Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
29 abril 2007
O'queStrada
Não sei como os descobri.
Não são catalogáveis.
São maravilhosos, na estrada ou em casa, ouvir e gostar, muito!
28 abril 2007
A Curva
Alguém tem de aparecer naquela curvamesmo que se não saiba o que é depois
se estrada larga ou morte ou água turva
se solidão ou um a ser já dois
A vida toda em sonho a esperar sempre
naquela curva não importa quem
alguém que diga o quê e saia ou entre
ainda que depois não mais ninguém.
Alguém há-de aparecer alguém que aponte
quem sabe se um aquém ou se um além
ou nada mais senão o horizonte
daquela curva onde se espera alguém.
[poema de Manuel Alegre (Doze Naus); pintura de Oswaldo Barahona: Vías y Cruces]
Subliminar
Pois, eu também acho, o controle económico é que é muito importante. Mas a TVI é uma estação privada, controlada por uma empresa privada, e quem não gostar, não vê!
Ou será que o governo, José Sócrates, ou mesmo o PSOE, vão obrigar os portugueses a ver a TVI e a acreditar piamente em tudo o que ela disser?
Lisboa
Mas o que esperam os partidos da oposição? Porque não assumem eles o papel de precipitar a ida a votos?
O PS não tem candidato (ele é tão secreto que não deve existir!); qual é a desculpa dos outros?
Pois é, as eleições até parece que não caem bem a ninguém. A governação da cidade de Lisboa é mesmo o que menos importa!
Da poesia
(…) que a poesia para continuar a ser poesia, precisa de ser experienciada por alguém: é no encontro quase mágico entre a obra e o leitor que ela renasce. Na verdade, renasce sempre que é lida e só renasce quando e porque é lida: “Um livro” – diz o escritor argentino – “é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras (…) saltam para a vida e temos a ressurreição da palavra (…). Por isso podemos dizer que a poesia é uma experiência nova a cada vez”. (…)REGRESSO À VELHA CASA
Na velha casa passou um rio
passou a cheia o tempo um arrepio.
Quem eu chamo já não vem.
Tanto quarto vazio
tanta sala sem ninguém.
E frio.
(poema de Manuel Alegre; pintura de Kate Hammett: The Old House)
Bolor
Temos uma democracia suspeita, sufocada, um mal-estar feito de névoa e de fumo, de silêncios cúmplices e de ruído de fundo, sem medo mas com receio e cuidado, pé atrás e insegurança, falta de honra e honestidade.
Falta encher os cantos com claridade, deitar fora restos bafientos e bolorentos, falta vontade de agir, todos, sempre, todos os dias.
25 abril 2007
Liberdade
Hospitais privados
Há no entanto uma pequena frase, que eu gostaria que estivesse em letras garrafais, essa sim como título, em que se refere a exclusividade de funções pretendidas pelos hospitais privados.
E que tal o ministro da saúde seguir este exemplar exemplo??
25 de Abril
Há dias que têm anosque têm segundos
velhos como a existência
de quem aguarda mundos
de quem já perdeu horas
de quem desespera
pelas demoras
de dias sólidos
e fecundos.
Todos os dias pelo dia
em que nos deram armas e flor
todos os dias pela semente
que ficou depois da cor
do perfume do ar leve
todos os dias sem temor
sem desistir
todos os dias a florir.
23 abril 2007
Ramo
Dos heróis
Deixamos de pensar no geral para darmos importância ao particular, deixamos de ver o Homem como parte da humanidade, que tem uma função a bem da humanidade, para fazer de um homem o centro da humanidade e o responsável por ela.
Exigimos-lhe a perfeição; tem que ser belo, forte, sensível, saudável, inteligente, culto, bem pensante, sedutor, apaixonado, íntegro. Tem que ter sucesso, ter preocupações ambientais, dizer as coisas certas nos momentos certos, ser tudo o que nós não somos e gostaríamos de ser.
Nós não somos mas ele tem que ser. O nosso herói, o nosso deus, que nos salvará de todos e de nós mesmos. Retrocedemos da fase adulta para a fase da infância e da adolescência, em que os nossos pais são a encarnação do bem, capazes de tudo e imortais.
Temo esta sociedade cada vez mais perigosa, pela falta de esperança naquilo que podemos fazer enquanto comunidade, e pela demasiada ilusão na exigência a quem damos o supremo dom da nossa cega confiança.
