27 fevereiro 2007

Cartas de Iwo Jima

Mar e areia negra, pesada. Vozes rituais, rudes, parcas. Silêncios doridos, grandes, enevoados. Olhos cheios, brilhantes, imensos.

Solidão e brancura no meio da guerra, dos estrondos, do horror, do destino, da morte, do inevitável. Cartas em que se mantém a ligação com a vida, em que se despe a rigidez e a amargura. Cartas enterradas com a honra, com a morte, com o inevitável.

A sobriedade da cor, dos gestos, dos sentimentos, o rigor dos planos, os silêncios, o mar, a areia, o que se cala, o que se descobre no inimigo, o inimigo que se incorpora no corpo do soldado, o que se vacila.

O respeito com que Clint Eastwood filmou o inimigo, a dor dos homens, de todos os homens que têm que cumprir uma missão aniquiladora, a guerra na sua versão mais dura e depauperada, na sua versão de glória interior.

26 fevereiro 2007

Protocolos (2)

(continuação do post anterior)

  • Montijo (64) encerramento do SU; protocolo: (…) Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, a missão do Hospital Distrital do Montijo será redefinida, com base na reorientação da capacidade instalada, criando condições para uma melhor resposta da actividade ambulatória (cirurgia de ambulatório, MCDT, consulta externa) e uma resposta qualificada na área de cuidados continuados. (…) Unidade Hospitalar do Montijo aumentará o número de valências (…) futuro Centro Hospitalar, apostar-se-á na cirurgia de ambulatório, designadamente nas especialidades de otorrino, oftalmologia e cirurgia geral. (…) Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo encetará esforços no sentido da criação de uma unidade de convalescença no futuro Centro Hospitalar. (…) transporte de doentes, em situação aguda, referenciados às urgências médico-cirúrgicas e/ou polivalente, será reforçado com uma ambulância SIV sedeada no município do Montijo. (…) actual “serviço de urgência” do Hospital Distrital do Montijo manterá o seu modo e horário de funcionamento até à constituição do Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, assegurando um Serviço de Urgência Básico. (...) Após doze meses da constituição do Centro Hospitalar, a respectiva administração, em concertação com os centros de saúde e em directa articulação com os municípios envolvidos, reavaliará a malha de atendimento e transporte da população da respectiva área de atracção nas situações agudas e de urgência. (…) eventual alargamento dos horários de atendimento dos Centros de Saúde até às 22h00 horas, todos os dias úteis, e das 09h00 às 15h00 aos fins-de-semana e feriados (…)

Afinal, e até agora, apenas nos casos de Macedo de Cavaleiros e do Montijo não foram seguidas as recomendações que constam do relatório final. No primeiro caso, por não estarem asseguradas as condições de acessibilidade mínimas; no segundo caso decidiu-se seguir os exemplos de Fafe e de Santo Tirso, não percebi porquê.


Afinal quem mais se aproximou da verdade foi o JN. Houve uma derrota política do ministro, pois não conseguiu, por si só, implementar a sua política, tendo necessitado do apoio de Sócrates que, assim, o fragilizou.


Mas não têm razão os que falam em recuo na reestruturação da rede de urgências. O que está a ser feito é o que estava planeado, com ajustes e caso a caso, como é razoável e indipensável.


Ainda bem, porque assim ganhamos todos. Quanto ao papel dos jornais e dos jornalistas, penso que há matéria e factos para cada um tirar as suas próprias conclusões. As minhas, infelizmente, não são as mais agradáveis no que diz respeito à sua independência, rigor e competência.

Protocolos (1)

Estão disponíveis, no Portal da Saúde, os protocolos assinados pelo Ministério da Saúde e pelas Autarquias a 24 deste mês.

Comparando as recomendações que constam do relatório final da Proposta da Rede de Urgências, com o acordado:




  • Cantanhede (34) encerramento do SU; protocolo: (…) centrará a sua actividade na prestação de cuidados continuados de convalescença e paliativos (…) cirurgia de ambulatório, os cuidados domiciliários em articulação com o centro de saúde, MCDT básicos e medicina física e reabilitação que estenderá aos centros de saúde, e consultas de ambulatório (…) Unidade Móvel de Saúde (…) Os casos urgentes e emergentes, quer os que ocorram durante o dia, quer os que ocorram das 00h00 às 08h00, serão reencaminhados para o SUP dos Hospitais da Universidade de Coimbra ou para o SUMC do Hospital da Figueira da Foz. (…) socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão reforçados, até 1 de Outubro de 2007, por ambulância SIV, com um enfermeiro e TAE, destinada a servir os municípios de Mira e Cantanhede. (…)consulta não-programada para casos agudos do foro ambulatório, sob a responsabilidade do centro de saúde, diariamente e em horário alargado, das 08h00 às 24h00, com acesso directo aos MCDT do Hospital, que cobrirá a maior parte da actual procura da urgência. (...) Esta consulta será instalada até ao dia 1 de Outubro de 2007.

  • Espinho (29) encerramento do SU; protocolo: (…) incremento do número e variedade de consultas de ambulatório (…) cirurgia de ambulatório como oferta cirúrgica, funcionando em dois períodos diários (de manhã e de tarde) (…) actividade do Hospital será centrada na prestação de cuidados continuados de convalescença (…) criação de uma segunda Unidade de Saúde Familiar no município de Espinho (…) O socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão assegurados pelas VMER sedeada em Vila Nova de Gaia ou em Santa Maria da Feira, esta última a instalar, sendo reforçado por ambulância do INEM, com técnico de ambulância de emergência (TAE), a sedear em Espinho 24 horas por dia, até 1 de Outubro de 2007. (…) casos urgentes e emergentes, será feito através do CODU e da consulta a seguir referida para os casos que eventualmente aí se dirijam, para o SUMC do Hospital de Gaia. (…) O Hospital Nossa Senhora da Ajuda - Espinho acomodará nas suas actuais instalações da urgência uma consulta não-programada para casos agudos do foro ambulatório, sob a responsabilidade do centro de saúde, em horário alargado, das 8h00 às 24h00, com acesso directo aos MCDT do Hospital. Esta Consulta será instalada até ao dia 1 de Outubro de 2007. Até esta data, manter-se-ão os actuais serviços.

