30 junho 2006

Palaciano (ou quase...)

Então Ramos Horta já está disponível para assumir a chefia do governo, caso, é claro, a FRETILIN e o presidente Xanana Gusmão o queiram?!?!?!

Foi você que falou num golpe de estado?

Uma questão ambiental


Fernando Ruas acha que se deviam correr os inspectores ambientais à pedrada. É uma questão de defesa da ecologia e do artesanato. As pedras são armas de arremesso, totalmente honestas e amigas do ambiente, o autarca é um belo exemplar da grunhice lusitana, raça protegida e acarinhada pelo povo.

Que tal pô-lo num museu?

Uma questão vertebral

Freitas do Amaral despediu-se do governo por motivos de saúde. Se calhar, foi o melhor que lhe podia ter acontecido, assim como a José Sócrates e (quem sabe?) ao país.

Desejo boas melhoras… a todos!

A hora dos médicos


Anunciada já há algum tempo, parece ir para a frente a alteração (redução) do pagamento das horas extraordinárias nos serviços de urgência.

Em primeiro lugar se são necessárias horas extraordinárias para assegurar os serviços de urgência é porque eles estão sub dimensionados para as necessidades. Já aqui disse mais do que uma vez que os serviços de urgência funcionam como serviços de consultas permanentes, para suprirem a carência de atendimento atempado nos Centros de Saúde. Enquanto o acesso aos cuidados primários não melhorar, os serviços de urgência estarão sempre superlotados.

Não é possível dimensionar os quadros de pessoal dos diferentes serviços hospitalares com razoabilidade porque: se os funcionários são em número suficiente para o trabalho previsível nas enfermarias (internamentos, consultas, tempos operatórios), não chegam para assegurar a formação de equipas de urgência suficientes; se os funcionários forem em número suficiente para assegurar a formação de equipas de urgência suficientes, são demasiados para o trabalho previsível nas enfermarias.

Se as horas são EXTRAORDINÁRIAS são, por definição, para além do horário exigido (e, também por definição, os médicos são obrigados a fazer 12 horas extraordinárias de urgência). Há médicos que fazem, por semana, 2 vezes 24 horas de urgência, na maioria das vezes porque não há outra possibilidade de construir equipas com os poucos médicos que existem (outras vezes porque é assim que compõem o ordenado).

O facto de se pagarem as horas extraordinárias ao preço máximo e igual para todos os médicos, independentemente do seu regime laboral, transforma trabalho igual em remuneração igual, o que me parece justo. Por outro lado, se os regimes de horários são diferentes e as horas extraordinárias são pagas em relação ao preço da hora, também me parece normal que o ministro queira regressar a esse método (prévio a Maria de Belém), porque poupa muito dinheiro.

Mas o que poupava mesmo mais dinheiro era fazer serviços de urgência independentes dos outros, com quadros próprios e regimes de horários e remuneratórios de acordo com as funções exercidas. Não só poupava dinheiro ao estado como atendia melhor os doentes. Isto, evidentemente, depois de resolver o problema das consultas nos centros de saúde.

Espero que o ministro perca o péssimo hábito de não negociar com os sindicatos, como espero que os sindicatos percam o péssimo hábito de fazer greve à partida, sem pensar e sem propor soluções. Os sinais não são prometedores. O ministro avança como um tanque, as corporações cerram fileiras e armam-se em vítimas.

O que está em causa é a saúde e a melhor administração dos dinheiros públicos. Mas, repito, os sinais não são nada prometedores…

Visitação


As mulheres penteiam os cabelos como quem alinha a vida.
As mulheres esculpem os rostos como quem modela o tempo.
As mulheres calmas e insubmissas como quem é a idade do mundo.

Nesta exposição de Graça Morais, as mulheres são presenças e fantasmas silenciosos, que monocordicamente, com gestos finos e pesados, incorporam o sentimento da continuidade.

29 junho 2006

Pele


Procuro a lei universal
das letras matematicamente compostas
em combinações perpétuas,
em mutações abstractas,
que desde a primeira palavra
se carimbaram na minha pele,
escrevendo teimosamente
o teu nome.


(pintura de Mary Heebner: skin I)

28 junho 2006

E esta, heim?

Diz-se que o futebol português é violento e matreiro, que é sujo. O jogo com a Holanda foi terrivelmente violento e a culpa, ao contrário do que os especialistas da bola proclamam, não foi só, nem principalmente, do árbitro.

No entanto, quem tem um jogador LESIONADO, sem saber se pode ou não jogar contra a Inglaterra, resultado do tipo de jogo, se calhar limpo, da Holanda, é a nossa selecção…

Procriação medicamente assistida (parte IV)


De facto vale sempre a pena LER os documentos em vez de falar do que se ouve dizer.

O decreto sobre a PMA, quanto a mim, está equilibrado e acautela ao máximo o bem-estar a todos os níveis das crianças que vão nascer e dos progenitores, em termos de garantias de qualidade nos procedimentos, garantias de possibilidade de êxito, garantias de confidencialidade, etc. Não avança com a hipótese de PMA como processo alternativo de gravidez. Concordo. Eu, em muitas coisas, também sou conservadora.

Por outro lado, também vale a pena LER a petição para o referendo apresentada à Assembleia da República, assim como as três perguntas que constariam do referendo. É extraordinário como se consegue resumir a PMA a estas três perguntas, num português pouco esclarecedor, focando aspectos da técnica em si, feitas de forma a induzir as respostas.

Convém que a população em geral, entre as franjas fundamentalistas da direita e da esquerda, comece a debater este tipo de temas.

