31 agosto 2008

Um Caso de Espíritos

Um excelente policial, bem ao jeito brasileiro, com uma escrita escorreita e descomprometida, mas elegante, com mortos, sessões de espiritismo, patroas gostosas, garotas de programa, máfias chinesa e das outras, alguns murros, cigarros, whisky e blues, muitos e bons, para todas as horas e ocasiões, paixões, Donas e sexo.


 


Bellini é o detective melancólico e amante de blues, Dora a sua patroa, que se vêem envolvidos num misterioso caso de morte de um espírita saudável, que corre a maratona e só bebe água.


 


Tony Bellotto já tem outra fã. Que venham mais livros para esta prometedora colecção – Ganga Impura (dirigida por Francisco José Viegas).


 


Oposição ausente

É extraordinário como se podem escrever artigos sobre artigos falando da manipulação da informação pelo governo, nomeadamente no que diz respeito à onda de criminalidade que toda a comunicação social glosou, durante dias seguidos, com as primeiras páginas dos jornais e as aberturas de todos os telejornais a empolarem e a zurzirem na crescente insegurança do país, quando a própria pessoa que se indigna faz parte da oposição que se tem demitido de fazer o seu papel, não de uma forma demagógica e populista, com pedidos de demissão do MAI, mas pela mais completa e inusitada falta de comparência.


 


Há governo a mais pela exasperante e inacreditável ausência de oposição.

Agosto


(Shannon Wing: August)


 


Finalmente

finalmente acaba o mês

que trucida os tempos

que queremos livres

acaba o mês da modorra

da aflição de ser feliz.

Mente sagaz e perturbada

Sonhei vagamente com uma extraordinária história policial que se iniciava num difícil e raríssimo diagnóstico, com o conhecimento faseado do doente e a descoberta de casos obscuros e mistérios de alma, sempre acompanhados e precedidos de fragmentos de tecidos com lesões desafiadoras de uma mente sagaz e perturbada.


 


Acordei sem resolver o caso criminal, mas o diagnóstico surgiu claro e límpido como a madrugada que se escapava por entre a persiana. Pena é que não existisse.

Torre do silêncio


(gravura de Cornelius Brown, 1886: Tower of Silence)


 




Olho a torre do silêncio


e é como se já lá estivesse

oferecendo o corpo aos festins do céu

aos alimentos dos pássaros às carícias do vento.


 


Lentamente no círculo que me é destinado

perceber já sem consciência


do que somos feitos

e para que tanto queremos viver

se só no silêncio da torre servimos a vida.

30 agosto 2008

A mudança


 


Se BaraK Obama vencer as eleições americanas, não são só os EU que ganharão novo fôlego, mas a Europa respirará alguma esperança e optimismo.


 


A mudança. Sim, eles podem e nós queremos.

Mi niña Lola


 


(Buika: Mi niña Lola)


 


Dime porque tienes carita de pena

Que tiene mi niña siendo santa y buena

Cuéntale a tu padre lo que a ti te pasa

Dime lo que tienes reina de mi casa


 


Tu madre la pobre no se donde esta

Dime lo que tienes, dime lo que tienes

Dime lo que tienes, dime la verdad


 


Mi niña lola, mi niña lola

Ya no tiene la carita del color de la amapola

Mi niña lola, mi niña lola

Ya no tiene la carita del color de la amapola


 


Tu no me ocultes tu pena

Pena de tu corazón

Cuéntame tu amargura

Pa consolártela yo


 


Mi niña lola, mi niña lola

Se le ha puesto la carita del color de la amapola

Mi niña lola, mi niña lola

Se le ha puesto la carita del color de la amapola


 


Siempre que te miro mi niña bonita

Le rezo a la virgen que esta en la ermita

Cuéntale a tu padre lo que te ha pasao

Dime si algún hombre a ti te ha engañao




Niña de mi alma no me llores mas

Dime lo que tienes, dime lo que tienes

Dime lo que tienes, dime la verdad


 


Mi niña lola, mi niña lola

Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola

Mi niña lola, mi niña lola

Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola

Mi niña lola, mi niña lola

Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola

Mi niña lola, mi niña lola

Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola

28 agosto 2008

Agenda comunicacional

A criminalidade violenta, ou seja, a visibilidade da criminalidade violenta, é cíclica e sazonal, costuma acontecer nas férias de verão, e alterna com a intensidade dos incêndios e da área ardida.


