29 outubro 2008

Promover a ética

Talvez seja poesia, mas é preciso escutar os poetas. Manuel Alegre apela à renovação da esquerda e ao regresso do Estado como regulador e garante da igualdade, da capacidade de promover bem estar, do respeito pelo valor dos direitos humanos, do trabalho e da dignidade, da luta contra a escravização e a subalternização das pessoas ao dinheiro, da ética.


 


E absolutamente vergonhosa a chantagem que se tenta fazer com o governo, protagonizada por Augusto Morais, ameaçando com despedimentos a propósito do indispensável aumento do salário mínimo, em tempos de crise mais indispensável que nunca, assim como espantosa é a irresponsabilidade da oposição do PSD a esta medida.

26 outubro 2008

Philippe Jaroussky

 



 


Vedro con mio diletto - Vivaldi

Amel Brahim

 



Villa Lobos - Bachiana nº 5

Abstracção


(aguarela de Peter Doig: Driftwood)


 


Sigo a asa do pássaro

da raiz à abstracção

da distância às nuvens

sigo o tempo que bebe

os olhos que planam

para além da vertigem.


 


Sigo a asa do pássaro

o grito surdo da alma

que inicia a viagem.

O álibi

A crise financeira e a consequente crise económica estão a servir de álibi para todas as forças sociais, à esquerda e à direita.


 


O PS desculpa-se com a crise financeira para justificar o não cumprimento de metas que se tinha imposto na legislatura. Por muito que o contexto internacional seja mais desfavorável que o que se previa há 3 anos, isso não desculpa tudo, como é óbvio.


 


O PSD usa a crise financeira para justificar a sua opinião recente (porque quando estava no governo era diferente) em relação à suspensão das obras públicas, que já vinha sustentando praticamente desde que é oposição.


 


Mas também a CCP usa a crise financeira para pedir uma renegociação do aumento do ordenado mínimo nacional, estimado para €450! É absolutamente escandaloso estarmos a discutir o aumento do salário mínimo que é vergonhosamente insuficiente para viver.


 


A crise não pode justificar pedidos de aumentos salariais mínimos de 3,5%, por muito que nos penalize a perda do poder de compra que, continuamente, os mesmos sofrem. Mas o que não pode mesmo estar em causa é a aproximação do valor dos ordenados mais baixos, nomeadamente do salário mínimo, a um valor minimamente razoável. E mesmo os €500 previstos para 2011 é muitíssimo pouco!


 


Não se percebe este tipo de raciocínio. Ou seja, percebe-se, mas é revoltante. A crise e a pobreza não se resolvem à custa do regresso do trabalho de escravo.

25 outubro 2008

Cinzento


(desenho de Jorge Queiroz: sem título, 2003)


 


Encontro partículas de cinzento em pensamento

ao afastar os olhos do interior

e não sei distingui-las das pedras

que vou colocando no muro

a pouco e pouco escondendo

os olhos que procuro.

Vício


(desenho de Jorge Queiroz: sem título, 2000)


 


Só me resta alisar o papel

descolorir as letras

reciclar esta dor

doce e fina quase vício

com que alimento os dias.

A inevitabilidade das revoluções

Ouvimos todos os dias alguém dizer, a propósito de tudo e de nada, que é preciso reformar os serviços públicos, a saúde, a justiça, a administração central e local, a educação.



Com a resistência à mudança inerente ao ser humano, com os interesses, hábitos, procedimentos e atitudes instaladas durante décadas, mesmo que teoricamente se seja a favor da reforma, muito se faz ou tudo se faz para que ela não aconteça.



Mas as reformas são praticamente impossíveis. Até porque o desejo de reformar, após tantos obstáculos e recuos, deixa de existir, e o promotor da reforma transforma-se rapidamente em mais um pouco estimado compincha da resistência passiva.



Por isso tenho chegado à conclusão que, na maior parte das circunstâncias, é preciso que haja rupturas com o que era, para ser possível passar a ser diferente. Rupturas que implicam dor, radicalidade de actuação, que dividem profundamente em vez de uniren em consenso.



