30 outubro 2010

O novo chefe do governo

 



 


Teixeira dos Santos é o homem forte do governo. Sócrates não falou, com excepção das declarações feitas quase a medo, em Bruxelas, em que oferecia mais um esforço, para se chegar a acordo no OE 2011.


 


A unanimidade internacional e o coro de vozes, lembrando o apocalipse se não houvesse aprovação orçamental, raiaram o disparate. Penso que todos percebemos que as decisões políticas e económicas no nosso país não têm nada a ver com as eleições. São o resultado daquilo que a Alemanha e "Os Mercados" querem que seja. A democracia representativa e a soberania nacional não existem, pelos menos nos moldes que ainda estão escritos na Constituição.


 


Fiquei ainda com a impressão de que a abrupta rotura das negociações, quando o governo levava um acordo pronto a assinar, foi uma tentativa de as fechar ao estilo de Sócrates, para tomar a dianteira na aprovação do OE. O reatar das negociações a pedido de Teixeira dos Santos mais faz desconfiar do incómodo do próprio Teixeira dos Santos e do governo. Especulação pura, o que escrevo, mas credível. Para os cidadãos comuns o chefe do governo é, neste momento, Teixeira dos Santos. Sócrates perdeu iniciativa, protagonismo e ficou com a imagem de ser um problema irresolúvel. Que diferença entre o primeiro-ministro decidido, seguro e voluntarioso do anterior governo.


 


Também a negação de Eduardo Catroga em aparecer ao lado de Teixeira dos Santos mostra a distância que o PSD quer mostrar da sua própria atitude. Isso vai ser mais difícil e soa a falso. Os 500 milhões de euros que faltam para atingir o défice prometido terão que ser encontrados.


 


A comunicação de Cavaco Silva de ontem foi tão inusitada como o seu discurso de candidatura. Precisamos muito da renovação geracional das nossas elites políticas.


 

All of You









 


Keith Jarrett Trio


 

Dúvida metódica

 


Se há acordo entre o PSD e o governo, o PSD vai votar a favor, ou abster-se?


 

27 outubro 2010

Justificações

 


Miguel Relvas foi à televisão explicar as razões do PSD para a rotura das negociações. Não explicou nada mas também não é de espantar. As negociações foram uma forma de os dois partidos se justificarem perante as populações. O PS quis passar a mensagem de que estava totalmente aberto às negociações. O PSD quis passar a ideia de que agora terá muitas razões para votar contra o OE de 2011. Mas também deixou a porta aberta, invocando as pressões internacionais e a crise, para se abster. Na verdade, o PSD nunca mostrou como seria possível atingir o défice de 4,6% com as medidas que propunha.


 


Isto é jogo político. Não me parece que ao PSD interesse ficar com o ónus de provocar uma crise política. Aguardará, em pose sacrificial, até que seja possível dissolver a de novo a Assembleia da República. Portanto a erosão do governo e do PS durante os próximos meses é-lhe favorável.


 


Penso que o OE será viabilizado. Além disso, a desesperança dos mercados só nestas alturas é noticiada. Porque quando o governo anunciou a austeridade, os mercados reagiram bem no primeiro dia e reagiram mal nos dias seguintes. As regras especulativas não são tão lineares.


 


Mas o mais interessante é ouvir Manuel Alegre vociferar contra a Europa e as regras do Tratado de Lisboa, como se só agora as tenha descoberto.


 

O próximo Presidente da República

 



 


Cavaco Silva anunciou a sua já anunciada recandidatura. Cavaco Silva ama a pátria, é sério, honesto e frugal, economista, sabe muito de finanças, estudou e avisou os políticos dos seus desvarios. Se não fosse ele, já tínhamos sido engolidos pelo FMI. Claro que já se esqueceu daquele outro político que há cerca de 30 anos atravessa gerações a fazer política. Mas não faz mal. Como ainda por cima vai ser poupado na campanha eleitoral, porque a democracia está cada vez mais cara, lavam-se as manchas passadas com o brilho das virtudes do presente.


