30 setembro 2006

Conversa outonal


Tempo de compotas
de castanhas e chuva.

Cheiro de mosto
de saudades e choro.


Tempo de sussurros
de arrepios e malgas.

Sabor de lágrimas
de amor e segredos.

Tempo de ventania
de mãos e sementes.

Som de tempestades
de corpos e lixo.

Tempo de permeio
de folhas e peregrinos.

Impressão de enganos
de ilusões e rodeio.


À conversa com Ana Luísa

(pintura de Raphael Collazo: friends and relatives)

Os Laços


Mesmo que tudo me faltasse
nunca me faltaria o teu braço
que me apoiasse,
o teu corpo que me vestisse.

Mesmo que tudo me sobrasse
nunca me sobraria o teu espaço
onde poisasse
o resto da alma que resistisse.


(Pintura de Gustav Klimt: o beijo)

29 setembro 2006

O puro e o impuro

O primeiro som devora-o a noite, mas fica para sempre
- por ter sido a primeira das coisas comuns. Aquele
minuto, nunca o repetes. Vagamente o lembrarás mais tarde,
porque é frequente falar-se do mistério da vida. Já o esqueceste

muitas vezes choveu sobre ele e sobre nós, os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre. Chamas-lhe revelação,
ao gesto que abre os braços, o primeiro olhar que se ama
lentamente, nele cabe o silêncio anterior, as coisas que estremecem

só de terem um nome, uma sombra, um modo de adormecer.
A partir daí, do primeiro som, tudo recomeça enquanto o dia
se não curva; repousando, agora, ela perfuma a vida. Haverá outra

maneira de descrever todas as coisas que nascem assim – mas
esta basta, é a mais simples. A mais amada das coisas cede
o seu lugar por esse minuto, esse som, o gesto que abre os braços.


(poema de Francisco José Viegas; escultura de Radu Aftenie: "Father with Child")

28 setembro 2006

Trapalhadas pouco saudáveis

Ninguém se entende sobre o preço dos medicamentos, uns dizem que desceu outros que subiu. O Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos anda MUUUIIITOOO preocupado com a falta de empenhamento ministerial nos genéricos. Parece que, finalmente, as farmácias vão poder funcionar em hospitais 24 em 24 horas. Aleluia, aleluia.

Por outro lado, as taxas moderadoras não são para moderar, são para utilizar, porque assim, como nos explicou um solícito deputado do PS, que até é médico, ele pode aconselhar a cirurgia mas quem decide ser operado… é o doente! Espantoso!

Ou seja, as trapalhadas são mais que muitas mas uma coisa já se percebeu: cada um de nós vai passar a pagar mais pela saúde.

É esse o modelo que o governo vai seguir? Aumentar os impostos indirectos para financiar o SNS?

Debate parlamentar

Não vi a totalidade da discussão da proposta de reforma da segurança social, no parlamento.

Do que vi realço:
  • a arrogância, agressividade e pouco respeito de Sócrates
  • a ignorância, falta de nível, idiotice, falta de preparação e pouco respeito dos deputados da oposição.

Ainda bem que não temos tempo de ver os debates parlamentares! A abstenção eleitoral poderia chegar aos 90%!

Idomeneo


O medo já domina a Europa livre e tolerante. O fanatismo religioso ganha terreno. Felizmente ainda há vozes que não se curvam.

27 setembro 2006

Divertidíssimo

Gostava imenso de ouvir António Carrapatoso e companheiros sobre esta notícia. Gostava de ouvir os comentários dinâmicos, empresariais, esclarecidos, enérgicos, eficazes, mercantis e globalizantes sobre o modo como o Fórum Económico Mundial (FEM) avalia as empresas e os empresários portugueses e a sua contribuição para a má imagem da economia portuguesa.

Aplaudo de pé: O grande contributo que o relatório de Davos pode dar é acabar com a conversa sobre o funcionamento das instituições públicas para começarmos a falar do verdadeiro problema do País, a falta de preparação de gestores e empresários. Só começando por enfrentar a realidade podemos iniciar as correcções. O Estado, afinal, é um falso problema.

25 setembro 2006

Decisões inadiáveis

Estudos sobre a sustentabilidade financeira da Segurança Social, do Serviço Nacional de Saúde, a Reforma da Função Pública, dossiers que todos os governos de todos os partidos evitaram até agora, vão sendo noticiados com mais ou menos pompa.

Estamos na era das decisões difíceis, estamos na época da moda neoliberal, estamos no tempo em que a ideologia se asfixia com o mercado.

Este é o momento deste governo socialista mostrar que são as ideias que comandam o mundo. O dinheiro é importante, não se pode distribuir o que se não tem, mas a forma como se destina e a quem se destina o dinheiro faz a diferença na política. É aos políticos que compete governar, foi para isso que foram eleitos.

Mas a tão falada sociedade civil deve controlar, apreciar, comentar, reivindicar. Os sindicatos têm cada vez mais um papel menos importante na defesa dos interesses dos trabalhadores, porque ainda não perceberam que se transformaram em associações de defesa de privilégios corporativos.

E os trabalhadores necessitam de representantes conscientes das mudanças ao longo destas últimas décadas, que reivindiquem o que é justo e possível, que defendam a qualidade, o mérito e o rigor.

Sou a favor das progressões por mérito, sou a favor das remunerações diferenciadas por desempenho, sou a favor da informatização dos serviços, da formação contínua de todos os profissionais, dos apoios sociais às famílias, às mulheres e aos homens que trabalham e têm filhos e pais e mães a seu cargo, aos solteiros e solteiras, às pessoas.

Não tenho medo que se reforme o que está mal, desorganizado, ineficiente, ineficaz e gastador. Mas as reformas têm que ter em vista os cidadãos, porque os serviços servem para os cidadãos, os impostos são para gastar com os cidadãos, para que vivam melhor, aprendam mais, sejam mais felizes.


Adenda: Já começaram a surgir associações “pró-vida”, de "famílias numerosas", de "biólogos pela natureza", de "médicos pela consciência" e outros que mais ainda surgirão contra a despenalização do aborto. Mas o Ministro da Saúde tem uma necessidade, quase diria patológica, de abrir a boca. Porque é que ele não está calado???

24 setembro 2006

Naturoterapia


Os anos vão secando a pele, transformando-a num mapa em que estão indicados todas as perdas de vitaminas, todos os cigarros, todos os aperitivos, todas as noites mal dormidas, o vento e a chuva e o calor.

As rugas da alma, que ao longo da vida se cruzam e se arredondam, se cravam ou quase desaparecem, estão dependentes de cremosas festas, de hidratantes beijos, de rejuvenescedores abraços, de palavras prenhas de felicidade.

Para manter a alma limpa e sedosa devemos inocular amor, sem avareza nas doses, mas com muita atenção à qualidade!


