30 julho 2009

Vida tão estranha

 



Rodrigo Leão & Ana Vieira


 


 


São de veludo as palavras

Daquele que finge que ama

Ao desengano levo a vida

A sorte a mim já não me chama


 


Vida tão só

Vida tão estranha

Meu coração tão mal tratado

Já nem chorar me traz consolo

Resta-me só o triste fado


 


A gente vive na mentira

Já nem dá conta do que sente

Antes sozinha toda a vida

Que ter um coração que mente


 


Vida tão só

Vida tão estranha

Meu coração tão mal tratado

Já nem chorar me traz consolo

Resta-me só o triste fado

 

O direito de receber

A propósito da entrevista dada pelo Presidente do Instituto Português do Sangue, na sequência das notícias veiculadas a 17 de Julho pelos meios de comunicação, acendeu-se de novo a polémica à volta dos critérios de exclusão de dadores de sangue.


 


A transformação deste assunto em problema político, em bandeira de defesa dos direitos dos homossexuais, acusando o Instituto Português de Sangue e o seu responsável de homofobia, exigindo a sua demissão, é uma forma totalmente desfocada de olhar para a realidade.


 


Não se trata de discriminação dos comportamentos ou das escolhas de orientação sexual, trata-se de usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, que tem sempre riscos, por mínimos que sejam.


 


A existência de critérios de exclusão é um meio de assegurar a quem necessita de transfusões sanguíneas o menor risco possível de contaminação por agentes infecciosos: HIV, HCV, HBC, HHV-8, HHV-2, priões, etc. Existem grupos nacionais e internacionais que analisam os vários contributos científicos em cada área, as consequências para a população, éticas, sociais e de saúde pública, e definem orientações (guidelines)  para cada caso.


 


Podem consultar-se as guidelines da Cruz Vermelha Americana que estipulam as várias circunstâncias em que as pessoas não devem doar sangue. Por exemplo qualquer pessoa que tenha recebido um transplante de dura-mater (membrana que cobre o cérebro) ou hormona de crescimento não pode dar sangue; os familiares em primeiro grau de uma pessoa com a doença de Creutzfeld-Jacob não podem dar sangue; em relação ao risco de HIV/SIDA diz o seguinte:




You should not give blood if you have AIDS or have ever had a positive HIV test, or if you have done something that puts you at risk for becoming infected with HIV.




You are at risk for getting infected if you:





- have ever used needles to take drugs, steroids, or anything not prescribed by your doctor


- are a male who has had sexual contact with another male, even once, since 1977

- have ever taken money, drugs or other payment for sex since 1977

- have had sexual contact in the past 12 months with anyone described above

- received clotting factor concentrates for a bleeding disorder such as hemophilia

- were born in, or lived in, Cameroon, Central African Republic, Chad, Congo, Equatorial Guinea,Gabon, Niger, or Nigeria, since 1977.

- since 1977, received a blood transfusion or medical treatment with a blood product in any of these countries, or

- had sex with anyone who, since 1977, was born in or lived in any of these countries.


 


Pode também consultar-se o Annual Meeting de 2008 da American Medical Association (AMA) - REPORTS OF THE COUNCIL ON SCIENCE AND PUBLIC HEALTH – que (páginas 421 e 428) faz uma revisão das guidelines actuais:

 


CONCLUSIONS (pág. 426)




Men who have had sex with men since 1977 are currently permanently deferred from blood donation. This FDA policy recommendation has generated controversy due concerns that it may be discriminatory and that it stigmatizes the MSM population. It is clear that a policy change with respect to blood donation deferral is a risk management decision wherein the risks of ntroducing additional infected units for transfusion over the current residual risk must be alanced against the benefits of increasing the pool of blood donors. Also important are ethical and societal factors, which this report does not address. Any policy decision on blood donation deferral of the MSM population must be governed by the best available scientific evidence but there are inherent weaknesses in mathemathical models used in the risk assessments on this issue that continue to generate some uncertainty. With respect to the MSM population, it appears that a policy change from a permanent lifetime deferral to a 5-year deferral following the last MSM contact may be supportable, but societal and ethical consequences must be analyzed should this decision be advanced. Such an analysis should include discussion of what society would consider acceptable risk with respect to safety of the blood supply, as that will determine to what extent a precautionary principle must be factored into any policy decision. Finally, should such a policy change occur, blood collection agencies must be marshaled to collect data that will provide actual data for future risk assessments to improve decision-making on this issue.




RECOMMENDATION (pág. 427)

The Council on Science and Public Health recommends that the following statement be adopted in lieu of Resolution 515 (A-07), and that the remainder of this report be filed:


That our American Medical Association (AMA) recognize that based on existing scientific evidence and risk assessment models, a shift to a 5-year deferral policy for blood donation from men who have sex with men is supportable.


 


Há ainda uma directiva da União Europeia (EC Directive 2004/33) que, no anexo III, define quem está permanentemente excluído de doar sangue:


 


Persons whose sexual behaviour puts them at high risk of acquiring severe infectious diseases that can be transmitted by blood.


 


Em Março de 2008 o Conselho Europeu produziu a Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components - Resolution CM/Res (2008)5 - que conclui que:


 


(...) the fundamental right of the patient to receive the safest possible blood overrides all other considerations, including individuals’ willingness to donate blood. This resolution was adopted by all Member States. (...)


 


Nesse mesmo documento existe uma tabela com os Estados membros que seguem o critério de exclusão de homens que têm sexo com homens (MSM) e os que não seguem, quais os motivos e quais as orientações seguidas. De um total de 27 países, 9 não seguem as guidelines (este documento é de Março de 2009).


 



 


Dar sangue não é um direito. O que é um DIREITO e DE TODOS é o de RECEBER SANGUE com a menor probabilidade possível de conter riscos infecciosos. Cabe aos organismos de saúde pública a responsabilidade de garantirem, tanto quanto os conhecimentos científicos o permitam, que quem o recebe está salvaguardado de doenças futuras, directamente relacionadas com a transfusão. Para isto existem critérios científicos que não se devem misturar com activismo político.


 


Nota: também aqui.


 


Adenda (1) (01/08/2009) - os dados e estatísticas nacionais em relação à infecção HIV/SIDA estão no site da Coordenação Nacional para a infecção HIV/SIDA, no separador documentação e informação, Infecção VIH/sida (CVEDT/INSA) - Dados VIH/sida Doc. 140 - A situação em Portugal a 31 de Dezembro de 2008.


 


Adenda (2) (01/08/2009) - usando os dados do INSA, Infecção VIH/SIDA (doc. 140), actualizados a 31/12/2008, os cálculos de incidência (em 2008) e de prevalência (de 1983 a 2008), considerando a existência de 7,5% de população homossexual (feminina e masculina) e/ou bissexual (média das referências nas sociedades ocidentais – 2 a 13%) os valores encontrados são:



  • Incidência (2008) - 6 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 3 por 100.000 habitantes na população heterossexual

  • Prevalência (1983/2008) – 256 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 130 por 100.000 habitantes na população heterossexual


Ou seja, existe o dobro da prevalência e da incidência da infecção VIH/SIDA na população homossexual/bissexual quando se compara com a população heterossexual.


