Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
29 maio 2011
Palcos
Seis passos de espera em palcos
fantasmas do inevitável delírio dos actores
inexistência de máscaras onde se escondem
as crateras e paraísos dos bastidores
onde invisíveis nos procuramos.
28 maio 2011
Mais perfume
Adriana Calcanhoto
Quando reclama do meu vestido
quando se zanga porque trabalho
quando se mostra muito amoroso
quando aparece não atrasado
Sai para o jogo com ar distraido
e volta pra casa mais perfumado
ele acredita que me engano
pensa que sabe mentir o homem que eu amo
Ele acredita que me engano
pensa que sabe mentir o homem que eu amo
Quando repara no meu cabelo
quando pergunta do meu passado
quando precisa comprar cigarro
porque acordado de um pesadelo
Quando sai cedo terno escovado
e volta como quem foi linchado
Ele acredita que me engano
pensa que sabe mentir o homem que eu amo
Ele acredita que me engano
pensa que sabe mentir o homem que eu amo
A uma semana das eleições
Falta uma semana para as eleições legislativas que, ao contrário do que desejaríamos, não vão alterar substancialmente a escolha efectuada a 5 de Outubro de 2009, mostrando a irresponsabilidade e a inutilidade deste acto eleitoral, provocado pela coligação negativa entre a direita e a extrema-esquerda.
A uma semana das eleições, o BE e o PCP colocam-se como partidos que foram, são e serão sempre adereços parlamentares, capazes de se unirem entre si e com os partidos da direita para afrontarem o PS, mas incapazes de se entenderem entre si e com o PS numa plataforma mínima que viabilize uma alternativa governativa de esquerda.
A uma semana das eleições o PSD, consegue a proeza de não conseguir ganhar claramente nas intenções de votos. Pela repetição cíclica da irredutibilidade de negociar um governo com o PS, se vencer as eleições o PSD só poderá ter o CDS como aliado. Entretanto vai revelando uma agenda conservadora, retrógrada e inconstante, centrada em Zelig, a sua personagem central.
A uma semana das eleições, o CDS está a um passo de decidir com quem governa. Caso o PS ganhe, apenas poderá contar com o CDS, a não ser que Passos Coelho se demita. Será pois o CDS a decidir se avança coligado com o PS ou, não querendo, e após o Parlamento inviabilizar um governo minoritário do PS, a impor condições a uma coligação CDS/PSD.
A uma semana das eleições, e perante as mudanças que se impõem, desde a educação à justiça, da saúde a trabalho, não é a opção por um estado mínimo e caritativo que poderá manter a coesão social e garantir a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, defendida pelo PSD e pelo CDS, que poderá responder às dificuldades a superar. Os governos do PS, liderados por Sócrates, foram aqueles que mais fizeram para mudar, de facto, alguma coisa, e no sentido que julgo adequado.
A uma semana das eleições, apesar de todos os erros do governo, do PS, de Sócrates, da campanha, etc., penso que a melhor opção para Portugal é ter um govern liderado pelo PS. A 5 de Junho vou votar, e vou votar no PS. Também faço votos para que, caso o PS não vença as eleições, José Sócrates se demita e o PS assuma as responsabilidades que melhor servirem o país - na oposição ou num governo de coligação. Porque isso é o que espero de um partido e de um líder que defendem o país.
Negociações
Ganhar ou perder faz parte da vida. Não é vergonha perder, é fugir ao combate.
Se [o PS] perder, deve ir para a oposição, não pode ser pau de cabeleira de um governo formado pelo PSD e pelo CDS.
Não gosto que digam que estão dispostos a dialogar com o PS, mas sem José Sócrates. Se o excluem a ele, excluem-me a mim, excluem cada um de vós!
(...) é o momento de nos unirmos pelo essencial, defender a democracia com todos os direitos políticos e sociais - o seu SNS, as suas leis laborais (...)
Das notas que tomamos (7)
Depois de uma crise internacional gravíssima, com o país em recessão e em austeridade absoluta, cumprindo as exigências externas supranacionais, com o desemprego em níveis altíssimos, descontentamento social generalizado, o PS continua com intenções de voto idênticas ao maior partido da oposição. Isto mostra bem o que a população pensa das alternativas a governo existente.
- Como já é habitual, para o PSD, é lícito interromper, boicotar e impedir comícios do PS. É uma noção antidemocrática do que é a liberdade.
- Paulo Rangel decidiu ressuscitar a asfixia democrática. Ouvi-lo torna-se, de facto, claustrofóbico.
- Passos Coelho faz prestidigitação com concursos que insinua suspeitos, para se cobrir de ridículo.
- Num dia de campanha eleitoral o momento alto foi a apanha das cerejas. Este tipo de campanha eleitoral é totalmente ridículo e parte do princípio de que os cidadãos são apoucados. Independentemente dos protagonistas, porque todos os partidos apanham fruta, arrancam legumes ou plantam batatas, conforme os gostos.
- Os média divulgaram ontem que o memorando assinado a 3 de Maio, pelo governo demissionário e pela Troika, aceite pelo PSD e pelo CDS, é diferente do assinado pelo mesmo governo demissionário, na reunião da EcoFin, a 17 de Maio. Passos Coelho, Paulo Portas e Eduardo Catroga dizem que não sabiam da diferença. Sócrates diz que os partidos políticos sabiam da existência dos dois documentos, um com o FMI outro com os representantes da Comissão Europeia, e que o memorando final de 17 de Maio é o documento resultante da compatibilização dos outros dois. Depois do PSD ter negado o conhecimento do PEC4, quando posteriormente admitiu que foi chamado pelo Primeiro-ministro para debater o assunto, na véspera da sua aprovação em Bruxelas, ninguém sabe em quem acreditar. Se o acordado é realmente diferente do que se previa, não é admissível que o governo demissionário não tenha disso dado conhecimento as partidos que, dentro de duas semanas, poderão ter que colocar em prática essas medidas. É uma questão de respeito democrático.