 


Com falta de notícias sumarentas, sem bombeiros para falarem da inépcia dos governantes, nada melhor do que massacrar os cidadãos com os assaltos à mão armada, a ineficácia das polícias, a violência dos criminosos.


 


Claro que o PSD, também à falta de melhor ideias, pede logo a demissão do MAI. Sim, isto não se admite, se o ministro fosse Aguiar Branco, os ladrões e os assassinos já teriam mudado de país, ou ter-se-iam convertido à prática da caridade.


 


Melhor ainda esteve Cavaco Silva, que em vez de sossegar as pessoas que estão com a sensação de que serão mortas mal se acerquem de uma caixa multibanco ou encham o carro de gasolina, resolveu dizer que a onda de assaltos era uma coisa muito séria. O que não disse e devia dizer era que as medidas tomadas eram adequadas, que o aumento da criminalidade é sempre preocupante mas não é nada de espantoso, observando-se o que se passa no resto da Europa, e que os cidadãos podem confiar nas suas forças de segurança.


 


Claro que o responsável do Gabinete de Segurança, Leonel de Carvalho, apesar de afirmar que o crime aumentou cerca de 10%, nada catastrófico nem razão para tamanho alarido, sente que não tenho a categoria para que possa ser posto em causa por palavras do senhor presidente da República. Valha-nos Santo Ambrósio!


 


Mas a cereja em cima do bolo é José Magalhães mostrar disponibilidade para alterar o código do processo penal que, se não estou em erro, foi revisto em 2007!


 


E quem é que manobra a agenda política? É que parece que somos todos manobrados pela comunicação social.


 


 


Adenda:


 


(...) Em comunicado após a reunião, o Gabinete, que na quinta-feira tinha referido à agência Lusa que a criminalidade violenta tinha registado um aumento «ligeiramente acima dos 10%», refere ter analisado a evolução deste fenómeno, concluindo que registou um aumento de 15%.



De acordo com aquele organismo, apesar deste aumento, os números são inferiores a 2004 e 2006.



Por outro lado, a criminalidade participada cresceu 7% em relação a 2007, sendo o número global de crimes participados essencialmente idêntico ao dos anos de 2003 e 2004. (...)"


 


(bold e sublinhados meus)

24 agosto 2008

(Des)emprego

Até acredito que haja muita desinformação à volta do número de postos de trabalho criados nesta legislatura.


 


Mas o que dizer da ridícula apresentação dos empregos criados pelo Call Center, tão especializados que até se pede o 12º ano, e dos números subtraídos  às estatísticas do desemprego por estarem em programas de formação?


 


A propaganda governamental está a precisar de se reciclar e de ser despedida por inadaptação ao trabalho.

Olimpíadas à portuguesa

Depois da histeria dos comentadores que arrasaram os nossos atletas olímpicos, nomeadamente Marco Fortes, Vanessa Fernandes e Nelson Évora elevaram aos píncaros o orgulho nacional.


 


De perdedores e esbanjadores dos dinheiros públicos, passámos à melhor prestação olímpica de sempre.


 


Os atletas que nos perdoem. E parabéns atrasados a Nelson Évora.


 


A ciência escondida que salva vidas

Declaração de interesses: sou médica especialista em Anatomia Patológica.


 


O DN de hoje trás uma reportagem sobre a falta de médicos, nomeadamente de Obstetras  e Anestesistas, referindo ainda as especialidades de Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna.


 


É verdade que estas são algumas das especialidades mais carenciadas e cuja falta se repercute de imediato na comunicação social, pela necessidade de fechar maternidades e blocos operatórios, pelo caos das urgências hospitalares, sorvedouros de horas de trabalho inglório e pela ausência de Médicos de Família.


 


Mas do que não se fala é da extrema carência de profissionais de algumas especialidades, mais longe dos holofotes mediáticos, mas cuja falta poderá perigar todo o trabalho de diagnóstico e de terapêutica que, hoje em dia, é cada vez mais sofisticado.


