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10 junho 2026

Mudanças

 


Las manos

Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.

As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação de paz e segurança estranhas. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores, personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.

Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida tinha estado em suspenso por demasiado tempo.

Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.

Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler. Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.

Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.

A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me acaricia. É perfumada.

17 maio 2026

O ar ocupado pela música



Beethoven Symphony No. 2in D major

Coa-se a luz nas cortinas

embrulhadas de saudade.

O teu rosto à janela

poema tão longo o nosso

como foi curto

o adeus.


Mozart Mass no. 15 in C major, K. 317 (Coronation Mass) 

A poesia nos puros sons de uma orquestra, o crepúsculo lentamente a serenar as almas. O ar ocupado pela música, no silêncio desta secreta e contínua mágoa.

16 maio 2026

Noturno

Fireflies on the water

Yayoi Kusama

Chama-se ao poema noturno

como se a noite tivesse rima

como se o poema fosse de estrelas

e geada. Na margem deste caminho

versos luminosos mas sem lume

projetam nessa noturna dor

pequenos pirilampos de esperança.

16 julho 2025

Esperar que voltes é tão inútil


Concerto para piano e orquestra nº 2 de Rachmaninov


Evgeny Kissin | Orquestra Filarmónica da Radio France


 


esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais


e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar


sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver


[12º poema do livro "Os armários da noite"


Alice Vieira]


 

16 maio 2025

Éramos dois


Paula Morelenbaum


Baden Powell & Vinicius de Moraes


 


Éramos dois


em tudo em tanto dois


um e um lado a lado


em tudo unidos e desarmados


perante a dor e a perda


desarmados de amor bendito


de amor inebriante de amor rugoso


de amor súbito e lento


de verde de verde


de vento bravio e sereno


de pedra


 


Éramos dois


e na escura imensidão que me rodeia


no silêncio vazio em que me encerro


por ti desespero por ti anseio


meu amor ausente


para sempre


 

24 dezembro 2024

À espera do nascituro

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Salvador Dalí


 


Um ramo de folhas duras


Pedacinhos de luar


A alma feita em costuras


De feridas por sarar


 


Aconchega o olhar


No piso de tanta ausência


Apresta-se a respirar


Um mundo sempre em carência


 


Nesta branda consoada


À espera do nascituro


Tristeza bem arrumada


No fundo do seu futuro

14 dezembro 2024

Cinzas


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Camille Claudel



 

Aproximo a lareira

Pra aquecer meu coração 

Nas cinzas desta fogueira 

Vou soprar a solidão 

 

Rodo as paredes vazias

No branco deste Natal

Os olhos que me acendias

Mil estrelas num castiçal 

 

Regresso à névoa esfumada

De uma memória querida

Tua mão entrelaçada

No fio da minha vida

07 dezembro 2024

Desenho

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Van Gogh


 


Perdida nas palavras que me faltam
no opaco da névoa da tristeza
perdida no silêncio que me envolve
agarro alguns pontos de luz
aqueles com que polvilhaste o meu caminho.
Ainda não conheço o desenho certo
mas hei de lá chegar.

09 novembro 2024

(De)Encontro

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You've got mail


 


Hoje foi quando barrava o pão com manteiga. De repente apareceste, com as tuas mãos desajeitadas, a pegar numa chávena grande para que eu te deitasse o café, antes de rumares ao teu assento no escritório.


Outras vezes, quando me emociono a ver um filme, o que não é nada difícil nem raro, vejo-te a entrar pela porta, com aquele sorriso ternurento e gozão, que me deixava irritada e envergonhada, pela fraqueza que mostrava, mesmo sendo a ti.


Não precisava de marcar um encontro contigo, pois encontrávamo-nos, mesmo sem combinarmos. Numa pergunta, numa razão, numa ternura, numa discussão, numa espera, num silêncio, num desespero, numa diversão.


Acabaste por faltar ao último encontro, sem me dizeres porquê.