 









Mas se considerarmos as percentagens estimadas da população homo/bissexual (2,2%) num trabalho do ICS, coordenado pelos investigadores Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira, do qual fizeram parte Sofia Aboim, Duarte Vilar, Alexandre Lourenço e Raquel Lucas (já citado anteriormente), apresentado em Maio do ano passado no auditório do ICS,  com debate integrado por várias personalidades, entre as quais Miguel Vale de Almeida, a prevalência seria 874 por 100.000 e a incidência 21 por 100.000 habitantes, 7 vezes superiores aos da população heterossexual.


 


E estamos apenas a falar da infecção VIH/SIDA. Faltam as hepatites (B, C, D, …), os Herpes Vírus (HHV-8 e HHV-2), etc.


 


Adenda (3) (02/08/2009) - Agradeço à Ana Matos Pires a  chamada de atenção em relação à incorrecção da adenda 2, já corrigida, que dava como co-autor do trabalho do ICS Miguel Vale de Almeida. Aos autores e ao Miguel Vale de Almeida peço desculpa pelo erro.


 





29 julho 2009

Dos deslumbramentos

 


Sou tão deslumbrada que me deslumbro até com os deslumbramentos que provoco com a minha deslumbrada prosa. Mas se alguém duvida do meu deslumbramento por me deslumbrar com causas tão pouco deslumbrantes, deslumbrado fica pelo deslumbramento sem par que pode causar.


 


E a banda larga nos dai hoje, ora e na hora de deslumbrar.








Dos lugares-comuns

 


Na realidade tenho consciência que digo lugares-comuns em relação a muita coisa, como política educativa, de imigração, energética, ambiental, e até de saúde, pois não é a mesma coisa ser-se operacional ou decisor. São os lugares-comuns que resultam daquilo que os cidadãos comuns pensam da vida colectiva, para além do seu estrito ciclo de relações pessoais e familiares e competências profissionais.


 


A educação é um assunto que importa a todos. A universalização do acesso ao ensino público que se massificou, principalmente desde 1974, foi um ganho indesmentível na alfabetização da população. Aumentou esmagadoramente o número de alunos e professores, foi-se ampliando a escolaridade obrigatória, infelizmente desacompanhada de uma proporcional melhoria e adequação dos currículos, da modernização do parque escolar, da exigência de formação e da diferenciação da profissão docente.


 


A sociedade modificou-se e as famílias não estão disponíveis para assegurar o acompanhamento das crianças e jovens, pedindo-se cada vez mais à escola e aos seus profissionais que assumam vários papéis, transformando-os em transmissores e avaliadores de competências e conhecimentos, psicólogos, médicos e assistentes sociais. Exigem-se polivalências mas não se disponibilizam verbas nem espaços para que elas funcionem. Não existem equipas multidisciplinares com representação destas profissões para que se possam desencadear acções preventivas, para que se possam acompanhar situações de instabilidade familiar ou social.


 


É urgente que se olhe para a escola como uma das bases essenciais do tecido social, no que diz respeito à aquisição de saberes, à socialização e à educação para a cidadania. É preciso dotar as escolas de meios que lhes permitam responder a estes desafios, que permitam a todos, independentemente da sua proveniência sócio económico cultural, terem oportunidade de se integrarem e adquirirem formação para a vida. Devem exigir-se disciplina, rigor, trabalho, competência, a professores e alunos, a quem elabora e a quem escolhe manuais escolares, às associações de pais, às autarquias. Devem adequar-se os meios tecnológicos, as bibliotecas, os ginásios, o ensino da música, da pintura, etc. Há muitas crianças e jovens que poderão contar apenas com os meios que a escola pública lhes oferece para as aprendizagens, socialização e formação.


 


O estado não pode ser o substituto da família mas é o garante do direito à educação; a escola pública é um dos melhores viveiros da democracia.


 


Nota: também aqui.

Respect

 



(Aretha Franklin)


 


 


(oo) What you want

(oo) Baby, I got

(oo) What you need

(oo) Do you know I got it?

(oo) All I'm askin'

(oo) Is for a little respect when you come home (just a little bit)

Hey baby (just a little bit) when you get home

(just a little bit) mister (just a little bit)


 


I ain't gonna do you wrong while you're gone

Ain't gonna do you wrong (oo) 'cause I don't wanna (oo)

All I'm askin' (oo)

Is for a little respect when you come home (just a little bit)

Baby (just a little bit) when you get home (just a little bit)

Yeah (just a little bit)


 


I'm about to give you all of my money

And all I'm askin' in return, honey

Is to give me my profits

When you get home (just a, just a, just a, just a)

Yeah baby (just a, just a, just a, just a)

When you get home (just a little bit)

Yeah (just a little bit)


 


Ooo, your kisses (oo)

Sweeter than honey (oo)

And guess what? (oo)

So is my money (oo)

All I want you to do (oo) for me

Is give it to me when you get home (re, re, re ,re)

Yeah baby (re, re, re ,re)

Whip it to me (respect, just a little bit)

When you get home, now (just a little bit)


 


R-E-S-P-E-C-T

Find out what it means to me

R-E-S-P-E-C-T

Take care, TCB


 


Oh (sock it to me, sock it to me,

sock it to me, sock it to me)

A little respect (sock it to me, sock it to me,

sock it to me, sock it to me)

Whoa, babe (just a little bit)

A little respect (just a little bit)

I get tired (just a little bit)

Keep on tryin' (just a little bit)

You're runnin' out of foolin' (just a little bit)

And I ain't lyin' (just a little bit)

(re, re, re, re) 'spect

When you come home (re, re, re ,re)

Or you might walk in (respect, just a little bit)

And find out I'm gone (just a little bit)

I got to have (just a little bit)

A little respect (just a little bit)

 

Sem olhar

 



pintura de Diane McGregor:


Fly Toward a Secret Sky


 


Olho o mundo basculante perigoso minúsculo

que me chama em voz surda

o vento que me empurra

para o salto

no abismo.


 


Os pássaros seguram as amarras

revoltas as pedras que sustentam

o corpo preparado.

 


Marés soltas

sem olhar.

 

27 julho 2009

Protestos educativos

 


Fenprof promete protesto no início do ano lectivo – não me espanta. A FENPROF não fez outra coisa desde 2005, quando se começou a falar das aulas de substituição, senão protestar.


 


Se há área em que o governo mexeu, e bem, foi na área da educação. Este governo tentou reformar o sistema público de educação desde que tomou posse. Para isso centrou a actuação na reestruturação da carreira docente dignificando-a e organizando-a em dois graus, dando aos mais experientes a possibilidade de terem funções mais específicas e diferenciadas, entre as quais a avaliação de desempenho dos colegas mais inexperientes.


