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02 outubro 2022

Velhos hábitos

Já há bastante tempo que não fazia doce de abóbora. Talvez porque já não exista a pessoa que me dava as abóboras, aquela prima afastada que vivia na terra, que me fazia lembrar o tempo da meninice, um tempo vivido noutro século e também por uma outra eu, que não a que agora existe.


Mas este fim de semana voltei ao velho hábito, também porque fui incluída no velho hábito de outras pessoas que distribuem produtos das suas quintas. Tão velho o hábito como a convivência entre seres humanos, que trocam e partilham víveres, experiências e afectos.


Confrontei-me, por isso, com três abóboras, uma gigantesca e as outras duas apenas grandes. Após pesquisa aturada e apurada, concluí que são do tipo Hokkaido, o que é muito interessante, mas não melhorou a dificuldade que tive para as desmanchar.


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Comecei pelas duas mais pequenas. A casca é duríssima, pelo que a enorme faca que escolhi mostrou grande resistência em cooperar, associada à negação da própria e ao desgraçado ombro direito avelhentado e dolorido que é meu companheiro há já alguns meses, tendo transformado uma tarefa de manhã de sábado num treino desajeitado e bastante esforçado, que faria inveja à minha rigorosa PT.


Não sou de desistir, mas desisti após a segunda abóbora pequena, deixando a gigantesca para outros carnavais, pois parece-me que antes do próximo Carnaval não me vai apetecer outra maratona como esta.


Dois quilos de pedacinhos de abóbora mais tarde, depois de várias imprecações e suspiros irritados, lá raspei a casca de 3 limões que espremi, mais 4 paus de canela e 1200 gr de açúcar, branco e amarelo (é preciso adaptarmo-nos às carências inesperadas), numa panelona que deixei em pousio. Depois de uma horas, foi ao lume, onde ficou 1,5 horas.


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Resolvi, sabe Deus porquê, pegar na varinha mágica para transformar em papa o doce de abóbora, que ficou ainda menos parecido com doce, muito menos de abóbora. Após duas ou três provas achei que estava enfarinhado. Decidi repensar o doce e guardei a inspiração para o fim de uma noite bem dormida.


Mas não me senti lá muito inspirada, confesso. Juntei um pouco de água e foi outra vez ao lume. Só que calculei mal o tempo e a intensidade do fogão e fui despertada pelo cheiro a açúcar queimado. Temendo o pior, corri para o lume que desliguei e para o tacho que retirei do fogão.


Mesmo assim ainda queimou um pouco. Mas depois de arrefecido consegui enfrascá-lo, evitando as partes queimadas. Os frascos cheios já foram ao lume para formar vácuo e as provas devolveram-me um gostinho bastante aceitável.


abobora 3.jpg


Nada como estas aventuras culinárias para nos esquecermos, ainda que temporariamente, das eleições brasileiras, do escalar da guerra e do perigo de uma terceira guerra mundial, da crise que se aproxima, das pandemias, dos refugiados, dos emigrantes, da pobreza, da tristeza, enfim, da vivência de cada um e de todos, desta mole humana a que pertenço.


Porque apesar dos sobressaltos do mundo, a vida acontece, muito difícil para a maior parte, mais fácil para muito poucos que, na maior parte dos casos, nem disso se apercebem.

12 dezembro 2021

Arroz de Natal....

frango a fugir.jpg


 


Arroz de frango ou de pato? De peru ou de marisco?


Arroz ou massa? Estrelinhas ou lacinhos? Ou esparguete?


Frango inteiro ou algumas partes? Cozido e desfiado ou guisado e inteiro?


Com legumes ou com chouriço? Com farinheira? Morcela? Ou com ervilhas e milho?


Com tomilho ou com coentros? Com salsa? Com aipo?


Mas que dúvidas existenciais.


Mas que indecisões incomensuráveis.


Mas que insatisfação inexcedível.


 


Inovemos:


Frango desnudo e desfeito, em cama de legumes variados e cogumelos, envolvido por arroz agulha e polvilhado de coentros.


 


Cozer muito bem 2 membros inferiores de frango e 2 peitos, sem peles, em água com sal, pimenta, aipo, cenoura, alho, louro e um pouco de cebola. Reservar o frango e coar a água.


Refogar cebola, alho, pimento vermelho, um pedacinho de gengibre, cogumelos, aipo, couve coração e um pouco de bacon em fatias, com azeite, sal e pimenta. Depois de tudo já bem refogado e ligado, deitar lá para dentro o frango desfiado, arroz agulha e a água de cozer o frango (a água é sempre o dobro do arroz).


