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08 maio 2026

O PRR e a Transição Digital na Saúde

Um dos grandes motivos de burnout dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é a luta diária com os sistemas informáticos, plataformas, softwares, impressoras, etc.

Com o advento das desmaterializações e da transformação de processos e procedimentos manuais e em papel para modelos digitais, o que é importantíssimo e saúdo vivamente, poderíamos pensar que tudo seria mais fácil, rápido e sereno. Pois não é o caso.

O problema é que não há verdadeira integração e comunicação entre as várias plataformas, a velocidade da internet não é a desejável e o hardware envolvido também não. Por outro lado, há cada vez mais tarefas assumidas por médicos que nada têm a ver com atividade médica, desperdiçando tempo, capacidades, paciência aos médicos e dinheiro dos contribuintes.

O PRR destinou 300 milhões de euros à Transição Digital na Saúde (TDS). Segundo o relatório de acompanhamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de 2026, publicado no site da Comissão Nacional de Acompanhamento (CNA) do PRR, a TDS (C01-i06) está…. concluída!

No entanto, no portal de informação Mais Transparência, a conclusão deste projeto deverá ser a 31/12/2026, tendo sido o valor já pago de 155,02 milhões de euros, ou seja, de 51,6% do total...


Por outro lado, no site da SPMS, no que diz respeito a informações e notícias sobre este tema, a data da última publicação é 04/06/2024!

Confesso a minha perplexidade e estranheza. A TDS já está completa, foram pagos cerca de 50% dos montantes totais e as últimas notícias datam de 2024.

A realidade diária também está perplexa - será uma realidade paralela?

18 abril 2026

A alarve má educação

A ascensão de Trump ao poder levou a sociedade a aceitar como normal as maiores idiotices, violências, más educações e loucuras dos líderes de extrema direita.

O desbragar da linguagem, a transformação de todos os palcos mediáticos em espaços mal cheirosos, sujos e apenas frequentados por gente ignorante e mal educada, parece agora a norma.

Não se debate, insulta-se, grita-se e interrompe-se para não se deixar falar mais ninguém. A desvergonha, a triste figura que fazem e o exemplo dado só pode conduzir a uma sociedade intolerante, obscena, retrógrada, que elogia e se compraz com a ignorância.

Está o mundo de cabeça para baixo.

O que eu não entendo é a conivência dos órgãos de comunicação com este género de políticos, comentadores, especialistas de coisa nenhuma.

Não compreendo como é que, por exemplo, após a má educação de Rodrigo Taxa, deputado do Chega, não foi de imediato suspenso o programa. E ainda, para cúmulo, continua a ser convidado pela RTP!

Lembro-me de um (pseudo)debate com a Inês de Medeiros onde, quando esta fala de Flaubert e de uma frase a ele atribuída – Madame Bovary c’est moificou abespinhado e acusou Inês de Medeiros de tiques de intelectual de esquerda, exclamando – vem com a madame de Bauvoir, ou que é.

Enfim, para Rodrigo Taxa, Gustave Flaubert, Madame Bovary e Simone de Bauvoir são figuras totalmente desconhecidas. A satisfação alarve da ignorância.

A cidadania é da responsabilidade de todos. Se os órgãos de comunicação social, nomeadamente a RTP, pactuam com estes desmandos, é porque se demitiram do seu papel.

Pela estrada com podcasts


As longas viagens para o trabalho ensinaram-me a ouvir podcasts.

Há muitos, de temas e qualidades diversas. Tenho procurado os do Expresso, os do Público e outros de que vou ouvindo falar.

Um dos que mais gosto é o podcast 45º, de José Maria Pimentel. Os convidados são muito interessantes, das mais diversas áreas do conhecimento, e as entrevistas têm tempo para se desenvolver, sem atropelos nem interrupções constantes. O entrevistador - José Maria Pimentel - está sempre bem documentado, de forma a conduzir uma conversa fluida e inspiradora.

O último episódio que ouvi é de outubro do ano passado, com Cátia Batista, professora catedrática de Economia na Nova SBE e diretora científica do centro de investigação NOVAFRICA, sobre imigração e emigração. Fiquei a saber que os países de origem e de acolhimento têm ganhos muito positivos com este fenómeno, ao contrário do que podemos pensar. Desmonta mitos e desinformações de uma forma serena e com dados e estudos científicos.