 


Este princípio parece-me de tal forma óbvio que tenho dificuldade em perceber como é possível questioná-lo. No entanto a FENPROF, com todas as suas forças, combateu e combate o estatuto da carreira docente, porque acha que não deve haver vários graus na carreira; combateu e combate com todas as suas forças a avaliação do desempenho porque, na verdade, o reconhecimento do mérito não lhe interessa.


 


Mesmo que se modifique a estrutura da carreira, alterando o concurso de acesso a professor titular ou aumentando os graus da carreira, só o facto de se ter conseguido implementar este princípio é uma reforma estrutural importantíssima. Mesmo que o modelo de avaliação do desempenho seja modificado, simplificado ou complexificado, só o facto de se ter conseguido que se pensasse e fizesse uma avaliação de desempenho, é fundador de uma nova atitude e de uma nova exigência no serviço público de educação.


 


O ministério da educação e o governo foram acusados de autismo, autoritarismo e incompetência. Pois eu penso que a persistência, a coragem e a determinação nestas matérias foram uma marca de qualidade. Haverá que corrigir e melhorar muitas coisas, mas sempre com o sentido numa escola pública de qualidade, que é um dever do estado e o único meio de garantir igualdade de oportunidades a todos os cidadãos.


 


Nota: também aqui.

 

26 julho 2009

Rising

 



Lhasa de Sela


 


 


I got caught in a storm

And carried away

I got turned, turned around


 


I got caught in a storm

That's what happened to me

So I didn't call

And you didn't see me for a while


 


I was rising up

Hitting the ground

And breaking and breaking


 


I was caught in a storm

Things were flying around

And doors were slamming

And windows were breaking

And I couldn't hear what you were saying

I couldn't hear what you were saying

I couldn't hear what you were saying


 


I was rising up

Hitting the ground

And breaking and breaking

 

Madeira - aquele Jardim

 


Gostaria de saber se os responsáveis políticos do PSD, Manuela Ferreira Leite, por exemplo, apesar de engripada, não tem nada a dizer sobre o regime democrático que vigora na Madeira, em que Alberto João Jardim acusa Sócrates de “dar cabo” de Portugal com “a política de Salazar” e, simultaneamente, se recorre à violência, mais precisamente a tiros de carabina, para impedir uma manifestação política (por estrambólica que seja) previamente autorizada,de um partido político (PND).


 


E o Presidente da República, também não está preocupado?


 


Nota: também aqui.


 

não serei

 





Poema de Cláudia Santos Silva


Pintura de Marc Chagall:


Double Portrait with Glass of Wine


 


não serei

dedicada submissa esquecerei

todas as instruções para a limpeza do lar falharei

as poupanças o mutualismo

a pedicura as unhas de gel o peeling a musculação

chegarei tarde

partirei cedo nos jantares casamentos baptizados

será junto de outrem que me sentarei

serei impulsiva ignara

percorrerei desassombros sem referência

não estarei disponível não tomarei a pílula

ansiarei por todos os preliminares amarei

os filhos de um amor não passível de clausulado

não disporei de património herança promessas eternas

em vão buscar-me-ei por entre sonhos e escombros

para que em vão saibas como reconhecer-me

como perder-me enquanto me pergunto

porque razão haverás tu de querer-me

não serei um bom partido

assim velha gorda distante mal-humorada ávida

tantos adjectivos para uma só pequena pessoa.


 

Da democratização pela tecnologia

 



 


Para além das vantagens que já nomeei, especificamente na área da saúde, a aposta nas novas tecnologias e na informatização é uma aposta na melhoria de acesso ao conhecimento, nomeadamente com a utilização da internet, na possibilidade de qualquer um poder ler um artigo, fazer pesquisas históricas, científicas, ler jornais, contactar pessoas das mais várias áreas geográficas, fazer compras, debater assuntos, visitar museus, apreciar música, descarregar livros em PDF, publicar as suas opiniões, usar serviços públicos como os de finanças, a loja do cidadão, marcação de consultas, etc., etc.


 


A utilização de computadores e da internet é um poderoso meio de democratização: todos temos a possibilidade de conversar com alguém que nos era inacessível, todos temos hipóteses de viajar e de conhecer algo que nos estava vedado, pois as barreiras do espaço e do tempo derrubaram-se. Por outro lado, a internet não é um instrumento apenas para uma elite de políticos e intelectuais, é para um oceano imenso de pessoas anónimas que procuram a comunicação e a informação.


 


É claro que todos os avanços científicos têm o seu lado mau. Todas estas maravilhas tecnológicas são usadas para os mais negros fins, como a pedofilia, o terrorismo, o crime organizado, o tráfico de pessoas, tudo o que a mente humana é capaz de imaginar, do melhor ao pior.


 


Também é verdade que este manancial de informação e possibilidades poderão ser aproveitadas apenas por uma minoria e que são necessárias outras competências para poder usufruir das novas tecnologias. Mas é preciso que sejam disponibilizadas a toda a gente, é preciso que sejam introduzidas nas escolas públicas para que se transformem numa ferramenta de trabalho normal.


 


As mentalidades talvez se mudem mais depressa do que se pensa. Até as pessoas mais velhas se vão rendendo aos computadores e à internet.


 


(Nota: também aqui)


 

25 julho 2009

Your heart is as black as night

  



Melody Gardot


 


 


Your eyes may be whole

but the story I'm told

is that your heart is as black as night

your lips may be sweet

such that I can't compete

but your heart is as black as night


 


I don't know why you came along

at such a perfect time

but if I let you hang around

I'm bound to lose my mind

cause your hands may be strong

but the feeling's all wrong

your heart is as black a night

(2x)


 


Your heart is as black

oh, your heart is as black as night

ah-ah oooooo

 

24 julho 2009

Emético

 



Homem vomitando - Tacuinum Sanitatis, séc. IV


 


É inadmissível o que se está a passar com o caso das gravíssimas complicações em 6 doentes após administração de fármaco intra-ocular, que resultou em cegueira, esperemos que não definitiva.


 


É necessário que se perceba o que aconteceu antes de se começarem a encontrar os culpados e a assistir-se na praça pública às mais irresponsáveis e eméticas (provocam o vómito) declarações de indivíduos como o Dr. João Cordeiro, Presidente da ANF.


 


A luta pelos interesses dos farmacêuticos tem que ter alguns limites éticos. João Cordeiro tem conseguido ultrapassá-los a todos.


 


Nota: A este respeito ler o excelente post de Aidenos, no Saúde SA.

 

SNS e informatização

 



 


A blogosfera afirma-se como um espaço de debate pré-eleitoral, reunindo-se em blogues colectivos ou manifestando-se em blogues individuais.


 


Para já a formação do SIMplex despoletou a emergência do Jamais (para ler em francês), alinhando-se os guerreiros de cada lado da barricada.


 


Ainda bem. É claro, honesto, interessante e divertido. Ma é conveniente não esquecer o objectivo da batalha: discutir opções políticas, alternativas, discutir áreas de actuação em falta, resultados, ideologias.