Depois do arroz já pronto, polvilhar com coentros (afinal foi salsa) aos bocadinhos.


Servir e comer.

07 novembro 2021

Sopa de tomate com ovo escalfado

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Hoje esteve um dia luminoso, branco e frio. À noite já apetecem sopas, porque nos aquecem e porque são uma forma de fazer um jantar mais leve.


Decidi fazer uma sopa de tomate, com ovo escalfado. Procurei receitas na internet e adaptei à minha moda, muito ao jeito do Henrique Sá Pessoa.



  1. Em vez de usar uma panela decidi-me por um tacho.

  2. Piquei uma cebola grande e 2 dentes de alho, reguei com azeite e juntei 2 folhas de louro. Deixei a refogar até a cebola ficar alourada e mole.

  3. Tirei a pele a 6 tomates de rama, cortei-os em bocadinhos e juntei ao refogado.

  4. Temperei com um pouco de sal, uma pitada de açúcar e pimenta.

  5. Cortei um molho de coentros, peguei num copo de vinho branco e misturei.

  6. Cortei 4 batatinhas pequeninas e deixei um pouco a cozer.

  7. Cobri generosamente com água fria, deixei ferver, rectifiquei os temperos e cobri o tacho, deixando ferver durante 15 minutos.

  8. Cortei um pouco de chouriço aos bocadinhos e juntei à sopa.

  9. Enchi outro tacho com água quente e um pouco de vinagre e deixei ferver.

  10. Deitei 2 ovos para que escalfassem (2 minutos).

  11. Torrei pão.


Enchi os pratos com a sopa, coloquei um ovo em cada prato e acompanhei com o pão torrado.


Uma delícia!

28 fevereiro 2021

Compota de maçãs e laranjas

compota de laranja e maca.jpg


 


Mas enfim, no intervalo de tão maravilhosos e instrutivos programas, dá-me para criar compotas, cujas voltas e reviravoltas acabam por dar sempre no mesmo.


Desta vez juntei 1 Kg de maçã vermelha, já descascada e sem caroços, a 1 Kg de sumo e polpa de laranja e a 1 kg de açúcar amarelo.


Usei o espremedor de citrinos e aproveitei toda aquela polpa que fica ao espremer, pesei tudo até dar 1 Kg - foram 6 laranjas grandes e sumarentas. Deitei para um enorme tacho que só uso nestas ocasiões (já foi o tacho das feijoadas, em alturas de grandes aglomerados de pessoas que gostavam de comer e beber) e fui enchendo com os quartos das maçãs, para que não oxidassem (depois de pesar, claro); só parti aos bocadinhos depois. Para além do açúcar temperei com 4 cravinhos e 4 paus de canela.


Esteve bastante tempo ao lume. Quando começou a ligar reduzi a um puré grosseiro com a varinha mágica, depois de retirar a canela e o cravinho, e voltou ao lume, até fazer ponto de estrada.


Não está nada mal, a sério.

13 dezembro 2020

Da renovação dos clássicos

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Eu hoje decidi que a canja de galinha tinha de ser renovada. Tal como me dizem as jovens que trabalham comigo, com muita pena, eu não consigo fazer a mesma coisa sempre da mesma maneira. É mais forte do que eu. Todas as boas resoluções de uniformidades e pré textos são rapidamente ultrapassadas e sublimadas em inúmeras novas versões de manuais e procedimentos.


Por isso hoje chegou a vez da canja. Não sem antes fazer uma pesquisa internáutica sobre a ancestralidade das receitas, para me inspirar. Mas a verdade é que eram todas mais ou menos unânimes não só nos ingredientes como também na forma de os cozinhar.


Aproveitei a ideia da cebola e da cenoura, que nunca tinha utilizado, mas dando-lhe um toque diferente.


Peguei em 2 chalotas médias e cortei-a em rodelinhas fininhas para dentro da panela. Fiz o mesmo a uma cenoura, juntei um molhinho de coentros, 2 folhas de louro, um fiozinho de azeite e a perna completa do frango (o membro inferior), limpa de peles e gorduras. Coloquei ao lume e deixei amolecer os legumes, com tempero de sal grosso e o sumo de metade de 1 limão.


