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03 janeiro 2026

Um dia como os outros (200)

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2026: Desejar não basta. É tempo de fazer

Maria Manuel Mota

(…)

Como cientista, acredito profundamente que a ciência nos oferece mais do que respostas técnicas. Oferece-nos um método para viver em sociedade. A ciência ensina-nos a duvidar sem destruir, a discordar sem deslegitimar, a mudar de opinião sem perder dignidade. Ensina-nos que o conhecimento é cumulativo, que nenhuma descoberta surge isolada e que o progresso raramente é imediato e quase sempre é coletivo.

A ciência fundamental, silenciosa e persistente, é talvez o melhor exemplo disso. Durante anos, décadas até, parece não produzir impacto visível. E depois, aparentemente do nada, transforma-se em vacinas, terapias, tecnologias, soluções que mudam vidas. Exigir resultados imediatos da ciência é como exigir frutos a uma árvore acabada de plantar. É desconhecer a natureza do conhecimento.

(…)

A ciência mostra-nos que cooperação supera competição quando o objetivo é comum. Que diversidade de perspetivas melhora decisões. Que sociedades mais justas, mais informadas e mais inclusivas são também mais resilientes.

Que 2026 seja, então, menos o ano das promessas e mais o ano do compromisso. Menos o ano das queixas e mais o ano da construção. Um ano em que escolhamos a racionalidade em vez do ruído, a união em vez da fragmentação e a ação em vez da resignação. A esperança, afinal, não é passiva. Constrói-se.

 

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Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses

José Pacheco Pereira

(…)

Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses convém lembrarmo-nos das centenas de milhares de portugueses que de mala à cabeça atravessaram ilegalmente duas fronteiras para, no nosso exemplo escolhido, a França, chegar aos bidonvilles dos arredores de Paris e trabalhar no duro, principalmente no “batimento”, na construção civil. A inspiração para este artigo foi abrir uma mala, uma valise de carton, que pertence ao espólio de José Carlos Ferreira de Almeida que se encontra no Arquivo Ephemera, um pioneiro do estudo da emigração. Essa mala contém uma das fontes do seu trabalho, muitas centenas de recortes de jornais portugueses, do Algarve a Trás-os-Montes, sobre os anos mais duros da emigração para França, a primeira década dos anos 60.

(…)

a exploração dos emigrantes começava em Portugal com os engajadores e prolongava-se em França com as redes de habitação e emprego organizadas por franceses. Que passavam as fronteiras “vestidos com dois pares de calças e camisas”, a roupa que se levava. Que se podia ter como habitação “uma carrinha que é quarto de dormir de 17 pessoas”, que havia uma máfia luso-francesa na exploração das barracas, que a emigração clandestina é um terreno ideal para o crime. Que a situação era pior para as mulheres

(…)

Que a vida na emigração era de “sofrimentos, injustiças e andanças várias”, assentes na exploração do trabalho dos portugueses que ganhavam mais em França do que em Portugal, mas muito abaixo dos franceses para o mesmo trabalho, sem regras, nem horários. Que para obterem um documento esperavam sete horas (hoje é pior), tendo de se deslocar centenas de quilómetros, com a polícia francesa à perna. E que os franceses olhavam para os portugueses como os habituais feios, porcos e maus, que, para espanto dos franceses, assavam uma sardinha em papel de jornal, escreve o Jornal do Comércio. O livro de Nuno Rocha publicado em 1965 tem um título que diz tudo: França, A Emigração Dolorosa.
(…)

02 novembro 2024

Um dia como os outros (199)

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(…) Normalmente, o voto da minoria negra vai esmagadoramente para os democratas. Desceu de valores que se aproximaram dos 90% com Joe Biden para menos de 70%. A resposta foi simples: porque a candidata é mulher, mesmo sendo ela própria negra. (…)

(…) O ex-Presidente manifesta um desprezo absoluto pelas mulheres. Para Harris, a mulher negra que se atreveu a desafiá-lo, reserva os piores insultos. Uma mulher inteligente, preparada, ao mesmo tempo forte e elegante, é uma afronta à sua masculinidade. Este sentimento difuso está presente na América que vota. (…)


Teresa de Sousa - Público 02/11/2024


Um dia como os outros (198)