  • Fafe (15) encerramento do SU, funciona SU nível Básico até reforço Guimarães: protocolo: (…) centro de saúde de Fafe assegurará a sua actividade, designadamente a “consulta aberta”, para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00 todos os dias úteis e das 09h00 às 18h00 aos fins-de-semana e feriados. (…) deverá entrar em funcionamento no próximo dia 25 de Abril. (…) A partir do próximo dia 25 de Abril, o Hospital São José – Fafe assegurará um Serviço de Urgência Básico (…) Esta situação será reapreciada no contexto do futuro Centro Hospitalar Guimarães-Fafe. (…) 1 de Outubro de 2007 será colocada no Hospital São José de Fafe uma ambulância SIV (suporte imediato de vida), com tripulação profissionalizada de enfermeiro e técnico de ambulância de emergência. (…) A Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde (…) A Administração Regional de Saúde do Norte promoverá o alargamento da Rede de Cuidados de Continuados Integrados no distrito (…)

  • Macedo de Cavaleiros (7) encerramento do SU; protocolo: (...) Tendo em conta as excepcionais dificuldades e acessibilidades viárias, ainda não solucionadas pela não conclusão do Plano Rodoviário Nacional, na Unidade Hospitalar de Macedo de Cavaleiros funcionará um Serviço de Urgência Básica (SUB), integrando a futura rede de Urgências. (...) socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão reforçados, com início a 1 de Janeiro de 2008, por um helicóptero SIV, sedeado em Macedo de Cavaleiros, com um enfermeiro e um técnico de ambulância de emergência, que, quando o helicóptero não estiver a ser utilizado, por impossibilidade meteorológica, se deslocam em ambulância SIV, igualmente sedeada em Macedo de Cavaleiros. (...) centros de saúde do Distrito de Bragança, assegurarão a sua actividade, designadamente a "consulta aberta" para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00, todos os dias úteis, e das 09h00 às 15h00 horas aos fins de semana e feriados, a partir do próximo dia 25 de Abril (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde do Distrito de Bragança (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a Rede de Cuidados de Continuados Integrados no Distrito de Bragança (...) Centro Hospitalar do Nordeste garantirá, com a brevidade possível, a criação de consultas de especialidade (...)
  • Santo Tirso (18) encerramento do SU, funciona SU nível Básico até reforço Famalicão: protocolo: (...) centros de saúde de Santo Tirso, Negrelos e Trofa, da área de influência da Unidade Hospitalar de Santo Tirso, asseguram a sua actividade, designadamente a "consulta aberta" para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00, todos os dias úteis, e das 08h00 às 20h00 aos fins de semana e feriados. (...) 25 de Abril 2007, a Unidade Hospitalar de Santo Tirso assegurará um Serviço de Urgência Básico (...) Esta situação será reapreciada no contexto do futuro Centro Hospitalar. (...) 1 de Outubro de 2007 será colocada na Unidade Hospitalar de Santo Tirso uma ambulância SIV (suporte imediato de vida), com tripulação profissionalizada de enfermeiro e técnico de ambulância de emergência. (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde (...)

25 fevereiro 2007

Areia

Apressam-se os segundos.

Correm voláteis
pelos nós assinaláveis
renováveis
articulações de memória.

Recusam-se lamentos.

Sopram amáveis
pelos barcos ancoráveis
dedos inábeis
artífices sem glória.

Desfazem-se, esquecem-se.

(pintura de Rom Lammar: roots)

A verdade

Tal como Paulo Gorjão, também estou à espera de ver os protocolos assinados entre as autarquias e o ministério da saúde. Tal como Paulo Gorjão, também aguardo que se esclareçam estas versões desencontradas.

Mas começo já por não perceber porque é que, para além da notícia do JN, que afirma que teve acesso aos protocolos assinados ontem, revelando que o único caso em que não foi seguida a orientação do documento da comissão técnica foi o de Macedo de Cavaleiros, por causa das péssimas acessibilidades, nenhum outro jornal noticiou quais as diferenças entre os protocolos assinados e os planos governamentais, tendo-se limitado a averbar uma derrota estrondosa e um acentuado recuo no fecho das urgências.

Se assim foi, não houve recuo, houve apenas o cumprimento dos compromissos que o ministro assumiu, no que diz respeito ao faseamento e à decisão política da alteração da rede de urgências, decididas caso a caso.

Portanto, e repetindo, que me tenha dado conta, o artigo do JN foi o único que comparou os acordos escritos de ontem com o plano do governo. Porquê? Porque não o fizeram outros jornalistas, outros jornais? Será que não tem interesse? Ou será que só aqueles que têm acesso à Internet e ao Portal da Saúde, onde eventualmente serão disponibilizados os acordos, têm direito a essa informação?

Quem fornece notícias aos jornais tenta, evidentemente, enviar apenas a parte do todo que lhe interessa. Não compete aos jornalistas cruzarem informações, procurarem outras fontes, analisarem documentos, não se deixarem instrumentalizar?

Ou são os próprios órgãos de informação que, deliberadamente, escolhem determinado tipo de informação? Não será isso manipulação de informação?

Como escrevi num post anterior: Se estas notícias são verdadeiras, exactamente assim como são contadas (...). Tal é a minha confiança na dita imprensa de referência. Se calhar não estava enganada.

(pintura de Ciurlionis: a verdade)

24 fevereiro 2007

A suspender

Se estas notícias são verdadeiras, exactamente assim como são contadas, Sócrates prestou um mau serviço ao país e acabou de despedir o ministro Correia de Campos.

Esta reforma está a ser contestada não porque não seja necessária, diria mesmo que ela é imprescindível, não porque não tem fundamentos técnicos e científicos, porque está baseada num relatório que ainda ninguém demonstrou se e onde falha, mas apenas porque é preciso afastar Correia de Campos.

Era previsível que se acendessem todos os rastilhos e que as forças mais conservadoras da sociedade, que vão da direita à esquerda, aproveitassem todas as brechas que se abrissem.

Correia de Campos tem ajudado bastante, com a enorme inabilidade que tem mostrado, falando e rindo quando deveria estar calado e sério. Mas isso não é motivo para se afastar um ministro.

Só o facto de Sócrates ter centralizado o problema da reorganização da rede de urgências, fragilizou enormemente o ministro. O recuo na decisão de quais as urgências que fecham, fragiliza todo o governo e corporiza uma estrondosa derrota política.

É claro que Marques Mendes, que tem andado a dizer a Sócrates para pôr o ministro da saúde na ordem, já contabiliza como vitória o recuo do governo, que teve medo da rua, e criticando-o por isso.

Podem suspirar de alívio todos os que querem suspender o país. Mais uma vez, vamos suspender.

23 fevereiro 2007

Título tinhoso

Quando se fala tanto no fim dos jornais generalistas, quando se discute qual a orientação a dar à informação, se deve ser factual ou interpretativa, se deve haver artigos de opinião ou artigos aprofundados sobre assuntos específicos, eis que nos deparamos com exemplos do que é um péssimo serviço prestado às populações, ao jornalismo e aos jornais.