Ouvi ainda um podcast com Ana Domingos, neurocientista e professora na Universidade de Oxford, sobre biologia, fisiologia e fisiopatologia da obesidade, interessantíssimo, com Maria João Afonso, professora aposentada de Psicologia na Universidade de Lisboa, sobre inteligência, e muitos outros.

A informação científica de qualidade existe e é tão fácil de encontrar. Não é preciso ouvirmos inanidades nem programas de e para indigentes.

05 abril 2025

Desinformação e manipulação nos media tradicionais

A forma como somos manipulados pela informação, feita por jornalistas credenciados, é triste e afasta, cada vez mais, os cidadãos dos media tradicionais. Na verdade, começam a ficar muito parecidos com a "informação" das redes sociais. Perigoso, muito perigoso.


Vem isto a propósito da forma como se insinua sem o afirmar, que a melhoria do ranking de uma escola pública está associada à proibição do uso de telemóveis pelos alunos, desde janeiro deste ano. Ou seja, há cerca de 3 meses.



"Escola pública que lidera 'ranking' com melhor média de exames proibiu telemóveis em janeiro"



Está, portanto, instalada a certeza de que os smartphones são uma desgraça para os alunos, razão e explicação de tantos problemas, desde o aproveitamento escolar à violência entre jovens.


Em termos de declaração de interesses, tendo imenso a concordar com esta opinião. Mas convém explorarmos o tópico, antes de tentarmos ligar uma coisa à outra, sem qualquer juízo crítico. Isso deveria ser uma prioridade no trabalho jornalístico, mas não é.


Como exemplo, cito um artigo publicado em setembro de 2024, no Journal of Psychologists and Counsellors in Schools, cujas autoras (Marilyn Campbell e Elizabeth Edwards) fizeram uma revisão da literatura sobre o tema (total de artigos encontrados n=1317, total estudado após critérios de exclusão n=22), realizados em múltiplos países: Bermudas, China, República Checa, Gana, Malawi, Noruega, África do Sul, Espanha, Suécia, Tailândia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Concluíram que há muito poucas evidências, se não nenhumas, sobre o efeito que a ausência de telemóveis nas escolas resulte na melhoria do rendimento escolar, saúde mental e cyberbulling. Mais concluíram uma significativa falta de evidências que suportem decisões fundamentadas (retirar ou não os telemóveis do espaço escolar).


Noutro artigo mais recente (fevereiro de 2025), na revista The Lancet Regional Health - Europe, conclui-se não haver evidências que as políticas restritivas, em relação ao uso de telemóveis e redes sociais, que associem o seu uso a melhor saúde mental.


A manipulação e incompetência dos jornalistas, a preguiça ou a intenção de enganar e induzir comportamentos, instalou-se. É cada vez mais difícil destrinçar a verdade verdadeira das meias verdades ou mentiras com que somos continuamente inundados.


Não significa isto que não haja mais estudos que digam o contrário, ou que não sejam necessários muitos mais. Mas ligar 3 meses de ausência de telemóveis a melhoria no ranking é, manifestamente, desonesto e abusivo.


Sugestões:


Uso de telemóveis no Espaço Escolar: revisão da Literatura e Orientações Práticas


School phone policies and their association with mental wellbeing, phone use, and social media use (SMART Schools): a cross-sectional observational study

25 setembro 2023

Boas notícias que fazem mal ao país


(...) As escolas abrem sem professores, os hospitais não conseguem responder ao aumento da procura, as entidades públicas não conseguem atrair nem reter quadros qualificados devido aos baixos salários que oferecem, os jovens não conseguem viver nas grandes cidades, os estudantes deslocados e/ou de baixos rendimentos não suportam os custos de frequência do ensino superior, os transportes públicos falham diariamente por avarias e falta de material e o investimento público está há uma década em níveis historicamente baixos. Apesar disto tudo, é com regozijo que nos anunciam que o Estado poupa mais do que promete. (...)