(pintura de Scott Bennett: soul in wonder)

Último dia




Que seja a preto e branco

o vislumbre do teu corpo

nos contornos da sombra

que desenha por instantes

a luz.

(Fotografia de Hugo Madeira: O Fatalista)

QuartoEspaço: "Fragmentos de Liberdade": Fotografia, Pintura e Video
Armazém nº53, Cais do Ginjal – Almada - Dias 15,16,23 e 24 de Setembro
19h-23h.

23 setembro 2006

Animalidade

Égua tu foras
e sem rédea
e sem trégua
te montara
por trás
em pêlo
pelo gozo que me dás.

Se vaca foras
então
tuas tetas ordenhara
e teu leite
meu deleite
por todo corpo espalhara
em louca avacalhação
de touro de cobrição.

Fosses porca de chiqueiro
e contigo chafurdava
na lama
como na cama
para guardar o teu cheiro
e nem sequer me lavava
para o ter o dia inteiro.
Varrasco me comportava
como poço de carinho
envolvendo-te em toucinho.

Talvez cabra te quisesse
para contigo saltar
e por ti toda esfregar
uma barbicha aparada
de bode que quer e pode.
Disputava-te à marrada
amarrada e bem vendada
e levavas uma esfrega
que nenhuma cabra-cega
ou menos cega imagina…
Questões de lana-caprina!

E se cadela nasceras
cada cio teu atendia
dia e noite
noite e dia
a teu sexo me prendia
e eu ladrava
e gania
sem me importar com a dor.
Podia até
por amor
tirar-te trela e coleira
mesmo que fosses rafeira
desde que fosses fiel…
Amava-te sem quartel!

Até gata te queria
com requebros nos miados.
subia por ti telhados
em noites de lua cheia
servindo-te
volta-e-meia
suculentos linguados
ou outros peixes que tais…
Amava-te nos beirais
pelas noites de janeiro
com requintes naturais
de felino cavalheiro.

Mas tu nasceste mulher
e uma mulher me gerou
homem como sou hoje
e um homem que te quer
num desejo natural
pelo mais belo animal
que Deus ao mundo deitou!

(poema de Pedro Neves; escultura de Auguste Rodin: femme accroupie)

Rascunho


No rascunho diário
em que pernas, olhos e pele
ensaiam a existência,
procurando a perfeição da voz,
a certeza no olhar,
o dedilhar dos receios
com subtileza de sombra,
amarroto as folhas amareladas
deste Setembro.
Sinto-me já crepitante e volátil
e o dia apenas amanheceu.


(Fotografia de Nadezda Koldysheva: Autumn shadows)

22 setembro 2006

Sobre o "Beato"

Subscrevo na íntegra o editorial de Helena Garrido, no DN de hoje. Sóbrio, lúcido, desencantado, certeiro. Vale a pena ler.

Pelas Ruas da amargura

Fernando Ruas e a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) deram, mais uma vez, uma triste imagem do poder autárquico, apostado em manter as regras de endividamento e má gestão, chegando à ameaça de incumprimento das obrigações públicas para que foi eleito.

A redução do défice é uma imposição da administração central e das autarquias e é um imperativo para tentar melhorar o estado da nossa economia. Talvez seja altura de auditar a gestão autárquica e perceber como são gastos os dinheiros dos contribuintes, que devem ser exactamente para as funções que a ANMP ameaçou cortar: educação, saúde, segurança e salubridade.

O espanto indizível de quem ouve as declarações de Fernando Ruas só é ultrapassado pela tentativa de marcha-atrás, protagonizada pelo mesmo Fernando Ruas quando, questionado na TSF sobre a ameaça de cortes de financiamento, deu o dito por não dito afirmando que manteria intactos todos os compromissos com todas as entidades, nomeadamente PSP, GNR, escolas e recolha de lixos.

Triste, triste, tristíssimo.

21 setembro 2006

Instante




Num instante
a tua mão
no abandono
da pele
e do sono.

(pintura de Bruno Epple: la novia feliz)

Prometida irresponsabilidade

Despedir 200.000 funcionários públicos, sem se saber de que sectores, melhorando os serviços públicos, reduzir o IRC para o mais baixo da Europa, liberalizar os despedimentos, privatizar a CP, a ANA, a TAP, a Administração do Porto de Lisboa.

Penso mesmo que os empenhados e dinâmicos empresários estão a ser modestos. Podiam privatizar as praias, os rios, as pontes, as rotundas, depois cobravam portagens. Só nas rotundas, o que não arrecadaria o empresário que exploraria as ditas! O Estado limitava-se a fiscalizar, em todas as rotundas, se era cumprido o código da estrada!

Não sei bem o que faziam a 200.000 desempregados, mais às suas famílias, para aí umas 400.000 almas, mas enfim, talvez decidissem emigrar, visto que aqui não havia trabalho para eles.

Já agora eu incluiria António Carrapatoso nos número dos liberalmente despedidos, após a maravilhosa liberalização da legislação laboral. Não era necessário fundamentar a coisa, mas podia alegar-se a sua enormíssima irresponsabilidade!

Fora de moda

A moda é um espartilho em todas as áreas do comportamento e do pensamento.

Estamos na moda com privatizações, estado gastador, estado paternalista, estado prestador, função reguladora (do estado), competitividade, mercado, distorção, actividade empresarial, alienar, sustentabilidade.

Tantas vezes são repetidas estas palavras e as ideias que lhes estão associadas que se chega a acreditar que outras palavras como solidariedade, comunidade, repartição da riqueza, melhoria da qualidade, serviço público, partilha, distribuição, são conceitos incompatíveis com os dias de hoje.

Eu estou definitivamente fora de moda!

Quebras contratuais


Está tudo muito entusiasmado com o movimento “Compromisso Portugal”. Uns entusiasmam-se a maravilhar-se, outros a denegrir aqueles dignos membros da sociedade civil, nomeadamente António Carrapatoso, que entende que o Estado é muito paternalista.

A TSF buliçosamente reporta o bulício de tantas ideias juntas e de tantos aprendizes de Carrapatoso. Entre eles, não sei se um dos intervenientes ou se um dos observadores atentos, do público anónimo, ao ser entrevistado em directo e ao vivo, pronunciou-se sobre a proposta de reforma da segurança social.

Perorou longa e excitadamente acerca da quebra sistemática do contrato que o Estado fez com os trabalhadores, ao alterar as regras unilateralmente sobre as fórmulas de cálculo das pensões, o que levará, inexoravelmente, à redução das mesmas.

Pensei então que, em vez de ser trabalhadora eu era o Estado, o mau, gastador, pesado, horrífico e inútil Estado.

Este tipo de segurança social é, de facto, um contrato celebrado entre o Estado e os cidadãos. Quando se implementou, há cerca 30 ou 40 anos, a taxa de natalidade era muito superior à de agora, tendo diminuído gradualmente, à medida que aumentava a esperança de vida das populações.

