30 junho 2015

Mar me quer

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 Mia Couto


Natália Luíza


Alberto Magassela, Cucha Carvalheiro, Daniel Martinho


Marta Carreiras


Rodrigo Leão


Miguel Seabra


 


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 Teatro Meridional


Rua do Açúcar, 64 Beco da Mitra


Poço do Bispo 1950 - 009 Lisboa 


(GPS: 38.737780,-9.103514)


(+351) 91 999 12 13


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28 junho 2015

Um dia como os outros (160)

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 (...) Mesmo moderando a linguagem, e como aconteceu há 75 anos no caso do colaboracionismo com a Alemanha, fica-nos a sensação que entre os parlamentares socialistas europeus, anda tudo a apanhar bonés na atitude comum a adoptar por eles em relação à crise grega. Ainda muito recentemente, Martin Schultz, o presidente do parlamento europeu e também a cara mais conhecida desse socialismo europeu deixou-se apanhar numa troca de galhardetes com um eurodeputado grego do Syriza com ar de avozinho (acima), de onde só pôde sair mal na fotografia. Mas, para quem pense que a outra esquerda, a comunista (dialéctica), mostrar-se-á mais lúcida na estratégia e nos princípios políticos em discussão, pode desiludir-se acompanhando o comportamento do Partido Comunista Grego (KKE) que num dia convoca uma manifestação contra a austeridade para a frente do Parlamento grego para, no dia seguinte, e lá dentro, votar contra a proposta de realização de um referendo a esse respeito. Isto deixa o caminho aberto para quem, opondo-se ao projecto dito europeu por muito que não gostemos de os ouvir, tem discursos (aparentemente) consistentes a esse respeito – caso da Frente Nacional francesa de Marine Le Pen. O que, por sua vez, torna, finalmente, ainda mais patética a conduta dos descendentes dos parlamentares da esquerda de 10 de Julho de 1940, personalizados na figura de um Manuel Valls que apela ao governo grego para regressar às negociações (abaixo). Numa confrontação em que não sabe muito bem o que há-de fazer, Valls não recolhe autoridade para apelar seja ao que for e faz uma triste figura de si a apanhar bonés por ser socialista mas também a apanhar ainda mais bonés por ser francês.


 


A.Teixeira

27 junho 2015

O indizível susto da democracia (2)

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De novo, a Grécia quer que a escolha do povo decida o seu destino. De novo há um Primeiro-ministro grego que, perante a impossibilidade de cumprir o mandato para o qual se comprometeu, quer perguntar aos cidadãos se aceitam ou recusam a proposta que a Europa lhes está a impor.


 


Não tenhamos dúvidas - esta não é uma Europa democrática. Esta é uma Europa que pretende manter a todo o custo a direita conservadora no poder, fazendo letra morta de conceitos tão nobres como solidariedade, liberdade e democracia, ideias fundadoras da União Europeia (vale a pena ler Pacheco Pereira no Público).


 


A nobreza não paga dívidas e a democracia deixou de ser um valor para passar a radicalismo extremista. Foi assim classificada a escolha eleitoral do Syriza, são assim rotulados os Ministros gregos, é por isso que a direita impõe as escolhas políticas internas para uma suposta ajuda internacional.


 


Pela postura de Passos Coelho e de Cavaco Silva, Portugal coloca-se do lado antidemocrático. Admiro Tsipras e Varoufakis e o seu radicalismo que se revela no respeito pela dignidade do seu País, pela convicção de que é a vontade do povo que prevalece e que o governo pertence a cada um dos países soberanos que fazem parte desta caricatura em que se transformou a Europa.

21 junho 2015

Dos donos disto tudo

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Não há opiniões nem estados de alma do FMI, do BCE ou do Eurogrupo que não sejam gritadas nas primeiras páginas dos jornais, em todas as televisões, partilhadas nas redes sociais. Mas há conferências e discursos que, não fossem alguns blogues atentos, não chegariam a ninguém.