 


(...) Se em vez dos 0,4% alcançados em 2022 o Governo tivesse reduzido o défice para 0,9% do PIB – um valor, em qualquer modo, muito abaixo da meta estabelecida no OE (1,9%) –, teria libertado para a economia e para a sociedade cerca de 1,2 mil milhões de euros. Uma verba adicional destas daria, por exemplo, para aumentar o investimento em 500 milhões (ficando ainda assim abaixo do orçamentado), aumentar os salários da função pública em 1,9% (em vez de apenas 0,9%, muito abaixo da inflação registada), mais do que duplicar as verbas da acção social escolar do ensino superior, reintroduzir os estágios remunerados para novos professores dos ensinos básico e secundário (que em tempos ajudavam a atrair recém-licenciados para a profissão) e ainda reservar 300 milhões de euros para recuperar cirurgias em atraso no SNS. (...)


 



Ricardo Paes Mamede, Público, 25/09/2023


 

15 agosto 2023

Títulos versus textos

título e o (um fragmento) texto de um artigo do Público de hoje.


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Nota: O aumento a que se refere o título resulta de um maior número de horas extraordinárias realizadas, ou seja, mais trabalho.

12 fevereiro 2023

E nós vamos aceitando

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E nós vamos aceitando.


Porque não queremos ser insultados nas redes sociais, porque não queremos ser olhados de lado ao usarmos palavras malditas, ao defendermos aquilo que até há bem pouco tempo, era considerado liberdade artística, criação, multiculturalismo, tolerância pela aceitação da diferença.


Policiamos a linguagem, o desenho, as opiniões, o teatro, o cinema. Não há lugar a debates, a discussão e trocas de ideias. Há barricadas, o lado certo e o lado errado.


Os factos deixaram de o ser. As interpretações do mesmo são, neste momento, aquilo a que temos direito não só nas redes sociais, como nos media. A manipulação do que se escreve, do que se diz, nem que seja para que os títulos sejam tremendistas, mesmo que as notícias digam o contrário, são a informação contemporânea. Não interessa se é verdade ou não.


O discurso corriqueiro, alarve, terrorista, inunda opinantes, políticos, gente que vive e actua pela imagem. Deixou de haver privacidade pois já não distinguimos o espaço público da nossa casa. Tudo se mostra nas redes sociais, tudo se diz em alta voz, tudo é público e não privado, pois o privado levanta teorias da conspiração.


E nós, vamos calando.

03 março 2022

A crueldade das boas intenções

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São Petersburgo (24/02/2022)


No frenesim de apoiar os ucranianos, que defendem o seu país da invasão da Rússia, um estado ditatorial imposto por Putin, estão a atingir-se proporções assustadoras no que diz respeito à massificação do espectáculo que é a solidariedade e às boas intenções dos povos democráticos.


Mas, como em tudo, não há bons e maus, heróis e vilãos, por muito que seja isso o que a inundação mediática nos faz crer. O mundo livre, nomeadamente os países da União Europeia e os EUA, combate a Rússia, não os russos.


No mundo livre e democrático, ninguém deve ser obrigada a dizer quais as suas opções políticas. Ninguém deve ser perseguido pelas suas opiniões ou pelo silêncio sobre elas.


Considero uma aberração, compreensível, mas não deixando de o ser, as várias manifestações de bulling à comunidade russa portuguesa, tal como aos intelectuais que não se declaram contra a invasão e contra Putin. Num país em que o uso da palavra guerra é considerado traição, parece-me incrível que os corajosos intelectuais ocidentais, sentados confortavelmente nas suas sociedades livres e democráticas, julguem aqueles que pagam com a sua liberdade e a sua vida a manifestação de discordância perante o poder autocrático de um ditador.


Ainda por cima vindo de tantos que, por exemplo em Portugal e durante a ditadura, tiveram que assinar documentos em que negavam ser comunistas ou participar em actividades subversivas para que pudessem manter o emprego.


A liberdade deve ser para todos, de se manifestarem ou de não se manifestarem. Tenho as maiores dúvidas sobre os boicotes culturais e sobre a condenação de quem não expressa o que, subitamente, se tornou na nova verdade inquestionável e soberana. Tenho as maiores reticências à censura de canais de televisão e de agências de informação.


Tenho um enorme cepticismo sobre estas ondas mediáticas intensíssimas e fugazes, que se arriscam a soçobrar perante o peso do ruído omnipresente.