 


Este governo teve um mérito que não me lembro de ter visto em qualquer governo anterior: acabar com o mito de que a esquerda é indecisa, titubeante, gastadora, perdedora, sem vontade, niveladora por baixo e não reformadora. Este governo apostou nas tecnologias de informação, na formação e na avaliação. Aquilo que foi chamado de propaganda de powerpoint representou uma viragem no paradigma do envelhecimento das mentalidades, foi uma afirmação de que é possível mudar por dentro.


 


É inaceitável que hoje em dia se não aposte na informatização de todos os serviços públicos. A resistência à mudança é clássica, mas não se pode manter a falta de bases de dados actualizáveis e utilizáveis por todos os que delas necessitam.


 


No SNS deve apostar-se na informatização dos Centros de Saúde (CS), nos processos, requisições, prescrições, recados, memorandos, codificações, facturações, gestão de stocks, gestão de circuitos e manutenções de equipamentos, controlos de fluxos de trabalho, digitalização de imagens (radiografias), etc. A objectivação e armazenamento electrónicos tornarão mais ágeis, leves e precisas todas as informações relativamente aos doentes, às terapêuticas, aos meios complementares de diagnóstico, permitirão uma melhor gestão dos tempos e dos recursos e obrigarão ao cumprimento de protocolos, que uniformizam critérios e procedimentos e reduzem a hipótese de erro.


 


Seria de toda a conveniência que os CS, USF e hospitais trabalhassem em rede, o que permitiria que os doentes fossem seguidos em ambulatório pelos seus médicos de família, que poderiam ter e fornecer dados dos seus utentes aos colegas de várias especialidades. Este é um movimento de renovação que tem de continuar.


 


(Publicado também aqui)

 

Aniversários bloguistas

 


Muito diferentes mas igualmente interessantes, parabéns aos blogues Ponto de Cruz e O valor das ideias que fazem, respectivamente, 2 e 1 ano de leituras, umas divertidas, outras informativas.

23 julho 2009

A futura bancarrota

 


Lembram-se do fim da era do petróleo com os preços a subirem todos os dias, há cerca de 1 ano?


 


Pois o espectro da bancarrota faz-me lembrar o último choque petrolífero.


 


Nota: também publicado aqui.


 

Da falta de ideias

 


Tenho lido com atenção as várias reacções ao SIMplex. A sociedade civil, para alguns blogues que apoiam soluções políticas de direita, é importante, indispensável mesmo, quando as suas intervenções são críticas à actuação do governo e do PS.


 


Quando se unem pessoas num blogue que se assumem defensoras da vitória do PS mas que não pertencem ao partido, esses depoimentos, essas opiniões, esses contributos são de idiotas úteis ou apenas de pessoas que estão ao serviço do PS e do governo, assessores ou de carácter pouco duvidoso.


 


É uma visão distorcida da sociedade civil e distorcida do que é um debate democrático e em liberdade. Há até quem já tenha ressuscitado o mistério de Miguel Abrantes para suscitar a desconfiança e o ataque às pessoas, não às ideias.


 


Será porque há falta de ideias no PSD? A desculpa do desconhecimento do verdadeiro défice para que não se proponham alternativas é pouco séria. O PSD, em vez de se esconder atrás dos supostos encobrimentos e mentiras do governo, deveria propor ao país a sua visão da política económica, de saúde, de educação, de defesa e de justiça. O que pensam sobre todos estes temas? Quais as funções do Estado que consideram indispensáveis?


 


O que vão fazer com o tão famoso cheque ensino ou com as taxas moderadoras em relação com o IRS? O que pensam dos outsourcings nos hospitais públicos? Qual o modelo de carreira docente que defendem? O que farão para além de parar o TGV e o aeroporto de Lisboa?


 


Quem quer o poder deverá explicar o que vai fazer com ele. Estamos todos à espera do momento em que, sem os oráculos do costume, Manuela Ferreira Leite nos presenteará com as suas propostas e as do seu partido.


 


Nota: publicado também aqui.


 

22 julho 2009

Poeira

 



Nicholas Phillips: lost


 


Quando arrasto a poeira que todos os dias me tolda

quando sacudo os ombros que todos os dias me pesam

quando respiro o ar que todos os dias me falta

marco encontro com o próximo dia

mais poeirento mais pesado mais rarefeito

sabendo que talvez

um dia

me perca.

 

18 julho 2009

Dos conceitos de liberdade

 


Sobre estes dois assuntos, não vale a pena dizer o que já foi tão bem dito.


 

Transfusões (3)

 


Este tipo de notícias baralham as pessoas e não são rigorosas. Há, de facto, uma directiva da União Europeia (EC Directive 2004/33) que, no anexo III, define que está permanentemente excluído de doar sangue


 


Persons whose sexual behaviour puts them at high risk of acquiring severe infectious diseases that can be transmitted by blood.


 


Num documento de National Health Service (NHS) do Reino Unido explica-se que, em Março de 2008 o Conselho Europeu produziu a Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components - Resolution CM/Res (2008)5 - que conclui que


 


(...) the fundamental right of the patient to receive the safest possible blood overrides all other considerations, including individuals’ willingness to donate blood. This resolution was adopted by all Member States. (...)


 


Nesse mesmo documento existe uma tabela com os Estados membros que seguem o critério de exclusão de MSM e os que não seguem, quais os motivos e quais as orientações seguidas. De um total de 27 países, 9 não seguem as guidelines (este documento é de Março de 2009).


 


Duetto buffo di due gatti

 



Gioacchino Rossini

Duetto buffo di due gatti


Felicity Lott & Ann Murray


BBC Symphony Orchestra

Andrew Davis


Royal Albert Hall

Londres, 1996


 

Transfusões (2)

 



 


Ainda a propósito do assunto da discriminação dos homens homossexuais como dadores de sangue, convém que sejamos rigorosos e que procuremos perceber as razões da exclusão desse grupo populacional.


 


Mais uma vez insisto que essas razões se baseiam em estudos científicos de controlo de risco e são a salvaguarda dos doentes que necessitam do sangue doado (cada pessoa transfundida recebe uma mistura de sangue de vários dadores – concentrados eritrocitários, de plaquetas, etc. - não se usando, praticamente, transfusões de sangue total, o que aumenta o risco de transmissão de infecções).


 


Como em todas as áreas científicas, o que hoje é verdade amanhã pode não ser. Por isso, e pela constante investigação epidemiológica sobre prevalência de infecções nas populações, assim como a identificação de agentes patogénicos, nomeadamente virais, que se vão acumulando, há muitas vezes controvérsia na aplicação de princípios gerais para um determinado assunto, seja ele os critérios de selecção e exclusão de dadores de sangue, como neste caso, ou de classificação de tumores da glândula tiróide.