Agradeço ao Glória Fácil e à escola de lavores as informações e os links)

27 junho 2006

Sem (outras) palavras

Nu de costas

Desenho o amor como um caule
que a luz percorre numa lentidão líquida,
esquecendo o leito em que pousa, leve,
o seu corpo.
E se o brilho da tarde o colhe
do ramo a que os seus braços se agarram,
flutua, como fruto de futura colheita
que o desejo alimenta.
Ave imponderável, só os olhos
procuram a terra em que outrora
sonhou, no centro da clareira
em que o amor a deitou.

(poema de Nuno Júdice, no A a Z)

Pintura(s)

Graça Morais

Diana Marques


Pintar, conseguir reproduzir a realidade, nem que seja do sonho, com pincéis, lápis ou caneta é, para mim, um dom, uma característica formatada pelos genes, um toque de perfeição.

Talvez valha a pena visitar duas exposições de pintura.

A primeira, de Graça Morais, uma pintora que me surpreende pela simplicidade dos traço, pelo realismo da impressão estética que nos imprime. E pela sua pessoa, que nos envolve com a voz como se fosse o xaile que, com frequência, traz pelos ombros.

A segunda é colectiva, sobre a ilustração científica. Sempre me deslumbro com a capacidade de reproduzir, com o rigor e a exactidão de uma fotografia, mas com a vertigem da beleza, todos os minúsculos pormenores de um insecto, de uma célula, de uma flor, o deslumbramento da natureza.

Agradeço aos blogues Conta Natura e Graça Morais o anúncio e divulgação destes dois acontecimentos culturais.

26 junho 2006

Procriação medicamente assistida (parte III)

Os meus dois textos anteriores demonstram como a mesma pessoa pode esgrimir argumentos aparentemente contraditórios, com expressão de opiniões contrárias.

Por isso é que estes temas são difíceis e transversais. E por isso é que determinadas tomadas de posição pelos poderes legislativo e executivo são políticas, porque a ciência não dá resposta a tudo.

A integração dos dados científicos é indispensável, mas depois há que decidir tendo em conta as diversas culturas, os diferentes comportamentos das minorias e das maiorias. E o debate devia ser fomentado e acarinhado, como no caso da interrupção voluntária da gravidez ou na eutanásia, que só são debatidos quando se está para aprovar uma lei. Por coincidência (ou não) são sempre pedidos debates por organizações próximas da atitude “não mudar”, “deixar tudo na mesma”.

Gostaria de ouvir essas mesmas organizações a discutirem os preços dos preservativos, o local de distribuição dos mesmos, a existência de médicos, psicólogos e assistentes sociais nas escolas, o ensino efectivo do que são as transformações do corpo, da sexualidade, do crescimento, da gravidez e das doenças sexualmente transmitidas.

Mas neste caso, penso que é mais importante pensar, com todas as informações de que dispomos, no bem-estar das crianças. Quem deseja ser mãe ou pai deve pensar não só na concepção em si, como no que vem depois do nascimento.

Interrogava-me se o estado tem o direito de legislar sobre assuntos de natureza individual. Se penso, como é o caso, que a procriação é também um acto social, devem existir regras, portanto leis, que têm que ser o rosto da realidade.

Não invejo os legisladores. Neste assunto estou mais ou menos como Toneca Guterres: decidi não decidir!

...e continua!




Depois deste jogo, que venham ingleses, alemães e brasileiros, estamos preparados para tudo! Quem sobreviveu ao jogo, para além dos próprios jogadores, tem um coração de aço.

Não me parece bem culpar o árbitro de todas as patifarias que aconteceram. Quem deu as caneladas, foram os jogadores.

25 junho 2006

Procriação medicamente assistida (parte II)

Voltando ao tema da procriação medicamente assistida, e pegando no facto de não haver dados suficientes para saber se os filhos de casais homossexuais têm mais ou menos problemas que os filhos de casais heterossexuais, ou de pais e mães sós, talvez seja apenas porque a alteração na sociedade seja demasiado recente para que os estudos tenham significado.

Por outro lado, quando se começou a generalizar o divórcio, chegou-se à conclusão de que há formas saudáveis de conviver e formar crianças em ambientes que eram considerados muito prejudiciais.

E quem pode assegurar que o amor, o carinho, a estabilidade emocional e a orientação sexual não são conseguidos independentemente da existência de modelos sexuais de géneros diferentes?

Não será apenas o preconceito que temos em relação ao que é uma família? Família é o conjunto de pessoas que colaboram activamente no crescimento, bem-estar e felicidade de cada um de nós.

E será que o estado tem o direito de legislar sobre o que considera ser uma família? Não será matéria de opção individual?

Decidir ter filhos, assim como decidir não tê-los, pertence à esfera da privacidade individual, mas não deixa de ser um acto social, porque cada um de nós interfere e é membro activo da sociedade. Portanto é uma decisão individual mas de que a sociedade como um todo não se pode alhear.

Mais uma vez, não sou fundamentalista. Talvez as leis devessem assegurar que as crianças, independentemente de quem são os fornecedores de gâmetas, tivessem todas as condições para serem felizes e para se sentirem pertença de quem as cria, de quem as ama, de quem as quer.

Tal como nos avanços científicos e tecnológicos, as mutações e evoluções sociais não devem ser travadas pelo medo do desconhecido. Tal como um organismo vivo que se adapta ao seu meio ambiente, também as sociedades se adaptam e reequilibram após e durante as mudanças.

Bom senso é claro, mas sem preconceitos.

Portugal vs Holanda

Estou totalmente a favor da nossa selecção. Mas se continuam a massacrar-nos quando começar o jogo já nem me apetece vê-lo!

joguem mais,
chutem mais,
corram mais,
menos ais, menos ais, menos ais…

Procriação medicamente assistida (parte I)

Tem vindo a ser discutida legislação sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA). Para além dos aspectos técnicos e científicos da inseminação artificial, número de embriões implantados e outros, os aspectos éticos e de concepção filosófica são importantes, pois a lei parece vedar o acesso à PMA aos casais homossexuais e às mulheres sozinhas.