Tenho uma enorme desconfiança a tantos postos de trabalho já disponíveis a quem foge da guerra. Será que já se esqueceram dos médicos, engenheiros, professores, músicos e tantos outros técnicos qualificados que, durante anos, alimentaram a mão de obra barata da construção civil e do serviço doméstico, sem que o país lhes reconhecesse as competências e pudesse oferecer-lhes os empregos correspondentes às suas qualificações?


Há muita crueldade nestas ondas mediáticas de apoios, julgamentos e solidariedades, muitas vezes postiças e fúteis. Espero que esteja enganada, pois esta guerra vai durar e destruir ainda muitas vidas. E nós vamos esquecer depressa as boas intenções e regressar rapidamente às nossas vidas em que o medo do outro e o preconceito são reis.


A não ser que também façamos parte da destruição. E mesmo na dor e no sofrimento, a solidariedade é uma rara ocorrência.

28 fevereiro 2022

A censura como arma de guerra

A notícia da suspensão do acesso a canais russos, nomeadamente ao Russia Today, e ao Sputink (agência noticiosa) anúncio feito pela União Europeia, parece-me um precedente perigoso, com o qual não posso estar de acordo.


Os cidadãos têm que poder escolher ver e ouvir o que quiserem, por muitas mentiras que se propagandeiem. Nos países livres e democráticos não há nenhum organismo de censura para dizer o que é ou o que não é propaganda e que notícias são ou não falsas. Há, sim, capacidade de escolha e escrutínio pela sociedade.


A censura pura e simples, com a justificação de defender os cidadãos de propaganda mentirosa, é exactamente o mesmo que se passava em Portugal antes do 25 de Abril - também para a ditadura de Salazar e Caetano, a inexistência de liberdade de acesso à imprensa, aos livros, ao cinema, etc, era uma forma de proteger os cidadãos dos ataques nocivos dos subversivos.


Não podemos usar os métodos dos quais acusamos a Rússia, e com razão. Nas democracias a livre escolha pertence aos cidadãos, não aos governos, por muito bem intencionados que sejam.

09 fevereiro 2022

O circo da eleição no Parlamento

O Chega não tem direito a ter um Vice-presidente da Assembleia da República. Tem direito, isso sim, a propor um nome para o cargo.


Esse nome terá que ser votado pelos parlamentares.


O chumbo de nomes indicados para a representação parlamentar já aconteceu mais que uma vez e nunca se assistiu a este circo, montado pelos media, que o Chega muito bem aproveita.


A discussão do papel dos media na manipulação informativa, na legitimação de certas correntes políticas, nomeadamente da extrema-direita, é urgente.

01 janeiro 2022

Le Chagrin et la Pitié

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The Sorrow and the Pity


(versão com legendas em inglês)


 


Le Chagrin et la Pitié é um documentário com cerca de 4 horas, realizado por Marcel Olphüls, sobre a ocupação alemã de Clermont-Ferrand (1940 - 1944), durante a II Guerra Mundial.


Divide-se em duas partes - O Colapso e A Escolha. O realizador, entre entrevistas aos habitantes, a antigos soldados alemães, a membros da Resistência Francesa, depoimentos de várias personagens como Anthony Eden, Christian de La Mazière, Georges Lamirand e Pierre Mendès France e excertos de filmes da época, traça uma imagem extremamente incómoda da colaboração do regime de Vichy e da população da cidade.


De tal forma incómoda que o documentário (1969) foi distribuído para as salas de cinema em 1971 e apenas visto no canal FR3 em 1981, tenso sido recusada (censurada) a sua difusão até essa altura.


É muitíssimo interessante pelo que mostra do que é uma comunidade humana. A maior parte de nós tende a ajustar-se e a adaptar-se, fazendo a sua vida sem perguntar, sem querer saber, encontrando justificações para que aquilo que considera ser a sua segurança não desapareça.


Tantas vezes o nosso silêncio e a nossa incapacidade de reagir permitiram e permitem as maiores atrocidades. Mas nenhum de nós as entende como tal enquanto as vive.


Por isso os julgamentos que fazemos da mole humana é enviesada por aquilo que gostaríamos de pensar que faríamos nas mesmas circunstâncias. Por isso percebemos o quanto é artificial a divisão entre vilões e heróis. Não que eles não existam, mas somos nós mesmo que incluímos ambas as condições, e todos os cambiantes entre elas.


