28 outubro 2016

O futuro

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Daniel Arsham


 


 


O futuro que nos espera já passou por nós


numa velocidade de tempo e de espaço


sem pernas que pesem a escravidão.


A morte que nos tempera já aconteceu


e não tarda o próximo renascer


das rugas em rostos de indecisão.


 


Enquanto os dias se arrastam espelhados


o futuro estica as almas que se entregam


e morrem afogadas de sofreguidão.


 

20 outubro 2016

Da súbita desgraça do metro de Lisboa

Vale a pena ouvir este episódio de Contas do Dia, rubrica que se ouve todos os dias na Antena 1, antes das 09h00. Helena Garrido faz eco da campanha a que temos assistido sobre o mau serviço que o metro de Lisboa presta. O contraditório, como agora se diz, é feito pelo próprio António Macedo.


 


E, se calhar, esta avalanche de queixas não é alheia ao facto do governo ter revertido a concessão do metro a privados. Será só coincidência?

RTP - serviço público ou privado?

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Assisti ao programa Prós e Contras sobre o cancro da mama, porque é um assunto muito importante e porque sou profissional de saúde. Pelo respeito que me merecem os doentes e todos aqueles que enfrentam a doença, no domicílio, nos Centros de Saúde e nas Instituições Hospitalares, grandes e pequenas, públicas e privadas, não posso deixar de me expressar quanto ao que penso ter sido um péssimo serviço público prestado ao País, principalmente a todos os doentes oncológicos, particularmente os que têm cancro da mama.


 


Perante o desconforto mais ou menos evidente da Presidente Sociedade Portuguesa de Oncologia e do Presidente do INFARMED, todo o programa foi um discorrer de razões para que a população percebesse que a única Unidade de Mama certificada no País era a da Fundação Champalimaud (FC), e que era portanto a única que sabia e estava em condições de tratar com qualidade os doentes a quem este fosse diagnosticado. Surpreendentemente, no site da FC afirma-se que a Unidade de Mama está em processo de certificação, o que acontece com várias unidades de mama (e não só) de outras Instituições Hospitalares, nacionais e internacionais. Por outro lado o Centro Hospitalar de Setúbal tem uma Unidade de Mama certificada desde 2015, pelos critérios do EUSOMA.


 


Repetiram-se à exaustão palavras como certificação, unidade multidisciplinar, qualidade, sem se explicar que a primeira decorre de um processo em que se procura que uma entidade externa assegure que um serviço/ laboratório/ hospital tem procedimentos padronizados e pode evidenciar que os cumpre, que o tratamento de cancro em consultas multidisciplinares existe nos hospitais há mais de 20 anos, e que a qualidade depende do cumprimento das boas práticas internacionais, que apenas se podem assegurar quando se demonstram resultados que são auditados por entidades externas.


 


Fizeram-se afirmações graves quanto aos excessivos e desnecessários tratamentos de cirurgia e quimioterapia a que as doentes eram sujeitas. Não se explicou que toda a terapêutica oncológica tem sofrido modificações ao longo do tempo, de agressiva para mais conservadora, fruto de investigação científica e de trabalhos de observação e comparação de períodos livres de doença e de sobrevida. Em concreto, o excesso de quimioterapia no cancro precoce da mama tem estado em estudo e os resultados desse trabalho foram publicados em Agosto. Isso foi dito, de facto, mas já depois de se ter criado a ideia de que as doentes eram sobre tratadas em Portugal.


 


Afirmou-se assertivamente que havia muitas discrepâncias de diagnóstico entre os efectuados na FC e nos outros serviços de Anatomia Patológica (SAP), colocando em causa todos os serviços, sem se detalhar as percentagens em que isso acontece, nem se explicando que as diferenças de interpretação dos são resultado das más condições de preservação das amostras biológicas antes de chegarem aos SAP – a chamada fase pré analítica. Já agora é bom que se divulgue que a imensa maioria, se não a totalidade, dos SAP, têm implementados controlos de qualidade externa das técnicas de imunohistoquímica (que estão em causa na determinação dos receptores hormonais) e muitos têm também controlos de qualidade externa do diagnóstico.


