(pintura de Laurie Zagon: warm changes)
Pesa-me o ar
este amarelo pardo
amolecida a vontade de mudar
pesa-me a espera
da inevitabilidade de mudar.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
(pintura de Laurie Zagon: warm changes)
Pesa-me o ar
este amarelo pardo
amolecida a vontade de mudar
pesa-me a espera
da inevitabilidade de mudar.
A partir de agora, e sempre que algum médico for agredido nos serviços de urgência de um hospital, fecham-se as urgências; sempre que algum funcionário das finanças for insultado, deixa de se cobrar impostos.
A falta de juízo destes titulares de um órgão de soberania é realmente inédita. E a falta que faz.
Nota: vale a pena ler Ferreira Fernandes e Nuno Brederode dos Santos, ambos no DN on-line.
Manuela Ferreira Leite tem gerido as suas funções como líder do PSD, não gerindo.
A ideia peregrina de tornar a dar o dito por não dito no caso dos investimentos públicos, leia-se TGV e novo aeroporto, por parte de quem teve responsabilidades políticas e executivas na decisão de avançar, e na definição dos traçados e das localizações, é mais uma machadada na credibilidade dos actores políticos.
E as novas palavras de ordem como emergência social não justificam nada. O mais triste é que ninguém acredita que esta posição seja ditada por convicções mas apenas por oportunismo político.
Será esta a credibilidade que se quer contrapor a Sócrates?
Vai ser interessantíssimo observar Pacheco Pereira e António Costa na Quadratura do Círculo, muito interessante mesmo.
Enquanto as mulheres se preocuparem a discutir a sua diferença natural no exercício do poder, a sua forma diferente de estar na política e nas empresas, enquanto se organizam congressos em que uma das suas preocupações é demonstrarem que se livraram do macho para procriação e que, portanto, podem ser mães lésbicas, em vez de exercerem o poder, de exigirem a partilha das tarefas domésticas de quererem interessar-se pela causa pública porque assim entendem, de terem vontade de serem seres humanos completos, honestos, felizes, independentemente de serem fêmeas, enquanto se arrogarem a superioridade de tratarem os homens como machos, nunca haverá igualdade de oportunidade entre os géneros.
A paridade é algo por que se luta e que se pratica diariamente, nas famílias, nos empregos, no lazer, nos partidos, no poder. Não me interessa se é feito por homem ou mulher, importa-me que seja bem feito. Diferente, não tenho dúvidas, como diferentes são todos os seres humanos.
(ver jornal "o Público", artigos de reportagem de São José Almeida e Sofia Branco - págs. 12 e 13 - e artigo de opinião "Coisas de Gajas" - pág. 46 - links indisponíveis)
(pintura de SS: broken glass)
1.
Nada é bastante
nem os rios
nem o vento
nem o ruído do mundo.
Nada é bastante
para redimir
o aniquilamento persistente
velas de gelo
sem pavio.
2.
Ao fim da tarde
o ar enlouquece branda e repetidamente
os dedos quietos suspendem
o profundo torpor da espera.
3.
Tanto mundo de gestos irreais
palavras por cumprir
na fuga do olhar.
Way down upon that old Mississippi River
Not so far away
That's where my folks have lived forever
And that's where they're goin' to stay
Meryl:
I've been searching 'cross the whole creation
Half my life or more
But I've found my own sweet satisfaction
Right here on that muddy river shore
All the world is so sad and dreary
Everywhere I roam
Oh mama how I miss the prairie
And my Minnesota home
Lily:
I can see my mama's sweet sweet face
Every Sunday morning
All the good ol' hymns, praise God, that we've sung
We knelt in prayer right beside our precious aunts and uncles
Who loved us when we were young
Meryl:
In the valley of at darkness they are the shepherds
Who lead me to pastures green
And I'll sit with my mama by the still, still waters
And goodness and mercy follow me
Lily:
I floated down the Columbia and the Hudson
Walked on the banks of the Ohio
On the banks of the Wabash and the mighty Colorado
And the old red river way up north
Meryl:
All the world is a world of rivers
Flowing to the sea, Oh...