Depois enchi a panela de água e deixei cozer o frango durante cerca de 1 hora, até a carne largar o osso. Desfiei a carne do frango, retirei as folhas de louro, coloquei massa em cotovelo e cozi 2 ovos à parte.


Mal a massa se aprontou, parti os ovos aos bocadinhos e misturei tudo. Rectifiquei o sal e pronto.


Uma delícia.

06 dezembro 2020

Da demolha e cozedura do bacalhau

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Com ou sem pandemia, o calendário aí está e a noite de Natal aproxima-se a largos passos. É tudo muito estranho pois este ano parece que não passou, que ficou suspenso desde Março e que não sabemos quando vai recomeçar.


Mas tudo continua nas profundezas dos movimentos de rotação da Terra e da órbita à vota do Sol. Portanto convém começar a fazer planos para a Consoada que vai ser uma realidade, independentemente do número de pessoas que pudermos e quisermos juntar.


E do bacalhau não nos escapamos. E como, de vez em quando, resolvo regressar à busca do básico mais básico para uma aprendizagem em etapas, nunca chegando às superiores e voltando ciclicamente às dos patamares, resolvi investigar o problema da demolha do bacalhau e do ainda mais importante tema da cozedura do mesmo.


Está tudo na internet. Depois de assistir a vários tutoriais no YouTube e a descrições mais ou menos exaustivas dos processos (até a DECO tem um artigo sobre este magno problema), cheguei à conclusão que nunca, mas mesmo nunca, cozi o bacalhau como devia. O mistério é ele não se ter queixado, nem nenhum dos comensais.


Vamos por partes: a demolha - não é mais que reidratar o bacalhau, ou seja, restituir-lhe a água que perdeu com a salga (para quem gosta de usar o bacalhau seco e salgado, claro, porque já há bacalhau demolhado e congelado à venda). Deve colocar-se sempre a pele para cima, as postas do bacalhau não devem assentar no fundo do alguidar, onde devem ficar a nadar, para que o sal não se deposite na carne do bicho, a água deve estar fria, sendo substituída frequentemente (não há consenso – nuns sítios dizem de 3 em 3 horas, noutros de 8 em 8 horas). Antes do alguidar deve passar-se o bacalhau por baixo da torneira para retirar de imediato o excesso que está à vista. O tempo da demolha é ditado pelo tipo de bacalhau que se tem.


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Durante este processo o bacalhau deve ser mantido no frigorífico, pois à medida que perde o sal e ganha a água aumenta o risco de se deteriorar. Para se ter a certeza de que está bem, tira-se uma lasca de uma posta e prova-se.


A cozedura foi todo um novo abrir de olhos para segredos culinários, pelo menos para mim, que há anos que como bacalhau cozido com todos nas várias épocas do ano. Pois fiquei a saber que o bacalhau não deve ser fervido. Portanto põe-se um tacho cheio de água ao lume, perfumada (adoro estes preciosismos linguísticos) com um pouco de azeite, louro e alho. Quando a água ferver coloca-se o bacalhau no tacho (com a pele para cima), deixa-se levantar de novo fervura, retira-se o tacho do fogão (desliga-se o lume), tapa-se bem tapado e espera-se 15 minutos.


E pronto, aqui está o resumo da matéria estudada. O momento da verdade será o próximo dia 24 à noite. Eu adoro experimentar coisas quando não devo. É mesmo uma estranha atracção pelo abismo.

14 junho 2020

Do mundo que vai rodando

Hoje decidi que me apetecia cozinhar.


Depois de tantos dias a tentar arrumar coisas que estavam em caixotes e sacos por causa das obras, achei que fazer uma bela compota de alperce e um arroz de peixe era o remédio para o pó, os sacos, os livros e as muitas fotos desorganizadas correspondendo a várias épocas da minha vida.


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Para a compota comprei alperce – uma das frutas da época – limões, laranjas, canela e açúcar amarelo. É fácil de fazer e não dá muito trabalho. Os alperces devem estar sem nódoas (um dos meus filhos, quando era pequeno, achava que as manchas na pele da fruta eram nódoas; nunca mais deixámos de lhes chamar assim), nem demasiado verdes nem demasiado maduros, e é só retirar-lhes os caroços, limpar as nódoas existentes e fatiá-los em fatias fininhas. De 1.800 g de alperce resultaram 1.500 g de fruta aproveitável para a compota. No tacho juntei a casca de 1 limão (só a parte amarela), o sumo de uma laranja, 3 paus de canela e 1.000 g de açúcar amarelo. Misturei tudo muito bem e deixei a marinar durante um bom bocado até que ficasse uma espécie de calda de alperce.