E não somos diferentes hoje do que éramos nessa altura. Os apoiantes das ideologias totalitárias não acabaram a 1 de Setembro de 1945, o anti-semitismo não terminou com a libertação dos campos de concentração.


A História, os movimentos das ideias, os comportamentos sociais são muito complexos. E aí está o reacender dos ódios raciais e dos totalitarismos.


O medo.


 


Nota - Publico o comentário de A. Teixeira que é de todo pertinente:



Convirá talvez esclarecer melhor no terceiro parágrafo que, depois da sua exibição nas salas de cinema, a primeira transmissão do documentário por televisão, no terceiro canal da televisão francesa só teve lugar doze anos(!) depois da produção do documentário.

Esse canal (FR3) era tradicionalmente o que possuía as menores audiências dos três (TF1/A2/FR3) que existiam então em França. Mas nas duas noites em que o documentário foi transmitido a FR3 tera tido uma audiência estimada entre 15 e 20 milhões de telespectadores. (A França contava então 54 milhões de habitantes) Podia ter havido uma grande dificuldade em transmitir o filme, mas revelou-se que havia uma enorme curiosidade em vê-lo.


20 março 2021

Dos modernos e virais enigmas

O aumento de novos casos de COVID-19 na Alemanha, França e Itália será devido a algum Natal tardio, à antecipação da Páscoa ou ao Carnaval?alemanha.jpg


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E Portugal, passou de ser uma vergonha europeia (mundial) para um modelo de comportamento cívico?


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27 janeiro 2021

Das armas repressivas

Controlo da pandemia - segundo a TSF.



Quem quer sair de casa para "fruir de momentos ao ar livre" ou passear animais de estimação pode comprovar que vive por perto com um comprovativo de morada, nomeadamente a carta de condução ou qualquer recibo de água, eletricidade ou telecomunicações.


Para adquirir bens essenciais podem ser apresentadas faturas ou outros comprovativos da compra, bem como uma declaração sob compromisso de honra.


Usar um carro para usar a exceção que permite sair de casa para ter um "momento ao ar livre" está claramente proibido.


(...) o Governo decidiu, de uma vez por todas, usar a arma repressiva das forças de segurança para terminar com aquilo que está a acontecer no país (...)



Extraordinário.

23 janeiro 2021

Das INverdades

Tenho visto, em notícias de rodapé nos noticiários televisivos, que Portugal tem o maior número do mundo em óbitos e número de caso por COVID-19. Nunca aparece a informação relativa à ou às fontes que usam para tão alarmantes e assustadoras notícias.


Fui procurar fontes internacionais:



  • Dados do Jonh Hopkins:


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Letalidade - Portugal - 1,6%


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Óbitos por milhão de habitantes - Portugal - 9648


 



  • Dados do Worldometer: ranking de Portugal no Mundo e na Europa em relação ao número de óbitos por milhão de habitantes (em 27º e 20º lugares, respectivamente) e ao número de casos por milhão de habitantes (16º e 10º lugares, respectivamente).


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Qual o objectivo de mentir tão descaradamente?

10 janeiro 2021

Dos regimes que escolhemos

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Os debates das presidenciais foram dominados por André Ventura. Não que André Ventura se tenha mostrado merecedor disso, mas porque os media o elevaram ao centro de todas as atenções. Não só lhe deram protagonismo naqueles em que era um dos oponentes, na maioria dos casos pela demissão dos moderadores em cumprirem o seu papel, como nos outros em que a sua presença, mais uma vez assegurada pelas perguntas dos moderadores, era imposta.


Mais uma vez o papel dos media nas democracias é crucial, tanto pela indispensável necessidade da sua existência, pela pluralidade de opiniões e pelo escrutínio dos vários poderes, como pela capacidade de manipulação e modelação da opinião pública.


A forma como as prestações são avaliadas, nomeadamente a unanimidade das loas a Vitorino Silva, pela autenticidade, pela criatividade e pelo fantástico uso das metáforas, é espantoso. Chego mesmo a pensar que devo ter uns óculos diferentes dos restantes, pois tudo o que vi foi uma lamentável tristeza de inanidades ditas e reditas por alguém que se está a candidatar, é preciso que não nos esqueçamos, ao cargo de Presidente da República.