Ou seja, o contrato pressupunha que os cidadãos cumpriam os seus deveres de nascer, trabalhar, reproduzirem-se muito e morrerem 5 anos após o início da reforma, e o Estado cumpria o seu dever de os apoiar na doença, no desemprego e nos anos da reforma.


Será que o Estado pode alegar quebra das cláusulas contratuais, por parte dos cidadãos, pelo facto destes terem menos filhos e viverem mais anos sem trabalhar, usufruindo mais anos (o dobro ou o triplo) da reforma do que aquilo que tinha sido contratualizado?

20 setembro 2006

A decisão do Triunvirato

Já está nomeado outro Procurador-Geral da República (PGR). Sobram casos por resolver, sobra a Casa Pia, sobra o segredo de justiça, sobra o “envelope 9”, sobra o apito dourado, sobra a inconstitucionalidade de Gomes Canotilho!

Ouvi na rádio rasgados elogios a Souto Moura. Provavelmente Souto Moura é tudo aquilo que disseram dele. Mas inequivocamente foi um péssimo PGR.

Novo triunvirato e pacto acordado com a escolha de Fernando José Matos Pinto Monteiro. A tarefa a que se propõe é hercúlea: restituir alguma credibilidade à justiça.

Modere-se, Sr. Ministro!

Pois é, começam a ensaiar-se medidas de aumento dos impostos, mesmo indirectos, para a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Só que não se percebe, mais uma vez, a estratégia, caso ela exista, deste ministro e deste governo.

Como o próprio nome indica, moderar significa conter, regular. O objectivo primário da existência de taxas moderadoras para urgências, consultas e exames complementares, era reduzir ao estritamente necessário as mesmas urgências, consultas e exames complementares. Não sei se resultou.

A criação de taxas moderadoras para os internamentos hospitalares e para as cirurgias de ambulatório não pode moderar nada porque os decisores não são os doentes e porque não me parece lícito pensar que se internam e operam doentes sem necessidade.

Qual é a ideia de Correia de Campos? Não seria mais aconselhável explicar o problema ao país e decidir o que fazer, sem estes subterfúgios infantis e disparatados?

Modere-se, Sr. Ministro!

18 setembro 2006

El Dolor

El dolor no humaniza, no ennoblece,
no nos hace mejores ni nos salva,
nada lo justifica ni lo anula.
El dolor no perdona ni inmuniza,
no fortalece o dulcifica el alma,
no crea nada y nada lo destruye.
El dolor siempre existe y siempre vuelve,
ninguno de sus actos es el último
y todos pueden ser definitivos.
El dolor más horrible siempre puede
ser más intenso aún y ser eterno.
Siempre va acompañado por el miedo
y los dos se alimentan uno a otro.

(poema de Amalia Bautista; escultura de Baca Rossi: dolor)

Espero


Espero como se desenhasse
neste papel virtual
o tempo irreal
do desencontro.

Espero como se lembrasse
os teus olhos
no reflexo dos poemas
por escrever.

Espero como se apagasse
a tua ausência
nos sinais
do desespero.


(Pintura de Janice Edelman: waiting)

17 setembro 2006

História da Religião

Há algumas ideias que comungo com o Padre Anselmo Borges.

Uma escola laica não significa uma escola desligada do fenómeno religioso. Da matriz cultural de qualquer civilização faz parte o seu caldo religioso, o seu pensamento ético e filosófico, as suas lutas fratricidas, os seus momentos de horror, as vergonhas, os heróis, as grandes conquistas, tudo o que contribui para a formação de uma sociedade mais ou menos coesa, na partilha de valores e de regras de convivência.

É absolutamente notável a falta de conhecimento sobre História, Filosofia, Matemática, Ciências, e Religião.

Para a educação na tolerância talvez fizesse mais sentido ensinar que há várias formas de encarar o mundo e a vida, que aquilo em que se acredita depende em grande parte de toda essa matriz fabricada durante séculos, que a vivência do sagrado e do profano não são exclusivas de nenhum povo, e que não há verdades universais.

A laicidade da escola pública é um valor em si mesmo e apenas numa escola que não professa nenhum credo é possível conviver e ensinar TODOS os credos.

16 setembro 2006

Referendo

Tudo indica que, finalmente, temos uma conjuntura favorável para se realizar de novo um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG) até às 10 semanas de gestação: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?.

Gostaria que se clarificasse bem qual a interpretação que vai ser dada a uma afluência inferior a 50%, como aconteceu no primeiro referendo.

Se isso se verificar significa que a população não quer um referendo para decidir essa questão. Ou porque lhe atribui pouca importância, ou porque pensa que não é um assunto a resolver por referendo e sim pela Assembleia da República.

Ao aceitar, mais uma vez, que qualquer afluência é válida para se manter ou mudar uma lei, o país ficará refém, mais uma vez, de uma minoria activa que consegue impor a solução referendária.

É bom que Parlamento e Presidente da República sejam claros. E seria excelente que, ao contrário do que aconteceu nos dois primeiros referendos realizados em Portugal, a população se mobilizasse, não deixando a outros uma decisão que cabe a todos e a cada um de nós.

Liberdade

Tal como me indignei aquando da onda de violência que se seguiu à contestação da publicação das caricaturas sobre Maomé, não posso deixar de me indignar com a nova onda de violência que se está a levantar a propósito do discurso do Papa Bento XVI.

O que está em causa não é concordar ou discordar do que o Papa disse, de considerar que é radical ou não. O que está em causa é a liberdade de seja quem for poder dizer o que lhe apetecer, sem que com isso haja o perigo de desencadear ódios e violências.

Quando se ouvem ou lêem discursos dos líderes religiosos islâmicos, por muito indignados que alguns fiquem, não se vêem manifestações violentas, queimas de bandeiras e de fotografias de Maomé ou outros líderes políticos e religiosos, assaltos a embaixadas e ameaças de fim do mundo.

O valor da liberdade de expressão é tanto mais sagrado quanto menos concordamos com o que se diz.

Solidariedade social

Tal como São José Almeida diz, no seu artigo “Convicções” do Público de hoje (sem link disponível), o debate sobre o modelo do sistema de segurança social não é um debate sobre ninharias técnicas mas sobre conceitos de sociedade e individualismo, sobre solidariedade e redistribuição de riqueza, sobre risco individual e colectivo, sobre o papel do estado na vida dos cidadãos.

Por isso é um debate ideológico, em que o governo tem o direito e o dever de pôr em prática o seu programa, porque para tal foi eleito. Por isso também acho que o Presidente da República, ao tentar forçar um acordo de regime sobre esta matéria, está a interferir na esfera governativa, tentando orientar e condicionar a acção do primeiro-ministro.