 


Estou a falar da especialidade de Anatomia Patológica. A enorme maioria das pessoas não sabe o que isso é e, mesmo que já tenha ouvido falar, só se lembra de autópsias e de exames de Papanicolaou. Estes especialistas são aqueles que observam os tumores que se extraem das pessoas e que dizem se é benigno ou maligno, se é uma infecção ou uma inflamação; se um fígado tem cirrose, infecção por vírus, inflamação por álcool ou tumor; se a descamação de pele é uma psoríase ou um linfoma. São aqueles que diferenciam os tumores malignos que se podem comportar melhor dos que se podem comportar pior, que respondem a um determinado tipo de medicamentos ou não, que determinam a extensão do tumor e se, na operação, este foi totalmente extirpado ou não.


 


Deste pequeno número de especialistas dependem todos os outros médicos para o diagnóstico, para a terapêutica e para o prognóstico (ou seja a possibilidade de se prever uma cura ou um recrudescimento da doença). É claro que nenhum destes especialistas trabalha sozinho. Hoje em dia e felizmente, os médicos trabalham cada vez mais em equipa, mas os seus conhecimentos altamente especializados são indispensáveis, assumindo uma enorme responsabilidade em todo o pocesso qu se inicia no diagnóstico.


 


Neste ano de 2008 acabaram a especialidade de Anatomia Patológica (que dura 5 anos) apenas 4 médicos em todo o país. É urgente que o poder político estude medidas, talvez de discriminação positiva, para atrair mais jovens médicos para esta especialidade, cada vez mais importante no contexto da medicina moderna, até pelo estudo e investigação de novas técnicas diagnósticas e terapêuticas resultantes dos conhecimentos de biologia molecular.


 


Como diz o Presidente do The Royal College of Pathologists (UK), Professor Adrian Newland: Pathology is the Hidden Science that Saves Lives.


 



(linfoma de Hodgkin)


 


Adenda: vale a pena ler o artigo de opinião do Prof. Manuel Antunes, o qual subscrevo na totalidade.

Demissões

Todos os Verões é pedida a demissão do Ministro da Administração Interna (MAI). Desde Fernando Gomes (assaltos aos comboios), passando por António Costa (já nem sei bem porquê) agora Pedro Aguiar Branco veio quebrar o tão profundo e pesado silêncio do PSD pedindo a demissão de Rui Pereira, pela onda de crimes violentos que assola Portugal.




É natural que todos fiquemos com a noção que Portugal e transformou no paraíso das lutas de gangsters. Neste momento todos os jornais, telejornais e rádios abrem as primeiras página e os serviços noticiosos com as mortes, os assaltos, os tiros, os carjacking, os atropelamentos, os cadáveres que se encontram nos rios ou enterrados, as facadas, todos estes dramas ocupam a maior parte das preocupações jornalísticas.


 


É claro que há ondas de assaltos e de crimes, mas parece que as tão proclamadas estatísticas mostram um aumento dos crimes violentos (?) mas uma redução dos homicídios. Por isso, este sentimento de insegurança que é real, é altamente insuflado pelo tipo de jornalismo tablóide em que se transformou a informação.


 


Daí ao infeliz aproveitamento político do PSD, pedindo a demissão do MAI vai mais um passo na queda para o abismo da credibilidade deste novo, novíssimo e dinossáurico PSD.


 


Gostaria eu que, na onda de demissões pedidas, houvesse uma que não fosse preciso pedir por se concretizar pelo próprio ou pelo Primeiro-Ministro. Estou a falar do Ministro Mário Lino. Depois da mudança de localização do novo aeroporto, só para falar do caso mais lancinante, com acidentes repetidos na linha do Tua, o ministro resolve aproveitar obscenamente um horrível acidente de aviação em Madrid para defender a saída do aeroporto da Portela.


 


É muito triste quando a infelicidade desce tão abaixo do mínimo da decência. Porque não pedem o PSD, o PS, o CDS, o BE, o PCP, enfim, o Primeiro-Ministro, a demissão de Mário Lino? Que está este Ministro ainda a fazer no governo?

Há uns anos fui a Praga














Foi uma viagem envolta em neblina, mas uma neblina luminosa e despreocupada, aquela neblina dos ansiolíticos e dos antidepressivos.