 


Foi ainda dito que muito Hospitais públicos dificultavam a disponibilização das amostras para revisão diagnóstica. Sempre trabalhei em hospitais do SNS e conheço a grande maioria dos SAP. Posso afirmar que nunca vi essa prática, muito pelo contrário. Os Patologistas são dos médicos que mais trocam opiniões, enviando amostras para peritos nacionais e internacionais, sempre que há dúvidas ou para isso são solicitados, utilizando inclusivamente os resultados dessas revisões como controlo de qualidade dos seus próprios serviços.


 


Em Portugal há várias unidades hospitalares a tratar cancro da mama, como se pode depreender pelos números de novos casos por ano, revelados no próprio programa. Se a FC trata 500 novos casos por ano, os restantes 5.500 são-no nas outras instituições, públicas e privadas. Todas as recomendações de boas práticas remetem para uma cada vez maior proximidade dos cuidados ao doente, assegurando os números mínimos por instituição (150 a 200 novos caso por ano), pelo que o que é imprescindível é multiplicar unidades que possam fazer o seu trabalho bem feito e em tempo útil. Isso sim, melhoraria a acessibilidade dos doentes e reduziria as desigualdades, existentes em todo o território nacional e por evidente falta de recursos humanos e técnicos.


 


Não, não está tudo bem no SNS. Há muitos constrangimentos e muitas insuficiências e, por vezes, erros e negligências. Devem ser conhecidos para que sejam resolvidos e para que os doentes sejam tratados com qualidade, em segurança e em tempo útil. A redução das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde passa por ter um SNS bem equipado e bem organizado. Além disso a rede privada também tem o seu papel havendo, para além da FC, outras instituições privadas a tratar cancro, da mama e outros. Convém ainda lembrar que muitos dos profissionais que trabalham na FC também trabalham ou trabalharam no SNS onde, com certeza, aplicam e aplicavam as recomendações e guidelines internacionais quanto ao tratamento do cancro da mama, participam e participavam em reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica.


 


Mas o que a mim mais me impressiona é que a ideia de que o SNS não responde à população, que é mau, que os seus profissionais não trabalham com qualidade e que os doentes têm que recorrer aos privados para serem bem tratados, está de tal forma enraizada, que todos acham normais as afirmações e sugestões proferidas durante todo o programa que, na realidade, se transformou em propraganda à FC, não se tendo ouvido nem lido qualquer reacção da parte de profissionais, associações de doentes, de responsáveis institucionais ou do governo.


 


E no entanto, todos os anos milhares de pessoas são tratadas, de cancro da mama, de outros cancros e de outras patologias, por profissionais dedicados e empenhados, que se deslocam semanalmente entre hospitais para assegurarem as reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica, que inventam horas e coragem para enfrentar todas as limitações, falta de recursos e dificuldades imensas dos doentes, para lhes poder dar aquilo que as boas práticas e o estado da arte recomendam e que sempre se habituaram a fazer – a tratar bem os seus doentes.


 

17 outubro 2016

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau


 


 


Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.


 


É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.


 


O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.


 


Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.

13 outubro 2016

The times they are a-changin'

Foi grande a surpresa, mas fiquei bastante contente. É uma rotura com o estabelecido, mas justificada. Ainda bem que os tempos estão a mudar.


 



Bob Dylan


 


Come gather 'round people


Wherever you roam


And admit that the waters


Around you have grown


And accept it that soon


You'll be drenched to the bone.


If your time to you


Is worth savin'


Then you better start swimmin'


Or you'll sink like a stone


For the times they are a-changin'.


 


Come writers and critics


Who prophesize with your pen


And keep your eyes wide


The chance won't come again


And don't speak too soon


For the wheel's still in spin


And there's no tellin' who


That it's namin'.


For the loser now


Will be later to win


For the times they are a-changin'.


 


Come senators, congressmen


Please heed the call


Don't stand in the doorway


Don't block up the hall


For he that gets hurt


Will be he who has stalled


There's a battle outside


And it is ragin'.


It'll soon shake your windows


And rattle your walls


For the times they are a-changin'.


 


Come mothers and fathers


Throughout the land


And don't criticize


What you can't understand


Your sons and your daughters


Are beyond your command


Your old road is


Rapidly agin'.


Please get out of the new one


If you can't lend your hand


For the times they are a-changin'.


 


The line it is drawn


The curse it is cast


The slow one now


Will later be fast


As the present now


Will later be past


The order is


Rapidly fadin'.