Assim, à medida que o tempo passa e eu vou envelhecendo, acredito cada vez mais que é a revolução que imprime mudanças, esperança e motivação.


 



(pintura de Jenny Keith-Hughes: polite revolution)

24 outubro 2008

Da graduação da desumanidade

A propósito do último post que coloquei, o último comentário, de alguém que a si próprio se intitula "Eu quero ser califa", é elucidativo da arte da quezília em que se esmeram alguns comentadores de blogues, para além de documentar, mais uma vez, aquele famoso aforismo: a ignorância é muito atrevida.





Então acha que uma pessoa com uma doença potencialmente mortal deve ser obrigada a trabalhar como as outras???

Então não percebe que vai enfrentar despesas de saúde muito mais elevadas de que este mísero benefício nem sequer cobre 10%???

Desumano...

Se a falta de compaixão e humanidade dessem graus de incapacidade, o seu seria de 100%!


 


Estamos a discutir apenas e só as deduções fiscais em sede de IRS de que beneficiavam as pessoas com deficiência, destas apenas e só aquelas que eram classificadas como deficientes por lhes ter sido diagnosticada uma doença oncológica, que lhes dava um determinado grau de incapacidade.





A legislação aplicável - Tabela Nacional de Incapacidade por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais (mas que era aplicada a todos os trabalhadores mesmo sem se garantir uma causa profissional para a doença oncológica) - Dec.Lei 341/93, 30/Setembro


(http://www.min-saude.pt/NR/rdonlyres/32AF13EE-1E3B-4D6E-99D7-38608065F4B8/0/DecLei34193de3009.pdf))


dizia: (pág. 5537) - tumores malignos sem metástases e permitindo uma razoável vida de relação - incapacidade até 80%.


 


Essa legislação foi revogada pelo Decreto-Lei nº352/2007, de 23 de Outubro - (http://www.inr.pt/bibliopac/diplomas/dl_352_2007.htm)



É preciso notar que há diversos tipos de tumores malignos, que precisam de diferentes tipos de terapêutica e que têm variados graus de agressividade e comportamento biológico. Tal como defendo, as terapêuticas para os doentes com diagnósticos oncológicos estão cobertas pelo SNS, e assim deve ser. Há alguns tumores malignos que se curam, alguns até pela excisão cirúrgica em cirurgia de ambulatório, e que não darão mais problemas nenhuns nem causam qualquer tipo de incapacidade.


 


É só nesse sentido que questiono a bondade da legislação anterior, que dava 80% de incapacidade apenas pelo diagnóstico de doença oncológica.


 


Por outro lado também questiono se os benefícios fiscais são a melhor forma de apoio aos doentes portadores de deficiências, sejam elas quais forem. Se calhar eram mais eficientes outros tipos de medidas.


 


Para além da tabela revista, não sei quais as alterações efectuadas na legislação. Mas uma coisa é verdade: conheço vários exemplos de pessoas que tiveram neoplasias malignas e que, felizmente para elas, não sofrem nem sofreram de nenhum tipo de incapacidade, mas que tiveram deduções no IRS bastante substantivas, porque assim era a legislação.

21 outubro 2008

Resposta a desafio

Fui desafiada por Filipe Tourais a aderir a um movimento que denuncie, na blogosfera, a alteração das deduções fiscais no IRS para os deficientes.


 


Sou totalmente solidária com os deficientes e desejaria que a sua voz se fizesse ouvir e fosse mais reivindicativa em várias questões, nomeadamente no acesso ao trabalho e na redução e fiscalização de barreiras físicas para a sua locomoção, para dar só dois exemplos.


 


Quanto às deduções fiscais tenho reservas bastantes. Tenho conhecimento de enormes  deduções no IRS por incapacidade, por exemplo 75%, a doentes a quem foi diagnosticado um cancro. É claro que a maior parte dos tumores malignos são doenças graves mas, felizmente, são já em grande parte curáveis. Mesmo que não sejam curáveis não é obrigatório que, pelo simples facto de se ter uma determinada doença, se tenha 75% de incapacidade e, portanto, um determinado montante de benefícios fiscais.