 


Após um enfarte do miocárido, uma operação ortopédica medianamente sucedida, uma doença grave dos meus familiares mais próximos, e o síndroma de abstinência do tabaco, as drogas pareceram-me (e foram!) a melhor opção. Na preparação da viagem resolvi marcar o hotel pela internet, estudando o mapa da cidade, as localizações e os preços, e reservei aquilo que eu pensava ser um quarto duplo, naquilo que eu pensava ser um hotel, mesmo junto à Václavské náměstí (Praça Venceslau).


 



 


Chegámos de noite, após uma corrida num táxi de aspecto muito duvidoso, que nos indicou num inglês macarrónico mas muito simpático onde ficava o nosso hotel, apontando para uma rua escura e estreitíssima, perpendicular, de facto, à Václavské náměstí. Era um edifício normal, grande, mal iluminado, sem recepção, apenas com um homem que nos deu uma chave enorme, nos apontou o elevador e nos disse que ainda tínhamos que subir mais umas escadas. O nosso pessimismo aumentou, carregando com as malas por uma escada robusta e pedregosa, e nos deparámos com uma porta enorme e cheia de ferrolhos, que mais parecia um cofre-forte de um banco.


 


O quarto de hotel era um apartamento com uma sala, dois quartos, uma enorme casa de banho e uma kitchnet, que ficava no sótão não de um hotel, mas de um prédio normal. A casa de banho não tinha sabonetes, shampoo ou toalhas, apenas um enorme rolo de papel higiénico verde. A sala tinha dois divãs arrumados em paredes opostas, desfeitas, com a roupa da cama (e as toalhas) dobradas em cima dos colchões, uma televisão que não funcionava e um sofá esventrado. A kitchnet estava totalmente equipada, até com uma mini máquina de lavar louça. Os quartos apenas tinham divãs a servir de camas, sem as respectivas roupas.


 



 


Bem ditas drogas. Apesar de pesarosos e ligeiramente irritados, decidimos que não iríamos passar uma semana ali, que apenas dormiríamos a primeira noite, até porque já estava paga, e teríamos que pensar em como tomar banho sem sabonete (a vida de luxo que estamos habituados a viver). Tomámos posse do nosso quarto e saímos para a maravilhosa praça iluminada e enorme, assim me pareceu naquela noite, em busca de um hotel. Foi só atravessarmos a praça, pois havia muitos hotéis, todos caríssimos.


 


Entrámos no Hotel Jalta e reservámos, de imediato, um quarto a partir do dia seguinte. É um hotel de 1958, remodelado, extremamente confortável e que, a nós, nos pareceu paradisíaco. No dia seguinte, após um banho de água quente (o esquentador foi um pouco difícil de acender e estava na casa de banho), fomos tomar o pequeno-almoço a um café que estava mesmo ao lado. Pedimos aquilo que pensávamos ser uma sanduíche com fiambre e café com leite; apareceu-nos uma espécie de tosta mista com pepino e café com leite. Surrealista! De imediato, enquanto um fazia o chek-out do apartamento, outro fazia o chek-in no hotel. Atravessámos a praça e começámos a semana.


 


 


 


Praga é uma cidade lindíssima, com uma luz especial, chuvosa, em que as raparigas são bonitas e simpáticas, os homens (não tão bonitos) são amáveis, com imensa vontade de comunicar e de falar com os turistas. É uma cidade com muitos cafés, muitos túneis que nos guiam entre diferentes áreas da cidade, com praças cobertas de esplanadas, músicos pelas ruas, vendedores de bilhetes para o Teatro Negro em cada esquina, becos e a Karlův most (ponte Carlos), o relógio astronómico, as cervejas, a partilha de mesas nos cafés e restaurantes, a omnipresença do pepino, o museu Kafka, o bairro judeu, o castelo, a arquitectura dos prédios mais antigos, dos restaurantes, tudo é simples e sofisticado, respirando uma atmosfera de efervescência cultural, de liberdade. Passeámos por muitas livrarias e muito pouco encontrámos sobre a invasão soviética em 1968, e pouca vontade de se falar sobre isso. Parecia ainda uma mancha e um trauma difícil de se reabrir e de se expurgar.