27 maio 2011
A adaptação às circunstâncias
Esta campanha tem tido vários momentos de estupefacção para os eleitores. Dá-me a impressão que, secretamente falando, Passos Coelho está a fazer tudo para perder as eleições. Ou será que está convencido que esta guinada à direita, completamente extemporânea e despropositada, verdadeiramente conservadora e retrógrada, lhe vai dar alguns votos?
(...) Pela primeira vez na sua história, o partido social-democrata elegeu um líder não católico que defende, por exemplo, a adopção por casais homossexuais - uma ideia que o governo Sócrates vetou por recear uma espécie de alarme social. Pedro Passos Coelho já tinha sido favorável à despenalização do aborto, admitiu a liberalização das drogas e atacou o Presidente da República por causa do veto à lei do divórcio de Sócrates. (...)
Ana Sá Lopes, jornal i, 02/04/2010
(...) Eu acho que precisamos fazer, tal como, de resto, estava previsto, uma avaliação dessa situação. Eu estive, há muitos anos, do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto – não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez. Porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta e não devemos empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino. Mas não fui favorável a esta última alteração, na medida em que me pareceu que o Estado tinha obrigações que não cumpriu. (...)
Pedro Passos Coelho, citado pelo Público, 26/05/2011
23 maio 2011
Limites éticos
Em relação ao post anterior, todos sabemos que os comícios são alimentados por militantes, simpatizantes e outras pessoas que aproveitam para se distrairem, passearem e comerem sem pagar.
Mas há limites que, ao serem ultrapassados, transformam tudo à volta num estado de decrepitude e náusea de que é difícil recuperar. Como se um estalar de dedos decretasse o desaparecimento das máscaras antes tão compostas.
Portanto, Ana Matos Pires, não sei o que me causa mais indigestão, se a inacreditável cretinice de quem se lembrou de tal ideia, se a total falta de respeito pelos concidadãos, sejam eles de que nacionalidade forem e tenham eles a cor que tiverem, que permite a atitude, essa sim xenófoba, essa sim racista, de se aproveitar dos imigrantes com conhecimentos rudimentares da língua portuguesa, indocumentados e sem ter direito a voto, que procuram agradar e obter autorizações de residência, oferecendo-lhes comida e bandeiritas, ensinando-lhes a gritar Sócrates.
O abuso do poder pode ter muitas formas. O racismo e a xenofobia estão patentes em todos os actos que menorizam o outro. O que o vídeo abaixo mostra deveria merecer o repúdio generalizado da população por ser manifestamente indecente. Não é uma questão de populismo, mas de decência.
Inclusão e cidadania
Através do Herdeiro de Aécio
Inacreditável e vergonhoso.
E não se pode acabar já com a campanha eleitoral para irmos votar?
A desculpa ainda é pior.
Revolução
Michael Peterson: Revolution/Evolution
Se desatarmos os braços
com que atamos o próprio corpo
espartilhado pela solidão
se entre nós enredarmos os dedos
alargando os corpos que se oferecem
o vento revolverá os sentidos
as superfícies visíveis e inaparentes
acenderão os olhos de lume
e seremos nós
a revolução.
22 maio 2011
Cultura democrática
A estratégia dos opositores ao PS e a José Sócrates passa por desacreditar todos os que, mesmo que remotamente, apontem factos positivos na governação socialista, tratando-os a todos como um grupo em que não há indivíduos, numa corja abrantina, últimos fanáticos, mentirosos, vigaristas, gente colada ao poder.
A intimidação expressa ou implícita, desde as caixas de comentários de gente que prepara uma vingança mítica, até aos bem pensantes que destilam ódio por pessoas, estende-se pela sociedade dos publicados.
Esta cultura que se instalou, anti-democrática, em que não se vislumbra qualuqer respeito pelas ideias dos outros, está centrada na incapacidade de convencer com argumentos lógicos, de ter carisma e capacidade de liderança.
Desde a campanha eleitoral para as legislativas de 2009 que se assiste a um crescendo de impaciência e desespero, pela ausência de alternativas credíveis, à esquerda e à direita. Nada melhor do que fazer alastrar a doutrina do ódio. Neste momento, para além da inevitabilidade da intervenção externa, primeiro não advogada por ninguém e sinónimo de falhanço do governo - Passos Coelho e Cavaco Silva dixit - depois procurada insistentemente até à exaustão, já se afirma em campanha que Sócrates e este governo demissionário não estão a cumprir o acordo com a Troika.
As irredutíveis recusas dos partidos em campanha de estudarem soluções governativas resultantes das eleições, condicionando assim a sua própria margem de manobra após as mesmas, são mais um sintoma da irresponsabilidade destes líderes que, ao contrário do que afirmam, não parecem estar preocupados com o futuro do país.
