Declaração de interesses: sou médica especialista em Anatomia Patológica.
O DN de hoje trás uma reportagem sobre a falta de médicos, nomeadamente de Obstetras e Anestesistas, referindo ainda as especialidades de Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna.
É verdade que estas são algumas das especialidades mais carenciadas e cuja falta se repercute de imediato na comunicação social, pela necessidade de fechar maternidades e blocos operatórios, pelo caos das urgências hospitalares, sorvedouros de horas de trabalho inglório e pela ausência de Médicos de Família.
Mas do que não se fala é da extrema carência de profissionais de algumas especialidades, mais longe dos holofotes mediáticos, mas cuja falta poderá perigar todo o trabalho de diagnóstico e de terapêutica que, hoje em dia, é cada vez mais sofisticado.
Estou a falar da especialidade de Anatomia Patológica. A enorme maioria das pessoas não sabe o que isso é e, mesmo que já tenha ouvido falar, só se lembra de autópsias e de exames de Papanicolaou. Estes especialistas são aqueles que observam os tumores que se extraem das pessoas e que dizem se é benigno ou maligno, se é uma infecção ou uma inflamação; se um fígado tem cirrose, infecção por vírus, inflamação por álcool ou tumor; se a descamação de pele é uma psoríase ou um linfoma. São aqueles que diferenciam os tumores malignos que se podem comportar melhor dos que se podem comportar pior, que respondem a um determinado tipo de medicamentos ou não, que determinam a extensão do tumor e se, na operação, este foi totalmente extirpado ou não.
Deste pequeno número de especialistas dependem todos os outros médicos para o diagnóstico, para a terapêutica e para o prognóstico (ou seja a possibilidade de se prever uma cura ou um recrudescimento da doença). É claro que nenhum destes especialistas trabalha sozinho. Hoje em dia e felizmente, os médicos trabalham cada vez mais em equipa, mas os seus conhecimentos altamente especializados são indispensáveis, assumindo uma enorme responsabilidade em todo o pocesso qu se inicia no diagnóstico.
Neste ano de 2008 acabaram a especialidade de Anatomia Patológica (que dura 5 anos) apenas 4 médicos em todo o país. É urgente que o poder político estude medidas, talvez de discriminação positiva, para atrair mais jovens médicos para esta especialidade, cada vez mais importante no contexto da medicina moderna, até pelo estudo e investigação de novas técnicas diagnósticas e terapêuticas resultantes dos conhecimentos de biologia molecular.
Como diz o Presidente do The Royal College of Pathologists (UK), Professor Adrian Newland: Pathology is the Hidden Science that Saves Lives.
(linfoma de Hodgkin)
Adenda: vale a pena ler o artigo de opinião do Prof. Manuel Antunes, o qual subscrevo na totalidade.
O comentário que acabou no post "( Des )emprego" era para vir para aqui . Trocas e baldrocas dos computadores (à mistura com muita inexperiência própria...), Paciência. Já ficou dito que é o que era importante.
ResponderEliminarCara Sofia, fiz uma chamada de atenção a este tema tão importante.
EliminarAqui fica o eco:
http://quartarepublica.blogspot.com/2008/08/poligamia-e-longevidade-masculina.html#comments
Bem Haja.
Obrigada.
EliminarObrigada, José Carlos. Ainda bem que já voltou de férias.
EliminarJulgo que é o modo como está estruturado o ensino no nosso país que leva a esse tipo de situação. Estou mesmo convencido de que a maioria dos alunos de medicina, quando tem de optar pela especialidade, nem equaciona tal possibilidade, ou por desconhecimento ou porque quer ser médico por estatuto e para poder ter consultório particular, um dia mais tarde. Enquanto andarmos a brincar aos bolseiros com 3 ou 4 pós doutoramentos, não sairemos daqui.
ResponderEliminarPenso que o ensino da Medicina tem alguma responsabilidade, tal como a forma como são pensadas as vagas de especialidade e tal como ainda não foram pensadas as alterações das remunerações dos médicos. Quanto ao estatuto e ao consultório particular, penso que o problema não é esse.
EliminarQuerida Sofia, fiquei surpreendida por teres trazido à ribalta do teu blogue estas nossas inquietações.
ResponderEliminarJá agora convem também divulgar que esta importante especialidade é pouco merecedora de atenção pelas administrações hospitalares por não ter tradução directa nos lucros que um hospital pode gerar.
Por outro lado a condição de «ciência escondida» está fora de moda, sendo por isso totalmente desinteressante para os jovens médicos à procura de uma actividade com visibilidade.
As nossas preocupações são tão invisíveis que quando se der por elas, vão ser de uma visibilidade assustadora!
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