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(…) É a doença dos EUA –​ sim, porque votar em Trump significa ser cego, surdo e mudo, cruel e violento, e não me venham com o aumento dos custos da mercearia, porque o voto em Trump transporta muitas outras coisas, e quem vota sabe. (…)

(…) A complacência com os crimes de Trump, o medo que ele inspira, os poderosos apoios interesseiros que fecham os olhos a tudo para ganhar dinheiro e poder manietaram a justiça americana e permitiram-lhe uma impunidade que ninguém deveria ter. Trump, que é contra a democracia, beneficiou das fragilidades da democracia, usando três coisas: a manipulação da política-espectáculo, hoje uma das maiores ameaças à democracia; o dinheiro para pagar uma litigância infinita e para corromper testemunhas e processos; e o medo da retaliação e vingança que ele promete como quem respira. (…)


José Pacheco Pereira - Público 02/11/2024


26 outubro 2024

Um dia como os outros (197)

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(...) É justo dizer que já somos tudo isso, e ainda mais, há muito tempo. Mas, agora, somos também o país onde um deputado da nação eleito pelo Chega diz, na RTP3: “Se disparasse mais a matar, o país estava mais na ordem.” Isto a propósito de Odair Moniz, morador do Bairro do Zambujal que, na sequência de uma perseguição, foi alvejado mortalmente por um agente da PSP — um caso que ainda está sob investigação.


Temos um jovem assessor parlamentar do mesmo partido que escreveu (e apagou) numa rede social: “Menos um criminoso, menos um eleitor do Bloco.” Como se as palavras não fossem sempre mais do que isso. (...)


Público



 



(...) "Atingiu-se um limite. Nenhum democrata pode deixar de se indignar com estas declarações. A minha consciência obriga-me a tomar uma atitude em relação a quem se aproveita deste clima para fazer apelos ao ódio e a mais violência. Vou subscrever a queixa, que espero que seja subscrita pelo maior numero possível de pessoas" (...)


TSF


07 julho 2024

Um dia como os outros (196)

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(…) Os valores saídos da revolução francesa — liberdade, igualdade e fraternidade —, não podem ser substituídos por ideias antiprogressistas, reacionárias, ultranacionalistas, racistas, xenófobas e misóginas. Seria uma tragédia para a França, para a Europa e para o mundo.



Alexandra Leitão - Expresso



(…) Mas agora já não é segredo. O Partido Democrata, pelo menos se quer honrar a segunda palavra do seu nome, tem de encontrar outro candidato. Seja Kamala Harris, Michelle Obama ou o governador da Califórnia, qualquer um, apesar de vir tarde, ajudará a reequilibrar as probabilidades. Nenhum virá a tempo de ser o favorito, mas terá mais hipóteses do que Biden (e será melhor Presidente). (…)



Luís Aguiar Conraria - Expresso

28 abril 2024

Um dia como os outros (195)

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(…)


No cruzar do século temos os mesmos níveis de analfabetismo que outros países tinham no cruzar do século anterior. Quando se diz que tivemos de, em algumas décadas, recuperar de um atraso de 100 anos, está-se a ser literal. Nem um quinto da população ativa havia terminado o ensino secundário. Nem um quinto. A percentagem da população ativa com ensino secundário na Europa era três vezes maior. Nos países de Leste, como a Chéquia, Estónia, Eslovénia ou Polónia, era quatro vezes maior. É assim tão surpreendente que estes países, uma vez aderindo à União Europeia, crescessem bem mais depressa do que nós?


(…)


A grande revolução deu-se nos números relativos ao ensino supe­rior. Em 2000, nem 9% da população ativa tinha completado um grau superior. Em 2022 esse valor subiu para 31,5%. Mais do que triplicou e põe-nos próximos da média europeia e à frente de nove países. É uma recuperação extraordinária. E, se olharmos especificamente para as faixas etárias entre os 20 e os 34 anos, concluímos que já estamos acima, e bem acima, da média europeia.


(…)


Mas quando olhamos para fatores endógenos, em especial para o mais importante de todos, o capital humano, temos razões para sermos otimistas.


(…)


Não me entendam mal, é evidente que nos desenvolvemos muito. Temos um bom sistema de saúde nacional, uma boa rede de escolas, proteção social eficaz, etc. Mas, insisto, o nosso nível de bem-estar ainda está longe do da Europa. O que os dados sobre a educação mostram é que nunca estivemos tão bem preparados para alcançar o terceiro ‘D’ de Abril. Ser-se realista é ser-se otimista.