No DN oline o título desta notícia “Confirmada relação entre tinha e tumores”, para além de ser um enorme disparate em termos científicos, só pode alarmar as pessoas que, nalguma ocasião, tiveram ou terão tinha.


A tinha é uma infecção da pele, provocada por diversos tipos de fungos, contagiosa, que se classifica de acordo com a localização no corpo e se trata com antimicóticos. Mas, há cerca de 40, 50 anos, usavam-se radiações para tratar alguns tipos de tinha (tinha do couro cabeludo, com irradiação da cabeça e pescoço). Sabendo-se, hoje em dia, que as radiações aumentam a probabilidade de se desenvolverem alguns tipos de cancro (pele, tiroideia, etc), o IPATIMUP está a desenvolver um projecto de investigação que consiste em determinar se houve aumento da incidência destes tipos de cancros (ou outros) em doentes que tenham recebido tratamentos com radiações para tratar a tinha, pensa-se que cerca de 53.000 crianças, no Porto e arredores.

Tudo isto está explicado no artigo, ou seja, não é a tinha que está relacionada com tumores, mas sim as radiações usadas para tratar a tinha.

Para assunto tão comichoso foi intitulado de uma forma bem tinhosa!

(tinea capitis – hifas e esporos)

Inutilidade

Ontem discutia-se sobre o significado da poesia, sobre o ser poeta, sobre o artifício da linguagem, a transfiguração da palavra, sobre a mensagem poética.

Só, perante a minha inutilidade como definidora ou catalogadora de actividade tão íntima, tão exigente, tão manipuladora, em frente das palavras que brotam não sei se das vísceras, se da pele, se de algo mais transparente e sinuoso que tenha nome, não me sinto poeta, não me sinto artística, não me sinto mais do que a pobre e miserável tentativa de me olhar, de arrancar de mim esse desacerto, esse desconcerto, esse desassossego que me angustia.

Serei um poeta? Ou serei apenas infinitas possibilidades de mim, fraccionadas umas, expostas outras, hipersensíveis, que se entrechocam e se moldam sem que o eu que me analisa o compreenda?

Serei um poeta? Ou serei apenas o conjunto de emoções pouco atractivas, violentas, repressivas, que se enfeitam e transformam em vazio e nada?


(Ira-Ono: masks)

"Que a voz não te esmoreça/vamos lutar"

Foi em Cabo-Verde, em 1973 que, pela primeira vez, ouvi Zeca Afonso. Não fazia ideia de quem era, o que representava, o que era a política ou qual era o regime em que vivíamos. Não sabia o que era a censura.

Dos problemas de que falavam poucos e das dores de muitos, só me apercebia a 10 de Junho, dia de Portugal, quando o Presidente Américo Tomás condecorava garotos, viúvas, velhos pais e velhas mães, rapazes e homens estropiados, alguns com as mangas dos blusões e as pernas das calças vazias, outros sem olhos, outros conduzidos em cadeiras de rodas, com aquela voz monocórdica lembrando aos portugueses que eles tudo tinham dado pela pátria. Eram momentos de silêncio arrepiante, em que os olhos da minha mãe se marejavam de lágrimas.

Outras vezes em que a palavra pátria nos estremecia era por alturas do Natal, no desfile de rapazes que enviavam, pela televisão, aos seus "entes queridos, pai, mãe, minha adorada mulher e minha filha, um Feliz Natal e um ano cheio de prosperidades. Adeus, até ao meu regresso". Entes queridos que, provavelmente, nunca ouviram esses postais, enredados nas suas vidas feitas de ausências e suspiros, pela inevitabilidade do tributo a prestar à mãe pátria.

Mas em Cabo-Verde, local que o meu pai nos tinha mostrado, numa tarde de Verão, abrindo o Atlas e apontando as ilhas no meio do Atlântico: “é para aqui que vamos, por 2 anos”, totalmente desconhecido, em que aterrámos virgens de mornas e coladeiras, de pão de custarda e de cachupa, bebendo água de um dessalinizador, regalámo-nos de vida boa e de liberdade, adolescentes que éramos entre os 10 e os 15 anos.

A pracinha do Mindelo, a Baía das Gatas, o Monte Cara, os pátios das casas, os terrenos envolventes, as noites cálidas em que os grupos se juntavam a conversar e a participar em sessões de espiritismo, que acabavam sempre à gargalhada, a vida ao ar livre, o crioulo, o liceu, os colegas de várias cores, as recepções nas varandas das casas, as modistas, a má língua, das capitoas, majoras, comandantas e almirantas, o professor de canto coral, as aberturas solenes dos anos lectivos, tudo era uma descoberta, tudo era bom e eterno, mesmo sabendo que estávamos a prazo.

Não havia televisão, mas não fazia falta. Tínhamos as rádio-novelas e os gira-discos, um móvel de pés cónicos, com tampa superior, onde se colocavam os discos que os Alferes milicianos ou as suas esposas traziam da metrópole.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou

E foi este o encanto que nunca se quebrou. Ainda hoje, depois de tantos anos, ainda ouço, como se ainda estivesse sentada no chão fresco de tijoleira, com o cão a tentar acomodar-se debaixo de uma mesa:

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Era o canto de Maio e da esperança. Estávamos todos na Primavera. Após estas estações invernosas apetece cantar com o Zeca Afonso: “Que a voz não te esmoreça/Vamos lutar”. Sempre.

22 fevereiro 2007

Suspendamos

É claro! É preciso suspender a reorganização da rede hospitalar, como era preciso suspender o fecho das maternidades e o fecho das escolas com menos de 10 crianças!

Ao fim de 2 anos, o governo é acusado de apenas ter afrontado algumas classes profissionais, ter tomado algumas medidas superficiais, sem reformas estruturais. No que diz respeito à reorganização da rede de urgências que, no entender da oposição, chefiada pelo PCP e secundada pelo PSD, não é uma reforma estrutural, esta deve ser suspensa.

Aliás, a única coisa que a oposição tem para oferecer é a suspensão. Já vem de longe, com a suspensão da co-incineração, e agora com a suspensão das responsabilidades governativas na Câmara de Lisboa (em que parece que estão todos de acordo em manter a Câmara em suspensão!). O PCP quer que haja explicações técnicas que justifiquem esta reorganização. Devem querer que se nomeie outra comissão científica, tal como já aconteceu com a co-incineração. Se as comissões científicas não dizem o que a oposição quer, nomeia-se outra!

Este país é exímio em estudos, comissões, diagnósticos e considerações. Por isso é que, desde há tantos anos, está suspenso!

