o tratante.
Meias de rã
sapatos de lã
deixa o cigano
cantar violino
pendura a manhã
na corda do sino.
Stuart Carvalhais
A República - res publica ou coisa pública), seja ela entendida como um regime político, em que o chefe de Estado pode ser qualquer cidadão, desde que seja eleito por voto livre e secreto, seja ela entendida como uma forma de governo e de administração do bem comum, é um princípio de organização política que tem como valores basais a igualdade entre os cidadãos e a responsabilização deles mesmos perante si e perante todos, assim como a ética da obediência à Lei e a obrigatoriedade de prestar contas pelos bens à sua guarda.
Nestes 101 anos de comemoração da implantação do regime político, olhamos para estas ideias básicas e estranhamos a distância a que delas nos encontramos.
O primado da igualdade, em que as diferenças entre os cidadãos se medem pelo que têm, pelo que auferem ao fim do mês, pelo poder directo ou indirecto, exercido de formas muitas vezes pouco lícitas, pela eternização de privilégios e garantias de justiça para poucos, a maior abertura da sociedade ao racismo e à xenofobia, o subverter da noção do que é bem próprio e bem comum.
O primado da responsabilidade, em que a sensação e a postura cultural aceita quase sem discussão uma administração de justiça diferente, relacionada com o poder de cada cidadão, a negligência assumida do que é o prestar de contas, política ou criminalmente falando.
O primado da liberdade e da democracia, cujos princípios fundamentais se fundem com os do próprio regime republicano, em que o acesso à informação está condicionado pelos vários poderes.
Em 100 anos a sociedade modificou-se radicalmente, o avanço tecnológico é imenso, houve guerras mundiais e locais, fome miséria, prosperidade, ditaduras impuseram-se e caíram, as condições de vida melhoraram abissalmente, pelo menos para a pequena parte do mundo em que nos encontramos. Mas 100 anos não são suficientes para mudar os instintos e as compulsões humanas.
E por isso mesmo, apesar da nossa sociedade ocidental ter instrumentos, capacidades e condições cada vez melhores, ciência e investigação, arte e engenho ao serviço dos povos, ainda precisamos de nos lembrar do significado, do conceito mas, predominantemente, falta-nos a todos a prática desse significado e desse conceito.
Jerome Myers
Pim pam pum
cada dedo cada mão
sem a casa e sem botão
abre fogo mata tia
entre o jogo da magia
pim pam pum
sempre tosco sempre nu
assa lento come cru
entre as migas do almoço
água fria só no poço
pim pam pum
já me sobra a cabeça
já me falta a travessa
ponta e liga ponto e nó
que me falta a minha avó.
Ontem apanhei a meio, num canal qualquer, o filme O Regresso de Henry (Regarding Henry). A hipótese de alguém reconstituir a sua vida a partir do nada, ser outro totalmente diferente do que foi, é algo que a nossa sociedade, hipocritamente, associa à reabilitação individual, com a forma como se entende e afirma, em termos de direito penal, o objectivo da clausura nas prisões (nos países que não aceitam a pena de morte), mas que, na realidade, é cada vez mais impossível de se conseguir.
Como se demonstra pelo caso do assassino e terrorista, condenado a 30 anos de cadeia, que se conseguiu evadir e estabelecer-se num outro país (o nosso), com outra identidade, assumindo uma pessoa totalmente diferente da que tinha sido, vivendo uma vida plana, igual à de tantos outros, exemplares cidadãos ou cidadãs.
Será que, tal como a Henry, não terá aproveitado a oportunidade que a sorte (?) / destino (?) lhe deu para mudar de alma. Será que é mesmo possível mudar de alma, tornar-se invisível, virar-se do avesso, perdoar-se a si próprio, se é que alguma coisa envolve o sentido do perdão e da penitência?
A nossa moderna sociedade tecnológica, com cruzamento de dados , satélites, GPSs e globalização internáutica, transforma-nos num colectivo ditatorial em que o indivíduo e o livre arbítrio têm uma presença cada vez mais efémera.
Cassandra Austen: Jane Austen
Apesar de serem romances de uma escritora do século XVIII/XIX (Jane Austen), Sensibilidade e Bom Senso (Sense and Sensibility) e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) são novelas que, ainda hoje, excitam a imaginação de milhares de leitores por todo o mundo, com várias reedições e estudos críticos, adaptações cinematográficas e séries televisivas.
Estando eu no meio dos admiradores destas duas novelas, pergunto-me muitas vezes as razões de tamanho êxito, idêntico ao que se verifica também com um livro como Mulherzinhas (Little Women – de Louisa May Alcott, século XIX).
Para além de serem histórias passadas dentro das famílias, com retratos sociais e reflexões éticas e culturais, no sentido da caracterização de certas classes e de certos ambientes rurais, apoiando-se em enredos que podem ser olhados como teias ou redes de relações, projectam personagens femininas fortes e emancipadas, dentro do que era possível e aceite.
Em Orgulho e Preconceito, a autora criou Elizabeth Bennet, uma de cinco filhas de um casal de proprietários rurais. Enquanto a maior preocupação da mãe era casar a sua prole salvaguardando-a da miséria, debatendo-se com os fracos dotes para encontrar maridos que pudessem prover ao seu sustento, Elizabeth Bennet tem uma postura de literata e de independência face a algumas das convenções da época, preocupando-se mais com o seu espírito indomável que com o futuro, mostrando até gosto pelo desafio da arrogância e da férrea estrutura classista.
Também em Sensibilidade e Bom Senso a dependência económica das mulheres é o pano de fundo da história. Nesta enquadram-se as vontades de duas personalidades diferentes - as irmãs Elinor e Marianne, de duas maturidades distintas, mas sempre com a preocupação de personagens femininas com pensamento próprio e necessidade de afirmação de independência, exercendo escolhas e tomando posições bem definidas.
O terceiro exemplo centra-se numa ética religiosa, de comportamentos estritos e bem controlados, com uma personagem central - Jo March - que afirma os valores da educação, do pensamento autónomo, da crítica e da independência, apenas aceitando a submissão ao amor, aqui já quase omnipresente.
Não sei se é o transporte para um mundo mítico que gostaríamos de ter conhecido, se a moralidade e a certeza do triunfo dos justos, se a existência de heroínas brandas mas firmes, que nos fazem manter o interesse por estas histórias, ou tão somente a melancolia de algo que nunca fomos nem nunca seremos.
Luisa May Alcott
Nunca vi tantos programas de culinária como agora, que estou numa dieta absolutamente espartana. MasterChef Australia, Jamie Oliver, Henrique Sá Pessoa, todos os do Food Network, numa furiosa sublimação dos prazeres da comida suculenta, apaladada e perfumada.
Os olhos também comem, não há dúvida.
Geroge Seagal: depression bread line
Não se aguenta mais o clima de medo, ansiedade, pessimismo e depressão generalizada que se instalou na sociedade.
Os dias começam com o anúncio de mais buracos, de mais cortes em salários e despesa pública, de mais desemprego, de mais impostos, de mais crimes, de maior afundamento das bolsas. A Europa está a implodir, os EUA a encolher, os ditadores matam, os terroristas explodem-se e explodem quem se avizinha. Fogem famintos que se afogam, desfilam populações em protesto, incendeiam-se cidades por capricho ou revolta.
Setembro pesa, abafa, estufa. O sol não afasta temores nem ilumina as mentes. Ao menos que venha o frio, que venha o fustigar do vento, o abano da chuva, os dias pequenos e sombrios, que passem depressa.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...