Está-lhe no sangue!

15 setembro 2006

Assembleia da República


A Assembleia da República é um órgão de soberania que pretende representar, o mais fielmente possível, a vontade do povo através de eleições livres. Segundo a Constituição:

  • Artigo 148.º (Composição) A Assembleia da República tem o mínimo de cento e oitenta e o máximo de duzentos e trinta Deputados, nos termos da lei eleitoral.
  • Artigo 149.º (Círculos eleitorais) 1. Os Deputados são eleitos por círculos eleitorais geograficamente definidos na lei, a qual pode determinar a existência de círculos plurinominais e uninominais, bem como a respectiva natureza e complementaridade, por forma a assegurar o sistema de representação proporcional e o método da média mais alta de Hondt na conversão dos votos em número de mandatos. 2. O número de Deputados por cada círculo plurinominal do território nacional, exceptuando o círculo nacional, quando exista, é proporcional ao número de cidadãos eleitores nele inscritos.

Para se discutir a redução do número de Deputados na Assembleia, talvez não fosse má ideia redefinir os círculos eleitorais, geograficamente definidos por lei. A distribuição geográfica da população alterou-se bastante nestes 30 anos. Há círculos eleitorais em que o número de Deputados elegíveis deveria diminuir drasticamente, ou mesmo desaparecere, outros em que o número deveria aumentar. Este é o verdadeiro busílis a uma reforma eleitoral: como vão os partidos políticos, reféns de pequenos caciques locais, negociar os votos? A troco de quê? Se para se reorganizarem as maternidades e as escolas há uma autêntica revolta nas autarquias, o que acontecerá caso desapareçam algumas Juntas de Freguesia, ou mesmo alguns Concelhos?

Outro problema é a criação de círculos uninominais. As últimas eleições autárquicas devem ter sido um duche bem gelado para os seus acérrimos defensores, ao verem uma Assembleia cheia de fenómenos do tipo de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais ou Avelino Ferreira Torres.

Não concordo com qualquer alteração que faça desaparecer a representação dos partidos minoritários. A Assembleia deve conter todas as correntes políticas emergentes da sociedade. Até hoje, foram possíveis maiorias absolutas de um só partido com o nosso sistema eleitoral. Por isso o argumento da instabilidade e de apoios parlamentares instáveis não colhe.

Quanto ao poder que a Assembleia tem ou deveria ter, não é o número de Deputados que importa, mas a forma como estes exercem o seu mandato. Demonstrativo da falta de importância que lhe é atribuída, pelo próprio primeiro-ministro, pelo chefe do maior partido da oposição e pelo Presidente da República, é o tão falado e propagandeado pacto da Justiça, que foi negociado totalmente à margem da Assembleia, na ignorância total dos deputados, como se a Assembleia mais não fosse que um adereço barulhento e folclórico, remanescente da bagunça de um pensamento democrático festivo.

14 setembro 2006

Jardim perdido


Palavras comovidas percorrem
todos os caminhos das lágrimas
mesmo que se derretam e evaporem,
para que a navalha do silêncio
corte a cápsula dorida da solidão.


Arrastamos cabelos e serpentes
rasteiras e eternas como o pecado
na melancolia dos jardins perdidos,
para que a mordedura dos sentidos
expulse de novo a escuridão.

(Pintura de Rebecca Campbell: The Garden of Eden)

13 setembro 2006

Nada sabemos

Nada sabemos

Nunca sabremos si los engañados
son los sentidos o los sentimientos,
si viaja el tren o viajan nuestras ganas,
si las ciudades cambian de lugar
o si todas las casas son la misma.
Nunca sabremos si quien nos espera
es quien debe esperarnos, ni tampoco
a quién tenemos que aguardar en medio
del frío de un andén. Nada sabemos.
Avanzamos a tientas y dudamos
si esto que se parece a la alegría
es solo la señal definitiva
de que hemos vuelto a equivocarnos.

(poema de Amália Bautista; pintura de Maria Teresa De Carreño: fotografía sobre cemento)

Dúvidas

Sócrates está em condições de garantir que a despesa pública vai este ano cair em função do PIB - e isso será algo de inédito em 30 anos de História das finanças públicas em Democracia.

Vítor Constâncio admite fazer uma revisão em alta do crescimento económico.

Teixeira dos Santos diz que a revisão do PIB é sinal positivo.

Ouvimos e duvidamos. Estamos tão habituados a que nos avisem dos tempos difíceis, que nos assustem com o défice, que nos castiguem com a crise.

Será que devemos acreditar? Será que é desta que a retoma chega?

12 setembro 2006



Tú, que me diste todo, palabras al silencio,
tacto a mi piel, asombro a mi mirada,
calor y luz y fuerza y esperanza.
Tú, que creíste em mí cuando yo no creía
ni en mí ni en nadie ni en ninguna cosa.
Tú, que me diste más de lo que tienes
y más de lo que puedes. Tú,
que todo me lo diste, me has quitado
mi único patrimonio:
mis ganas de morirme.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Ana Gonzalez Prieto: la procesion del silencio)

Medo do terrorismo global


Não vi a totalidade do programa “Prós e Contras” sobre o terrorismo, com Mário Soares e Pacheco Pereira.

Do que vi, Mário Soares está longe da sua forma. Trémulo, pouco preciso, esquecido, trocando palavras, um pouco surdo, Mário Soares é uma pálida amostra do que já foi.

Mas, concorde-se ou não com ele, Mário Soares tem ideias bem definidas. Acha que Bush e a sua administração têm uma lógica imperial, querendo impor os seus valores ao mundo, apelida Bush de fanático religioso, e ataca a estratégia antiterrorista dos USA, olhando para os resultados. Advoga os princípios do direito internacional e repudia o conceito de guerra preventiva. É claro que as humilhações ao mundo islâmico e o diálogo com Bin Laden, a Al Qaeda e afins parecem-me totalmente descabidas.

Por outro lado Pacheco Pereira, que também tem ideias bem definidas, embora aparente aceitar alguns erros da administração americana, compreende e aplaude o “fazer qualquer coisa”, reagir, atacar, tendo inclusivamente aceite a eventual necessidade de invasão do Irão, explicando o conceito de guerra civilizacional. Para Pacheco Pereira, o direito está desfasado da realidade e destas novas ameaças, pelo que não se incomoda muito com os atropelos dos americanos aos direitos humanos, que eles dizem defender.

Dos representantes da comunidade islâmica, e mais uma vez repito que não vi tudo, um deles defende sem defender a teoria da conspiração, segundo a qual os terroristas tiveram a conivência da administração Bush para perpetrarem os ataques de 11 de Setembro.

De todos, pareceu-me que Helena Matos foi a única que teve uma intervenção interessante e lúcida.

Enfim, Mário Soares está velho e senil. E qual é a desculpa de Pacheco Pereira?