But here on that old Mississippi
Here is the home for you and me
All the world is so sad and dreary
Everywhere I roam
Oh mama how I miss the prairie...
And my Minnesota home...
(pintura de Elizabeth Willmon: Reason Enough)
Sobre a terra
calcamos as mãos
raízes
sorvemos a força
ser assim
castanho verde
semente água
rebentamos de vida
por fim.
E de repente começamos a ouvir falar do Bloco Central, do novo Bloco Central, da inevitabilidade do Bloco Central, do sebastiânico e do salvador Bloco Central.
Mas se estivermos com atenção percebemos que quem em lançado essa ideia, esse boato, essa inevitabilidade, são militantes ou simpatizantes do PSD, como o digníssimo Prof. Marcelo.
Ou seja, o PSD está tão sedento de poder e percebe de tal forma que não consegue ganhar as eleições, que está já a fazer uma campanha de usura, demonstrando que o PS não consegue maioria e que, portanto, deve votar-se no PSD para lhe dar força para uma salvadora e indispensável, para o PSD, coligação pós eleitoral.
É claro que à esquerda do PS o fantasma do Bloco Central também serve, pelas razões simétricas.
Estamos a mais de 1 ano das eleições legislativas. Convém que o PS perceba que só lhe interessa dividir claramente as águas com o Bloco de Esquerda, com o PCP e com o PSD, demonstrar a falência/ausência de ideias à direita e à esquerda, demarcar-se da política de direita em Portugal e na Europa, afirmar-se como um partido de um governo reformador e que quer manter o estado social, renovando-o e alterando-o.
Nada pode ficar parado e à espera dos amanhãs que nunca mais cantam. Há 30 anos o mundo era diferente. O PS deve demonstrar sem medo que quer a mudança que outros não foram capazes ou não a querem fazer fazer, mantendo as bandeiras da igualdade de oportunidades, de serviço público de qualidade em que se insere a segurança, a educação e a saúde, os valores da tolerância e da integração dos imigrantes, o respeito pelos outros.
É bom que o PS acorde. O país não aguenta outra vez a hipótese de voltar para trás.
Não alinho com as vozes do costume que acham que este Ministério da Educação, mais precisamente esta Ministra, trabalha para as estatísticas e para a redução do insucesso escolar de forma desonesta, alterando todos os anos as premissas do que é o mínimo e o razoável da aprendizagem.,
Mas é muito difícil ignorar as opiniões de quem não tem quaisquer interesses políticos em desacreditar as provas nacionais que se vão fazendo.
E isto não me parece nada sério. É mesmo a pior maneira de melhorar as estatísticas, porque assenta no pressuposto de que os cidadãos são indigentes mentais.
(pintura de Rachel Baum: Scarlet Moon 2)
Entre a lua que descansa e assombra
o sol que abrasa e cega
não há médias luzes
nem banhos de espuma
que nos afrontem.
Esperamos a paz impossível
de batalhas inconsequentes
da penitência que une armas
e almas
tão desiguais.
O resultado do referendo ao Tratado de Lisboa tem sido muito comentado por várias pessoas, entre as quais Luís Naves, do Corta-fitas, que sempre se debruçou seriamente sobre a construção da nova Europa.
Do seu último post sobre o assunto, tenho a comentar que:
O argumento do número de habitantes em vez do número de países, para se avaliar da democraticidade e dos equilíbrios de poder, esquece que a União Europeia não é um país nem um Estado soberano. Ou seja, são os Estados independentes que devem ser colocados em pé de igualdade e não a soma dos habitantes de cada país.
Mais uma vez o critério da maioria populacional. Por outro lado as decisões por maioria qualificada de número de Estados, com tão grande número de Estados, pode ser facilitdora.