E eu, mesmo que não queira, ainda te espero, mesmo que saiba que não vens. Podias, pelo menos, encostares-te a mim, como costumavas fazer, e dizeres os disparates que me faziam rir. Só mais esta vez. Só mais uma vez.

01 novembro 2024

Ensurdecer

John R. Grabach.jpg


The Lone House (The Empty House)


John R. Grabach


 


Lentifico os movimentos os gestos os passos


a casa aproxima-se e eu vazia


a chave na porta e o silêncio do outro lado.


Não sei como encher os cantos se a tua voz me falta.


Abro o volume do rádio o mais alto que posso


para que a saudade não me ensurdeça.


 

03 outubro 2024

Na ânsia de te abraçar


 


No cais da vida espero


A barca do meu amor


Abafo o meu desespero


Asfixio a minha dor


 


Chegará de madrugada


Guiada pelo clarão 


De uma lua iluminada


Pelos olhos da paixão 


 


A alma que se quebrou


No dia em que tu partiste


Em asas se transformou


Num voo que não desiste


 


No cais desta vida aguardo


O momento de embarcar


Que eu meu amor já não tardo


Na ânsia de te abraçar


 


15 setembro 2024

O meu amor é de pedra

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Tony Cragg


 


O meu amor é de pedra


E mora no vento norte


Tal com a tristeza medra


No leito da sua morte


 


O meu amor é eterno


E mora na tempestade


Tal como o manto de inverno


Veste de branco a saudade


 


O meu amor já não parte


No lume da ventania


Tal como a min’ alma arde


Em permanente agonia


 

09 setembro 2024

Imaterial

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1.


Não sei para onde me dirigir. Para cima? Para o lado? Para a terra? Nunca irei outra vez ao jardim das gavetas de pedra, porque não é lá que tu estás, só o teu envelope.


Mas então para onde? Era tão mais fácil acreditar que, nalguma etérea dimensão, continuas e me ouves, e te ris de mim, e me aconchegas com o olhar, e que me recebes com a delicadeza das atenções que te envergonhas de assumir, mas que adoras que eu reconheça e tu diga.


Como explico que, antes, gostava de ir até ao rio sozinha, beber café, cirandar, ler o jornal, beber o ar, e agora me faltam as pernas, os olhos, a alma, o interesse, o ânimo? Como explicar o meu anterior gosto pelo isolamento, a minha economia de palavras, que acompanhavas e respeitavas, que agora se transformou numa prisão de letras, sons, significados, de tal forma que se avolumam em mim, não conseguindo impedir o transborde da tristeza? Como posso explicar que não consigo deixar de fechar a porta, já que não estás do outro lado para trocarmos impressões, cada um no seu canto, mas transmitindo opiniões e carinho entre paredes?


Hoje marquei na agenda vários concertos, para que a música me consiga preencher este vazio. Comprei até os bilhetes, muito arrumadinhos na pasta para isso criada no meu computador. Mas depois a quem conto o que ouvi, o que vi, o que senti? Com quem falo dos compositores, das orquestras, dos intérpretes?


Assim não. Assim não. Assim não.


 


2.


Dizem-me que devo chorar sem limites, nem pena, nem pejo, mas se choro lembram-me da força que é suposto ter, da inquestionável fortaleza da minha alma.


Dizem-me que tenho de superar, quando nem ideia fazem do que há para ultrapassar, ou sequer se o quero fazer.


Dizem-me para sair, para me distrair, quando nem desconfiam da revolta que sinto por a vida continuar sem que estejas comigo, quando não percebem que nada me pode distrair.


Dizem-me que tenho de viajar, para longe, para muito longe, quando não entendem que as viagens eram nossas, tu e eu, pelos caminhos de tantos mundos, imaginados ou calcorreados, abraçados ou detestados, tantos livros, tantos sonhos, tudo o que me interessava na vida.


E eu encolho no meio de tanta boa-vontade, no meio da culpa de ensurdecer a tantas sugestões, fechando portas, olhos, luzes, e ficando à espera de que, finalmente, resolvas regressar.