21 fevereiro 2007

Graça

Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti.

(poema de Eucanaã Ferraz; recorte de Gémeo Luís)

19 fevereiro 2007

É a guerra!

Alberto João Jardim tornou, infelizmente, a mostrar o cimento carnavalesco de que é feito.

Em cerca de 15 minutos, com uma solenidade de palhaço em desgraça, insultou os órgãos de soberania nacionais, por certo esquecendo-se que ele também é português, os socialistas madeirenses, os seus companheiros de partido, visto que justificou a sua recandidatura por palavras em que enxovalhava todos os outros potenciais candidatos do seu próprio partido. Clamou contra a quebra de solidariedade do país, esquecendo-se da falta de solidariedade que ele demonstrou sempre ao gastar mais do que podia.

Enfim, fez muito barulho, grande estardalhaço, mas não explicou como, depois de legitimado pelo voto dos madeirenses e dos porto-santenses, vai combater o governo central.

Eu aposto na declaração simultânea de secessão de guerra, entre o Soberano Reino da Madeira e Porto Santo contra a República Portuguesa.

Que tristeza!

A urgência da informação

Como era previsível está a repetir-se o que se passou com o fecho das maternidades: a inabilidade política de Correia de Campos, a chantagem dos autarcas, a manipulação das populações, pegando num dos assuntos mais sensíveis e importantes para a generalidade das pessoas.

As manifestações das populações e dos autarcas fazem parte, manifestamente, da luta política dentro e fora do PS. E tenho poucas dúvidas da existência de manipulação populista e demagógica da população, receosa e amedrontada por aquilo que pensa ser um serviço de urgência eficiente e de qualidade.

Vendo o problema pelo aspecto da redistribuição dos serviços às populações, talvez ajudasse a reorganização da divisão administrativa do país, acabando com freguesias e concelhos nuns sítios, aumentando freguesias e concelhos noutros sítios, aproveitando para alterar a distribuição do número de autarcas por esse país fora. Talvez a manutenção do status quo seja uma motivação adicional para protestar. E poder-se-ia aproveitar, quanto antes, para renovar os cadernos eleitorais com um novo recenseamento, por exemplo.

Por muita razão que tenha, Correia de Campos, mais uma vez, está a tratar do assunto com os pés. As pessoas têm razão para se preocupar. As pessoas não sabem, nem têm que saber, que a qualidade e a extensão de serviços que os SAP prestam, sem possibilidades técnicas mínimas e sem pessoal mínimo de atendimento, é um engano e um desperdício de recursos humanos, técnicos e financeiros.

É ao ministro responsável, às comissões por ele nomeadas e às organizações das diversas classes profissionais, que cabe o esclarecimento das populações com informação detalhada e serena, as vezes que forem necessárias.

18 fevereiro 2007

Pra que somar se a gente pode dividir?

Se Vinicius existisse hoje, se calhar não podia existir. Vinicius era o excesso, a necessidade de viver, de amar, de paixão, do pranto, do canto, do carinho, da mulher, da dor, da bebida, do cigarro, de rir, de procurar, de esbanjar, de querer.

Vinicius era tudo o que hoje não se pode ser, porque agora a nossa imaginação e criatividade têm objectivos, deveres e haveres, contabilidade, água de rosas e desodorizante, dentes brilhantes e preservativos, viagra e lençóis de seda, limites de velocidade, limites de desejos e de prazer, limites para o sofrimento, limites.

O filme Vinicius, de Miguel Faria Júnior, transpira ternura e respeito, abraços e lágrimas que crescem, música, divina e tão terrena, transpira negros e ritmos que nos fazem dançar por dentro.

Para guardar do lado esquerdo do peito.

Como dizia o poeta

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

(Vinicius de Moraes / Toquinho)

17 fevereiro 2007

“Broken Bicycles/Junk”

Broken Bicycles



Broken bicycles, old busted chains

Rusted handlebars, out in the rain

Somebody must have an orphanage for

All these things that nobody wants anymore



September's reminding July

It's time to be saying goodbye

Summer is gone, our love will remain

Like old broken bicycles out in the rain



Junk



Motorcars, handlebars

Bicycles for two

Broken-hearted jubilee

Parachutes, army boots

Sleeping bags for two

Sentimental jamboree



"Buy! Buy!" says the sign in the shop window

"Why? Why?" says the junk in the yard



Broken Bicycles



Broken bicycles, don't tell my folks

'Cos all those playing cards pinned to the spokes

Laid out like skeletons out on the lawn

The wheels won't turn when the other half's gone



Seasons can turn on a dime

Somehow I forget every time

For the things that you've given me

Will always stay

They're broken

But I'll never throw them away







[Tom Waits (Broken Bicycle) / Paul McCartney (Junk); Elvis Costello, Anne Sofie Von Otter – For the Stars (2001)]

"Broken Bicycles"

Broken bicycles,

old busted chains,

with busted handle bars

out in the rain.

Somebody must

have an orphanage for

all these things that nobody

wants any more

September's reminding July

it's time to be saying good-bye.



Summer is gone,

our love will remain.

Like old broken bicycles

out in the rain.



Broken Bicycles,

don't tell my folks;

there's all those playing cards

pinned to the spokes,

laid down like skeletons

out on the lawn.

The wheels won't turn

when the other has gone.

The seasons can turn on a dime,

somehow I forget every time;

for all the things that you've given me

will always stay

broken, but I'll never throw them away.





[Tom Waits: Broken Bicycles (One from the Heart, 1982)]

16 fevereiro 2007

Ausência


Olho lentamente na tua direcção
como se atravessasse a memória
da tua ausência.
Respondem-me asas. Na imaginação
sinto a tua presença.


(pintura de Arnaud Juncker: absence)

Paredes

Os passos que constroem paredes
ressoam alto nas sombras.
Ao fundo esperam-me cantos
de luz.
Seja eu capaz
de descobrir os anéis do tempo
nas pedras

com que caminho e construo paredes.

(fotografia de Hugo Madeira)

Peculato

A situação na Câmara de Lisboa é surrealista. Não se consegue perceber a honestidade política de um indivíduo, funcionário público, que sabia há cerca de 3 meses que era arguido num processo relacionado com as funções que exerce nesse cargo público, e não dizer nada a ninguém, sabendo que, para além de tudo o que é decência, da sua posição dependerá a viabilidade política da Câmara.

Isto é verdadeiramente inacreditável. E se o PS tivesse algum candidato credível, ou seja, excluindo o João Soares, o António José Seguro e outros que tais, já teria clamado por novas eleições, tal como o BE tem feito.