 


Por isso mesmo, existem grupos nacionais e internacionais que se reúnem periodicamente, analisam os vários contributos científicos em cada área, as consequências para a população, éticas, sociais e de saúde pública, e definem orientações ou guidelines para cada caso. Só assim é possível analisar os dados que vão aparecendo diariamente e, quando a evidência suportar a mudança de atitudes, elas possam ser efectuadas com a segurança possível e com a garantia de que se faz tudo para evitar aumentar o risco inerente a qualquer acto médico.


 


No Annual Meeting de 2008 da American Medical Association (AMA) - REPORTS OF THE COUNCIL ON SCIENCE AND PUBLIC HEALTH - apresentado pela Dra. Mary Anne McCaffree, entre as páginas 421 e 428, faz-se uma revisão das guidelines actuais, as razões, as perguntas e problemas existentes, nomeadamente os levantados socialmente pela sacusações de discriminação dos homens homossexuais, as investigações existentes para determinar se é possível alterar a recusa permanente da doação de sangue por parte deste grupo, conclusões e recomendações (pág. 426 e 427):

 



Men who have had sex with men since 1977 are currently permanently deferred from blood donation. This FDA policy recommendation has generated controversy due concerns that it may be discriminatory and that it stigmatizes the MSM population. It is clear that a policy change with respect to blood donation deferral is a risk management decision wherein the risks of ntroducing additional infected units for transfusion over the current residual risk must be alanced against the benefits of increasing the pool of blood donors. Also important are ethical and societal factors, which this report does not address. Any policy decision on blood donation deferral of the MSM population must be governed by the best available scientific evidence but there are inherent weaknesses in mathemathical models used in the risk assessments on this issue that continue to generate some uncertainty. With respect to the MSM population, it appears that a policy change from a permanent lifetime deferral to a 5-year deferral following the last MSM contact may be supportable, but societal and ethical consequences must be analyzed should this decision be advanced. Such an analysis should include discussion of what society would consider acceptable risk with respect to safety of the blood supply, as that will determine to what extent a precautionary principle must be factored into any policy decision. Finally, should such a policy change occur, blood collection agencies must be marshaled to collect data that will provide actual data for future risk assessments to improve decision-making on this issue.



The Council on Science and Public Health recommends that the following statement be adopted in lieu of Resolution 515 (A-07), and that the remainder of this report be filed:




That our American Medical Association (AMA) recognize that based on existing scientific evidence and risk assessment models, a shift to a 5-year deferral policy for blood donation from men who have sex with men is supportable.


 


Encontrei também outro artigo em que se estuda a hipótese de reduzir esse tempo para 5 anos, implementando a pesquisa sistemática do HHV-8 (Human herpesvírus 8 – associado a linfomas e a sarcoma de Kaposi) no sangue dos dadores.


 


O que está em causa para os organismos públicos, neste como noutros casos, é o dever que têm de garantir aos receptores de sangue o seu direito a serem tratados em segurança.

 

Transfusões (1)

 



(enviada pelo Artista)


 


A exclusão do grupo de homens homossexuais como potenciais dadores de sangue, que é seguida em vários países, nomeadamente no Canadá, EUA, França e Portugal, tem a ver com o conhecimento estatístico relativamente à prevalência de doenças infecciosas neste grupo populacional relativamente a outros.


 


Isto é muito diferente de dizer que o número de novos casos de infecção por HIV, em 2008, foi superior em doentes toxicodependentes e em homens e mulheres heterossexuais. O que está em causa é a prevalência (a probabilidade - ou risco - de um indivíduo sofrer de uma determinada doença) das doenças infecciosas, não só de HIV mas também de vírus de Hepatites B e C (hepatites virais com probabilidade de desenvolvimento de cirrose e tumores hepáticos, HHV-8 (associado ao desenvolvimento de linfomas e sarcoma de Kaposi) e outros, em homens homossexuais e em toxicodependentendes, em comparação com a prevalência das mesmas infecções noutros grupos estudados (mulheres homossexuais, homens e mulheres heterossexuais, etc.).


 


É ainda importante que se perceba que se dar sangue não é um direito inalienável de qualquer pessoa, receber sangue com a menor probabilidade possível de conter algum destes riscos infecciosos é um direito de todos e um dever dos responsáveis de saúde.


 


Não se trata de discriminação dos comportamentos ou das escolhas de orientação sexual, trata-se de usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, que tem sempre riscos.


 


As guidelines da Cruz Vermelha Americana estipulam as várias circunstâncias em que as pessoas não devem doar sangue e são inúmeras.


 


Continuam as investigações no sentido de saber se há um limite temporal a partir do qual se pode assegurar que o risco de existirem agentes infecciosos no sangue de homossexuais masculinos é idêntico ao risco de heterossexuais e de homossexuais femininos. O que conheço indicam que:




(…) “The available evidence about estimated residual risk (RR)-that is, the risk remaining after various safeguards for blood are applied-strongly suggests that choosing a 1-year deferral period for MSM would almost certainly give rise to an incremental risk of transfusion-transmitted infection (TTI), over existing levels of risk, for blood recipients.” (…)




(…)The report argues that, under these circumstances, such a policy change would represent an unethical type of risk transfer, from one social group to another, and therefore would be unacceptable. (…)




(…)Under these circumstances, other social policy issues, relevant to the idea of changing the deferral period for MSM, become worthy of additional consideration.


 


Com a dificuldade de angariação de dadores de sangue que existe e a universal evidência de que a melhor política em termos de segurança na saúde pública é recorrer à doação voluntária, seria muito importante que todas as pessoas pudessem dar sangue. No entanto cabe aos organismos de saúde pública a responsabilidade de garantirem, tanto quanto os conhecimentos científicos o permitam, que quem recebe o sangue está salvaguardado de doenças futuras, directamente relacionadas com a transfusão.


 


Isso não é discriminação, é uma responsabilidade que devemos exigir e a que todos temos direito.


 


Nota: ler a Cristina, no Contra Capa.

 

17 julho 2009

A lógica do absurdo

 


Pacheco Pereira, o prefeito da Congregação para a causa da boa informação, da excelência, rigor e escrutínio das pessoas públicas, principalmente dos políticos, o defensor das televisões e jornais privados que têm devastado a vida de Sócrates, seus familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos que se atrevem a concordar com ele, nem que seja por momentos, causou a estupefacção geral quando acusou os jornalistas de incomodarem Manuela Ferreira Leite com perguntas despropositadas, como o que queria dizer com rasgar todas as políticas de Sócrates, conhecendo de cor o pensamento de Manuela Ferreira Leite.


 


De facto como se pode aceitar que os jornalistas não entendam que Manuela Ferreira Leite não tem jeito para expor as suas ideias, não entendam que se atrapalha, longe do amparo e da tradução dos seus oráculos?


 


Como a vida pode ser injusta.

 

16 julho 2009

É Lisboa que ganha

 


António Costa vai congregando á sua volta aqueles que já perceberam que Santana Lopes de volta é que não pode ser.


