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15 fevereiro 2026

Somos democracia

Apesar de André Ventura ter apelado desesperadamente para o adiamento das eleições presidenciais, com o argumento de “que se lixem as eleições”, Portugal demonstrou que a democracia não é alguma coisa que se possa menorizar. Ns difíceis condições que tanta gente está a sofrer, as eleições decorreram com uma afluência assinalável, em que o esforço e a cidadania de quem votou e de quem ajudou a votar ensinou a este populista que a democracia não se adia.

António José Seguro venceu e venceu bem. Tem uma legitimidade reforçada pelo expressivo número de votos conseguidos. O seu discurso de vitória foi muito bom. Foi apaziguador, assertivo e esperançoso.

Finalmente, este Presidente disse, tal como a sua mulher, aquilo que é óbvio e lógico, mas que uma bafienta mole de gente não aceita: na República Portuguesa é eleito um ou uma Presidente e não um casal presidencial; a Constituição não contempla Primeiras damas, esse epíteto ridículo e reacionário.

Grande satisfação pela declaração de Margarida Maldonado Freitas - "Sou farmacêutica e não primeira-dama" e do Presidente recém-eleito - "Respeitarei sempre aquilo que forem as suas decisões. (...) A minha mulher é uma empresária independente, é uma mulher com vida própria e respeito isso".

O regime democrático foi reafirmado e celebrado da melhor forma possível – elegendo o nosso Presidente.

08 fevereiro 2026

Votar amanhã chama-se Democracia

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"Portugueses,

Hoje, como sempre, falo para todos vós.

Mas falo, em especial, para os que perderam familiares e próximos, os que ficaram sem casa ou sem casa com condições para nela viverem, os que perderam culturas agrícolas, lojas, oficinas, fábricas, os que ficaram dias e noites sem água, luz, telefone, os que viram florestas vergarem, os que sofreram e sofrem cheias imprevisíveis, os que desanimaram, tiveram medo, se sentiram isolados, angustiados ou desesperados.

Para essas centenas de milhares, em cidades, vilas, aldeias, lugares, casas perdidas nas serras.

A todos vós e a todos que vos têm dado o que podem e não podem, agradeço a resistência, a coragem, a determinação de não ceder, de não desistir, de não largar um centímetro do que é vosso.

A todos vós agradeço a resposta dada no dia 1, quatro dias apenas depois da calamidade de 28 de janeiro.

A vossa resposta foi votarem. Votarem em massa. E, também, nas áreas devastadas. Também no voto antecipado.

Tal como há cinco anos foi votarem em pandemia, em todo o País, sem vacinas, com hospitais a transbordarem, com mortes a subirem, com contágios a galoparem.

Somos assim há novecentos anos. E por isso somos das Pátrias, das Nações, mais antigas da Europa e do Mundo.

Nascemos para resistirmos e resistirmos até vencermos. Somos um país de lutadores.

Votar amanhã é como votar na pandemia, em estado de emergência, ou, agora, quatro dias depois da tragédia.

Votar amanhã chama-se vencer a calamidade e refazer o nosso futuro.

Votar amanhã chama-se liberdade.

Votar amanhã chama-se Democracia.

Votar amanhã chama-se, acima de tudo, Portugal!"

Mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

16 janeiro 2026

Presidenciais - o que está em jogo

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A nossa votação no domingo, que tudo indica ser a primeira volta das presidenciais, deve ser feita a pensar na segunda volta.

Para quem é democrata, de direita, esquerda ou centro, a hipótese André Ventura não se coloca, pois defesa maior de tudo o que é indecente, rasca, antidemocrático, xenófobo, racista, etc, está aí concentrado.

Cotrim de Figueiredo, por muito bem apessoado e moderno que seja, não excluiu a indicação de voto precisamente em André Ventura, à segunda volta. Para quem tem dúvidas, basta ouvir estas declarações. Não foram impensadas, até porque afirma que André Ventura parece outro político. É o mesmo que dizer, como disse Hugo Soares, que não sabia escolher entre Trump e Kamala Harris. Há momentos que definem uma pessoa, e este é um deles. Para não falar da sua opinião sobre a IGV que, quanto a mim, é uma opinião salazarenta disfarçada, significando um retrocesso civilizacional.

Gouveia e Melo não desiste de se mostrar como alguém asséptico e puro no que diz respeito à política e aos partidos políticos. Custa-me a entender que se queira ser eleito numa democracia representativa, em que os partidos políticos são indispensáveis, adotando este discurso populista e perigoso. Além disso, Portugal não é um imenso exército e a Presidência não é um lugar de chefia militar, mesmo que o Presidente seja o Comandante Supremo das Forças Armadas. Saberá Gouveia e Melo distinguir ambas as funções?

Restam Marques Mendes e Seguro. São candidatos democratas.

A presença de Seguro na segunda volta é uma garantia de haver alguém que defenda o Regime e a Constituição. Marques Mendes não parece ter hipóteses de lá chegar, a não ser que todos os democratas de direita nele votem. Infelizmente, parece que a nossa direita está engolida pela extrema-direita e pelos seus satélites.