O uso das mãos é libertador e relaxante. Enquanto preparava os alperces para a compota a minha mente vagueava pelos anos que foram passando, a minha primeira casa, os natais, as festas de anos, os casamentos, os baptizados, as vestimentas, os amigos, os meus filhos, de bebés a criancinhas, depois a rapazinhos, adolescentes, jovens e adultos. Perscrutar os seus olhos, os seus sorrisos. Será que fui uma boa mãe? Será que atendi às suas personalidades, aos seus desejos, aos seus medos, às suas necessidades? Será que fui demasiado severa? Muitos dos que me rodeavam assim achavam, tenho a certeza. Será que deixei passar alguma coisa importante, irreversível? Será que foram felizes, que são felizes? Acho que todas as mães carregam consigo culpa, receio e esperança.


E a passagem do tempo nos nossos cabelos, nos nossos corpos, nas nossas roupas, óculos, penteados. As viagens, os locais, os risos, as expressões atentas ou desatentas, instantâneos de disparate ou flagrantes de distracção. Algumas pessoas que desapareceram, outras que vão entrando e ficando. O mundo a rodar e nós, de vez em quando, a darmos conta disso.


Depois de uma a uma hora e meia a marinar, o tacho com os alperces em calda foi para o lume, onde ficou até fazer ponto de estrada. Desliguei o lume, retirei os paus de canela e reduzi tudo a puré com a varinha mágica. Já enfrasquei, já provei e…. está muito bom!


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A seguir coloquei duas boas postas de perca a cozer em água, louro, sal e cominhos, durante 10 minutos (após ferver). Retirei depois as postas para um prato e coei a água da cozedura para usar mais tarde. Piquei uma cebola e dois dentes de alho, cortei dois tomates, um pouco de pimentos verde e vermelho, uns bocadinhos de bacon, coentros, aipo fresco, três cravinhos, dois piripiri e azeite a refogar. Quando começou a secar juntei um pouco de vinho, miolo de camarão e berbigão. Após os pimentos e a cebola amolecidos, juntei duas chávenas de arroz e quatro da água de cozer o peixe. Deixei ferver, baixei o lume e, após cinco minutos de cozedura em lume brando com o tacho tapado, misturei o peixe aos bocadinhos ao qual, entretanto, tinha tirado pele e espinhas. Mais 7 minutos a cozer, e estava pronto.


Também ficou uma perfeição!


Refeição muito agradável encerrando um dia de memórias e interrogações.


 

13 julho 2019

De volta à cozinha

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Ou mais precisamente de volta às receitas, porque tenho habitado a cozinha como de costume, embora não participe muito da confecção dos alimentos e partilhe ainda menos os meus (in)conseguimentos. Mas hoje resolvi experimentar cuscuz. Na verdade foi mais uma miscelânea de legumes com cuscuz.


 


Comprei sêmola de trigo, integral claro, porque como tudo cada vez mais integral, ou não fosse uma matrona a render-se à ditadura da gastronomia saudável, juntamente com treinos múltiplos e a toda a hora. Bem, pelo menos estou uma matrona mais compacta.


 


Mas não nos dispersemos: parti em meias luas fininhas uma cebola média, 2 dentes de alho, uma mistura de legumes para sopa que encontrei no supermercado, já partidos em tiras (couve lombarda, cenoura e alho francês), coentros, cogumelos, um bocadinho de raiz de gengibre, alguns amendoins e 3 ou 4 tâmaras (sem caroço); deitei tudo no wok - cozinha saudável sem wok nem existe - e temperei com um pouco de azeite, sal, pimenta e pó de caril. Deixei suar ao lume, mexendo sempre para não agarrar com um pouco de vinho branco. Ficou rapidamente pronto.


 


À parte coloquei numa tigela grande o cuscuz (50 g por pessoa), azeite (1 colher de chá por pessoa) e água a ferver com sal (60 ml por pessoa). Depois de repousar cerca de 5 minutos, envolvi bem com um garfo e acrescentei mais uma nica de água a ferver, porque ficou muito seco.


 


E pronto, assim ficou um fenomenal jantar - cuscuz com legumes e cogumelos.

17 março 2018

Guacamole

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Sempre achei a palavra guacamole muito divertida – parece um coaxar de uma rã qualquer, até é feito com abacate que é tão verde como esse batráquio. Além disso dá-me a sensação de que não se pode pronunciar guacamole sem gaguejar.