 


Primeiro José Sá Fernandes, depois Helena Roseta. Quem quer fazer alguma coisa pela cidade sabe que António Costa é um homem em quem se confia.


 


Acho engraçada a ginástica que se tem feito para esborratar um pouco a pintura: a estranheza com que é encarado o compromisso de António Costa para com a câmara de Lisboa em paralelo com a indignação do não comprometimento de Elisa Ferreira e de Ana Gomes com as respectivas câmaras do Porto e de Sintra. Um está a preparar-se para assaltar o poder no PS, as outras estão a salvaguardar o emprego em Bruxelas.


 


Tudo serve para criticar. Em Lisboa o PS arrisca-se mesmo a ganhar. Ainda bem para Lisboa.


 

Maré alta

 



Sérgio Godinho


 


 


Aprende a nadar, companheiro

aprende a nadar, companheiro

Que a maré se vai levantar

que a maré se vai levantar

Que a liberdade está a passar por aqui

que a liberdade está a passar por aqui

que a liberdade está a passar por aqui

Maré alta

Maré alta

Maré alta


 

12 julho 2009

Duplas candidatas (2)

 


A decisão de acabar com as duplas candidaturas às eleições por parte do PS foi uma boa decisão. A esse respeito já tinha manifestado a minha opinião sobre as candidatas Ana Gomes e Elisa Ferreira.


 


Acho que era preferível que elas próprias quisessem fazer essa escolha. Mas há que não aproveitar a decisão do PS para denegrir as candidatas e tentar justificar o seu ataque, nomeadamente de dentro das estruturas do PS  do Porto, que de imediato vem exigir uma decisão de Elisa Ferreira.


 


A verdade é que, quando estas candidaturas foram propostas e aceites não havia quaisquer tipos de restrições. Inclusivamente a dupla candidatura, tanto de Elisa Ferreira como de Ana Gomes, funcionou como uma bandeira do PS, é bom que não nos esqueçamos disso. Por outro lado, tem sido uma prática de sempre e dos vários partidos políticos que só agora se considera importante, depois de Paulo Rangel, demagogicamente, ter usado o pretexto  como arma de arremesso político contra o PS e, pessoalmente, contra as  próprias candidatas.


 


Elisa Ferreira, assim como Ana Gomes, mesmo que não concorde com elas, têm toda a legitimidade de manter a sua posição e parece-me muito negativo que o aparelho partidário mostre ao país a forma como, sob a capa da transparência, faz ultimatos a quem pode não ter vontade de se rodear apenas de indefectíveis militantes.


 


A tendência de rotular as pessoas de oportunistas e vendidas aos seus próprios interesses acabará por afastar muitos independentes dos cargos públicos. E se tanto se clama contra a partidarização do estado, muito pouco se faz a favor da sua despartidarização.

 

Lisboa de Sophia

 



 


Fim da tarde, início da luz brilhante de verão sobre Lisboa. Por vezes cumprem esse ritual de trocarem palavras e silêncios, partilharem interrogações e espantos, olharem essa cidade de colinas e sentirem que o vento lhe lava as almas.


 


A Lisboa de Sophia entrega-se, uma Lisboa mestiça, com aguarelas dos novos habitantes, essa amálgama de gentes e culturas.


 


A Lisboa dos cheiros sedu-las e guia-lhes os passos até a um canto de sabores picantes.


 


A Lisboa dos amigos espera por mais um ritual, por estreitar ainda mais alguns laços indefiníveis.


 


(foto daqui)

 

11 julho 2009

Sozinho

 



Caetano Veloso


 


Às vezes, no silêncio da noite

Eu fico imaginando nós dois

Eu fico ali sonhando acordado, juntando

O antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?

Por que você não cola em mim?

Tô me sentindo muito sozinho!


 


Não sou nem quero ser o seu dono

É que um carinho às vezes cai bem

Eu tenho meus segredos e planos secretos

Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?

E se eu me interessar por alguém?

E se ela, de repente, me ganha?


 


Quando a gente gosta

É claro que a gente cuida

Fala que me ama

Só que é da boca pra fora

Ou você me engana

Ou não está madura

Onde está você agora?


 


Quando a gente gosta

É claro que a gente cuida

Fala que me ama

Só que é da boca pra fora

Ou você me engana

Ou não está madura

Onde está você agora?

 

Escuto

 



poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


pintura de Teresa Dias Coelho


 


Escuto mas não sei


Se o que oiço é silêncio


Ou deus


 


Escuto sem saber se estou ouvindo


O ressoar das planícies do vazio


Ou a consciência atenta


Que nos confins do universo


Me decifra e fita


 


Apenas sei que caminho como quem


É olhado amado e conhecido


E por isso em cada gesto ponho


Solenidade e risco


 

Assumir responsabilidades

 


Vítor Constâncio aprofundou a fragilidade com que se mantém no cargo de Governador do Banco de Portugal. A conferência de imprensa em que questiona a oportunidade da comissão parlamentar sobre a nacionalização do BPN, acusando-a mesmo de ter prejudicado investigações entretanto iniciadas, demonstrou que Vítor Constâncio não soube assumir a sua responsabilidade política pelos casos do BCP, BPP e BPN.


 


É penoso ver Vítor Constâncio colocar-se nesta situação. Devia ter-se demitido logo que começaram a surgir suspeitas de falaha de supervisão.


 

Acordar

 


Manuel Villaverde Cabral, que se considera um homem de esquerda, justifica a ingovernabilidade do país pela saída do PREC. Nas suas palavras, não há solução governativa à esquerda porque os partidos à esquerda do PS foram mantidos à margem do sistema e deveriam ser chamados ao sistema.


 


Manuel Alegre, fundador do PS, considera que tem de haver uma solução governativa que englobe os partidos à esquerda do PS, que se deve governar à esquerda, nomeadamente com os sindicatos.


 


O que Manuel Villaverde Cabral não comenta é a retórica ancestral, conservadora e antidemocrática dos partidos à esquerda do PS que, ao contrário dos seus congéneres europeus, não se remodelaram nem se refrescaram após os idos da queda do muro de Berlim.


 


O que Manuel Alegre não comenta é a instrumentalização partidária das duas centrais sindicais, em que a CGTP, braço sindical do PCP, tenta conseguir na rua aquilo que os votos nunca lhe deram, e em que a UGT funciona como um yes man dos governos em termos de política laboral. Também não especifica o que seriam as políticas de esquerda com uma coligação PS, PCP e BE.


 


Manuel Villaverde Cabral pensa que o governo precisa de um governo inspirado pelo Presidente. Gostaria de saber como se responsabilizaria esse governo. Fazia-se um referendo à actuação presidencial?


 


Adenda: Tal como Carlos Santos, não me fica nenhuma dúvida da escolha de Manuel Alegre nas eleições legislativas. Manuel Alegre é socialista e escolheu ficar no PS.