Interessante será ver, caso Seguro passe à segunda volta com Cotrim ou Ventura, quem será o escolhido por Luís Montenegro, ou por Marques Mendes. Será mais um momento definidor.

Por último, não consigo entender a razão da manutenção das candidaturas de Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, com resultados irrelevantes para cada um deles (total de 4,7%), mas que poderão fazer toda a diferença na hipótese de Seguro passar à segunda volta.

A evolução das sondagens, tracking polls, barómetros, etc., não deve desviar ninguém da importância do voto. É preciso que todos os democratas de mobilizem, que ninguém fique em casa.

Atravessamos uma época muito perigosa. Que ninguém se distraia. Que ninguém se demita da sua responsabilidade.

O meu voto será Seguro.

14 janeiro 2026

Escolhas Presidenciais

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Na nossa sociedade da pós verdade, as eleições deixam quase de fazer sentido, até porque a manipulação dos factos e das próprias eleições nos deixam um gosto amargo a fraudes.

Talvez até por isso seja cada vez mais importante votar, aproveitar estes dias para reafirmar o poder da democracia, do voto livre e universal.

Nestes tempos de incertezas e de ameaças dos abutres que, de novo, estão a tomar conta do mundo, teremos que pensar em quem será a pessoa que, para além de nos representar condignamente, dentro e fora do país, terá a honestidade e a capacidade de ser um árbitro político, sem deixar de parte as suas convicções.

O próximo domingo poderá ficar para a História como aquele em que alguém que defende a xenofobia e o racismo, que quer alterar a Constituição e o Regime e que abomina a democracia, será eleito Presidente da República ou, pelo menos, que chegará à segunda volta das eleições presidenciais. E é bom que acreditemos no que diz, pois a extrema-direita faz mesmo o que promete. 

Cumprir e fazer cumprir a Constituição – parece tão simples e é tão difícil.

António José Seguro pode não ser o candidato ideal, pode até nem ser aquele que, se fossemos nós a decidir, nunca indicaríamos para candidato presidencial. Fui muitíssimo crítica da sua prestação como líder do PS e apoiei António Costa nas primárias. O mundo mudou e eu também. A democracia é a arte do possível, do confronto democrático e tolerante de ideias e de consensos.

De entre os candidatos que se apresentam, António José Seguro é aquele que, para mim, dá mais garantias de ser um Presidente democrático e respeitador das Instituições.

Será para ele o meu voto.

05 janeiro 2026

Da loucura dos ditadores e do apaziguamento dos fracos

"Precisamos da Gronelândia do ponto de vista da segurança nacional, e a Dinamarca não vai conseguir fazê-lo", disse em resposta à pergunta de um repórter, a bordo do Air Force One, a caminho de Washington, depois de mais um fim de semana em Mar-a-lago, estância de luxo na Florida onde acompanhou a invasão do Palácio Presidencial de Miraflores, em Caracas. "Vamos preocupar-nos com a Gronelândia daqui a dois meses... vamos falar da Gronelândia daqui a 20 dias", reforçou, colocando pela primeira vez prazos concretos, ainda que confusos, para avançar contra um território de um país aliado da NATO.

Jornal de Notícias

Desde a eleição de Donald Trump que todos os dias são dias de caminhada tresloucada em direção ao abismo.

Não vale a pena convencermo-nos de que, se não o provocarmos, se formos suficientemente subservientes e bajuladores, se continuarmos a tentar encontrar racionalidade onde apenas existe o posso, quero e mando e o mundo é de quem grita mais e violenta mais, estamos a evitar um conflito aberto e armado.

Ele soará quando Trump quiser, ou quando as forças que ele libertou e que saíram por debaixo das pedras o entenderem.

Não desistamos dos valores que distinguem a Humanidade e o Humanismo. A loucura dos ditadores não se apazigua, como bem se viu antes da II Guerra Mundial.

Haja dignidade e solidariedade. No mínimo.

03 janeiro 2026

Botas cardadas

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Trump diz que não vai deixar a Venezuela nas mãos do regime atual e que assistiu à captura de Maduro "como se fosse uma série de TV"

 

Ouvimos o Presidente Trump, que se ufana de uma operação militar que o mundo não via desde a II Guerra Mundial, que assume que pode vir a tomar conta da Venuzuela, ele, e que as companhias americanas irão tomar conta do petróleo venezuelano.

Isto após ter aparecido uma informação em rodapé de que o mesmo Trump iria avaliar a capacidade de Corina Machado liderar a Venezuela.

Pelos vistos já decidiu.

Sim, desde a II Guerra Mundial que não víamos este nível de loucura.

Botas cardadas.

"Hoje foi a Venezuela, amanhã quem será?" Dos candidatos presidenciais só Ventura não critica ataque de Trump, mas há tons muito diferentes

 

25 novembro 2025

Os 50 anos do 25 de novembro de 1975

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25/novembro/1975


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19/julho/1975


 


A 25 de novembro de 1975 houve um movimento de rotura nas Forças Armadas, entre os militares moderados e os de extrema esquerda, que não chegou a um enfrentamento militar e civil devido ao importantíssimo papel de Ramalho Eanes, de Melo Antunes, dos restantes oficiais que lhe estavam agregados e do, evidentemente, Presidente da República Costa Gomes. A partir daí foi possível retomar o rumo da consolidação da Democracia, inaugurada a 25 de abril de 1974.