Não tenho uma opinião muito definida sobre este assunto. Em princípio não se percebe porque é que a PMA não deva ser para todas (os) que a quiserem, ainda por cima em tempo de decréscimo da natalidade.

Mas atentemos nas palavras da sigla: se a procriação tem que ser assistida medicamente é porque há um entrave à sua persecução. Ou seja o médico intervém porque há uma razão médica para tal, porque pelos métodos naturais não é possível conseguir a procriação.

Pelo menos enquanto não houver possibilidade de clonagem humana são necessários dois gâmetas, um masculino e outro feminino, para haver um novo ser. Em termos de fortalecimento e de sobrevivência da espécie, a variabilidade genética é uma mais valia da reprodução sexuada. Por isso talvez a clonagem, quando ela for possível, introduza problemas de sobrevivência da nossa espécie, pelo menos tal como agora pensamos nela.

Assim para que haja um filho, uma cria, o que lhe quisermos chamar, é necessária a intervenção de dois indivíduos de sexos diferentes. A PMA deve portanto corrigir o que é defeituoso para que este encontro de células seja possível e eficaz.

Será que se deve admitir que a medicina interfira num processo quando não há razões médicas para tal?

A nossa sociedade está em constante mutação. A família nuclear, pai, mãe, filhos, tem sofrido mudanças na sua composição. Há famílias com vários pais e várias mães, famílias só com um pai ou só com uma mãe e famílias com dois pais e duas mães.

Olhemos para
"A Convenção sobre os Direitos da Criança":
(…)
Artigo 7
1. A criança é registada imediatamente após o nascimento e tem desde o nascimento o direito a um nome, o direito a adquirir uma nacionalidade e, sempre que possível, o direito de conhecer os seus pais e de ser educada por eles. (…)

É verdade que as mulheres e os homens têm direito a querer ter filhos, a amá-los e a educá-los, e não é a orientação sexual de um determinado indivíduo que o impede de ter essas capacidades e esses desejos.

Mas a criança que vai nascer também tem direitos. No estado actual do conhecimento não há dados que nos permitam assegurar que o comportamento futuro de crianças filhas de casais homossexuais possa ser diferente do das crianças filhas de casais heterossexuais. No entanto, e sempre que possível, o modelo emocional, comportamental e social que se tenta providenciar a todas as crianças é aquele que tem uma figura paterna (masculina) e materna (feminina) porque se pensa, pelo menos por enquanto, que é o ambiente mais saudável para a formação de um ser humano.

É difícil ter certezas nestas matérias, e os argumentos de que é melhor ter dois pais ou duas mães do que estar num orfanato são totalmente falaciosos. Neste caso está a escolher-se um mal menor, que não me parece o mais adequado para consagrar na lei.

Dá-me a sensação que a nossa sociedade europeia de países ricos está a transformar os filhos em mais um bem de consumo. Não sou minimamente fundamentalista mas nestas situações tendo a ser conservadora e acho que a cautela legislativa é de elementar bom senso.

24 junho 2006

Aos escritores desconhecidos


Gosto de folhear os livros esquecidos, entalados e comprimidos entre capas vociferantes. Compreendo as suas vozes silenciosas, os seus sorrisos cúmplices, a ligeira textura poeirenta das páginas escondidas, as cores pálidas das letras.

Gosto de os ler vagarosamente, imaginando os autores despertarem do seu doce adormecimento, limpando as lentes dos óculos, esfregando as mãos, dedilhando palavras secretas e pintando os rios em que embarcamos.




(pintura de Gloria Clancy: the artist)

Blogar


A possibilidade de ir expondo, não se sabe bem a quem, opiniões e estados de alma sobre os mais diversos assuntos, transforma os blogues num manancial de estudo para sociologistas e psicanalistas.

Mas uma coisa que não consigo compreender é a falta de urbanidade de alguns bloguistas, que se envolvem em polémicas irritadas, trocando argumentos em linguagem pouco edificante, em que os temas apresentados se esquecem de imediato, ficando apenas espaço para insultos e insinuações desagradáveis.

Também as caixas de comentários são, para mim, um mistério. A propósito de um “post” aparecem comentários, a maior parte deles de anónimos, que não têm nada a ver com o tema do "post", nem para concordar nem para discordar, dizendo "coisas" e comentando outros comentaristas, a maioria das vezes sem graça e de uma forma grosseira, multiplicando-se e reproduzindo-se em catadupa.

Simultaneamente, estes jornais de parede efémeros, rápidos e superficiais, compilam o que de mais generoso temos e o que de pior somos capazes.


(pintura de Vincent Bennett: reading the news)

O tempo



O tempo corre apagando aplicadamente as pegadas da dor, os ruídos graves, os obscuros tijolos com que construímos muros. A névoa adensa-se e sobram apenas alguns sinais luminosos, que nos guiam teimosamente para diante.


(pintura de Picciotto: time)

22 junho 2006

Explicação (possível)


Essa mulher alaga
os olhos de azul
despegando-se por dentro
da praia que a despe.

Essa mulher enrola
as pernas na areia,
entrançando cócegas
e murmúrios de solidão.

Essa mulher esquece
no sol a vida que veste,
no mar os sonhos que tem.



(pintura de Lez Niepo: on the beach)

Untitled


Mulher na praia

Muitas vezes me tenho perguntado
quem será esta mulher só
que todas as tardes chega à praia
e, sentada sob a sombrinha,
fica olhando o mar.

Talvez busque no azul
resposta para a solidão.

Terá sido criança, amou e foi amada,
mas é claro que sobre isso não sei nada.


(poema de Torquato da Luz; pintura de Torquato da Luz)

Outra vez Timor

Todo este assunto de Timor Leste cada vez mais deixa transparecer que o grande problema está na luta pelo poder de dois protagonistas: Xanana Gusmão e Mari Alkatiri. A Austrália ou aproveitou a situação, ou acicatou os dois chefes, tentando tirar proveito da situação.

