Amanhã é dia de reflexão. Mas tenho reflectido bastante ao longo destes dias.No domingo estão várias coisas em causa, embora se vá responder simplesmente a uma pergunta.
Em causa está a capacidade que temos de usar o nosso talento, a nossa mobilização e as nossas forças argumentativas numa verdadeira participação cívica. O voto é uma obrigação moral e ética de quem respeita a democracia. O referendo é uma forma de democracia directa e participativa que tem, neste domingo, o seu certificado de saúde ou de óbito. Se a sociedade civil, tantas vezes indignada por não poder fazer ouvir a sua voz, se abstiver neste referendo, deixa de haver razão política para a sua manutenção.
Em causa está a forma como a mulher é ainda considerada pela nossa sociedade. Muito se tem falado dos direitos do feto, da inviolabilidade e do respeito pelo ser humano e pela vida. Mas a verdade é que, desde o momento em que engravida, a mulher deixa de ter o direito de ser considerada um ser humano inteiro, com capacidade de discernimento, com autoridade para dispor da sua vida, da sua saúde mental e física, passando a ser apenas o ninho, o cesto, aquela que carrega, que importa menos, que perde a sua individualidade própria e passa a existir em função de.
Em causa estão os conceitos de decisão informada, de aconselhamento livre, de eficaz e real igualdade de oportunidade no acesso ao conhecimento, à saúde, à educação sexual, ao planeamento familiar, ao abolir da ignorância, do medo e da insegurança que florescem na clandestinidade.
Em causa está a capacidade de podermos olhar com realismo e verdade um problema social e não tentarmos impor aquilo que cada um pensa a toda a sociedade, ou seja, está em causa a nossa noção de solidariedade e tolerância, sem relativismos morais.
Tantas vezes responsabilizamos a classe política e os partidos pelo distanciamento entre os decisores e a generalidade da população. Domingo é altura de assumirmos a nossa responsabilidade – votando!
(pintura de Edwin Vreeken: pregnancy)
Foi por pensar exactamente o mesmo que me repito (já escrevi isto em outro “blog”!).
ResponderEliminarA mulher grávida é obrigada a suportar, durante 9 meses, o fardo de uma gravidez indesejada, para não ser castigada?
Não será isto apenas uma forma encapotada de escravatura?
Parece-me que sim, mas cada vez tenho mais dúvidas quando me dizem que tal prática foi abolida...
Em muitos aspectos somos iguais ao que eramos há 200, 300, mil anos. Apenas um pouco mais sofisticados...
ResponderEliminar