21 abril 2007
Percursos erráticos
Uma das razões do meu silêncio é o facto de, cada vez com mais estupefacção e maior preocupação, estar a tentar descortinar qual a política de saúde que este ministro e este governo querem seguir.
Em geral tenho estado de acordo com a tentativa de reorganização do SNS, com a reestruturação dos serviços de urgência, a concentração de recursos, a tentativa de melhorar a eficácia dos serviços.
No entanto não percebo algumas situações que parecem recuos, depois deixam de parecer, depois mudam, enfim, manobras de distracção versus percurso errático do ministro.
O recuo na definição das incompatibilidades entre o público e o privado é, quanto a mim, um erro clamoroso e que o ministro vai pagar muito caro. Pelo contrário deveria, de uma vez por todas, assumir a total separação entre o público e o privado, fomentando uma verdadeira complementaridade e competição saudáveis. Querer agradar a gregos e a troianos, ensaiando entradas de leão para depois ter saídas de sendeiro, é o que parece ser a sua estratégia.
Relativamente aos acordos com os diversos municípios, no que diz respeito à reorganização dos serviços de urgência, após a publicação de alguns desses acordos em Fevereiro, só no passado dia 13 (que me tenha dado conta) foram publicados outros protocolos entre o ministério e vários municípios (ainda não tive tempo de os analisar cuidadosamente). Mas o que se está a passar com o Hospital de Curry Cabral?
Outro assunto muito interessante, e objecto de um artigo publicado já há uns meses (Setembro de 2006) no Portal da Saúde, é o do alargamento dos horários de funcionamento dos hospitais, para aumentar o número de consultas externas devido à enorme lista de espera das mesmas.
O alargamento dos horários nos hospitais, agora a ser implementados, mais do que um instrumento de redução das listas de espera para consultas (aliás é muito questionável se essas consultas deveriam ser feitas em hospitais ou se deveriam ser feitas em centros de saúde com consultas de especialidade, ou nas modernas USF), deveria ser um meio para aumentar a produtividade de todos os serviços e rentabilizar espaços, equipamentos e meios humanos.
Para que haja blocos operatórios, consultas externas, laboratórios de patologia, anatomia patológica e imagem, enfim, todo um hospital a funcionar das 8:00 às 20:00h, são necessários médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, secretários de unidade e auxiliares de acção médica em horários desfasados, por turnos, e de tal forma que haja algumas horas em que todos os elementos dos serviços estejam presentes, para se manter uma coesão dentro dos serviços e dentro do próprio hospital e para se mater a formação pré e pós graduada.
Parece que, afinal, o objectivo não é propriamente esse, até porque o aumento de cirurgias aumenta a despesa hospitalar, o que está proibido. Por outro lado, para manter um hospital a funcionar a tempo inteiro, são necessários mais profissionais, o que também está proibido.
Ou seja, o objectivo final é garantir a presença de médicos até às 20:00, para deixar de pagar horas extra a quem assegura atendimento urgente nas enfermarias (para além dos serviços de urgências gerais, abertos ao exterior).
Estas medidas de poupança pura e simples, mascaradas de medidas importantes e de fundo, entristecem e desmotivam os profissionais, e descredibilizam o governo. Se não é essa a intenção do ministério da saúde, então talvez não fosse má ideia o ministro precisar as suas orientações e verificar a forma como estão a ser entendidas e cumpridas.
Falta de vegonha
Joaquim Pina Moura, membro do PS e deputado na Assembleia da República, vai assumir o lugar de presidente do Conselho de Administração na empresa Media Capital (proprietária da TVI, Rádio Comercial, Rádio Clube Português, entre outros) substituindo Miguel Paes do Amaral.Pelo que julgo saber, esta empresa privada é constituída por um grupo de accionistas privados, o maior deles o grupo Prisa (espanhol, liderado por Jesús de Polanko Gutiérrez – 73,70%). Ou seja, a soma do grupo de accionistas estrangeiros é de 91,24%, restando 8,76% que, depreendo, serão outros pequenos investidores bolsistas, não tendo qualquer participação de capitais referentes a empresas públicas portuguesas. Portanto o governo, este ou qualquer outro, para além de fazer cumprir as leis portuguesas que regulam os meios de comunicação e o funcionamento das empresas, não tem qualquer outro controlo sobre esta empresa.
O presidente do Conselho de Administração é, obviamente, uma pessoa importante na definição de muita coisa dentro do grupo. Tal como o anterior presidente, também português, Miguel Paes do Amaral, cujo alinhamento ideológico era diferente do de Pina Moura, assim como o de Luís Nobre Guedes, Presidente da Assembleia Geral.