 


Cavaco Silva será o próximo Presidente da República.


 

24 outubro 2010

Artesanato político

 



João Franco


 


Não é que seja novidade, mas é sempre importante assinalar: a esquerda parlamentar é composta por dois partidos que apenas servem para protestar. Quando é preciso assumir responsabilidades governativas, estes dois partidos excluem-se automaticamente.


 


A evidência a que nos rendemos, legislatura após legislatura, é que o BE e o PCP são uma espécie de artesanato parlamentar, uma representação popular tradicional, que preservamos como quem preserva as cavacas ou os bonecos de João Franco.


 

Rito da passagem

 



Leo Augustine: removed


 


Subimos a ladeira do cemitério. Vais a frente, o apoio do teu pai. Vejo-te de costas direitas, os músculos tensos, o cabelo arranjado e a roupa apropriada, nos ritos a que nos obrigamos. Sinto-te tão distante e tão perto, dentro da dor que só posso adivinhar e que temo, quando for a minha.


 


Percebo o esforço que fazem ao transportar o caixão. Como é possível se os ossos eram tão finos, a fragilidade tão evidente, o peso tão pouco? Olho para dentro e reconheço que estou a enterrar uma parte da minha juventude. Não lhe chamava tia, como agora é norma, mas de alguma forma, era mais que minha tia, porque era tua mãe.


 

Integração

 


Angela Merkel afirmou que o multiculturalismo falhou redondamente na Alemanha. Não concordo que o multiculturalismo tenha falhado, mas sim a inserção e integração de algumas comunidades nas sociedades ocidentais, principalmente a comunidade islâmica, e não só na Alemanha. Não vale a pena escamotear esta realidade e é perigoso usá-la como arma de arremesso político, à esquerda ou à direita.


 


Na verdade as nossas sociedades terão que observar e analisar o que correu mal, especificamente com as comunidades islâmicas, e estas terão que perceber que há também responsabilidades do seu lado. Integração pressupõe aceitação de valores dos países de acolhimento, observância das suas leis, idênticos direitos e idênticos deveres. Não se pode querer acabar com a discriminação religiosa e cultural para depois se usarem essas características para se reivindicar tratamentos diferentes.


 


Por outro lado, as sociedades de acolhimento terão que respeitar as diferenças, quando tal não colide com a legislação dos seus países. A exigência da aprendizagem da língua e da observância do laicismo do estado deve ser intransigente. A forma condescendente como se acolhem as populações imigrantes é o primeiro e mais forte sinal de xenofobia e o melhor incentivo para a guetização e afastamento da vivência comunitária.


 

23 outubro 2010

Romantique









 


Claude Bolling & Yo-Yo Ma


Suite for Cello & Jazz Piano Trio


 

A tabloidização da política

 



 


A política portuguesa rendeu-se à cultura massificada das telenovelas e dos reality shows.


 


Tal como no big brother, assistimos em directo e ao vivo às trocas de argumentos, às condições, propostas e sugestões de governação, às respostas e às decisões. É através de um comentador político que ouvimos o anúncio de uma candidatura presidencial, é num programa de  debate viciado que assistimos a ministros a defenderem-se das populações, a magistrados a fazerem justiça mediática.


 


Tal como nas telenovelas os líderes vivem os seus mandatos em juras de amor e ódio, ataques ao carácter e declarações de falta de confiança. As instituições democráticas deixaram de ser o cerne da vida democrática. Não há qualquer pudor em misturar o privado e o pessoal com o público e o institucional.


 


Também foi pela televisão que Passos Coelho disse nim ao OE, Paulo Portas disse não e Teixeira dos Santos aceitou, magnanimamente, a equipa de trabalho do PSD. Não sei se depois há verdadeiro trabalho nos bastidores, mas cada vez tenho mais dúvidas.