 

10 julho 2009

Opções políticas

 


Manuela Ferreira Leite rasga e não rasga políticas, rasga e não rasga as várias promessas de um programa de governo que há-de vir. Por um lado defende uma política de verdade, por outro essa política vai-se revelando, de uma forma por vezes tonta, oca, outras de uma forma mais ou menos camuflada. Mas ela existe. A pouco e pouco e nas entrelinhas, lá vai aparecendo o que divide políticas de direita e de esquerda.


 


O documento produzido pelo IFSC, disponível no site, discorre sobre as várias dificuldades e insuficiências do SNS, justificando-as pela culpa deste governo, faz um diagnóstico das dificuldades que enfrentaremos com o envelhecimento populacional e a redução de natalidade, já feito e refeito por todos os que se debruçam sobre este assunto, e as proposta, no fundo, resumem-se a:




(…) Mas, ainda assim, o tema do co-pagamento dos cuidados de saúde continua a ser tabu e a ser tratado com enorme preconceito, como é evidente pela recente introdução de “taxas moderadoras” para cirurgia e internamento como se fosse necessário dissuadir alguém a não abusar do recurso a esses actos médicos. Trata-se, objectivamente, da introdução de um sistema de co-pagamento, variável, em função dos rendimentos. (…)


(…) Na prática o que está em causa quando se fala em modelo de financiamento da saúde não é a introdução de fontes de receita verdadeiramente alternativas mas sim definir: o grau de cobertura que se pretende ver garantido; a existência ou não de seguro voluntário complementar; um verdadeiro seguro social obrigatório ou a recolha através de impostos de doença; a existência ou não de taxas moderadoras e a sua diferenciação em função do rendimento; a promoção ou abolição de benefícios fiscais, etc. (…)


(…) O Estado deve estabelecer um modelo de financiamento:


- Transparente, que permita aos contribuintes avaliar a gestão política dos activos públicos;


- Proporcional e flexível de modo a nunca comprometer ou pôr em risco o acesso dos mais carenciados aos necessários cuidados de saúde;

- Equitativo nas oportunidades ajustando, se necessário, as co-comparticipações dos utentes em função do seu rendimento. Deve proceder-se a um reordenamento de prioridades na área da saúde hierarquizando os cuidados cobertos pela política de redistribuição, definido taxas de cobertura e eventual graduação de co-comparticipações em função do rendimento;

- O financiamento orientado para resultados e em linha com a capacidade dos prestadores para gerir custos e promover qualidade e ganhos de saúde.


 


Defende-se, mais uma vez, o Estado mínimo e regulador, falando-se da complementaridade dos vários sectores, e em rentabilização do sector público, reduzindo os desperdícios, mas nunca como.


 


Esta é uma cisão entre duas visões do problema. A redução dos desperdícios deve iniciar-se pela reorganização e reestruturação dos cuidados de saúde primários e de urgências, que se iniciou com o Ministro Correia de Campos e que o PSD, oportunística e demagogicamente atacou, com uma verdadeira rede de referenciação hospitalar, para concentrar o que deve ser concentrado e descentralizar o que pode ser descentralizado, tal como se tentou fazer com a reorganização dos cuidados de saúde materna e que o PSD, demagócica e oportunisticamente atacou, com a rentabilização dos serviços hospitalares e de centros de saúde, aumentando as consultas e as cirurgias, regulando o cumprimento dos horários de trabalho, separando o privado do público, como tentou fazer Correia de Campos ao proibir a acumulação de funções de direcção de serviços públicos e privados, que o PSD oportunística e demagogicamente atacou, insistindo na valorização e implementação dos genéricos, etc.


 


Estes devem ser os temas de discussão na campanha eleitoral, para que todos saibamos exactamente quais as alternativas ao governo do PS.

 

09 julho 2009

Mar de Agosto

 



(pintura de Gerhard Richter: silsersee) 


 


Às vezes penso no mar de Agosto

manto imenso de azul profundo

no peso e embalo do marulhar

do intenso e inaugural início

de um tempo suspenso.


 


Às vezes sinto o mar de Agosto

no lento sussurro dos teus olhos.


 

08 julho 2009

Higiene e Gripe (H1N1)

 


Fala-se em pandemia e em muitos casos de infectados com gripe e começa a surgir o pânico. A informação detalhada, calma e rigorosa é a melhor arma contra os fantasmas e o medo.


 


É natural que haja, cada vez mais, pessoas a serem infectadas pelo vírus da gripe A (H1N1). Todos devem perceber que a gripe é uma doença viral, autolimitada e que, na imensa maioria das vezes, tem um curso benigno e não deixa sequelas.


 


Então porquê o alarmismo?



  • Se houver muitíssimas pessoas infectadas os incómodos causados, não só para os doentes individualmente mas como para a sociedade em geral, empresas, hospitais, escolas, supermercados, transportes públicos, etc., podem ser bastante importantes. Daí o objectivo de conter o melhor possível a propagação do vírus e os contágios.


Para isso a melhor arma é a higiene individual: lavar muitas vezes as mãos, assoar-se para um lenço de papel que se deve deitar imediatamente no lixo, manter-se em casa para impedir que se contagiem outros os colegas e os transeuntes, não recorrer aos serviços de urgência hospitalar, usar a Linha Saúde 24: 808 24 24 24 para esclarecer dúvidas, não tomar antivirais a não ser que sejam expressamente recomendados pelo médico, manter-se o mais possível isolado dentro de casa para não contagiar quem de si trata, tomar apenas anti-piréticos (paracetamol), repousar e beber líquidos.



  • Há alguns grupos de pessoas (grupos de risco) que, se forem infectadas, têm mais probabilidade de ter complicações. Este vírus é mais prevalente nos jovens e parece ser mais agressivo nos que já têm doenças crónicas e nas grávidas. Estão a ser definidos pela OMS exactamente quais os grupos de risco  precisamente para quando houver uma vacina disponível se saber quem deve ser vacinado.


Quanto aos estabelecimentos públicos, quaisquer que eles sejam, devem preparar-se e ter planos de contingência para o caso de haver muitas pessoas que estejam impedidas de trabalhar (ou porque têm gripe, ou porque estão de quarentena, ou porque estão a tratar de quem tem gripe). O que é necessário para eliminar o vírus das superfícies dos edifícios, das paredes e das janelas é um bom arejamento e lavagens frequentes com detergente doméstico comum, de puxadores de porta, brinquedos, tudo o que possa estar em contacto com as mãos.


 


O encerramento das escolas deve ser decidido seguindo as instruções dos documentos que estão disponíveis no site da Direcção Geral de Saúde e com os delegados de saúde. Não me parece que o adiamento da abertura do ano lectivo resolva seja o que for. Se estas não têm condições para enfrentar a gripe é porque não têm condições para funcionar, com ou sem gripe. Convém manter a calma e o bom senso e, caso a caso, com os professores e os responsáveis autárquicos, prover aos instrumentos de higiene e saúde que devem estar sempre disponíveis.