Tudo isto é conhecido, há documentos, há ainda protagonistas vivos, de ambos os lados ideológicos - os que defendiam uma democracia liberal e os que defendiam um totalitarismo socialista, cuja referência (e apoio) era a União Soviética.


Se os militares tiveram um papel crucial nesta evolução democrática, também a sociedade civil o teve, com a mobilização de todos os que acreditavam nas promessas de abril. E dentre os movimentos da sociedade civil destacaram-se o Partido Socialista e o seu Secretário-geral Mário Soares.


Não posso entender, nem aceitar, que o Partido Socialista se deixe arrastar e confundir com a narrativa de quem, em 25 de novembro, tenha falhado na sua ânsia de voltar ao 24 de abril de 1974 e a um país onde se podiam proibir partidos políticos, nomeadamente o PCP.


Não posso entender, nem aceitar, que as devidas comemorações do 25 de novembro, uma das datas símbolo que fizeram o caminho democrático em Portugal, nos últimos 50 anos, esteja a ser apropriada pela direita revanchista, que foi uma das perdedoras do 25 de novembro.


Não posso entender, nem aceitar, que dirigentes e militantes socialistas não ergam bem alto a bandeira que por direito lhes cabe, de terem sido centrais na defesa do Portugal onde vivemos, deixando que outros, assumindo um papel que não tiveram, tentem transformar o 25 de novembro na data primordial do regime.


No 25 de abril, após um golpe militar, a liberdade foi restaurada. No 25 de novembro, após o levantamento dos moderados do MFA, com o apoio da população liderada pelo Partido Socialista, voltou-se ao projeto delineado a 25 de abril - liberdade, democracia, descolonização e desenvolvimento.

11 outubro 2025

Ao voto!


 


Nada de encolher os ombros.


Nada de vociferar.


É a festa da democracia.


É a nossa vez.


Decida, escolha, vote.


Não se resigne.


Nunca desista.


 



SMS grátis para 3838 (escrevendo RE espaço nº de BI ou CC espaço Data de Nascimento no molde AAAAMMDD). No estrangeiro pode enviar um SMS para +351962171000 (escrevendo RE espaço nº de BI ou CC espaço Data de Nascimento no molde AAAAMMDD).

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Enquanto

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John Singer Sargent, 1919


 


Guerra irsraelo-palestiniana - um eufemismo para o genocídio a que todos assistimos em direto. O acto terrorista e insano não justifica um genocídio, nem a ocupação militar dos territórios quer Israel sempre cobiçou. A lei dos messiânicos é uma lei de paus e pedras empapados de sangue.


A guerra entre a Ucrânia e a Federação Russa. Putin é o invasor. A Europa está, de novo, à beira da guerra, não vale a pena fingir que não vê, que não sabe.


Uma criatura tresloucada e perigossíma à frente dos Estados Unidos, os pogroms iniciados com imigrantes, ouvindo-se já impropérios contra judeus, odiar o vizinho que limpa a casa, recolhe o lixo, que traz comida, conduz quem quiser aonde quiser.


Os campos de detenção, a violação de telemóveis, a perseguição de jornalistas e Juízes, a censura. Outro tresloucado perigosíssimo, acalentado pelo primeiro, destruindo aquilo que de mais importante se descobriu e implementou no mundo em prole da saúde, opondo-se a vacinas, anunciando que o paracetamol causa autismo.


Um ministro português, neste caso da defesa, a classificar cidadãos portugueses, presos em águas internacionais, não tendo feito nenhuma ilegalidade ou crime, como amigos do Hamas e por isso, subentende-se, até lhes fez bem. Um governo e um Presidente da República que não se levantaram em uníssono para defender esses portugueses, fossem o que fossem, politicamente ou outra coisa qualquer. A certeza de qualquer cidadão fora de Portugal, que o seu País não o defenderá, apoiará, seja em que situação for.


Os Venturas originais e copiados a crescerem, a crescerem, ao colo de tanta pseudo informação com pseudo entrevistas.



(...)


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser


verdade,


enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,


o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:


ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


(António Gedeão)


30 agosto 2025

Tempos escuros


O discurso


 


A 8 de janeiro de 1964, Lyndon Johnson, Presidente dos EUA após o assassinato de John Kennedy, proferiu o seu discurso sobre o Estado da União, perante o Congresso.


Se lermos e ouvirmos este discurso, e outros que se lhe seguiram, não conseguimos compreender como, nos EUA e na Europa, foi possível defender, nessa época, a implementação de verdadeiras medidas sociais e socialistas, democratas, quando, desde há cerca de 20 anos, essas medidas serem apelidadas de extremistas e a ideologia subjacente de radicalismo de esquerda.


A criação da legislação da Grande Sociedade, com leis que confirmavam os direitos civisrádio e televisão públicasMedicare e Medicaid, educação e a Guerra à Pobreza", foi importantíssima no que diz respeito aos valores da igualdade, liberdade e democracia, com o incentivo aos serviços públicos nestas várias áreas. Hoje em dia, os valores reverteram-se para aqueles que vigoravam nas ditaduras dos anos 20, 30 e 40, em que se culpavam migrantes das dificuldades económicas, em que se divulgavam mentiras e manipulavam cidadãos, levando-os a discriminar e odiar todos os que fossem diferentes.