 


Quando pensávamos que a era de informação iria abrir a porta a mais cidadania, a mais participação pública e a mais responsabilidade, eis que nos apercebemos do exacto contrário. A discussão e o debate estão ao nível dos observados na Casa dos Segredos, e todos nós assumimos os papéis de Marcos e de Martas, de Júlias Pinheiros e  Teresas Guilhermes.


 

18 outubro 2010

Originalidades a la portuguaise

 



Ang Kiukok: clown 




  1. Marcelo Rebelo de Sousa revelou, em directo e ao vivo, que Cavaco Silva anunciará a sua recandidatura à Presidência da República dia 26 deste mês, no CCB.



    • Dúvidas - será que foi Cavaco Silva que pediu a Marcelo Rebelo de Sousa para avisar a nação? Será que foi Marcelo Rebelo de Sousa que ouviu pelo buraco da fechadura as combinações presidenciais? Será que Cavaco Silva contou o segredo a Marcelo Rebelo de Sousa e este não se conteve, tendo que contar ao país inteiro? Será que alguém está a chantagear Marcelo Rebelo de Sousa por um cabeludo pecado do passado e ele tenha tido que revelar tamanho tabu?





  2. António Martins, o incrível presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses disse que a classe vai sofrer cortes orçamentais como vingança pelo trabalho que efectuou em processos como a Face Oculta.



    • Dúvidas - será que Teixeira dos Santos está oculto no Processo? Será que os juízes são do PSD, do CDS, do BE ou do PCP?





  3. Mário Crespo convidou - oh surpresa! - Bagão Félix, para comentar o OE 2011.



    • Dúvidas - Será que Bagão Félix já fez algum OE que fosse posto à prova? Será que ainda se lembra do que é um OE? Será que não estará a atacar as suas próprias ideias, tal como fez com Fernando Negrão?




17 outubro 2010

Oblivion

 










 


Astor Piazzolla & Rastrelli Cello Quartett


 

Tolerância zero (2)

 



 


Miguel Relvas apelida, indignadamente, este OE como um orçamento de grande insensibilidade social, que vai trazer maior disparidade social, que vai trazer maiores problemas sociais, mais fome e mais miséria ao nosso país. E diz ainda que Teixeira dos Santos precisa de ter falta de vergonha por exigir que todas as alterações propostas ao OE não coloquem em risco o cumprimento do défice de 4,6% e 2011.


 


Em que é que os cortes salariais e os incessantes pedidos de medidas de austeridade feitos pelo PSD têm maior sensibilidade social que os do PS? Também gostaria de saber se Miguel Relvas não tem vergonha de explicar muito explicadamente, sem demagogia, onde é que se pode cortar mais de forma a que se cumpra o défice de 4,6% em 2011.


 


A vergonha tem andado bastante arredada dos nossos líderes políticos.


 

Realmente importante

 



 


Não são precisos prémios para sabermos que o Teatro Meridional é uma das companhias de teatro mais criativas e interessantes do nosso país. Mas é sempre bom percebermos, no meio de todo o negativismo e pessimismo que nos tolhe, que não só entre portas se reconhece esse mérito.


 


O Teatro Meridional, cuja direcção (da Companhia e artística) é assegurada por Miguel SeabraNatália Luiza, tem levado ao palco e ao público inúmeras peças originais, baseadas em textos variados, como colagens ou como recriações, em espaços cénicos de um cuidado e simplicidades extremas, em que a encenação, a música, as luzes e as palavras se completam e formam unidades de espectáculo únicas.


 


A 12.ª edição do Prémio Europa Novas Realidades Teatrais distinguiu, juntamente com 5 companhias de teatro de outros países europeus (Eslováquia/República Checa, Reino Unido, Rússia, Finlândia e Islândia), o Teatro Meridional.


 


A próxima peça desta Companhia será apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, com estreia a 18 de Novembro, 5ª feira, às 21:30h, e chama-se 1974. A não perder.