Luís Aguiar Conraria

24 fevereiro 2024

Um dia como os outros (194)

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(…) todas as probabilidades de acontecerem os eventos que se referem são não só elevadas, como se verificarão em conjunto. O paralelo com 1939 tem muitos aspectos que, como todas as comparações de épocas muito diferentes são enganadoras, podem e devem ser pensados. O dilema que opôs Churchill a Chamberlain assentava numa avaliação dos perigos de Hitler para a paz europeia, a soberania das nações e os regimes não ditatoriais, com Churchill opondo-se a políticas de “apaziguamento” que, como se verificou, não travaram Hitler e levaram à guerra de 1939-1945.


(…) Estamos em eleições legislativas, mas os principais candidatos fazem de conta que nada disto é com eles. (…)


O que devia estar a ser discutido, e muito a sério, é que posições têm os partidos face ao significativo agravamento do orçamento da defesa (…) E discutir que posições se vão tomar a cada passo do caminho perigoso dos nossos dias? (…) E vamos discutir o papel que teve o irresponsável fim do Serviço Militar Obrigatório, (…) e que agora devia ser reconsiderado (…)



José Pacheco Pereira - Público (24/02/2024)


Nota: ASSINE UM JORNAL

02 dezembro 2023

Um dia como os outros (193)

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"(…) Costa estava para durar e mesmo aqueles que sonhavam 24 horas por dia em derrubá-lo reconheciam isso. E, de repente, Costa cai não porque os seus inimigos políticos o tivessem derrubado, nem pela luta política normal, mas por uma política anormal em democracia, uma mistura grande de incompetência e irresponsabilidade e uma ideologia corporativa antidemocrática, o justicialismo.


É por isso que se devia falar, e muito, deste evento, porque ele transcende a prática normal da democracia e é relevante para todos, sejam da situação ou da oposição. Porque o justicialismo não é redutível ao confronto partidário, não é do PSD contra o PS, ou vice-versa, não é da direita versus a esquerda, ou vice-versa. É uma intervenção no terreno da política democrática de uma concepção corporativa que encontra legitimação numa ideia de superioridade do seu poder assente numa bondade, honestidade e integridade atribuídas a uma casta, que precisa de ter inimigos para se justificar como superior. E esses inimigos são os políticos em democracia, o “outro” poder.

(…) O justicialismo é uma forma mais sofisticada de populismo, mas muito próxima da substância do populismo que alimenta o Chega. Como se verifica no caso actual, os resultados da sua acção podem ser instrumentalizados, o que faz a direita radical e o lucrativo jornalismo de escândalos, retaliação e vingança, cuja ideologia também mergulha nas mesmas fontes. Mas o mecanismo do justicialismo actua para além dos seus efeitos no equilibro político, no reforço da imagem da casta e na intangibilidade dos seus poderes, sempre apresentados como sendo em nome de um valor maior que superaria os estragos menores que provocam.

(…) Estou consciente que há muitas vezes uma linha fina entre criticar o MP e querer estar acima da lei e não ver os seus crimes expostos e sujeitos a sanção. Mas aqui não há uma linha fina, há até uma bastante grossa que deveria existir entre a justiça e a política, e o justicialismo apaga-a todos os dias."



Público, José Pacheco Pereira (02/12/2023)

12 setembro 2021

Um dia como os outros (192)

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Há muitos anos atrás, cheguei cedo a uma sala de Teatro. Estava já um senhor sentado na plateia. Gosto de ser público, muito. Resolvi ir sentar-me ao seu lado. Era este SENHOR. Cumprimentámo-nos e conversámos sobre o Teatro e a vida, de tudo e de nada e voltámos a falar no final da peça do que tínhamos visto e sentido e refletido.


Passado uns meses, volto ao mesmo Teatro e na plateia estava o mesmo senhor, e a situação repetiu-se. Rimo-nos da coincidência e voltámos a falar de tudo e de nada, e do Teatro e da Vida. 


Ele foi o meu Presidente da Câmara de Lisboa e o meu Presidente da República que muito amo e respeito e tive o privilégio de ir com ele duas vezes ao Teatro, que é a vida que adoro e escolhi.