 


Vem tudo isto a propósito da sacada de abacates que, de vez em quando, alguém que se preocupa comigo e me mima muito, me dá para ver se me transformo numa sílfide saudável, o que é bastante difícil, se não mesmo impossível. Mas a esperança é sempre a última a morrer. Hoje dei conta de que os abacates tinham amadurecido e resolvi arriscar um guacamole. Depois de pesquisar receitas, decidi-me a fazer assim:


 


Peguei em 2 abacates e esmaguei-os com um garfo, dentro de uma tigela de vidro, regando com um pouco de sumo de lima, para não oxidarem; cortei 2 tomates médios, nem muito verdes nem muito maduros, descasquei-os, retirei as sementes e cortei-os em pedacinhos pequeninos. Fiz o mesmo com meia cebola (era grande) e esmaguei um enorme dente de alho. Ainda cortei grosseiramente um molhinho de coentros, misturei tudo com a pasta de abacate, reguei com mais um pouco de sumo (o equivalente a meia lima) e temperei com sal (grosso) e um pouco de pimenta. No fim resolvi usar a varinha mágica para ficar tudo um puré.


 


Apesar dos olhos duvidosos com que os comensais cá de casa olharam para mim e para o meu cozinhado, comeram-no bastante bem, depois de o provarem, a medo. Foi um êxito, portanto.


 


E já agora, é de coisas simples que precisamos. Para ouvir uma cantora mexicana já desaparecida - Chavela Vargas - cantando Las simples cosas (penso que a canção é originária da Argentina).


 



 


 


Uno se despide


Insensiblemente de pequeñas cosas


Lo mismo que un árbol


Que en tiempo de otoño se queda sin hojas


Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas


Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón


Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida


Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas


Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso


Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo


Demorate a ti, en la luz solar de este medio día


Donde encontraras con el pan al sol la mesa tendida


Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso


Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo


Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida

28 janeiro 2018

Dos bolos saudáveis e nutritivos

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Outro dia deram-me várias laranjas, tangerinas e abacates, com os seguintes avisos: tudo biológico, natural e sem químicos; as tangerinas muito boas, as laranjas um pouco ácidas e os abacates à espera de amadurecerem.


 


Depois de ter provado as tangerinas, de facto deliciosas, olhei para as laranjas e decidi fazer um bolo, iguaria apreciada cá por casa. Procurei receitas na internet e aí vou eu, de mangas arregaçadas e espírito de exímia pasteleira, acompanhada do ralador e do espremedor de citrinos, confeccionar a iguaria. No entanto, depois de aturadas e apuradas buscas na dispensa, concluí que faltavam alguns ingredientes essenciais: farinha, fermento e açúcar branco.


 


Mas os 5 ovos já estavam numa taça com a raspa e o sumo de 2 laranjas, para além de 1 chávena de chá de óleo. Nada de pânico, disse o grilinho da minha cabeça. Reuni tudo o que podia substituir a farinha, no caso farinha de linhaça dourada, farelo de centeio e coco ralado, os ingredientes que a minha PT acha adequados à minha parca alimentação, e consegui encher as 2 chávenas de chá que se impunham; o açúcar amarelo fez as vezes do branco (também 2 chávenas de chá) e o bicarbonato de sódio (1 colher de café) tomou o lugar do fermento.


 


Podem crer que está muito bom, húmido e peganhento, um monumento à gula, totalmente biológico, nutritivo e saudável!


 


Nota: a azul estão os ingredientes da receita original.


 

13 janeiro 2018

Da bebedeira dos mirtilos

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Como este Natal foi muito intrincado em termos de tempo para arranjar os cabazes, ficando eles bastante áridos e descompostos, a tarefa prolongou-se para o início do ano, tentando correr contra os Reis, e não o conseguindo.


 


Mas como mais vale tarde que nunca, lá se materializaram os licores de folha de figueira e de mirtilos, há cerca de 1 ano a macerar em aguardente. Ficaram muitíssimo bons, de facto. No entanto a abundância de mirtilos criou um problema adicional – a quantidade dos mesmos, enrijecidos pela bebedeira anual, depositados numa panela e sem destino fácil de descortinar. Que fazer?