Neste momento, construimos campos de detenção, deportamos imigrantes, incentivamos as perceções sobre violência e pobreza, o preconceito dos privilégios, a ilusão sem sentido da defesa da nacionalidade e, daquilo que ninguém sabe exatamente o que é: a nossa "tradição".


Nesta onda de retrocessos e apelos totalitários, encabeçados por figuras como Trump, Putin, Netanyahu, para não falar dos seus pálidos seguidores, como Bolsonaro e Ventura, o papel da mulher na sociedade vai conquistando adeptos saudosos da mãe a tempo inteiro, do abençoado lar que deve conduzir, pululando discursos mais ou menos óbvios apelando ao regresso de práticas e processos que considerávamos irrevogáveis.


A guerra como solução imperial, o extermínio de povos e a quebra de todos os compromissos e tratados internacionais que mantinham um equilíbrio no mundo, o avanço científico, as organizações humanitárias, são já o nosso dia a dia.


Resta-me acreditar que sempre haverá quem defenda o humanismo, a tolerância, o compromisso com o outro, essenciais para a construção de uma sociedade humana.


Todos somos responsáveis.

11 junho 2025

A escalada da violência pelos extremismos de direita

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Temos já, tal como se previa, todos os ingredientes para a tomada do poder pela extrema-direita.


Temos como bodes expiatórios os imigrantes; temos o controlo da maior parte dos media pela direita e extrema-direita; temos uma manipulação doentia da informação, dando palco diariamente aos apóstolos das teorias fascistas e fascizantes, nomeadamente à "percepção" da violência e à insegurança, associando-as precisamente à imigração; temos a intimidação e a violência sobre os criadores, arrasando com a liberdade de interpretação, de criação, anunciando nova e mais cruentas violências (a minha solidariedade para com os actores da companhia "A Barraca").


Temos os partidos de extrema-direita a chegar ao poder e o desaparecimento sistemático dos partidos e movimentos que combatem o racismo, a xenofobia, a intolerância aos outros, aos diferentes, às minorias, retirando-lhes a dignidade e a possibilidade de viverem a sua vida sem que ninguém interfira.


Temos uma ignorância que se espalha à velocidade da luz, os antivacinas, os anti-investigação, os antiverdade, tal como o orgulho nessa ignorância. Temos a mentira, o escarninho, a cobardia, o ódio acicatado pelos odiosos e ignorantes, reduzindo a linguagem e o discurso a poucos e distorcidos vocábulos, do qual a vergonha desapareceu. Vergonha pelo que, na nossa sociedade, se considera um viver digno, como a paz, a solidariedade, a democracia, o compromisso com os outros, a liberdade.


Precisamente no dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, após um excelente discurso de uma criadora (completo aqui). Precisamente quando deveríamos sentir e aplaudir a maravilha de sermos uma mistura de tantos outros. Só isso dá riqueza à nossa evolução. Precisamente quando a homenagem e a condecoração de Ramalho Eanes nos comove e nos lembra o que é a cidadania, o serviço público, o compromisso com os outros.



«DESAFIO E CIRCUNSTÂNCIA


1.


Muito obrigada, Senhor Presidente da República, por me ter convidado a juntar-me às Celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, neste ano de 2025. Não estava no meu horizonte, mas agradeço-lhe.


Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua História, contemplando memórias de batalhas, acções de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico. Mas em Portugal é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.


Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade. E muitas vezes é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto – a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adoptada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo. E que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a Terra. A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses, que se encontram longe, mantêm com a sua cultura de origem. O país retribui-lhes reconhecendo desde há muito que as Comunidades Portuguesas são corpo essencial do nosso ser identitário.


Mas as Celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado foi cidade anfitriã em 1996. Passados vinte e nove anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera. O que mudou, e o que justifica que de novo tenha sido escolhida para ser palco das celebrações, foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.  


É sabido que Lagos, lugar de saída para África, e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres. A escassos quarenta quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação. A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos noventa, permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico antes designado por Terras do Infante. Era altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade merecedora de acolher estas celebrações, e de fazer reflectir a sua importância como polo aglutinador de interesse cultural.


Mas há outro motivo para que este ano a Celebração deste Dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a evocar o nascimento de Camões, ocorrido há quinhentos anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena reflectir sobre o facto, pois tal como não sabemos como decorreu a sua infância nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu. Para sermos justos, sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um célebre maestro disse sobre Beethoven – Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu.


2.


Nunca mais morreu.


Provam-no a forma como passados cinco séculos tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior. Novos autores têm surgido actualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões. O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo, que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa Moderna que hoje usamos. Demonstrou como a Língua Portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao “grande cantor do Oceano” como lhe chamou Baltazar Estaço.


Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida afinal não são lendas, são verdades. O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índico redigiu na margem de um exemplar de Os Lusíadas presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade – “Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa, sin tener una sabana con que cubrirse (…) después de haber navegado 5.500 leguas per mar.”


Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sabana, já depois de morto. Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e o seu mistério, isso talvez. Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi. Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.


Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.


3.


Mas se o patrono destas Celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico como é em Sobolos Rios que Vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase quinhentos anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, tão em conformidade com os tempos em que ele próprio viveu.


Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo, e sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das mil cento e duas oitavas que compõem Os Lusíadas, vinte e duas delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então. Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. O paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado na criação de um Império e, em sentido oposto conter a condenação das práticas que passados cinquenta anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo, pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o Dia de Portugal seja o Dia de Camões, expressa corajosas verdades, dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.


É bom lembrar que entre os séculos XVI e XVII três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante dezasseis anos, e no entanto os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos, e entre eles os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, e o poder temeroso e o poder laxista.


No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral. Mencionava o vil interesse e sede immiga/ do dinheiro, que a tudo nos obriga, e evocava entre os vários aspectos da degradação o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento. Queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava, depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia. Escreve o poeta no final do Canto VIII – Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências (…) Este interpreta mais do que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/ E mil vezes tiranos torna os Reis…


4.


Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios em que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do Globo Terrestre. Ou, mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a Terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no Acto IV do Rei Lear – É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos.


Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de la Mancha que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo de Os Lusíadas não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas em resultado dela, a insanidade. O desastre de Alcácer Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do canto X. Era a História, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela Literatura. No entanto, o fim de ciclo que neste caso aqui interessa não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global.


Porque nós, agora, somos outros, deslocamo-nos à velocidade dos meteoros, e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam pelo Espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de ciclo que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos? São público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso, e por isso, que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono.


5.


Por isso mesmo, também, vale a pena regressar a Lagos.


Sobre estes areais aconteceram momentos decisivos para o mundo. No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela Terra inteira, e a lenda coloca-o a meditar em Sagres. Numa referência um tanto imprecisa mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu – Ali vimos a veemência do visível/ O aparecer total exposto inteiro/ E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ Era o verdadeiro.


Esta ideia de que na mente do Infante se processou uma epifania anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa, mais ou menos informal, que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou assim para a História e para a mitologia como o lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o Mundo. Mas existe uma outra perspectiva, como é sabido, e hoje em dia, o discurso público que prevalece é sem dúvida sobre o pecado dos Descobrimentos não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.


É verdade que a deslocação colectiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes, e o encontro entre povos, obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na actualidade. É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel tão antigo quanto a Humanidade, o que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade. E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso. Lagos, precisamente, oferece às populações actuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico. Fá-lo com o sentido justo da reposição da verdade, e do remorso, pelo facto de aqui se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, com polos de abastecimento nas Costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.


6.


Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como num dia de Agosto de calor tórrido de 1444, aqui desembarcaram 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia, e como foram repartidos e por quem. Alguém que muito prezamos encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o Infante Dom Henrique. Lagos não se furta a expor essa verdade histórica. Lagos também mostra o local onde depois, em levas sucessivas, iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo, quando morriam, sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo os restos mortais de 158 indivíduos de etnia banta. Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui no Dia de hoje.


Aliás, a Unesco criou a Rota do Escravo, e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sobre os princípios do Amor e sob a Lei dos Direitos Humanos. Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene – “Homens não se matem uns aos outros”.


7.


É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de Agosto de 1444 porque o cronista do Infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilhas dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da Crónica dos Feitos da Guiné para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse. Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse. Numa das paredes de um dos museus de Lagos está escrito o testemunho de um autor quinhentista que denuncia a injustiça – “… eles não nos ofendem, não nos devem, nem temos justa causa para lhes fazer guerra, e sem justa guerra, não os podemos cativar nem comprar”.


O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante, de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença. É uma luta nossa, contemporânea. Em Lagos, hoje em dia, está presente, de outro modo, a mensagem do cartoon de Simon Kneebone datado de 2014 que tem corrido mundo – A cena é nossa contemporânea, passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes. O tripulante da grande embarcação pergunta – De onde vêm vocês? Da lancha apinhada alguém responde – Vimos da Terra. Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.


8.


Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizava, filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.


A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos, nos dias de hoje, um pouco por toda a parte, agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta – Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem/máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um ser humano?


9.


Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.


Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha o poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugados. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial. Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o Canto I de “Os Lusíadas”, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos – “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da Terra tão pequeno?”


Nestes versos se reconhece o conceito renascentista, o da grandeza da solidão do ser humano e a sua luta estoica centrada na confiança em si mesmo. Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa, que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo de Camões só teve um lençol, e oferecido, a separá-lo da terra. A sorte do seu corpo não difere muito daquela que mereceram os corpos dos escravos de Lagos. Mas, entretanto, no século XIX, o direito à protecção beneficiada pelo estado começou a emergir, criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois da duas Guerras Mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos, e durante algumas décadas foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.


O conceito da representatividade respeitável da figura de chefe de estado oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou, depois, o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida. A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende. Um chefe de estado de uma grande potência durante um comício pôde dizer – Adoro-vos! Adoro os pouco instruídos! E os pouco instruídos aplaudiram. Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia do ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?


Hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?