 


Manipulação informativa total e programada. O que é importante é insistir na radicalidade do Syriza ou seja, da irresponsabilidade do povo grego que teve a ousadia de escolher o governo errado, segundo a ideologia dos donos disto tudo.


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20 junho 2015

História nacional da infâmia

MP investiga ligações de Sócrates a resort de luxo


Sábado - 8 Junho/2015


 


Vale do Lobo não foi alterado desde Cavaco e Barroso


Expresso - 20 Junho/2015

Do PS como partido da esquerda democrática

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A realidade crua do nosso leque partidário e, portanto, das nossas opções de voto, mantém-se a mesma desde 1975. Se tivermos a paciência de revermos o celebérrimo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal antes do 25 de Novembro, podemos apreciar que a escolha principal e mais importante que se colocava aos líderes políticos (e aos eleitores) nessa altura era entre um regime democrático e um regime não democrático



Mário Soares soube estar à altura das circunstâncias opondo-se frontalmente ao totalitarismo crescente protagonizado e/ou apadrinhado pelo PCP que, apesar das eleições em 25 de Abril de 1975, pensava poder ganhar o poder com a sua vanguarda revolucionária. Por muito que, posteriormente, possamos gostar ou não da forma como Mário Soares conduziu a sua acção e vida políticas, a ele devemos essa esperança, essa força e essa capacidade de mobilizar o povo, não permitindo uma nova ditadura. 



Os discursos que hoje ouvimos a Jerónimo de Sousa são quase exactamente iguais aos de Álvaro Cunhal. Ninguém poderá dizer que o PCP não honra a sua memória e a sua coerência políticas - é o mesmo desde essa altura. Em todos estes anos o PCP acha que o PS é igual ao PSD e ao CDS, partilhando a mesma ideologia e a mesma prática política, palavras repetidas ao longo de todos estes anos, depois de tudo o que se foi passando no País, do 25 de Novembro à entra na CEE, dos governos da AD ao do PS. A todos o PCP apelida de direita reaccionária, que combate violentamente os trabalhadores



O PCP terá um lugar na História como o partido que conseguiu cristalizar no tempo e que se manteve irredutível defendendo uma sociedade inexistente, cujos exemplos que cita foram ferozes regimes ditatoriais que, entretanto e felizmente, se desfizeram.


 


Por isso não vale a pena estarmos a pensar que, em Portugal, no século XXI, 40 anos após o 25 de Abril, mais de 20 anos após a queda do muro de Berlim, no meio da espiral recessiva e da crise da União Europeia, do afundamento daquilo a que nos habituámos a considerar o paradigma de uma sociedade decente, que defende e apoia a igualdade de oportunidades, que redistribui a riqueza e apoia os cidadãos, considerando-os a todos merecedores da mesma felicidade, não é possível uma aliança política à esquerda.


 


O PS confronta-se, mais uma vez, com a impossibilidade de poder contar com outras formações partidárias para partilhar a responsabilidade do poder. Uma coligação à esquerda é contra natura pois o PS é, sobretudo e acima de tudo, o partido da esquerda democrática. E isso É a diferença.


 


Mas há outros ensinamentos que Mário Soares nos pode dar. A sua coragem e clareza políticas, a sua capacidade de perceber as prioridades num período perigoso, delicado e de grande confusão, em que o menor pretexto poderia desencadear violência e golpes ditatoriais, de esquerda e de direita. É isso que se pede ao PS de hoje, em circunstâncias muito diferentes mas que são, igualmente, delicadas e de grande confusão.


 


A Europa pode estilhaçar-se sob uma coligação de gente que se esqueceu qual o objectivo do exercício do poder, se esqueceu que a economia deve estar ao serviço das populações. As Instituições Democráticas são olhadas com distanciamento e desesperança - o desemprego, a pobreza, as hordas de descontentes e de emigrados, a falta de perspectivas de futuro, o sentimento de insegurança e de impunidade, a judicalização da política, o novo poder fiscal absoluto, tudo contribui para que a sociedade se deslace e desagregue.