 


Bom, segundo a prática científica de que nada se perde e tudo se transforma, seria preciso em primeiro lugar rehidratar os mirtilos, o que fiz de imediato cobrindo-os de água com açúcar. Depois de uma noite e um dia nesta sopa doce, resolvi transformá-la em compota: juntei sumo de 3 limas, 4 paus de canela e deixei fazer ponto… que saiu um pouco demasiado. Mas o doce resultou bastante bem, tendo sido rapidamente enviado a terceiros, para que eu não cedesse à melosa tentação.


 


Triste sina a minha


que nem passando fome


fico magrinha.

28 maio 2017

Da gula sem culpa

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Há épocas de estoicismo em que as dietas são seguidas à risca, em que nos sentimos monjas de expiação do pecado da gula, fortalezas de força e vontade, sobrevivendo alegre e arrogantemente sem comer batatas, arroz, massa, pão, queijo, manteiga, doces, deglutindo pequenas quantidades de carnes brancas e peixes pouco gordos (é uma ciência esotérica), fiambre de peru, ovos, manteigas que não são manteigas, litros de sopas com os mais estranhos legumes, cogumelos a rodos, queijo fresco e iogurtes magros e gelatina 10 Kcal, a única guloseima permitida, muito saciante, para além das duas peças de fruta (contando os bagos de uva) e da inevitável garrafa de litro e meio de água.


 


(Confesso que não sei como os franceses não têm todos obesidade mórbida com a quantidade avassaladora de maravilhosos e gordíssimos queijos que comem, devidamente acompanhados por pão branco e vinho. Talvez a minha inveja não tenha sido totalmente visível nos olhares espantados com que os mimoseei, enquanto por lá passeei.)


 


Outras há em que vamos deixando as ervas daninhas das comidas normais entrarem nas nossas refeições, com as consequentes e abruptas alterações na nossa rotunda figura, em que nos debatemos diariamente com a negligência traduzida numa alimentação em que os proibidos hidratos de carbono, ou os líquidos de Baco reentram insidiosamente nos pratos e copos.


 


Este intróito vem a propósito das minhas pesquisas em relação à existência de sobremesas, daquelas fantásticas porque não são doces, com a respectiva concretização e degustação. E eu adoro tartes. Combinando receitas ouvidas pela rádio, do Chefe Avillez, com outros inputs dietéticos e a própria intuição, eis o resultado:


 


Tarte de maçã com canela e gengibre:



  1. Forra-se uma tarteira com 1 folha de massa folhada já feita (compram-se em qualquer super hipermercado), até pode ser uma light (também há);

  2. Acende-se o forno a médio gás

  3. Cortam-se várias maçãs (a quantidade depende da quantidade de recheio com que se quer encher a tarteira), com ou sem pele (eu tirei a pele) em gomos fininhos para dentro de uma frigideira anti aderente, em camadas, alternando com canela em pó, uma pitada de gengibre, também em pó, e uns borrifos de limão;

  4. Pode-se juntar 2 colheres de chá, mal cheias, de mel

  5. Deixa-se amolecer o recheio de maçã ao lume.

  6. Enche-se a tarteira com o preparado anterior

  7. Vai ao forno até assar a massa folhada (cerca de 30 minutos)


 


Tarte de pêra com chocolate



  • Exactamente o mesmo, mas em vez de maçã usa-se pêra.

  • Entre o ponto 6 e 7, rala-se chocolate em barra, preto (70% de cacau) para cima do recheio, como se fosse pó, ou mesmo em lascas


 


Experimentem. Ficam muito boas. Para quem não tem os problemas de rotundidade focados mais acima, junte uma bola de gelado de natas ou de baunilha.

02 abril 2017

Dos doces muito bons porque são pouco doces

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Confesso que se me eriçam os cabelos quando ouço dizer que um doce é muito bom porque é pouco doce. A minha gulodice não aguenta e toda se revolta perante esta heresia. Doce para ser doce tem que ser doce, ter açúcar, melar os dedos, lambuzar a cara, etc.


 


Mas como a luta diária pela bela figura, com a menor rotundidade possível, é feroz, experimentei um doce muito bom porque se açúcar.


 


Natural, dietético, esplendorosamente saudável e doce o suficiente para agradar aos pobres que, como eu, procuram em qualquer alimento um pouco da satisfação redentora das guloseimas.


 


Experimentei com maçã: cortei várias maçãs, umas 6, aos bocadinhos, com casca e tudo, reguei com o sumo de 2 laranjas bem sumarentas, juntei canela em pó generosamente e tâmaras secas (sem caroço), também aos bocadinhos. Depois de a maçã amolecer ao lume, reduzi tudo a puré com a varinha mágica e deixei mais um bocado a fervilhar.