Joaquim Pina Moura já declarou que vai deixar o seu cargo de deputado, que não sei se seria compatível com as funções de presidente de uma empresa de comunicação, assim como os cargos que exerce no PS.
O grupo Impresa, pelo que sei uma empresa privada portuguesa que integra empresas proprietárias de canais de televisão (SIC), jornais e revistas (Controljornal), rádios, etc, tem como presidente do Conselho de Administração Francisco Pinto Balsemão, membro fundador do PPD/PSD.
Não sei se Francisco Pinto Balsemão tem ou não cargos no PSD, e se os deixou ou não. Mas também não vi ninguém preocupar-se com esse eventual problema, ao contrário da onda de indignação perante o assumir do cargo de Pina Moura.
Marques Mendes chama a isto falta de vergonha do PS, na sua ânsia de controlar a informação. Bem, mas então não se pode ter a mesma opinião sobre o controlo informativo da parte da Impresa? Ou da anterior presidência do grupo Media Capital? Ou só é permitido aos membros/simpatizantes de partidos que estão na oposição terem presidências em grupos comunicacionais privados?
Ou é porque o grupo Media Capital tem como accionista principal uma empresa espanhola? Onde estão a concorrência e o mercado e a globalização e o estreitamento ibérico em termos empresariais? Não há qualquer problema em grupos económicos poderosos adquirirem e controlarem jornais, televisões, rádios, utilizando-os para tentar condicionar/manipular o poder político, mas não é admissível que haja pessoas engajadas politicamente à frente de empresas privadas de comunicação?
Qual é a lógica de tudo isto? A falta de independência e de coluna vertebral não está na filiação política ou na falta dela.
Informação é poder, e todos tentam obtê-lo. Nalguns países os jornais declaram abertamente a sua simpatia ideológica. Não é isso que lhes tira credibilidade, mas sim a falsa imparcialidade e demagogia de quem só entende a democracia enviesadamente.
A falta de vergonha existe bem patente no editorial que José Manuel Fernandes escreveu no Público de ontem. E Marques Mendes, mais uma vez, mostrou total incapacidade na liderança de uma oposição credível, dizendo inanidades, que fazem encolher os ombros e/ou suspirar de tristeza.
20 abril 2007
Sem forma
Meritocracia
Pelo que noticia o JN online, há quotas para avaliação dos desempenhos, pretendendo-se assim acabar com o sistema totalmente iníquo de não premiar o esforço e o trabalho de quem, efectivamente, o faz.
Sou totalmente a favor de um sistema de remuneração e progressão nas carreiras que dependa do valor individual e do esforço integrado para a valorização do colectivo, que cada trabalhador desenvolva, adaptado às funções que desempenha.
Para que isso seja possível, terá que haver transparência nos critérios de avaliação e, mais importante, tem que haver confiança no avaliador, por parte de quem é avaliado.
Infelizmente, temo que a uma iniquidade se sigam outras. A forma como a maioria das chefias são nomeadas e, mais importante, a forma como se mantém a confiança dos nomeados, está, na maioria dos casos, inquinada por compadrios, troca de favores e abuso de poder.
Qual o sistema de avaliação das próprias chefias? Que garantia de equidade e imparcialidade têm os trabalhadores na hora da sua avaliação? A quem se poderão dirigir se sentirem que estão a ser marginalizados por causas distantes das estritamente profissionais?
É essencial que a avaliação das chefias tenha um componente não negligenciável de uma avaliação a 360 graus, ou seja, os dirigentes serem avaliados pelos trabalhadores. Caso essa possibilidade não seja acautelada, com a cada vez menor segurança de emprego, assistiremos a prepotências crescentes, corrupção de pacotilha e abuso da parte dos empregadores.
Estamos quase a comemorar 33 anos da revolução de Abril. Nunca haverá vivência plena dos ideais de Abril sem que se cumpra o D de Desenvolvimento. E a liberdade não pode ser manietada pelos pequenos ditadores que se sentem reis nos seus pequenos quintais públicos, com a impunidade a que hoje se assiste.
Avaliemos sim, com critério, com rigor, com competência, a começar por quem dirige.
19 abril 2007
A música das palavras
A música das palavras,o sabor das letras na língua
quando se enrolam e deleitam
nos lábios, o estremecer dos ditongos,
o espanto das combinações,
a espera das razões que se criam.
