Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à
minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar
funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.
As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação
de paz e segurança estranhas. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores,
personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas
que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.
Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do
inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se
libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida
tinha estado em suspenso por demasiado tempo.
Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por
mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E
depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a
inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.
Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de
apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a
redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui
revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e
heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o
compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a
política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler.
Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.
Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de
mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias
a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.
A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me
acaricia. É perfumada.

