21 maio 2011
Um dia como os outros (87)
(…) Apesar de ser necessário dar o desconto das tradições anarquistas espanholas, julgo que a natureza profunda do 15-M esconde uma perigosa tendência, cada vez mais visível nas democracias ocidentais: a fragmentação populista. (…) A demagogia e o populismo compensam no discurso político, assim como os argumentos anti-capitalistas e a recusa da solidariedade entre países ou entre regiões ou entre classes sociais ou entre gerações. (…)
(…) Num mundo onde se glorifica a juventude, um certo tipo de beleza, onde se combate a cultura e se despreza a inteligência, onde se procura a fama e a riqueza a qualquer preço, as pessoas parecem precisar de novas causas, que estimulem o orgulho de pertencer a algo distinto e vencedor. (…)
(…) Para mais, a comunicação social (e agora as redes sociais) amplificam estes movimentos de protesto difuso. As redes sociais podem ser úteis para uma democracia, mas também facilitam o populismo. (…)
(…) Por tudo isto, acho que os movimentos populistas ao estilo do 15-M estão condenados a crescer e multiplicar-se. A democracia que conhecemos será combatida sobretudo desta forma, a partir do incómodo geral que os povos sentem, uma espécie de comichão superficial que alimenta a sua ansiedade. É ao mesmo tempo contestação das elites e aceitação de uma ordem mais inflexível e menos liberal. As minorias vão impor as suas visões estreitas em referendos, cujas discussões favorecem os que gritam mais alto. Haverá mais proporcionalidade nos votos e, por isso, maior fragmentação de partidos, com instabilidade governativa, liberdade para os grupos de pressão ganharem influência, divisões mais óbvias e profundas entre as pessoas. Os sinais da radicalização do nosso tempo e da doença democrática estão em Madrid.
Inexplicável
Brian Dettmeter
As palavras são os meus olhos.
Com elas sinto a cor das pedras
a claridade das tuas mãos.
As palavras são os meus dedos.
Com elas sinto a tremura das plantas
a rugosidade do nosso espaço.
As palavras são a minha voz.
Com ela explico-te o inexplicável
gosto de te amar.
20 maio 2011
Ainda mais a seguir
A verdade é que não se debateram os assuntos mais importantes, como as reformas, as tais tantas vezes ansiadas e esperadas, na justiça, na legislação laboral, na saúde, na educação, etc. Mas também não estava à espera que fossem debatidos.
Estes debates são do âmbito do subliminar. Apesar de tudo o que se passa antes - o anúncio de um espectáculo de circo - e depois - as campanhas e os apoiantes a encontrarem pontos de brilho nos seus candidatos ou nos que mais se aproximam, dos quais não me excluo por muito isenta que queira ser - não acredito muito que se decidam eleições com estes debates. Mas isto é só uma questão de fé.
O mais interessante é que eu nem tenho candidato, à partida. Mas terei o candidato que me restar após a exclusão de todos os outros.
A seguir ao debate
Os blogues de direita já determinaram a vitória de Passos Coelho. Na televisão também se canta a mesma vitória.
Mais ou menos o habitual.
O debate
Penso que foi um debate tenso e doloroso de se ver. De dar dor de cabeça. Quem tinha mais a perder era Passos Coelho. E, quanto a mim, perdeu.
Perdeu porque chamou mentiroso a Sócrates e foi desmentido, perdeu porque não soube defender as ideias que tem propagandeado, óbvio no caso dos co-pagamentos no SNS, perdeu porque não conseguiu explicar porque tinha provocado a queda do governo.
Sócrates não conseguiu explicar a manutenção da segurança social e surpreendeu-se com a agressividade de Passos Coelho.
Mas vamos todos ficar a saber o que deveríamos pensar. Maria João Avilez já nos está a demonstrar a vitória de Passos Coelho. Mas os outros também nos vão ensinar a interpretar o debate.
Custo unitário do trabalho
O retrato do que a maioria dos patrões pensa é-nos dado pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) - aumentar o número de horas de trabalho sem aumentar a remuneração, reduzir a comparticipação dos empregadores para a segurança social (redução da taxa social única), reduzir o número de dias de férias, alterar a legislação laboral para permitir aumentar despedimentos, alterar a legislação da greve, enfim - (...) É preciso reduzir o custo unitário do trabalho (...).
E que tal acabarmos de vez com esses privilégios dos trabalhadores, que é terem direito a horários de trabalho, remuneração condigna, descanso aos fins-de-semana, férias, reformas, etc.? Porque não podermos despedi-los sempre que nos apetece, sem qualquer justificação, e não termos que lhes dar indemnizações? Isso é que nos tornaria verdadeiramente competitivos em relação às economias chinesa e indiana, em termos de custo unitário de trabalho.
Gostaria de saber quais eram as propostas da CIP para melhorar a performance das empresas que implicassem os próprios empresários. Não há?
Todos sabemos que são necessários ajustamentos da legislação laboral com flexibilização dos despedimentos, redefinição do que é justa causa, dos horários de trabalho (em vez de os aumentar se calhar reduzi-los, para aumentar a oferta de emprego), e outros. Mas as ideias que estes senhores defendem, mal há uma ligeira hipótese, demonstra que não aprenderam nada durante estes anos de democracia, que não aprendem nada com as crises e com as convulsões sociais.
Realmente o atraso económico do país tem grandes responsáveis, entre eles os empresários, grandes, pequenos, micro e nano.
Radicalização irresponsável
A recusa de Passos Coelho e de Paulo Portas em governarem com José Sócrates, mesmo que este ganhe as eleições, é bem a demonstração da irresponsabilidade dos dois líderes.
De declaração em declaração, a radicalização da campanha eleitoral conduz os cidadãos a uma cada vez maior apreensão e desmotivação. Ao contrário do que amor ao país que proclamam, estas posições irredutíveis apenas transformam o futuro próximo numa incógnita.
O PSD e o CDS tudo estão a fazer para que se instale a ideia de que a única possibilidade de governo seja resultante de uma coligação entre eles, independentemente de quem vença as eleições, alterando aquilo que é o espírito e que tem sido a forma das eleições democráticas em Portugal. A diabolização de José Sócrates é mais uma parte desta campanha que já tem muitos anos, para que os eleitores fujam da escolha socialista.
Esta estratégia pode bem redundar em fracasso, nomeadamente na percentagem de abstencionistas. Caso os líderes estejam dispostos, após as eleições, a fazer alianças, coligações ou acordos parlamentares, mais uma vez sairão desacreditados por desdizerem o que afirmaram. É um jogo muito perigoso e quem perde somos nós todos.