Mas com candidatos ou sem eles, não possível manter a Câmara da capital do país neste estado!

Trabalho

Alguma coisa tem de mudar na nossa administração pública, nomeadamente no que diz respeito aos vínculos contratuais e à flexibilidade de emprego.

O despedimento de mais de 3000 estagiários que completam o seu estágio profissional, para o qual foi investido muito dinheiro, para depois não se aproveitarem aqueles que se distinguem pela motivação, pelo empenho e pela competência, apenas e só porque a enormíssima quantidade de funcionários públicos que existe, tantos com fraca produtividade, com fraco empenho e com fraca competência, entope qualquer possibilidade de renovar os quadros de pessoal e de dar emprego aos jovens, que precisam de iniciar a sua vida adulta e autónoma.

É claro que não há artes mágicas que, num abrir e fechar de olhos, solucionem um problema crescente nas nossas sociedades tecnológicas e automatizadas. O trabalho transforma-se num luxo, num privilégio a que só alguns têm acesso. Mas a prestação dos representantes dos trabalhadores tem que olhar para essa fatia da população, tem que defender propostas que dêem hipóteses aos mais jovens.

Em Portugal o movimento sindical, na sua generalidade, tem tentado manter aquilo que já não é possível manter, tem tentado defender o trabalho de quem já tem trabalho, em vez de defender a possibilidade de todos terem acesso ao trabalho, em igualdade de circunstâncias, com o mínimo de dignidade.

Estes jovens são usados depois como mão-de-obra barata, sem protecção social, sem qualquer vínculo, por precário que seja, sem qualquer horizonte de continuidade, de formação, de realização profissional.

Eu não sei quais são as soluções. Mas alguma coisa tem de mudar, e depressa!

A demissão

A notícia da demissão em bloco da direcção do DN deixou-me triste. Tenho vindo a comprar o DN e a gostar cada vez mais dele, principalmente desde que António José Teixeira assumiu a direcção. Tem feito um esforço para melhorar a qualidade dos seus conteúdos e um esforço de isenção (nem sempre conseguido, diga-se em abono da verdade).

A redução do número de leitores e assinantes dos jornais diários, ditos generalistas, prende-se com a tendência geral da comunicação, com crescimento do audiovisual e redução da escrita, e não com a diminuição da qualidade do DN. Mesmo que haja uma aposta na qualidade do jornal, na especialização dos jornalistas para que possam informar com rigor, no aprofundamento das análises por gente credenciada e capaz, mesmo assim, estou convencida que continuará a diminuir o número de compradores. Mas também me parece que a aposta num formato superficial, telegráfico e folclórico levará ao mesmo.

O problema é que, se calhar, o número de leitores de um jornal sério não chega para muitos projectos editoriais. Nesse sentido, tenho pena que o DN esteja a ficar pelo caminho. Não merece.

Bom-senso

Cavaco Silva quebrou o silêncio a que se tinha recolhido durante a campanha para o referendo, silêncio profundo e meditabundo que até o impediu de apelar ao voto, atitude que lhe teria ficado muito bem.

E mais valia que tivesse continuado calado. Porque a sua intervenção, pedindo bom-senso para a legislação sobre um tema que tinha fracturado a sociedade, soou muito parecido com uma orientação à Assembleia da República, mais precisamente ao PS, para ter em conta as opiniões de quem tinha perdido o referendo.

A expressão “melhores práticas europeias” já cansa. O PS está mandatado para legislar, cumprindo as indicações dadas pela vitória do “sim”. Nem mais nem menos. A necessidade imperiosa de aconselhamento obrigatório, tão do agrado dos apoiantes do “não”, mais uma vez uma forma de condicionar, não se sabe exactamente como ou por quem, a decisão das mulheres, esses seres débeis e mentecaptos que Deus deu aos homens para se regalarem, cuidarem e usarem, é uma habilidade ensaiada com o fim de desvirtuar o resultado do referendo.

A decisão informada não tem absolutamente nada a ver com a avaliação da decisão. Espero que o PS mantenha a sua posição, por muito que o Presidente apele ao bom-senso.

14 fevereiro 2007

Namoro

Amor com gomos
e sementes
amor com pele
amor sem tempo
de amar tanto
amor de mel
com que me adoço
com que me aqueço

com que te chamo.

(pintura de Jan Tinholt: encerrados en amor)

Entretenimento

Ontem vi um pedaço do programa abrilhantado por Jaime Nogueira Pinto, em que traçava um Salazar muito à maneira dele, muito patriótico, muito honesto, muito modesto, muito missionário, muito ditador, mas isso até era bom, sem dúvida, mas este povo até gosta, enfim, nunca mais fomos os mesmos, o que era preciso era mesmo outro Salazar para meter isto na ordem.

Há uma ou duas semanas vi um pedaço do mesmo programa, desta vez abrilhantado pela dramática Odete Santos, toda ela em cores de encarnado, com grandes gestos e emocionado semblante, traçando o perfil do herói mais heróico que tivemos a sorte de ter em Portugal, que lutou contra a longa noite do fascismo, com determinação e coragem.

Estes programas, como muito bem disse A. Teixeira, são de entretenimento, e não de informação. Por isso acho absurdas as posições estremadas, de louvor extremo ao programa até à acusação de neosalazarismo encapotado, que se lê pela blogosfera.

Apesar de saber que Álvaro Cunhal defendia um regime idêntico àquele que combatia, não posso deixar de ter alguma simpatia pela sua figura. De facto era inteligente, aventureiro, artista, enfim um herói romântico, que só o foi porque nunca conseguiu chegar ao poder.

Relativamente a Salazar, para mim ele era tudo menos um grande português. Foi um homem que moldou o país à sua imagem e semelhança, sem grandeza de qualquer espécie. A partir do pós guerra, não vejo qualquer justificação para o aprisionamento das pessoas e das ideias, para o empobrecimento, para o enquistamento do conservadorismo e do provincianismo, para a rejeição das novidades na política e na sociedade.

13 fevereiro 2007

Silêncio

Escorre o silêncio
pelas paredes da memória
infiltra o peso
dos fundos escuros dias
buliçosos artefactos
do tempo.


(pintura de Jonas Gerard: Beyond Time and Space I)

12 fevereiro 2007

Eden

Quando escrevo
a minha alma engrandece
e o mundo em que vivo
tem mais brilho.
As palavras são doces
e eternas
rasgando os limites
deste corpo terreno
perecível.

Quando escrevo
vivo vidas de sonho
e pesadelo
paixões sem mágoa
amores encantados
duma beleza pura e interdita
ao meu verdadeiro eu.