 


Foi um instante. Ficou acastanhada e muito saborosa. Com tostas integrais e chá de rooibos, é uma felicidade!

05 dezembro 2016

Geleia de espumante

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Podem experimentar que é muito bom. Pelo menos eu gosto.


 


Esta foi uma ideia de uma colega minha, que me desafiou a fazer geleia de champanhe. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal mas, numa coincidência engraçada, uns dias depois ofereceram-me geleia de vinho, que é bastante interessante.


 


Como não sou de ignorar um tal desafio, inaugurei a época de confecção natalícia com a dita geleia. Para me inspirar fui à internet ver receitas (está lá tudo). E cumpri (quase) à risca a receita que vi.


 


Cozi um quilo de maçãs cortadas em quartos, com casca mas sem sementes num litro de água, durante 40 minutos (royal gala - que têm bastante teor de pectina). Escorri as maçãs, medi 600 ml do líquido restante e misturei com o sumo de 2 limões, 500 gr de açúcar e uma garrafa de espumante (achei que para experimentação científica bastava).


 


Deixei ferver até que começaram a formar-se muitas bolhas na superfície do cozinhado. Usei o truque de deitar um pouco num prato frio e ver se fazia ponto de estrada, para verificar o ponto. Logo que isso se verificou desliguei o lume – estava pronta.


 


Claro que depois ficou a remanescente maçã em papa, com as cascas. Retirei as cascas e misturei a papa de maçã com uma colher de chá de gengibre em pó, outra colher de chá de canela e um pouco de açúcar. Depois juntei amendoins, sultanas e favas fritas, deitei tudo para um tabuleiro de ir ao forno e deixei a assar (forno médio) durante 20 minutos.


 


Ontem aproveitei também para me desfazer de uma abóbora que carinhosamente me tinham dado (já há algumas semanas) adulando-me indecentemente com os elogios a uma compota de abóbora com chocolate que tinha feito o ano passado. Portanto repeti a dose e já está enfrascada, assim como a geleia de espumante. Começam a compor-se os cabazes de Natal.


 


Para o próximo fim de semana será a vez dos licores.

24 setembro 2016

Pão de banana com alfarroba

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Parece esquisito, não é?


 


Não fui eu que inventei, longe disso, apenas lhe fiz umas adaptações à minha moda. Explico:


 


Encontrei uma receita que me despertou a curiosidade: "Pão" de banana com amêndoas. Já por diversas vezes copiei receitas deste blogue e nunca me arrependi. Além disso explica-as de uma maneira simples, o que facilita a vida para quem não tem lá muito jeito para decifrar os mistérios culinários.


 


Experimentei o dito pão: peguei em 4 bananas que esmaguei sem medo, com um garfo (tal como quando fazia papa de banana com bolacha Maria e sumo de laranja para os meus filhos). Como não tinha farinha de amêndoa, e eu não sou pessoa para me assustar com esses pequenos problemas, arranjei amêndoas (220g), mesmo com casca, apliquei-lhes a máquina 1-2-3 (mais 4 e 5, para ficar bem moída), e bati tudo numa taça, juntamente com 3 ovos, 35g de azeite e 2 colheres de chá de fermento em pó (Royal). Coloquei numa forma de bolo inglês untada com manteiga, e foi ao forno já quente (médio) a cozer durante 30 minutos.


 


Ficou muito bom. Não ficou doce, mas também não era o que se esperava. Tinha o defeito de se esfarelar um pouco.


 


Fiquei a matutar na farinha de amêndoa. E então, já doutrinada pela autêntica fúria saudável da nova geração que me rodeia (no meu serviço a média etária dos médicos é de 50 anos; a de todos os outros elementos - 30 anos), com doutoramentos vários em grãos e farinhas alternativas (muitas vezes não consigo identificar as iguarias que deglutem ao almoço), lembrei-me de substituir a amêndoa por alfarroba.


 


Mas (há sempre um mas), a farinha de alfarroba tem muito menos gordura que a de amêndoa. Ora se eu substituísse a amêndoa pela farinha de alfarroba talvez precisasse de aumentar o azeite, e isso era já muito complicado para mim. Pensei então em substituir metade da amêndoa por farinha de linhaça (é verdade - há mesmo farinha de linhaça) e a outra metade pela tão ansiada farinha de alfarroba.