And the first one now


Will later be last


For the times they are a-changin'.

10 outubro 2016

Inadmissível

Sejam quais forem as razões dos taxistas é inadmissível o que se está a passar em Lisboa. Espero que o governo, que tem legitimidade democrática, assegure a normal circulação na cidade de Lisboa.


 


As imagens da forma irracional e violenta desta chamada manifestação, que bloqueia os acessos ao aeroporto, assalta veículos e ameaça toda a gente, foram a melhor propaganda para a UBER.


 

05 outubro 2016

Última hora

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O jardim e a casa

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Jimmy Lawler


 


 


Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.


 


Sophia de Mello Breyner Andresen


 

Comunicado

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Abel Salazar


 


 


Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem que ninguém lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.


 


Miguel Torga


 

Da construção de muros

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Zenos Frudakis


 


Não sei se contaminada pelo 25 de Abril de 74 se apenas pela euforia própria de quem leu muito na adolescência e aprendeu a falar de todos os assuntos, sem tabus, a nova forma de debate na nossa sociedade cheia de apelos e hinos à tolerância, espanta-me cada vez mais.


 


Não é possível trocar opiniões de forma aberta e leal, esgrimindo os argumentos com verdadeiro respeito pelo oponente. Neste momento ou se é a favor e consequentemente amigo, bom, sensível, sensato, amante dos pobres e oprimidos, solidário, justo, enfim, um anjo armado da justiça divina, ou se é contra e inevitavelmente horroroso, criminoso, nojento, estúpido, rígido e empedrado, com o ranço do reaccionário, do mau, do opressor, do amante do poder que corrompe.


 


O comportamento, a linguagem, os gestos, as vírgulas e a moralidade, julgada por quem se sente e julga detentor da verdade, estão sempre sob escrutínio. As causas que se defendem, com a certeza e o fundamentalismo sempre militantes, não deixam nunca margem para dúvidas, perguntas, remotas hipóteses de eventuais análises distintas e, muito menos, de qualquer possibilidade de reavaliação.


 


O espírito autoritário espreita a cada esquina e a rotulagem pública, antecedida e precedida de insultos mais ou menos criativos, é a norma, enquanto se defendem as liberdades das minorias, só de algumas, claro, porque só alguns comportamentos e só algumas escolhas morais podem ser sancionadas pelos bons e pelos bravos defensores da moral e dos bons costumes, cuja definição vai mudando ao longo dos tempos. As leis são brandidas quando justificam as suas ideias, tal como o anátema da pestilência para a desinfecção social, com céleres divulgações dos deveres dos puros para que evitem contaminações, mas logo relativizadas ou mesmo iníquas, se não preenchem as imediatas necessidades dos acusadores/ defensores.


 


É triste, redutor e cansativo. E pouco sério. E pouco, muito, muito pouco.


 

03 outubro 2016

O SNS promove a igualdade

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Leonardo da Vinci


 


Por muito que queiramos os doentes não são todos iguais. Não por causa dos seus corpos, todos constituídos pelos mesmos compostos orgânicos, com mais ou menos equilíbrio hidroeletrolítico. Não por causa da alma, aquela consciência que não sabemos localizar de forma precisa e que caminha do coração para o cérebro, mas pelos motivos inerentes ao continente, ao país, à cidade onde se nasce, vive e morre, pelos percursos de vida das famílias mais longínquas ou mais chegadas, pelo percurso das próprias vidas, pela existência ou não de emprego.


 


Mas o que mais diferencia as pessoas, para além da sua naturalidade e da sua genealogia é o seu status sócio económico e cultural. Especificamente em Portugal não é indiferente ser pobre – e cada vez há mais pobres e cada vez é mais fácil e frequente cair na pobreza.


 


Se um doente pertencer a um estrato social e económico mais favorecido e se não tiver rapidamente acesso ao SNS, tem possibilidade de recorrer ao sector privado e aí contar com os recursos necessários e indicados ao seu caso. E até pelo facto de pagar os serviços exige e assume que tem o direito ao melhor pois está a comprá-lo. Se um doente pertencer a um estrato social e económico menos favorecido fica dependente dos serviços que o SNS lhe oferece. Portanto todas as ineficiências, incapacidades, atrasos e constrangimentos se reflectirão de imediato no seu atendimento, no seu tratamento, no seu prognóstico e na sua qualidade de vida. Ou seja, o SNS é a sua única opção.