 


 


 


Talvez tenha ficado a gostar ainda mais do livro e do filme A insustentável leveza do ser, que nos transporta para aquela Praga rebentando algemas, para as ter que suportar ainda mais dolorosamente. Passaram 40 anos da violação de Praga. Convém que ninguém se esqueça daquele socialismo e daquele poder autoritário que, de novo, está a levantar a cabeça, se é que alguma vez a baixou de vez. Putin, a invasão militar da Geórgia, o posso, quero e mando de Moscovo, estão a regressar. E o mais aflitivo é que, neste momento, não há EUA nem UE que se lhe oponham.


 


19 agosto 2008

Parabéns


 


Parabéns à Vanessa Fernandes e à Naide Gomes, uma pela merecida medalha que reconhece o seu mérito, outra pelo merecido reconhecimento do mérito, mesmo sem medalha.


 


17 agosto 2008

Agradecimentos

Tenho lido algumas reacções que considero particularmente infelizes a propósito da prestação dos nossos atletas olímpicos e, em particular, de Francis Obikwelu.


 


Estes atletas a quem ninguém liga nenhuma durante anos e anos, servem agora para lavar as feridas do orgulho nacional, tendo a obrigação de trazerem medalhas.


 


Pois eu acho que lhes devemos agradecer, em particular a Francis Obikwelu, quando conseguem e quando não conseguem chegar aos três primeiros lugares.


 


Vilarejo


(Marisa Monte: Vilarejo)


 


Há um vilarejo ali

Onde areja um vento bom

Na varanda, quem descansa

Vê o horizonte deitar no chão


 


Pra acalmar o coração


Lá o mundo tem razão

Terra de heróis, lares de mãe

Paraiso se mudou para lá


 


Por cima das casas, cal


Frutas em qualquer quintal

Peitos fartos, filhos fortes

Sonho semeando o mundo real


 


Toda gente cabe lá

Palestina, Shangri-lá

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa


 


Lá o tempo espera

Lá é primavera

Portas e janelas ficam sempre abertas

Pra sorte entrar


 


Em todas as mesas, pão

Flores enfeitando

Os caminhos, os vestidos, os destinos

E essa canção


 


Tem um verdadeiro amor

Para quando você for

É doce morrer no mar


(Dorival Caymmi: é doce morrer no mar)


 


É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




A noite que ele não veio foi,

Foi de tristeza pra mim

Saveiro voltou sozinho

Triste noite foi pra mim




É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




Saveiro partiu de noite, foi

Madrugada não voltou

O marinheiro bonito

Sereia do mar levou.




É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




Nas ondas verdes do mar, meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo

No colo de Iemanjá


 


É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar

Como




(pintura de Amy Cutler: Army of me)


 


Como dizer da nuvem

deste desamparo sem cor

como alterar rituais

que nos seguram

dias cinzentos noites mornas

espelho vazio

que não vemos pois multiplica

olhos fundos vapores fantasmas.


 


Como dizer do hábito

que nos obriga a sermos iguais

a tudo o que jurámos

ser diferente.

Famílias




(pintura de Amy Cutler: Viragos)


 


Conheço famílias monoparentais e famílias poliparentais, com uma mãe, com duas mães, com mãe e avó, com tia e avô, sem mulheres, famílias de menores, famílias de velhos, famílias com um pai, muitos pais, com amigos e primos, com amigas dos primos, com cães, gatos, peixes.


 


Conheço famílias com dinheiro e sem ele, com televisões, com telemóveis, com comprimidos, com bebidas, com armas, com estaladas e murros, com gritaria e arrancar de cabelos, com solidão e vazio, com mortos nos armários, com silêncios e rupturas.


 


Conheço famílias com beijos e palmadas nas costas, com suspiros de resignação, com voltas e reviravoltas das cabeças, com espaços por ocupar, com mãos entrelaçadas nos passeios, corpos arrulhando devagar, com roupa desarrumada e paredes forradas de livros.


 


Não há garantia de estruturação ou de felicidade. Não se sabe se alguém se mata ou mata o parceiro, ame mais por ser homossexual, heterossexual ou assexuado, saiba gerir as emoções, desista de tudo ou invista em nada, que dê pontapés no destino ou arranque as pedras da calçada.