Xanana Gusmão sai muito mal de tudo isto. Não se percebe como é que um presidente pede por carta, que entretanto divulga, a demissão do primeiro-ministro, porque deixa de ter confiança nele, na sequência de uma reportagem efectuada por jornalistas australianos, que implica Alkatiri na organização de grupos ilegais armados, ameaçando-o de ser demitido. Depois, em vez de o demitir (pelos vistos não pode) ameaça que se demite ele próprio. A esposa de Xanana Gusmão dá entrevistas a meios de comunicação australianos (sempre) falando da situação política em Timor e antecipando as atitudes do seu marido, como se a mulher do presidente tivesse alguma função de porta-voz, conselheira, ou outra coisa qualquer, da presidência.

De facto, se Mari Alkatiri mantiver a confiança do seu partido maioritário, como parece que mantém, como sair deste impasse, que o próprio presidente criou?

É surrealista!

A verdade é que parece que Xanana Gusmão está a contar com a Austrália para dominar Mari Alkatiri.

Se não é verdade…

Soma e segue...


Lá ganhámos ao México, um tanto ou quanto esforçadamente! Deu gosto ver jogar o Brasil. O Ronaldo pode estar um boi, mas é um boi muito talentoso!

20 junho 2006

Toque a reunir (II)

Não deixa de ser interessante a forma como o Diário de Notícias trata as mesmas notícias. O que, para o Público é realçado, no DN é dito prazenteira e maciamente, com uma ternura e uma ligeireza, que nos deixa a pensar que o relatório tem uns pequeníssimos reparos a fazer ao ministério. Segundo o Público, quase que se adivinha um pedido de demissão do ministro!

Relativamente ao combate às listas de espera para cirurgias, começa por ser hilariante a designação dos programas: PECLEC e SIGIC. Confesso que já soube o que significavam as siglas mas já me esqueci. Antes de mais, as listas de espera cirúrgicas são irrelevantes. O que é obrigatório contabilizar é o tempo de espera para cada tipo de cirurgia. Além disso, para que as listas de espera sejam reais, tem que haver um registo centralizado de doentes à espera de cirurgia, sendo descarregados os que, entretanto, vão sendo operados, no serviço nacional de saúde ou nos serviços privados, e os que não querem (ou não podem) ser operados.

Nunca percebi bem a filosofia que justificava o pagamento, pelo estado, aos funcionários, do estado, para fazerem, no estado, aquilo que não havia condições de conseguir, no estado. Ou seja, hospitais com um número de cirurgiões específico que não conseguem operar todos os seus doentes, em tempo útil, vão receber dinheiro por operar esses mesmos doentes, nesses mesmos hospitais, nos mesmos blocos operatórios, apenas em horas extra.

Se há horas de bloco não utilizadas, talvez a solução seja rentabilizar os blocos com os cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, rentabilizando os recursos humanos (trabalho por turnos, por exemplo). Talvez não fosse má ideia comparar a produtividade nas horas em que se operam SIGIC com a produtividade nas horas normais, para o mesmo tipo de cirurgia, bem entendido.

É como o extraordinário caso do pagamento de horas extraordinárias: um médico A vai fazer horas extraordinárias ao serviço B do hospital B, por vezes pagas a preço de ouro, porque esse hospital B não paga horas a mais aos seus próprios funcionários. Por outro lado, o médico B do serviço B do Hospital B vai fazer horas extraordinárias ao serviço A do Hospital A onde o médico A trabalha, pelo mesmíssimo motivo!

Tudo isto é muito extraordinário, e um exemplo de como NÃO se devem gerir os parcos recursos existentes.

Sou total e completamente a favor da exclusividade para os funcionários de um hospital, que devem trabalhar lá todo o dia, rentabilizando os serviços e os blocos, aumentando a produtividade, o número de cirurgias, etc.

Falarmos todos com um ar sério e preocupado do serviço nacional de saúde, da “diabolização” das profissões liberais, dos doentes, coitados, do preço dos medicamentos, que horror, produzirmos relatórios e cartas abertas, soa a hipocrisia e a cinismo. Há problemas para resolver que não são irresolúveis, mesmo que muitos o queiram fazer parecer!

Toque a reunir

Para não variar, acordei hoje ao som da notícia bombástica da TSF: Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) conclui, no seu relatório anual, que o preço dos medicamentos, nas lojas autorizadas, é superior ao praticado nas farmácias e que, portanto, o governo tinha falhado o objectivo de baixar o preço dos medicamentos, com a liberalização do local de venda ao público (medicamentos que não necessitam de receita médica). E disse também que o governo não tinha uma estratégia para a saúde e que, embora tecnicamente seja correcto fechar as maternidades, não tinha sabido explicar essa medida aos autarcas e às populações.

Quando cheguei a casa, no Público on-line, o coordenador do observatório, Pedro Ribeiro, acha que é cedo para ter dados credíveis, e que são necessários mais estudos para se ser taxativo.

Depois parece que afinal, segundo dados do INFARMED, os preços dos medicamentos estão a subir, comparados com os que começaram a ser praticados pelas lojas que, em Outubro, tinham uma diferença de 15%, para baixo, relativamente a Agosto (antes da venda livre). O que o estudo não diz, pelo menos não vi, é se os preços nas farmácias se tinham mantido, subido ou baixado.

O ministro Correia de Campos, ou um dos seus secretários de estado, também não estava claro, diz que o relatório é mentiroso, que não está fundamentado, e que o Observatório perde a credibilidade que tinha. Por coincidência, Constantino Sakellarides pediu a demissão que nada tem (a demissão), obviamente, a ver com tudo isto.