A desconfiança existe e tem razão de ser. Em primeiro lugar é tão democrática a ratificação no Parlamento como em referendo. O que já não é democrático é a não realização de referendo pelo receio da rejeição, já não falando na quebra de promessas eleitorais. Não houve qualquer cuidado em tentar fazer campanha a favor da bondade deste tratado, mas houve todas as cautelas para evitar os referendos. Isso é que me parece pouco democraático.
E será que os cidadãos europeus querem ou sentem necessidade de ter uma Europa diferente? Já alguém se deu ao trabalho de os convencer que o aprofundamento político é melhor que a manutenção de uma gigantesca zona de comércio?
(...) Na minha opinião, esta é a discussão que interessa ter. Que Europa queremos. (...)
Concordo totalmente. Mas essa é a discussão que nenhum patido político quer ter. E é isso que faz com que as opiniões públicas desconfiem destes tratados.
Não há dúvida que a melhoria nos resultados das provas de aferição de Matemática e Língua Portuguesa dos 4º e 6º anos são um pouco suspeitas, levando rapidamente à conclusão de diminuição acentuada da exigência.
No entanto, se analisarmos os resultados por níveis, de E (o pior) para A (o melhor), os resultados podem ter outra leitura.
Na Língua Portuguesa:
Na Matemática:
Enfim, as curvas estão mais ou menos na mesma. Estou com Nuno Crato: os resultados do PISA são mais fidedignos e de 2003 a 2006 não houve quaisquer alterações (em Matemática, pelo menos).
(pintura de Pamela Miller: Aqua origins 2)
Em linha recta
contornamos esquinas
colidimos a cada segundo
com a realidade das curvas
para o sonho dos poemas
das flores das cidades
dos abraços da vida
sem desvios.
Pois é. A democracia é mesmo enervante. Principalmente quando o resultado é aquele que não queremos. As eleições, se virmos bem, também são um risco.
O único país onde se fez um referendo para a ratificação do Tratado de Lisboa negou essa ratificação.
Em Portugal, e apesar das promessas eleitorais do PS e do PSD, os mesmos partidos e o Presidente da República Cavaco Silva inviabilizaram o referendo ao Tratado de Lisboa.
Muitos foram os argumentos contra o referendo, inclusivamente que o texto do Tratado era ilegível. Outra das justificações para a ratificação ser parlamentar foi que a promessa eleitoral tinha sido em relação ao Tratado Constitucional e não ao Tratado de Lisboa, como se o último não tivesse sido um estratagema para ultrapassar os resultados negativos dos referendos ao Tratado Constitucional.
Em face de mais esta derrota anunciada à ratificação de um tratado feito quase à revelia dos cidadãos europeus, em que não foram discutidas pelos partidos políticos nacionais as propostas e as alterações que resultariam de um tratado que recuperava 90% da falhada constituição, a Comissão Europeia não sabe o que fazer e parece que a solução é repetir o referendo irlandês até que a resposta seja positiva.
É uma estratégia condenada a falhar. Se a organização da Europa necessita de modificações e adaptações, se há a vontade de aprofundar uma União Europeia política e não só económica, se se pretende ter uma União Europeia com política externa comum e defesa comum, é necessário que os próprios cidadãos de todos os países mandatem os seus representantes europeus para redigir algo que seja um compromisso entre os vários sentires da Europa.
Já em Março de 2006, neste post, defendi que deveria haver eleições para um parlamento europeu com poderes constituintes, para que fosse possível tentar um projecto de Constituição Europeia, caso fosse esse o entendimento dos cidadãos. Tenho lido ultimamente alguns posts de outros blogues que também sugerem o mesmo.
Uma coisa é certa: este sistema de tratados que são negociados e depois vendidos aos países como única solução para quem quer continuar a fazer parte da União Europeia não resulta. Poderá mesmo destruí-la. Talvez fosse uma excelente altura para procurar alternativas democráticas e que incluissem a participação dos cidadãos na definição do que querem, de facto, para a futura União Europeia.