 


Vale a pena rever o longo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal - precisamos de refrescamento de prioridades e de separar o que é essencial do acessório - o PS é o partido da liberdade e da democracia. Tem que mostrar que é o partido da coragem e do desafio, sem medo de enfrentar os fantasmas do seu passado, sem medo de enfrentar a massificação da calúnia, a inversão dos valores do Estado de Direito. Não pode esconder-se atrás de dos calculismos e equilibrismos na contagem das espingardas e no assegurar de votos seguros. Há mais de 25% de indecisos nas sondagens que vão sendo publicadas. Esses 25% de pessoas esperam a clarificação dos cenários para o futuro: confiar nas Instituições, ter alguém à frente do governo que saiba defendê-los, que seja digno, que mostre que a Justiça, a Liberdade e a Democracia são, ainda, os valores da nossa sociedade.


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19 junho 2015

Com fúria e raiva (*)

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A ideia de que em Portugal só passamos a ter emigração com esta crise é falsa


É falso que tenhamos tido mais emigração que noutros países


Passos Coelho


 


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 As pessoas de rendimentos mais baixos não foram afectadas por cortes nenhuns


Passos Coelho


 


(via Câmara Corporativa)


(*) poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Do penosa e incessante luta

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Da irrealidade da vida adulta

Importante é retomar o diálogo com adultos na sala


Christine Lagarde


 


Não foi por intenção, [mas por ] falta de experiência. (...) foram cometidos erros de natureza diplomática bastante fortes por parte das autoridades gregas (...) há um modo de negociar, há uma linguagem da negociação


Aníbal Cavaco Silva

Um dia como os outros (159)

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(...) Muito se disse e escreveu acerca do nosso "recuo" na reforma do mercado de trabalho e quanto à nossa determinação para reintroduzir a proteção dos trabalhadores assalariados através da negociação coletiva. Será isto uma fixação de esquerda nossa que faz perigar a eficiência? Não, colegas, não é. Veja-se por exemplo a provação dos jovens trabalhadores em várias cadeias de lojas que são despedidos quando se avizinha o seu 24º aniversário, para que os empregadores possam contratar funcionários mais jovens e assim evitar pagar-lhes o salário mínimo normal que é inferior para empregados menores de 24 anos. Ou vejam o caso dos empregados que são contratados em part time por 300 euros ao mês, mas são obrigados a trabalhar a tempo inteiro e são ameaçados com a dispensa se se queixarem. Sem contratação coletiva, estes abusos abundam com efeitos nefastos na concorrência (uma vez que os patrões decentes competem em desvantagem com os que não têm escrúpulos), mas também com efeitos negativos nos fundos de pensões e na receita pública. Alguém seriamente pensa que a introdução de uma negociação laboral bem concebida, em colaboração com a OIT e a OCDE, constitui "reversão das reformas", um exemplo de "recuo"? (...)


 


(...) O nosso alegado recuo na "reforma das pensões" é que suspendemos a ulterior redução das pensões que já perderam 40% do seu valor, enquanto os preços dos bens e serviços de que os pensionistas precisam, isto é, medicamentos, mal foram alterados. Considerem este facto relativamente desconhecido: cerca de um milhão de famílias gregas sobrevive hoje à custa da magra pensão de um avô ou de uma avó, dado que o resto da família está desempregada num país onde apenas 9% dos desempregados recebem qualquer subsídio de desemprego. Cortar essa única, solitária pensão corresponde a lançar uma família nas ruas. (...)


 


(...) Imaginem o seguinte acordo em três partes a anunciar nos próximos poucos dias: 


Parte 1: Reformas profundas, incluindo o plafonamento do défice que já mencionei.


Parte 2: Racionalização do calendário de pagamentos da dívida grega segundo as seguintes linhas. Primeiro, para efetuar uma RECOMPRA DA DÍVIDA, a Grécia pede um novo empréstimo ao ESM, depois compra as obrigações ao BCE e retira-as. Para renegociar este novo empréstimo, concordamos que a agenda de reformas profundas é a condição comum para completar com êxito o atual programa e para assegurar o novo acordo ESM que entra em prática imediatamente depois e corre em concorrência com o continuado programa FMI até ao final de 2016. Os fundos a curto prazo assentes no cumprimento do programa corrente e no financiamento a longo prazo é completado com o retorno dos lucros SMP, ascendendo a 9 mil dos restantes 27 mil milhões, que vão para uma conta usada para satisfazer os pagamentos da Grécia ao FMI. 