 


Aqui ficam alguns sites em que se pode ler informação fidedigna:



  1. Direcção Geral de Saúde

  2. Organização Mundial de Saúde





  (A 6 de Julho: 94 512 casos; 429 fatais - mortalidade de 0,4%)

Desgoverno governamental

 



 


Tenho defendido a política de educação deste governo e continuo a pensar que, apesar de muitos senãos e ainda ques, foi o melhor governo que tivemos desde há muitos anos, tremendo perante o regresso da alternativa protagonizada pela Dra. Manuela Ferreira Leite.


 


Por isso custa-me muito assistir aos completos disparates que, no fim da legislatura, se vão ouvindo de todos os quadrantes governamentais.


 


As declarações de Valter Lemos e de Maria de Lurdes Rodrigues sobre o resultado dos exames nacionais, nomeadamente os de Matemática, revelam um total desrespeito pelas pessoas, especialmente as que estão mais directamente envolvidas  no assunto, professores e alunos.


 


É óbvio que os exames do ano passado foram muito mais fáceis do que os deste ano e que os resultados reflectem isso mesmo. É claro que há um longo caminho a percorrer e que os exames deverão enquadrar-se na exigência que reflicta uma boa aprendizagem e não em exageros, seja para que lado for.


 


Não concordo com o dantes é que era bom, porque já há muito tempo que é muito mau. Ao contrário de fazer luta política desonesta era preferível que o Ministério assumisse que iria analisar os resultados e encontrar explicações para o que se passa, mudando o que há para mudar, ajustando o que precisa ser ajustado.


 


Não são as reformas que fazem perder eleições, é a incapacidade de tratar os eleitores como seres pensantes. Convém que o PS e o seu governo não desbaratem o capital de confiança que ainda possam ter.


 



 

07 julho 2009

Duplas candidatas (1)

 


As candidaturas assumidas por figuras dos partidos a cargos resultantes de eleições diferentes, cargos esses que deverão ser exercidos em simultâneo, não dignificam esses cargos nem quem se candidata a exercê-los.


 


aqui tinha expresso a minha discordância quanto ao facto de Elisa Ferreira e Ana Gomes serem candidatas às eleições europeias e às eleições autárquicas. No entretanto, após a derrota eleitoral nas europeias, o PS (e bem) decidiu excluir as duplas candidaturas entre as eleições autárquicas e legislativas.


 


Tal como Manuel Alegre, também penso que Ana Gomes e Elisa Ferreira deviam escolher: ou mantém o seu lugar como deputadas no Parlamento Europeu, ou desistem dele e concorrem às autarquias de Sintra e do Porto. Seria um gesto clarificador e demonstrativo de que a mudança de atitude do partido é de fundo e não conjuntural.


 

Preocupações Presidenciais (2)

 


As últimas declarações do Presidente da República, com especial ênfase na sua indignação em relação à inigualável e triste figura de um membro do governo (Manuel Pinho) em pleno plenário da Assembleia da República, motivou vários posts e algumas reacções, também ao que escrevi, que importa esclarecer.


 


Em primeiro lugar e como é óbvio, o Presidente da República tem o direito de se pronunciar sobre aquilo que muito bem entender, independentemente das suas competências constitucionais. Estas estão explícitas na Constituição, não só no artigo 133º (competência quanto a outros órgãos), como também no 120º (definição) e no 134º (competência para prática de actos próprios), entre outros.


 


Tiago Moreira Ramalho refugia-se no formalismo da interpretação constitucional do artigo 133º para lembrar que o Presidente é quem nomeia e exonera o governo e os ministros, explicando assim que a sua intervenção esteve estritamente dentro do quadro constitucional das suas competências.


 


Mas não é disso que se trata, até porque o Presidente não actuou, apenas se pronunciou. E aquilo que eu critico são os critérios que o levaram a pronunciar-se sobre a sacralidade da Instituição democrática que é a Assembleia da República e a não se pronunciar sobre os episódios da Assembleia Regional da Madeira, como o impedimento de entrada de um deputado e a suspensão de funcionamento da Assembleia, assim como ao facto de não ser recebido institucionalmente na Assembleia Regional aquando da sua visita como Presidente da República.


 


Será que eu não poderei usar o artigo 120º, que define a função presidencial - O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas. – e não poderei perguntar se Cavaco Silva não terá achado que não estava garantido o regular funcionamento da Instituição democrática, que ele considera sagrada, na Assembleia Regional da Madeira? Qual a razão que o levou a não pronunciar-se dessa vez e a pronunciar-se agora?


 


Até porque, e segundo o artigo 134º (competência para actos próprios), compete ao Presidente - e) Pronunciar-se sobre todas as emergências graves para a vida da República;


São os critérios que o Presidente tem para achar indispensável dar-nos a conhecer a sua opinião num caso e achar dispensável elucidar-nos sobre o que pensa no outro caso que eu contesto, pois acho que seguem orientações partidárias e não o interesse do país. É a minah opinião, que não pretende manipular ninguém.


 


O JAA faz um paralelo com os presidentes anteriores e considera natural a actuação destes quando favorecem os seus partidos ou as suas bases ideológicas.  Justifica mesmo a actuação deste Presidente pelo assalto do governo à máquina do estado e pela forma como, paulatinadamente, Cavaco Silva deixou de concordar com as orientações de José Sócrates.


 


Sinceramente, e embora me considere muito ignorante na matéria, não me parece que seja este o espírito da Constituição.


 

Do que cada casa gasta

 



 


Pacheco Pereira está enganado. Quem disse que o primeiro programa Ponto/Contraponto era um programa televisivo de propaganda mal disfarçada e de pouca qualidade fui eu (no motor de busca do Google apenas eu e Pacheco Pereira usámos esta frase) e não faço parte daqueles que Pacheco Pereira nomeia: Os seus autores são jornalistas, profissionais de empresas de comunicação e marketing, candidatos a jornalistas e candidatos a políticos, assessores do governo, uns com nome, outros com pseudónimo.


 


É extraordinário como Pacheco Pereira se sente imune à crítica, tal a impossibilidade de fazer algo que não seja de elevada qualidade e acima de qualquer hipótese de tentativa de instrumentalização. Alguém que ouse não gostar do seu programa só o pode fazer com intenções perversas ou, tal como afirma: Todos dão um excelente exemplo do grau de decência com que hoje se vive na comunicação e na política e da incontida raiva que os povoa. Não me surpreendi, porque sei do que algumas casas gastam.


 


Pacheco Pereira não sabe, nem desconfia o que gasta ou como gasta esta casa. Pelo menos a decência de linkar os posts que cita e de se colocar em causa porque, se calhar, por uma remota hipótese, o seu programa não tem mesmo qualidade e faz propaganda descarada.


 


Adenda: sou médica, trabalho a tempo inteiro na minha profissão, não sou nem nunca fui filiada em qualquer partido político, não trabalho nem nunca trabalhei para qualquer governo, não sou nem nunca fui assessora de qualquer governo. Assino o meu nome em tudo o que faço.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...