19 maio 2011
SEDES - o próximo partido político (?)
A SEDES, periodicamente, produz documentos críticos sobre vários aspectos da sociedade, da economia, da política portuguesa. Neste caso corporizada por, Henrique Medina Carreira, Henrique Neto, João Duque, João Ferreira do Amaral, João Salgueiro, Luís Campos e Cunha e Luís Mira Amaral, o documento alerta para o perigo a que a guerrilha partidária nos expõe, o enxovalho internacional, o descalabro social do desemprego, o ambiente de I República.
(...) - Para isso há que desenvolver a sociedade civil e a intervenção cívica dos portugueses, libertando o nosso sistema político dos constrangimentos provocados pela concentração de todo o poder político nos partidos existentes. Não para os combater, mas para os tornar os mais abertos, mais democráticos e mais devotados à governação.
- Há que recorrer com urgência a novas formas de democratização, há que reconhecer o problema constituído pelo funcionamento deficiente e acrítico dos partidos políticos, evitando a repetição dos acontecimentos trágicos da primeira República, enquanto é tempo.
- Como temos dito vezes sem conta, o funcionamento da Justiça constitui o centro de muitos dos problemas nacionais. Não contribuindo eficazmente para combater o clima geral de indisciplina, de impunidade e de corrupção na sociedade portuguesa, também constitui um obstáculo objectivo ao desenvolvimento das empresas e ao investimento numa economia sã e responsável. (...)
Gostaria que estas individualidades explicassem concretamente como se resolve o problema da justiça, como se libertam os partidos políticos, quais as novas formas de democratização que preconizam. Mais importante que o dizer é proporem-se fazer. Porque não fundarem um partido político diferente dos que existem e concorrerem a eleições?
18 maio 2011
Um dia como os outros (86)
(...) O efeito mais provável de uma descida da TSU é os preços não descerem, a exportação não aumentar e o emprego não subir, incentivando-se ao mesmo tempo a aposta das empresas em produtos de baixo valor acrescentado baseados em mão-de-obra barata. Paralelamente, e para alimentar essa descida da TSU, todos estaríamos a pagar mais impostos indirectos e a piorar ainda mais a situação das famílias afectadas pelo desemprego ou com rendimentos mais baixos. Some-se ainda a este impacto os potenciais problemas que se poderiam arranjar no financiamento da Segurança Social.
Os riscos que se correm com uma descida da TSU são demasiado elevados. Se o problema são salários demasiado altos, quem está no sector privado sabe que os trabalhadores aceitam cortes. Já aconteceu. (...)
Das notas que tomamos (6)
Será mesmo verdade que Passos Coelho, ou alguém por ele, vai pedir conselhos a Dias Loureiro?
Em relação ao programa Novas Oportunidades, cuja avaliação externa foi coordenada por Roberto Carneiro, os resultados de 2010 estão disponíveis - é só ler.
Volta a ideia de pagar taxas moderadoras por escalões de IRS, sem se explicitar que já há pagamentos escalonados, para a saúde e para tudo o resto, através dos impostos. Passos Coelho também passou a ser adepto das novas tecnologias e das auto-estradas informáticas, querendo usar o cartão do cidadão, o tal horror que acaba com a privacidade das pessoas, para que se possa, através dele, ter acesso à informação fiscal, de forma a poder cobrar taxas diferenciadas. Melhor que isto só a implementação de um cartão de pobreza.
17 maio 2011
A importância da cor
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É como com a avaliação do desempenho - o PSD está totalmente de acordo mas tem de ser diferente da que o governo do PS legislou. Também as novas oportunidades são um conceito muito meritório, mas não estas novas oportunidades. Só as que o PSD quiser dar, diferentes das do PS. É uma questão de cores - o PS gosta mais de cor-de-rosa, o PSD de cor-de-laranja.
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Imprensa acrítica
A propósito do post que escrevi sobre a comparação entre os juros cobrados pelo FMI e pela União Europeia, fui alertada pelo comentador Jaime Santos que a diferença se deve a uma forma diferente de calcular os juros. Vale a pena ler o artigo que ele sugere.
É pena que estes assuntos não sejam tratados pelos comentadores e jornalistas económicos, obviamente com honrosas excepções. Tal como a campanha eleitoral, que se faz de grandes acusações e de conferências de imprensa para rebater as acusações e acusar em sentido contrário, sem qualquer tentativa de esclarecer seja o que for e seja quem for.
Por outro lado a direita está, e com sucesso, a lançar a ideia de que o Presidente não deverá convidar Sócrates, mesmo que ele ganhe as eleições, caso se forme uma coligação entre o PSD e o CDS. Esta teoria é uma tentativa de assegurar uma subversão dos resultados eleitorais. Quem ganhar as eleições, PS ou PSD, deve formar governo. Se a solução que encontrar não assegurar uma parlamentar maioria estável, e como tanto o PS como o PSD como o CDS já se pronunciaram a favor de um governo maioritário, então sim, poderão tentar-se outras soluções dentro do quadro parlamentar.
Seria melhor que todos aguardassem pelo resultado das eleições. Se o objectivo era ouvir o povo talvez seja aconselhável que primeiro o deixem falar.
Nota: O artigo de Ricardo Reis, em português, no DE.
16 maio 2011
Revisitamos
Entre os dedos tenho ainda pequenas gotas de chuva
daquele dia que revisitamos sempre que nos queremos.
E ainda queremos.
Frémito
Sayaka Kajita Ganz: Loner
Tento precisar o momento da desistência.
Um frémito nos lábios um recuo dos ombros
um leve cerrar de olhos que não se percebe
que não se alcança. Tento apagar
a sombra que se instala.
Entre a luz da certeza
o intervalo da negação.