 


Este tipo de benefícios deveriam ser mais personalizados e revistos periodicamente. Não sei se a lei actual é melhor ou pior, mas ter 75% de incapacidade, em casos que conheço não se justfica, assim como não se justificava a redução de IRS por essa incapacidade.


 


Gostaria pois, antes de me associar a esta causa muito específica - a redução dos benefícios fiscais aos deficientes - de me informar melhor sobre o assunto.

19 outubro 2008

Debate inter-blogues


(Franquistas)


 


Tudo começou com um post do JRD, no bonstempos hein?!, sobre as valas comuns que estão a ser investigadas em Espanha, valas que serviram para enterrar os mortos republicanos, chacinados pelos franquistas.


 


Penso que a postura de Franco e seus companheiros, ao tratarem os seus mortos como heróis e os mortos republicanos como criminosos, nunca permitiram que se curassem as feridas da guerra civil. E isso é patente nas reacções da direita mais conservadora e retrógrada de Espanha ao reagir às leis que Zapatero fez aprovar, no sentido de se fazer justiça à memória dos vencidos.


 


Mesmo a propósito li hoje um texto de Jorge Almeida Fernandes, no P2 do Público, (link não disponível) em que chama a atenção para o aproveitamento político e a possibilidade de reescrição da História que podem representar alguns tipos de iniciativas deste género.


 


Parecendo responder ao meu comentário, A. Teixeira escreveu um excelente texto que separa as inquietações dos historiadores, o protagonismo de Baltazar Garzón e a memória que os saudosistas do franquismo não querem que seja preservada.


 


Isto é um verdadeiro debate inter-blogues!


 



(Republicanos)

Dos blogues colectivos

Tenho assistido, ao longo destes quase três anos em que me iniciei nesta aventura de ter um blogue, a vários blogues colectivos que se formam e se destroem, aparentemente por aparecerem confrontos insanáveis entre os vários colaboradores dos blogues.


 


Começo por me interrogar de quais as motivações para se criarem blogues colectivos. Entendo que um blogue que tenha um tema, por exemplo informação e debate científico, teatro, literatura, economia, fotografia, etc, possa englobar vários colaboradores que alimentem o blogue, mesmo que, no exemplo do tema de economia, haja uma linha condutora mais ou menos explícita, podendo até ser uma orientação política.


 


Outro tipo de blogues colectivos poderiam ser aqueles que funcionam quase como um jornal online, ou uma revista, em que, mesmo que haja uma linha editorial,  haveria áreas específicas tratadas por pessoas diferentes, assim como espaço para opiniões diversas.


 


Um blogue colectivo apenas de opinião, generalista para o caracterizar de alguma forma, arrisca-se a criar atritos entre os próprios bloguers, quanto mais assertivos e desassombrados forem os textos e, principalmente, se os vários intervenientes usarem uma linguagem muito comum na blogosfera, que ofende com facilidade quem está num mau dia ou é mais susceptível a posições mais exóticas ou extremadas.


 


Os comentadores jogam aqui um papel crucial, que é quase sempre de acirramento dos espíritos, contribuindo para o inflamar de ânimos e troca de palavras azedas.


 


Mas é pena porque há projectos engraçados que terminam nem os leitores percebem bem porquê, com comentários ofensivos, demissões e troca de acusações mais ou menos veladas.


 


Foi assim com o Bombix Mori, foi assim com o cinco dias e espero que não termine assim com o Corta-fitas.

Ao contrário


(pintura de Jorge Queiroz: sem título, 2003)


 


Volto-me ao contrário

estudo o aspecto rugoso húmido

sinto areias pegajosas

pequenas agulhas desprendidas

na face escondida

da terra que sou.

Molde


pintura de Joan Miró


hombre y mujer delante de un montón de excementos


 


Aguardamos a dor sem revolta

inevitável companhia do poder

de olhos vazios encaramos o nada

e viramos para dentro resignados

o molde que não deixamos de ser.