 


A única garantia é que há sempre hipótese de ser feliz, todos os dias teremos que fazer essa aposta, com pais ou sem eles, com mães ou sem elas, às vezes e sempre e sobretudo por nós, quando e se conseguimos encher um cantinho do coração de alguém.

16 agosto 2008

Segredos de Estado

A manutenção do secretismo no que diz respeito ao relatório do IGAI sobre a actuação das forças de segurança (PSP e GNR) apenas aumenta a insegurança das populações. Se há erros de actuação, ilegalidades, défices de formação, etc, eles terão que ser reconhecidos e corrigidos.


 


As armas devem ser usadas quando estritamente enquadradas na lei. Todos temos que confiar que a PSP e a GNR só as usam quando devem, quando não podem deixar de o fazer, o que implica da parte dos seus agentes uma disciplina e formação imensas e rigorosas.


 


Mas também me parece estranho que este relatório, pelo que dizem os jornais, sendo  referente a 2006, só agora ter sido retirado das (secretas) gavetas do estado.

15 agosto 2008

Catástrofe adiada

Parece que os resultados económicos divulgados pelo INE não são tão maus como alguns previam (queriam?). Ainda bem.


 


O PSD desespera pelas notícias que lhe dariam todas as razões. Enquanto tal não acontece, entretém-se com as festas do Chão da Lagoa e do Pontal.


 


O problema de Manuela Ferreira Leite não é faltar a essas celebrações bacocas do populismo mais basista. O problema é que o silêncio se desmultiplica em ruidosas opiniões de todos os que estão decididos a destroná-la.


 


É uma estratégia muito original, não há dúvida.

Medalhas

Os acontecimentos desportivos internacionais, campeonatos de futebol e jogos olímpicos, são as ocasiões que o país deprimido procura para mostrar a sua excelência. Nem que durante todos os outros dias ninguém se lembre dos velejadores, lançadores de peso, judocas ou outras modalidades desportivas.


 


Durante a última semana e para a próxima seremos acordados ao som das medalhas que de certeza vão ganhar e das medalhas que infelizmente não ganharam.


 


Os nossos atletas merecem mais respeito dos seus compatriotas. O seu esforço e empenho, mesmo sem medalhas, estão de parabéns. Todos seríamos mais felizes se o percebêssemos.

14 agosto 2008

Se estou só, quero não 'star


(poesia de Fernando Pessoa)


 


 


Se estou só, quero não ‘star,

Se não ‘stou, quero ‘star só,

Enfim, quero sempre estar

Da maneira que não estou.


 


Ser feliz é ser aquele.

E aquele não é feliz,

Porque pensa dentro dele

E não dentro do que eu fiz.


 


A gente faz o que quer

Daquilo que não é nada,

Mas falha se o não fizer,

Fica perdido na estrada.

Justiça

Se a população não sentir que as forças de segurança actuam rápida e eficientemente, defendendo os cidadãos dos roubos, das armas, dos reféns, das ameaças, poderão ser tentadas a fazer justiça pelas próprias mãos. Aí sim, deixa de haver condições para que se faça justiça.


 


A PSP e a GNR não estão acima da lei e a sua actuação deverá sempre ser escrutinada. Mas não se confundam as forças de um estado democrático cuja função é manter a ordem pública e pugnar pela segurança dos cidadãos com irresponsabilidade e banditismo de estado.


 


Espero que as circunstâncias que levaram à morte de uma criança numa cena de tiros com a polícia sejam totalmente esclarecidas. Para que os cidadãos possam confiar, mesmo quando é inevitável a morte de alguém. E é essa inevitabilidade que deve ser esclarecida. Assim como a presença e uma criança num carro que participava num assalto, a acreditar no que os jornais dizem. Também isso deveria ser evitável. Inaceitável é, decerto.

Esperar

Algumas vezes precisamos de dizer qualquer coisa, de mostrar algumas amolgadelas interiores, de expulsar algumas tristezas que correm o perigo de se incrustarem e infectarem a vontade de as ultrapassar. Mas não há palavras nem imagens suficientes. Apenas esperar que o tempo melhore.

09 agosto 2008

Guerra

E enquanto nos distraímos com os jogos olímpicos, na Geórgia e na Ossétia do Sul há guerra. Mortos, feridos, refugiados, escombros, tudo a que infelizmente nos vamos habituando.