 


E hoje foi o grande dia - 4 bananas esmagadas (processo semelhante), 110g de farinha de linhaça, 110g de farinha de alfarroba, 3 ovos, 35g de azeite (é o mesmo que 0,5dl), 2 colheres de chá de fermento em pó Royal e meia colher de chá de canela em pó. Cozeu em forma untada com manteiga, em forno médio já aquecido durante 25 minutos. A forma não é tipo bolo inglês porque a minha fada do lar guardou-a tão bem guardada que eu não a consigo encontrar. Foi mesmo para uma forma redonda com buraco.


 


Está uma delícia, com uma consistência parecida com a do pão e com um sabor ligeiramente adocicado. Um lanche diferente, saudável e dietético (fatias fininhas, claro).


 


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25 dezembro 2015

Dos Natais gastronómicos

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De facto o borrego ficou bastante bom. De pernas de peru que não havia, ao cabrito que também já tinha acabado, o almoço do dia de Natal transformou-se em perna e costeleta de borrego assadas no forno. Era mais condicente com almoço pascal, mas não faz mal, o senhor do talho foi bastante persuasivo, defendendo que o borrego era até bastante melhor que o cabrito porque o último é muito mais caro e tem mais ossos.


 


A marinada começou ontem à tarde, após a habitual confecção da aletria e das rabanadas, este ano feitas com pão de forma especial torradas. Ficaram melhores do que com as fatias mais finas, não há qualquer dúvida. O óleo gostou menos e saltou muito mais, mas são problemas menores comparados com a macieza das ditas, polvilhadas e a ensopar de açúcar e canela. As couves também já estavam arranjadas e o grão bem cozido, enquanto as postas de bacalhau (e a cara) esperavam a respectiva vez de serem cozinhadas.


 


Dizia eu que o borrego ficou a marinar em sal, pimentão doce, muito alho, cebola, tomilho, gengibre (eu agora uso gengibre em tudo), louro, margarina, azeite, vinho branco e aguardente. Antes de ir para o merecido descanso nocturno virei a perna e as costelas, para ficar tudo bem embebido. Hoje ficou a assar por duas horas e meia. Acompanhamos com castanhas, assadas ao mesmo tempo e no mesmo tabuleiro, esparregado e salada de tomate.


 


Enfim, vamos agora ficar a sopas de legumes até ao próximo Natal, depois de tanta doçaria - azevias, sonhos, fofos de abóbora, bolo escangalhado e umas maravilhosas filhós que, este ano, sofreram um upgrade aplicacional porque usei a batedeira em vez das mãos - menos tradicional mas muitíssimo mais prático, convenhamos. A revolução industrial serviu para alguma coisa.


 


E vai começar agora a degustação das ofertas recebidas. Devagar, para durar mais...

14 dezembro 2015

Não nos escapamos...

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... ao Natal.


 


Preparemo-nos para sujar as mãos, dobrar papéis, enrolar fitas e usar a imaginação.


 


Este ano, só de licores, há algumas novidades - de caroços de nêsperas(!!!), ideia do Chef Avillez, nas manhãs da comercial, de cereja e de mirtilos (o de romãs só estará pronto lá para Fevereiro). Entretanto, depois da compota de abóbora que é já um clássico tradicional nos nossos Natais, resolvi inovar - bombons de abóbora com amêndoa e cobertura de chocolate. Ficaram muito bons!


 


Receitas:


 



  • os licores são todos feitos mais ou menos da mesma forma: o de caroços de nêsperas é mesmo com os ditos, em aguardente (quanto mais caroços, melhor) durante bastante tempo. Acho que os meus estiveram cerca de 3 meses. Depois é só mistura o xarope de água com açúcar e deixar repousar uns dias antes de consumir. Os de cerejas e mirtilos são iguais, substituindo os caroços pelos frutos.

  • Quanto aos bombons, usa-se a doce de abóbora com gengibre misturada com amêndoa ralada até ficar com consistência própria para moldar umas bolinhas. Depois derrete-se chocolate (culinário, 70% de cacau) no microondas, mexe-se bem e mergulham-se as bolinhas, depositando-as em cima de papel vegetal de cozinha, para secarem. Quando estiverem secas, estão prontos os bombons.


 


Ainda pensei em fazer abóbora cristalizada mas, para já, ainda não fiz e temo que não o farei tão cedo. É que é mais fácil projectar do que realizar.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...