13 maio 2011
Médicos "de segunda"
Mais uma vez, e infelizmente, fui precipitada ao aceitar uma notícia como verdadeira.
Isto tem a ver com as cartas que o Dr. Pereira Coelho, Presidente da Secção Regional do Sul da OM, escreveu à Ministra da Saúde, questionando-a sobre o facto de haver médicos, no caso colombianos, a exercerem medicina sem esterem reconhecidos pela OM, o que é ilegal.
Pelos vistos o Dr. Prereira Coelho não sabia que as licenciaturas desses Colegas tinham sido validadas pela Universidade do Porto. O Bastonário da OM parece que estava ao corrente. Mas agora preocupa-o, assim com à FNAM, a competência destes Médicos que não sabem receitar pílulas nem fazer citologias. Ficamos descansados com esta preocupação, mas estranhamos que seja dirigida apenas ao médicos colombianos - será que não há médicos portugueses que não sabem fazer citologias? Como está a OM, ou a FNAM, a avaliar os Colegas? Quem lhes pediu para que os avaliassem? É habitual haver auditorias à competência técnica dos médicos?
Tanto quanto sei, para que médicos estrangeiros possam exercer Medicina em Portugal, têm que ver a respectiva licenciatura validada por uma Universidade portuguesa e a especialidade avaliada por um júri, nomeado pelo respectivo Colégio de Especialidade. Caso o curriculo seja julgado insuficiente, o médico pode exercer medicina e fazer a especialidade on job, ou seja, com um Tutor, até fazer o currículo apropriado para o poderem considerar Especialista.
Este coro de vozes da OM e da FNAM apenas dão razão a quem pensa que a verdadeira razão de tanta preocupação se prende mais com xenofobia ou medo da concorrência, do que com a qualidade da medicina praticada.
11 maio 2011
Juros europeus
Não deixa de ser extraordinário a União Europeia cobrar juros bastante mais altos do que o FMI. Esta é uma boa imagem da União e da Solidariedade da Europa.
Haja ao menos alguém que se pronuncie contra e que proteste.
Nota: Vale a pena ler A. Teixeira.
Objectos
Gerry Judah
Dando as voltas imóveis dos objectos
que me guardam a memória, envio sinais
irrequietos para o medo. Entre os dentes
nem cigarros nem sorrisos. Está tudo
em pequenos cilindros instantâneos
que se aquecem sem acelerador.
Coligações
Estão todos muito preocupados com a solidão de Sócrates e com a aparente impossibilidade de se fazerem coligações pós eleitorais com o PS, caso José Sócrates ganhe as eleições.
Mas numa coisa eu estou de acordo com Ricardo Costa. Qualquer dos líderes do PS ou PSD que perca as eleições, demitir-se-á. Também estou convencida disso e espero que isso seja verdade.
Debates
Não tenho assistido aos debates entre os líderes dos vários partidos, com excepção de um pequeno fragmento do debate entre Paulo Portas e José Sócrates e entre Francisco Louçã e José Sócrates.
Mas tudo o que tenho lido e ouvido, agora mesmo na SIC, nos ensina e explica que Sócrates perde com todos. Ricardo Costa demonstra a péssima escolha de Sócrates que, no fim deste debate, falou para o eleitorado do PSD e não para o eleitorado do BE, que ele deveria ter tentado seduzir.
O fragmento que ouvi do debate entre Louçã e Sócrates foi aquele em que Louçã disse, sem ambiguidades, honra lhe seja feita, que nunca faria parte de um governo cumprisse o acordo com a Troika, colocando-se imediata e irremediavelmente de fora de qualquer voto de alguém que, minimamente, use estes debates para decidir o seu voto. O BE está, ele próprio a afastar os seus eleitores.
Entretanto, não posso já ouvir Sócrates falar do pedido que fez a todos os partidos para se coligarem com ele, em 2009. A quem quer ele enganar? Mas será que alguém acredita que não importa qual o partido com se se fazem alianças, ou que Sócrates alguma vez tinha em mente fazer alianças com algum partido?
Placa giratória
David Annand: perspectives
Arrasto os pneus pela calçada
adentro a força centrípeta do ímpeto
em placa giratória para o mundo.
Arrasto os dedos pelo teclado
adentro a culpa centrífuga do músculo
instante obrigatório do segundo.
09 maio 2011
Quizás, Quizás, Quizás
Ibrahim Ferrer & Omara Portuondo
Siempre que te pregunto
Que, cuándo, cómo y dónde
Tú siempre me respondes
Quizás, quizás, quizás
Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás
Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo que más tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?
Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás
Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo que más tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?
Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás
08 maio 2011
Contratação de médicos colombianos
Tenho exposto, neste blogue, a minha discordância profunda com muitas das declarações dos representantes da Ordem do Médicos. Ora também vale a pena difundir a minha total concordância com as cartas enviadas à Ministra da Saúde pelo Presidente do Conselho Regional do Sul, Dr. Pereira Coelho (das quais tive conhecimento pela Ana Matos Pires), não só alertando para o facto de ser falso (tanto quanto sabemos pela ausência de resposta) que os médicos colombianos tenham sido certificados pela Ordem dos Médicos, factor essencial para exercerem Medicina em Portugal, como pelas sugestões que faz à Ministra para optimizar a disponibilidade dos médicos portugueses, qualificados em Medicina Geral e Familiar.
A falta de Médicos em diferentes especialidades é responsabilidade de vários governos e Ministros da Saúde, o primeiro dos quais de Cavaco Silva e Leonor Beleza - X Governo Constitucional - pelo que se entende a urgência e a necessidade de haver criatividade para encontrar soluções rápidas. Sou favorável à contratação de médicos estrangeiros, sejam de que país forem, desde que devidamente habilitados para tal. Independentemente do que possamos criticar ou não, a Ordem dos Médicos é a Entidade que tem por obrigação certificar e legalizar o exercício da Medicina. Convém que o Ministério da Saúde cumpra a legislação.