Parte 3: Um programa de investimentos que impulsione a economia grega, fundado no Plano Juncker, o Banco de Investimento Europeu - com quem já estamos em conversações - o EBRD e outros parceiros que serão convidados a participar também em ligação com o nosso programa de privatizações e o estabelecimento de um banco de desenvolvimento que procure desenvolver, reformar e colateralizar bens públicos, incluindo propriedades imobiliárias. (...)


 


(...) O nosso governo está de pé, com ideias e com a determinação de cultivar as duas formas de confiança necessárias para pôr fim ao drama grego: a vossa confiança em nós e a confiança do nosso povo na capacidade da Europa para produzir políticas que joguem a seu favor e não contra ele.


 


Varoufakis

14 junho 2015

Não há fome que não dê em fartura (4)

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 Irrevogabilidade desavergonhada:


Os técnicos do FMI têm certa saudade da autoridade que já cá tiveram


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Por uma justiça decente

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 Alfredo Ceschiatti 


 


Tenho tentado estar o mais possível distante do assunto Sócrates. Mas por muito trabalho que tenha, por muito que mude de canal sempre que começam as notícias, por muitas séries policiais soporíferas e ansiolíticas que veja, Sócrates é servido em bolus pelos media, sempre que é necessário distrair o País da direita que nos desgoverna ou desviar as atenções da alternativa que o PS protagoniza.


 


Muitos têm uma opinião sobre a culpabilidade de Sócrates, por preconceito puro e simples e pelas razões opostas: a hipótese de ser um criminoso é uma verdade inquestionável para uns, enquanto a sua inocência é um dogma para outros. Mas há ainda um grupo de gente que, apesar da campanha negra que continuamente é feita contra Sócrates, com a conivência, se não com a ajuda do Ministério Público, tentam esperar pelo julgamento e pela produção das provas para concluir, ou esperam que as provas e o julgamento demonstrem aquilo em que, no íntimo acreditam.


 


Mas quando se quer fazer crer que este é um caso de justiça e não um caso de política está a prestar-se um péssimo serviço à Justiça, ao País e à Democracia. O processo que envolve José Sócrates, a ser verdade o que já foi tornado público, nomeadamente que está em investigação há 3 anos, e que vai de caso em caso, de empresa em empresa, de País em País, de conta bancária em conta bancária, torna o Processo Marquês num enorme embuste e numa caricatura daquilo que deve ser um Estado de Direito.


 


Felizmente começam a aparecer várias pessoas insuspeitas de serem seus amigos, admiradores ou camaradas de partido, que se mostram chocadas e apreensivas com o estado da Justiça. Mas é preciso não esquecer que alguns dos que agora se indignam forma responsáveis pelo clima de ódio criado em torno da figura de José Sócrates, pois participaram na campanha de ataque ao seu caracter e ao vilipêndio de todos quantos se atreviam a concordar com as suas políticas. Não me esqueço de pessoas com responsabilidade como Pacheco Pereira, que publicamente decretava sociedades maléficas atrás dos blogues que continham pessoas simpatizantes com a política de Sócrates, que fez eco do caso das escutas de Belém, ou da asfixia democrática, que permanentemente colaborou na intoxicação da opinião pública contra o ex-Primeiro-ministro.


 


Todo este episódio da alteração da medida de coação aplicada a Sócrates é verdadeiramente extraordinário: qual a alteração no processo levou a que a acusação propusesse esta alteração? Como é possível continuar a sustentar que haja perigo de fuga e/ ou de perturbação da investigação? Como é possível que não se reaja oficialmente à obscenidade da publicação das transcrições do interrogatório a Sócrates imediatamente a seguir à sua recusa em aceitar a prisão domiciliária nas condições propostas? Como é possível continuar a manter uma prisão preventiva ao fim de 3 anos de investigação que não resultaram ainda em qualquer acusação?