Acreditem ou não sempre que vou sozinha ao Teatro, penso neste SENHOR que em dois domingos à tarde, foi o meu amigo das mesmas plateias.


Natália Luiza



 

12 março 2020

Um dia como os outros (191)

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(...) "A ironia é que Donald Trump é apenas o último de uma cadeia de culpados que erigiu uma sociedade que dedicou muito mais atenção à Defesa do que à Solidariedade e Saúde Pública. Até aqui há alguns meses, os Estados Unidos apareciam a falar de cátedra aos seus parceiros, porque estes não dedicavam os recursos que eles achavam suficientes à primeira daquelas prioridades. Agora, que parece que todos iremos penar com a  pandemia do covid-19, os Estados Unidos terão perdido essas superioridades morais de que se costumavam arrogar. O secretário (ministro) da Saúde norte-americano, Alex Azar, confessou outro dia à CNN que as autoridades não fazem ideia de quantas pessoas já serão sido testadas ao vírus, porque os testes realizados pelas instituições privadas lhes escapam. As instituições privadas, aliás, parecem ser um dos busílis do Problema, nomeadamente as Seguradoras, que se mostram cada vez mais evasivas a encaixar os prejuízos do que aí vem, o que está a obrigar o vice-presidente Mike Pence - encarregue da crise - a proclamações solenes garantindo a cobertura dos testes ao covid-19, garantias que não se vêem em mais nenhum outro país desenvolvido. E há quem pergunte: o que acontecerá com os 27 milhões de americanos que não possuem qualquer cobertura de saúde?... Numa aparição hoje naquele mesmo canal de televisão (CNN), o mesmo Mike Pence fez uma triste figura de si próprio ao mostrar não saber dar resposta satisfatória ao número escassíssimo de testes apresentados pelas estatísticas oficiais (abaixo). Ou seja: Azar não sabia e Pence continua a não fazer a mínima ideia." (...)


(...) O que me parece que tornará a situação da pandemia muito mais assustadora: trata-se de uma crise que é dirigida por incompetentes em que, ainda por cima, os meios parecem deficientes. E o facto de Donald Trump ser quem é, traz um gosto especial ao convite para que, agora, os americanos accionem todo o seu estado da arte do dispositivo de defesaos seus onze porta-aviões a energia nuclear, com os novíssimos caças F-35 (a 100 milhões a unidade) para combater o vírus! " (...)


António Teixeira

29 janeiro 2020

Um dia como os outros (190)

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"(...) Que, entre nós, o Livre o tenha decidido fazer em sede de orçamento sem uma discussão enquadradora e propondo que o grupo de especialistas a constituir integre “activistas anti-racistas”, levanta genuínas dúvidas se se trata de uma medida que procure ser consequente ou só mais um espúrio agitar das águas.


Que o deputado e líder do Chega, André Ventura, tenha reagido de forma abjecta à proposta, defendendo “que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país”, mostra que mesmo que a discussão seja importante, ela dificilmente será profícua se for travada pelos extremos."


David Pontes


 


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"André Ventura sugere devolver "ao país de origem" Joacine Katar Moreira, que por sua vez quer devolver às ex-colónias bens culturais dos nossos museus que lhes pertençam. Francisco Rodrigues dos Santos quer devolver ao CDS a posição de partido que não caiba no táxi, mas sem ter Joacines e a tentar não se aproximar muito do Chega. Que, entretanto, também tem afastamentos a fazer e se demarca da saudação nazi feita por um participante no jantar do partido no Porto.


Parece anedota, mas é o resumo das últimas horas no país político dos pequenos, que vai mostrando poucos motivos para graças. (...)


(...) Por contraditório que possa soar, a afirmação racista, intolerante e completamente intolerável de André Ventura acaba por ter uma vantagem. Se até há pouco o deputado do Chega tentou usar de um tom manso e negar que seja extremista, xenófobo ou nacionalista, deixá-lo falar à vontade é a melhor forma de mostrar claramente quem é e as pessoas que abriga no partido. A saudação nazi vista durante o hino nacional não é um acaso de que Ventura possa realmente demarcar-se. É uma consequência do que o Chega defende e dos ódios de que se alimenta. (...)"