A crise, a UE e o Tratado de Lisboa

Perante uma grave crise financeira, e pelos visto a que se seguirá uma crise económica, no mundo, gostaria de ter visto relançada a discussão sobre o Tratado de Lisboa.


 


Se houve atrasos na tomada de posições conjuntas dos países da EU, se houve grupos de países, o G4, que se mandataram como vanguarda avançada da EU, mesmo sem terem qualquer representatividade política, se há a sensação de que na EU, em tempos de grandes dificuldades, têm um discurso de acordo e união, mantendo  uma prática contrária em defesa do seu próprio país, em que medida deve ou não ser repensada a EU? Em que medida o passo da aprovação de uma proposta constitucional é precipitada ou indispensável? De que forma o novo Tratado Europeu poderia ajudar ou complicar o enfrentar dos problemas económicos e financeiros, a prevenção da recessão como um bloco uno?


 


Afinal, a EU nem sequer se comportou como uma união económica. Penso que há aqui muitos assuntos que deveriam ser debatidos pelos vários actores políticos, nacionais e europeus.


 


Da lida insana

Tenho tido semanas pesadíssimas com trabalho. De tal maneira que apenas passeio pelos muitos blogues que aprecio, por outros que aprecio menos, pelos jornais online e vou catalogando assuntos sobre os quais gostaria de dizer qualquer coisa.


 


É claro que muitos perdem oportunidade, porque nesta nossa correria para ultrapassar o dia a dia vão cabendo cada vez menos tempos escolhidos ou roubados para pensar, saborear e observar.


 


Mesmo assim, ainda me arrisco a tecer um comentário sobre a mais que provável candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa.


 


Tal como Pacheco Pereira acho tal escolha absolutamente incompreensível e ruinosa para a cada vez mais distante e abatida credibilidade do PSD e da sua Presidente, Manuela Ferreira Leite. Não a entendo em nenhuma perspectiva, nem na única mesquinha hipótese de ter hipóteses de ganhar. Pacheco Pereira disse o óbvio. Aliás se defendesse essa solução, mesmo por omissão, não faltaria quem lhe apontasse o dedo como hipócrita calculista e vira-casacas, sendo eu uma delas, muito possivelmente.


 


Discordo muito de Pacheco Pereira em muitíssimas coisas, mas tem seguramente o meu respeito por não se refugiar em calculismos e defender as suas ideias, mesmo incómodas.


 


Já não posso dizer o mesmo de Manuela Ferreira Leite. O PS e o governo estão em roda livre, não há qualquer oposição credível à direita e isso é que é um definhamento da democracia e um atrofiamento da liberdade. Manuela Ferreira Leite acusou o governo de asfixiar a democracia, mas o seu partido é um dos maiores contribuintes para a aridez do debate político.


 


Nota: Pacheco Pereira tem uns minutos no Rádio Clube Português, de manhã, por volta das 9 horas, que se chama Vírus. É absolutamente imperdível.

18 outubro 2008

Dardos


 


Agradeço o prémio com que fui distinguida por um dos blogues que aprecio diariamente. Como mandam as normas



  1. exibir a distinta imagem

  2. linkar o blogue pelo qual recebeu o prémio

  3. escolher quinze (15) outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos


aqui vão os blogues que atiram certeiras e excelentes setas:



  1. Água Lisa (6)

  2. cocó na fralda

  3. Contra Capa

  4. DER TERRORIST

  5. hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

  6. jugular

  7. Ladrões de Bicicletas

  8. O Mundo Perfeito

  9. O Tempo das Cerejas

  10. Pedro Rolo Duarte

  11. Ponto de Cruz

  12. quase em português

  13. respirar o mesmo ar

  14. Saúde SA

  15. Teatro Anatómico


Muitos mais caberiam nesta lista, mas só podem aparecer 15. Nos meus favoritos continuarão a aparecer cada vez mais. É uma literatura alternativa que me dá muito prazer.

Memória


 


Cavaco Silva defende valores e políticas raramente coincidentes com as que eu própria defendo. Não me revejo na sua postura, nos seus discursos, não gostei dos seus mandatos enquanto Primeiro-Ministro e votei contra ele sempre que tive oportunidade.