 


Não é possível continuar a ignorar o contexto obviamente político de todo este caso. Vale a pena, mesmo salvaguardando todas as diferenças, ver o que se passou com o caso Strauss-Kahn.  Temos o direito e o dever de questionar este caso e esta forma de administrar a Justiça. Nenhum de nós está a salvo num País em que os direitos dos cidadãos são ignorados e atropelados pelas espadas do justicialismo e pela substituição do poder político pelo poder judicial.


 


Por muito que António Costa queira despoluir o debate político, ele está há muito contaminado pelas questões judiciais. Começa a ser ensurdecedor o silêncio do líder do PS. Por muito delicada e sensível que seja esta questão, o problema não está especificamente na pessoa de José Sócrates. O problema somos nós todos, no dia em que tivermos a infelicidade de estarmos envolvidos em qualquer tipo de processo judicial.


 


Este é um dos fundamentos de uma sociedade digna, que respeita os cidadãos. A confiança na Justiça é fulcral para a vivência em comunidade e para a democracia. Precisamos de políticos corajosos e que saibam destrinçar entre o prioritário e o acessório, que não tenham receio de afrontar as opiniões públicas, que mostrem as suas ideias e os seus valores.


 


Nota: vale a pena ler: Pedro Marques Lopes, Miguel Sousa TavaresFernanda CâncioLeonel Moura.

10 junho 2015

Do dia de Portugal

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 10 de Junho de 2015


 


Vemos desfilar as figuras


numa pompa de bonecos articulados


as marcas no chão


desenhos de um encenador empalhado


passadeiras e banda de música


enfáticos soldados de chumbo


neste País apalhaçado


no entretém de vizinhas à janela.


E a voz de pároco do burgo


redonda e ciciada como convém


a soar pelos ares de entulho


numa bênção colada a ninguém


meu País triste e alheado


da irrelevância das almas sem orgulho.

09 junho 2015

Um dia como os outros (158)

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 (...) A escolha que Sócrates fez é óbvia. Mas muitíssimo dura. Ela retrata a personalidade do ex-primeiro-ministro. Se é verdade que, como todos sempre souberam, ele se alimenta do combate e do conflito, decidir continuar a viver numa cela não é para qualquer um. Revela coragem. O que obriga as pessoas, independentemente das suas convicções sobre a culpa ou inocência de Sócrates, a reconhecer-lhe pelo menos essa qualidade. (...)


Daniel Oliveira


 


(...) José Sócrates, para recusar a oferta de prisão domiciliária anilhada com pulseira eletrónica, relata: "Seis meses sem acusação. Seis meses sem acesso aos autos. Seis meses de uma furiosa campanha mediática de denegrimento e de difamação, permitida, se não dirigida, pelo Ministério Público". É isto verdade?... É.


É cristalinamente verdade. É repetidamente verdade em inúmeros outros casos. É uma verdade permitida pela aplicação de uma falácia chamada segredo de justiça.(...)


Pedro Tadeu

07 junho 2015

Por um governo decente

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 AXIMAGE - 7 de Junho de 2015


 


António Costa e o PS estão a fazer uma campanha limpa e séria, como já há muito tempo não se assistia. O programa eleitoral está publicado, para que quem quiser o leia e discuta, o compare com o da coligação de direita que, a reboque da iniciativa do PS, se sentiu na obrigação de apresentar propostas.


 


O PS, segundo as várias sondagens que vão sendo conhecidas, não consegue uma maioria absoluta. Os valores de abstenção da última sondagem da AXIMAGE situam-se em 35%. É aqui que António Costa e a sua equipa se devem concentrar.