 



 

16 outubro 2010

Entretanto

 


Troféus Pedrada no Charco - Melhor Disco do Ano 2010 (atribuída pelo Orfeão de Leiria Conservatório de Artes) - Graffiti - Júlio Pereira, Tiago Torres da Silva, Tiago Taron. Cantam - Sara Tavares, Dulce Pontes, Olga Cerpa, Marisa Liz, Nancy Vieira, Manuela Azevedo, Maria João, Sofia Vitória, Filipa Pais e Luanda Cozetti.


 







 


Marisa Liz



Eu às vezes não sei o que hei-de dizer
sou refém da palavra que me quer fugir
prendo o salto no verbo que deve ser
ou tropeço no nome a seguir

'stá debaixo da língua
brincando às 'scondidas com o coração
'stá debaixo da língua
parece que vai aparecer ou parece que não

e depois... e porém... e não sei... talvez
fico muda... repito tim-tim-por tim-tim
sinto o chão a tremer debaixo dos pés
e gaguejo ou qualquer coisa assim

'stá debaixo da língua
tão longe e quem sabe ao alcance da mão
'stá debaixo da língua
parece que já me lembrei ou parece que não

(desato a rir
não lembro de mais nada
eu desato a rir
o fio escapa à meada
eu desato a rir
e sim, e coisa e tal
eu sei lá)

sobe o pano, o actor quando cai em si
não se lembra da fala e não sabe o que é
fecha os olhos, diz "to be or not to be"
e o público aplaude de pé

'stá debaixo da língua
atada à cortina e ao projector
'stá debaixo da língua
talvez amanhã ela volte a ligar ao actor

Tolerância zero (1)

 



 


O governo está apostado em tudo fazer para se cobrir de vergonha e se descredibilizar. Depois da inominável pantomima a que assistimos, mais uma vez, na entrega da famosa pen ao Presidente da Assembleia da República, ouvimos da boca do Ministro das Finanças justificações inaceitáveis em qualquer profissional que se preze, quanto mais de um responsável político.


 


De tal forma que não é preciso ser da oposição para se estar muito descrente no que quer que este governo diga em relação às finanças públicas, aos impostos e à redução da despesa.


 


Na verdade também não se entende o coro de lamentações de partidos como o PSD e o CDS. Estiveram meses a pedir as medidas de austeridade. Por coerência só as poderiam apoiar entusiasticamente.


 


O que me preocupa é continuar sem perceber com o que se passa com a execução orçamental de 2010, com a falta de orientação da política de saúde, a quebra de importantes medidas, anteriormente bandeiras do PS, como a prescrição por DCI, que apenas pela insistência do CDS e por uma coligação negativa foi possível fazer passar no Parlamento.


 


O que me preocupa é a unanimidade do dramatismo e a falta de alternativas.


 


O que me preocupa é a negligência e a incompetência do governo numa altura em que seria crucial que confiássemos nele.


 

15 outubro 2010

Um dia como os outros (71)

 



(...) Trata-se, afinal, de um partido que não se inibe de venerar publicamente um autor de crimes contra a humanidade que ombreia com Hitler - sim, o "genial pai dos povos" Estaline; cujos dirigentes consideram a monstruosa monarquia da Coreia do Norte "opção do povo", quiçá uma democracia; que defende a greve geral por cá a propósito do corte de salários no sector público e o despedimento de um milhão de funcionários públicos na ditatorial e oligárquica Cuba; que protesta, em comunicado oficial, contra a atribuição do Nobel a Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de prisão por delito de opinião na China do capitalismo selvagem de partido único, da depredação ambiental e do recorde mundial das execuções capitais. (...)


 


Fernanda Câncio

13 outubro 2010

Haiti






 



Caetano Veloso & Gilberto Gil






Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Somos todos chilenos


O resgate


 


Nota: Título roubado (sem saber) à Câmara Corporativa.