Mais interessante é um carta aberta, escrita pelos bastonários das Ordens dos médicos, dentistas, farmacêuticos e enfermeiros, denunciando uma “ofensiva mercantilista” ao sector da saúde (não consegui ler o documento) que, por coincidência, aparece após a autoridade da concorrência se pronunciar relativamente à liberalização da propriedade das farmácias e à ilegalidade perpetrada pela Ordem dos médicos ao fixar uma lista de preços mínimos e máximos por consultas (e outros actos médicos). Gostei do artigo do Vital Moreira, a propósito, ao qual tive acesso através da Câmara Corporativa.

18 junho 2006

Desligar


Desliguei as luzes e, teimosamente, pisca ainda o botão verde do monitor. Olho sem compreender se falta ainda mais algum pormenor do mundo que não possa ser ignorado.

Em terras das quais tudo desconheço, até o nome, não fazem falta as minhas leituras, as minhas análises, os meus anseios e receios. A teoria do anti caos determina a total inutilidade do comprometimento.

Aproximo o dedo e carrego no botão, aceitando a bênção da ignorância.



(pintura de Denis Mezentsev: map of the world)

Ideologias

A discussão à volta dos desvios do PS para a direita, da crise da direita e, por consequência, da crise da esquerda, é artificial e pretende apagar diferenças ideológicas quando o que está em causa são diferenças de prática num mesmo espaço ideológico.

Sócrates, enquanto líder do PS, tem tentado imprimir um pragmatismo que os partidos de direita proclamam como seu.

A crise económica tende a misturar o que são medidas de reorientação e reorganização das despesas do estado, com a definição ideológica do papel do estado na sociedade europeia. O saneamento das contas públicas é essencial para se conseguir a manutenção daquilo a que se convencionou chamar estado social.

Redefinir e melhorar a educação pública, exigindo rigor e resultados, pedindo às escolas uma pedagogia de qualidade, é apostar que esta é uma função obrigatória do estado. Impor uma filosofia de serviço na administração pública é coincidente com a redução do número de funcionários, com a avaliação exigente e com a progressão por mérito.

A concentração de esforços e de meios, a reorganização dos serviços, a redistribuição dos recursos humanos, nomeadamente na saúde, pretende fazer face ao enorme crescimento de despesas pela existência de cada vez mais meios de diagnóstico e terapêutica a que TODOS têm direito, e que o serviço nacional de saúde deve assegurar.

A defesa e o respeito pelos cidadãos, assim como o ataque aos privilégios corporativos, com o objectivo da justiça em termos retributivos e de esforço fiscal, não é uma bandeira de direita.

Durante muitos anos confundiu-se ideologia de esquerda com laxismo, negligência, mediocridade e “amiguismo”, e estou a falar particularmente do PS. No limite, este estado de coisas leva à descrença no papel do estado e à noção do individualismo cego, da desagregação das comunidades pela lei do mais forte. O princípio do "utilizador-pagador" é perigoso e enganador, dando a ideia de que só tem direitos quem paga, o que acentua as desigualdades e semeia insatisfações.

O princípio solidário da contribuição social pelos impostos, desde que TODOS paguem proporcionalmente ao que ganham, é um cimento de coesão social e um meio de responsabilização dos governantes eleitos.

Não me parece que o PS de Sócrates tenha abdicado destes princípios. Espero que tenha assumido também o princípio da autoridade do estado que, sem ser de esquerda nem de direita, é um dos pilares de um estado democrático.

17 junho 2006

Às vezes


Às vezes precisamos virar a alma do avesso, dormir quando antes acordávamos, viver quando antes agonizávamos.

Abro e fecho os livros à procura da palavra, do poema, da luz que me acenda vontade e enleio. São os poetas que convoco neste apelo mudo, é dos poetas que exijo clarividência e sentimentos expostos.

Às vezes o toque dos dedos nas folhas, o cheiro do papel, a mansidão das letras que se entregam aos nossos lábios, conseguem acalmar o anseio. Solenemente, ouço vozes cadenciadas que lentamente me soletram a paz.


(pintura de Joan Miró)

Troncos


Como troncos que se isolam,
delicados madeiros transviados,
braços com nós e veias
barcos náufragos no tempo,
assim seremos nesse momento
de terra árida e mar sem fundo,
no fim do mundo.



(exposição de fotografias, até 8 de Julho, na Sala da Nora, em Castelo Branco - Barragem de Santa Águeda / Marateca - um olhar diferente)

Já está!


Desta vez foi a valer! Muito sofrimento e nervosismo mas foi um jogo bem jogado da parte da nossa selecção.

É preciso afinar os pontapés e as fintas para a próxima fase. Segundo percebi, enfrentaremos a Argentina ou a Holanda. Não sei o que será pior!

Venha quem vier, o mundial faz-se jogo a jogo. Se este correu bem, porque não há-de correr o próximo?

Espectáculo a sério é ver o show das claques. A imaginação e paciência dos torcedores, as vestimentas, os chapéus e as pinturas, dão um colorido maravilhoso às bancadas!

Portugal vs Irão



É hoje que vamos fazer um grande jogo. É hoje que vamos impedir que o presidente iraniano se desloque à Alemanha, para apoiar o Irão.

Para o melhor e para o pior, o futebol pode fazer a diferença.

16 junho 2006

Pois



Abri o descanso com uma chave ferrugenta. Tenho os ossos irritantemente pontiagudos a despontar da pele, que pede cama. Não sei se lhes faça a vontade.

Teimosamente limpo os vidros mas o nevoeiro mantém-nos baços. Notam-se bem as pontas dos dedos no bafo quente que lhes deito.

É melhor riscar do tempo estas nuvens.

Vou lambuzar-me com um livro que saiba a chocolate e reescrever o espectáculo da chuva. São gotas a menos e pedras a mais.