Ouço, na televisão, os piquetes de greve a decidirem quem pode e quem não pode avançar, o que é importante e o que não é importante distribuir, piquetes de greve a ameaçarem camionistas, supermercados a ficarem sem comida, postos de gasolina a ficarem sem combustível, camionistas bloqueados na fronteira, produtores de leite a deitarem fora toneladas de litros de leite, toneladas de peixe a apodrecer.
Onde está a autoridade neste país? Neste dia de de Portugal somos governados por piquetes de greve.
Hipóteses de felicidade (considerando 8h/dia para dormir...):
Para que são precisas mais horas por dia, se a nossa vida é mesmo o trabalho? Sempre temos o sábado e o domingo.
Para que são precisas mais horas por dia, se a vida é mesmo o trabalho? Sempre há o sábado e o domingo… talvez melhor só o domingo, ou o sábado.
Se calhar é melhor prescindir do sábado, ou do domingo, ou mesmo dos dois. Também, para que é que servem?
Nestes últimos meses, com maior incidência nas últimas semanas, tem-se assistido a um aumento da conflitualidade social por toda a Europa, com vozes crescentes a manifestarem-se e com partidos e associações políticas a trocarem acusações sobre neoliberalismo e socialismo capitalista.
Em Portugal a esquerda demagógica e populista, encimada pelo rejuvenescido Bloco de Esquerda, que espreita todas as situações em que pode explorar os descontentamentos dos cidadãos, independentemente da legitimidade dos processos, não apresenta qualquer ideia ou alternativa às várias políticas seguidas por este governo.
O que está a acontecer em Portugal e noutros países da Europa com os protestos dos empresários de camionagem, que usam de métodos criminosos para obrigar os seus empregados ou companheiros a cumprirem uma paralisação, bloqueando estradas e fronteiras, com a conivência dos governos eleitos democraticamente, que têm medo de usar a autoridade de que estão investidos de forma a garantirem a todos os cidadãos a sua segurança e a sua liberdade, não pode deixar de indignar quem se reclama defensor da democracia.
E no entanto, embora de imediato tenha havido reacções dos partidos políticos que se dizem de esquerda ao triste, anedótico e bafiento lapso do Presidente, que mais uma vez demonstra a falta de estatura para o cargo que ocupa, exigindo pedidos de desculpa e explicações, não reparei nos protestos de indignação pelas ilegalidades e pelos crimes que se passaram à vista de todos (com algumas raras excepções), altamente propagandeados pelas televisões. Nem os ditos blogues alinhados à esquerda dedicaram duas linhas a este grave problema, mais grave que a raça do Presidente.
Hoje acordámos com uma notícia da TSF em que se dizia que os ministros do trabalho da EU aprovaram a ultrapassagem das 48 horas de trabalho por semana, aceitando como normal as 60 horas, podendo ir até às 65 horas nalgumas profissões, como os médicos.
Como é possível que esta União Europeia, que negoceia e aprova tratados nas costas dos cidadãos, tenha a audácia de regressar às leis da selvajaria no mercado de trabalho, olhando para os cidadãos que jurou proteger como uma horda de escravos modernos que, para além do mais, com a globalização, o aumento da tecnologia com a consequente diminuição da necessidade de pessoas para a execução de múltiplas tarefas, e a inexorável subida do desemprego, retiram qualquer capacidade de negociação por parte dos trabalhadores ou dos seus representantes.
Onde está a matriz social democrática europeia? Onde está a defesa da dignidade da pessoa humana e do trabalho como realização pessoal e de contribuição para a sociedade?
A ideologia do lucro a todo o custo e sem olhar a meios está instalada, por muito que hipocritamente se diga o contrário.
A globalização foi defendida como um meio para melhorar o nível de vida de todos, inclusivamente para que a Índia e a China aproximassem os seus padrões de vida dos ocidentais. Está precisamente a acontecer o contrário. A Europa está a deixar-se aproximar dos valores da exploração do trabalho e das pessoas.