(pintura de Gregory Eanes: Tension In Éden)

Alguns considerandos

Muito já se comentou e muito mais se comentará sobre o referendo, a abstenção, os vitoriosos e os derrotados.

A vitória do sim foi um passo para a resolução de vários problemas. Mas foi apenas um passo, o primeiro.

É necessário que os deputados cumpram a sua função, com rapidez, que legislem e regulamentem a alteração ao código penal e outras leis que, verdadeiramente, sem paternalismos nem conversas de ajuda às coitadinhas, implementem políticas de apoio à maternidade e paternidade responsáveis, como creches, flexibilização de horários, partilha entre os progenitores do tempo para acompanhamento das crianças, etc.

É necessário que outras classes com responsabilidades na nossa sociedade compreendam que os tempos são outros. E estou a referir-me, por exemplo, à classe médica. Entre os derrotados estão aqueles que olham a medicina como uma actividade autoritária e tutelar, que se sentem mais respeitados se usarem o argumento da autoridade, dos saberes não partilhados nem questionados. Entre os derrotados está a medicina sobranceira e desligada da realidade, que pretende impor uma ética individual e moralista.

É necessário que essa visão da medicina não ponha entraves à aplicação da lei, no terreno. Como disse Correia de Campos, a objecção de consciência é individual e nunca institucional. Os Directores dos Serviços e os Directores dos Hospitais devem organizar os seus serviços e hospitais de forma a que a lei seja cumprida.

Por outro lado, o código deontológico não pode condenar médicos por praticarem actos permitidos por lei. O argumento de que, na prática, isso não existe, é disparatado e desonesto. A revisão do código deontológico é inevitável e era bom que o Bastonário o reconhecesse, e quanto mais depressa melhor!

11 fevereiro 2007

Do mal o menos!

Ao contrário do que tenho ouvido proclamar pelos vários dirigentes políticos, com ar digno e pose de estado, incluindo José Sócrates, não me parece que esta tenha sido uma vitória da democracia.

Foi mesmo uma derrota, mais uma derrota. Os portugueses não se interessam pelo colectivo, não se acham responsáveis para decidir, não gostam de ser chamados a participar. Por preguiça, por alheamento, não sei. Seja pelo que for, o referendo, quanto a mim, só voltará a ser utilizado por quem, como António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, aliás, finjam que querem resolver algo, mas não querem mesmo nada.

Do mal o menos, o sim é maioritário e, finalmente, a lei será alterada.

Da campanha, ficará para a história o vídeo dos Gato Fedorento, uma crítica mordaz e mortal a Marcelo Rebelo de Sousa, que nunca mais será visto da mesma forma.

Do ziguezague de Marques Mendes, das mistificações, das chantagens emocionais, das manipulações dos dados científicos, protagonizados pelos adeptos do não, fica a falta de credibilidade e a derrota daqueles que se pensam donos da moral e da consciência de todos.

Alguns blogues prestaram um verdadeiro serviço público, entre os quais o Sim no Referendo, um fórum constituído por gente das mais variadas áreas, das mais variadas tendências, das mais variadas profissões, e o Médicos pela Escolha por ser um blogue rigoroso, com a preocupação de informar, deixando perceber que os médicos são parceiros indispensáveis no aconselhamento sem imposição, sem que as suas posições ideológicas, culturais, éticas, condicionem a escolha dos doentes.

E repito, do mal o menos, ganhou o SIM!

Ainda vão a tempo

Aqui está uma boa notícia a que junto o meu pedido de desculpas ao presidente da Câmara, pela minha precipitada avaliação. O facto de se ter aberto a mesa de voto em Viegas, a pedido de Moita Flores, mostra bem o desejo de não confundir planos políticos nem atitudes contraproducentes.Só falta votar, porque o voto é o testemunho da nossa cidadania interveniente!

Adenda: gostava que o mesmo se passasse em Bornes de Aguiar, e que o presidente da Junta de Freguesia, Rui Sousa, desse o exemplo, votando!

Abstenção

Às 11:30 desta manhã cinzenta, eu era a votante número 100. Na minha mesa estão recenseados cerca de 1500 eleitores.

Ou seja, na minha mesa a afluência (às 11:30) era de… 6%.

Estou com muitos maus pressentimentos. É preciso votar. Não deixemos que tão poucos decidam por tantos!

10 fevereiro 2007

Votar

Já se começaram a ouvir as costumeiras ameaças a boicotes na votação de amanhã.

Não percebo porque é que se utiliza a não votação como protesto.

Ao contrário do que é lógico, o protesto é uma atitude activa, não votar é uma atitude passiva. Não vejo qualquer justificação para que se deixe de votar e se impeça outros de o fazer, para que se apareça na televisão e se chegue aos olhos ouvidos do resto do país.

O referendo em causa nada tem a ver com a política de ordenamento do território ou com a desertificação do interior. Por isso não se entende porque é que a população de Viegas o vai usar como protesto (pelo que ouvi na TSF). Mais grave ainda me parece a compreensão do Presidente da Câmara de Santarém (Moita Flores), em vez da frontal e corajosa condenação de tal boicote, por muito justas que sejam as reivindicações da população Mas o populismo também é isto!

É preciso votar, escolher, decidir, darmo-nos ao trabalho de enfrentar a chuva, o vento, o frio, a preguiça, para darmos o nosso contributo. Seja qual for o resultado de amanhã, os próximos anos deverão ser ditados (no que se refere à matéria a referendar) pela grande maioria da população e não por metade, um terço ou um quarto dos portugueses.

É preciso votar, de manhã ou à tarde, entre o café da manhã e o jornal diário, antes do supermercado ou depois da missa, durante o passeio higiénico, com sapatilhas, botas ou sapatos de salto alto, todos a empunhar o cartão de eleitor e o BI, que a caneta nem é precisa!

Vamos todos votar amanhã!

Funções nucleares do estado

Têm vindo a ser publicadas algumas notícias sobre entrega do relatório final do estudo sobre a sustentabilidade financeira do SNS, fazendo passar-se a ideia de que a saída de um dos peritos que constituem a tal comissão, em desacordo com as recomendações do relatório, por serem economicistas, estará relacionada com a inevitabilidade de um novo imposto e/ou de pagamentos adicionais que cobrirão serviços adicionais, ou seja, um SNS tendencialmente pago.

Por coincidência (ou não), também foi noticiada a existência de uma proposta governamental entregue aos sindicatos, em que acabará o contrato vitalício de trabalho no funcionalismo público, com excepção dos oficiais das Forças Armadas, polícias, guardas, investigadores, magistrados e diplomatas. A isto se liga a discussão que estará em aberto sobre as funções nucleares do estado, abrindo o governo a possibilidade de excluir destas a saúde, a educação e a segurança social, mantendo a segurança, a defesa e a representação externa.