Nós, portugueses, não somos ricos, somos pobres e injustos, mas ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura, e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos, e com eles estabelecemos novas alianças, e criámos uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa, e fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma União de países livres e prósperos que desejam a paz. Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.


Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque, se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.


Muito obrigada.


Lagos, 10 de Junho, 2025.


Lídia Jorge»



Só falta o queimar dos livros. E o que se lhe seguirá.

21 maio 2025

Faróis fundidos

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Luís Montenegro (...) o farol do País (...)


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André Ventura (...) um farol e um garante da estabilidade (...)


Tantos e tão grandes faróis que temos a iluminar Portugal, a guiá-lo por entre as brumas.


O problema é que alumiam muito pouco, tal as trevas que por aqui estão.


Fundidos, certamente.

25 abril 2025

Os cinquenta anos das primeiras eleições livres

 


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Vincent Van Gogh


 


À medida que os anos passam, os deserdados da democracia vão perdendo vergonha e ganhando terreno.


A decisão do governo relativamente às comemorações dos 51 anos do 25 de Abril de 1974 e aos 50 anos das eleições para a Assembleia Constituinte deveriam ser uma prioridade de toas as Instituições Democráticas, não só pela celebração da alegria da libertação e pelo reconhecimento do tanto que o País se desenvolveu, como também pela alegria e necessidade de transmitir a quem nasceu já depois dessas datas, aquilo que de mais importante, precioso e delicado existe: a democracia, a liberdade, a igualdade e a solidariedade.


Todos estes conceitos são cada vez mais desprezados, se não denegridos pelas crescentes forças autoritárias, ignorantes e ditatoriais, de ditadores e/ou dos  seus aprendizes.


É muito importante e urgente que não deixemos que o medo, o desinteresse, a amargura e a desilusão se instalem.


Desçamos a Avenida celebrando a Liberdade, com cravos, com turbantes, com mantos, com o que quisermos, de preferência bem vermelho.


Viva a Liberdade!

03 abril 2025

Trump - O Ditador do século XXI

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E difícil acreditar que algum dia os Estados Unidos da América se transformariam numa ditadura.


É muito difícil aceitar que um dos mais importantes e significativos baluartes da Liberdade resvala para uma sociedade fechada, sem liberdade de imprensa, sem separação de poderes, sem garantias de igualdade ou justiça para os seus cidadãos, sem qualquer pejo em usar a força para deter e violentar pessoas que tenham a ousadia de mostrar opiniões diferentes, que proíbe livros, palavras, conceitos, que transforma a ciência em ideologia, que dizima o Departamento da Educação, que ameaça países de compra e/ou invasão, sem qualquer respeito pelo direito internacional, pelo direito dos povos à autodeterminação, que rasga a Constituição dos EUA.


Putin invadiu a Ucrânia. Irá Trump invadir a Gronelândia, anexar o Canadá?


Que ninguém diga que não sabia. Trump e os seus apaniguados foram suficientemente claros. O projecto 2025 está a ser rapidamente implementado.


É muito difícil assumir a realidade, os EUA a fazerem-nos regressar aos anos 30 do século XX. Mas assim é.


As nuvens adensam-se. Estaremos ainda a tempo de evitar maiores e piores males?

02 março 2025

A impotência europeia

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O que se tem passado com a política externa do EUA desde que Trump assumiu a Presidência, é uma veloz e irreversível cavalgada para o retrocesso civilizacional, para o voltar de um ciclo de impérios ditatoriais.


Compram-se e vendem-se países, humilham-se os seu representante eleitos democraticamente, cortam-se alianças e refazem-se algumas antigas, cujo resultado foi catastrófico.


Estamos de joelhos, real ou metaforicamente.


É difícil ser optimista quando a se concretiza.

29 janeiro 2025

Receita para o desastre

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Embuste


É assim que se faz:


26 janeiro 2025

Cantata de Paz

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20 de janeiro de 2025


Ciclicamente, tudo o que entendemos ser a base comum do comportamento humano em sociedade, a matriz judaico cristã, em que os valores da solidariedade, da igualdade, o reconhecimento de direitos que fazem de nós seres humanos, transforma-se e desaparece, levando a situações de autoritarismo, de homogeneização num modelo idêntico, como se fossemos máquinas, a uma desigualdade e revolta que nos conduzem, inevitavelmente, ao papel de vítimas e algozes, de oprimidos e opressores.


A ignorância, a frustração, o racismo, o preconceito, o desprezo e desvalorização dos factos que transformam vacinas em opiniões políticas, o laxismo e a pobreza da linguagem, a violência, o deslaçar dos agentes culturais e dos que, quando nada mais há, nos asseguram a sobrevivência, a desqualificação de cada ser humano como único e irrepetível, como criador e executor do que imagina, como um dos pólos da infinita rede que se forma, sempre que se quebra a solidão.


Imigrantes ilegais, que tiveram o azar de nascer na miséria ou se transformaram em penas e pedras perdidas no mundo, gente com força suficiente para arriscar a própria vida, que tenta construir alguma felicidade e aconchego fora do seu país, que tenta conseguir alguma coisa que a transporte para condições mais dignas, mais fáceis, mais macias, têm peste.


