Recebi um email que me encheu de alegria. Aos Corações na rua, a minha grande admiração pela iniciativa. Sinto-me agradecida e orgulhosa por ter participado, ainda que indirectamente, dessa jornada.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Recebi um email que me encheu de alegria. Aos Corações na rua, a minha grande admiração pela iniciativa. Sinto-me agradecida e orgulhosa por ter participado, ainda que indirectamente, dessa jornada.
Às vezes parece que estes dias formam uma espécie de mundo à parte, uma ponte sobre a vida em que apenas as coisas doces e confortáveis existem. Gostamos de nos sentir assim, sem que a terra seca, as cidades poluídas, a miséria, o crime e a solidão nos assombrem.
Natal não é esse estado de levitação. Natal é haver grupos de pessoas que estão junto da noite e da tristeza, varrendo as cinzas e soprando a pouca poeira de luz, iluminando alguns cantos abandonados.
E nós, dentro dos nossos quentes agasalhos de afectos, nem sempre nos lembramos desses esquecidos anjos cansados e terrenos, com olheiras, mãos e palavras que curam.
Na recta final para o Natal, finalizam-se os cabazes. Uma das ideias para os deste ano foi retirada de um blogue, que as tem bastante boas. Fudge (doce de chocolate). É muitíssimo fácil e, pela prova, muito bom:
A outra foi a concretização de uma experiência que já tardava - borrachões - são uma espécie de bolachas/ biscoitos, da região da Beira Baixa, que devem o seu nome à aguardente com que são feitos. Mas eu segui uma receita de uma familiar bastante longínqua, que permite usar jeropiga (ou vinho, em vez da aguardente). De facto ficaram uns biscoitos bastante bons, mas nada parecidos com os borrachões que há na terra da minha avó. Enfim, deve ser a inovação geracional.
Como não tive paciência para transformar toda a abóbora em compota, os meus cabazes, tal como o lifestyle da Margarida Rebelo Pinto, sofreram um downsizing. Pode ser que se componham um pouco com estas novas iguarias.
Quando desci do escadote com o último frasco de cascas em aguardente, não antevi que eram de pêra. Mais precisamente as laranjas e marmelos travestiram-se de pêra-rocha. Nada de espanto que a hora é de acabar as prendas. Mais um fim de tarde envolta em perfume dionisíaco, a cor amarelo esverdeada do licor de pêra, excelentíssima variação inusitada.
Já está engarrafado e rolhado, mas os rótulos estavam a faltar. Depois de uma noite de descanso, veio a inspiração, desta vez mais nacionalista que politiqueira:
É verdade que tenho feito todos os esforços para me manter afastada de notícias. Desligo o Crespo, mudo de canal mal vislumbro a Ana Lourenço, retiro o volume à Judite de Sousa e a todos os (poucos e sempre os mesmos) convidados das várias actualidades televisivas. Ainda vou ouvindo a TSF mas a RFM tem ganho audiência no meu gabinete.
Mas as (más) notícias impõem-se como o céu de chuva deste inverno. Os massacres nas escolas do EUA são daquelas coisas que ultrapassam a minha capacidade de entendimento. Não consigo perceber que patologia individual e colectiva é esta que multiplica os tiroteios, ceifando crianças e jovens, em nome de quê ou para quê. Já vi filmes e documentários que abordam este assunto, mas permaneço obtusa.
Por cá continuamos com a depressão generalizada causada por um governo de alienados, por um Presidente que se demitiu (e ainda não se/nos deu conta disso) e uma oposição irrelevante.
Portugal entristece, envelhece e lentifica. A média etária da população está acima dos 50 anos, pelo menos nas filas das caixas dos supermercados, onde o tempo de ensacar, procurar o dinheiro e contá-lo se multiplicou pela dezena, com os entorpecidos dedos catando moedas, os entorpecidos olhos perscrutando-lhes o valor, a enervada mente fazendo contas. Nas lojas deambulam olhos mais ou menos gulosos em dieta acelerada. Muito antes do downsizing da gente mediática, já o país encolheu e continua a encolher. Abundam os novos e os antigos pobres. Ontem mesmo ouvi uma história de uma miúda que anda 12 Km a pé (6 à ida e 6 à vinda) para ir à escola, não traz almoço e ninguém lho dá. As reunites que atacam tantos docentes poderiam servir para a resolução deste problema. Mas a moda da sociedade civil é só para peditórios e declamações piedosas, não é para o dia a dia da solidariedade.
Pois, esqueci-me que a caridade é mais amorosa.
Stefano di Giovanni
Quero dar ao meu amor
um fio do meu cabelo
ternura branca de dor
rugas fundas em novelo.
Minha alma estendida
umas mãos cheias de nada
o resto da minha vida
a seu lado ancorada.
A doçura da romã
quero dar ao meu amado
o respirar da manhã
rumor do campo acordado.
Quando chegar o Natal
com a penúria enfeitada
em poeira de cristal
serei a noite encantada.
E enquanto o tempo quiser
serão meus braços seu manto
sempre que o céu mantiver
o tom cinzento de pranto.
E enquanto o tempo poisar
no ombro do nosso amor
nos dias que irão faltar
o mundo será melhor.
Há que ser divulgar as boas práticas festivas: os licores deste ano resultam da maceração apurada de amoras silvestres, cascas de laranja, sementes e cascas de marmelo em aguardente vínica, desde há 1 ano. Ou seja, os resultantes licores de Amora e de Laranja e Marmelo seguiram a preceito os receituários que já deram provas:
Todos estes passos requerem animação e bom humor, para os quais as variadas provas de degustação contribuem enormemente, principalmente se houver restos das colheitas anteriores para comparar.