(Festival do chocolate, Óbidos, 2005)

"Homens no fio"


Ontem, depois de mais uma ida pouco satisfatória à FNAC do Colombo, consegui encontrar um exemplar (de dois) do livro “Homens no fio”, bem encafuado numa das prateleiras do fundo das enormes estantes da literatura portuguesa. Como é habitual, nenhuma outra obra do mesmo autor existia.


Peguei no livro e não parei de o ler até ao fim. De uma forma elegante e cheia de ternura, Luís Naves descreve uma (quase) tragédia de dois pescadores no mar dos Açores, ao largo de S. Miguel.

Com uma sobriedade e simplicidade exemplares, sofremos com os dois homens, um quase pai e outro quase filho, numa experiência limite de desespero, de fé e de destino. Dois homens vulgares, como vulgar e fruto do acaso são as armadilhas que se colocam entre nós e o infinito.

Com eles procuramos a luz, equilibramos o “Totobola”, bebemos água da chuva misturada com água do mar, tiritamos de frio e imaginamos na meia sonolência da fome, da sede e do medo, tubarões, barcos e amores.

É, ao mesmo tempo, um hino à vida. Gostei imenso. Parabéns ao autor.

15 junho 2006

Manipulação

Não percebo a vantagem desta manobra. O primeiro-ministro é tão rápido a propagandear as hipóteses de vitória, que deveria ser igualmente rápido a admitir a certeza da derrota.

O governo está à espera de um milagre? Faz fé na vitória de Portugal no mundial, para que se esqueça o desemprego crescente? Ou pensa que vai tudo de férias?

A descarada manipulação da informação é uma bofetada nos que ainda tentam acreditar na boa fé dos governantes.

Sem remorsos


Assaltei o João Gonçalves e, sem remorsos, roubei o Jorge Luis Borges…


He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados.

Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida

no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfias
del arte, que entreteje naderías.

Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.


(pintura de Fernando Ureña Rib)

14 junho 2006

Para longe


Olho para longe desta ausência
de flores na mesa e nos cabelos,

Olho para longe do olhar,
para lá do mundo que quero fechar.

Pode ser o mar.



(pintura de Angela Rossen: turtles)

Deprimente

Não consigo deixar de me sentir revoltada com o fecho anunciado da fábrica da Opel da Azambuja. Bem sei que é o mercado e a globalização e tudo o que quiserem. Mas que não me parece moralmente correcto despedir 1500 trabalhadores que o ano passado eram considerados muito bons, muito produtivos, maravilhosos, enfim, não me parece.

O ministro da economia vem dizer que está tudo em aberto. Pois está, as portas bem abertas para todos saírem, o mais depressa possível, e transferirem tudo para Saragoça cujos trabalhadores, este ano, vão passar a ser, por sua vez, maravilhosos.

Ao menos alguma coisa mexe na educação. Espero que mexa ainda mais, na saúde também, na justiça, e em muitos outros sectores, que tanto precisam, que tanto precisamos de um pouco de esperança.

Mas o que se está a passar na Azambuja é deprimente. Triste e deprimente.

Lisboa à chuva


Lisboa molhada e aflita, sacode a água dos passeios e encharca as sandálias nas bermas das ruas.

Há pedras soltas nas calçadas. As pernas nuas das mulheres salpicadas de frio e o arrepio que encolhe os ombros, por baixo do guarda chuva de carteira e do gozo danado de quem olha.



(fotografia de Oscar Garcia Suarez: rain paints the streets)

Dia de prisão


Hoje está um dia de prisão, em que as nuvens são como portas trancadas, as árvores gritam e gemem, os relâmpagos escrevem temor.

Hoje está um dia que não nasceu.

(pintura de Vorontzov)

12 junho 2006

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca,
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto,
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído,

no papel abandonado).
Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes.


(poema de Alexandre O’Neill)
(pintura de Paulina Parra: And the words got in the way II)

Mais uma fábrica a fechar


Só os nossos governantes estão optimistas em relação ao crescimento económico. O resto do pessoal, que não sabe nada de finanças nem consta que tenha bibliotecas, vai vendo a vida a andar para trás, com o desemprego a bater à porta de mais 1500 trabalhadores.

Eles até podem ter batido recordes de produtividade, até podem propor redução de custos, sabe Deus às custas de quem, mas há países em que o inaceitável para uma parte da Europa é muito acima do imaginável para outra parte.

Será que o governo vai mesmo pedir o dinheiro de volta? Espero que sim, mas é fraco consolo para quem perde o seu sustento.

11 junho 2006

Interesses


Ainda não percebi muito bem que interesses portugueses estão a ser acautelados com a ida da GNR para Timor.

Temos um complexo de culpa de ex-colonialistas e uma atitude de colonialistas na forma como olhamos e referimos a existência daquele país.

Afinal parece que a ida da GNR não era assim tão necessária, visto que os australianos até já têm um plano para reorganizar aquele jovem e imberbe país, com o beneplácito de Ramos Horta e do Presidente Xanana Gusmão.

De tão rápido a responder, Portugal vai pagar caro o seu sentimentalismo. O único interesse que agora tem a defender é minimizar o papel secundário que já lhe foi atribuído, pelos mesmos que apelaram à sua imprescindível ajuda.

Enquanto se joga à bola...


Foram encontrados prisioneiros mortos em Guantánamo. Os polícias do mundo estraçalham assim os ideais democráticos, impondo aos alegados terroristas a lei da força numa terra de ninguém onde os direitos humanos não existem.

Desde 2001 foram formalmente acusados 10 indivíduos. Os outros estão presos e, como são agentes do mal, não há perdão para tamanhos pecados na terra da liberdade.

Nem nas outras. Hipocritamente nomeiam-se comissões de inquérito relativamente às viagens com presos de um para outro lado na nossa Europa civilizada, que não vê, não ouve e, sobretudo, não fala.