Inês Cardoso


 

29 dezembro 2019

Um dia como os outros (189)

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(...) Sagas que nos distraem do essencial que não queremos encarar, de que é entre nós que estão os monstros, que é possível, entre nós, essa impossibilidade da razão, essa total ausência de diálogo, essa crueldade que não chega a sê-lo, porque não nos reconhece existência, sentimentos ou semelhança. (...)


Fernanda Câncio


 

10 novembro 2018

Um dia como os outros (188)

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 (…) Mas estes homens têm uma corte, porque o poder autocrático tem uma capacidade enorme de atrair a degenerescência da virtude, de poder ser usado para comprar e vender interesses e para dar aos pequenos da mesma espécie a ilusão de que também são grandes, porque estão à sombra dos gigantes. Aqueles a quem tenho chamado os nossos bolsonarinhos e trumpinhos desdenham Bolsonaro e Trump e não quereriam ver-se em sua companhia à mesa. (E daí não sei... Talvez, depende, não é impossível, podia ser, e se for uma selfie, não ficava mal, para pôr na mesa de cabeceira...) Por isso juram a pés juntos que não gostam deles. MAS GOSTAM DO QUE ELES ESTÃO A FAZER. Vai em maiúsculas por que é isso mesmo. (…)


 


(…) E não se iludam com as aparentes reticências e com as explicações rebuscadas, que não “reticenciam” nada, nem “explicam” nada, porque lhes falta o sentimento de nojo. E o nojo é o sentimento exacto. Eu vi a conferência de imprensa de Trump, em que ele disse que se os democratas investigarem os seus impostos, ele vinga-se investigando os democratas, coisa que ele diz que faz muito melhor. Senti nojo. Ponto.


 


Pacheco Pereira

15 outubro 2018

Um dia como os outros (187)

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(…) Porque já tivemos muitas versões - até do que foi roubado. Em julho do ano passado, menos de 15 dias após o "roubo", o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general do Exército Pina Monteiro, afirmou que parte do material furtado estava "para ser abatido", e outra parte não tinha condições para ser usada de forma eficaz. Ou seja, os ladrões, que claramente sabiam tudo sobre o funcionamento da base e do material que lá estava e onde, tinham roubado coisas, na maioria, imprestáveis? Quê, por piada? Mais de um ano depois, tendo o material sido alegadamente recuperado (com uma caixa de petardos "a mais", disseram-nos, e 1450 munições a menos), tal confirmou-se? Não sabemos.


Não sabemos nada. Não sabemos porque é que foram feitos dois buracos na rede da base de Tancos - um não chegava? Não sabemos como foi possível 300 quilos de material serem levados, supostamente a pé, num trajeto de 420 metros, até a um desses buracos, ainda por cima - se as imagens da "recuperação" do material postas a circular pelo exército são verdadeiras -, em paletes de madeira, coisa maneirinha, boa de levar às costas. Não sabemos como é possível que numa base onde a chefia sabia que tinha videovigilância, sensores e eletrificação da cerca inoperantes não existiam sentinelas nem rondas eficazes e não tenha havido disso consequências (à exceção de três processos disciplinares a baixas patentes).


Não percebemos como pode haver uma operação fantoche para "recuperar" as armas com acusações cruzadas entre três militares do Exército, um dos quais, Luís Vieira, ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (preso preventivamente) e outro Martins Pereira, o ex chefe de gabinete do ministro e atual adjunto do chefe do Estado-Maior do Exército - e este último, Rovisco Duarte, que todos nomeou e superintende, ficar mudo e quedo como se não fosse nada com ele.


Não percebemos como pode o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro, calar-se ante toda esta fantochada.


Não percebemos como pôde o ministro agora demitido dizer, em setembro de 2017, em entrevista ao DN/TSF um mês antes da "recuperação", esta frase sibilina - "No limite, pode não ter havido furto nenhum. (...) Podemos admitir que o material já não existisse e tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer" -, uma frase em que põe a hipótese de todo o caso ser uma fabricação, uma sabotagem, e portanto um ato de traição perpetrado no seio do Exército, e isso não ter consequências. (…)