 


O Presidente Bush fala do cimo do seu descrédito e da sua incapacidade para influenciar ou moderar seja o que for. Putin passeia-se e manda.


 


Beijing 2008

Talvez estes jogos sirvam a abertura da China aos valores da defesa dos direitos humanos, à democracia, para a abolição da pena de morte, da tortura, do desprezo pela vida, tal como os entendemos na nossa sociedade.


 


 


Talvez estes jogos sirvam para que a sociedade ocidental perceba que a China é muitíssimo mais que isso.


 


Segurança

A morte entra-nos pelos olhos. Poderiam ser os nossos irmãos, as nossas mães, os nossos filhos. A ameaçar e a ser ameaçados, carrascos ou vítimas.


 


Como lidar com a vida o drama que se desenvolve em tempo real, como ajuizar dos sentimentos de quem é próximo, já que nos sentimos todos próximos?


 


Escolher entre os assaltantes e os reféns. Não deveria ser preciso escolher, pedir, exigir que tenha que se escolher.


 


Mas é para isso que há polícia de segurança pública, para que a segurança seja assegurada. De ladrões também, mas já que teve que se escolher, ainda bem que, pelo menos foi possível salvar as vítimas.


 


E por isso se morre

 


(Pintura de Kazuya Akimoto: dying blue)


 


E por isso se morre

esquecendo uma porta

que se entreabre

desviando um olhar

que se procura

lambendo uma gota

que se oferece

mesmo quando sobram

mundos isolados de corais

mesmo quando sobram

gestos desajustados imortais.

06 agosto 2008

Desequilíbrio

A ventoinha e o computador, antagonizados e ligados, um venta e esfria os braços, outro pesa e aquece as pernas. Equilíbrio instável entre o passado e a modernidade, a era mecânica e a era digital.


 


A televisão fala à minha frente e ouvem-se abafadamente uns ruídos agressivos que se escapam pelas frestas da porta do quarto do filho.


 


Mas que mundo esquizofrénico e barulhento em que nos habituamos a viver. E todos nós, naturalmente, com os sentidos continuamente estimulados por esta cacofonia de sons e imagens, totalmente alheados e entregues ao nosso corpo, olhos no visor e dedos no teclado, queimamos células e horas.

03 agosto 2008

A única solução

Não deveremos nunca resignar-nos à única solução, por poucas que vislumbremos em alternativa. A única solução transforma-se rapidamente em solução única. É o caminho inevitável para o adormecimento da mente, a repressão da criatividade, o absoluto, o autoritarismo.


 


É muito mais fácil deixarmos que aqueles que têm uma solução a transformem na salvação suprema, é muito mais fácil acolhermos os seus gestos sábios, as suas vozes certas e seguras, o mal disfarçado desdém pela opinião.


 


Todos os dias enfrentamos a realidade da escolha, da decisão, do caos que tentamos organizar dentro de nós e das nossas vidas. Todos os dias se enfrentam aprendizes de magos na venda de milagres.


 


Não deveremos nunca abdicar dos nossos sentimentos, dos nossos raciocínios, das nossas críticas, da nossa liberdade.

Impalpável


(pintura de Kelley MacDonald: Pirate's Cove Plain Air)


 


E se as palavras me faltarem

presas nos bicos das gaivotas

nas asas da penumbra

no enleio das madrugadas


 


olha os caminhos sulcados da pele

o manso respirar dos dedos

as formas que se dobram no côncavo

do impalpável silêncio.

Veludo


(pintura de Lorenzo Dupuis)


 


Arredondei momentos de crise

em pequenos dardos envenenados.

Hoje abraço a pele dos leopardos

firo-me em garras de veludo

e morro lentamente.

02 agosto 2008

Mozilla Firefox

Depois de uma manhã inteira sem poder aceder ao meu blogue, assim como a muitos outros, porque deu um fanico ao internet explorer 7 que eu não consegui arranjar, a conselho do meu Consultor para computadores, mudei para Mozilla Firefox. Fantástico!


 


Quem poderá negar os progressos deste século?


 



 


Adenda: A explicação do mistério deu-ma o Filipe Tourais, mas é melhor lerem.