O desenho das palavras,
as ondas que reflectem
nos olhos, entre os braços,
que correm pelo sangue
e embriagam as emoções.
Enquanto gritamos,
lambemos, seduzimos,
amamos e vivemos
de palavras,
não desfazemos
desmerecemos,
enfraquecemos,
nem explodimos
o mundo.
[pintura de Jacob King (palavras de Wiliam Faulkner, lidas de baixo para cima, espelhando a esperança apesar da adversidade): we will prevail]
"Explicação dos pássaros" (corrigido)
(…) estes pássaros merecem uma atenção especial: são considerados os mais bonitos da Europa, como se pode constatar pela foto junta. Com o nome latino de merops apiaster só têm um defeito: é quase impossível chegar perto deles! (…)Pedro
(…) O voo é único porque as asas são triangulares e parecem papagaios de papel a planar. Fazem os ninhos em buracos escavados em "paredes" de areia dura (há muitos em antigas saibreiras). Uma vez, num documentário, vimos toda a colónia a atacar uma cobra que queria aproximar-se dos ninhos: faziam verdadeiras picadas em cima dela até que a dissuadiram! (…)
São
(abelharucos)
17 abril 2007
Pássaros
Câmara de Ecos
La Llorona
Fui lembrada da existência deste portento da canção ranchera. Chavela Vargas faz 88 anos. Vale a pena ouvi-la, bem alto, com pouca luz e com um copito de tequila, ou de mezcal.Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.
Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al rio
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frio
Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona
¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?
15 abril 2007
Odete Santos
Odete Santos é excessiva, arrasadora, fiteira, dramática, manipuladora, apalhaçada, berrante, descabelada, descomposta.Odete Santos foi deputada (por 26 anos), é actriz, comediante, diseur.
Odete Santos nunca se importou de ser quem é, dedica-se de alma, coração, de corpo inteiro às causas em que acredita, como uma missionária, como uma testemunha do saber divino.
Num mundo em que os políticos são fabricados pela imagem, ela impôs a sua imagem como uma política de gema, como uma marca de paixão.
Não concordei com ela muitíssimas vezes, na maior parte das vezes, mas é como ela que penso que os nossos representantes na Assembleia deveriam agir, incansáveis na defesa dos seus ideais.
Suspeições
Muito se tem falado sobre o fenómeno da emergência de blogues, com denúncias anónimas de males públicos e privados, antros de maledicência e de egos ressentidos, crispados e mal amados.Haverá milhares deles assim. Como há milhares de pessoas assim. Mas o que preocupa o jornalismo ortodoxo, exclusivista e bem pensante, tanto como os políticos, enredados ou não em jogos pouco claros, é o pouco conhecimento que têm do fenómeno blogosférico, travestido de desprezo e arrogância (como se prova pelas declarações lamentáveis do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro), e a indisfarçável incapacidade de o controlar.
Não é admissível que se façam insinuações e ataques mais ou menos encapotados ao bom-nome das pessoas em blogues, a coberto de anonimatos ou não. Para isso, se se provarem crimes de difamação, existem leis e, caso não existam aplicadas à blogosfera, deverão ser estudadas e criadas pelos órgãos legislativos próprios.
O problema da credibilidade das pessoas e das instituições, que tanto tem preocupado os nossos fazedores de opinião, estende-se que nem fogo em palha seca a todos os media, com especial destaque à imprensa escrita.
Só para citar um exemplo recente, as notícias sobre o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça relativamente à condenação do jornal Público, obrigando-o a pagar uma indemnização ao Sporting Clube de Portugal apesar do reconhecimento da verdade das notícias publicadas. Entretanto saiu um artigo no site do clube negando o facto de o Supremo Tribunal de Justiça ter reconhecido a veracidade das acusações por parte do Público. Até hoje, embora eu não conheça todas as notícias que saíram sobre o assunto, não me lembro de ter lido nada sobre a correcção ou incorrecção do desmentido do Sporting.
Afinal em que ficamos? Em quem podemos acreditar?
Essa é a verdadeira tragédia: não acreditamos no governo, porque só diz o que lhe interessa, independentemente dos factos; não acreditamos na oposição porque só desdiz o governo, independentemente das razões que lhe poderão assistir; não acreditamos nos media porque a informação é cirurgicamente manipulada, para servir determinados interesses, mesmo que não nos apercebamos bem de quais.
De facto, como diz JPN no respirar o mesmo ar, em Portugal respira-se e vive-se na suspeita e de suspeitas.