O que se está a assistir no país com a paralisação sob coacção, dos camionistas, com o bloqueio das estradas e dos portos, com a revista dos automóveis por grevistas e a destruição e impedimento de venda de peixe, no caso dos pescadores, é absolutamente inaceitável. Onde estão os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos? Onde estão as forças de segurança?
Porque é que as empresas de camionagem não aumentam os preços dos seus serviços? Se o governo cede está aberta a porta para que todos os cidadãos possam reivindicar o que lhes apetecer, porque a gasolina e o gasóleo aumentou para todos e eu, para ir trabalhar, também gasto cada vez mais dinheiro em gasolina. Que tal pedir ao governo para me facilitar a vida?
Gostava de ouvir os campeões das liberdades e da democracia esclarecerem o que pensam sobre este assunto.
Se o governo ceder a estas pressões ilegítimas e ilegais, após ter resistido às manifestações e aos apelos da rua por parte dos sindicatos, pode dizer adeus ao que resta da sua credibilidade.
Olhemos como olharmos, da esquerda, da direita ou do centro, os EUA são uma grande democracia.
Ao contrário do que no início da campanha se previa, Barack Obama é o candidato dos Democratas. Hillary Clinton passou de uma vitória quase certa para um discurso de saída da campanha com esta dignidade:
Espero que Barack Obama aproveite a ideia de Hillary Clinton, que já tem décadas, de prover uma cobertura de saúde a todos os cidadãos, alterando um paradigma de assistência médica totalmente desajustada daquilo que se espera de uma democracia que vela pelos seus cidadãos.
O mundo só tem a ganhar com a reviravolta na política americana. Mas, já agora, que ganhe Obama.
(Nota: o link retirei-o daqui, e dali o vídeo completo)
Ora tão bem que o Bastonário da Ordem dos Médicos defende o SNS! Em vez de decidir quantos dentes ou que bocados de dentes se podem tratar, poderíamos ter a liberdade de escolher a metade da hérnia, o terço da hipertensão, ficando o resto para pagar a fisioterapia!
A entrevista de Manuel Alegre a Judite de Sousa, como aliás se demonstra por um pequeno excerto transcrito na Câmara Corporativa, é a prova provada de que não há alternativa à esquerda.
O triste é que Manuel Alegre está convencido que os votos que quase o levaram à 2ª volta das eleições presidenciais também se agregarão à sua volta para uma eventual coligação das esquerdas. Não há esquerdas credíveis e o Bloco de Esquerda usa a mesma retórica de Manuel Alegre, reciclada de moderno.
Quem fará parte de uma tal coligação de esquerdas? É transparente a ausência de ideias e de alternativas, pois quando se perguntam coisas concretas, as respostas são grandiosas com imensas palavras cheias de nada.
Se há alternativas à governação socialista elas estão à direita e não à esquerda. E é por isso que a movimentação do Bloco aproveita a situação, visto que não tem havido oposição ideológica à direita. Assim é fácil acusar o governo socialista de governar com capitalismo socialista.
Quanto à total lavagem cerebral sobre a grandiosidade da queda do governo, do descontentamento popular, da crise horrível que todos vivemos, dos maus ricos e dos pobres bons, obviamente encabeçados e organizados pelo PCP e engrossados por todos os descontentes de tudo o que aconteceu desde há 8 ou 10 anos, pela crise internacional, etc, lembro-me das grandiosas manifestações que o PCP mobilizava em 1974, das enormes quantidades de trabalhadores, operários e camponeses que marchavam contra todos os reaccionários (que eram todos os que não eram comunistas) e pela surpresa dos resultados eleitorais em 1975.