 


No entanto, e a propósito de um comentário num dos posts mais abaixo, fiz uma pesquisa na internet sobre a inovação portuguesa dos anos 80 que deu pelo nome de salários em atraso, que motivaram intervenções incendiários do Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, alertando para a fome no distrito de Setúbal.


 


Ora essa inovação foi da autoria do governo do Bloco Central, chefiado por Mário Soares e Mota Pinto, na Vice-Presidência, como se pode ver neste documento de José Adelino Maltez – (…) Salários em atraso – Relatório oficial reconhece a existência de cerca de 100 000 trabalhadores com salários em atraso (Março). (…).


 


Além disso, após as eleições legislativas de 1985, ganhas por Cavaco Silva, foi elaborada uma Lei na Assembleia da República - Lei n.º 17/86, de 14 de Junho, Salários em atraso – posteriormente revogada pela Lei 99/2003 – Código de Trabalho – numa tentativa de proteger os trabalhadores de uma situação absolutamente inaceitável, que era trabalhar sem remuneração e sem soluções no quadro legal.


 


Portanto, os salários em atraso não foram responsabilidade de Cavaco Silva, do PSD, tendo sido durante a sua legislatura que se tentou resolver o problema, mas sim de Mário Soares, do PS (sem esquecer Mota Pinto, claro).


 


Pobreza

Há uns meses travou-se grande debate político-ideológico a propósito dos elevados níveis de pobreza em Portugal, assim como o agravamento das desigualdades sociais, baseado em relatórios do EUROSTAT, da UNICEF e de um estudo coordenado por Alfredo Bruto da Costa – Um olhar sobre a pobreza.


 


Da esquerda à direita foram sendo esgrimidos argumentos, demonstrando o mau desempenho que todos os governos tiveram, após o 25 de Abril, no combate às desigualdades sociais, não tendo sido capazes de desenvolver políticas que reduzissem o flagelo da pobreza.


 


No Público online de ontem vem uma notícia - Portugal é o país da UE onde a pobreza mais caiu - que eu gostaria que fosse também motivo de debate político-ideológico.



É preciso fazer muitíssimo mais, mas afinal sempre temos feito alguma coisa, mesmo com a continuada e arrastada crise em que vivemos. Ainda bem.


 


Sublinhados meus

16 outubro 2008

Economia ainda mais real

Petróleo cai para os 65 dólares com aumento das reservas dos EUA


 


E não baixa a gasolina. Mas a Autoridade da Concorrência ainda está a analisar se há ou não concertação de preços.

Economia real

Ultimamente todos nós fizemos um mestrado em economia e finanças. Mesmo que não saibamos distinguir os problemas económicos dos financeiros, nem saibamos o que é a economia real.


 


Para a enormíssima maioria dos mortais, entre os quais me incluo, só resta o medo de perder o emprego, ou de trabalhar mas não ser pago, ou de trabalhar e não lhe chegar o dinheiro ao fim do mês, ou de querer ir levantar dinheiro e não haver liquidez no Banco, outra das expressões que aprendemos a usar.


 


Parece que vamos entrar todos em grandes apertos e teremos que fazer estágios salazarentos para aprender a poupar. Até agora o que estava a dar era pedir empréstimos para as casas, os carros, os plasmas, as férias, os sofás, as viagens, as roupas, os cabeleireiros.


 


Mas, na realidade, teremos que regressar aos natais de prendas caseiras, aos aproveitamentos das roupas dos filhos mais velhos para os mais novos, à confecção de pratos com restos das refeições anteriores, aos pequenos-almoços comidos em casa, à escolha entre mais um par de calças e uma ida ao cinema, mais uma coloração e massagem capilar e um livro interessante, mais um telemóvel 5G com música, vídeo, que fala, dança e faz cafés e o telefone fixo lá de casa. Cada um à sua maneira, cada um à medida do que tem, talvez até nem seja má ideia começarmos a dar mais valor ao ser do que ao parecer. Com tantas e tão variadas crises que se sucedem umas às outras, o realismo da nossa economia, de cada um de nós, é a certeza do pouco que há para gastar.