11 setembro 2006

September 9, 2001


Heaven Help Us All

Heaven help the child who never had a home,
Heaven help the girl who walks the street alone
Heaven help the roses if the bombs begin to fall,
Heaven help us all.

Heaven help the black man if he struggles one more day,
Heaven help the white man if he turns his back away,
Heaven help the man who kicks the man who has to crawl,
Heaven help us all.

Heaven help us all, heaven help us all, help us all.
Heaven help us, Lord, hear our call when we call
Oh, yeah!

Heaven help the boy who won't reach twenty-one,
Heaven help the man who gave that boy a gun.
Heaven help the people with their backs against the wall,
Lord, Heaven help us all.

Heaven help us all, heaven help us all, heaven help us all, help us all.
Heaven help us, Lord, hear our call when we call.

Now I lay me down before I go to sleep.
In a troubled world, I pray the Lord to keep, keep hatred from the mighty,
and the mighty from the small,
Heaven help us all.
Oh, oh, oh, yeah!
Heaven help us all.


William Galison: (…) “Stevie Wonder and Joan Baez covered this amazing song in the early 70’s and made a deep impression on my mind. The song asks for compassion for both the victim and the victimizers, from Heaven at least, if not from us. The lyrics are timeless, but I was inspired to write one additional verse after 9/11.” – William Galison & Madeleine Peyroux - Got you in my mind (2003/2004)

onze de Setembro de dois mil e um


Data


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça



(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)

10 setembro 2006

Sándor Márai


“A herança de Eszter” é uma história contada na primeira pessoa, cuja acção decorre em dois planos temporais: o primeiro num dia, o segundo em 20 anos.

Com uma rara elegância de linguagem, mas de uma arguta e melancólica realidade, a narradora discorre sobre os seus pensamentos, que dissecam as fibras sentimentais do desencontro que foi a sua vida, toda ela na esperança de que um dia se realize no entendimento daquele que lhe suspendeu a existência.

É um livro agridoce, muito bem escrito, de uma aparente simplicidade, em que se espelha o intrincado mundo de amores e ódios, coragem e abnegação, mentiras e desespero, que nos deixa presos às páginas e ao mesmo tempo numa leve e funda tristeza.

“As velas ardem até ao fim” tem uma estrutura narrativa semelhante, com poucos diálogos, em que parece estarmos inseridos na cabeça do narrador e, ao transformarmo-nos nele, sentimos e vivemos os seus percursos, lembramos e somos lúcidos depois de uma longa e intemporal auto análise, de examinarmos e reexaminarmos todos os cambiantes do que foi marcante, mesmo que, na altura, não o tenhamos sentido como tal.

Autor húngaro, que se opôs ao nazismo e ao comunismo, deambulou pela Europa e acabou por se fixar nos Estados Unidos, suicidou-se com 89 anos, só e esquecido. Que eu saiba, em português, só estão traduzidos estes dois livros. É pena. Gostaria que houvesse mais.


(Estátua de Sándor Márai em Košice, Slovakia)

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O novo filme de Pedro Almodóvar é, como todos os anteriores, excessivo. Excessivo nas cores, excessivo nas formas, excessivo nas vozes, excessivo nos corpos, excessivo nos planos, excessivo na opulência.

É uma história de mulheres em que mais uma vez se demonstra que há uma sociedade à superfície e que, na profundidade, existe uma realidade com regras femininas, ditadas pelas mulheres mães e pelas mulheres filhas que depois são mães, em que os homens são catalizadores das acções, a causa e a consequência do universo feminino e da forma como ele governa o mundo. Porque a vida é feita de regras que não são impostas, apenas existem. As almas deambulam pela terra à procura da paz eterna, os sentidos são o motor dos destinos traçados, em ciclos contínuos e quase sempre repetitivos.

Mais uma vez somos testemunhas de acontecimentos extremos, contados com as câmaras a amplificarem as palavras, os risos, as lágrimas, os cabelos, as mamas, os rabos, os sapatos, as bocas, as rugas, as pinturas a escorrer pelas caras, os pimentos, o tomate, o sangue, as batas e os lenços e as meias até aos joelhos, o vento, as portadas de madeira, os corpos gordos, velhos, suburbanos, doentes, sem pudor, com a naturalidade e a cumplicidade de quem sabe que a ficção não é mais que uma imagem desbotada da vida.

Não foi o filme de que mais gostei. Mas gostei bastante.

09 setembro 2006

Pacto na Justiça


Não concordo com pactos de regime, acordos alargados ou negociações secretas. Quando voto escolho uma determinada força política que propõe um determinado conjunto de políticas, que eu gostaria de ver implementadas.

E o que foi que esteve mais em negociação? Outros pactos? O nome do Procurador Geral da República?

Que pactos se vão seguir? O da segurança social?

Foram o PS e o Eng. Sócrates mandatados com maioria absoluta para fazer um bloco central?

A quem pedirei contas nas próximas eleições? A José Sócrates (sim, porque o PS não foi tido nem achado), a Marques Mendes ou a Cavaco Silva?

Agendas desconhecidas?


Antes de mais afirmo desde já o meu total repúdio a todas, mesmo a todas, organizações terroristas, independentemente da cor política, do país a que pertençam ou da fé que processem. Afirmo ainda a minha total solidariedade para com Ingrid Betancourt e outros sequestrados como ela, e o desejo de que termine o pesadelo das vítimas e das famílias.

Por todas as estas razões não posso perceber o facto de representantes de uma organização terrorista serem convidados por um partido que se diz democrático, a fazer propaganda das suas acções terroristas num país como o nosso, e acho patéticas e inaceitáveis as justificações do PCP.

Há, no entanto, alguns factos que me deixam algo perplexa:

  • Ingrid Betancourt foi sequestrada pelas FARC a 23 de Fevereiro de 2002;
  • Em Junho de 2002 a União Europeia põe as FARC na lista das organizações que considera terroristas (é óbvio que as FARC são terroristas independentemente da data a partir da qual assim as classifica a União Europeia);
  • Todos os anos a Festa do Avante recebe representações do Partido Comunista Colombiano (2002, 2003, 2004, 2005) e, também, da revista Resistência (pelo menos em 2004) que faz propaganda das FARC.

Parece-me deveras extraordinário que só este ano se tenha descoberto a ligação e apologia que o PCP faz às FARC!

Bem sei que mais vale tarde que nunca, mas não deixa de ser intrigante…

07 setembro 2006

Vem mesmo a propósito

A propósito do último programa "Quadratura do Círculo" vale mesmo, mesmo a pena ler Quadratura da estética, do "Lóbi do Chá" e As férias não lhes fizeram nada bem... do "Herdeiro de Aécio".

Incêndios


Sempre considerei Pacheco Pereira como um indivíduo que, embora pertencente a um partido político, tinha a capacidade de olhar para o cenário político de uma forma independente e intelectualmente honesta.