Com a calma que me é possível aguardo a clarificação de toda esta embrulhada.

Em primeiro lugar, a determinação de quais são as funções obrigatórias e essenciais a serem asseguradas pelo estado é uma escolha política e ideológica, não me parecendo (não acreditando) que este governo, apoiado por uma maioria absoluta do partido socialista, assuma o fim do estado providência, assuma que, em Portugal, o estado se demite de assegurar o serviço público de educação e saúde.

Em segundo lugar, a reforma da administração pública não se pode adiar mais, sendo urgente iniciarem-se negociações com os sindicatos no que se refere às várias carreiras da função pública, aos contratos de trabalho, às remunerações e aos vínculos contratuais com o estado.

A reforma e reorganização das carreiras e dos estatutos dos vários sectores da função pública, mesmo no que diz respeito à perca do vínculo vitalício, não é obrigatoriamente igual à exclusão de certas funções, nem significa que o estado deixe de ser responsável por certas áreas.

Se o estado considerar que não é sua função assegurar a saúde, a segurança social e a educação, poderemos deixar de nos preocupar com a sustentabilidade do SNS. Ou será que este vai ser função nuclear das empresas privadas?

Espero que os socialistas, se é que ainda existem, clarifiquem exactamente o que está em causa: se um envenenamento da opinião pública para lançar nuvens de pó e grande alarido, na tentativa de instrumentalizar os funcionários públicos contra a reforma da administração pública, ou uma encapotada reforma ultraliberal do estado, protagonizada pelo primeiro governo socialista com maioria absoluta.

Para mim, faz uma grande diferença.

09 fevereiro 2007

Reflexão

Amanhã é dia de reflexão. Mas tenho reflectido bastante ao longo destes dias.

No domingo estão várias coisas em causa, embora se vá responder simplesmente a uma pergunta.

Em causa está a capacidade que temos de usar o nosso talento, a nossa mobilização e as nossas forças argumentativas numa verdadeira participação cívica. O voto é uma obrigação moral e ética de quem respeita a democracia. O referendo é uma forma de democracia directa e participativa que tem, neste domingo, o seu certificado de saúde ou de óbito. Se a sociedade civil, tantas vezes indignada por não poder fazer ouvir a sua voz, se abstiver neste referendo, deixa de haver razão política para a sua manutenção.

Em causa está a forma como a mulher é ainda considerada pela nossa sociedade. Muito se tem falado dos direitos do feto, da inviolabilidade e do respeito pelo ser humano e pela vida. Mas a verdade é que, desde o momento em que engravida, a mulher deixa de ter o direito de ser considerada um ser humano inteiro, com capacidade de discernimento, com autoridade para dispor da sua vida, da sua saúde mental e física, passando a ser apenas o ninho, o cesto, aquela que carrega, que importa menos, que perde a sua individualidade própria e passa a existir em função de.

Em causa estão os conceitos de decisão informada, de aconselhamento livre, de eficaz e real igualdade de oportunidade no acesso ao conhecimento, à saúde, à educação sexual, ao planeamento familiar, ao abolir da ignorância, do medo e da insegurança que florescem na clandestinidade.

Em causa está a capacidade de podermos olhar com realismo e verdade um problema social e não tentarmos impor aquilo que cada um pensa a toda a sociedade, ou seja, está em causa a nossa noção de solidariedade e tolerância, sem relativismos morais.

Tantas vezes responsabilizamos a classe política e os partidos pelo distanciamento entre os decisores e a generalidade da população. Domingo é altura de assumirmos a nossa responsabilidade – votando!


(pintura de Edwin Vreeken: pregnancy)

07 fevereiro 2007

Sonâmbulo/I

SONÂMBULO/I


(Enquanto os aliados a caminho de Berlim
morrem, eu entretenho-me a ver chover na
Rua da Palma, espalmado num portal a
cheirar a urina podre)


Chove…

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove…

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


(poema de José Gomes Ferreira; pintura de Claire Stringer: violin pattern)

Decidir

A falta de credibilidade da classe política tem aumentado exponencialmente durante a campanha para este referendo. Afinal Marques Mendes, que sempre defendeu o não, vem agora defender que se altere a lei na Assembleia da República, mesmo que vença o não. Ou seja, afinal não era preciso referendo, porque a lei podia ter sido alterada pelos deputados, e a opinião resultante do referendo não serve para nada, visto que Marques Mendes se propõe desrespeitá-la, logo no dia seguinte!

Por outro lado, Marques Mendes afirmou a neutralidade do PSD em matéria de opinião referendária, mas o tempo de antena do PSD nesta campanha é totalmente pró não.

Infelizmente o descrédito já alastrou aos cientistas, médicos e investigadores científicos, quando se vê uma auto intitulada cientista manipular dados e pseudo trabalhos para os colocar ao serviço de uma crença, de uma opinião, de uma moral, de uma religião.

A resposta à pergunta do referendo apenas implica uma autorização, no caso do sim, ou uma proibição, no caso do não, de alterar a lei vigente. Todas as considerações que se fazem sobre a legitimidade da IVG, quem deve ter a última palavra, quando começa a vida, etc, não é a ciência que responde, são os valores que formam cada consciência, são as circunstâncias e o entendimento de cada um de nós, da cada casal, de cada família, que o ditarão. E isso não pode ser respondido por trabalhos científicos.

Em última análise, somos nós próprios, sós perante a imensidão das nossas dúvidas, que teremos que decidir. Também será assim, no próximo dia 11.


(pintura de Carolyn Sparey-Gillies: February)

05 fevereiro 2007

Letras dissonantes

Ouço ao de leve
algumas notas insistentes
paralelas letras dissonantes
que guiam dedos impacientes.

Refaço os sentidos
abandono o corpo.
Sou só ouvidos.

(pintura de Virgil C. Stephens)

Circo

Estamos em tempo do vale tudo. O PSD, que não tem posição oficial de apoio a nenhuma das partes, faz tempos de antena a defender sub liminarmente o não.

A pergunta a referendar, votada favoravelmente pelo PSD, repentinamente tornou-se falaciosa.

Os defensores do não apesar de, durante todos estes anos, não terem feito qualquer esforço para despenalizar a IVG, e que lutam pela resposta maioritária no não (que, objectivamente, mantém a lei que penaliza as mulheres que abortam), vem agora, num volte face desonesto, pedir que haja uma alteração legislativa que despenalize a IVG, mesmo que o não ganhe o referendo, ou seja, fazer exactamente o contrário do que a maioria eventualmente vote! E acusam Sócrates de ultimatos!