 


Mas a verdade é que gastamos todos de mais. Só tenho pena que, na prioridade das poupanças os cortes atinjam principalmente aquilo que nunca devia falhar: a imprescindível necessidade de saber, perguntar, informar-se, comunicar e conviver. Salazar dirigia a poupança da nação reduzindo ao máximo o luxo da aprendizagem. E a nossa sociedade moderníssima é muito pouco meritocrática.

Labirinto


(pintura de Yana Stajno: Lot's Wife)


 


Por mais partículas que deixe pelo caminho

perco-me no labirinto

em que persigo eternamente

a minha sombra.


 


Desfazem-se ciclicamente as estátuas de sal

em que me cristalizo

ao olhar para trás.

12 outubro 2008

Da continuidade da crise

Ontem ouvi na SIC, penso que na SIC Notícias, uma entrevista a Henrique Neto (não consigo encontrar qualquer referência na internet e não a encontro online no site da SIC).


 


Com uma sobriedade e uma calma extraordinárias disse muitas coisas muito óbvias mas totalmente esquecidas, foi muito duro para os governos, nomeadamente para este, e apelou ao regresso à ética na economia e na política.


 


Disse, para além de outras frases, uma que me ficou a ecoar nos ouvidos (cito de cor): o imenso poder aliado a uma enorme ignorância faz uma mistura explosiva. Isto foi dito em relação aos gestores que assumiram o poder nas administrações das empresas e dos bancos, que sabiam muito bem como ganhar muito dinheiro a curto prazo, mas que eram totalmente ignorantes sobre tudo o resto, nomeadamente na gestão dessas mesmas empresas e bancos. Mas pode aplicar-se a tantas outras situações!


 


Vaticinou ainda que a crise financeira ainda demoraria alguns meses mas que se resolveria, ao contrário da económica, principalmente em Portugal, onde se manterá por muito tempo, com custos a vários níveis, nomeadamente no regresso dos ordenados em atraso.


 


A importância de Obama

Multiplicam-se os vídeos sobre o fundamentalismo dos apoiantes de John McCain, assim como a defesa que o próprio McCain faz de Obama, na tentativa de separar a sua posição como político candidato à presidência dos Estados Unidos, da posição da ala mais conservadora, racista e xenófoba dos EUA.


 


Estou convencida (e espero!) que toda esta instabilidade financeira que alastra pelo mundo só abrandará se os americanos elegerem Barack Obama. O descrédito e a ruinosa administração de Bush, que contaminaram a confiança dos cidadãos europeus, desregulando ainda mais a sua própria economia, nomeadamente com o esforço despendido nas várias guerras que alimentam, só acabará se houver uma mudança e uma renovação política dos dirigentes americanos.


 


Para bem dos EUA e do resto do mundo, espero que seja Barack Obama a ganhar as eleições.


 


11 outubro 2008

Ana Gomes

É muito engraçado ouvir os sisudos falar de Ana Gomes, da incendiária e tonta, revolucionária e estridente Ana Gomes. Eu própria já o fiz.


 


Mas aí está o escândalo de Guantanamo, as tibiezas do governo, as meias palavras, o varrer para baixo do tapete.


 


Parabéns à esdrúxula Ana Gomes, que demonstra à evidência que, apesar de se ter institucionalizado que as comissões, direcções de órgãos políticos, de associações de pendor corporativista ou outro existem para arrastar, adiar e não resolver, há sempre algumas pessoas que não se conformam, mesmo correndo o risco de serem ridicularizadas pela sua verticalidade.


 


Coerência? Há muitos tipos de coerência e aquela que reconhece que erra e volta atrás mas que luta por ideias é nobre, mesmo que os sisudos declarem o contrário. Inclusivé eu mesma.


 


Da crise

A crise está para durar. De repente, parece que todos tomaram consciência de que o consumismo desenfreado e sem objectivo é pernicioso. De repente descobrem-se virtudes e deveres no Estado insuspeitados para determinados pensadores políticos. De repente tomou-se consciência de que a economia deve estar ao serviço da política e não o contrário.