É esta a democracia que os fiéis querem exportar para os países dos infiéis. Então não vêm como ela brilha?

... nunca mais acaba!

Depois de um golo aos 4 minutos de jogo, a selecção desperdiçou os restantes 86! Sofrimento até ao fim, rezando para que Angola não empatasse. Que péssima exibição! Assim são poucas as hipóteses de passar esta fase.

Portugal ganhou a partida, mas quem merece parabéns é Angola!

Portugal vs Angola




Embora ache inaceitável que ontem, dia de Portugal, o telejornal da RTP 1, às 20:00, tenho aberto com as notícias do mundial de futebol, tendo gasto 8 minutos com essas tão edificantes e imprescindíveis informações, e só depois disso se dignou falar das cerimónias presididas pelo Presidente da República, hoje estarei em frente à televisão, a torcer pela nossa selecção.

E que ganhe o melhor (Portugal, pois então!).

10 junho 2006

Os novos portugueses


Apesar de não ter votado em Cavaco Silva, de ele me enervar com o seu porte rígido e computorizado e a sua voz de risco de giz em ardósia, tenho que reconhecer que gostei de duas coisas neste 10 de Junho, primeiro em que ele é Presidente.

Gostei que ele responsabilizasse todos os portugueses pelo bom ou mau país que temos, que ele tenha dissertado sobre as almas pouco caridosas que tanto se queixam da desigualdade, exclusão social e miséria, mas que trabalham sobretudo em esquemas para não cumprirem as suas obrigações fiscais, que culpam de tudo o estado e que tudo exigem do estado.

Gostei que ele homenageasse as Forças Armadas, que lhes restituísse o prestígio e a honra de desfilarem no dia de Portugal. A elas devemos o 25 de Abril, a elas devemos o 25 de Novembro, a elas devemos alguma da boa imagem de Portugal no mundo, com elas contamos sempre, inclusivamente para melhorar essa imagem, por exemplo em acções de paz.

Não gostei que faltasse a homenagem a todos quantos fazem Portugal, nomeadamente e cada vez mais, aos imigrantes, que nos ajudam a renovar o país, que trabalham quantas vezes em condições precárias de indignidade e desumanidade. Faltou a homenagem a essa massa anónima que limpa as nossas casas, que lava os nossos carros, que trata dos nossos pais e filhos, que constrói as nossas casas, que paga as nossas reformas, que tem filhos que serão os próximos filhos da nação.

Era talvez mais importante que muitos roteiros para a inclusão, incluí-los onde eles já pertencem por direito – no país, facultando-lhes uma educação exigente e sem paternalismos bacocos, uma nacionalidade de que eles e os seus descendentes se possam orgulhar.

Escolheram-nos, servem-nos – porque não chamar-lhes portugueses?

10 de Junho


Este dia é quadrado, redondo,
sem forma,
porque a forma da nossa alma
é de mil gestos e cores,
porque o grito
da nossa força
é de mil mares e sabores.

Este dia é feito
na geometria do abraço,
é o nosso
quadrado imperfeito.

09 junho 2006

Untitled



Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação de desleixo,
fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,
fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

(poema de Álvaro de Campos; pintura de Luiza Caetano: Fernando Pessoa)

Tempo de folga

Uuufff! O sr. primeiro-ministro deve ter suspirado de alívio. Todo o governo! Finalmente começou o mundial de futebol! E que eles se portem bem e vão, pelo menos, até aos 4ºs de final. É mais um tempinho de folga, dá para fazer mais algumas leis, regulamentar outras, despedir rápida e eficazmente alguns, deixar de lado indicadores menos optimistas.

Até os incêndios serão menos quentes e menos devastadores.

Uuuufff! Balão de oxigénio para 2 a 3 semanas!

A honra perdida

É um engano pensarmos que estamos num estado de direito.

Li hoje, no “Expresso on-line”, uma notícia sobre a conclusão do processo dos atestados falsos, que teriam justificado as faltas de alunos às provas globais. Isto ter-se-á passado em 1999.

Sete anos depois, já os alunos terão entrado nas universidades e, pelo menos alguns deles, já terão acabado os cursos, prova-se que… nada ficou provado.

E tem mesmo que ser assim. Se tivesse ficado provado que os atestados eram falso, qual seria a penalização dos alunos vigaristas? Desfaziam os cursos que entretanto tinham acabado? Davam-nos, já prontinhos, aos que, eventualmente, teriam sido ilegalmente ultrapassados? Já não há nada que possa alterar semelhante situação.

Para não falar dos 70 médicos que atestaram por sua honra que 300 alunos sofriam de stress e ansiedade. Que lhes aconteceu no entretanto? Quem mais vai acreditar neles, seja para o que for? Que é feito da sua honra?

Mas a verdade é que não foi possível demonstrar que não estivessem doentes. Nunca é. Pelo menos neste país, 7 anos depois da alegada doença!

06 junho 2006

Nós


Dobro o joelho lentamente
na volúpia de te tocar,
com a mão em concha
afago-te o ombro,
tacteio-te a discreta
rugosidade da pele.

Supérflua a roupa,
desajeitadamente retirada
com delicadeza e deleite.

Jogamos a ternura do enlace
desapertamos os beijos,
rolamos e atamos de nós
as pernas e os braços que temos.

Amanhã sonharemos.

(escultura de Edward Walsh: lovers)

Genética



Tudo o que escrevo
é a transcrição
de bases alinhadas lado a lado,
duma dupla hélice
de amor e carne
que se abre,
não sei por que ordem
ou por que código secreto,
para ser copiada
e replicada,
repetida e disciplinadamente
até que o infinito
dê por finda
a minha vida.

Seis do Seis de dois mil e Seis


Exactamente!

Se há dias de tudo e mais alguma coisa, o dia do Diabo, Besta, Satã, e todos os outros, por maioria de razão, está perfeitamente bem!