(…) Por exemplo o ex-porta-voz da PJM, Vasco Brazão, atualmente em prisão domiciliária, garante que esteve, no fim de 2017, numa reunião com o ex-diretor da PJM e o então chefe de gabinete do ministro, na qual foi entregue um memorando com toda a história da inventona ao chefe de gabinete (com o objetivo, alega, de o ministro retirar a PJ do rasto - mas, ainda que mal pergunte, ao CEME, seu chefe direto, nada teriam dito?). Contraditado quer pelo ex-diretor da PJM quer pelo ex-chefe de gabinete, Brazão diz, segundo o Expresso de ontem, que tem o memorando em causa e que vai dá-lo ao MP para ser analisado em busca de impressões digitais. Portanto o memorando entregue afinal ficou com ele? Já o atual adjunto do CEME certifica ter dado a "documentação verdadeira" ao MP. Ou seja, levou-a consigo quando saiu do ministério? Isto agora é assim, levam-se papéis do governo para casa quando se sai do governo e ainda se tem a lata de confessar?


"Um dia havemos de saber o que cada um sabia sobre esta história de Tancos", disse, um dia antes da demissão de Azeredo, e tão sibilino como o seu ex-ministro, o PM no debate quinzenal. Talvez venhamos a saber, talvez não. Mas já sabemos isto: da desonra o Exército não se livra. E da suspeita de que, como todos antes de si, não sabe como pôr as Forças Armadas e as forças ocultas que nela medram na ordem, o governo não se safa.


 


Fernanda Câncio

10 setembro 2018

Um dia como os outros (186)

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(...) Daí que sejam socializados para existir por direito próprio, para viver o corpo como seu, para olharem em vez de serem olhados, para desejar em vez de serem desejados, para agir em vez de serem "agidos". Ao contrário, as mulheres são-no para depender da apreciação e valorização de outrem, sentindo sempre sobre si, em perpétua vigilância, um olhar que julga. Um olhar enxertado no seu: desde crianças, aprendem a existir como corpo sitiado, expropriado por regras e vontades alheias - que ocupam mas lhes não pertence. (...)


 


Fernanda Câncio

19 agosto 2018

Um dia como os outros (185)

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(...) Já agora, seria oportuno que o sr. Cosgrave esclarecesse quais são esses critérios que definem as fronteiras das escolhas para o palco da Web Summit, uma iniciativa dirigida ao chamado novo empreendedorismo tecnológico e a sociedade digital onde, convenhamos, os propósitos de Le Pen estão manifestamente deslocados. Não se trata de censurar ou não censurar escolhas, mas de considerar o sentido que fazem ou não num determinado contexto. É isso e só isso o que está em causa e não o legítimo direito de Le Pen e outros líderes populistas se exprimirem em todos os fóruns políticos e mediáticos apropriados. (...)


 


Vicente Jorge Silva

15 agosto 2018

Um dia como os outros (184)

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(…) Estas notícias têm mais proximidade aos interesses económicos, históricos e sociológicos dos portugueses do que qualquer tweet inconsequente de Donald Trump.


Estas notícias dizem mais ao coração de centenas de milhares (milhões?) de imigrantes desses países que residem em Portugal, potenciais leitores de órgãos de comunicação social portugueses, do que qualquer manifestação contra imigrantes num país do centro da Europa.


Estas notícias cumprem todas a regras editoriais que o jornalismo determina, porém, inexplicavelmente, nós, jornalistas, ignoramos ou reduzimos a sua importância à expressão mínima. Preferimos debater, com paixão anacrónica, o nome de um museu sobre a formação do império colonial português.


Durante anos colaborei, alegremente, neste virar de costas do jornalismo português ao mundo da lusofonia. Agora sou obrigado a ver como fui tão burro e como é, desculpem, tão burro o jornalismo português.


Pedro Tadeu

Um dia como os outros (183)

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(…) Le Pen não vem a Lisboa no quadro de uma delegação da Assembleia Nacional francesa ou do seu grupo de extrema-direita no Parlamento Europeu, como seria seu direito legal. Vem para a Websummit. Ora, não façamos de conta que a Websummit não é um evento político pago e apoiado por todos nós para promover uma determinada imagem de Portugal. Foi-o quando Fernando Medina mandou pôr cartazes, no dia a seguir à vitória de Trump, dizendo (e bem) que Lisboa era “uma cidade de pontes e não de muros”. Foi-o quando António Costa lá foi falar como primeiro-ministro ou quando Marcelo, como presidente, elogiou o evento. E se-lo-á, de uma maneira ou de outra, tanto se Marine Le Pen lá for falar (no mesmo palco que usou Costa) como se vier entretanto a ser desconvidada. Cabe-nos a nós a escolha de lhe dar palco ou de deixar bem claro que lhe recusamos palco. Não há nenhuma escolha não-política. (…)


(…) Ou então o país que sabe que valores são os seus, e que está pronto para dizer: Le Pen representa o contrário daquilo que Portugal é, o contrário da nossa posição na Europa e no mundo, e não a consideramos bem-vinda num evento apoiado pelo nosso governo para promover o pais que somos e queremos ser.


