10 junho 2006

Os novos portugueses


Apesar de não ter votado em Cavaco Silva, de ele me enervar com o seu porte rígido e computorizado e a sua voz de risco de giz em ardósia, tenho que reconhecer que gostei de duas coisas neste 10 de Junho, primeiro em que ele é Presidente.

Gostei que ele responsabilizasse todos os portugueses pelo bom ou mau país que temos, que ele tenha dissertado sobre as almas pouco caridosas que tanto se queixam da desigualdade, exclusão social e miséria, mas que trabalham sobretudo em esquemas para não cumprirem as suas obrigações fiscais, que culpam de tudo o estado e que tudo exigem do estado.

Gostei que ele homenageasse as Forças Armadas, que lhes restituísse o prestígio e a honra de desfilarem no dia de Portugal. A elas devemos o 25 de Abril, a elas devemos o 25 de Novembro, a elas devemos alguma da boa imagem de Portugal no mundo, com elas contamos sempre, inclusivamente para melhorar essa imagem, por exemplo em acções de paz.

Não gostei que faltasse a homenagem a todos quantos fazem Portugal, nomeadamente e cada vez mais, aos imigrantes, que nos ajudam a renovar o país, que trabalham quantas vezes em condições precárias de indignidade e desumanidade. Faltou a homenagem a essa massa anónima que limpa as nossas casas, que lava os nossos carros, que trata dos nossos pais e filhos, que constrói as nossas casas, que paga as nossas reformas, que tem filhos que serão os próximos filhos da nação.

Era talvez mais importante que muitos roteiros para a inclusão, incluí-los onde eles já pertencem por direito – no país, facultando-lhes uma educação exigente e sem paternalismos bacocos, uma nacionalidade de que eles e os seus descendentes se possam orgulhar.

Escolheram-nos, servem-nos – porque não chamar-lhes portugueses?

3 comentários:

  1. Anónimo10:14

    Outra vez, excelente!
    LS

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  2. Sofia Loureiro dos Santos12:19

    Caro LS:
    Obrigada pela sua tão simpática apreciação.

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  3. Silvares16:26

    Cavaco é assim. Uma no cravo, duas na ferradura. As asas não lhe assentam muito bem, apesar do esforço.

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