(pintura de Anne Karin Glass: suspicion)
14 abril 2007
Regresso
Regresso do limbo imaculadodas chamas que purificam
das rosas com perfume
de eternidade.
Regresso à lama às nuvens
ao mais intenso e pobre
de mim mesma
à sublime mancha
de humanidade.
Ébria pela esfera que reflecte
a voragem do belo irresistível
regresso virgem irrepetível
à pele que enruga e endurece.
(pintura de Alan Fetterman: heartbeat)
Ambientemo-nos
Todos os dias, antes de arrancar para o trabalho, tomo o meu café na companhia do Correio da Manhã, o jornal que o dono do café disponibiliza aos seus clientes. Parece ter sido estudado para acompanhar os escassos minutos de um café matinal, pois as páginas folheiam-se rapidamente, lêem-se alguns títulos de letras gordas e significados fantasiosos, fazem-se estatísticas dos mais variados crimes de faca e alguidar, roubos estrondosos e prisões escandalosas.Como todos os fins-de-semana, calma e gulosamente, saboreio o jornal com o primeiro café. Mais propriamente o Público e o DN. Hoje, ao começar pelo DN, por um assustador milionésimo de segundo duvidei de que fosse fim-de-semana e pensei que estava atrasada para o trabalho… Os roubos, os crimes, as letras garrafais, as cores, tudo muito parecido com o Correio da Manhã!
O objectivo deve ser nobre: tudo pela poupança nacional, gasta-se menos €2,40 por semana, €124,80 por ano e, além disso, reduzimos o abate de árvores.
E a saga continua...
Tenho dúvidas de que algum dos seus tão tenazes inquisidores se prestasse àquele papel. Como era de supor, os mesmos continuam a pedir mais esclarecimentos, mais aprofundamentos, mais revelações. Até o Procurador-Geral da República, num assomo de generosidade e apego à causa pública, se disponibilizou para investigar!
Mais ridícula e penosa foi a prestação de Marques Mendes que, pensava eu, se tinha mantido higienicamente à margem de tanta porcaria. Mas não se conteve e mergulhou de cabeça, fora de tempo, fora de tom, fora de sensatez e sem um mínimo de sentido ético.
E assim se entretêm aqueles que se arrogam defensores do bem e da moral pública.
Ai de nós, simples mortais!
13 abril 2007
Minha Alegria
minha alegria permanece eternidades soterradae só sobe para a superfície
através dos tubos alquímicos
e não da causalidade natural.
ela é filha bastarda do desvio e da graça,
minha alegria:
um diamante gerado pela combustão,
como rescaldo final do incêndio.
(poema de Waly Salomão; pintura de Jill Auckenthaler: fire escape)
11 abril 2007
Esquizofrenia
Ontem assisti a parte do programa de António Barreto, depois a um episódio do ER (serviço de urgência) e depois liguei para a SIC notícias onde AINDA se estava a discutir O silêncio de Sócrates (excelente título, por sinal!).À volta de uma mesa estavam cinco jornalistas (Ricardo Costa, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Francisco Sarsfield Cabral e João Garcia) que opinavam acaloradamente, doutamente, seriamente e com evidente sentido da sua enorme importância, os timings errados da não intervenção de Sócrates, a excelência da assessoria de imprensa do gabinete do primeiro-ministro, as enormes pressões a que os media estão sujeitos por esses mesmos assessores, o facto de estarem MUITO habituados a atenderem telefonemas de ministros furiosos, desligando-lhes o telefone, o inacreditável falhanço do controlo da agenda mediática nos casos da OTA e da licenciatura de Sócrates, e outras pérolas.
A certa altura José Manuel Fernandes confessa que o tinha incomodado o facto da RTP não ter pegado neste último assunto, que o Público, na sua clarividência e no papel de que se reclama de jornalismo de referência, considera primordial ao bem-estar da nação, não lhe tendo sequer passado pela cabeça, algo que lhe foi apontado por João Garcia, que talvez a RTP não tivesse considerado a notícia importante, e que estava no seu pleno direito de escolher os alinhamentos, a oportunidade e a relevância das notícias que emitia.
Tive ainda tempo para ouvir que Sócrates não deveria ir falar à RTP, mas sim à TVI (à SIC até parecia mal sugeri-lo), ao Parlamento, ou convocar uma conferência de imprensa para se explicar.