10 outubro 2010

10.10.10


 


Ana Vidigal


 

A divisão do país

 


Uma pequena parte do país entretém-se a predizer horrores caso o OE para 2011 não passe na Assembleia da República. De tal forma que há quem peça encarecidamente ao PSD para se abster, mesmo que odeie o OE, mas por imperativo patriótico, nacional, responsabilidade política e, último e indispensável argumento, para acalmar Os Mercados.


 


A outra grande parte do país não percebe o que são Os Mercados, a razão de continuarem nervosos, apesar de todos os prometidos cortes salariais, do incontornável aumento de impostos, da propagandeada redução da despesa pública à custa dos parasitas do país - os funcionários públicos. Suspeito mesmo que essa grande parte do país pense que nada acalmará os irascíveis Mercados, visto que têm um humor mais negro que os ferozes deuses do Olimpo.


 


Essa grande parte do país também não entende muito bem porque é que, no início da crise de 2008 e durante o ano de 2009, a Europa se penalizou e penitenciou pela falta de regulação dos ditos Mercados, pela selvajaria do capitalismo, pelo esquecimento do estado social, sugerindo uma intervenção do Estado na banca, no investimento, nas empresas, no incentivo ao emprego e no apoio aos desempregados, para depois, num volte-face mais ou menos abrupto para o que existia antes da crise, se encarnice agora contra os défices públicos, que aumentaram astronomicamente nos anos anteriores.


 


Essa grande parte do país apenas se interroga: quando vamos receber menos - neste ou no próximo ano? Quando aumenta o IVA para 23% - neste ou no próximo ano? Vamos manter o 13º mês? E no próximo ano, ainda existirá? Quando vou conseguir emprego? E se perco o emprego? E se adoeço? E se não consigo pagar a renda? Essa grande parte do país olha para os dias que passam com aflição e medo. O medo que está a ser uma constante nestes tempos modernos: a criminalidade, o terrorismo, o desemprego, a crise, a bancarrota, o FMI.


 


Essa grande parte do país que votou maioritariamente à esquerda não entende porque é que a esquerda não apoia o governo, como também não entende que o governo não se apoie na esquerda. Não entende que o PSD queira acalmar Os Mercados mas tudo faça para que, fora de Portugal, olhem para nós com a sensação de que a elite política gosta de brincar com o fogo.


 


Se o PSD quer derrubar o governo que o faça e assuma as suas responsabilidades. Se o governa acha assim tão indispensável que o OE seja aprovado, que faça as negociações necessárias, no Parlamento, para encontrar um compromisso com que seja possível não desvirtuar a sua política. Mesmo que, como essa grande parte do país desconfia, não haja grandes diferenças nas práticas dos partidos políticos, tendo em vista as orientações a que nos obrigámos a obedecer.


 


Entretanto a grande parte do país assustada, assiste impotente e incrédula, aguarda que a democracia cumpra o seu papel e que os representantes que elegeu façam o seu trabalho sem se queixarem.


 


Nota: É bom que esclareça que, quando me refiro à pouca diferença nas práticas dos partidos políticos, refiro-me ao PS e ao PSD. O BE e o PCP não apresentam alternativas credíveis. Aliás, penso que a governação é demasiado para os seus horizontes de partidos da contestação, barricando-se continuamente no passado, mais próximo ou mais afastado, sem qualquer respeito pelas escolhas e decisões eleitorais.


 

07 outubro 2010

Pelo pluralismo no debate televisivo.

 


Vale a pena assinar esta petição. Mas, como diz a Maria do Sol, o pluralismo deveria tocar outras áreas que não apenas a económica.