Anatomia de um instante
A 23 de Fevereiro de 1981 o exército espanhol ocupou pela força o Congresso dos Deputados quando se votava a substituição do governo de Adolfo Suárez, demitido cerca de 1 mês antes, pelo de Calvo-Sotelo. O Tenente Coronel da Guarda Civil António Tejero, de pistola em punho, irrompe pelo hemiciclo - "¡Todo el mundo al suelo!"... “¡Se sienten, coño!"
Javier Cercas parte da fotografia deste momento histórico para, analisando as posturas de Adolfo Suárez, que não se deita e permanece sentado na sua cadeira, sobressaindo como um grito, o General Gutiérrez Mellado que entra numa altercação com os invasores, e Santiago Carrillo, outro grito silencioso na outra ponta da Câmara Baixa.
A dissecção desse instante origina um extensivo estudo da realidade espanhola desde a queda de Franco, por toda a Transição e pelos 5 anos de governo de Adolfo Suárez. O autor esmiúça a sociedade espanhola, a democracia instável, os resistentes franquistas, o exército inconformado, as autonomias e a legalização do Partido Comunista de Espanha. Partidos políticos, jornais, figuras gradas da sociedade espanhola, exército, todos conspiravam contra Suarez. O golpe era uma certeza, só não se sabia era quando seria e quem o protagonizaria.
É um livro que se questiona continuamente, se justifica, se põe em causa, com a preocupação de tentar perceber Adolfo Suárez, o seu gesto de nobreza, de coragem, de heroicidade, acossado por todos os que o tinham aclamado na Transição, por todos os que não lhe perdoavam a Transição, por todos os que lhe exigiam mais do que ele deu na Transição. O autor enquadra os indivíduos e as suas circunstâncias, Adolfo Suárez e a sua geração, para quem é implacável e por quem tem uma profunda admiração.
Depois dos excelentes Soldados de Salamina e A Velocidade da Luz, este Anatomia de um Instante supera-os em todos os aspectos.
O grande redutor da esquerda grande
Defendi há alguns dias que os partidos da dita esquerda deveriam ser capazes de tornar públicas as condições mínimas para poderem viabilizar um governo do PS. Mas rapidamente se me desfizeram as ilusões, com a posição que o BE e o PCP assumiram ao recusarem-se a reunir com a Troika.
Após a divulgação das últimas quatro sondagens, todas elas espelhando uma descida dos potenciais votantes no BE, Francisco Louçã já admite fazer coligações com o PS, mas sem José Sócrates, o que demonstra bem o embuste e a sua dimensão pouco democrática.
Francisco Louçã não está minimamente interessado em defender as políticas da esquerda grande. Apenas está a tomar consciência de que a sua demagogia e irresponsabilidade, desde a coligação com o PSD e o CDS (e o PCP), para forçar a demissão do governo, até à decisão de ficar de fora das negociações das contrapartidas para a ajuda externa, lhe vão render uma derrota eleitoral, maior do que a que teve em 2009.
Neste momento o anúncio desta disponibilidade, para além de não convencer os votantes no BE, pode ser prejudicial ao PS, dissuadindo os indecisos, pela certeza que têm da impossibilidade de uma coligação com os partidos da extrema-esquerda, agora como anteriormente. Como se fosse admissível eleger um governo com três partidos, em que dois se recusam a seguir as medidas acordadas pelo terceiro com a Troika.
Quem no eleitorado do centro procure, acima de tudo, um governo de maioria absoluta, pode afastar-se do PS com a perspectiva de tal coligação.
07 maio 2011
06 maio 2011
Antes e depois, é connosco
As opiniões de aplauso e júbilo ao programa acordado com a Troika multiplicam-se. Na verdade, todos sabem e sabiam há muito tempo quais os problemas do país, as reformas estruturais (aquela fórmula linguística utilizada a propósito e a despropósito, principalmente por quem não as quer executar), as despesas a reduzir e as reestruturações e ganhos de eficiência possíveis.
O problema foi e é implementar as medidas que todos reputam indispensáveis e inadiáveis. O único governo que, nas últimas décadas, teve uma agenda verdadeira e assumidamente reformista, foi o primeiro governo liderado por Sócrates. Anunciou e iniciou reformas em várias frentes. O resultado foi uma enorme revolta de todas as corporações e de todos os grupos de pressão empresariais e políticos, do seu e dos outros partidos, que fizeram tudo para boicotar quaisquer sinais de mudança, da educação à saúde, das finanças regionais às locais, do sistema de justiça à auto-estrada tecnológica. Tudo foi pretexto para impedir, emperrar, denegrir, descredibilizar, qualquer assomo de iniciativa para a diferença.
Na última legislatura houve até convergência de forças políticas antagónicas, mas que concordaram em tentar desfazer o que, com muito esforço e trabalho, se tinha conseguido fazer anteriormente.
Quem tem que assumir a responsabilidade de cumprir as metas que nos são impostas (é claro que nos são impostas) somos nós,,cidadãos, que não queremos perceber que é preciso cumprir horários, controlar a qualidade do nosso trabalho, prestar contas e responsabilizamo-nos pelo pagamento dos impostos, pela educação dos filhos, pela avaliação do desempenho, pelo mérito, pela partilha e pela solidariedade, pelo cumprimento rigoroso de normas de trabalho e de conduta, pela exigência a nós mesmos e aos outros, pelo desfazer de clientelas, compadrios, amiguismos, negligências, oportunismos e vigarices.
Seja quem for que ganhe as eleições terá que conseguir que nos olhemos ao espelho. E, melhor ou pior, o único líder que tem créditos em termos de querer mudar, por ter assumido os riscos que isso importa, é José Sócrates.