 


Se deixarmos que o SNS se degrade ainda mais, se não acudirmos às carências várias, de recursos humanos e de equipamentos, se não aproximarmos os cuidados dos doentes, se falharmos na oferta pública do que melhor há à disposição de quem sofre, nunca lhes poderemos assegurar o direito à saúde. Estão inexoravelmente condenados a esperar que haja vagas, a esperar que haja médicos, a esperar pelas tomografias, pelas ressonâncias, pelas biopsias, pelos médicos de família, pelos especialistas, pela radioterapia e por tudo o mais que a medicina moderna tem para oferecer.


 


Os doentes não são todos iguais e o SNS é a única forma de tentar reduzir essas desigualdades. Todos os corpos e todas as almas são constituídos pela mesma matéria orgânica e inorgânica, que se desloca inconscientemente entre o coração e o cérebro. o serviço público de saúde é uma excelente demonstração do uso de ambos.


 

02 outubro 2016

A Cor Púrpura




 



Faz hoje 30 anos que me debulhei em lágrimas a ver A cor púrpura. A minha irmã sofria há 2 dias na maternidade e a criança nunca mais nascia. Eu, Interna de tenra idade, sem coragem nem personalidade para incomodar as Senhoras Doutoras de Obstetrícia, gente antipática e distante, que olhavam para mim como para uma mosca, chata e cansativa, entrava e saía com o coração cada vez mais apertado.



 



Estava muito calor. Nessa tarde finalmente decidiram-se pela cesariana. Arranjei forma de me manter junto às Neonatalogistas, as únicas criaturas que me olharam com simpatia, e vi um embrulho trazido a correr para a mesa de observação, em que se identificavam dois pesinhos brancos. A rapidez e a cara ansiosa das Neonatalogistas não pronunciavam nada de bom e eu nunca mais ouvia o choro da criança. Assisti à aspiração, às massagens daquele ínfimo ser, a contar os segundos e a saber o que era um Apgar de 0 ou de 5.



 



Não me lembro exactamente de quanto foi, mas senti que muita coisa poderia correr mal e que tínhamos muitos meses, senão anos, sem saber as sequelas dessa dificuldade em acordar para o mundo a gritar. No dia seguinte, depois de uma noite de grandes insónias e angústias, quando a fui visitar, passei pela minha irmã num corredor da enfermaria e nem a reconheci, de tal forma estava lenta, alquebrada, entorpecida.



 



Foi sempre uma criança mais despachada que todas as outras da família. Aprendeu a andar, a falar, a pensar muito bem e muito depressa. Ultrapassou todos os medos da mãe e da família com um sorriso despreocupado e decidido. Há 30 anos eu fundia-me com a minha irmã e sofria as dores de saber o quanto uns segundos podem significar no começo da vida de alguém. E esses 30 anos passaram depressa, e foram cheios de novidades, supresas e desafios, para mim, para a minha irmã e para aquele ser que é hoje uma linda e fantástica mulher.

 

A cor púrpura é um dos filmes da minha vida.

 

Da incomodidade

Sempre me surpreenderam as pessoas que declaram não se importar nada como o que pensam delas. Eu não sou assim. Importo-me com o que as pessoas pensam de mim, principalmente se são pessoas que prezo e/ ou me são afectivamente próximas.


 


Fiquei bastante incomodada com a polémica gerada pelo meu post sobre o último livro de José António Saraiva. Tenho algumas certezas, mas estas são cada vez em menor quantidade, sobre cada vez menos assuntos e cada vez mais incertas. As dúvidas sobre o que leio e o que ouço são crescentes, pois é frequente, ao aprofundar os assuntos tocados pelos títulos e frases assertivas que pululam pelo espaço público, encontrar motivos que me levem a concluir o exacto contrário daquilo que tinha sido a minha opinião na primeira abordagem. Por outro lado, não gosto de me envolver em polémicas em que se dizem coisas de uma dureza que, habitualmente, não se usa quando em presença do outro. A face inexpressiva do monitor desliga muitos dos filtros de auto-censura, pelas mais diversas razões. Além disso, talvez pela cautela e pela tentativa de ver o outro lado da questão (até por deformação profissional), arranjo sempre argumentos que podem justificar várias conclusões que muitas vezes são contraditórias.