A habilidade está na adaptação às contrariedades. Grandes descobertas se fizeram por acaso, ou porque alguma experiência correu mal.
É sempre com esse espírito que enfrento os meus preparados. Na verdade, o doce de abóbora ficou com ponto a mais, descoberto quando a colher de pau se recusou a mover-se presa do dito doce. Por outro lado, a geleia de marmelo ficou com ponto a menos. Eis se não quando a minha mente imaginou de imediato uma conjunção de vontades entre o pétreo doce de abóbora e a mole geleia de marmelo.
Pois este fim-de-semana, como já estamos quase no Natal, reuniram-se os membros da Grande Cozinha Semanal, armados de paciência e criatividade. As prioridades estavam bem definidas: sem o doce e os licores nem Jesus nasce. Portanto agarrou-se na panela maior cá de casa e misturaram-se o doce com a geleia. Deixou-se ferver com um bocadinho de água e transformou-se em Doce de Abóbora em cama de Geleia de marmelo, na consistência perfeita.
Os licores foram um de laranja e marmelo e outro de amora, que já estão engarrafados. As numerosas degustações afiançam a delicadeza e doçura dos mesmos. Aí não houve surpresas.
Enfim, mais um fim-de-semana de exaustão.
Bonsai
Nem sempre sabemos distinguir as nítidas
superfícies a transparência das luzes o brilho
inamovível da memória. Nestas árduas fadigas
de hoje recuperamos a necessidade de sentir
na simples limpeza do olhar a oferta o conforto
do silêncio.
Com tanto atraso, já só sobrou quilo e meio de marmelos, depois de devidamente lavados, descascados e dessementados. Cozidos em jeropiga, transformados em puré e misturados com o mesmo peso em açúcar, assim se degustou a marmelada resultante, depois de fervilhar por meia horita no tacho, afanosamente mexido com a colher de pau, para não deixar queimar. Está vermelha escura, como convém, com uma textura granulosa e consistência suficiente para não babar o pão ou as bolachas (ou o queijo, ou simplesmente e só a ela própria).
As cascas e as sementes, já devidamente amolecidas durante horas em água a ferver, aguardam a filtração e ponto com açúcar (1l de líquido/1kg de açúcar), para a famosa geleia de marmelo.
A abóbora, ou deverei dizer as abóboras, espreitam o próximo feriado de 8 de Dezembro (que não sei se é feriado ou se já foi e nunca mais será, mas sei que é sábado). São enormes e prometem um fim-de-semana em cheio. Vou dar tratos à imaginação para inventar um doce de abóbora diferente para este ano.
Este é o tema a que não é possível fugir, neste Natal de 2012. Como sempre a Barbearia cá do bairro está atenta e disponível para angariar vontades e promover os debates necessários, em sede natalícia, entre tesouradas e aparadelas capilares.
Aqui vai o contributo deste Quadrado, que fornece bastão e o monograma, infelizmente em desuso.
Boa sorte e que se encontre a estrela guia.
Desta vez a romagem à terra dos avoengos resulta numa miscelânea de fazer inveja a qualquer MasterChef: marmelos, abóbora, receita de borrachões e pudim de pão.
Na verdade não tem paralelo, este meu apego por cozinhar, provavelmente uma forma de compensação pela férrea dieta cumprida. A quantidade de programas de culinária a que tenho assistido, seguido de um crescente interesse pelo laboratório doméstico, acompanham-me há mais de um ano. As experiências das épocas natalícias não são inéditas. Este ano Novembro chegou e inicia-se a faina.
Mas a vontade de inovar é imensa e a tendência para o disparate ainda maior. Por muito que queira, as variações de compota de marmelos, pelo menos nas minhas parcas aptidões de chef, estão praticamente esgotadas. Talvez me incline para a simples e vulgar marmelada, que espera um toque de criatividade, algures entre a mistura de outro ingrediente ou o granulado da mesma. Quanto às abóboras ou botelhas, razões de dores musculares e grandes cargas de chuva pelo peso e noites chuvosas em busca e transporte das ditas, também aguardam inspiração.
Os licores, que estão em pousio - cascas de laranja a destilar na aguardente desde o ano passado - ficarão melhor que nunca. Quanto aos borrachões, serão a novidade do Natal 2012.
Preparemos pois o Natal, que se afirma ainda mais tenebroso e difícil que o de 2011. O ambiente político também se prepara para a época, e os sinais vêm de todos os lados. Paulo Portas, no discurso parlamentar aquando da discussão e aprovação do orçamento para 2013, deu a ideia daquilo que poderemos esperar: mal seja promulgada a lei do orçamento, o governo terá todas as condições para cair. As vozes que se vão ouvindo a favor de uma convergência entre CDS, PSD e PS, compondo a preparação para a renegociação do memorando já com outro governo, com a unanimidade das opiniões a pressionarem Cavaco Silva para um governo tripartidário.
O problema são os atores políticos, como disse Maria de Lurdes Rodrigues. A começar pelo Presidente, passando pelos líderes do PSD, do CDS e do PS. O luto a envergar deve ser por este governo, por esta oposição e por este Presidente. Angela Merkel defende os interesses alemães mas em Portugal não sse defendem os interesses portuueses. E a Europa não existe enquanto um agrupamento de países que se interligam e defendem um interesse comum.
O Natal aí está. Para Belém convergem as esperanças de muitos crentes. Feliz ou infelizmente, conto-me entre os incréus.
Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...