Belo dia para diabolicamente saborear o prazer satânico de preguiçar.


(pintura de William Blake: The Number of the Beast is 666)

Correntes

E que tal uma corrente de e-mails contra mais uma greve entre um feriado e o fim de semana? E que tal uma corrente de sms a favor da verdadeira discussão da verdadeira avaliação dos verdadeiros profissionais?

E que tal uma corrente de indignação pelos péssimos manuais escolares? E um cartaz gigantesco em frente à residência oficial do 1º ministro contra os currricula infantilizados e imbecis? E uma marcha contra a violência nas escolas? E uma marotana a favor dos exames nacionais?

Contemplação

Já estava preparada para me levantar, como é meu hábito e vício, maquinalmente rodar a chave da ignição e começar o dia.

Quando o bafo do ar se entranhou no meu corpo, as pedras da calçada levantaram-se e impediram passos inconscientes.

Luziu-me a espera e os dedos repousaram: descanso, preciso de contemplação.

Pontuação

Para quem lê, a pontuação funciona como sinais de trânsito, avisando paragens, respirações, perguntas e admirações, pausas, sorrisos ou suspensões. Serve a liberdade de quem escreve mas limita a liberdade de quem lê.

De certa forma, se a poesia for encarada como uma expressão ligeiramente anárquica do pensamento, que estimule a associação livre de palavras e ideias, a falta de pontuação pode perder o leitor, mas pode tatuar-lhe melhor o poema, visto que se cola à verdadeira medida da sua pele.

Interdependência

Dizem-me que o contraste entre a minha fúria e a minha quieta e contemplativa poesia é estranha. Penso muitas vezes que somos várias pessoas, umas dentro das outras, em camadas concêntricas, com canais comunicantes, vasos e nervos, para uma nutrição partilhada.

Por vezes há adormecimentos focais, raramente permanentes, comas superficiais e estados catatónicos.

Nem sempre é fácil conviver com esta comunidade de interdependências.

Pedra


A pedra é uma pedra porque lhe chamamos pedra,
a existência é, porque a nomeamos,
as palavras são a realidade.

Somos uma espécie de suspensão da natureza,
pendentes entre o concreto e a forma como o destacamos.

Organicamente podemos compreender a alma,
se a dissermos passamos a ser parte dela.


(pintura de Ian Gray: Islay Stones)

05 junho 2006

Quietude


Havemos de encontrar
dias de gotas azuis
espadas de gelo derretido,

havemos de saborear
palavras dóceis
doces como um veneno,

havemos de correr
os dedos pelo trigo
duma mansa quietude,

havemos de nos amar
consumidos de virtude
no vício de procurar.



(pintura de Almada Negreiros)

03 junho 2006

Paridade sem quotas


Ser contra a lei da paridade que o PS (e o Bloco de Esquerda) quer aprovar e que Cavaco Silva vetou não é ser de direita. Ser contra a descriminação (mesmo a positiva) não é ser de direita.

Não concordo com as quotas e acho uma hipocrisia tentar impor-se a participação das mulheres na política por meios que as diminuem.

Se os partidos de esquerda querem promover a igualdade de oportunidade entre os géneros, promovam a flexibilização dos horários das reuniões políticas, alterem as regras dos partidos que funcionam como clubes de confraternização masculina.

Acabem com a censura aos homens que têm que ir com os filhos ao médico, ou às reuniões da escola, ou buscá-los aos infantários.

Se libertarem as mulheres das tarefas que lhes são impostas, apenas pelo facto de serem mulheres, talvez elas mostrem mais interesse na política.

(pintura de Ogambi: carrying water with children)

Curtas

Embora mergulhada no trabalho, tenho mantido os olhos e os ouvidos mais ou menos à tona, de modo a aperceber-me do que se vai passando.

Parece-me totalmente despropositada a reacção do presidente da Ordem dos Médicos no que diz respeito à multa decretada pela Autoridade da Concorrência. A Medicina é uma profissão liberal e como tal deve ser tratada, como todas as outras profissões liberais. Uma coisa é recomendar preços máximos, outra muito diferente é publicar tabelas obrigatórias de preços mínimos e máximos, acusando quem as não pratica (principalmente às dos mínimos) de concorrência desleal.

Os tribunais servem para decidir, quando há interesses antagónicos em disputa. Dizer que a Ordem não pagará jamais, é uma posição precipitada e que revela alguma sobranceria. Ou não?

A novela do estatuto da carreira docente continua, com a proverbial e já mais que publicitada greve de professores. A banalização deste tipo de greves já é tanta que, mesmo que alguma razão algum dia lhes assista, ninguém lhes liga, e a reacção que provocam é de irritação e enfado.

Anunciou-se mais uma lei para a mobilidade dos funcionários públicos. Não sei porque é que o governo não assume frontalmente que precisa urgentemente de reduzir o número de funcionários públicos e que está a fazer um esforço para tal, em vez de usar meias palavras e legislação para fazer… isso mesmo!

É claro que os sindicatos estão contra, mas também estão sempre, contra esta ou qualquer outra reforma.

Mas uma coisa é certa. O desemprego vai aumentar e há muita gente que se deve sentir muito preocupada. De facto há inúmeros funcionários na administração pública que não são precisos, e que foram sendo contratados pelos diversos partidos que ocuparam alternadamente o poder. Mas será possível que essas pessoas encontrem outro emprego, no sector privado? Parece-me muito pouco provável! Como reconverter esses profissionais?

Isto se as leis que agora se anunciam não tiverem efeito só daqui a 10 anos!

Não deixa de ser extraordinário ouvir o PSD armar-se em defensor dos professores e em crítico da política de falta de disciplina e exigência que vem sendo seguida de há 30 anos para cá, esquecendo-se das suas enormes responsabilidades nessas matérias! Sem falar do dia do cão!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...