 


É verdade que sem crédito fácil e a baixos juros, uma multidão de pessoas não teria tido acesso a determinados bens que hoje consideramos indispensáveis a uma vida condigna.


 


Teremos que reequacionar o que é indispensável a uma vida condigna. As nossas prioridades deverão voltar-se outra vez para a essência e reconhecer o efémero, o superficial, o excesso.


 


Politicamente pode aproveitar-se este momento de crise para debater as funções do Estado, para que serve, que serviços deve assegurar, com deve ser o cimento que ampara a dignidade dos cidadãos.


 


Também convinha reequacionar o que se entende por União Europeia. Quem faz parte da dita? Quem elegeu o G4, o G8, qualquer G? Porque não há ainda uma declaração conjunta dos órgãos institucionais europeus, porque não há garantias para todos os países, assumidas pelo BCE?

Grau zero reeditado


 


 


É difícil, se não mesmo impossível, fazer pior que os deputados do PS, nomeadamente o seu grupo parlamentar, mais especificamente Alberto Martins.


 


As voltas e reviravoltas de uma opinião que é e não é, que não mas que sim, a triste figura de quem não percebe o ridículo em que faz cair a dignidade da própria Assembleia, faz corar de vergonha.


 


Por estas e por outras é que há um grande afastamento entre os cidadãos e os seus representantes, cujo estatuto de enguia é repugnante.


 


Valha-nos ainda Manuel Alegre. Felizmente, a ele ninguém o cala.

08 outubro 2008

O hábito

A falta de nível de Zita Seabra  RTPN, agora, desvalorizando as medidas do governo, dizendo que devemos copiar os governos europeus mas depois sem dizer quais, é de uma inacreditável aridez.


 


Na verdade parece que ninguém sabe exactamente o que fazer. A nós, apreensivos cidadãos do mundo, temos medo que nos falte o dinheiro para a nossa vidinha quotidiana, não percebemos nada da bolsa, de activos ou de crashs, e apenas nos perguntamos se deveríamos reeditar os colchões com mealheiros.


 


Uma coisa eu aprendi com o filme "It's a Wonderful Life" de Frank Capra. Não devemos ir a correr levantar o dinheiro do banco, em pânico, como se não houvesse outra solução. De resto continuemos, dia a dia, tentando não descompensar porque até com este medo a gente se há-de habituar.

Acordar


(pintura de Snadi Miot: awakening)


 


Hoje lembrei-me nitidamente

do que faltou desses dias

em que sonhávamos o mundo

até que o mundo

nos acordou.

07 outubro 2008

Bancarrota

Hoje ouvi várias vezes o tom perplexo e preocupado de uma colega:


- O Zapatero disse que a Espanha entrou em recessão!


 


à qual respondi as mesmas vezes com o mesmo tom preocupado e perplexo:


- E a Islândia está à beira da bancarrota!


 


05 outubro 2008

República Portuguesa


 


Mais uma cerimónia de comemoração da implantação da República, com muito menos pompa e circunstância da evocação do Regicídio. Estamos em tempos de branqueamento e de revivalismo, menorizando uns actos revolucionários e enaltecendo outros.


 


Tudo isto tem muito pouco a ver com rigor e objectividade históricas, aproveitando-se as várias efemérides para recados e mensagens políticas, neste momento dos sectores mais conservadores da sociedade que, com a cambalhota dos capitalismos desenfreados e da entronização do Mercado, entidade tão ausente e abstracta com o etéreo mas que tem servido de justificação para enormes e pesados despedimentos colectivos quando as empresas deixam de ter lucros milionários, parecem encontrar-se sem norte nem rumo.


 


Mais uma vez o nosso Presidente Cavaco Silva dissertou sobre a crise e a verdade, sobre a fibra dos portugueses e a ética republicana. Nada de original, motivante ou galvanizador de qualquer vontade.