Nestes tempos sombrios, os imigrantes são, por definição, criminosos, pelo que se transportam em aviões militares, algemados de pés e mãos. E o mundo que está a ruir vai ruir ainda mais. Não é só Trump, nos EUA, mas todos os governantes de extrema-direita dos países europeus, que deixaram de se envergonhar por dizerem os inimagináveis e perigosos absurdos que papagueiam, com poses de Estado e voz grossa.


Não faltarão ideias velhas, tristes, que querem reduzir a pó quem se lhes opõe: esvaziar Gaza de Palestinianos.


Sim, ele irá fazer o que prometeu. Ele e todos os outros que o têm como professor.


Temos ainda a certeza de que as tecnologias de informação, a nova comunicação, a inteligência artificial, manterão as realidades paralelas que servirem os seus interesses e desígnios. A transformação da inovação num instrumento do mais autoritário e aflitivo que existe – a perda da identidade como indivíduo, a perda da igualdade, da liberdade e a implosão das democracias.


Vemos, ouvimos e lemos


Não podemos ignorar [...]


Cantata de Paz


Sophia de Mello Breyner

07 dezembro 2024

Só é vencido quem desiste de lutar

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BNP


Um dos Homens a quem devemos a Democracia e a Liberdade. E que nunca desistiu.


Adenda: Mário Soares não terá sido o autor desta frase e deste lema de vida, mas fê-lo seu. Salgado Zenha, seu grande amigo durante tantos anos, e outro grande lutador pela liberdade (em quem votei nas eleições presidenciais), repetia esta, como outras frases slogans de vida., que sempre seguiu.

25 novembro 2024

Das datas fracturantes

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Manifestação do PS na Fonte Luminosa, na Alameda, em Lisboa (30-12-1975)


No dia 25 de Novembro de 1975 defrontaram-se duas concepções de sociedade - os defensores de um regime democrático multipartidário de tipo ocidental e os de um regime totalitário ditatorial de tipo comunista. Foi uma data fundamental para a consolidação da democracia portuguesa, tal como o 25 de Abril de 1974 foi a data fundacional desse mesmo regime. Ambas foram fracturantes e em ambas poderia ter eclodido uma guerra civil.


Aos militares que organizaram e concretizaram o golpe militar a 25 de Abril e aos que defenderam o regime democrático a 25 de Novembro, devemos o nosso reconhecimento e as nossas homenagens.


O PS foi o partido político mais importante no combate à deriva extremista e totalitária de 1975. Essa memória faz parte da sua e da nossa História recente. Durante muitos anos foi precisamente esse momento um dos grandes entraves ao entendimento entre o PS e os partidos que, no 25 de Novembro, representavam a facção antidemocrática. António Costa conseguiu ultrapassar ressentimentos e posicionamentos monolíticos, fazendo uma ponte indispensável entre o que unia o PS e os partidos à sua esquerda, seguindo a abertura do PCP, que a percebeu como a única forma de desapear a direita do poder.


Mas o PCP e o BE terão que perceber que o caminho reiniciado a 25 de Novembro foi aquele que permitiu que eles próprios sobrevivessem, para não falar da democracia e da liberdade. A existência da Geringonça não pode levar o PS a negar a sua história nem a sua identidade intrinsecamente democrática, para não ferir as sensibilidades dos seus parceiros.


Ao permitir que a direita e a extrema direita se mostrem como os únicos defensores do 25 de Novembro, reclamando-o como uma das suas vitórias, o PS acaba por se deixar colar aos que, nessa altura, estavam do lado do totalitarismo esquerdista, esquecendo que foi uma trave mestra da liberdade naqueles tempos revolucionários. Eu não o esqueço e penaliza-me muito que, no Parlamento, seja apenas a direita a querer homenagear o 25 de Novembro.


Adenda:


Grupo parlamentar do CDS/PP - Voto de saudação n.º 41/XIV – Pelo 44.º Aniversário do 25 de Novembro


Grupo parlamentar do PS - Voto de saudação n.º 53/XIV - À construção da Democracia em Portugal


Não celebrar o 25 de Novembro? “Mário Soares nunca tal permitiria”, garante Ana Gomes


Ramalho Eanes: “Não percebo que estigmatizem o 25 de novembro”

07 novembro 2024

Da esperança que nos sustém



O meu coração está cheio hoje, cheio de gratidão pela confiança que depositaram em mim, cheio de amor pelo nosso país e cheio de determinação. O resultado destas eleições não é o que queríamos, não é aquilo por que lutámos, não é aquilo em que votámos, mas ouçam-me quando digo que a luz da promessa da América arderá sempre, enquanto nunca desistirmos e enquanto continuarmos a lutar.


Ao meu querido Doug e à nossa família, amo-te muito. Ao Presidente Biden, obrigada pela fé e apoio. Ao Governador Walz e à família Walz, sei que o vosso serviço à nossa nação vai continuar. E à minha extraordinária equipa, aos voluntários que deram tanto de si, aos membros das mesas de voto e aos funcionários eleitorais locais, agradeço-vos. Agradeço-vos a todos.