 


(...) De facto, os diferentes painéis de comentadores televisivos convidados para analisar o chamado PEC III foram sistematicamente constituídos a partir de um leque apertado e tendencialmente redundante de opiniões, que oscilou entre os que concordam e os que concordam, mas querem mais sangue; ou entre os que acham que o PEC III vem tarde e os que defendem ter surgido no timing certo. Para lá destas balizas estreitas do debate, parece continuar a não haver lugar para quem conteste, critique ou problematize o quadro conceptual que está em jogo e as intenções de fundo, ou o sentido e racionalidade dos caminhos que Portugal e a Europa têm vindo a seguir, em matéria de governação económica. (...)


 


Petição pelo pluralismo de opinião no debate político-económico


 

05 outubro 2010

Educação e ciência

 


A inauguração de 100 escolas e do Centro de Investigação da Fundação Champalimaud parecem-me uma forma apropriada e condigan de comemorar o Centenário da Implantação da República.


 


Leonor Beleza, de quem discordei muito de medidas que tomou enquanto Ministra da Saúde (não esquecer que a ela se deve o início da acentuada redução de vagas para os cursos de Medicina, a tentativa de acabar com a remuneração no Internato Geral - agora Ano Comum do Internato), teve uma visão e uma política de saúde que, em muitos pontos, nomeadamente na necessidade de incentivar a exclusividade de funções no sector público, foi mais socialista do que ministros de governos socialistas. 


 


Neste momento, e por mérito próprio, está à frente de um projecto que prestigia o país e que contribuirá, certamente, para uma melhor compreensão dos mecanismos da doença oncológica e seu tratamento.


 

Passe Cidadão

 



 


Somos todos cidadãos com os mesmos direitos e deveres. Somos todos cidadãos, na liberdade de nos exprimirmos e intervirmos na vida da comunidade, na responsabilidade de contribuir para o bem comum, na capacidade de desenvolvermos e perseguirmos a nossa noção de felicidade.


 


Estes são os princípios basilares daqueles que não distinguem os seres humanos pela família em que nasceram, pela cor da sua pele, pela crença religiosa. Estes são os princípios de quem sabe que o sangue é sempre vermelho.


 

03 outubro 2010

Usurpação de identidade, de novo

Mais uma vez alguém que teve acesso aos meus dados, usa a minha identidade para fazer comentários em meu nome noutros blogues. Descobri um no blogue A Educação do meu Umbigo.


 


Ou seja, o Troll voltou a atacar.


 


Aviso que deixo, mais uma vez, de colocar qualquer comentário em qualquer blogue.

Da despedida



Tara Donovan: Transplanted (detail)


 


 


Barriquei os olhos contra os riscos de água


que perfuram as janelas. As sombras


das folhas isoladas e batidas


num complemento perfeito do murmúrio


sem voz.


 


Da despedida.


 

Beautiful Day









U2


The heart is a bloom, shoots up through stony ground
But there's no room, no space to rent in this town
You're out of luck and the reason that you had to care
The traffic is stuck and you're not movin' anywhere
You thought you’d found a friend to take you out of this place
Someone you could lend a hand in return for grace

It's a beautiful day,
The sky falls and you feel like
It's a beautiful day,
Don’t let it get away

You’re on the road but you’ve got no destination
You’re in the mud, in the maze of her imagination
You love this town even if that doesn’t ring true
You’ve been all over and it’s been all over you

It's a beautiful day,
Don't let it get away
It's a beautiful day,

Touch me, take me to that other place
Teach me love, I know I’m not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the bedouin fires at night
See the oil fields at first light
See the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colours came out

It was a beautiful day
Don't let it get away
A beautiful day

Touch me, take me to that other place
Reach me, I know I'm not a hopeless case

What you don’t have you don’t need it now
What you don’t know you can feel it somehow
What you don’t have you don’t need it now
Don’t need it now
It was a beautiful day

Ópera bufa

As medidas de austeridade, tantas vezes pedidas como indispensáveis, inadiáveis, estão agora a ser trucidadas como duríssimas, feitas tarde demais, curtas, ainda não suficientes, etc.