Debates de 30 minutos são tudo menos esclarecedores, mesmo que tivessem corrido brilhantemente. Na maioria dos casos as perguntas versaram tudo menos o que de facto importa na Presidência da República. Com raras excepções, como a postura dos candidatos aos acordos e maiorias de governo, por exemplo.


Para conhecer os candidatos, as suas posições políticas e éticas, a sua forma e opções de vida, era preferível entrevistá-los com calma. Assisti a duas entrevistas feitas por Rui Unas a Ana Gomes e a Tiago Mayan que foram muito mais informativas e interessantes que qualquer dos debates.


Penso que o mais importante objectivo destas eleições é reduzir ao máximo a abstenção e tentar mobilizar, no meio da pandemia, os cidadãos a votar. Temos de nos convencer que quanto mais longe estivermos das nossas obrigações cívicas, quanto mais nos demitirmos de intervir e de escolher, participando nos actos eleitorais, mais frágil será o nosso regime democrático.


E todas as eleições são importantes. Esta também é. De um momento para o outro o Presidente pode ser a peça fundamental da nossa vida colectiva. Para isso temos que escolher aquele que pensamos ser a melhor e mais apta pessoa para o desempenho dessas funções.


Os adeptos dos extremismos nunca se abstêm. Os moderados é que negligenciam esse seu dever. Basta assistir ao que se está a passar nos EUA. A omissão e o oportunismo de muitos dos que estavam perto de Trump, que permitiram que aquela criatura se candidatasse a Presidente e que, após a eleição, se mantivesse no cargo à custa de mentiras e de atitudes indignas e que envergonham os mais distraídos, são exemplos a que devemos estar atentos para que não se repitam aqui.


Não, André Ventura não tem graça, não é um fenómeno ridículo e residual. A verbalização dos mais negros instintos do ser humano passou a ser a norma, os insultos e a gritaria, o abandalhar da moral e da ética passou a ser vista como o novo normal, para usar um dos jargões da época.


Ouvi há dias alguém defender que a redução e quase desaparecimento dos hábitos de leitura têm como consequência um enorme encolhimento do vocabulário e da capacidade de elaborar pensamentos mais complexos, o que deixa os cidadãos acríticos e crentes nas mais diversas idiotices, presos dos aldrabões e vigaristas que proliferam. Se olharmos para os nossos aprendizes de Trump não podemos deixar de concordar.


Em tempo de pandemia há formas alternativas de exercer o direito de voto. Basta ir a este link para nos informarmos.


E pensemos, interroguemos as nossas consciências. Julgar os outros é muito mais fácil do que tentar perceber as dificuldades pelas quais passa tanta gente, pelos mais diversos motivos. O racismo, a xenofobia, o desrespeito pelas mais elementares direitos humanos nunca resolveu problemas, só causou caos, miséria e sofrimento atroz. As ditaduras nunca foram a resposta a pandemias, desigualdades, corrupção ou pobreza.

27 dezembro 2020

Presidenciais 2021

Tenho tentado ver as entrevistas conduzidas por José Adelino Faria aos candidatos presidenciais. É impossível. A arrogância, truculência, pesporrência, agressividade e sede de protagonismo do entrevistador apaga todos os esforços.


Ao contrário do que estes entrevistadores pensam - Miguel de Sousa Tavares, Ricardo Costa, Bernardo Ferrão - não são eles que nós queremos ouvir. Não me interessam minimamente as opiniões dos entrevistadores. Se eles quiserem fazer ouvir a sua voz política podem sempre candidatar-se.


É uma visão da democracia muito deles. E com a decisão de deixar de fora Vitorino Silva (Tino de Rans), por critérios que eles próprios decidem, à revelia da mais elementar noção da igualdade de oportunidades para todos os candidatos, é mais uma demonstração da cultura da omnipresença de decisores nunca mandatados por ninguém para decidirem.


A liberdade dos media é crucial num regime democrático. O papel dos media na manipulação da informação também é crucial. E estes sinais não são nada tranquilizadores. Não são novos, mas são mais fortes.


Insisto. Não tenho interesse nenhum nas opiniões dos entrevistadores mas tenho muito nas dos entrevistados. Gostaria imenso de poder ouvi-los sem interrupções constantes nem apreciações valorativas. Os eleitores é que julgam, nas urnas.