Um homem honrado
Teixeira dos Santos foi ontem entrevistado por um rude e duro José Rodrigues dos Santos. E muito bem. É exactamente esse o papel dos entrevistadores. Penso que pela postura, pela extrema lealdade e elegância com que foi respondendo, mesmo às perguntas sobre a sua relação com Sócrates, Teixeira dos Santos mostrou a sua honradez, seriedade e espírito de missão e de dedicação à causa pública. O país em geral e Sócrates em particular têm muito a dever-lhe.
Por outro lado, é cada vez mais patente a solidão que rodeia o líder do PS, ao ver afastarem-se, sejam quais forem os motivos, os verdadeiros artífices do que de bom foi feito por estes dois últimos governos. Isso é muito preocupante até porque, nos tempos difíceis que aí vêm, não é qualquer um que aceita os desafios da impopularidade. Talvez não fosse má ideia José Sócrates pegar no espelho em que nós nos devemos estudar, e se pergunte quais as características da sua liderança que estão a causar esta lenta, mas inexorável aridez. Seria certamente instrutivo e seguramente saudável.
Fabricação de notícias
Não tenho tido muita disponibilidade para assistir aos vários debates e programas que têm surgido após o acordo celebrado entre a Troika e o governo.
Por isso não sei se já se formaram vários grupos de estudo, se já se fizeram vários inquéritos internos e externos, se já se cruzaram argumentos e se denunciaram propósitos, obscuros ou claros, em relação ao que se passou com a comunicação social nos dias anteriores ao acordo.
As manchetes, as informações, as previsões, os estudos, as certezas e as sentenças que se escreveram, disseram e assumiram deveriam gerar, de imediato e com a emergência que se impõe, numerosos grupos de trabalho que dissecassem e iluminassem os incautos cidadãos sobre os bastidores da fabricação de notícias.
04 maio 2011
Das notas que tomamos (5)
Um dia passado, às voltas com as notícias que vão saindo nos jornais online, no rádio e na televisão, algumas notas vou tomando:
- Pudemos perceber que, ao longo do último mês, pelo menos, os jornais serviram de veículo de propaganda e de desinformação, alarmando continuamente a população, tudo fazendo para que a avaliação que fizéssemos do governo fosse aquela que os partidos de direita e de extrema esquerda, em união perfeita, uns por um lado outros pelo outro, queriam.
- À parte uma nota final no editorial de Pedro Santos Guerreiro, não me apercebi de qualquer tentativa de justificação da parte dos media de tanta incompetência. A não ser que não seja incompetência, que seja mesmo luta política, da mais baixa.
- As medidas que se vão conhecendo são, tanto quanto me apercebi, as que estavam previstas no PEC 4, com algumas outras alterações ou especificações, nomeadamente na redução da despesa do estado, privatizações, etc.
- De facto a sensação que fica, mais uma vez e com mais sustentação, é que o PSD precipitou a queda do governo para evitar que Sócrates conseguisse evitar a intervenção externa e, apesar de tudo, pudesse aguentar-se este ano, com a eventual ajuda da União Europeia, e ultrapassar a pressão d'Os Mercados.
- Ficámos com a certeza de que o PSD precipitou a demissão do governo negando apoio ao último PEC, primeiro porque era muito duro, depois porque era pouco duro, para agora vir a apoiá-lo, ensaiando uma distância e uma soberba ridículas, descredibilizando-se totalmente, se ainda tinha algum crédito de sobra.
Sócrates conseguiu ganhar mais esta batalha. Vamos a eleições sem qualquer razão, perdemos um mês sem qualquer préstimo, mostrámos internacionalmente uma imagem de doidos e oportunistas, cavámos mais fundo o insuportável fosso entre eleitores e eleitos.
Cada vez mais se configura a repetição do quadro parlamentar anterior, com a vitória do PS nas próximas eleições. E ainda bem, porque este PSD demonstrou bem qual a importância que dá ao país. Tudo vale, mas mesmo tudo, para alcançar o poder.
03 maio 2011
Vitória de Obama
A morte de Osama Bin Laden foi uma vitória da Administração Obama e uma vitória da luta contra o terrorismo. Simbolicamente, foi a neutralização do mais importante inimigo dos Estados Unidos, com quem os EUA estavam em guerra há décadas.
É claro que teria sido preferível que Osama Bin Laden tivesse sido capturado, julgado e condenado em tribunal. Mas a realidade não se compadece, em muitas situações, com o que deveria ser.
O terrorismo não acabou, obviamente. Mas, e mais uma vez simbolica e politicamente, sofreu um rude golpe.
Propagandas
A comunicação ao país do Primeiro-ministro demissionário, acompanhado de um demissionário Ministro de Estado e das Finanças com uma postura fechada, desaprovadora da sua própria presença, foi apenas uma peça de propaganda eleitoral.
Não ficámos a saber nada de concreto sobre as medidas que terão ficado acordadas com a Troika. A única preocupação de José Sócrates foi desmentir aquilo que foi sendo avançado pelos media como certezas de austeridade. Desmentiu o desaparecimento dos 13º e 14º meses, inclusivamente a hipótese de serem pagos em títulos de poupança, desmentiu cortes em salários e em pensões, desmentiu mais medidas orçamentais para além das do PEC 4, desmentiu o aumento da idade da reforma, desmentiu a necessidade de alterações constitucionais por causa de alterações das leis laborais, SNS e escola pública.
Não ficámos a saber rigorosamente nada do que vai acontecer.
A comunicação de Eduardo Catroga, também uma peça de propaganda, não lhe correu muito bem. Como não tinha nada para dizer, visto que nada se sabia, Eduardo Catroga insinuou que as medidas desconhecidas iriam ser muito piores que as do PEC 4, que já nunca teria chegado, mas muito melhores do que seriam sem a contribuição do PSD. O que é mais uma contradição e também não se compreende, pois o PSD não aprovou o PEC 4, pelas razões mutuamente exclusivas de serem muito e pouco duras.