 


3.


Pela casa espalham-se pedaços de uma existência que já foi. Que vazias as roupas, transformadas em trapos sem préstimo nem brilho. Que velhos os livros, repentinamente amarelecidos e quebradiços, as folhas soltas, as letras desvanecidas.


Olho para estes restos que nada são, sem som nem cheiro, e não consigo tocar-lhes, dar-lhes destino. Pela casa estão espalhados fragmentos de uma memória que teimo em querer manter em matéria, quando tudo se tornou imaterial.


 

08 setembro 2024

Funeral Blues

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Sam Walsh



Nemo Shaw


 


Stop all the clocks, cut off the telephone,


Prevent the dog from barking with a juicy bone,


Silence the pianos and with muffled drum


Bring out the coffin, let the mourners come.


 


Let aeroplanes circle moaning overhead


Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.


Put crepe bows round the white necks of the public doves,


Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


 


He was my North, my South, my East and West,


My working week and my Sunday rest,


My noon, my midnight, my talk, my song;


I thought that love would last forever: I was wrong.


 


The stars are not wanted now; put out every one,


Pack up the moon and dismantle the sun,


Pour away the ocean and sweep up the wood;


For nothing now can ever come to any good.


 


W. H. Auden

02 setembro 2024

Mar de Setembro

praia da rocha 2 setembro 2024 09h00.jpeg


 


O mar de Setembro, passos lentos, jornal, mãos dadas, carinho no espalhar do bronzeador.


Os banhos, as conversas, os sussurros, as sestas, os já habituais restaurantes, tão velhos como velhos estamos, uma série às escuras, no ecrã gigante, com um licor bem gelado de acompanhamento.


Quantas vezes ainda te verei ao meu lado, nas nossas convencionais férias, nos nossos convencionais gostos, nos nossos tão nossos convencionais amores?

12 agosto 2024

Nada

Camille-Claudel.jpg


Camille Claudel


1.


Ao meu lado


naquele espaço que já não preenches


ouço uma voz ausente.


No silêncio desta tarde morna e quieta


aguardo um respirar uma pergunta


um chamamento


aqueles pequenos nomes que inventavas


e que eu sabia


num misto de ternura e indignação


serem só nossos.


Ao meu lado


dói-me tanto já não seres.


 


2.


Tantos móveis lençóis


chávenas pratos copos


almofadas roupa quartos


esponjas sabonetes


tudo tão grande tanto espaço


num desperdício evidente.


E eu tão minúscula encolhida quase inexistente


que não preciso de nada mas de nada


de nada


a não ser de ti


que não estás.


 


3.


Deixo as janelas abertas


para que o vento abane a casa.


Batem portas voam cortinas


num ruído da mais profunda


solidão intemporal.

19 julho 2024

Num jardim desarrumado

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Corri mundos de machado


Enterrei meu coração


Num jardim desarrumado


Com ervinhas de oração


 


Não sabia que eras tu


Tal o fundo da ferida


Com a alma posta a nu


Na dor desta despedida


 


Agarrei na tua mão


E amarrei-a à cintura


Que as flores do teu caixão


Me aliviem da tortura

18 julho 2024

Sem ar

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A dor.


Sei da dor
e de uma parte de mim


que levaste.
A melhor
a tua
principalmente aquela


que acolhias
como se não houvesse
mais ninguém no mundo.


E agora?
Como te perdoar a falta
do teu cheiro
do teu braço
do teu riso
da tua indispensável presença?


E agora?
Como te deixar ir?

Já se despediu?

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Já se despediu?


Sim, disse um até logo, como todos os dias, antes de fechar a porta, até ao minuto em que a reabria, depois de vários quilómetros de preocupações, frustrações, pequenas alegrias, estrada. Enfim, a rotina que fomos construindo pela vida, que saboreávamos à nossa maneira.


Outras despedidas não sei fazer, não existem entre nós.


Pode ser também até logo?

Mudanças

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