01 agosto 2008

Cooperação estratégica


 


A comunicação do Presidente da República deixou espantada a maioria das pessoas que passaram todo o dia a especular qual seria o assunto de tal maneira sério e grave que levasse a uma comunicação solene, à hora de abertura dos telejornais, sem divulgação prévia do assunto a abordar.


 


Pelo que percebi o Presidente quer que a Assembleia da República altere alguns artigos do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, aprovado por unanimidade pela Assembleia Regional dos Açores e pela Assembleia da República, que não foram considerados inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional:



  1. A norma relativa à dissolução da Assembleia Legislativa dos Açores

  2. A nomeação do Representante da República nas Regiões Autónomas

  3. O procedimento de audição qualificada

  4. A limitação dos poderes de revisão do Estatuto pela Assembleia da República às normas que tenham sido objecto da iniciativa da Assembleia Legislativa Açoriana


Pareceram-me totalmente justificadas as reservas do Presidente. Não é lógico que a dissolução da Assembleia Regional dos Açores precise de mais formalidades para se concretizar, mesmo que sejam apenas formalidades, do que a dissolução da Assembleia da República.


 


Também acho extraordinário que uma lei aprovada pela unanimidade nos parlamentos regional e nacional esteja ferida de oito inconstitucionalidades definidas unanimemente (passe o pleonasmo) pelo Tribunal Constitucional.


 


O que não consigo descortinar é o motivo de tanto segredo, tanta pompa e circunstância e tanta gravidade. Porque não uma mensagem à Assembleia da República? Porque não uma conversa com os representantes dos partidos, fazendo chegar até à comunicação social a decisão de vetar politicamente a lei, caso não fossem feito as alterações? Porquê esta encenação e este dramatismo? Qual seria o propósito do Presidente, tão cuidadoso e escasso nas declarações, tão parco e rígido com as suas opiniões?


 


As reacções dos partidos foram interessantes: Manuela Ferreira Leite quebrou o seu silêncio estratégico tendo sido a primeira a acatar as ordens presidenciais, apesar de o PSD, já sob a sua liderança, a ter aprovado. O PCP, o BE e o CDS também afirmaram a intenção de tudo fazer para alterarem a lei, de acordo com as preocupações de Cavaco Silva. O PS ficou isolado na defesa da lei que tinha sido aprovada pela totalidade dos deputados.


 


Será que foi esse o objectivo do Presidente? Criar condições para que o PS se visse obrigado a reagir e a abrir um conflito institucional? Pelas correcções às primeiras reacções do PS, José Sócrates não se arriscará a fazê-lo.


 


Mas uma coisa é certa, a suspeita de que Cavaco Silva está a entrar na disputa política, sendo olhado como uma esperança da direita liderada pelo PSD, está patente. Por outro lado Cavaco Silva escamoteou o capital de credibilidade que mantinha, correndo o risco de nunca mais ninguém levar a sério o anúncio de comunicações presidenciais.


 


Afinal o Presidente está a alimentar tensões institucionais, em vez de as prevenir e evitar. Alguém falou em cooperação estratégica?


 


Adenda: apesar de defender o contrário do que aqui digo, vale a pena ler este texto de Paulo Pedroso, no Canhoto.

Alarme falso (2)

É bom que fique bem claro que o que disse no post anterior não significa que eu pense que os médicos são uns malandros, que não trabalham e que são uns oportunistas. Penso exactamente o contrário e, felizmente, a enormíssima maioria é responsável, competente, muitas vezes heróica.


 


Se a actividade médica no SNS é muito mal remunerada, e é, obviamente que quem pode procura colmatar esse facto com a complementação dessa actividade no sector privado ou em serviços públicos alternativos. Não é isso que está errado. O que está errado é que o Estado e o SNS o permitam. É não haver rentabilização dos recursos humanos e técnicos pela sub ocupação dos serviços e pela sub utilzação dos profissionais. É permitir que quem trabalha mais e melhor tenha a mesma péssima remuneração e a mesma progressão de quem trabalha pouco e mal.


 


Além disso não podemos comparar as exigências e as necessidades de um SNS hoje com as de há 30 anos. Há que reformar e readaptar o SNS de forma a servir os todos cidadãos. O serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos HUC, dirigido pelo Prof. Dr. Manuel Antunes, é um exemplo que deveria ser seguido.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...