Fiquei portanto a saber que:
- José Manuel Fernandes é quem decide o que é e o que não é importante ser tratado pelos outros órgãos de comunicação social. Se não o seguem é indício mais do que seguro de que estão a ser pressionados por alguém (neste caso pelo primeiro-ministro).
- São os jornalistas que decidem o que é ou não importante discutir, quando, onde e como, não os políticos, que são eleitos e que têm liberdade para o fazer. Ou seja discutir 2 anos de governo, neste momento, é irrelevante para Portugal, sendo no entanto imprescindível conhecer o percurso académico do primeiro-ministro.
- A RTP está sob suspeita, apenas por ser a RTP, não pela qualidade ou falta dela dos seus jornalistas (José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso são muitíssimo melhores que Judite de Sousa).
- Os jornalistas/analistas políticos repudiam, e ainda bem, serem condicionados ou pressionados pelo poder político, mas sentem-se no direito de serem eles próprios a condicionar e a pressionar os políticos, ditando a agenda mediática e promovendo autênticos assassinatos pessoais, mascarando-os de escrutínio dos servidores públicos.
Estamos perante uma autêntica esquizofrenia social, em que o mais importante são as falhas pessoais, que se procuram apenas e só quando é preciso, e não por uma questão de interesse público.
E tudo isto é, obviamente, a bem da democracia, da pluralidade informativa, do esclarecimento dos cidadãos, do contra poder, do contraditório, de todas aquelas bondades que os jornalistas nos estão sempre a recordar.
Para as próximas eleições sugiro que haja, dentre eles, alguém que se sujeite a eleições para, do alto da sua irrepreensível moralidade, competência e ambição, guie os destinos de todos nós, substituindo estes seres menores que nos representam. Até porque o que verdadeiramente interessa ao país não são os problemas económicos e sociais, mas sim os vícios privados de políticos decadentes.
Pelo menos alguns jornalistas têm públicas virtudes!
(escultura de Paco Puyuelo: esquizofrenia)
10 abril 2007
A falta da Justiça
Este é o resultado de processos que se arrastam durante anos, quando deveriam resolver-se em poucos dias, e de histórias que se martelam durante semanas, em altos brados, quando deveriam ser preservadas do intenso ruído de fundo a que são sujeitas.
Providenciemos
O melhor é interpormos já uma providência cautelar que impeça o primeiro-ministro de ministrar, seja lá o que for, enquanto se não passam a pente fino todas os curricula dos nossos vários ministros, secretários de estado e deputados, presentes e passados, a que cadeiras assistiram às aulas, se estudaram pelas sebentas ou pelos tratados, se tiravam apontamentos ou estudavam pelos dos colegas, devidamente fotocopiados, se copiavam nos exames ou se denunciavam as cábulas escondidas a preceito.
Parece-me haver aí imensa matéria para investigação jornalística e, quem sabe, para a Procuradoria-Geral da República…
08 abril 2007
Des-humanidade
Com as mãos que afagamque amparam
que apagam medos,
com as mesmas mãos
que semeiam
que vestem almas,
com os mesmos dedos
armados de espadas
agudos em punhais,
empalamos asas
decepamos risos
desfazemos casas.
Estes olhos que choram
ao florir do sangue
são os mesmos que olham
o esgar exangue
dos braços na cruz.
São o brilho da luz
do metal que fere,
do portal aberto
que o mal confere,
um sinal incerto
para lamber a morte
e beber da vida.
[Abril de 1994, Ruanda; filme realizado (2005) por Raoul Peck: Sometimes in April)
O Romeiro, D. João de Portugal
Regresso enfim, de barba branca,mirrado de piça e veleidades,
olho pisco, pêlo ralo, perna manca,
em busca de que sal, de que saudades
que se manduquem em aberta mesa.
Vejo contudo que em má altura
cheguei à vela que esperava acesa
e não encontro, inexistente e escura.
Afinal onde estou, já que sem nome
o vento me levou a condição?
Não terei terra branda que me tome
e me leve aos infernos pela mão,
pois uma só pergunta me consome:
se não nasci porquê morrer então?
(poema de Pedro Tamen)
07 abril 2007
Humor de intervenção
O humor é das melhores armas políticas que existem. Ao contrário de outros activistas políticos, que não têm graça nenhuma, e de outros cómicos, que decidiram não intervir politicamente, os Gato Fedorento usam a sátira para intervir na sociedade, com significado político.Na campanha para a despenalização da IVG fez mais o vídeo dos Gato Fedorento a parodiar Marcelo Rebelo de Sousa que muitos debates e discursos bem intencionados. Quanto à corrupção, Valentim Loureiro foi estraçalhado pelo sketch que lhe dedicaram.