É simples. Não se trata de limitar a liberdade de alguém a quem não faltam canais (nem rublos) para se exprimir. Trata-se de dar uma mensagem política perante um assunto político. É para isto que os estados têm a prerrogativa de declarar alguém persona non grata(informação útil: mantém-se consagrada no direito europeu relativo à liberdade de circulação). Use-se. Sim, Marine Le Pen fará uma birra. Respondam-lhe que é a soberania nacional.


Rui Tavares

18 junho 2018

Um dia como os outros (182)


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(...) E assim não nos darmos conta de esta ser também uma tragédia nossa. A de termos media que desde 2003 se especializaram nas acusações sem provas, coadjuvados por um cada vez maior grupo de comentadores para quem o Estado de Direito é uma maçada, uma desnecessidade até. A de termos um ministério público que continua a ostentar em alguns casos interpretações romanceadas, canalhas, voyeuristas e preconceituosas de "provas" e chegou agora ao ponto de permitir -- se nada faz para impedir nem punir, permite -- a exibição televisiva de vídeos de interrogatórios. A de termos uma justiça na qual algo como o que fizeram a Paulo Pedroso sucede e que não é capaz de o reparar, de tornar claro que é inadmissível, que tem de haver consequências e que, sobretudo, não pode mais acontecer. O que, claro, quer dizer que não temos justiça. Mas, está visto, não nos faz falta: temos a nossa opinião. Como aquela pessoa que em 2003 me disse: "Já viste que ele não tem barba? Tem mesmo cara de pedófilo."


 


Fernanda Câncio


20 abril 2018

Um dia como os outros (181)

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 João Miguel Tavares escreveu ontem mais uma crónica sobre mim, no Público. Ao seu estilo, não escreveu sobre mim, tentou fazer de mim um degrau. Não me queixo, sou maior. Se ele me quiser levar com ele, para umas migalhas de fama sua, a um gabinete de primeiro-ministro, não deixo. Felizmente, posso, sou maior. E é prudente sê-lo quando se convive com JMT, que tenta fazer dos outros, quem quer que seja, um degrau.


JMT tem um fundo de comércio, José Sócrates, e explora-o até ao tutano. Ontem, fez-me dano colateral. Em escutas feitas a Sócrates, em 2014, em conversa onde não estou, nem falo, nem ouço, e que não soube ter acontecido senão dois anos depois, o ex-primeiro-ministro fala de mim para diretor do DN. Em 2016, alguém publicou essas escutas, deixando pairar a ideia de que eu combinei um cargo com um político. Escrevi, então: "Se calhar são costume essas combinações (com político, com irmão maçon, com correligionário), não sei... Mas não para mim. Nunca quis na minha carreira profissional esta dúvida: sou o que sou graças a mim ou não?" (DN, 22-02-2016).


Nesse texto, eu escrevi também que não queria, nem sabia ser diretor do DN. Assim era em 2014 e 2016, quando ninguém me pôs a questão. Ontem, JMT lembrou o que então escrevi e perguntou: "Há pouco mais de dois anos, Ferreira Fernandes não sabia, nem queria, ser diretor do DN. O que mudou, entretanto, para passar a saber e a querer?" Respondo: "Porque agora os donos do DN me convidaram e porque agora quero." Quanto a saber ser diretor do DN, continuo sem saber se sei.


Contradições e mudanças de vontade, JMT não as entende porque o seu fundo de comércio é uma certezinha que lhe basta e o sustenta. Então, se hoje sou diretor do DN, isso só pode estar relacionado com a sugestão de Sócrates de há quatro anos. E essa certeza é alimentada pela análise que ele faz da minha atuação nos 15 dias e picos desde que sou diretor do DN: sobre o assunto, nada, nem um editorial. Não escrevi sobre Sócrates! Estranho... Aliás, um suspeito comportamento que eu já há muito evidenciava: "Ferreira Fernandes continuou a defender Sócrates já depois da prisão - até que um certo dia se calou, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema", escreveu ontem JMT, deste pau-mandado que sou.