 


É indispensável que o PS convença o eleitorado da importância de conseguir uma maioria absoluta. Como se esperava, o PCP e o BE (não falando noutras formações mais ou menos folclóricas, mais ou menos bem intencionadas) continuam a atacar o PS colando-o ao PSD e CDS. Esta legislatura não lhes ensinou nada, tal como não ensinaram nada as décadas que decorreram desde o 25 de Novembro de 1975, em Portugal e no resto do mundo. Para conseguir aplicar o seu programa, aquele que vai defender em campanha eleitoral, o PS tem de convencer o País a dar-lhe autonomia e a responsabilidade não partilhada para os próximos 4 anos.


 


As alianças pós eleitorais estão nas mãos dos eleitores. Mas os eleitores têm que ser bem esclarecidos do significado da ausência de uma maioria absoluta, tanto para a esquerda como para a direita.


 


A grande diferença é que, à esquerda, não há interlocutores que permitam uma coligação com coerência e com o mínimo de estabilidade. Por muito que o PS se esforce, a sua natureza intrinsecamente democrática e a sua opção por uma economia aberta afasta-o das formações que se dizem de esquerda, defensoras de uma utopia que apenas se materializou em totalitarismos. A sua opção por um Estado que garanta os direitos e os apoios sociais aos cidadãos, um estado promotor de igualdade e desenvolvimento em vez de um Estado mínimo e anémico, afasta-o desta direita trauliteira e retrógrada.


 


Não é entre Passos Coelho e António Costa que os eleitores hesitam mas sim entre António Costa e a demissão de votarem. António Costa, os seus mais próximos conselheiros, os órgãos dirigentes, os militantes e os simpatizantes terão que, persistente e aplicadamente, vencer a propaganda diária dos comentadores, dos alinhamentos noticiosos e da desinformação permanente.


 


O País precisa de um governo decente, para que se recupere a dignidade de viver com segurança e com confiança no futuro. Não há margem para falhar. É urgente a mudança.

06 junho 2015

Do estado turístico


Hoje é sábado, amanhã é domingo.


(...)


O dia é sábado.


(...)*



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É o melhor dia da semana. Então quando solarengo e quente, à beira rio, nada melhor para nos apaziguarmos com o mundo. Além disso, para além de não haver nada como o tempo para passar*, há sempre a apreciação das regatas, do sol coado pelas lentes escuras, do brilho reflectido no Tejo e dos passeantes.


 


E se há gente nestes dias, uma classe de gente que se multiplica e prolifera por todas as cidades turísticas – os turistas. De todas as etnias, de todos os continentes, de todas as idades, em comum a ser e estar-se turista.


 


Essa comunhão no ser e no estar forma uma espécie de irmandade com os seus códigos de conduta. Desde o aspecto vincadamente despreocupado e alegre à estudada indumentária para passear, usufruindo das delícias indígenas e documentando aplicadamente momentos para publicar nas redes sociais, os turistas cumprem a sua função com um profissionalismo empenhado.


 


E assim podemos distinguir aqueles que se passeiam obrigatoriamente vestidos de calções, blusas fluidas de cores berrantes, preferencialmente com motivos florais, óculos escuros coloridos de verde, rosa choque, azul ou preto, sempre espelhados, chapéus que se evidenciam pela enormidade das abas (mesmo a ausência das copas) e nos pés as globalizadas havaianas, sandálias rasas de sola fina, totalmente incómodas, fazendo com que cada pedra da calçada seja sentida pelos doridos pés (a modalidade sandálias-com-meias reduz este problema); em alternativa há ténis com as cores o mais diferentes possível das flores das blusas. Não esquecer as mochilas, as garrafas de água e os telemóveis para as selfies. Há uma minoria mais sofisticada que se passeia com máquinas fotográficas (retro) a tiracolo.


 


Importantíssima a atitude de boca escancaradamente aberta em sorrisos admirativos, a voz suficientemente alta para se ouvirem as arrebatadas exclamações de felicidade. Podemos imaginar qualquer pacata e discreta criatura, no seu dia-a-dia de trabalhadora, comedida no falar e no vestir, transfigurada neste estado turístico passageiro e cíclico, tal qual as estações do ano.


 


*Dia da Criação

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...