 


Vamos vivendo o dia a dia, recuperando a ideologia da poupança, da redução do consumismo e do Estado como regulador e benfazejo, mesmo para os que passaram as últimas décadas a exigir que tudo seja entregue à regulação do mercado e à sacrossanta e caridosa sociedade civil.


 


Mas o nosso Presidente, tão cinzento, monocórdico, igual a si próprio, prepara-se para liderar a oposição a Sócrates e à maioria socialista. À frente do PSD já se colocou a sua pupila dilecta, que pede audiências urgentes para saber a opinião da Excelentíssima Primeira Figura sobre a independência do Kosovo!


 


O que vale é mesmo tudo, até esse submundo blogosférico em que nos movemos, todos os dias bafejada com o sopro da higienização que vem dos lados do Abrupto e de mais alguns assépticos como ele, que se transformam em damas sofisticadas e de nariz sensível quando à sua volta tudo tem aspecto lamacento.


 


Felizmente, e ao contrário dos monárquicos, temos periodicamente oportunidade de mudar e escolher outro Presidente.


 


Viva a República!

03 outubro 2008

Garfadas online


 


Há quem consiga aliar o conhecimento científico e a vivência dolorosa e diária numa enfermaria com a arte de saber aprofundadamente de gastronomia, história e arquitectura de cozinhas, alimentação, enfim, tudo o que tenha a ver com garfadas, garfos e restantes talheres, restantes adereços, coreografias e protocolos, assim como de cozinhas, separação de espaços de comedores e de confecção alimentar, chaminés, lareiras, utensílios, etc.


 


 


Para além de uma evidente erudição é um gosto poder saborear este Garfadas Online.


 


Num blogue perto de si!


 


Grau negativo

Casas das Câmaras a preços controlados, para particulares, que têm a particularidade de ter relações privilegiadas com qualquer dos Presidentes ou vereadores, amigos ou conhecidos - porquê?


 


Que haja a hipótese de conceder espaços que sejam património das Câmaras para associações desportivas e culturais, organizações várias sem fins lucrativos, que tenham um qualquer papel na vida social e cultural da cidade ou do país, tudo bem, desde que os critérios de atribuição sejam claros e transparentes, desde que haja possibilidade de concursos a esses espaços.


 


Mas porque é que esse património de apartamentos e casas para alugar não é feito com preços idênticos aos do tal mercado? Ou porque é que essas casas não são leiloadas?


 


Não há justificações que satisfaçam a não ser a contemplação da total promiscuidade entre o que deveria ser o acautelar dos interesses públicos e os interesses privados, as cunhas, os conhecimentos, os compadrios, enfim, a forma como tudo em Portugal se faz e se troca, um telefonema, um café, umas palmadas nas costas, e que já é tão normal que ninguém se espanta da tranquilidade de certas consciências.

Grau zero








Nunca percebi muito bem a necessidade do movimento de alguma esquerda no sentido de legalizar a união de pessoas do mesmo sexo na forma de casamento, contrato que regulariza a união entre pessoas de diferentes sexos, tal como também nunca percebi muito bem a necessidade de se transformar as uniões de facto em casamentos sem assinatura.


 


Mas não tenho rigorosamente nada contra a existência de um contrato que regularize as cláusulas contratuais de uma união entre pessoas do mesmo sexo, chame-se ela como se chamar, assim como também não tenho nada contra as uniões de facto. Quem se quer casar tem os direitos e os deveres consagrados num contrato civil que se designa casamento. Quem não quer esses deveres e esses direitos não se casa.


 


Também não me parece que este assunto do casamento entre homossexuais seja assim tão importante e premente na nossa sociedade para tanto se falar dele e para tanta urgência no debate de uma lei no parlamento.


 


Mas o que acho mesmo totalmente inaceitável é o PS ter votado a obrigatoriedade da disciplina de voto na votação de uma lei que regularize o casamento entre homossexuais, em vez de ter dado liberdade de voto aos seus deputados.


 


Qual o objectivo político, a coerência, a dignidade de tal decisão?


 


Isto é atingir o grau zero da política, para além de ser totalmente estúpido e incompreensível.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...