Vendo e ouvindo o que Joana Amaral Dias está a dizer no Expresso da Meia-Noite (outra personagem urticariforme, e quanto a arrogância, falta de humildade e retórica vazia…) continuo convencida que não há alternativa a Sócrates à esquerda. Pode haver alternativas a Sócrates, mas dentro do espaço ocupado pela esquerda socialista e moderna, onde não se inscreve o Bloco de Esquerda.
Sinto sempre uma desconfiança instintiva quando ouço falar de políticas de apoio à natalidade e à maternidade. Arrepio-me de cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos.
Estranho a enorme quantidade de consultas a que têm que ir acompanhadas dos respectivos companheiros, quer eles queiram quer não, esperando horas infinitas para poderem ouvir os dois que o feto ainda na barriga da mãe tem que ter a companhia do pai, o amor, o apoio, enfim, toda aquela retórica que acompanha o amor e a educação primorosa que nos ensinam que é a correcta e única possível.
É claro que acho muitíssimo bem que quem quiser fique em casa a cuidar dos filhos. O que me parece é que, encapotada e subliminarmente, se vai fazendo de novo uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas.
Se o tempo gozado em licença de maternidade fosse dividido entre o pai e a mãe, ambos teriam oportunidade de acompanhar os filhos e de prosseguirem as suas careiras profissionais. A coberto de um grande apoio social à família e à mulher, empurra-se de novo o género feminino para a sua função reprodutora, esquecendo que as mulheres são maioritárias no desemprego em geral e no desemprego de longa duração, em particular.
As políticas de apoio à natalidade deveriam ser igualitárias, com a existência de creches na proximidade dos locais de trabalho, horários em part-time, teletrabalho, tudo o que facilite a vida de quem tem filhos, mas em pé de igualdade para ambos os sexos. Em vez de se insistir para que os homens ajudem e acompanhem a gravidez das mulheres como uma obrigação, por vezes ridícula e sem justificação, olhando quem não o faz como um machista sem remédio, seria melhor que se insistisse na necessidade de os homens ficarem em casa metade da licença de parto, no acompanhamento dos filhos ao médico e aos infantários, na facilidade com que os podem alimentar, exactamente da mesma forma que as mães. E não condenar as mães que optam por dar biberão, que querem regressar ao trabalho rapidamente após o nascimento da criança, que também gostam de beber um copo com amigos ou colegas de trabalho ao fim da tarde, que adoram a sua independência económica, que não gostam de ficar em casa. Não são piores mães por isso.
E também se pode ter liberdade de escolher não ter filhos.
Depois da revolução da pílula, da conquista da independência económica e da realização profissional, a sociedade parece quer fazer sentir de novo que as mulheres têm uma obrigação imperiosa, da qual depende até a sobrevivência da espécie, de regressar a casa.
(Nota: este texto foi hoje publicado no Corta-fitas, respondendo a um amável convite do Pedro Correia. Espero que os corta-fiteiros não se desiludam. Obrigada.)
José Lello pode juntar-se a Vitalino Canas na galeria de cromos tristes e que causam urticária.
Para quem lhe apetecer ficar embasbacado com o seu esquerdismo ou, pelo contrário, com o seu liberalismo, autoritarismo ou liberalismo, divirta-se a fazer este teste: political compass (retirado daqui).
Acho que já o fiz há uns anos, e parece-me que estou cada vez mais radical...
The Political Compass
Economic Left/Right: -6.75 Social Libertarian/Authoritarian: -5.33
Há uma coisa (se calhar até há mais) em que estou em total acordo com Manuel Alegre: no facto de se diabolizar o público e de se endeusar o privado.
O estado tem um papel essencial nas sociedades democráticas modernas e determinante no assegurar de igualdade de oportunidades em sectores de sobrevivência, coesão e solidariedade sociais. O discurso neoliberal de tudo privatizar e tudo confiar à sociedade civil, transforma um dever social em caridade de ricos para os pobres, transforma a sociedade num grupo de classes que se perpetuam.
