A realidade crua do nosso leque partidário e, portanto, das nossas opções de voto, mantém-se a mesma desde 1975. Se tivermos a paciência de revermos o celebérrimo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal antes do 25 de Novembro, podemos apreciar que a escolha principal e mais importante que se colocava aos líderes políticos (e aos eleitores) nessa altura era entre um regime democrático e um regime não democrático.
Mário Soares soube estar à altura das circunstâncias opondo-se frontalmente ao totalitarismo crescente protagonizado e/ou apadrinhado pelo PCP que, apesar das eleições em 25 de Abril de 1975, pensava poder ganhar o poder com a sua vanguarda revolucionária. Por muito que, posteriormente, possamos gostar ou não da forma como Mário Soares conduziu a sua acção e vida políticas, a ele devemos essa esperança, essa força e essa capacidade de mobilizar o povo, não permitindo uma nova ditadura.
Os discursos que hoje ouvimos a Jerónimo de Sousa são quase exactamente iguais aos de Álvaro Cunhal. Ninguém poderá dizer que o PCP não honra a sua memória e a sua coerência políticas - é o mesmo desde essa altura. Em todos estes anos o PCP acha que o PS é igual ao PSD e ao CDS, partilhando a mesma ideologia e a mesma prática política, palavras repetidas ao longo de todos estes anos, depois de tudo o que se foi passando no País, do 25 de Novembro à entra na CEE, dos governos da AD ao do PS. A todos o PCP apelida de direita reaccionária, que combate violentamente os trabalhadores.
O PCP terá um lugar na História como o partido que conseguiu cristalizar no tempo e que se manteve irredutível defendendo uma sociedade inexistente, cujos exemplos que cita foram ferozes regimes ditatoriais que, entretanto e felizmente, se desfizeram.
Por isso não vale a pena estarmos a pensar que, em Portugal, no século XXI, 40 anos após o 25 de Abril, mais de 20 anos após a queda do muro de Berlim, no meio da espiral recessiva e da crise da União Europeia, do afundamento daquilo a que nos habituámos a considerar o paradigma de uma sociedade decente, que defende e apoia a igualdade de oportunidades, que redistribui a riqueza e apoia os cidadãos, considerando-os a todos merecedores da mesma felicidade, não é possível uma aliança política à esquerda.
O PS confronta-se, mais uma vez, com a impossibilidade de poder contar com outras formações partidárias para partilhar a responsabilidade do poder. Uma coligação à esquerda é contra natura pois o PS é, sobretudo e acima de tudo, o partido da esquerda democrática. E isso É a diferença.
Mas há outros ensinamentos que Mário Soares nos pode dar. A sua coragem e clareza políticas, a sua capacidade de perceber as prioridades num período perigoso, delicado e de grande confusão, em que o menor pretexto poderia desencadear violência e golpes ditatoriais, de esquerda e de direita. É isso que se pede ao PS de hoje, em circunstâncias muito diferentes mas que são, igualmente, delicadas e de grande confusão.
A Europa pode estilhaçar-se sob uma coligação de gente que se esqueceu qual o objectivo do exercício do poder, se esqueceu que a economia deve estar ao serviço das populações. As Instituições Democráticas são olhadas com distanciamento e desesperança - o desemprego, a pobreza, as hordas de descontentes e de emigrados, a falta de perspectivas de futuro, o sentimento de insegurança e de impunidade, a judicalização da política, o novo poder fiscal absoluto, tudo contribui para que a sociedade se deslace e desagregue.
Vale a pena rever o longo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal - precisamos de refrescamento de prioridades e de separar o que é essencial do acessório - o PS é o partido da liberdade e da democracia. Tem que mostrar que é o partido da coragem e do desafio, sem medo de enfrentar os fantasmas do seu passado, sem medo de enfrentar a massificação da calúnia, a inversão dos valores do Estado de Direito. Não pode esconder-se atrás de dos calculismos e equilibrismos na contagem das espingardas e no assegurar de votos seguros. Há mais de 25% de indecisos nas sondagens que vão sendo publicadas. Esses 25% de pessoas esperam a clarificação dos cenários para o futuro: confiar nas Instituições, ter alguém à frente do governo que saiba defendê-los, que seja digno, que mostre que a Justiça, a Liberdade e a Democracia são, ainda, os valores da nossa sociedade.
Eu também revi recentemente o debate que tem uma duração total de 3 horas e 42 minutos! Interessantíssimo. Recorda-nos que Soares já esteve impressionantemente lúcido antes de se tornar xexé assim como torna patéticas de despropositadas as campanhas para edulcorar Cunhal só porque já morreu. Recorda-nos também um Joaquim Letria equivocamente «viscoso» na mediação do debate.
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