Estou muito orgulhosa da corrida que fizemos e da forma como a fizemos – e da forma como a fizemos. Ao longo dos 107 dias desta campanha, tivemos a intenção de construir comunidades e coligações, juntando pessoas de todos os quadrantes e origens, unidas pelo amor ao país, com entusiasmo e alegria na nossa luta pelo futuro da América.


E fizemo-lo com a consciência de que todos temos muito mais em comum do que aquilo que nos separa atualmente. Sei que as pessoas estão a sentir e a viver uma série de emoções neste momento. Eu percebo, mas temos de aceitar os resultados destas eleições. Hoje cedo, falei com o Presidente eleito Trump e felicitei-o pela sua vitória. Disse-lhe também que o ajudaremos a ele e à sua equipa na transição e que nos empenharemos numa transferência de poder pacífica.


Um princípio fundamental da democracia americana é que, quando perdemos uma eleição, aceitamos os resultados. Este princípio, tal como qualquer outro, distingue a democracia da monarquia ou da tirania, e qualquer pessoa que procure a confiança do público deve honrá-lo. Ao mesmo tempo, na nossa nação, devemos lealdade não a um presidente ou a um partido, mas à Constituição dos Estados Unidos, e lealdade à nossa consciência e ao nosso Deus. A minha lealdade a estes três princípios é a razão pela qual estou aqui para dizer que, embora conceda esta eleição, não concedo a luta que alimenta esta campanha, a luta pela liberdade, pela oportunidade, pela justiça e pela dignidade de todas as pessoas, uma luta pelos ideais que estão no coração da nossa nação, os ideais que reflectem a América no seu melhor. Essa é uma luta de que nunca desistirei.


Nunca desistirei da luta por um futuro em que os americanos possam perseguir os seus sonhos, ambições e aspirações, em que as mulheres da América tenham a liberdade de tomar decisões sobre o seu próprio corpo e não tenham o seu governo a dizer-lhes o que fazer. Nunca desistiremos da luta para proteger as nossas escolas e as nossas ruas da violência das armas.


E na América, nunca desistiremos da luta pela nossa democracia, pelo Estado de direito, pela igualdade de justiça e pela ideia sagrada de que cada um de nós, independentemente de quem somos ou de onde começámos, tem certos direitos e liberdades fundamentais que devem ser respeitados e defendidos.


E continuaremos a travar esta luta nas urnas de voto, nos tribunais e na praça pública, e também a travaremos de formas mais silenciosas, na forma como vivemos as nossas vidas, tratando-nos uns aos outros com bondade e respeito, olhando na cara de um estranho e vendo um vizinho, usando sempre a nossa força para erguer as pessoas e lutar pela dignidade que todas as pessoas merecem. A luta pela nossa liberdade vai exigir muito trabalho. Mas, como sempre digo, gostamos de trabalho árduo, o trabalho árduo é um bom trabalho. O trabalho árduo pode ser um trabalho alegre. E a luta pelo nosso país vale sempre a pena. Vale sempre a pena.


Para os jovens que estão a assistir, é normal sentirem-se tristes e desiludidos, mas saibam que vai correr tudo bem. Na campanha, eu costumava dizer que quando lutamos, ganhamos. Mas o que se passa é o seguinte: por vezes, a luta demora algum tempo. Isso não significa que não vamos ganhar. Isso não significa que não vamos ganhar. O importante é que nunca desistam. Nunca desistam. Nunca deixes de tentar fazer do mundo um lugar melhor. Tu tens poder. Tens poder, e nunca dês ouvidos quando alguém te diz que algo é impossível porque nunca foi feito antes.


Têm a capacidade de fazer um bem extraordinário no mundo. E assim, para todos os que estão a assistir, não desesperem. Esta não é uma altura para levantar as mãos. Este é um momento para arregaçar as mangas.


É altura de nos organizarmos, de nos mobilizarmos e de nos mantermos empenhados em prol da liberdade, da justiça e do futuro que todos sabemos que podemos construir juntos. Muitos de vós sabem que comecei como procurador e, ao longo da minha carreira, vi pessoas nos piores momentos das suas vidas, pessoas que tinham sofrido grandes danos e grande dor e que, no entanto, encontraram dentro de si a força, a coragem e a determinação para tomar uma posição, para lutar pela justiça, para lutar por si próprias, para lutar pelos outros. Por isso, que a sua coragem seja a nossa inspiração. Que a sua determinação seja a nossa carga.


E termino com isto: há um adágio que um historiador apelidou de lei da história, verdadeira para todas as sociedades ao longo dos tempos: só quando está suficientemente escuro é que se podem ver as estrelas. Sei que muitas pessoas sentem que estamos a entrar numa época sombria, mas, para bem de todos nós, espero que não seja esse o caso. Mas é o seguinte, América, se assim for, vamos encher o céu com a luz de mil milhões de estrelas brilhantes, a luz do otimismo, da fé, da verdade e do lema da Universidade de Howard, Veritas et Utilitas, (“Verdade e Serviço”).


E que esse trabalho nos guie, mesmo perante os contratempos, em direção à extraordinária promessa dos Estados Unidos da América, agradeço-vos a todos. Que Deus vos abençoe, e que Deus abençoe os Estados Unidos da América.


Expresso


Nova morada - do Sapo para o Blogger

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