 


Nota: vale a pena ler este post.

22 dezembro 2020

Dizer bem

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Há um ano seria difícil sequer imaginar o que 2020 iria significar.


A pandemia provocada pelo SARS-CoV-2, a forma como o mundo reagiu, os confinamentos, o fechar das sociedades, a hecatombe económica, o medo, a histeria muito assoberbada pelos media, as notícias falsas, os alarmismos e a dura realidade de tentar gerir esta mistura explosiva, colocaram os holofotes no Governo, no Presidente e nas Instituições de Saúde.


Houve muita coisa que correu mal e muitas outras que poderiam ter corrido melhor. Mas nunca, que me lembre, tanto se exigiu de duas pessoas que desde o início da crise pandémica, diariamente, apareceram a prestar contas e informação.


Falo de Marta Temido e de Graça Freitas. Sem esquecer o Primeiro-ministro que por sorte nos calhou, um Presidente da República que sempre o foi secundando, todos os restantes protagonistas que foram aparecendo para nos acalmar e informar (no qual não incluo, infelizmente, muitos dos representantes dos médicos e enfermeiros de Ordens e Sindicatos), estas duas mulheres foram e são exemplos de sobriedade e resiliência que nos devem orgulhar e a quem devemos o nosso respeito e agradecimento.


Não foram sempre perfeitas nem o serão nunca, mas foram serenas, rigorosas, sérias e leais. Por isso fiquei muito satisfeita pelo regresso de Graça Freitas ao seu trabalho, por isso me indignei com alguns comentários ao assomo de fragilidade de Marta Temido, quando se emocionou até às lágrimas numa cerimónia no INSA.


Para mim são indubitavelmente as figuras do ano.

Do inqualificável

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André Carrilho


 


É difícil acabar este ano sem nos virem à boca todas as palavras azedas e desesperançadas que conhecemos, para expurgar pensamentos e vinagres interiores.


Para não falar do SRAS-CoV-2 e da pandemia, de confinamentos e emergências, de manipulações, histeria e ratos, a minha tristeza e perplexidade olham para o que se tem passado no SEF perante a nossa indiferença e alheamento.


Depois de nos termos apercebido de que um cidadão ucraniano tinha sido morto à pancada em Portugal, na porta de entrada para o que ele esperava ser uma hipótese de vida futura, às mãos do Estado português, perante a cumplicidade e inactividade de todos, com raras e honrosas excepções para muito poucos jornalistas que mantinham a denúncia, vemo-nos confrontados com a incúria e a inépcia política da gestão deste gravíssimo caso, que põe em causa tudo o que propagandeámos de país amigo, tolerante e acolhedor.


O Ministro não actuou de imediato, demitindo a Presidente do SEF, visto que ela própria não o fez. Não só não actuou de imediato como meses depois assumiu a sua inquestionável gestão do caso, divulgando a sua conclusão de que aquele assassinato era caso único e que não manchava o SEF. De tal forma que só depois de mais denúncias, o crédulo Ministro decidiu alargar o âmbito da investigação, como se nada fizesse crer que tudo o que ali se passa deve ser digno de um filme negro de máfias e conluio entre gente inqualificável, que devia estar atrás das grades.


Não só o Ministro mas também o Presidente dos afectos não tiveram a decência de publicamente e em nome do País se desculparem perante tal horror, fazendo o que pudessem para tentar minimizar a dor da família e a nossa vergonha colectiva.


É muito, muito mau. António Costa já devia ter demitido o Ministro, visto que ele não o faz. Mas, mais uma vez, não consegue gerir estas situações, deixando-as apodrecer arrastando todo o governo e a si próprio em marinada lenta de descrédito e estupefacção.


É muito triste, muito mau, muito grave. Só de imaginar o que aquele homem e muitos outros, homens e mulheres, sofreu, sofrem e sofrerão naquele pedaço de Portugal, devia obrigar-nos a todos a olhar para as nossas prioridades.


No fim deste ano de 2020, que parece nem ter existido mas que varreu o mundo destruindo muitos dos alicerces da vida em sociedade, esta é uma péssima amostra do que se passa nalguns cantos que teimamos em não ver.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...