Mas não aceito as críticas do economicismo deste governo. É absolutamente indispensável rentabilizar e melhorar a qualidade, a eficiência e a produtividade dos serviços públicos, porque é para eles que todos os anos pagamos impostos. E a falta de eficiência e o desperdício são o que de pior podemos fazer se defendemos o estado com garante e detentor de funções como a segurança, a justiça, a saúde e a educação.
Na entrevista que Manuel Alegre está a dar a Judite de Sousa apenas se percebe que acha o governo insensível. Parece-me pouco para tanta discordância.
Também fala dos deserdados e do emigrantes. E do destino.
(fotografia de Don Moorcroft: Shadows with Leaves)
1.
Transparências opacas e densas
por entre o brilho enganador da luz difusa
ofusca e cega.
Atiro-me contra o vidro
quero chegar ao outro lado.
Estou só.
2.
Escrevinho vagarosamente letras
sem tinta
sem dedos
não as consigo entender.
3.
Não sei porque espero que o mundo goste de mim
se eu gosto do mundo
mas pouco
cada vez menos
este mundo que eu própria reduzo e encolho.
4.
Esvaziei a minha secretária.
Não vale a pena cobrir de papéis
a sombra dos dias que não passam.
Manuel Alegre defende que a intervenção política, como intervenção cívica que é, não pode nem deve esgotar-se nas organizações partidárias.
Completamente de acordo, apoiei a sua candidatura independente à Presidência da República e o Movimento de Intervenção e Cidadania, como um espaço de intervenção política de quem não se revê em qualquer partido político em particular, ou não gosta da disciplina ou da vida partidária e, memo assim, gosta de debater ideias e dar o seu contributo, na medida do que sabe e pode.
Manuel Alegre tem tido uma postura crítica a várias medidas deste governo e tem defendido publicamente uma governação socialista mais à esquerda. Ora Manuel Alegre pertence ao Partido Socialista, é um dos seus fundadores e, segundo Ana Gomes, membro da Comissão Nacional do PS. Espera-se que Manuel Alegre defenda as suas posições nos órgãos legítimos do seu partido, para além de o fazer para o resto da comunidade.
Por outro lado, ao juntar-se numa reunião/comício ao Bloco de Esquerda e Reformadores Comunistas, dizendo que os portugueses estão arrependidos de ter votado no PS e reclamando-se contra o novo capitalismo socialista, depreendo que está contra a votação no PS nas próximas eleições.
E, nesse caso, para além de ser importante que clarifique quais as políticas e os valores de esquerda que iria promover em vez das que têm sido desenvolvidas, conviria também que esclarecesse se será protagonista de algum movimento associativo/ coligação partidária ou de tendências de outra esquerda nas próximas eleições. Advoga a votação noutros partidos/coligações que não no PS? Qual o seu programa, qual a sua equipa?
É que não basta dizer frases interessantes, não basta reafirmar-se como defensor de valores de esquerda sem que explicite o que e como quer promover essas políticas. Não basta dizer que se é solidário com os emigrantes e com quem sofre, mas quais as políticas para reduzir o desemprego, como vai redistribuir a riqueza, como vai ter um SNS sustentável, quais as políticas para melhorar a Escola Pública, mas concretizando, não apenas mostrando boas intenções e boa vontade.
Não sei se Manuel Alegre tem agendas escondidas ou se pensa nas próximas eleições presidenciais. Tenho dele uma ideia de generosidade e dedicação a causas diferente destes calculismos. Mas não me parece que Manuel Alegre esteja a prestar um bom serviço à esquerda democrática.
O país e o mundo evoluíram e não é agitando as bandeiras do que significou o socialismo democrático há 30 anos que asseguramos uma melhoria na qualidade de vida e na assistência social às populações. Não me revejo nas críticas de capitalismo socialista deste governo, nem me revejo naqueles que querem colar a governação socialista à direita. E talvez agora, que o PSD ameaça poder vir a cumprir ligeiramente melhor o seu papel de oposição, se comece a perceber as diferenças que sempre existiram.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...