Tenho que rever em baixa essa minha assumpção. Então após a “Quadratura do Círculo” de ontem, é mesmo obrigatório e urgente que o faça.

De muito se pode acusar este governo, nomeadamente do controlo mediático, da propaganda e do discurso autoritário-e-positivista, possível pela inexistência de oposição credível.

A discussão sobre os incêndios, no dito programa, foi de uma inacreditável demagogia e falta de rigor, como Pacheco Pereira sempre reclama, o rigor.

Então vamos lá ao rigor:

  • Segundo o relatório de 5 de Setembro, da Direcção Geral dos Recursos Florestais (DGRF), entre 1 de Janeiro e 31 de Agosto deste ano, houve 18770 ocorrências (2897 incêndios e 15873 fogachos) o que correspondeu a 57994 ha de área total ardida. Este número corresponde a 19,31% da área ardida em 2005, 29,79% da média da área ardida entre 2001 e 2006 e 91,35% da menor área ardida (2001 – 63483 ha).
  • Ao olharmos para o gráfico do índice de severidade, percebemos que 2006 foi semelhante a 2003.

É claro que é horrível a quantidade de área ardida, é claro que o governo não pode ficar satisfeito e deve tomar medidas para que acabe este flagelo sazonal. Mas não podemos deixar de reconhecer que as medidas implementadas foram importantes e tiveram resultados muitíssimo melhores que os obtidos de há 5 anos para cá! Foi uma vitória de todos os que combatem os incêndios e uma vitória política de António Costa e do governo.


O que não correu nada bem foi a prevenção, a limpeza das matas, por exemplo e, se calhar, deve ser aí que se devem concentrar os esforços e alterar atitudes e comportamentos, do estado e dos privados.

Ao não reconhecerem estes factos, Pacheco Pereira e Lobo Xavier demonstraram quão desesperada está a oposição. E bem à maneira de político chocarreiro, quando percebeu que era melhor largar o assunto incêndios, Pacheco Pereira atacou falando no MIT (importante, sem dúvida) e do passaporte electrónico!

Foi de tal maneira que até consegui concordar com Jorge Coelho!!

Reconsiderar

Por artes mágicas, a Teixeira Duarte está a reconsiderar o tempo de finalização das obras no túnel do Rossio e a REFER está a reconsiderar a rescisão do contrato.

Não deixo de me espantar com tão espantosa redução de tempo – de 2011 para 2007 são… 4 anos!!!

Como é que numa semana se reduz o tempo para a conclusão de obras, em segurança, de 4 para 1 anos? O que é que está mal calculado, o primeiro ou o segundo prazo? E porquê?

A alucinação divina

E se Deus fosse uma alucinação, como os amigos imaginários de algumas crianças, com quem os crentes falam, a quem pedem favores, que responsabilizam pelos duros factos da vida e pela inexplicabilidade do universo?

E se as religiões fossem das maiores responsáveis pelos diverso bloqueios científicos, por atrasos nos desenvolvimentos civilizacionais, nos retrocessos comportamentais, na ausência de felicidade?

“The Root of All Evil?” – A Raíz de Todos os Males? – é um documentário televisivo passado no canal 4 da televisão inglesa, em Janeiro deste ano, da autoria de Richard Dawkins, basead no seu último livro (ainda por publicar) “The God delusion”.

Numa entrevista à revista Salon (a que tive acesso através do Diário Ateísta), explica como, na sua opinião, a inexistência das religiões monoteístas poderia levar à consciência do incrível privilégio que é ter tido a sorte de nascer e de viver, como George Bush e Bin Laden são semelhantes, como a necessidade de acreditar em algo sobrenatural pode ser comparado a uma infecção viral do nosso computador (cérebro).

Muito, muitíssimo interessante.

06 setembro 2006

Pecado original

Na busca incessante
de compreender
o todo, o nada, o instante,
sem vontade e sem crer
que o infindo procurar
é a essência do ser,
nascemos da sede infinita
de alcançar e saber.

(para o Torquato da Luz)

(pintura indiana tribal: árvore da vida)

De menos

De menos

O que fica por dizer
é sempre mais do que se diz.
Ninguém há-de ser feliz
se não souber
que só disse metade
do que tinha na vontade.

O que fica por fazer
é sempre mais do que se faz.
Ninguém há-de ser capaz
de se entender
se pensa que tudo fez
de vez.

O que dizemos ou fazemos
é sempre de menos.

(Torquato da Luz)

Estes Loureiros


O Loureiro é uma árvore (género Laurus, família das Lauraceæ ou lauráceas). É proveniente do Mediterrâneo, podendo atingir 20m de altura. As suas folhas são vistosas, coriáceas e com odor muito característico.

Simplex

Como mãe sou uma privilegiada, pois os meus filhos são independentes e autónomos, poupando-me a filas intermináveis e a estéreis perdas de tempo.

Mas por muito rebeldes que sejamos, há sempre uma altura em que somos engolidos pelo sistema.

Este ano, e por causa da complicadíssima grelha de disciplinas obrigatórias, opcionais, específicas, técnicas e outras denominações que nunca entendi, em várias combinações a serem escolhidas no 10º ano de escolaridade, disponíveis em escolas consoante o número de alunos para cada área e para cada combinação numa mesma área, foi necessário mudar de Escola Secundária.

Pensava eu, na minha santa ingenuidade, rendida e aplaudindo o choque tecnológico, que tudo poderia ser feito da primeira para a segunda escola, por métodos informáticos.

Em Julho e após a saída dos resultados dos exames do 9º ano, abriram as matrículas na 1ª escola. O meu filho, que já sabia tudo sobre opções, escolas e papéis necessários, estendeu-me alguns para assinar (que entretanto ele já tinha preenchido) e, munido das fotografias, fotocópias e originais do boletim de saúde, bilhete de identidade e sei lá que mais, entregou todos os papéis na 1ª escola, onde o informaram que tratariam da transferência do processo e da matrícula para a 2ª. Lógico, pareceu-nos a todos.

Antes de irmos para férias, ainda em Julho, ele desloca-se à 2ª escola onde o informam que o processo ainda não chegou, mas que ele tem que lá ir, acompanhado pelo encarregado de educação, mostrar os originais do bilhete de identidade e do boletim de vacinas, para confirmar a matrícula, e pagar a respectiva propina. Como no dia indicado não estávamos disponíveis, agendaram a excursão para Setembro, às 9:30 horas.

Pontualmente às 9:30 horas no dia determinado plantámo-nos (eu e o rebento) à porta do refeitório da referida escola, onde decorria o processo de confirmação da matrícula. Nas mesas dispostas em 2 filas contínuas, estavam espalhados 4 computadores com as respectivas impressoras. Junto a um computador agrupavam-se 3 professores, que trocavam impressões em voz alta e ligeiramente histérica, sobre processos que não encontravam, referentes a 2 desgraçadas crianças à nossa frente, com os respectivos encarregados de educação.