 


Por isso, e porque fiquei com a sensação de não estar a ser compreendida ou, pior ainda, de não estar a ser justa, acabei por decidir voltar ao tema, após grande hesitação. A intimidação de que falava referia-se ao julgamento público violento de abjecção e nojo para quem tivesse a audácia de ler o livro. As palavras têm um poder que reconhecemos, racional e emocionalmente, pelo que ninguém gosta de se ver englobada no grupo dos abjectos. Mesmo que a intenção não seja essa, estas trocas de palavras intimidam e acabam por refrear quem discorda, que prefere não o assumir. A possibilidade de estar a dar visibilidade a um livro e a uma pessoa com quem não devemos perder tempo, foram outros aspectos que me levaram a ponderar não abordar de novo a questão.


 


Enviaram-me o dito livro por email e li-o. É um livro medíocre, mal escrito e totalmente desinteressante de uma criatura com idênticas características. O que mais me impressionou foi confrontar-me, mais uma vez, com a menoridade intelectual e a mediocridade das pessoas que ocuparam lugares de destaque, em áreas tão importantes como, neste caso, o jornalismo dito de referência. A ideia que este indivíduo provinciano, bacoco e deslumbrado tem de si mesmo é espantosa, ao elucidar os leitores que divulga histórias que contribuem para a História. Mas que pensará Saraiva que são contributos para a História? É quase anedótico se não fosse tão triste. No fundo o que ele mostrou, qual pavão sem penas, é que foi e é uma pessoa importantíssima porque privou com os ilustres deste País e porque lhes servia de confidente.


 


Os crimes de devassa de privacidade que lá estão são isso mesmo – crimes - e como tal devem ser tratados. O problema é que num País em que a Justiça é lenta e cara e em que os cidadãos sentem a impunidade como a norma, as vítimas ficam impotentes perante a chacota de quem adora e se alimenta destas notícias. Não se pode impedir nem regulamentar a indecência mas podemos não a propagar e reagir contra ela. No entanto só sabemos o que ela é se a conhecermos, é só a devemos combater da forma que, na nossa sociedade civilizada, se entende por combate – nos tribunais. A minha total solidariedade é, obviamente, para quem viu a sua privacidade devassada e que não desiste de lutar pelos seus direitos.


 


É muito fácil perorar sobre os princípios e os valores quando os problemas não nos atingem directamente. Confesso que não sei se a minha reacção teria sido esta caso fosse eu uma das visadas pelo Saraiva. Mas quero acreditar que sim.


 

01 outubro 2016

Qualquer uma

lee bul


Lee Bul


 


Uma qualquer janela que rasgue


inundando de mar o que surgir


uma qualquer onda que esmague


repetindo no olhar que se abrir


uma qualquer mão que afague


as pontes da casa que ruir.


 

Será que vai ser apenas o começo?

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Cavaco pagou metade do IMI que devia ter pago durante 15 anos


 

Das desigualdades nos direitos fiscais

Compreendo e comungo das críticas em relação ao facto de não ser lícito considerar criminosos fiscais todos os que tenham contas no banco com mais de €50.000.


 


Mas espanta-me que não tenha assistido a uma comoção tão grande de cada vez que se anunciam medidas de cruzamento de dados de todos os tipos e feitios para quem se habilita a receber qualquer apoio social, para ver se não está a ludibriar o Estado e todos os bons cidadãos pagadores de impostos.


 


Nesse caso vale (ou valia) tudo, até somar as remunerações da família inteira para ver se os magros rendimentos justificam o retirar de algum subsídio.


 

O drama, a tragédia, o horror...

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Depois de um ano a prever tragédias que ainda não ocorreram, as aves agoirentas tentam explorar todas as abundantes afirmações, declarações e opiniões do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que poderão indicar desaguisados com o governo.


 


Eis senão quando Marcelo veta um diploma. Aí está - a guerra estala, António Costa resvalará pela indignação dos portugueses que comungam de tudo o que o Presidente diz, pensa, sonha.


 


O drama, a tragédia, o horror... Toca a encher o espaço público de fotos e de indícios da tão almejada instabilidade política. O ridículo não mata, mas faz mossa.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...