 


Aconteceu o mesmo com as reformas, as tais que nenhum governo se atreveu a protagonizar, com excepção do anterior governo PS, mas que foram vilipendiadas e boicotadas por todos os que as defendiam.


 


Interessante ainda perceber que, para muitos, quem defendeu e defende o governo socialista não pode, está proibido, sob pena de ser considerado anormal e traidor, criticar o mesmo governo ou medidas com que não concorda, ou posturas e atitudes políticas que considera inaceitáveis. Traidor por quem de forma acéfala defende o mestre, traidor para quem sempre atacou de forma acéfala o PS, o governo, Sócrates e outros ministros, porque agora é tarde.


 


Tarde? Será que fechámos a porta, o país, o mundo, a nossa cabeça? E a quem entregar a confiança? Aos nossos esquerdistas, da esquerda plural e verdadeira, que nunca contribuirão para uma solução governativa credível, partidos onde impera a irresponsabilidade, o populismo e a demagogia? Ao PSD, que se afunda no seu próprio descrédito, que nem sequer sabe o que defende, ontem as privatizações, nomeadamente a da Caixa Geral de Depósitos, a alteração da Constituição e a ameaça de deixar o país sem Orçamento de Estado de 2011, quando nele estão inscritas as medidas que pediu?


 


Continua, portanto, a ópera bufa. Enfim, agora temos a chuva e as inundações para nos entretermos. E os U2.

02 outubro 2010

Negação

 


Já percebemos que, faça o país o que fizer, seja qual for o governo que tiver, quem decide as políticas financeiras são os mercados, imbuídos de uma ideologia liberal desenfreada. A prova está no facto de a Moodys ter baixado o rating da Espanha, apesar da excelente execução orçamental, apesar dos cortes todos que fizeram e que tanto agradaram a todos os nossos mediáticos e compenetrados economistas, agora porque há perspectiva de fraco crescimento. Na Irlanda, aquele farol dos exemplos, quando cresce e quando decresce, os cortes não diminuíram o défice e há uma nova recessão económica. Como acontecerá em Portugal.


 


Já percebemos que este anúncio foi de imediato aproveitado para não aumentar o ordenado mínimo para 500€, um número verdadeiramente astronómico e que permite aforrar a miséria. Já percebemos que estão todos de mãos atadas, a não ser que a fome de poder do PSD seja tão grande que se arrisque a não aprovar o orçamento para 2011.


 


O que não se consegue perceber, pelo menos eu não percebo, é como é que José Sócrates afirma, depois de todas as previsões erradas, desde a campanha eleitoral, de todos os programas não cumpridos, de todos os investimentos que avançavam mas não avançam, da inexistência de política de saúde, dos impostos que aumentaram apesar das juras em contrário, como é que José Sócrates diz a todos os cidadãos, mais uma vez, que não haverá mais medidas de austeridade? Como é que ele tem a audácia de afirmar isso?


 


Pode haver motivos e justificações para tudo, mas para a total desfaçatez perante o defraude contínuo de todos quantos tentam perceber o que se esá a passar, que vêm a sua desilusão e apreensão crescerem, para isso não há perdão. José Sócrates e Teixeira dos Santos, desbaratam o capital de confiança que, apesar de tudo, se lhes foi dando.


 


É compreensível a crise mas não a mistificação. Nem a de Passos Coelho, nos cortes da despesa do estado não concretizáveis, nem a do Primeiro-ministro, na negação do óbvio.


 

01 outubro 2010

Um dia como os outros (70)

 



(...) O primeiro, e talvez principal problema da proposta de orçamento para 2011 é... 2010, mais um abalo na credibilidade de Teixeira dos Santos. Por outras palavras, o barco orçamental afundou nos últimos quatro meses de forma incompreensível, que os dois submarinos, obviamente, não explicam, o que obrigou a uma operação extraordinária, o fundo de pensões da PT. A ver vamos como se vai concretizar para garantir um défice de 7,3%. (...)


 


António Costa (DE)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...