Sentei-me. Foi-se formando uma fila de jovens, pais e mães atrás de nós.

Às 10:00 horas, depois de muitas andanças dos professores à volta dos computadores que, pelo que percebi, estavam a ser instaladas as impressoras naquele exacto momento, escada a cima escada a baixo à procura de processos que já deveriam ter chegado, apelando alto e bom som para a preciosa ajuda de uma das professoras que parecia ser a única que sabia o que estava a fazer, fomos chamados.

À nossa frente uma professora muito formal e bem-educada, que olhava com ar embasbacado para o computador, teclando no teclado com 2 (talvez 3) dedos hesitantes e medrosos, perguntou-nos o nome (do rapaz), tendo-se levantado de seguida para ir buscar o processo. Ao trazê-lo, e aos papéis de matrícula já entregues em Julho, pede-nos para preenchermos outra vez os papéis todos, enquanto foi também preenchendo uns formulários no computador, já meio preenchidos, e viu os boletins e os bilhetes todos que eram pedidos. Quando se tratou de escolher as disciplinas, descobriu-se que a escola obrigava os alunos a matricularem-se numa disciplina, que não era obrigatória, para depois anularem a matrícula, caso quisessem fazer a outra disciplina a partir do 11º ano! Confuso? Porquê? Há lá coisa mais lógica!

Às 10:45 horas a professora deu-nos um dos papéis para irmos pagar a matrícula à secretaria.

A secretaria, após 4 lanços (ou 8, já nem me lembro) de escadas, estava deserta, ou melhor, com um senhor que aguardava, dizia ele, “que fossem buscar papel”. Uns largos minutos depois aparece uma senhora (outra que não a que tinha ido buscar papel) que ficou muito espantada por eu estar ali a pagar as propinas, pelo que foi telefonar não sei a quem, com a velocidade do caracol (não é preciso dizer que, nesta altura, eu estava que nem uma panela de pressão!).

Felizmente apareceu uma miúda que nos informou que o pagamento era na papelaria, ao lado do refeitório onde decorriam as matrículas.

Tornámos a descer as escadas, e lá encontrámos a papelaria. Quando estendi o papel para pagar, a empregada pediu-me o processo. Qual processo? perguntei eu contendo a fúria; o processo do menino, sem o processo não posso receber! respondeu ela, com ar de evidência.

Explodi, insinuando com muitos maus fígados que estavam a gozar comigo, pois estava há 1 hora e meia a confirmar uma matrícula, ao que a rapariga ficou muito indignada. O meu filho lá foi buscar o processo e já passava das 11 horas quando, finalmente, conseguimos sair da escola.

SIMPLEX? Por muitos choques tecnológicos que o Eng. Sócrates faça, sem alguns choques de inteligência e profissionalismo não há nada a fazer.

O ano das decisivas decisões

De vez em quando podemos orgulhar-nos de qualquer coisa, nomeadamente de sermos um dos países europeus com menor taxa de mortalidade materna e infantil. Não tenho dúvidas que a existência e implementação nas últimas 3 décadas de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi determinante na obtenção destes indicadores.

Segundo o Diário Económico está pronto o relatório sobre a sustentabilidade financeira do SNS. Até Outubro Correia de Campos irá pensar, em Outubro serão divulgadas as conclusões. Mas as conclusões preliminares apontam para um possível aumento de impostos (pelo menos de forma indirecta com a diferenciação das taxas moderadoras), excluindo como possíveis outras soluções (limitação da cobertura do SNS, por exemplo).

Este governo socialista tem nas mãos um dilema: a possibilidade de manter a universalidade do acesso à saúde, na vertente do estado como garante dessa obrigação, assumindo frontalmente a necessidade da limitação do crescimento da despesa, ou proclamar a incapacidade de se sustentar um SNS, incentivando a criação de planos de saúde privados alternativos (seguros de saúde, por exemplo).

Não é fácil para qualquer governo, muito menos para um governo socialista.

Os relatórios com os diagnósticos e as terapêuticas estão na mesa. O que falta agora é uma decisão política. É a ideologia que determina a forma como são distribuídos (ou concentrados) os recursos (neste caso escassos) da comunidade.

A António Arnault devemos a existência de um SNS. A Correia de Campos…

05 setembro 2006

Ética

O Atestado Médico é um documento oficial, que compromete a honra de quem o passa justificando as faltas ao trabalho ou declarando as condições de saúde de uma determinada pessoa.

O facto de se solicitar aos médicos (peritos em avaliar o estado de saúde ou de doença) a avaliação da capacidade ou incapacidade para se prestar um determinado serviço, ou a justificação para faltar ao trabalho por um determinado período de tempo, reconhece implicitamente a relação de confiança da comunidade, ou do estado, com esses profissionais.

Se o médico tem obrigações para os doentes, decorrentes da sua perícia, da sua actividade profissional e da sua ética de conduta, não tem menos obrigações perante a sua comunidade, precisamente pelos mesmos motivos: perícia, actividade profissional e ética de conduta.

A proliferação de solicitações à apresentação dos referidos atestados é enorme e disparatada, facilitadora de uma atitude menos rigorosa (dos doentes e dos médicos). Esta atitude menos exigente mina a relação médico doente, pois o respeito por determinados valores é universal, mesmo que não observados.

Compete a todos os profissionais zelar pela ética na sua profissão, preservando os valores e as atitudes que a dignificam e que são a base da confiança que merecem. Por isso e para isso há que cumprir sempre, penalizando os prevaricadores.

  • CÓDIGO DEONTOLÓGICO
  • Título II - O Médico ao Serviço do Doente
  • Artigo 75.º (Proibição de atestado de complacência)
  • É considerada falta deontológica o facto de o Médico emitir atestados de complacência ou relatórios tendenciosos sobre o estudo de saúde de qualquer pessoa.

04 setembro 2006

Al Cabo

Al cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdade nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazón, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
Al cabo, son poquísimas las cosas
que de verdad importan en la vida:
poder querer a alguien, que nos quieran
y no morir después que nuestros hijos.

(Amalia Bautista)

Mateus - o caso

Este é o caso que vai fazer história, talvez por isto Sócrates caia em desgraça, ou então continua em graça, porque tem muito mais graça o CASO MATEUS. Por pouco engraçado que seja.

Com graça e muito mais, o post de A. Teixeira sobre casos tão desgraçados como este.

03 setembro 2006

Pa(c)tos em marcha


Não há memória de rentrée política sem sugestões de pactos de regime, ou acordos entre governo e oposição. Desde a justiça, à economia, saúde e educação, já se propuseram acordos e pactos alargadíssimos e importantíssimos, sem os quais nenhuma reforma será possível!