O cartaz xenófobo do PNR, agrupamento de indivíduos pouco recomendáveis que se leva muito a sério, dizendo e escrevendo alarvidades, foi reduzido ao mais puro ridículo pelo cartaz dos Gato Fedorento.
Aplaudo e agradeço!
Novo (desconhecido) Tratado Constitucional Europeu
Parece que tem havido algumas tentativas para arredar ainda mais a discussão do novo Tratado Constitucional europeu dos cidadãos europeus.Se a necessidade da existência de uma Constituição Europeia é, por si só, discutível, se a redacção desse Tratado Constitucional/Constituição deveria partir de uma assembleia eleita para esse fim, a existência de manobras de bastidores para fazer aprovar um texto desconhecido dos cidadãos e nem sequer referendado (pelo menos seria uma ocasião para ser conhecido) não augura nada de bom.
Relíquias
Nestes dias de santidade cristã e fabricação de beatos e santos, tem alguma graça irónica a descoberta da falsidade das relíquias atribuídas a Joana d’Arc.Não há dúvida que a ciência e o conhecimento são um perigo para instituições que se mantém à custa da credulidade e da ignorância dos povos.
O desmontar de crenças, mitos e lendas é tão importante como a tradição da manutenção cultural das mesmas. Não percebo porque se impede a investigação dos restos mortais (se é que existem) dos túmulos de D. Afonso Henriques e de D. Sebastião, ou o estudo dos enigmas do sudário.
A fé e os ensinamentos daqueles que são tornados santos e transformados em deuses não diminuem pelo conhecimento real e científico dos factos, mesmo que seja para desmascarar mentiras seculares. A fé é um assunto privado e tem a ver com o mecanismo da nossa mente, do nosso cérebro, não com a alimentação de mitos que, mais tarde o mais cedo, cairão esmagados pela evidência.
[Centre Historique des Archives Nationales, Paris: Imagem de Joana d’Arc (1450 – 1500)]
Diplomas e afins
Quase todos os dias têm saído notícias sobre o percurso académico de Sócrates, insinuando que alguém lhe arranjou o diploma sem que ele, por isso, lutasse.Já aqui aflorei a questão, quando saiu a primeira matéria no Público, que fazia uma grande e importante investigação, concluindo apenas que a Universidade Independente poderia favorecer passagens administrativas ou de outro tipo, sem que fossem necessários quaisquer créditos de conhecimentos e de prestação de provas.
É um problema grave, tanto mais que põe em dúvida quaisquer diplomas entretanto saídos desta Universidade, portanto a credibilidade da própria Universidade e do ensino superior privado, por generalização, quantas vezes abusiva.
Espero que o primeiro-ministro esclareça o que tem a esclarecer, ou seja, que não comprou o seu diploma, que não usou a sua influência de político e homem público para obter créditos de formação que nunca teve.
Porque este é o verdadeiro problema, uma questão do carácter do cidadão José Sócrates e da forma como se usa o poder, seja ele de que tipo for e em que circunstâncias forem.
Relativamente à forma como algumas universidades funcionam e funcionaram, gostaria que todos os profissionais e pessoas com responsabilidades políticas olhassem para os seus próprios cursos e diplomas universitários. Que me lembre, houve numerosas passagens administrativas e cadeiras feitas com trabalhos pseudo políticos em todos os tipos de curso, nomeadamente nos de Medicina, em épocas que já lá vão. Será que esses alunos recusaram as conclusões das cadeiras universitárias ou as notas igualitárias para quem tinha o nome em trabalhos que nunca fez, por nobreza, rectidão e amor à verdade? Qual a credibilidade que esses profissionais têm nas mais diversas áreas, e que ocupam agora lugares de responsabilidade técnica e política? E que tal o Público investigar essas tão candentes e importantes matérias?
Esta é uma campanha de assassinato de carácter. Vamos ver se José Sócrates o tem ou não. Mas não por ter feito o curso melhor ou pior, não pelo rigor das aulas ou das avaliações, mas apenas se foi só para ele, por ter capacidade de influência política.
Quanto ao resto, talvez fosse mais produtivo discutir a sério a fraude que foi e é o negócio do ensino superior privado, sem regras nem critérios de qualidade, deitando para o desemprego quaisquer indivíduos que por lá passem.