A comunicação de Francisco Louçã foi irrelevante, para não variar, assim como a de Carvalho da Silva. A de Assunção Cristas foi a mais normal e cautelosa.
Continuamos a aguardar, portanto. Para já, Sócrates saiu-se melhor neste acto de campanha eleitoral.
Nota: 78 mil milhões de euros.
02 maio 2011
Sociedades
Não percam este livro e, já agora, o lançamento:
de Porfírio Silva - Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais
01 maio 2011
Preocupações pré-eleitorais
O apelo à ajuda externa, que a Troika corporiza e simboliza, vai condicionar muitas das medidas que o próximo governo tiver que tomar, a curto e a médio prazo. É importante que nos lembremos, com as devidas reservas da manipulação e da especulação d'Os Mercados e com a anemia da União Europeia, que foi o país que pediu essa intervenção e que, por isso mesmo, os receios da falta de democracia pelo facto de a Troika pretender um acordo com a maior parte dos partidos políticos e dos parceiros sociais me parecem inconsequentes. Infelizmente, há um plano de financiamento a Portugal. É pouco provável que a Troika aceite que sejamos nós a ditar as condições do empréstimo.
É claro que os representantes do governo demissionário e dos restantes partidos e restantes parceiros sociais deverão tentar o que puderem para que as medidas sejam o menos gravosas possível, em termos sociais.
Mas a campanha política tem ainda muito que esclarecer, se é que alguém alguma vez estará interessado em o fazer. Eu, por exemplo, gostaria muito que me esclarecessem quanto a algumas matérias:
- Está agendada, pensada, perspectivada, estudada, etc., alguma reorganização administrativa do território nacional? Parece-me uma reforma estrutural, daquelas que todos gostam de reputar inadiáveis e indispensáveis, de que não ouço falar. Penso mesmo que a reforma das leis eleitorais deveria ser posterior à reorganização administrativa do país.
- Há algum projecto, de manutenção ou desenvolvimento, da melhoria da implementação e do acesso às tecnologias de comunicação e informação? É que a reorganização do trabalho, da prestação de serviços públicos e de referenciação pode ser muito diferente se se aproveitarem as capacidades das tecnologias informáticas, com observação e consultadorias à distância, teletrabalho, etc. Para não falar dos custos e da possibilidade de ocupação das áreas do interior, podendo reverter-se a desertificação do território mais periférico.
A cor da Mãe
August Macke: Children at the Greengrocer's I
Mãe não tem cor.
Depende do instante em que olha o seu filho
do sorriso com que pensa nele
da angústia com que o procura.
Mãe aprende a ser camaleão.
Nesse arco-íris de vida em que se transforma
mãe acaba por morrer branca
na fusão de todas as cores.
Manter a sanidade mental
Kyee Myintt Saw: Market of Umbrella
Começa a ser muito difícil sacudir o asco que sinto quando ouço as pseudo-elites classificarem o estado do país com os superlativos que vão descobrindo, cada vez mais entusiásticos, dramáticos e entediantes, de tão superficiais.
Não há vislumbre de discussão sobre a ideia de qual o modelo social, qual o modelo de desenvolvimento que politica, económica e culturalmente se pensa para Portugal. É preciso crescimento, mas como? É preciso reduzir despesas, mas quais? É preciso privatizar serviços do estado, mas quais os custos sociais que estamos dispostos a suportar? É preciso parar com o investimento público, nomeadamente no TGV e no novo aeroporto, mas então qual o modelo de futuro se tem em mente?
A noção de democracia vai encolhendo dia a dia ao ouvirmos as inacreditáveis declarações daqueles em quem deveremos votar, como a criminalização das responsabilidades políticas e a subalternização da política à economia. Os diferentes actores, nas diferentes áreas de actividade, vão-se posicionando não se sabe exactamente porquê e para quê.
Leio a preocupação da Ordem dos Médicos em relação às consequências das restrições financeiras no SNS, abrindo um endereço electrónico para as queixas e denúncias sobre esse tipo de situações. É claro que a Ordem dos Médicos deve estar muito atenta a tudo o que resultar em diminuição da qualidade de tratamento dos doentes. Só que nunca me apercebi de idênticas preocupações em relação a outro tipo de riscos que envolvem redução na qualidade do tratamento, como o não cumprimento de horários, os atestados falsos, a requisição totalmente inexplicável de exames complementares de diagnóstico, a falta de comunicação, a desinformação sobre prescrição de genéricos, a incapacidade de preenchimento de processos clínicos, etc., etc., etc. Lembro-me até de ter lido nos jornais que a Ordem dos Médicos nem tinha capacidade para avaliar as queixas por mal prática que lhe chegavam.
Não tenho a mínima capacidade de perceber se a maior parte das pessoas, aquelas que todos os dias enchem os transportes públicos, os tais que formam um dos enormes buracos financeiros do estado e que o movimento Mais Sociedade quer privatizar, aquelas que aos sábados enchem o mercado e escolhem batatas, cebolas e pimentos, que resmungam com o preço da fruta e pedem meio frango, no talho, se dão ao trabalho de ler ou ouvir o que as pseudo-elites se entretêm a espalhar pelos media que, de uma maneira totalmente acéfala, reproduzem e replicam com ar grave e sério. Mas penso que a relativa calma que se sente não tem a ver com o amorfismo e a falta de cultura democrática do povo, com dizem os saudosos da democracia reivindicativa, de greves, manifestações e muitos chavões. A verdade é que ninguém liga nenhuma. É uma questão de sobrevivência e de salvaguarda de alguma sanidade mental.
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