Qual coerência, qual preocupação com a defesa da vida?

Marcelo Rebelo de Sousa pode ir pensando em terminar o mais elegantemente possível com as suas análises e as suas classificações dominicais. Os Gato Fedorento revelaram todo o ridículo do personagem, a ligeireza e a superficialidade travestida de grande brilhantismo.

Ainda faltam alguns dias. A que outros malabarismos iremos ainda assistir?

(desenho de Ray Respall Rojas: circo)

04 fevereiro 2007

Faltam 6 dias… e meio

No próximo domingo iremos votar no 3º referendo da nossa democracia, 2º referendo sobre a despenalização da IVG.

É bom que nesta última semana quem ainda está pouco esclarecido se não deixe baralhar por ruído de fundo, discussões filosóficas acessórias, debates mais ou menos inflamados por questões não referendáveis.

A pergunta a que temos que responder “sim” ou “não” é:

  • Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
Se considerar que a lei existente…

  • Código Penal

  • ARTIGO 140º - Aborto
    1. Quem, por qualquer meio e sem consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.
    2. Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão até 3 anos.
    3. A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.

  • ARTIGO 142º - Interrupção da gravidez não punível (*Ver Lei 90/97 Que Altera Este Artigo*)
    1. Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina:
    a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
    b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;
    c) Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação, e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez; ou
    d) Houver sérios indícios de que a gravidez resultou de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez.

  • LEI 90/97 - Altera os prazos de exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidezA Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 164º, alínea d), 168º, nº1 alínea b), e 169º nº 3 da Constituição, o seguinte:
    Artigo 1º - Alteração de prazos
    O artigo 142º do Código Penal, com a redacção que lhe foi introduzida pelo Decreto-Lei nº 48/95, de 15 de Março, passa a ter a seguinte redacção: Artigo 142º (...)
    (...)
    a)...
    b)..
    Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita, e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, comprovadas ecograficamente ou por outro meio mais adequado de acordo com as legis artis excepcionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada a todo o tempo;
    A gravidez tenha resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual e a interrupção for realizada nas primeiras 16 semanas.


deve ser aplicada, ou seja, que todas as mulheres que se fizerem abortar, assim como quem as ajudar (médicos, parteiras, curiosas, amigos, companheiros, maridos, mães, etc.) devem ser punidos com pena de prisão até 3 anos, com excepção dos casos previstos na lei (perigo de morte ou de grave e irreversível lesão da saúde física ou psíquica da mãe, doença incurável ou grave malformação fetal, violação da mulher, até às 12, 24 e 16 semanas de gravidez, repectivamente), deve votar “não”. Com este voto manter-se-á a legislação existente e o aborto clandestino.

… deve ser alterada, ou seja, não penalizar com pena de prisão as mulheres (e quem as ajude)
que, por opção própria, se fizerem abortar, dando-lhes a possibilidade de o fazerem em estabelecimentos de saúde, públicos ou privados, mas devidamente credenciados e autorizados, terminando o aborto clandestino, então deve votar “sim”.

A resposta a esta pergunta não implica uma obrigação de mudar a opinião própria sobre a legitimidade de abortar ou não, sobre as melhores formas de reduzir o aborto, de melhorar a informação, o planeamento familiar, a educação sexual da população feminina e masculina, não implica abdicação de escolhas morais e religiosas, não implica decisões sobre o que é, quando começa ou quando acaba a vida.

A resposta a esta pergunta visa uma alteração legislativa do código penal. Apenas e só.

  • Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Eu concordo. Por isso votarei SIM.

03 fevereiro 2007

Sem tempo

Espero por ti
na esquina da vida
de lanterna acesa
e dor esquecida
nos longos braços
do amor.

Espero por ti
sem tempo e sem fim
mesmo que já não esperes
por mim.

Memória amarrotada

Arrumou e desarrumou a carteira repetidamente, tirando as chaves, o porta-moedas, os documentos, as canetas, procurando incessantemente a morada que lhe faltava. Onde a tinha posto, onde a tinha escondido? Esvaziou todos os compartimentos, vasculhou um a um os cartões de crédito, de restaurantes, número rabiscados à pressa, nomes de gente que não conhecia, recados de urgência que já não interessavam.

Mas faltava aquela morada, aquela agenda, aquele número. Quem lho deu? Como retomar o caminho inverso da memória, percorrendo cuidadosamente os minutos para trás, revisitando o passado, até ao início, até ao agarrar do papel com os dedos, até ao caminho da arrumação nas fímbrias do fundo do forro da carteira, ou do bolso, ou da abertura das páginas de um livro, ou da repetição cadenciada da morada, de forma a declamar sem hesitação?

Finalmente, amarrotado e quase desfeito, com pregas e vincos que quase o partiam, encontrou o papel dobrado no meio de outro, que lhe tinha passado despercebido.

Com um suspiro de alívio leu apressadamente o endereço da sua casa. Resolveu prendê-lo com um alfinete no bolso das calças. Para a próxima vez já não se esqueceria.


(pintura de Ann Baldwin: memory II)

Intervalo (2)

Para quem não teve oportunidade de ouvir o excelente concerto de Tomatito e Michel Camilo no Centro Cultural de Belém, em que os sons da guitarra e do piano se misturaram para homenagear Astor Piazzolla, pode ouvir o cd Spain Again, ou Spain (anterior), disponíveis na FNAC.

Intervalo (1)

Quem ainda não viu O que diz Molero, no Teatro Nacional D. Maria II, tem apenas mais duas oportunidades de a não perder (hoje, às 21:00 ou amanhã, às 16:00).

O espectáculo dura 2 horas e meia, mas vale mesmo a pena. Aderbal Freire Filho adaptou e encenou uma história de Dinis Machado, em que transpôs o próprio texto narrativo para o palco. Os actores, à medida que vão narrando a história, vão interpretando os múltiplos personagens da mesma, socorrendo-se de acessórios de composição que se encontram dentro dos inúmeros ficheiros e gavetas que compõem a cena, um escritório de uma empresa.

Dois funcionários lêem e comentam o relatório de Molero, encarregue de investigar a vida do Rapaz. Pelo escritório passam a vida e os companheiros do Rapaz, os seus sonhos, os seus amores, as suas metamorfoses e as considerações de Molero.

Gillray Coutinho, Thelmo Fernandes, Claudio Mendes, Isio Ghelman, Raquel Iantas e Savio Moll são os actores, que se desdobram, pulam, saltam, falam, enfim, são muitíssimo bons.

Uma excelente maneira de acabar (ou começar) a semana.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...