Sócrates foi preso em 22 de novembro de 2014. Dois dias depois, escrevi: "É a data em que um ex-primeiro-ministro foi detido, suspeito de não ter sido honesto com os bens que os portugueses lhe confiaram. Desta vez, a suspeita não foi destilada só em manchetes de pombos-correio, não. Daí a data ser fundamental: tem a marca da Justiça. Se a Justiça o prova, maldito seja o líder que abusou o seu país, os compatriotas e os seus correligionários. Se a Justiça foi irresponsável, pobre diaba que tem de ser refeita de cima a baixo" (DN, 24-11-14).


Três dias depois, escrevi: "[Até à prisão] Calúnias e não processos - contra Sócrates foi o que houve, e só. Agora, temos uma situação nova. Magistrados acusaram e um juiz considerou haver indícios para prosseguir um processo contra Sócrates. A situação nova espevitou a canalhada, por um lado, e, por outro, os cidadãos pró e os cidadãos contra Sócrates. Para com os primeiros, repito o meu desprezo. Dos segundos, pró ou contra, espero o reconhecimento trivialmente democrático: cabe aos juízes julgar" (DN, 27-11-14).


Seis meses passados, escrevi: "De novo, sabemos porque o próprio Sócrates o disse, ele pediu dinheiro a um amigo. Muito dinheiro. Como esse amigo teve vários negócios com o Estado quando Sócrates era governante, é legítimo que a Justiça investigue. (...) Com este caso Sócrates, temos até agora, patenteadas, duas situações graves: a lentidão da Justiça e Sócrates ter mentido. Nada de novo, já conhecemos o mesmo noutras circunstâncias e com outros protagonistas. Mas pode vir a acontecer uma de duas situações bem mais graves: ou a Justiça não conseguir produzir prova, depois do estardalhaço que fez com a detenção, ou um ex-primeiro-ministro ser condenado por corrupção. E, sobretudo, acontece já uma situação iníqua: a Justiça fornece informações inquinadas aos jornais. Também não é novo" (DN, 17-06-15).


No fim do primeiro ano de prisão, escrevi: "Dizia-se que este era o ano em que ou se provava alguma coisa contra o ex-primeiro-ministro ou se provava que certos magistrados foram irresponsáveis. Errado. Essa alternativa, "ou, ou", foi derrotada. Nesta matéria, 2015 não foi adversativo, foi o ano da copulativa "e"! Sócrates suicidou-se como político "e" magistrados desonraram-se como defensores da lei. Cada entrevista de José Sócrates desautorizou-o como político, por causa do tipo de relação, revelado pelas suas próprias palavras, que ele tinha com o dinheiro de um amigo com negócios com o Estado; "e" cada capa dos jornais com fugas de informação desautorizou a investigação. Essa copulativa que os acasalou, Justiça/Sócrates, pariu um manto turvo sobre a sociedade. Note-se, ainda, que não se fala aqui do processo, porque desconhecemos, todos, tudo. Falo das palavras públicas de Sócrates e dos métodos manhosos da investigação. Ambos exemplificando factos lamentáveis, qualquer que seja o desfecho judicial" (DN, 19-12-2015).


E todos os demais textos meus - ao contrário do "calou-se, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema", ontem garantido por JMT - foram pautados pelo mesmo respeito pelos homens e pela justiça. E para mudar de homem (JMT chama-lhe "tema"), cito outro texto meu sobre a indecência de se passar nas tevês, os gestos, a voz e os olhares de um homem a ser filmado nos interrogatórios: "Custo da badalhoquice: uma multa. O que não vale nada para os ladrões de alma", escrevi. E não era sobre a indecência da SIC, esta semana, nem era sobre a Operação Marquês. Era sobre Miguel Macedo, ministro do PSD e vítima do abuso, a quem pedi "desculpa pela parte que me cabe por ser português." Já tremo por JMT desencantar, um dia destes, uma escuta de Miguel Macedo a arranjar-me emprego.


 


Ferreira Fernandes


 


Nota: a crónica de João Miguel Tavares

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