Por outro lado a americanização do escrutínio das figuras públicas assusta-me. A pseudo moralização da vida pública e privada é um engano. As pessoas que nós elegemos não são obrigatoriamente santas, não têm vidas sem mácula, são tal e qual como todos nós. Uma coisa é a fraude e as atitudes que são criminalmente julgadas, outra coisa os pecados cometidos que não impossibilitam uma actuação de serviço público.
É por estas e por outras que há um afastamento cada vez maior entre os governantes e os governados. E os media deveriam reflectir se estão a cumprir a sua missão de informar, ou apenas a participar de uma luta política sórdida, ou mesmo de uma vingança do poder económico em relação ao poder político (ele há algumas coincidências…).
04 abril 2007
A marca de Deus (2)
Com a chegada de Jesus Cristo, a marca de Deus passou a ser o comportamento do indivíduo, os seus valores de humanidade, solidariedade e tolerância. A partir dessa altura Deus passa a ser universal e olha por todos, crentes e não crentes, desde que a sua vida espelhe esses valores.De facto, há uma grande diferença entre o Antigo e o Novo Testamento, no que diz respeito à imagem de Deus e ao significado da vivência religiosa.
Não é fácil para quem não é religioso falar sobre estes assuntos. Mas a religião ou o misticismo não religioso faz parte da vida humana. A procura de explicações para o inexplicável pode sintetizar os saltos de aprendizagem e conhecimento. A aceitação do divino pode ser uma necessidade individual, mas nunca deve ser confundida com a realidade e nunca deve ser usada como substituição do real.
A discussão a que se tem assistido nos últimos tempos sobre o criacionismo é reveladora da confusão que se pretende criar entre o que é a ideologia e a fé e o que é o estudo controlado, reprodutível, científico, dos fenómenos a que assistimos, sejam eles biológicos ou comportamentais, orgânicos ou inorgânicos, animais ou vegetais, moleculares ou planetários, da matemática, da paleontologia ou da neurociência.
Esta é uma época especialmente manipuladora, para quem tem uma visão evangelizadora da própria fé. O estado, os serviços públicos, devem ser rigorosamente laicos. Só assim é possível aceitar todas as tendências religiosas, ateias ou agnósticas, e garantir que todas sejam respeitadas de igual forma.
Por vezes, e olhando para as programações da televisão pública, para algumas comemorações oficiais, para a água benta aspergida em inaugurações do estado, pergunto-me onde está a República laica, a separação entre a Igreja (qualquer uma) e o Estado.
[Ugolino Lorenzetti (1300's): The Crucifixion of Christ]
Portugal, Um Retrato Social
De facto, Portugal modificou-se muitíssimo neste últimos 40, 50 anos. As ambições, as expectativas, as oportunidades que os filhos dos carpinteiros, dos lavradores, dos homens e mulheres que povoavam o campo, pobres e analfabetos, as diferenças entre os géneros, a influência da Igreja nos usos, nos costumes e na consciência colectiva, o respeitinho, mudaram radicalmente e em pouco tempo.
Apesar das diversas crises, económica, educativa, judicial e outras, sucessivas e duradouras, Portugal é, hoje em dia, um país onde se vive melhor, com infra-estruturas, em que há maior igualdade de oportunidades para todos, independentemente do meio sócio económico em que se vive.
No entanto a perpetuação do sistema educativo tal como está, com os preconceitos pseudo esquerdistas, a falta de rigor e disciplina, o aligeiramento dos curricula, a desculpabilização e paternalismo da ignorância, pode novamente subverter o objectivo de igualizar as oportunidades, independentemente do poder económico e social.
Um dos maiores desafios do nosso país é precisamente esse: a melhoria da qualificação e a motivação das aprendizagens, sem ceder ao populismo do chamado eduquês. Isso é condenar os filhos dos iletrados a iletrados quase obrigatórios, apenas porque o estado não zela por esse direito e não faz o seu dever.
03 abril 2007
Para que nunca ninguém esqueça
Para que nunca ninguém esqueça.
02 abril 2007
Solidão
Abre a porta e pesa-lhe o silêncio. A sala é imensa e negra, perfumada pela ausência. Arrepia-se a abre as persianas com o esforço que tudo lhe exige, olhar, respirar, até limpar as lágrimas com as costas da mão.O arrastar dos sapatos faz eco. Aproxima-se da cama e deita-se. A leveza do corpo gasto e exausto mal estremece a madeira.
Pode ser que adormeça. Para sempre.
(pintura de Anthony Whishaw: study of an old man)
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