Outro must são as marchas, corridas, maratonas, passeios e caminhadas em prol de qualquer grande e generosa ideia: o Bloco de Esquerda, que parece já ter perdido a capacidade de encantar os media, está a marchar pelo emprego! Talvez melhore as perspectivas de trabalho temporário dos massagistas e praticantes de podologia...

A falta de imaginação e de ideias a sério é confrangedora.

No entretanto, o PS prepara-se para desertificar tudo o que está à volta de Sócrates, reforçando o poder unipessoal e moldando o partido à sua imagem e semelhança, com os costumeiros yes-men, como Vitalino Canas, Pedro Silva Pereira e a inevitável inteligência parda de António Vitorino.

Luar


Em noites de solidão e cio
desenho ombros
húmidos de suor e estio,
com seda e escombros
derretemos lua e vazio.

(Pintura de Bernard Hoyes: moonlight spiritual)

02 setembro 2006

Irrelevâncias

Sempre me intrigaram os critérios editoriais dos jornais, muito pelo que escolhem ser notícia, mas também pela unanimidade e homogeneidade dessas escolhas.

Habitualmente no Diário de Notícias e no Público as notícias de capa são as mesmas, os desenvolvimentos semelhantes, enfim, a globalização até já globalizou as cabeças dos jornalistas. Hoje, para meu espanto, nos dois jornais, exactamente com a mesma fotografia, ocupando uma página inteira, um artigo sobre a demanda, pelos incontáveis herdeiros, da herança milionária de um comerciante de nome Manuel Vicente D'Anunciação, que morreu em 1899!!!

É de inquestionável importância a existência, ou não, da fortuna, dos herdeiros, verdadeiros ou falsos, da batalha judicial entre portugueses, brasileiros e ingleses, justificando-se plenamente o espaço e a relevância que dois matutinos de grande tiragem, com fama de seriedade, lhe dedicam.

Muitíssimo menos importante é o facto, noticiado há dois dias e nunca mais mencionado (dada a frivolidade e superficialidade do mesmo, quase a roçar o brejeiro ou mesmo o pornográfico, justificando plenamente a ausência de interesse jornalístico) de a REFER ter anunciado a intenção de rescindir o contrato com a Teixeira Duarte, na sequência do pedido, pela mesma, de prorrogação do prazo de finalização da reabilitação do túnel do Rossio para… 2011!!!

É claro que é uma infeliz coincidência ser a mesma Teixeira Duarte a fazer as obras do metro do Terreiro do Paço!

É claro que são de uma clareza virginal os critérios editoriais que resultam no esquecimento deste assunto irrelevante, nos media e também na blogosfera (com honrosas excepções).

O silêncio é de ouro!

Em que ficamos?


O governo socialista de Sócrates usa a comunicação social como caixa de ressonância distorcida dos seus objectivos políticos. Não está em causa se os fins são ou não meritórios. O que questiono são os meios.

Ao contrário da transparência que se exige numa democracia, com ou sem maioria absoluta, este governo ensaia as intenções reformistas deixando escapar para os jornais reflexões ingénuas, absurdas ou populistas, para assustar as corporações e conquistar a restante população.

Declaro desde já que sou militantemente a favor de reformas, que esperançosamente aguardo alterações de fundo em vários sectores profissionais, que os serviços públicos são para servir todos os cidadãos e não para resolver problemas de emprego aos seus funcionários. A saúde, a educação e a justiça são exemplos de sectores em que a necessidade de romper com o imobilismo, de alterar atitudes e rever os objectivos é urgentíssima. São também sectores em que se espera grande oposição corporativa, muitas vezes desleal e estapafúrdia.

Em maior ou menor grau, a sociedade anseia por alterações no seu modo de vida, às vezes pelo pior motivo, que é o desalento. Por outro lado o governo tem uma maioria absoluta parlamentar e uma oposição totalmente frívola, bacoca e agónica.

Por tudo isto parece-me totalmente desnecessário e de muito mau agoiro o jeito boateiro do governo, praticado por todos os ministros. Em relação às propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares, às quais já me referi, e andando calmamente pela blogosfera, li um artigo de Correia de Campos, num site do Ministério da Saúde, em que não fala de perda da exclusividade (regime laboral que obriga a trabalhar apenas para uma entidade empregadora, neste caso o Ministério da Saúde) mas em que afirma ter enviado as referidas propostas aos sindicatos. Li notícias na imprensa e em blogues dando já como certa a alteração do regime de exclusividade e o início da negociação com os sindicatos. Mas o Sindicato Independente dos Médicos (Jornal virtual - Negociações ou Alzheimer? - de 25/08) assegura que não foi convocado nem recebeu nenhuma proposta para negociar.

Em que ficamos? Não havia necessidade…


(pintura de Johanna Leipold: Pinocchio)

Involuir


  • Ciência – scientia - conhecimento rigoroso e racional de qualquer assunto; conjunto organizado de conhecimentos baseados em relações objectivas verificáveis e dotadas de valor umiversal.
  • Crença – credentia - fé; lei religiosa; convicção.
  • Religião – religione - doutrina; sistema religioso; crença na existência de uma ou mais forças sobrenaturais.
  • Criacionismo – s. m., Filos., Teol. - teoria ou sistema que sustenta terem sido as espécies animais e vegetais criadas de forma distinta e permanecerem invariáveis (este sistema é oposto ao transformismo); no sentido metafísico e cosmológico, o termo criacionismo designa a concepção segundo a qual Deus produziu o Mundo do nada; no sentido psicológico, aplica-se à doutrina, adoptada pela Igreja Católica, que afirma que a alma de cada pessoa é criada por Deus e infundida no corpo, seja no momento da concepção, seja no estado embrionário do corpo.
  • Evolucionismo - s. m. - teoria que defende a existência de uma evolução das espécies das mais simples para as mais complexas, ao longo dos períodos geológicos; Filos. - concepção filosófica que explica a formação e o desenvolvimento do mundo físico e das espécies vivas, da consciência e da sociedade humana, por um processo de evolução contínua; transformismo.

Para além da política, o fundamentalismo vai passar a reger o conhecimento. Mais perigoso que o terrorismo islâmico é o terrorismo da ignorância e a ditadura da fé.

O método científico veio trazer liberdade e criatividade, veio trazer a liberdade de pensar, experimentar, demonstrar.

Esta é uma verdadeira ameaça à nossa concepção de sociedade livre, tolerante e ousada.

Será que nos espera outra Idade Média?

01 setembro 2006

Beslan


Secos os olhos sem lágrimas
secas as mãos vazias
secos os pátios mudos
secas as flores de cinza
secas as pedras feridas
secos de sangue e amor.

(monumento às crianças de Beslan: a árvore da tristeza)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...